A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 4/12

Páginas do PDF

A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

ligeiras da imprensa.

Meteu-se na sua mais distinta indumentária e atravessou as pontes

pensando que os escritores e jornalistas, os seus futuros irmãos, enfim, teriam

um pouco mais de compreensão e desinteresse que as duas espécies de

livreiros contra os quais se haviam chocado suas esperanças. Encontraria

simpatias, alguma boa e doce afeição como a que achava no cenáculo da

Rue des Quatre-Vents. Presa das emoções que assaltam todos os homens de

imaginação diante de pressentimentos que vão surgindo e sendo

combatidos, chegou na Rue Saint-Fiacre, perto do Boulevard Montmartre,

ao prédio onde se localizavam os escritórios do pequeno jornal visado, cujo

aspecto fê-lo sentir as palpitações de um rapazinho ao entrar numa casa

suspeita. Subiu, não obstante, até a redação situada na sobreloja. Na primeira

peça, separada em duas partes iguais por uma divisão feita até a metade de

tábuas e gradeada até o teto, encontrou um inválido, maneta, que com mão

única segurava várias resmas de papel sobre a cabeça e tinha entre os dentes

a livreta exigida pela fiscalização do selo. Esse pobre homem cujo rosto, de

tom amarelo e semeado de bulbos vermelhos, lhe valera a alcunha de

Colocíntida, mostrou-lhe por trás das grades o cérbero do jornal. Era um

velho oficial condecorado, com o nariz metido no bigode grisalho, um gorro

de seda preta na cabeça, e sepultado, como uma tartaruga sob a carapaça,

numa ampla sobrecasaca azul.

— Desde que dia quer o senhor que comece a sua assinatura? —

perguntou-lhe o oficial do Império.

— Não venho tomar uma assinatura — respondeu Luciano ao mesmo

tempo que via sobre a porta que se seguia àquela pela qual havia entrado um

cartaz onde se liam estas palavras:

 

redação

Entrada proibida ao público

 

— Uma reclamação, sem dúvida — tornou o soldado de Napoleão. — Ah!

sim! fomos duros com Marieta.[163] O que quer, não sei ainda por quê. Mas, se vem tomar satisfações, estou pronto — acrescentou, relanceando o olhar

pelos floretes e pistolas de moderna panóplia agrupados num feixe, a um

canto.

— Ainda menos, senhor. Venho para falar ao redator chefe.

— Não há nunca ninguém aqui antes das quatro horas.

— Olhe cá, meu velho Giroudeau,[164] encontro onze colunas, que a

cem sous cada uma perfazem cinquenta e cinco francos. Recebi apenas

quarenta; portanto, você me deve ainda quinze francos, como eu lhe dizia...

Estas palavras partiam de uma cara de fuinha, branca como clara de ovo

mal cozida, furada por dois olhos de um azul desbotado, mas assustadores

de malícia, que pertenciam a um rapaz de talhe insignificante, que se

escondia por trás do corpo espesso do antigo militar. Aquela voz gelou

Luciano. Tinha alguma coisa do miar dos gatos e da sufocação asmática da

hiena.

— Sim, meu pequeno miliciano — respondeu o oficial reformado —, mas

você conta os títulos e as entrelinhas. Tenho ordem de Finot de somar o total

das linhas e dividir pelo número necessário a cada coluna. Depois de

praticar esta operação estrangulatória no seu trabalho, encontram-se três

colunas a menos.

— Ah! O usurário não paga então os espaços em branco? Mas cobra-os ao

sócio no preço do trabalho em conjunto. Vou procurar Estêvão Lousteau,

Vernou...

— Não posso infringir as ordens, meu pequeno — disse o oficial. — Então,

por quinze francos, você, que escreve seus artigos com a mesma facilidade

com que eu fumo um charuto, reclama contra o seu ganha-pão? Eh! Pague

uma rodada de ponche a menos aos seus amigos, ou ganhe uma partida de

bilhar a mais, e dará no mesmo.

— Finot faz economias que lhe sairão bem caras — respondeu o redator,

que se levantou e partiu.

