A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 7/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

— Está claro — disse Blondet — que poderíamos dizer e provar à Europa

que vossa excelência vomitou uma serpente esta noite, que ela esteve a

ponto de morder a srta. Túlia, a mais linda de nossas bailarinas, e sobre isso

tecer comentários sobre Eva, a Bíblia, o primeiro e o último pecado. Mas

tranquilize-se, o senhor é nosso hóspede.

— Seria divertido — disse Finot.

— Faríamos imprimir dissertações científicas sobre todas as serpentes

encontradas no coração e no corpo humano para chegar ao corpo

diplomático — disse Lousteau.

— Poderíamos até mostrar uma serpente qualquer neste frasco de

cerejas em aguardente — disse Vernou.

— Os senhores mesmos acabariam por acreditar — disse Vignon ao

diplomata.

— Senhores, não levantem suas garras adormecidas — pediu o duque de

Rhétoré.

— A influência e o poder do jornal estão apenas em sua aurora — disse

Finot. — O jornalismo está na infância, há de crescer. Tudo, daqui a dez anos, há de depender da publicidade. O pensamento tudo iluminará, e ele...

— Há de tudo crestar — interrompeu Blondet.

— Eis aí uma frase — disse Cláudio Vignon.

— Fará reis — continuou Lousteau.

— Desfará monarquias — disse o diplomata.

— Por isso — disse Blondet —, se a imprensa não existisse, seria preciso

não a inventar; mas existe, dela vivemos.

— Dela os senhores morrerão — disse o diplomata. — Não percebem que

a superioridade das massas, admitindo-se que as esclareçam, há de tornar a

grandeza do indivíduo mais difícil? que, semeando o raciocínio no coração

das classes baixas, colherão a revolta, e que hão de ser as primeiras vítimas

dela? Que é que se quebra em Paris quando há uma arruaça?

— Os lampiões — respondeu Nathan —; mas somos muito modestos para

ter medo; seremos apenas rachados.

— Os senhores são um povo inteligente demais para permitir que um

governo, qualquer que seja, se possa desenvolver — continuou o ministro. —

Não fosse isso, recomeçariam, com a pena, a conquista da Europa, que sua

espada não soube guardar.

— Os jornais são um mal — disse Cláudio Vignon. — Poder-se-ia utilizar

esse mal, mas o governo quer combatê-lo. Haverá luta. Quem sucumbirá? Eis

o problema.

— O governo — disse Blondet —; tenho cansado de gritar isso. Na

França, o espírito é mais forte do que tudo, e os jornais possuem mais do que

o espírito de todos os homens inteligentes: têm a hipocrisia de Tartufo.[262]

— Blondet, Blondet — atalhou Finot —, vais longe demais; olha que há

assinantes aqui.

— Tu és proprietário de um desses entrepostos de veneno, deves ter

medo; mas eu, eu me rio de todas essas barracas de feira, embora delas viva.

— Blondet tem razão — disse Cláudio Vignon. — O jornal, em vez de ser

um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos, e de um meio passou a

ser um negócio. E, como todos os negócios, não tem fé nem lei. Todo jornal é,

como disse Blondet, uma loja onde se vendem ao público palavras da cor que

ele deseja. Se houvesse um jornal dos corcundas, haveria de provar noite e

dia a beleza, a bondade, a necessidade das corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Desse modo, todos os jornais

serão, dentro de algum tempo, covardes, hipócritas, infames, mentirosos,

assassinos. Matarão as ideias, os sistemas, os homens, e, por isso mesmo, hão

de tornar-se florescentes. Terão a vantagem de todos os seres pensantes: o

mal será feito sem que ninguém seja o culpado. Eu serei, eu, Vignon, vocês

serão, tu Lousteau, tu Blondet, tu Finot, Aristides, Platões, Catões, homens

de Plutarco; seremos todos inocentes, poderemos lavar-nos as mãos de toda

infâmia. Napoleão explicou a causa desse fenômeno moral, ou imoral, como

quiserem, numa frase sublime que lhe foi inspirada pelos seus estudos sobre

a Convenção: “Os crimes coletivos não comprometem ninguém”. O jornal

pode permitir-se o procedimento mais atroz, ninguém se julga pessoalmente

conspurcado com isso.

— Mas o poder há de criar leis repressivas — disse Du Bruel —; ele as

prepara.

— Bah! Que pode a lei contra o espírito francês, o mais sutil dos

dissolventes? — perguntou Nathan.

— As ideias não podem ser neutralizadas senão por meio de ideias —

continuou Vignon. — O terror e o despotismo podem apenas abafar o gênio

francês, cuja língua se presta admiravelmente à alusão, ao duplo sentido.

Quanto mais repressiva for a lei, tanto mais há de resplandecer o espírito,

como o vapor na válvula de segurança de uma máquina. Assim, o rei faz

bem; se o jornal for contra ele, terá sido o ministro quem tudo fez,

reciprocamente. Se o jornal inventa uma calúnia infame, foi alguém que lha

sussurrou. Com o indivíduo que se queixa, ficará quite pedindo desculpas

pela grande liberdade. Se for chamado aos tribunais, queixar-se-á de que não

lhe foi pedida retificação alguma. Vá, porém, alguém pedi-la, e ele há de

recusá-la rindo; chamará seu crime de bagatela. Enfim, achincalhará a

vítima quando esta triunfar. Se for punido, se tiver de pagar pesada multa,

há de assinalar o queixoso vencedor como a um inimigo da liberdade, do país

e das luzes. Dirá que o senhor fulano é um ladrão, ao explicar que é o mais

honesto dos homens do reino. Desse modo, seus crimes são bagatelas! Seus

agressores, uns monstros! E pode, ao fim de algum tempo, fazer acreditar

tudo o que quiser às pessoas que o leem todos os dias. Depois, nada que o

desgoste será patriótico, e ele não errará jamais. Servir-se-á da religião contra

a religião, e da Carta[263] contra o rei. Ridicularizará a magistratura quando

a magistratura o descontentar, e há de louvá-la quando servir às paixões

populares. Para conseguir assinantes, há de inventar as fábulas mais

enternecedoras, pavonear-se-á como Bobèche.[264] O jornal serviria o

próprio pai cru, sem mais tempero que o sal de seus gracejos, de preferência

a deixar de interessar ou divertir seu público. Será o ator pondo na urna as

cinzas do filho, para chorar com mais verdade; a amante tudo sacrificando

ao amigo.

— É, enfim, o povo in-fólio! — exclamou Blondet interrompendo Vignon.

— O povo hipócrita e sem generosidade — continuou Vignon —, ele há

de banir o talento de seu seio, como Atenas baniu Aristides. Ainda haveremos

de ver os jornais, dirigidos a princípio por homens de honra, caírem mais

tarde sob o governo dos medíocres que tiverem a paciência e a flexibilidade

da goma elástica, que faltam aos belos talentos; ou aos especieiros que

tiverem dinheiro para comprar penas. Já estamos vendo dessas coisas! Mas

dentro de dez anos qualquer garoto recém-saído do colégio há de se julgar

um grande homem; subirá à coluna de um jornal para esbofetear seus

predecessores, aos quais há de puxar pelos pés para lhes obter o lugar.

