A Casa do Saltimbanco
Adalberto era obediente.
Nunca se viu jantar mais alegre! Estavam quinze á meza. Todos conversavam todos riam; que animação! que contentamento! Eugenio e Frederico tinham vindo passar dois dias em Valneige, por grande favor, em consequencia do feliz acontecimento que trouxera comsigo o socego, a saude e a alegria.
A velha Rosinha dizia que o seu querido loirinho tinha levado tudo isto nas algibeiras, mas, que apenas apparecêra, havia banido todo o mal e todos os aborrecimentos.
Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias; estava pallido{256} e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os espiritos e favoreciam as expansões.
Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á inquietação que então pesava sobre todos.
Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á meza.
Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:
—É talvez a morte que vem, e depois o céo.
Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.
A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida para sempre, e este sempre não podia durar muito. O peito delicado d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados tinham dito: «Sem esperança!»
E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a solidão! as agonias! a frieza!»{257}
A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do seu captiveiro:
—Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.
Quanto ao bom e gordo Natchès, roubado assim como Tilly, tudo n'elle, tanto no physico como no moral, affirmava a baixa origem que lhe attribuia Gella. Tinha ficado em casa do senhor Deschamps, não se entretendo senão na cosinha, extasiando-se diante d'uma caçarola ou d'um petisco. Riam da sua toleima, que o deixava desempenhar soffrivelmente certos trabalhos puramente materiaes. A sua docilidade servil fazia d'elle um instrumento commodo entre as mãos de Julião e de Sophia; foi-lhes dado por ajudante, acarretando agua, descascando legumes, varrendo o pateo, regando, penteando o cão. Fazia geralmente as coisas mais aborrecidas, dando-se por satisfeitissimo, entremeando o trabalho com algumas cambalhotas, e narrando as historias mais tolas que começavam sempre assim:
—Quando eu era palhaço...
Achava-se feliz. Que precisava este rapaz? Uma cama, de comer e bondade; achou tudo isso na casa branca, e recebia mais, a luz sufficiente aos espiritos grosseiros para servirem{258} o Senhor justo, que não pede contas ao homem, senão do pouco que lhe confiou.
Não tinham esquecido ninguem, mas era preciso um certo tempo para estudar a posição de cada um, e testemunhar o seu reconhecimento da maneira mais util.
Emfim o dia da partida chegou. Segundo o desejo de todos, encaminhando-se para o Rheno, deviam parar na casa branca e descansar na companhia dos amaveis hospedeiros de Adalberto.
Esta paragem encantava toda a gente. Combinou-se que os criados, que seguiam a familia, partiriam dois dias mais tarde, e aconselharam Rosinha a poupar-se ás fadigas d'uma grande viagem no começo do inverno; fez ouvidos de mercador, e, ainda que a volta de Adalberto fosse o momento escolhido por ella para ir á sua terra, achou que não podia ir sem o seu loirinho. Annuiram aos seus desejos, e começou então a fazer os seus arranjos. Não eram muitos; uma pequena mala, e tres toucas n'uma chapeleira velha.
—Não te esqueças do meu presente, gritava-lhe Adalberto, saltando de roda d'ella.
—Não tem perigo! Quero-lhe como ás meninas dos meus olhos; por isso o dependurei ao meu pescoço.
—Ao teu pescoço? Mostra-m'o...
A criança viu uma caixinha segura por uma fita ao pescoço de Rosinha; esta caixa continha{259} o botão e a nódoa de tinta que tinha trazido do exilio! Adalberto abraçou de todo o coração a sua velha governante.
Partiram alegremente todos cinco, porque Tilly ia tambem com os seus protectores respirar um ar benefico. Passadas algumas horas, pararam para jantar e esqueceram-se do tempo, como muitas vezes acontece.
A demora tinha sido grande; houve inquietação e incerteza; o senhor de Valneige, não achando o seu wagon, disse a seu filho:
—Subamos seja para onde for, e juntar-nos-hemos na proxima estação.
Adalberto subiu distrahido, ao acaso, e, por estonteamento, achou-se na terceira classe. Gritavam: vai partir! vai partir! Fechavam-se as portinhollas—iam partir. O pae lançou-se precipitadamente na carruagem onde seu filho estava, dizendo em voz baixa:
—Estamos aqui muito mal; mas é só por um quarto d'hora.
No fundo do wagon havia viajantes que pareciam fatigados; um, entre outros, dormitava. A sua colossal estatura, as suas feições accentuadas chamavam sobre elle a attenção.
Adalberto reparou n'elle... O senhor de Valneige viu o seu filho empallidecer.
—Que tens tu, perguntou-lhe.