— Dir-se-ia que ele é Voltaire ou Rousseau, não é? — disse para si mesmo

o caixa, olhando para o poeta de província.

— Senhor — disse Luciano —, voltarei às quatro horas.

Enquanto durara a discussão, Luciano pudera notar nas paredes os

retratos de Benjamin Constant, do general Foy,[165] dos dezessete oradores ilustres do partido liberal, ao lado de caricaturas contra o governo. Havia

contemplado principalmente a porta do santuário onde se devia elaborar a

espirituosa folha que o divertia todos os dias e que abusava do direito de

ridicularizar os reis, os acontecimentos mais graves, de pôr, enfim, tudo à

bulha, desde que houvesse lugar para uma boa piada.

Foi flanar pelos bulevares, prazer novo para ele, mas tão atraente que viu

os ponteiros das pêndulas nas relojoarias marcarem quatro horas sem

perceber que não havia almoçado. O poeta voltou prontamente para a Rue

Saint-Fiacre, subiu a escada, abriu a porta, mas não encontrou mais o velho

militar. Viu somente o inválido, sentado sobre o seu papel timbrado,

comendo uma côdea de pão e guardando o posto com ar resignado, pois se

mantinha agora no jornal sem o compreender, tal como outrora na faxina

sem indagar o porquê das marchas repentinas ordenadas pelo imperador.

Luciano concebeu o ousado pensamento de enganar o temível funcionário:

passou, de chapéu na cabeça, e abriu, como se fosse da casa, a porta do

santuário. O escritório da redação ofereceu a seus olhos ávidos uma mesa

redonda coberta por um pano verde e seis cadeiras de cerejeira guarnecidas

de palha ainda nova. O assoalho pintado daquela pequena peça não havia

sido ainda varrido, mas estava limpo, o que anunciava pouca frequência do

público. Sobre a chaminé, um espelho, um relógio de vendeiro coberto de

poeira, dois castiçais onde duas velas haviam sido brutalmente cravadas e,

finalmente, alguns cartões de visitas esparsos. Sobre a mesa, velhos jornais

amarrotados em torno de um tinteiro, cuja tinta seca parecia laca e

decorado com penas recurvas dispostas em leque.

Leu, em tiras de papel ordinário, alguns artigos em letra quase ilegível e

hieroglífica, rasgados na parte superior pelos tipógrafos, a quem essa marca

serve para reconhecer os artigos já compostos. Depois, aqui e ali, sobre

pedaços de papel pardo, admirou espirituosas caricaturas desenhadas por

pessoas que sem dúvida haviam tratado de matar o tempo matando

qualquer coisa para entreter a mão. Num papel de cor verde-clara, viu

presos por alfinetes nove desenhos diferentes feitos a pena e ridicularizando

O solitário,[166] livro que um sucesso inaudito recomendava então à Europa

e que devia por isso molestar os jornalistas.

— O Solitário na província aparecendo as mulheres assombra. O Solitário é, num castelo, lido. — Efeitos do Solitário sobre os domésticos animais. —

Entre os selvagens o Solitário explicado o mais sucesso brilhante obtém. — O

Solitário traduzido para o chinês e apresentado pelo autor, de Pequim, ao

imperador. — Pelo Monte Sauvage, Elódia violada. (Esta caricatura pareceu

muito impudica a Luciano, mas o fez rir.) — Pelos jornais, o Solitário, sob um

pálio processionalmente conduzido. — O solitário fazendo estalar um prelo

os ursos fere. — Lido às avessas, os acadêmicos O solitário assombra por

superiores belezas.

Luciano viu na margem de um jornal um desenho representando um

redator que estendia o chapéu, e por baixo: E os meus cem francos, Finot?,

palavras assinadas por um homem tornado famoso, mas que jamais há de

chegar a ser ilustre.

Entre a chaminé e a janela, via-se uma escrivaninha, uma poltrona de

acaju, uma cesta de papéis e um tapete oblongo desses chamados frente da

lareira; tudo coberto de uma espessa camada de pó. As janelas tinham

apenas pequenas cortinas. Em cima da escrivaninha havia como que uns

vinte trabalhos ali depositados durante o dia, gravuras, música, tabaqueiras

“à Carta”,[167] um exemplar da nona edição de O solitário, motivo ainda das

maiores caçoadas do momento, e uma dúzia de cartas carimbadas.