Napoleão teve muita razão em amordaçar a imprensa! Eu apostaria que, sob

um governo criado pelas folhas da oposição, elas haveriam de atacá-lo

ferozmente com as mesmas razões e com os mesmos artigos que hoje se

escrevem contra o do rei, no dia em que esse mesmo governo lhes recusasse o

que quer que fosse. Quanto mais concessões se fizerem aos jornalistas, mais

se hão de tornar exigentes os jornais. Os jornalistas que tiverem triunfado

serão substituídos por outros esfaimados e pobres. A chaga é incurável, será

cada vez mais maligna, cada vez mais insolente; e, quanto maior for o mal,

mais há de ser tolerado, até o dia em que a confusão se fará nos jornais, pela

sua abundância, como na Babilônia. Todos nós que aqui estamos sabemos

que em ingratidão os jornais irão além dos reis, e além do mais sujo comércio

em especulação e em cálculo; que hão de devorar nossas inteligências

vendendo-lhes todas as manhãs o seu fósforo cerebral; mas haveremos todos

de continuar a neles escrever, como a pessoa que explora uma mina de

mercúrio sabendo que ali há de morrer. Eis ali, ao lado de Corália, um moço...

como se chama ele? Luciano! É belo, é poeta e, o que é melhor para ele, homem de espírito. Pois bem! Há de entrar em qualquer um desses lugares

suspeitos do pensamento chamados jornais, ali há de jogar suas mais belas

ideias, ali há de dessecar o cérebro, ali há de corromper a alma, ali há de

cometer essas covardias anônimas que, na guerra das ideias, substituem os

estratagemas, as pilhagens, os incêndios, as abordagens na guerra dos

condottieri. E, quando houver ele, como outros mil, malbaratado um belo

talento em favor dos acionistas, esses negociantes de veneno hão de deixá-lo

morrer de fome, se tiver sede, e de sede, se tiver fome.

— Obrigado — disse Finot.

— Mas, meu Deus — continuou Cláudio Vignon —, eu sabia disso, estou

nas galés e a chegada de um novo forçado me dá prazer. Eu e Blondet somos

mais fortes que os senhores fulano e beltrano, que especulam com nosso

talento, e no entanto seremos sempre explorados por eles. Possuímos coração

sob a nossa inteligência, faltam-nos as ferozes qualidades do explorador.

Somos preguiçosos, contemplativos, meditabundos, gostamos de julgar: hão

de beber o nosso cérebro e acusar-nos ainda de mau procedimento!

— Pensei que seriam mais divertidos — queixou-se Florina.

— Florina tem razão — disse Blondet. — Deixemos a cura dos males

públicos a esses charlatães que são os homens de Estado. Como diz Charlet:

[265] “Cuspir no prato? Jamais!”.

— Sabem o que Vignon me faz lembrar? — perguntou Lousteau

mostrando Luciano. — Uma dessas gordas mulheres da Rue du Pélican, que

dissesse a um colegial: “Meu pequeno, és muito criança ainda para vir

aqui...”.

Esta tirada fez rir, mas agradou Corália. Os negociantes bebiam e

comiam, escutando.

— Que nação é esta onde se encontra tanto bem e tanto mal?! — disse o

ministro ao duque de Rhétoré. — Os senhores — continuou — são uns

pródigos que não se podem arruinar.

E assim, por uma bênção do acaso, nenhum aviso faltou a Luciano sobre

o declive do precipício onde deveria tombar. D’Arthez havia posto o poeta

na nobre estrada do trabalho, acordando nele o sentimento sob o qual os

obstáculos desaparecem. O próprio Lousteau havia tentado afastá-lo, por

um pensamento egoísta, pintando-lhe o jornalismo e a literatura em suas cores verdadeiras. Luciano não quisera acreditar em tanta corrupção

escondida; mas ouvia, afinal, jornalistas gritando seu mal, via-os à obra,

rasgando o ventre de sua nutriz para predizer o futuro.[266] Havia visto as

coisas como elas realmente são, durante aquela ceia. Mas, em vez de se sentir

tomado de horror à vista do coração mesmo daquela corrupção parisiense

tão bem qualificada por Blücher, gozava com embriaguez aquela sociedade

inteligente. Achava superiores aqueles homens extraordinários, metidos na

armadura damasquinada de seus vícios e sob o brilhante capacete de sua

análise fria, aos homens graves e sérios do cenáculo. Depois, saboreava as

primeiras delícias da riqueza; estava sob o encantamento do luxo, sob o

império da boa mesa; seus instintos caprichosos despertavam. Bebia pela

primeira vez vinhos finos, travava conhecimento com as esquisitas iguarias

da alta cozinha; via um ministro, um duque e sua bailarina, emparelhados

aos jornalistas, admirando o seu poder atroz. Sentiu tremendo prurido de

dominar esse mundo de reis; sentia-se com forças para os vencer. E havia,

enfim, essa Corália que ele acabava de tornar tão feliz com algumas frases.

Examinando-a à luz das velas do festim, através da fumaça dos pratos e do

nevoeiro da embriaguez, ela lhe parecia sublime, tanto o amor a tornava

bela! Essa rapariga era, aliás, a mais bonita, a mais bela atriz de Paris.

O cenáculo, esse céu da inteligência nobre, teve de sucumbir sob tão

completa tentação. A vaidade peculiar aos escritores acabava de ser

acariciada em Luciano por conhecedores; ele havia sido elogiado por seus

futuros rivais. O êxito de seu artigo e a conquista de Corália eram dois

triunfos capazes de revirar uma cabeça menos jovem que a sua. Durante a

discussão, toda a gente havia comido notavelmente bem, bebido

superiormente. Lousteau, vizinho de Camusot, derramou-lhe kirsch no

vinho por duas ou três vezes, sem que pessoa alguma prestasse atenção a

isso, e lhe estimulou o amor-próprio para levá-lo a beber. A manobra foi tão

bem conduzida que o negociante nada percebeu, ele que se acreditava tão

malicioso, no seu gênero, quanto os jornalistas.

Os gracejos apimentados começaram na ocasião em que circularam as

guloseimas e os vinhos da sobremesa. O diplomata, como homem de espírito,

fez um sinal ao duque e à bailarina logo que ouviu ressoarem os disparates

que anunciaram nesses homens inteligentes as cenas grotescas pelas quais findam as orgias, e desapareceram os três. Quando Camusot perdeu

completamente a cabeça, Corália e Luciano, que durante toda a ceia se

haviam comportado como namorados aos quinze anos, fugiram escada

abaixo e se meteram num fiacre. Como Camusot estivesse debaixo da mesa,

Matifat pensou que ele houvesse saído em companhia da atriz. Deixou seus

hóspedes fumando, bebendo, rindo e discutindo e seguiu Florina quando

esta se foi deitar.

O dia surpreendeu os combatentes, ou antes Blondet, bebedor intrépido,

o único que ainda podia falar e que propôs aos adormecidos um brinde à

aurora dos dedos de rosa.

 

XIX – UMA CASA DE ATRIZ

 

Luciano não tinha o hábito das orgias parisienses; conservava ainda lucidez

perfeita ao descer as escadas, mas o ar livre fê-lo sentir sua embriaguez, que

foi hedionda. Corália e a criada de quarto foram obrigadas a amparar o poeta

até o primeiro andar da bela casa da Rue de Vendôme, onde morava a atriz.

Na escada, Luciano quase desmaiou, e mostrou-se ignobilmente indisposto.

— Depressa, Berenice — gritou Corália —, um chá! Faze um chá!

