A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 8 de 30

Páginas do PDF

A Casa do Saltimbanco

Capitulo VI

—Não, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor; é sem duvida porque o não conhecem.

Emquanto Natchès e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que partilhava com Karik, e a outra aos pés da cama de Praxedes, Adalberto lembrou-se que não tinha rezado a sua oração da noite, elle que conhecia Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que não ousou pôr-se de joelhos. No fundo do seu coração teve um grande enternecimento; todo o seu pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino protector que véla por nós, e, em vez de começar a sua oração pelas palavras do costume, o querido{62} pequeno apenas repetiu muito baixo, muito baixo, para só ser ouvido no Céo:

—Perdão, meu Deus! perdão por ter desobedecido!

Ah! como elle era desgraçado! Sósinho, separado da sua familia, sem saber o que fariam d'elle; tendo medo do homem brutal, da velha, de Karik, que tinha má apparencia, e do velho cão, que tinha os dentes enormes.

A noite adiantava-se; a fadiga e o desgosto fizeram-lhe fechar os olhos; adormeceu, e sonhou que Filippe, o cocheiro, lhe fazia dar a volta do parque de Valneige em tilbury, por ter tido muito juizo; que a sua mamã o tinha abraçado duas vezes, e que Rosinha lhe tinha concertado a redea do seu cavallo de balouço com um cordel novo; depois a scena mudava bruscamente; estava sentado a uma meza, bebia e tudo andava de roda; mas de repente seu pae vinha ter com elle! Como vêem, Adalberto, mesmo dormindo, tinha ainda esperança.{63}

 

CAPITULO VI