Ao acabar de inventariar o estranho mobiliário e de fazer uma infinidade

de reflexões, soadas já as cinco horas, Luciano voltou ao inválido para o

interrogar. Colocíntida terminara sua côdea e esperava, com paciência de

sentinela, o militar condecorado, que talvez andasse flanando pelo bulevar.

No mesmo instante, uma mulher apareceu no vão da porta, depois de

haver feito ouvir o farfalhar do vestido na escada e esse leve passo feminino

tão fácil de se reconhecer. Era extremamente bonita.

— Senhor — disse ela a Luciano —, sei por que gaba tanto os chapéus da

srta. Virgínia, e venho antes do mais pedir-lhe uma assinatura por um ano...

Diga-me porém, as condições...

— Senhora, eu não sou do jornal.

— Ah!

— Uma assinatura a partir de outubro? — perguntou o inválido.

— Que é que a senhora reclama? — indagou o velho militar, aparecendo

e entrando logo a conferenciar com a bela negociante de modas.

Quando Luciano, impaciente com a espera, voltou à primeira peça,

ouviu esta frase final:

— Mas ficarei encantada, senhor. A srta. Florentina poderá vir à minha

loja e escolher o que quiser. Deixe o caso a meu cargo. Fica tudo assim bem

combinado: o senhor não falará mais em Virgínia, essa remendona incapaz

de criar modelos, ao passo que eu, sim, os crio!

Luciano ouviu caírem no caixa vários escudos. Depois o militar se pôs a

fazer a sua escrita.

— Senhor, estou aqui há mais de uma hora — disse o poeta com ar

agastado.

— Eles não vieram — disse o veterano de Napoleão, manifestando por

polidez certo interesse. — Isso não me surpreende. Há já algum tempo que

não os vejo. Pois é; estamos na metade do mês. Esses espertos só aparecem

em época de pagamento, dias 29 e 30.

— E o sr. Finot? — disse Luciano, que havia guardado o nome do diretor.

— Está em sua casa, na Rue Feydeau. Colocíntida, meu velho, leva-lhe

tudo o que chegou hoje, quando levares o papel à tipografia.

— Onde é então que se faz o jornal? — disse Luciano, falando consigo

mesmo.

— O jornal? — disse o empregado, que recebeu de Colocíntida o troco do

dinheiro do selo. — O jornal?... grum! grum! Meu velho, esteja amanhã às

seis horas na oficina para ver despacharem-se os jornaleiros. O jornal, senhor,

é feito na rua, em casa dos articulistas, e na oficina entre onze horas e meia-

noite. No tempo do imperador, estas vendas de papel sujo não eram

conhecidas. Ah! Ele teria feito vasculhar isto por quatro homens e um cabo

de esquadra, e não se incomodaria por algumas frases como esses de agora.

Mas chega de conversa. Se meu sobrinho aqui encontra interesse e se se

escreve pelo filho do outro...[168] grum! grum!... afinal de contas, não é um

mal. Bem! Os assinantes parecem que não estão chegando em colunas

cerradas; vou deixar o posto.

— O senhor me parece estar a par das coisas da redação do jornal.

— Quanto ao aspecto financeiro... grum! grum! — disse o soldado,

removendo o pigarro que tinha na garganta. — Conforme o talento, cem sous

ou três francos a coluna, cinquenta linhas de quarenta letras, sem espaços. Eis aí. Quanto aos redatores, são singulares patifes, gentinha que eu não

aproveitaria nem para bagageiros e que, só porque põem patas de mosca

sobre o papel em branco, têm o vezo de desprezar um velho capitão de

dragões da guarda imperial, aposentado como comandante de batalhão, e

que entrou com Napoleão em todas as capitais da Europa...

Luciano, empurrado para a porta pelo soldado de Napoleão, que

escovava sua casaca azul e manifestava a intenção de sair, teve a coragem de

se atravessar.

— Vim para ser redator — disse — e juro-lhe que sinto o maior respeito

por um capitão da guarda imperial, esses homens de bronze...