— Isto não é nada, é o ar — dizia Luciano. — E, depois, eu nunca havia

bebido tanto.

— Pobrezinho, é inocente como um cordeiro! — disse Berenice, gorda

normanda, tão feia quanto Corália era linda.

Luciano foi posto, afinal, sem o saber, na cama de Corália.

Ajudada por Berenice, a atriz havia desvestido, com o cuidado e o amor

de uma mãe pelo filho pequenino, o seu poeta, que dizia sempre:

— Não é nada! É o ar. Obrigado, mamãe.

— Como ele diz bem “mamãe”! — exclamou Corália, beijando-lhe o

cabelo.

— Que prazer amar um anjo assim, senhorita. E onde o pescou? Eu não

acreditava que pudesse existir homem tão bonito quanto a patroa é bela —

disse Berenice.

Luciano queria dormir, não sabia onde estava e nada via. Corália o fez

beber várias taças de chá e depois deixou que dormisse.

— A porteira ou alguma outra pessoa não nos terá visto? — perguntou

Corália.

— Não, eu a esperava.

— Vitória de nada sabe?

— Só faltava! — disse Berenice.

Dez horas depois, lá pelo meio-dia, Luciano acordou, sob os olhos de

Corália, que velava o seu sono. E ele compreendeu aquilo, o poeta! A atriz

trazia ainda o belo vestido abominavelmente manchado e do qual iria fazer

uma relíquia. Luciano reconheceu o devotamento, as finuras do amor que

queria sua recompensa: olhou para Corália. Corália num instante estava

despida e deslizou como uma cobra para junto dele. Às cinco horas o poeta

dormia embalado por divinas voluptuosidades. Havia entrevisto o quarto da

atriz, uma arrebatadora criação do luxo, todo branco e rosa, um mundo de

maravilhas e de graciosos requintes que ultrapassava tudo o que já havia

admirado em casa de Florina. Corália estava de pé. Para representar seu

papel de andaluza, deveria estar no teatro às sete horas. Havia contemplado

o seu poeta adormecido no prazer, havia-se embriagado sem se poder saciar

desse nobre amor que confundia os sentidos com o coração e o coração com

os sentidos para simultaneamente os exaltar. Essa divinização, que permite

ser dois aqui na terra para sentir e um só no céu para amar, era a sua

absolvição. A quem, aliás, a beleza sobre-humana de Luciano não serviria de

escusa? Ajoelhada ante o leito, feliz pelo amor em si mesmo, a atriz se sentia

santificada.

Essas delícias foram perturbadas por Berenice.

— Camusot está aí, e sabe que a senhora está aqui! — exclamou ela.

Luciano levantou-se, pensando com inata generosidade em não

comprometer Corália. Berenice levantou uma cortina. Luciano entrou num

delicioso quarto de vestir, para onde Berenice e sua patroa levaram com

incrível presteza as roupas de Luciano. Mal o negociante aparecera, as botas

do poeta feriram o olhar de Corália. Berenice havia-as colocado diante do

fogo para aquecê-las, depois de as ter lustrado às escondidas. Tanto a criada

como a patroa haviam esquecido as botas acusadoras. Berenice saiu depois

de haver trocado com sua patroa um olhar de inquietação. Corália estendeu-

se no sofá e disse a Camusot que se sentasse numa “gôndola” à sua frente. O honrado homem, que adorava Corália, olhava para as botas e não ousava

levantar os olhos para a amante.

“Devo acaso dar o cavaco por causa desse par de botas e deixar Corália?

Seria zangar-me por pouca coisa. Há botas por toda parte. Aquelas ali

estariam mais bem colocadas nas prateleiras de um sapateiro ou nos

bulevares a passear nas pernas de um homem. Entretanto, aqui, sem pernas,

elas dizem várias coisas contrárias à fidelidade. Tenho cinquenta anos, é

verdade; devo ser tão cego como o amor.”

Esse covarde monólogo não tinha escusa. O par de botas não era dessas

botas que se usam hoje e que até certo ponto um homem distraído poderia

não ver; era das que a moda de então ordenava que se usassem: um par de

botas inteiras, muito elegantes, com borlas, que reluziam sobre as calças

colantes, quase sempre de cor clara, e onde se refletiam os objetos como num

espelho. Por isso, as botas feriam os olhos do honesto negociante de sedas, e,

para dizer tudo, feriam-lhe também o coração.

— Que tem? — perguntou-lhe Corália.

— Nada — respondeu ele.

— Toque a campainha — pediu Corália, sorrindo da covardia de

Camusot. — Berenice — disse ela à normanda, quando esta entrou —,

arranje-me logo abotoadores para eu calçar outra vez essas malditas botas.

Não esqueça de os levar esta noite ao meu camarim.

— Como?... Suas botas?... — disse Camusot, respirando mais à vontade.

— Eh! que é que você pensava então? — perguntou ela com ar

arrogante. — Bobalhão, não vai acreditar... Oh! ele acreditaria! — disse ela a

Berenice. — Faço um papel de homem na peça de Fulano, e nunca me

havia vestido de homem. O sapateiro do teatro trouxe-me essas botas aí para

ensaiar a andar, enquanto espero o par para o qual me tomou as medidas.

Ele mas calçou, porém me fizeram sofrer tanto que as tirei. E, no entanto, é

preciso que as torne a calçar.

— Não as calce mais se elas a incomodam — disse Camusot, a quem as

botas tanto haviam incomodado.

— Seria melhor — disse Berenice — se, em vez de se martirizar como

ainda há pouco... ela chorava, meu senhor!... e, se eu fosse homem, nunca

uma mulher que eu amasse choraria!... seria melhor se as usasse de

marroquim bem delicado. Mas a administração é tão ladra! Senhor, deveria ir

encomendá-las...

— Sim, sim — disse o negociante. — Vai levantar-se? — perguntou a

Corália.

— Daqui a um momento; só vim para casa às seis horas, depois de o ter

procurado por toda parte. Você me fez ficar com o fiacre durante sete horas.

E assim é que me trata, esquecendo-me por garrafas! Devo cuidar-me, eu

que vou representar agora todas as noites, enquanto O alcaide der dinheiro.

Não tenho vontade de desmerecer o artigo daquele rapaz!

— Como é belo aquele menino! — disse Camusot.

— Acha? Não gosto de homens assim, eles se parecem muito com uma

mulher; e, depois, não sabem amar como vocês, velhas bestas do comércio.

Vocês se aborrecem tanto!

— O senhor janta com a patroa? — perguntou Berenice.

— Não. Tenho a boca pastosa.

— Você ficou lindamente puf, ontem. Ah! Papai Camusot, antes de

tudo: não gosto dos homens que bebem...

— Farás um presente a esse moço — disse o negociante.

— Ah! Sim, prefiro pagá-los desse modo a fazer o que faz Florina. Vamos,

raça ruim que a gente ama, vá-se embora ou então me dê uma carruagem,

para que eu não perca mais tempo.

— Há de tê-la amanhã para jantar com o seu diretor no Rocher de

Cancale. Não representarão domingo a nova peça.

— Venha, vou jantar — disse Corália, levando Camusot.

Uma hora depois, Luciano foi libertado por Berenice, companheira de

infância de Corália, criatura tão sutil, tão fina de espírito quanto pesada de

corpo.