—Nada.
—Sentes-te mal?
—Não, papá.{260}
O pae inquieto, fez em voz baixa algumas perguntas, e seu filho respondeu-lhe transido de medo:
—É o homem!
Houve um momento de horror na alma do senhor de Valneige.
Estava ali diante do carrasco do seu filho. O acaso entregava-o á justa vingança d'um pae, que podia fazel-o prender, julgar, condemnar; tinha testemunhas, provas: o botão, a nódoa de tinta, a fita doirada, as palavras escritas na adêga, a deposição de Baptista e da vendedora; Julião, Sophia, Josephina tudo lhe vinha á memoria, tudo o levava a proseguir; mas havia tambem na sua carteira uma carta da pobre Gella, que se fiava na sua palavra. É verdade que as suas previsões não se tinham realisado; mas tinha dado indicações em troca D'uma promessa. O senhor de Valneige olhou para este homem, e, tremendo sob o peso d'esta promessa sagrada, eterna, disse a Adalberto:
—Ó meu filho! lembra-te sempre, que a palavra de honra é um juramento, que um homem não pode violar debaixo de nenhum pretexto, e em nenhuma circumstancia.
Ao mesmo tempo o senhor de Valneige ainda convalescente fechou os olhos; chegou a sua vez de empallidecer; tornaram-se-lhe os beiços brancos, e Adalberto soltou um grito. O desmaio durou só um instante; as companheiras, de viagem abriram as vidraças para dar ar{261} ao doente. Todos olharam para elle e para seu filho.
Esta grande emoção passou. Na primeira estação o pae e o filho desceram.
O homem de ferro desceu tambem, e não tornou a subir.
Depois de se fallar detidamente d'este sombrio incidente no wagon onde ia a familia, chegaram á casa branca. Tudo em azafama! Faziam as camas, punham a meza etc. Não faltava movimento, nem alegria, e na cosinha mais uma fornalha acêza, porque Sophia não descansava.
Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de amizade.
Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a um dos seus netos.
Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa, variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!
Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de perfeito contentamento:
—Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer{262} habilidades nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!
Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram perfeitamente e acordaram bem dispostos.
No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.
A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para a criança.
—Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.
Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de tratar por tu o pequeno, e ajuntou:{263}
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O homem de ferro desceu tambem. (Pag. 261.)
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—Perdoe-me, senhor Adalberto, se ouso ainda dizer-lhe tu; é a ultima vez! Não nos veremos mais sobre a terra...
E Gella desatou a chorar. A senhora de Valneige respondeu:
—Não chores, minha filha, diz-me o coração que nos havemos de tornar a vêr; sê honrada, sê christã e Deus será comtigo. Não sei o que vai ser de ti; mas, visto que a tua enfermidade não te deixa d'aqui por diante seguir uma vida de saltimbanco, quero ajudar-te a trabalhar ou como costureira ou fundando-te um pequeno negocio. Acceita este dinheiro, que pagará a tua viagem e te permittirá começar qualquer coisa e esperar o ganho.
Ao mesmo tempo entregou a Gella um bilhete de quinhentos francos. A doente via este bilhete na sua mão e não podia acredital-o.
—Senhora, disse ella, confunde-me com tanta bondade!... Mas eu não posso acceitar este dinheiro. É verdade que esta somma me salvaria, que eu ganharia facilmente a minha vida em Lyão, ao pé de minha tia, e que meu pae, vendo-me começar um pequeno commercio, renunciaria, talvez, ao seu modo de vida, que presentemente o cansa; mas que lhe hei de eu dizer, quando elle me perguntar d'onde me vieram estes quinhentos francos? É preciso que elle não desconfie de cousa alguma.
—Responde-lhe que uma senhora te viu no hospital, se compadeceu da tua desgraça e{266} que te quer ajudar na tua laboriosa existencia.
—Mas se quizer saber o seu nome?
—Dize-lhe que me chamo... uma senhora de caridade.
—Oh! sim. A caridade em pessoa. Eu não sabia que n'este mundo se podia achar tanta bondade. Desde a minha infancia só conheci o mal. Agora, minha senhora, creio bem na caridade.
Gella beijou as mãos da sua protectora, e levantou para ella um olhar de reconhecimento.
De repente, por um sentimento profundo de gratidão e de piedade, a senhora de Valneige disse-lhe:
—Agradeço-te, Gella, o não teres nunca concorrido para a infelicidade de meu filho, e teres querido entregar-m'o. É preciso que haja entre nós uma ligação; vou dar-t'a, has de guardal-a toda a vida.