— Muito bem dito, meu paisaninho — respondeu o oficial batendo na

barriga de Luciano. — Mas a que classe de redatores aspira o senhor? —

replicou o veterano, passando sobre o ventre de Luciano e descendo a

escada. Só parou para acender o charuto no posto da porteira.

— Se vierem assinaturas, receba-as e tome nota, mãe Chollet. Sempre as

assinaturas, só lido com assinaturas — tornou ele, voltando-se para Luciano,

que o seguira. — Finot é meu sobrinho, o único na família que tem suavizado

minha situação. Assim, quem quer que procure briga com Finot encontra o

velho Giroudeau, capitão dos dragões da guarda, que partiu simples soldado

do exército de Sambre-et-Meuse, cinco anos mestre de armas no primeiro de

hussardos, Exército da Itália! Um, dois, e o queixoso será posto à sombra —

acrescentou, fazendo um movimento de esgrima. — Ora, pois, meu

pequeno; temos diversos corpos de redatores: há o redator que redige e tem

sua paga, o redator que redige e nada recebe, o que nós chamamos de

voluntário, e enfim o redator que nada redige e que não é o mais tolo; este

jamais comete erros, apresenta-se como escritor, pertence ao jornal, paga-

nos jantares, flana pelos teatros, sustenta uma atriz, é bastante feliz. De qual

deles é que o senhor quer ser?

— Ora, redator que trabalhe muito, e portanto bem pago.

— Aí está o senhor como todos os conscritos, que querem ser marechais

da França. Creia no velho Giroudeau, esquerda volver, acelerado, vá juntar

pontas de cigarros na sarjeta como aquele bravo homem ali, que já serviu,

como se vê pelo seu porte. Não é um horror que um velho soldado, que mil

vezes saltou à goela da morte, ajunte pontas de cigarros em Paris? Deus do céu! Não és mais que um tratante, não defendeste o imperador! Enfim, meu

filho, aquele paisano que você viu esta manhã ganhou quarenta francos este

mês. Você fará mais? E, segundo Finot, é o mais espirituoso dos seus

redatores.

— Quando o senhor se apresentou no Sambre-et-Meuse, alguém o

advertiu de que havia perigo?

— Céus!

— E então?

— E então, vá ver meu sobrinho Finot, um bravo rapaz, o rapaz mais leal

que existe, se o puder encontrar, porque ele se move como um peixe. O seu

trabalho não é escrever, fique sabendo, mas fazer com que os outros

escrevam. Parece que os fregueses gostam mais de se regalar com as atrizes

que de garatujar papel. Oh! São uns bichos esquisitos. Tenho a honra de

cumprimentá-lo.

O caixa movimentou sua temível bengala ferrada, uma das protetoras de

Germânico,[169] e deixou Luciano no bulevar, tão estupefato diante

daquela pintura da redação como o ficara acerca dos resultados definitivos

da literatura na loja de Vidal e Porchon. Luciano bateu dez vezes à casa de

Andoche Finot, diretor do jornal, na Rue Feydeau, sem jamais o encontrar.

De manhã cedo, Finot ainda não chegara. Ao meio-dia, Finot andava na

rua; almoçava, diziam, em tal café. Luciano ia ao café, perguntava por Finot

à moça do bar, vencendo repugnâncias inauditas: Finot acabara de sair.

Enfim, Luciano, cansado, já considerava Finot como um personagem

apócrifo e fabuloso. Achou mais simples esperar Estêvão Lousteau no

Flicoteaux. O jovem jornalista explicaria sem dúvida o mistério que pairava

sobre a vida do jornal ao qual estava ligado.

 

VIII – OS SONETOS

 

Desde o dia mil vezes abençoado em que Luciano conhecera Daniel

d’Arthez, havia mudado de lugar no Flicoteaux. Os dois amigos jantavam ao

lado um do outro e conversavam em voz baixa sobre alta literatura, sobre

assuntos a aproveitar, a maneira de apresentá-los, de encetá-los, de

desenvolvê-los. Nessa ocasião, Daniel d’Arthez corrigia os manuscritos de O arqueiro de Carlos ix, refazia-lhe capítulos, escrevia belas páginas que nele

estão e o magnífico prefácio que supera talvez o livro e que tanta claridade

derrama sobre a literatura dos novos.