— Fique aqui, Corália voltará sozinha; pretende até mandar embora

Camusot, se ele o incomoda — disse Berenice a Luciano. — Mas, querido

filho do seu coração, o senhor se parece demais com um anjo para ter a

coragem de arruiná-la. Ela mo disse; está decidida a tudo abandonar, a sair

deste paraíso para ir viver na sua mansarda. Oh! Os ciumentos, os invejosos

vieram logo explicar que o senhor não tinha eira nem beira, e que vivia no

Quartier Latin! Eu o seguiria, pode estar certo, cuidaria de sua casa. Mas

acabo de consolar a pobre criança. Não é verdade, senhor, que tem bastante

inteligência para não cometer uma asneira assim? Ah! O senhor há de ver que o outro ricaço não possui mais que o cadáver e que o senhor é que é o

querido, o bem-amado, a divindade à qual se abandona a alma. Se soubesse

como Corália é graciosa quando eu a faço repetir os papéis! Que amor de

criança! Bem merecia que Deus lhe enviasse um de seus anjos; ela estava

enfadada com a vida. Foi tão infeliz com a mãe, que lhe batia e que a

vendeu! É verdade, meu senhor, uma mãe! A própria filha! Se eu tivesse

uma filha, haveria de servi-la como faço com a minha pequena Corália, de

quem fiz minha filha. São estas as primeiras horas felizes que a vejo passar, a

primeira vez que é realmente aplaudida. Parece que, à vista do que o senhor

escreveu, organizaram uma formidável claque para a segunda

representação. Enquanto o senhor dormia, Braulard veio trabalhar com ela.

— Quem? Braulard? — perguntou Luciano, a quem esse nome não

parecia desconhecido.

— É o chefe da claque; veio combinar com ela as passagens da

representação em que há de ser aplaudida. Apesar de se dizer sua amiga,

Florina poderia querer pregar-lhe uma peça e tomar tudo para si. Todo o

bulevar está em agitação por causa do seu artigo. Que leito preparado para

os amores de um príncipe!... — disse ela, pondo sobre a cama uma coberta

para os pés, toda guarnecida de rendas.

Acendeu depois as velas, e, à sua luz, Luciano, aturdido, acreditou-se

deveras num palácio do Gabinete das Fadas.[267] Os mais ricos estofos do

Casulo de Ouro haviam sido escolhidos por Camusot para as tapeçarias e as

cortinas das janelas. O poeta andava sobre um tapete real. O jacarandá

captava nos entalhes de suas esculturas reflexos de luzes, que neles

cintilavam. A lareira, de mármore branco, resplandecia com os mais caros

bibelôs. A colcha era de pluma de cisne debruada de marta. Chinelinhas de

veludo negro, forradas de seda púrpura, falavam ali dos prazeres que

esperavam o poeta das Boninas. Um delicioso lustre pendia do teto forrado

de seda. Por toda a parte maravilhosas jardineiras ostentavam flores

escolhidas, lindas urzes brancas e camélias sem perfume. Viam-se em tudo

imagens da inocência.

Como imaginar ali uma atriz e os costumes do teatro?

Berenice notou o assombro de Luciano.

— Não é mesmo bonito? — perguntou ela com voz acariciadora. — Não estarão melhor aqui para amar do que numa água-furtada? Impeça a sua

cabeçada — continuou ela, trazendo para a frente de Luciano uma

magnífica mesinha redonda carregada de iguarias tiradas do jantar de sua

ama, a fim de que a cozinheira não desconfiasse da presença de um amante.

Luciano jantou muito bem, servido por Berenice em baixela de prata

esculpida, em pratos pintados a um luís a peça. Esse luxo agia sobre a sua

alma como uma rapariga das ruas age sobre um ginasiano com a carne nua e

as meias brancas bem esticadas.

— Como é feliz esse Camusot! — exclamou ele.

— Feliz?! — tornou Berenice. — Ah! Ele daria toda a sua fortuna para

estar no lugar do senhor e trocar seus velhos cabelos grisalhos pela sua

cabeleira loura.

Insistiu com Luciano, a quem deu o mais delicioso vinho que Bordeaux

já produziu para o mais rico dos ingleses, para que se tornasse a deitar

enquanto esperava Corália, para que dormisse um pouquinho; e Luciano

tinha, de fato, desejos de estender-se naquele leito que tanto admirava.

Berenice, que lera esse desejo nos olhos do poeta, sentia-se feliz por sua ama.

Às dez e meia Luciano acordou sob um olhar saturado de amor. Corália

ali estava na mais voluptuosa das toilettes de noite. Luciano havia dormido;

já não estava ébrio senão de amor. Berenice retirou-se, perguntando:

— A que horas, amanhã?

— Onze horas; tu nos trarás o almoço na cama. Não estarei em casa para

ninguém antes das duas horas.

Às duas horas do dia seguinte a atriz e seu amante estavam vestidos e

um em frente ao outro como se o poeta tivesse vindo fazer uma visita à sua

protegida.

Corália havia banhado, penteado, vestido Luciano. Havia mandado

procurar na casa Colliau para ele doze belas camisas, doze gravatas, doze

lenços, uma dúzia de luvas numa caixa de cedro. Quando ouviu o ruído de

uma carruagem à porta, precipitou-se para a janela com Luciano. Ambos

viram Camusot, que descia de um cupê magnífico.

— Eu não acreditava — disse ela — que se pudesse odiar tanto a um

homem e ao luxo...

— Sou pobre demais para consentir que você se arruíne — disse Luciano,

passando assim sob as forcas caudinas.[268]

— Pobre gatinho! — disse ela apertando Luciano contra o coração. — Tu

me amas muito, então?

— Convidei este senhor — disse ela, mostrando Luciano a Camusot —

para me vir ver esta manhã, pensando que iríamos passear nos Champs-

Élysées para inaugurar a carruagem.

— Vão sozinhos — disse Camusot tristemente. — Não janto com os dois, é

dia do aniversário de minha mulher; havia-me esquecido.

— Pobre Musot! Como te irás aborrecer... — disse ela, saltando ao pescoço

do negociante.

Sentia-se ébria de alegria ao pensar que estrearia só com Luciano o belo

cupê, que iria sozinha com ele ao bosque, e, no seu acesso de alegria, parecia

amar Camusot, a quem fez mil carícias.

— Quisera poder dar-lhe uma carruagem todos os dias — disse o pobre

homem.

— Vamos, senhor, são duas horas — disse a atriz a Luciano, que ela viu

envergonhado e a quem consolou com um gesto adorável.

Corália precipitou-se pelas escadas arrastando Luciano, que ouvia o

negociante arrastando-se como uma foca atrás deles sem os poder alcançar.

O poeta sentiu o mais embriagador dos gozos: Corália, a quem a felicidade

tornava sublime, oferecia a todos os olhos encantados uma indumentária

cheia de gosto e elegância.

