A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 22 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Capitulo XIV

Adalberto teria sido o decimo quarto.

 

Os passarinhos continuavam cantando nas alamedas perfumadas de Valneige; só elles não estavam tristes, porque não tinham conhecido Adalberto. Valneige era um sitio encantador. A natureza tinha revestido as cores variadas da primavera. A agua corria sempre, mas sem se precipitar. Um bello sol doirava os campos, e os cordeirinhos saltavam nos prados, contentes de vêr suas mães, e de respirar uma suave frescura.

As mil occupações de uma grande exploração punham em movimento todos da quinta. Iam, vinham, lavravam e semeavam; era ainda{184} o trabalho e a esperança da proxima colheita que preparavam de longe.

O anno devia ser bom, e por isso havia alegria; mas no palacio, que differença entre a alegria socegada de outrora e a vida anciosa e triste, que presentemente havia.

Aquelles dezoito mezes tinham mudado tudo; os rapazes estavam no collegio, e Camilla tornara-se uma senhora, fiel companheira de sua mãe. No fim das ferias da Paschoa achavam-se reunidos todos os membros da familia por alguns dias. Tinha-se feito a diligencia de tornar este tempo o mais agradavel possivel, a fim de Eugenio e Frederico gozarem á sua vontade da casa paterna e levarem d'ella uma grata recordação.

A senhora de Valneige sabia bem que as crianças não supportam a tristeza; que na sua idade o espirito é muito inconstante e o coração muito pouco formado, para não necessitarem uma grande distracção.

Tinha-se pois occupado em lhes proporcionar todos os divertimentos, que podem haver no campo, como passeios a pé e de carruagem, jantares sobre a relva etc. Tinham installado um tiro no parque para se exercitarem, e era uma especie de concurso, porque havia um premio. A este premio juntava-se o encanto d'um grande mysterio.

Ninguem, excepto a senhora de Valneige, tinha visto o objecto em questão; não se sabia{185} o nome nem a forma d'elle e passava-se o tempo a dizer:

—Mas o que será?...

O senhor de Valneige admirava a coragem de sua mulher, que fingia muitas vezes haver-se esquecido, para que os estudantes podessem gozar as ferias sem o menor cuidado. Não que elle tivesse menos boas intenções do que a meiga e paciente Adilia; mas desde a desapparição de seu filho, a sua debil saude paralysava-lhe os esforços, e bem contra a sua vontade a inquietação matava-o. Tinha escripto uma grande quantidade de cartas, feito numerosas viagens; nada o tirava d'uma duvida mortal. Cahindo n'uma especie de marasmo, fallava pouco, gostava de estar só, e nunca pronunciava o querido nome de Adalberto. Os outros, respeitando a sua dôr concentrada, evitavam tambem pronunciar este nome, excepto a velha Rosinha, que não se podia conter e que fallava quanto podia do seu muito querido pequeno. Mesmo quando estava só, a boa mulher murmurava, continuando a fazer meia, que parecia não acabar nunca:

—E pensar que se aquelle feio rapaz tivesse obedecido nada disto teria succedido! Uma criança não conhece o perigo; é a obediencia que o livra de todos os males.

Em quanto os corações dedicados ao exilado soffriam d'estes tormentos, as ferias ião andando o seu caminho. Nada as fazia parar;{186} ainda mais dois dias e era preciso que Frederico e Eugenio entrassem para o collegio. Apezar de fallarem pouco n'isso, não deixavam de pensar muito; não porque temessem o estudo como rapazes preguiçosos, que querem passar o tempo sem fazer nada; pelo contrario, queriam ser homens e entregavam-se de boa vontade aos trabalhos intellectuaes, que a sociedade exige d'aquelles que a hão de governar um dia. Sentiam tambem quanto é vantajosa a convivencia e a sem ceremonia das relações, que estabelecem entre camaradas a semelhança das idades e a vida em commum. Emfim consolavam-se dos aborrecimentos do collegio pelas brincadeiras ás horas do recreio, cujos encantos são bem conhecidos, apezar das nodoas negras que em geral se seguem.