Um dia, no momento em que Luciano se assentava ao lado de Daniel,

que o havia esperado e cuja mão ainda estava presa à sua, viu à porta

Estêvão Lousteau, que fazia girar o trinco. Luciano largou bruscamente a

mão de Daniel e disse ao garçom que iria jantar em seu antigo lugar junto ao

balcão. D’Arthez lançou a Luciano um desses olhares angélicos em que o

perdão oculta a reprovação, olhar que feriu tão vivamente o coração do

poeta que ele retomou a mão de Daniel para de novo apertá-la.

— Trata-se de um negócio importante para mim. Eu te contarei — disse-

lhe.

Luciano estava já em seu antigo lugar e cumprimentou Lousteau, ao

tomar este o seu. A conversa começou logo entre os dois, e tão viva e

animada se tornou imediatamente que Luciano foi buscar o manuscrito das

Boninas, enquanto Lousteau terminava o jantar. Conseguira submeter seus

sonetos ao julgamento do jornalista e contava com a afabilidade ostentada

por este para obter editor ou para entrar no jornal. Ao voltar, Luciano viu, ao

canto do restaurante, Daniel, que, com os cotovelos na mesa, olhava para ele

tristemente; mas, devorado pela miséria e estimulado pela ambição, fingiu

não ver seu irmão de cenáculo e seguiu Lousteau. Antes do fim do dia, o

jornalista e o neófito foram sentar-se sob as árvores na parte do Luxembourg

que, da grande allée de l’Observatoire, conduz à Rue de l’Ouest. Essa rua era

então extenso lamaçal, bordado de canteiros e de valos, com casas apenas

nas imediações da Rue de Vaugirard. Era uma passagem tão pouco

frequentada que, à hora em que Paris janta, dois amantes poderiam brigar e

trocar testemunhos de reconciliação sem temor de serem vistos. O único

desmancha-prazeres possível seria o veterano de guarda na pequena prisão

da Rue de l’Ouest, se acaso o venerável soldado se lembrasse de aumentar o

número de passos de que se compõe seu monótono passeio. Foi nessa

alameda, num banco de madeira, entre duas tílias, que Estêvão escutou os

sonetos escolhidos para amostra entre os das Boninas. Estêvão Lousteau,

que, após dois anos de aprendizagem, firmava o pé no estribo como redator e

que contava algumas amizades entre as celebridades da época, parecia personagem imponente aos olhos de Luciano. Assim, enquanto desenrolava

o manuscrito das Boninas, o poeta provinciano julgou necessário fazer uma

espécie de prefácio.

— O soneto, senhor, é um dos gêneros mais difíceis de poesia. Esse

pequeno poema tem permanecido geralmente em abandono. Ninguém, na

França, pôde ainda rivalizar com Petrarca, cuja língua, infinitamente mais

flexível que a nossa, admite jogos de pensamentos repelidos pelo nosso

positivismo (perdoe-me a palavra). Pareceu-me, pois, original estrear com

uma coleção de sonetos. Victor Hugo preferiu a ode, Canalis[170] domina a

poesia lírica, Béranger monopoliza a canção, Casimir Delavigne abraça a

tragédia, e Lamartine, a meditação.

— O senhor é clássico ou romântico? — perguntou Lousteau.

O ar admirado de Luciano denotava tão completa ignorância do estado

das coisas na república das letras que Lousteau achou necessário esclarecê-

lo:

— Meu caro, o senhor chega em meio de uma encarniçada batalha. É

preciso decidir-se imediatamente. A literatura está dividida, é claro, em

várias zonas, mas os nossos grandes homens se dividem em dois campos. Os

monarquistas são românticos, os liberais são clássicos.[171] A divergência de

opiniões literárias junta-se à divergência das opiniões políticas, e daí se

deriva uma guerra em que tomam parte todas as armas, tinta em torrentes,

ditos de espírito como ferro pontiagudo, calúnias ferinas, alcunhas mordazes

trocadas entre as glórias nascentes e as glórias em decadência. Por um

capricho singular, os monarquistas românticos pedem a liberdade literária e

a revogação das leis que dão formas convencionais à nossa literatura,

enquanto os liberais querem manter a unidade, o ritmo do alexandrino e os

temas clássicos. As opiniões literárias estão, pois, em desacordo, em cada um

desses campos, com as opiniões políticas. Se for eclético, não terá ninguém a

seu lado. Que partido vai tomar?