A Paris dos Champs-Élysées admirou os dois amantes. Numa das

alamedas do Bois de Boulogne, o cupê passou pela caleça das sras. d’Espard

e de Bargeton, que olharam para Luciano com ar assombrado, mas às quais

ele lançou o olhar de desprezo do poeta que pressente sua glória e vai usar o

seu poder. O momento em que pôde atirar, num relance de olhos, àquelas

duas mulheres alguns dos pensamentos de vingança que elas lhe haviam

posto no coração para o roer foi um dos mais doces de sua vida e decidiu,

talvez, o seu destino. Luciano foi de novo tomado pelas fúrias do orgulho:

desejou reaparecer no mundo e ali tomar uma estrondosa desforra, e todas

as ninharias sociais, há pouco calcadas aos pés do estudioso, do amigo do

cenáculo de novo lhe entraram na alma. Compreendeu então todo o alcance

do ataque feito por Lousteau por sua causa: Lousteau acabava de servir suas paixões, ao passo que o cenáculo, esse mentor coletivo, parecia querer abatê-

las em benefício de enfadonhas virtudes e de trabalhos que Luciano

começava a julgar inúteis. Trabalhar! Não é acaso a morte para as almas

ávidas de gozo? Com que facilidade, aliás, os escritores resvalam para o far

niente, para a boa vida e as delícias da existência luxuosa das atrizes e das

mulheres fáceis! Luciano sentiu um desejo irresistível de continuar a vida

desses dois dias loucos.

O jantar no Rocher de Cancale foi esplêndido. Luciano encontrou os

convivas de Florina, menos o ministro, o duque e a bailarina, e menos

Camusot, substituídos por dois atores célebres e por Heitor Merlin,

acompanhado pela amante, uma deliciosa mulher que se fazia chamar sra.

du Val-Noble,[269] a mais bela, a mais elegante das mulheres que formavam

então em Paris o mundo excepcional das criaturas que hoje, decentemente,

são chamadas de lorettes. Luciano, que havia quarenta e oito horas vivia

num paraíso, soube do êxito de seu artigo. Vendo-se festejado, invejado, o

poeta aprumou-se: seu espírito cintilou; tornou-se o Luciano de Rubempré

que durante vários meses brilharia na literatura e no mundo dos artistas.

Finot, homem de incontestável habilidade para adivinhar o talento e que o

farejava como um ogre fareja carne fresca, adulou Luciano, tentando

introduzi-lo no grupo de jornalistas por ele comandados. Luciano mordeu a

isca dessas lisonjas. Corália observou o manejo daquele consumidor de

inteligências e quis colocar Luciano de sobreaviso contra ele.

— Não tomes compromissos, meu filho — disse ela ao poeta —; espera,

eles te querem explorar, falaremos sobre isso esta noite.

— Bah! — respondeu Luciano. — Eu me sinto bastante forte para ser tão

mau e tão astuto quanto eles o podem ser.

Finot, que sem dúvida não brigara com Heitor Merlin por causa das

linhas em branco, apresentou Merlin a Luciano e Luciano a Merlin. Corália e

a sra. du Val-Noble fraternizaram, cumularam-se de carícias e de atenções. A

sra. du Val-Noble convidou Luciano e Corália para um jantar. Heitor Merlin,

o mais perigoso dos jornalistas presentes a esse jantar, era um homenzinho

seco, de lábios contraídos, chocando uma ambição desmesurada, de uma

inveja sem limites, feliz com todo o mal que se fizesse em torno dele,

aproveitador das separações que fomentava. Tinha muita inteligência e pouca energia, mas substituía a vontade pelo instinto que dirige os filhos da

fortuna para os lugares iluminados pelo ouro e pelo poder. Ele e Luciano

desagradaram-se mutuamente. Não é difícil explicar por quê: Merlin teve a

desgraça de dizer em voz alta aquilo que Luciano pensava baixinho. À

sobremesa, laços da mais tocante amizade pareciam unir aqueles homens

que se acreditavam todos superiores um ao outro. Luciano, o recém-

chegado, era objeto de suas amabilidades. Falava-se com o coração aberto. Só

Heitor Merlin é que não ria. Luciano perguntou-lhe o motivo dessa reserva.

— Mas eu o vejo entrando cheio de ilusões no mundo literário e

jornalístico. Acredita em amigos. Nós somos, todos, amigos ou inimigos

segundo as circunstâncias. Nós somos os primeiros a nos ferir com a arma

que não nos deveria servir senão para ferir os outros. O senhor perceberá

dentro em pouco que nada poderá obter por meio dos sentimentos elevados.

Se o senhor é bom, faça-se mau. Seja intratável por cálculo. Se ninguém lhe

falou ainda nessa lei suprema, confio-lha eu e não lhe terei feito uma

confidência sem importância. Para ser amado, não se separe jamais de sua

amante sem que a tenha antes feito chorar um pouco; para fazer fortuna na

literatura, vá ferindo todo o mundo, mesmo aos seus amigos. Faça chorar o

amor-próprio de todos: receberá homenagens de um e outro lado.

Heitor Merlin sentiu-se feliz quando viu pelo ar de Luciano que suas

palavras entravam no neófito como a lâmina de um punhal num coração.

Jogaram; Luciano perdeu todo o dinheiro que tinha. Foi levado por Corália,

e as delícias do amor fizeram-no esquecer as tremendas emoções do jogo,

que, mais tarde, deveria encontrar nele uma de suas vítimas. No dia

seguinte, ao sair da casa dela de volta para o Quartier Latin, encontrou na

bolsa o dinheiro que havia perdido. Essa atenção a princípio o entristeceu;

quis voltar à casa da artista e lhe devolver uma dádiva que o humilhava, mas

estava já na Rue de La Harpe e continuou seu caminho para o Hotel de

Cluny. Meditou, ao andar, esse cuidado de Corália, e nele viu uma prova do

amor maternal que essa espécie de mulheres mistura às paixões. Nelas, a

paixão comporta todos os sentimentos. De pensamento em pensamento,

Luciano acabou por encontrar uma razão para aceitar, dizendo-se:

— Eu a amo, viveremos juntos como marido e mulher, e não a deixarei

nunca!

XX – ÚLTIMA VISITA AO CENÁCULO

 

A menos que fosse Diógenes, quem não compreenderia então as sensações

de Luciano ao subir a escada enlameada e malcheirosa de seu hotel, fazendo

ranger a fechadura de sua porta, revendo os ladrilhos sujos e a miserável

chaminé de seu quarto horrível de miséria e de nudez? Sobre a mesa

encontrou o manuscrito de seu romance e estas palavras de Daniel

d’Arthez:

 

Nossos amigos estão quase satisfeitos com a sua obra, caro poeta.

Poderá apresentá-la com mais confiança, dizem eles, a seus amigos e a

seus inimigos. Lemos o seu encantador artigo sobre o Panorama-

Dramatique. Você deve ter excitado tanta inveja na literatura como

pesar entre nós.

 

daniel

 

— Pesar! Que será que ele quer dizer? — exclamou Luciano, surpreso com o

tom de polidez que imperava no bilhete. Era então um estranho para o

cenáculo? Depois de haver devorado os frutos deliciosos que lhe

proporcionara a Eva dos bastidores, fazia mais empenho ainda em guardar a

estima e a amizade de seus amigos da Rue des Quatre-Vents. Ficou, durante

algum tempo, mergulhado numa meditação que abarcava seu presente

nesse quarto e seu futuro no de Corália. Presa de hesitações

alternativamente honrosas e deprimentes, sentou-se e se pôs a examinar o

estado em que os amigos lhe devolviam a obra. Que espanto foi então o seu!