Só dois dias! Era preciso aproveital-os. Estavam mais vezes ao pé de sua extremosa mãe, olhavam mais para ella para levarem a sua imagem bem gravada n'essa memoria do coração, que acompanha nos estudos as crianças affectuosas.

—Vejamos, disse a senhora de Valneige ao almoço, chegou o momento de conferir ao vencedor o premio mysterioso.

—Que felicidade! exclamavam os pequenos, e Camilla tambem, por amor fraternal.

—Não quero esperar pelo ultimo dia. Ainda que saibam partir de bom humor como rapazes de juizo, conheço que o coração deve{187} estar muito opprimido para gozar francamente de qualquer coisa.

—Tem muita razão, minha querida mamã. E Frederico e Eugenio abraçavam sua mãe, que, vendo-se assim presa, disse com o seu mais amavel sorriso:

—É ámanhã ao jantar, á sobremeza que eu hei de dar os premios.

—Como, os premios!

—Sim, os premios. Ambos luctaram admiravelmente e com igual destreza. O papá fez a conta dos tiros; um de vocês tem vantagem, mas o outro segue-o de tão perto, que, na verdade, não posso deixal-os partir sem lhes dar um testemunho honroso. Terão, pois, um primeiro premio, e um segundo premio, alguns condiscipulos, um bom jantar e vinho de Champagne!...

Ao ouvirem isto romperam em palmas e gritos de alegria. Uma festa em Valneige! Havia dezoito mezes era a primeira vez que Frederico e Eugenio viam preparar um divertimento, que se parecesse com os que havia d'antes. Divertiam-se, mas sempre uns com os outros.

D'esta vez tratava-se de convites, que queria dizer tres amigos da visinhança: Paulo, Eduardo e Christiano. Estes tres eram os mais intimos, e eram optimos rapazes! Riam muito, o que é uma grande coisa! Estes sujeitinhos só comprehendiam perfeitamente uma phrase que nos{188} vem dos antigos: «para ámanhã os negocios sérios.»

Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a palavra grande queria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o coração nas mãos.

No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano. Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha. Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque, sendo Frederico{189}

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{191} o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tres senhores dentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder impedir que fossem todos para o fundo.

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Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)

Estes divertimentos, interrompidos só por um bom luncheon, duraram até ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.

Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção. Eduardo exclamou de repente:

—Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com jantares de treze:

—Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo rindo.

O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.

—Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?

—É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que, entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte{192} do Justo por excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda, que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz effectivamente mais barulho do que mal.

Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que accrescentou com meiguice.

—Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem sequer notaste o numero treze.

—Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.

—E porque, dize?

A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre,{193} perturbou-se; arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido, como, que lhe escapou esta resposta:

—Porque elle teria sido o decimo quarto!

Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.

Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se, abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis: Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja relojoeiros!{194}

Quando Frederico acabou de vêr o relogio e de o agradecer á sua mamã, tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava já achando os preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio um porte-monaie bem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio animadissimo dispôz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, tão vivas são as emoções dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia, e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.

Todos partilharam sinceramente a alegria das crianças, e até seu pae sahiu da seriedade em que tinha cahido. De repente, e quando uma conversação animada demorava á meza tão intima sociedade, eis que a velha Rosinha se precipita na sala do jantar, levada por um pensamento que lhe faz esquecer todas as ceremonias.

—Desculpe-me, senhor, disse ella vivamente, o carteiro veio ha pouco e deixou para o senhor uma carta que pôz sobre o buffete n'um cantinho, entre o candieiro e a rolha do frasco da conserva. Parece que bebeu de mais, o que é bem ridiculo para um carteiro! Tem uma lettra tão exquisita, a carta. Não será isto d'alguem que nos dê noticias do pequenino?

O senhor de Valneige, muito impressionado pela perturbação da boa velha, tirou-lhe das mãos a carta mal dobrada, escripta em papel ordinario com uma especie de tinta vermelha{195} apenas legivel, sem ordem, nem orthographia.