— Quais são os mais fortes?

— Os jornais liberais têm muito mais assinantes que os monarquistas e

ministeriais; entretanto, Canalis assoma, embora monarquista e religioso,

embora protegido pela Corte e pelo clero. Bah! sonetos! Isso é literatura de

antes de Boileau — disse ainda Estêvão ao ver Luciano perturbado por ter de escolher entre duas bandeiras. — Seja romântico. Os românticos compõem-

se de gente moça, e os clássicos são perucas: os românticos acabarão por

suprimi-los.

A palavra “peruca” era o único epíteto achado pelo jornalismo

romântico, para com ele ridicularizar os clássicos.

— “As boninas” — disse Luciano, escolhendo o primeiro dos dois sonetos

que justificavam o título e começavam o livro.

 

Boninas do prado, as vossas várias cores

Não refulgem tão só para alegrar a vista.

Falam da alma vossa, onde o poeta e o artista

Como em um poema leem os seus próprios amores.

 

Vossos estames de ouro engastados em prata

Revelam um tesouro, a que irão adorar;

Vossas fibras que estão sempre e sempre a sangrar

Dizem de quanta pena a glória enfim os mata.

 

Será por terdes vós desabrochado quando,

Em um mundo melhor, Jesus, ressuscitando,

Fez surgir um mais puro, um mais divino amor,

 

Que no outono entreabris vossa alva corola,

Dizendo do prazer que em perfume se evola,

Ou para nos lembrar a mocidade em flor?[172]

 

Luciano ressentiu-se com a perfeita imobilidade de Lousteau, enquanto

este ouvia o soneto; não conhecia ainda a desconcertante impassibilidade

que dá o hábito da crítica e que caracteriza os jornalistas fatigados de prosa,

de dramas e de versos. O poeta, habituado a receber aplausos, engoliu o

desapontamento. Leu a seguir o soneto preferido pela sra. de Bargeton e por

alguns dos seus amigos do cenáculo.

“Este talvez lhe arranque uma palavra”, pensou.

SEGUNDO SONETO

a bonina

 

Eu sou a bonina, e a mais bela que outrora

Fulgurava, entre mil, na relva constelada.

Pela minha beleza é que era procurada,

Meus dias se banhavam numa eterna aurora.

 

Mas agora, ai de mim, todo o meu ser invade

Um novo e triste dom, uma graça fatal.

E condenou-me a sorte a dizer a verdade

De que venho a morrer (porque a ciência é mortal).

 

Não mais silêncio e paz; com seu inquieto dedo

Vem amor arrancar-me o almejado segredo

E me deixa depois o coração desnudo.

 

Só a mim me maltrata e despetala a gente,

Só a mim lançam fora em gesto negligente,

Pisando-me, no chão, depois que sabem tudo.

 

Ao terminar, o poeta lançou um olhar para o seu aristarco. Estêvão

Lousteau contemplava as árvores do viveiro.

— E então? — disse-lhe Luciano.

— E então, meu caro, continue! Não o estou escutando? Em Paris,

escutar sem falar é um elogio.

— Não está cansado? — perguntou Luciano.

— Continue — respondeu bastante bruscamente o jornalista.

Luciano leu o soneto seguinte; mas leu com a morte no coração, porque

o sangue-frio impenetrável de Lousteau lhe gelava a eloquência. Se tivesse

mais prática na vida literária, saberia que, entre os escritores, o silêncio e a

incivilidade em tais circunstâncias denotam a inveja causada por uma bela obra, do mesmo modo que as palavras de admiração demonstram o prazer

inspirado por um trabalho medíocre que lhes tranquiliza o amor-próprio.