De capítulo em capítulo, a pena hábil e devotada daqueles grandes homens

ainda desconhecidos havia trocado suas pobrezas por riquezas. Um diálogo

cheio, cerrado, conciso, nervoso substituía suas conversas, que, agora

compreendia, não eram senão palavras ocas ao compará-las com os discursos

onde se respirava o espírito do tempo. Seus retratos, de um desenho frouxo,

tinham sido vigorosamente realçados e coloridos; todos se relacionavam aos

fenômenos curiosos da vida humana por meio de observações fisiológicas,

devidas sem dúvida a Bianchon, expressas com agudeza, e que os tornavam vivos. Suas descrições verbosas haviam-se tornado substanciais e vivas. Havia

entregado uma criança malfeita e malvestida e encontrou uma deliciosa

moça em vestes brancas, com um cinto e echarpe róseas, uma arrebatadora

criação. A noite o surpreendeu com os olhos em pranto; aterrado ante

aquela grandeza, compreendeu o preço de uma lição como aquela,

admirando aquelas correções que lhe ensinavam mais sobre a literatura e a

arte que os seus quatro anos de leituras, de comparações e de estudos. A

corrigenda de um esboço mal estudado, um traço magistral sobre a própria

obra dizem sempre mais do que as teorias e as observações.

— Que amigos! Que corações! Como sou feliz! — exclamava ele,

apertando ao peito o manuscrito.

Levado pelo impulso próprio das naturezas poéticas e volúveis, correu à

casa de Daniel. Ao subir a escada, entretanto, sentiu-se menos digno desses

corações que nada poderia desviar do caminho da honra. Uma voz lhe dizia

que, se Daniel houvesse amado Corália, não a teria aceitado com Camusot.

Conhecia também o profundo horror do cenáculo pelo jornalismo e se sabia

já um pouco jornalista.

Encontrou os amigos, menos Meyraux, que acabava de sair, invadidos

por um desespero que se revelava em todos os rostos.

— Que têm vocês, meus amigos? — perguntou Luciano.

— Acabamos de saber de uma catástrofe horrível: a maior inteligência de

nossa época, o nosso amigo mais amado, aquele que durante dois anos foi a

nossa luz...

— Luís Lambert? — disse Luciano.

— Está num estado de catalepsia que não dá esperança alguma — disse

Bianchon.

— Morrerá com o corpo insensível e a cabeça nos céus — acrescentou

solenemente Miguel Chrestien.

— Morrerá como viveu — disse D’Arthez.

— O amor, jogado como uma chama no vasto império de seu cérebro,

incendiou-o — disse Leão Giraud.

— Sim — confirmou José Bridau —, exaltou-o a tal ponto que o

perdemos de vista.

— Nós é que devemos ser lamentados — acrescentou Fulgêncio Ridal.

— Há de curar-se, talvez! — exclamou Luciano.

— Pelo que nos disse Meyraux, a cura é impossível — respondeu

Bianchon. — Seu cérebro é teatro de fenômenos sobre os quais a medicina

não tem poder algum.

— Há entretanto certos agentes... — disse D’Arthez.

— Sim — disse Bianchon —, ele não está senão cataléptico, poderemos

torná-lo imbecil.

— Não poder oferecer ao gênio do mal outra cabeça em substituição

daquela! Eu, eu daria a minha! — exclamou Miguel Chrestien.

— E que seria da federação europeia? — perguntou D’Arthez.

— Ah! É verdade — disse Miguel Chrestien —; antes de ser de um

homem, pertencemos à humanidade.

— Eu vinha aqui com o coração cheio de agradecimentos para todos

vocês — disse Luciano. — Vocês transformaram a minha moeda de cobre

num luís de ouro.

— Agradecimentos! Por quem nos tomas tu? — disse Bianchon.

— O prazer foi nosso — atalhou Fulgêncio.

— Muito bem, eis-te feito jornalista? — disse-lhe Leão Giraud. — O ruído

de tua estreia chegou até o Quartier Latin.

— Ainda não — respondeu Luciano.

— Ah! Tanto melhor! — disse Miguel Chrestien.

— Bem que eu lhes dizia — atalhou D’Arthez. — Luciano é um desses

corações que conhecem o preço de uma consciência pura. Não é um viático

fortificante pousar-se à noite a cabeça sobre o travesseiro e poder dizer: “Não

julguei as obras de outrem; não causei aflição a pessoa alguma; minha

inteligência não feriu como um punhal a alma de nenhum inocente; meus

gracejos não imolaram prazer algum nem mesmo perturbou a tolice feliz,

não fatigou sem causa o talento; desdenhei os fáceis triunfos do epigrama;

enfim, não traí as minhas convicções”?

— Mas — disse Luciano — pode-se, creio, ser assim mesmo trabalhando

num jornal. Se eu não tivesse decididamente senão esse meio de

subsistência, seria necessário lá chegar.

— Oh! oh! oh! — fez Fulgêncio, subindo de tom a cada exclamação. —

“Nós” capitulamos.

— Ele será jornalista — disse gravemente Leão Giraud. — Ah! Luciano, se

o quisesses ser conosco, que vamos publicar um jornal onde jamais a verdade

e a justiça hão de ser ultrajadas, onde espalharemos as doutrinas úteis à

humanidade, talvez...

— Não terão um só assinante — replicou maquiavelicamente Luciano,

interrompendo Leão.

— Teremos quinhentos que hão de valer quinhentos mil — respondeu

Miguel Chrestien.

— Precisarão de capital — volveu Luciano.

— Não — disse D’Arthez —, mas de devotamento.

— Dir-se-ia uma loja de perfumista! — exclamou Miguel Chrestien

cheirando com gesto cômico a cabeça de Luciano. — Viram-te numa

carruagem lindamente envernizada, puxada por cavalos de janota, com

uma amante de príncipe: Corália.

— E então — disse Luciano —, há algum mal nisso?

— Tu dizes isso como se houvesse! — exclamou Bianchon.

— Desejaria para Luciano — disse D’Arthez — uma Beatriz, uma nobre

mulher que o amparasse na vida...

— Mas, Daniel, o amor não será em toda a parte semelhante a si mesmo?

— perguntou o poeta.

— Ah! — respondeu o republicano. — Nisso eu sou aristocrata. Não

poderia amar uma mulher que um ator beija na face diante do público, uma

mulher tuteada nos bastidores, que se inclina diante da plateia e lhe sorri,

que dança levantando as saias e que se veste de homem para mostrar o que

eu desejaria ser o único a ver. Se eu amasse uma mulher assim, ela deixaria o

teatro, e eu a purificaria pelo meu amor.

— E se ela não pudesse deixar o teatro?

— Eu morreria de desgosto, de ciúme, de mil males. Não se pode

arrancar um amor do coração como se arranca um dente.

Luciano tornou-se sombrio e pensativo.

“Quando eles souberem que tolero Camusot, hão de me desprezar”,

pensava ele.

— Olha — disse-lhe o selvagem republicano com uma terrível bonomia

—, poderás ser um grande escritor, mas não passarás nunca de um pequeno farsante.

Tomou o chapéu e saiu.

— Miguel Chrestien é duro — disse o poeta.

— Duro e salutar como o boticão do dentista — disse Bianchon. — Miguel

vê o teu futuro e neste instante talvez chore por ti na rua.

D’Arthez foi doce, consolador, e tentou animar Luciano. Ao cabo de uma

hora o poeta deixou o cenáculo, maltratado pela consciência, que lhe

gritava: “Tu serás jornalista!”, como a feiticeira gritara a Macbeth: “Tu serás

rei!”.[270]

Na rua, levantou os olhos para as janelas do paciente D’Arthez, aclaradas

por uma luzinha débil, e voltou para casa com o coração entristecido e a

alma inquieta. Uma espécie de pressentimento dizia-lhe que pela última vez

fora apertado contra o coração de seus verdadeiros amigos.