Cortou então um dos lindos e loiros caracoes de Adalberto, e deu-o áquella infeliz, que respondeu humildemente:
—Eu não sou digna d'elle! Oh! obrigada, obrigada, senhora!
Depois ficou como desfallecida pela surpreza e pelo enternecimento, e tendo chegado a hora da separação Gella, só com as suas recordações, escutou, com o coração despedaçado, os ultimos passos do pequeno Adalberto....
A senhora de Valneige depois de ter cumprido{267} esta piedosa digressão, voltou para a casa branca, e seu marido approvou tudo quanto ella tinha feito e dito.
Durante o dia passearam pelos arredores. O verdadeiro motivo d'este passeio foi ver as pessoas, que tinham tomado uma parte tão activa em libertar Adalberto.
Acharam na sua pequena casa, e sob os olhos de sua avó, a lindinha Josephina, cuja intrepidez tinha sido directamente a felicidade de todos. Recebeu um beijo da feliz mãe, e depois, como o senhor de Valneige tinha preparado todas as coisas, aconteceu que a avó, que não tinha outra herdeira senão Josephina, se achou proprietaria da sua residencia, que até ali tinha alugado.
Isto fez na terra um tão grande effeito, que desde então começaram a comprimental-a com toda a consideração, e o grande Lucas prometeu fazer dansar a pequena n'uma festa que ia haver, apezar d'ella ainda não ter tamanho para isso, e de ninguem olhar para ella como se não fosse já criança.
O socegado Baptista, que estas emoções espertaram um pouco, ficou relacionado com os habitantes de Valneige, e combinou-se que faria remessas de queijo e harenques, para o palacio, para a villa e para a quinta. Deram-lhe, além d'isto, um elixir admiravel para calmar as dôres de dentes, a que era sujeito, infelizmente!{268}
Quanto á tia Tourtebonne foi preciso desistir de a achar em casa. Chamaram-na á casa branca, e os felizes paes de Adalberto, assegurando á sua velhice uma pequena quantia, dispensaram-na de rodar mais tempo o seu carrinho.
O seu reconhecimento exprimiu-se calorosamente; entremeava estas expressões de vivas e fortes censuras dirigidas a si mesma, porque não podia perdoar o ter impensadamente dito ao conductor: «Partamos! partamos!» quando uma camponeza pallida e tremula tinha gritado: «És tu?»
Escusado é dizer que era realmente a senhora de Valneige, procurando mysteriosamente seu filho, e misturando-se na turba, graças ao seu disfarce. A boa da mercadora foi-se embora dizendo:
—Fui eu que demorei a sua felicidade, minha senhora, que pena!
Um momento depois, pensando na sua fortuna, ficou radiante e disse a Sophia:
—Espero que me hei de divertir, e passar o tempo sem trabalhar.
Que succedeu? A boa da mulher divertiu-se, é verdade; mas o habito tornara-se para ella uma segunda natureza, e reconheceu que o maior de todos os seus prazeres era o de rodar o seu carrinho. Não suppunha isto, mas comprehendeu-o pelo aborrecimento profundo que se apoderou d'ella, quando interrompeu o seu{269} activo viver. Por isso, como mulher sensata que era, tornou a ser vendedora e tudo se passou o melhor possivel. Evitava sómente a chuva, a neve e as ventanias; e, em vez de dar por esmola maçãs meias podres, dava das boas e das bonitas, o que para ella era um gozo.
D'este modo o resgate de Adalberto foi uma felicidade para toda a gente. Não deixaram a casa branca sem terem recompensado largamente os criados. Não sabiam o que haviam de dar a Natchès, que só apreciava o que comia; teve um grande cartuxo de bôlos.
A familia de Valneige, depois d'alguns mezes de viagem, passou o inverno no meiodia, e voltou na primavera para esperar os amigos em Valneige, porque tinham promettido que aquellas doces relações se estreitariam todos os annos por algumas semanas que passariam juntos. Que de vezes as duas mães se recordaram uma com a outra da época de miseria e de tristeza, que tinha atravessado a adorada criança! Que de vezes, como a senhora Deschamps tinha previsto, a sua amiga pegou na fita doirada, que guardava como testemunha dos dias de adversidade!
Adalberto cresceu na obediencia.
Hoje, que é um homem, obedece ainda; obedece ás ordens de Deus, ás leis do seu paiz, aos conselhos e aos desejos de seus paes. Um dia, quando for pae de familia, dirá como lhe diziam:{270}
«Obedecei, meus filhos.»
Dizemol-o a todos, jovens leitores. É bom, é util, é necessario obedecer. Possam todos aprendel-o no seio da sua familia, e não, como Adalberto, sob os golpes da desgraça!
FIM.
{271}