 

TRIGÉSIMO SONETO

a camélia

 

Cada flor nos vem ler o Livro da Natura:

A rosa é para o amor e para a alacridade,

A alma da violeta é enamorada e pura,

O lírio esplende e luz toda a simplicidade.

 

Mas a camélia, um monstro da cultura,

Que é rosa sem odor, lírio sem majestade,

Parece abrir, ao frio, pela estação mais dura,

Para os tédios sutis e vãos da virgindade.

 

Amo vê-las, no entanto, em teatros, pelas frisas,

Assim frias, assim alabastrinas, lisas,

Coroas de pudor, essas flores tão calmas

 

Que às negras cabeleiras se unem em conchegos

E sabem inspirar, como os mármores gregos,

Um puro e casto amor às nossas pobres almas.

 

— Que pensa de meus pobres sonetos? — perguntou formalmente

Luciano.

— Quer mesmo a verdade? — disse Lousteau.

— Sou ainda muito moço para a poder amar, e é muito grande o meu

desejo de triunfar para poder ouvi-la sem me ferir, mas não sem desespero

— respondeu Luciano.

— Pois bem, meu caro, o estilo confuso do primeiro evidencia obra feita

em Angoulême e à qual, sem dúvida, não quer agora renunciar porque lhe

deu muito trabalho. O segundo e o terceiro cheiram já a Paris. Mas leia outro

mais — acrescentou com um gesto que pareceu encantador ao grande

homem da província.

Encorajado pelo pedido, Luciano leu com mais confiança o soneto

preferido por D’Arthez e Bridau, talvez por causa do colorido.

 

QUINQUAGÉSIMO SONETO

a tulipa

Sou a tulipa — olhai! — a bela flor de Holanda,

Tão bela que por mim os flamengos avaros

Alto preço darão, como aos diamantes raros,

Sendo eu bem senhoril, como a estirpe o demanda.

 

Pois meu porte é feudal, e, como uma Iolanda

Com sua longa saia em solenes pregueados,

Eu ostento na veste esses brasões pintados,

Gole em fundo de prata, ouro e púrpura em banda.

 

Com os raios do sol e o vermelhão real

Me foi tecendo o Jardineiro Celestial

Esse vestido assim, de uma trama tão fina.

 

Mas se nenhuma flor me iguala na realeza,

Aromas não verteu a ingrata Natureza

No meu cálice esguio como um vaso da China.

 

— Que diz? — perguntou Luciano, depois de um momento de silêncio

que lhe pareceu de duração desmesurada.

 

IX – UM BOM CONSELHO

 

— Meu caro — disse gravemente Estêvão Lousteau, olhando para a biqueira

das botas que Luciano trouxera de Angoulême e que ainda usava para

acabar com elas —, aconselho-o a enegrecer as botas com sua tinta de

escrever a fim de poupar graxa, a fazer palitos de suas penas para ter a

aparência de haver jantado, quando passear, ao sair do Flicoteaux, pela

linda alameda deste jardim, à procura de um banco qualquer. Torne-se

segundo escrevente de oficial de diligências, se tem ânimo para isso, caixeiro

se tem chumbo nos rins, ou soldado se gosta da música militar. O senhor tem

capacidade para três poetas, mas, antes de conseguir aparecer, terá seis vezes tempo para morrer de fome, se conta com o produto de suas poesias