Ao entrar na Rue de Cluny pela Place de la Sorbonne, reconheceu a

carruagem de Corália.

Para vir ver o seu poeta um instante, para lhe dizer um simples boa-

noite, a atriz havia franqueado o espaço que vai do Boulevard du Temple à

Sorbonne. Luciano encontrou a amante em lágrimas diante do aspecto de

sua mansarda, querendo ser miserável como o amante. Chorava arranjando

as camisas, as luvas, as gravatas e os lenços na horrível cômoda de hotel. Esse

desespero era tão verdadeiro, tão grande, exprimia tanto amor que Luciano,

a quem haviam censurado por amar uma atriz, viu em Corália uma santa

bem perto de cingir o cilício da miséria. Para ali chegar, a adorável criatura se

havia servido do pretexto de avisar seu amigo de que a sociedade Camusot,

Corália e Luciano retribuiria à sociedade Matifat, Florina e Lousteau o seu

jantar, e para perguntar a Luciano se ele tinha algum convite a fazer que lhe

pudesse ser útil. Luciano respondeu que conversaria com Lousteau a

respeito. A atriz, depois de algum tempo, despediu-se, escondendo a

Luciano que Camusot a esperava embaixo.

 

XXI – UMA VARIEDADE DE JORNALISTA

 

No dia seguinte, às oito horas, Luciano dirigiu-se à casa de Estêvão. Não o

encontrou e correu à casa de Florina. O jornalista e a atriz receberam o amigo no bonito quarto de dormir onde estavam maritalmente instalados, e

almoçaram os três esplendidamente.

— Mas, meu filho — disse-lhe Lousteau, quando se puseram à mesa e

Luciano lhe falou da ceia que Corália iria dar —, eu te aconselho a vir comigo

ver Feliciano Vernou, a convidá-lo e a te ligares a ele tanto quanto é possível

a gente se ligar a um tal patife. Feliciano te dará talvez acesso ao jornal

político onde cozinha o rodapé e onde poderás florescer à vontade em

grandes artigos no alto das páginas. Essa folha, como a nossa, pertence ao

partido liberal. Serás liberal, é o partido popular. Aliás, se quiseres passar para

o lado ministerial, para lá entrarias com tanto maiores vantagens quanto

mais te houvesses feito temer. Heitor Merlin e sua sra. du Val-Noble, à casa

de quem vão vários grão-senhores, os jovens elegantes e os milionários, não te

pediram, a ti e a Corália, que fôsseis jantar com eles?

— Sim — respondeu Luciano —, e tu lá estarás com Florina.

Luciano e Lousteau, na sua embriaguez de sexta-feira e durante o jantar

de domingo, haviam chegado a tratar-se por tu.

— Muito bem, encontraremos Merlin no jornal, é um rapaz que há de

seguir Finot de perto. Farás bem em agradá-lo, em pô-lo na tua ceia com sua

amante: ele te há de ser talvez útil dentro de pouco tempo, porque as

pessoas que odeiam precisam de todo mundo, e ele te prestará serviços para

contar com tua pena em caso de necessidade.

— A sua estreia fez sensação demais para que o senhor não encontre

algum obstáculo — disse Florina a Luciano —; apresse-se em aproveitar a

situação, do contrário será prontamente esquecido.

— O negócio — continuou Lousteau —, o grande negócio foi

consumado! Esse Finot, um homem sem talento algum, é diretor e redator

chefe do jornal hebdomadário de Dauriat, proprietário de um sexto das

cotas que nada lhe custou, e tem seiscentos francos de remuneração por

mês. Sou, a partir desta manhã, meu caro, redator chefe do nosso

jornalzinho. Tudo se passou como eu previra, aquela noite: Florina foi

soberba, ela levaria vantagem ao príncipe de Talleyrand.

— Nós dominamos os homens pelo seu prazer — disse Florina —, os

diplomatas os prendem apenas pelo amor-próprio. Os diplomatas os veem a

fazer curvaturas e nós vemo-los a fazer asneiras; somos, portanto, mais fortes.

— Em conclusão — disse Lousteau —, Matifat perpetrou o único dito de

espírito que há de pronunciar em sua vida de droguista: “O negócio”, disse

ele, “não sai fora de meu ramo!”.

— Suspeito que foi Florina quem lho soprou! — exclamou Luciano.

— Assim, meu amor — continuou Lousteau —, estás com o pé no estribo.

— O senhor nasceu empelicado — disse Florina. — Quantos mocinhos

temos visto que rolam por Paris durante anos sem chegar a conseguir colocar

um só artigo num jornal! Acontecerá ao senhor o mesmo que a Emílio

Blondet. Dentro de seis meses, hei de vê-lo fazendo a sua cabeça[271] —

continuou ela, servindo-se de uma frase de sua gíria e lançando-lhe um

sorriso zombeteiro.

— Não estou eu em Paris há três anos — disse Lousteau — e não é que só

desde ontem Finot me dá trezentos francos fixos por mês como redator

chefe e me paga cem sous por coluna e cem francos por página, no seu

jornal hebdomadário?

— E então, o senhor não diz coisa alguma? — exclamou Florina, olhando

para Luciano.

— Veremos — respondeu ele.

— Meu caro — interveio Lousteau com ar ofendido —, arranjei tudo para

ti como se fosses meu irmão, mas não respondo por Finot. Ele há de ser

solicitado por sessenta patifes que, daqui a dois dias, hão de vir fazer-lhe

propostas com abatimento. Prometi em teu nome, mas tu lhe dirás não, se

quiseres. Não fazes ideia de tua felicidade — continuou o jornalista, depois

de uma pausa. — Farás parte de um grupo cujos camaradas atacam os

inimigos em vários jornais e mutuamente se prestam serviços.

— Vamos primeiramente ver Feliciano Vernou — disse Luciano, que

tinha pressa de se unir a essas temíveis aves de rapina.

Lousteau mandou chamar um cabriolé, e os dois amigos foram à Rue

Mandar, onde morava Vernou numa casa de entrada ao lado. Ocupava ali

um apartamento no segundo andar.

Luciano ficou muito surpreendido ao encontrar aquele crítico acerbo,

desdenhoso e empertigado numa sala de jantar da maior vulgaridade,

forrada de um papelzinho imitando ladrilhos, coberto de musgo a intervalos iguais, ornada de gravuras à água-forte em molduras douradas, sentado à

mesa com uma mulher muito feia para não ser legítima e duas crianças de

pouca idade empoleiradas em cadeiras de pés muito altos e com anteparos,

destinados a manter nelas os pequenos travessos. Surpreendido num roupão

confeccionado com os restos de um vestido de chita da mulher, Feliciano

mostrou ar muito descontente.

— Já almoçaste, Lousteau? — perguntou, oferecendo uma cadeira a

Luciano.

— Saímos de casa de Florina — disse Estêvão — e almoçamos lá.

Luciano não cessava de examinar a sra. Vernou, que parecia uma boa e

gorda cozinheira, muito branca, mas superlativamente comum. Usava um

lenço de seda por cima da touca de noite, com alças de onde suas faces

apertadas transbordavam. Seu roupão, sem cinto, preso na gola por um

botão, descia em grandes pregas e a envolvia tão mal que era impossível

deixar de compará-la a um toco de pau. De uma saúde desesperadora, tinha

as faces quase violeta e mãos com dedos em forma de chouriços. Tal mulher

revelou imediatamente a Luciano a atitude constrangida de Vernou na

sociedade. Torturado pelo casamento, sem forças para abandonar mulher e

filhos, mas bastante poeta para sofrer constantemente com eles, o escritor

não podia perdoar êxito nenhum a pessoa alguma; devia sentir-se

descontente com tudo, por estar sempre descontente de si próprio. Luciano

compreendeu o ar amargo que gelava aquela fisionomia invejosa, a aspereza

das réplicas que o jornalista semeava na conversa, o acerbo de sua frase,

sempre aguda e afiada como um estilete.

— Passemos para o meu gabinete — disse Feliciano, levantando-se —;

sem dúvida se trata de assuntos literários.

— Sim e não — respondeu Lousteau. — Meu velho, trata-se de uma ceia.

— Venho — disse Luciano — pedir-lhe da parte de Corália...

A esse nome, a sra. Vernou levantou a cabeça.

— … que vá cear conosco de hoje a oito dias — disse Luciano,

continuando. — Encontrará em casa dela a sociedade que encontrou em

casa de Florina, acrescentada da sra. du Val-Noble, de Merlin e de mais

alguns outros. Jogaremos.

— Mas, meu amigo, nesse dia deveremos ir à casa da sra. Mahoudeau — disse a mulher.

— E que tem isso? — perguntou Vernou.

— Se não formos, ela se sentirá contrariada, e ficarás bem satisfeito de

encontrá-la para descontar tuas promissórias de livraria.

— Meu caro, aqui está uma mulher que não compreende que uma ceia

que começa à meia-noite não impede que se vá a uma recepção que acaba às

onze horas. E trabalho a seu lado — concluiu.

— O senhor tem muita imaginação! — respondeu Luciano, que com essa

única frase fez de Vernou um inimigo mortal.

— Muito bem — continuou Lousteau —, contamos contigo, mas isso não

é tudo; o sr. de Rubempré tornou-se um dos nossos, assim ajuda-o no teu

jornal; apresenta-o como moço capaz de fazer a alta literatura, a fim de que

ele possa colocar lá ao menos dois artigos por mês.

— Sim, se ele quer ser dos nossos, atacar nossos inimigos como haveremos

de atacar os seus e defender nossos amigos, eu falarei nele esta noite na

Opéra — respondeu Vernou.

— Muito bem! Até amanhã, meu filho — disse Lousteau, apertando a

mão de Vernou com sinais da mais viva amizade. — Quando aparecerá teu

livro?

— Mas — disse o pai de família — isso depende de Dauriat, a minha

parte está terminada.

— E estás satisfeito?

— Sim e não...

— Nós avivaremos o êxito — disse Lousteau, levantando-se e saudando a

mulher do confrade.

Essa brusca partida tornou-se necessária à vista da gritaria das duas

crianças que se assestavam golpes de colher atirando papas na cara um do

outro.

— Acabas de ver, meu filho — disse Estêvão a Luciano —, uma mulher

que, sem o saber, há de causar muito dano à literatura. Esse pobre Vernou

não nos perdoa sua mulher. Deveríamos desembaraçá-lo dela, no interesse

público, bem entendido. Evitaríamos um dilúvio de artigos atrozes, de

epigramas contra todos os êxitos e contra todas as fortunas. Que se pode vir

a ser com uma mulher assim acompanhada desses dois horríveis traquinas?

Você viu o Rigaudin da Casa em leilão,[272] a peça de Picard... Pois bem,

como Rigaudin, Vernou não se baterá nunca, mas há de fazer com que se

batam os outros. Ele é capaz de furar um dos olhos para poder furar os dois

ao seu melhor amigo. Você há de vê-lo calcando o pé em todos os cadáveres,

sorrindo a todas as desgraças, atacando os príncipes, os duques, os

marqueses, os nobres, porque é plebeu; atacando os vencedores celibatários

por causa da mulher e falando sempre em moral, advogando as alegrias

domésticas e os deveres de cidadão. Enfim, esse crítico tão moral não será

amável para com ninguém, nem mesmo para com as crianças. Vive na Rue

Mandar entre uma mulher que poderia fazer o Mamamouchi[273] do

Burguês gentil-homem e dois pequenos Vernous feios como traças; e quer

zombar do Faubourg Saint-Germain, onde nunca há de pôr os pés, e fará,

por isso, as duquesas falarem como fala sua mulher. E é esse o homem que

vai ladrar contra os jesuítas, insultar a Corte, emprestar-lhe a intenção de

restabelecer os direitos feudais e o morgadio, e que pregará qualquer cruzada

a favor da igualdade, ele que não se considera igual de pessoa alguma. Se

fosse solteiro, se frequentasse a sociedade, se tivesse as boas maneiras dos

poetas monarquistas que recebem pensões, ornados com a cruz da Legião de

Honra, seria um otimista. O jornalismo tem mil pontos de partida

semelhantes. É uma grande catapulta posta em movimento por pequenos

ódios. Tens ainda desejos de casar? Vernou não tem mais coração; o fel

invadiu tudo. E assim é o jornalismo por excelência: um tigre com duas

garras, que tudo estraçalha, como se suas penas fossem inoculadas de raiva.

— Ele é ginófobo — disse Luciano. — Tem talento?

— Tem inteligência, é um articulista. Vernou produz artigos, fará

sempre artigos, nada mais que artigos. O mais obstinado trabalho não poderá

jamais enxertar um livro na sua prosa. Feliciano é incapaz de conceber uma

obra, de lhe dispor os elementos, de lhe reunir harmoniosamente os

personagens num plano que comece, se entrelace e se desenvolva para um

fato capital. Ele tem ideias, mas não conhece os fatos; seus heróis são utopias

filosóficas ou liberais. Seu estilo, enfim, é de uma originalidade procurada,

sua frase inflada tombaria se a crítica lhe desse um alfinetaço. Por isso tem

enorme medo dos jornais, como todos os que precisam das falsidades e

mentiras do elogio para se susterem em cima da água.

— Que artigo estás traçando! — exclamou Luciano.

— Estes, meu filho, é preciso que a gente os diga e jamais os escreva.

— Estás feito redator chefe — disse Luciano.

— Onde queres que eu te atire? — perguntou Lousteau.

— Em casa de Corália.

— Ah! estamos enamorados — disse Lousteau. — Que erro! Faz de

Corália o que eu faço de Florina: uma boa dona de casa, mas não se amarre!

— Farias danar os santos — respondeu Luciano rindo.

— Não se fazem danar os demônios — retorquiu Lousteau.

O tom leve, brilhante de seu novo amigo, a maneira pela qual encarava a

vida, seus paradoxos intercalados de verdadeiras máximas do maquiavelismo

parisiense agiam sobre Luciano independentemente de sua vontade. Em

teoria, o poeta reconhecia o perigo desses pensamentos, mas, na prática,

achava-os úteis.

Ao chegarem ao Boulevard du Temple, os dois amigos combinaram

tornar a encontrar-se entre as quatro e cinco horas na redação do jornal,

onde, sem dúvida, Heitor Merlin haveria de aparecer.

 

XXII – INFLUÊNCIA DAS BOTAS SOBRE A VIDA PRIVADA

 

Luciano estava, na realidade, preso às voluptuosidades do verdadeiro amor

Continuar: parte 8 de 12