para viver. Ora, suas intenções, a julgar por suas palavras cheias de

inexperiência, são as de cunhar moedas com o tinteiro. Não julgo a sua

poesia; ela é superior em muito a todas as poesias que atravancam as

prateleiras das livrarias. Esses elegantes “rouxinóis”, vendidos um pouco mais

caro que os outros por causa do papel velino, vêm quase todos pousar às

margens do Sena, onde o senhor poderá estudar seus cantos, se quiser um

dia fazer uma instrutiva peregrinação pelos cais de Paris,[173] desde a

estante do pai Jerônimo, na Pont Notre-Dame, até a Pont-Royal. Lá

encontrará todos os ensaios poéticos, inspirações, elevações, hinos, cantos,

baladas, odes; enfim, todas as ninhadas descascadas nos últimos sete anos

pelas musas, cobertas de poeira, salpicadas de lama pelos carros, violadas por

todos os passantes que desejam ver a vinheta do título. O senhor não

conhece pessoa alguma, não tem entrada em nenhum jornal, suas Boninas

ficarão castamente fechadas como as conserva aí; jamais desabrocharão ao

sol da publicidade no prado das grandes margens, esmaltado pelos florões

prodigalizados pelo ilustre Dauriat, o livreiro das celebridades, o rei das

Galeries de Bois. Meu pobre filho, também eu cheguei como você com o

coração cheio de ilusões, impelido pelo amor da arte, arrastado para a glória

por invencíveis impulsos: encontrei as dificuldades da profissão, as

dificuldades das livrarias e o positivo da miséria. Minha exaltação hoje

abafada, minha primeira efervescência escondiam-me o mecanismo do

mundo; foi preciso vê-lo, chocar-me com todas as suas engrenagens, ir de

encontro aos seus eixos, engraxar-me nos óleos, ouvir o rangido das correntes

e dos volantes. Como eu, irá saber que, sob todas as coisas belas com que

sonhamos, agitam-se criaturas, paixões e necessidades. Será fatalmente

arrastado a tomar parte em lutas horríveis, de obra contra obra, homem

contra homem, partido contra partido, nas quais a gente precisa bater-se

sistematicamente para não ser abandonada pelos seus. Esses combates

ignóbeis desencantam a alma, depravam o coração e fatigam em pura perda,

porque os nossos esforços hão de servir muitas vezes para fazer coroar um

homem a quem odiamos, um talento de segunda classe, apresentado, a

pesar nosso, como um gênio. A vida literária tem também seus bastidores. Os

êxitos roubados ou merecidos, eis o que a plateia aplaude; os meios, sempre repugnantes, os comparsas degradantes, a claque e os encarregados da

maquinaria, eis o que os cenários escondem. O senhor está ainda entre os

espectadores. É tempo ainda, desista antes de pôr o pé sobre o primeiro

degrau do trono disputado por tantas ambições, e não se desonre como eu,

para poder viver. (Uma lágrima molhou os olhos de Estêvão Lousteau.) Sabe

como é que eu vivo? — continuou com um acento de raiva. — Algum

dinheiro que minha família me pôde dar foi logo malbaratado. Encontrava-

me sem recursos depois de ter visto aceita uma peça no Théâtre-Français.

No Théâtre-Français, a proteção de um príncipe ou de um primeiro gentil-

homem da câmara real não é o suficiente para que se consiga abrir caminho:

os artistas não cedem senão àqueles que ameaçam seu amor-próprio. Se o

senhor tiver o poder de fazer com que digam que o jovem galã sofre de asma,

que a jovem primeira-dama esconde uma fístula onde quer que seja, que a

soubrette tem mau hálito, será representado no dia seguinte. Não sei se

daqui a dois anos eu, que lhe falo, estarei em condições de obter semelhante

poder: são precisos muitos amigos. Onde, como e por que meio ganhar meu

pão? É pergunta que me tenho feito muitas vezes ao sentir as ferroadas da

fome. Depois de variadas tentativas, após haver escrito um romance

anônimo comprado por duzentos francos pelo Doguereau, que com ele

também não ganhou grande coisa, ficou provado que somente o jornalismo

me poderia dar o que comer. Mas como entrar nessas barracas de feira? Não

lhe contarei minhas diligências e minhas solicitações inúteis, nem seis meses

passados a trabalhar como extranumerário, a ouvir dizer que eu afugentava

os assinantes, quando, pelo contrário, os atraía. Passemos por alto sobre esses

vexames. Faço uma revista agora nos teatros do bulevar, quase de graça, para

o jornal de Finot, esse gorducho que almoça ainda duas ou três vezes por

mês no Café Voltaire (mas aonde você não vai!). Finot é o redator chefe.

Para viver, vendo as entradas que os diretores desses teatros me dão para

recompensar minha “boa vontade” na crítica, e os livros que as livrarias me

mandam e dos quais devo falar. Enfim, eu trafico, depois que Finot se

satisfaz, com os tributos “em espécie” mandados pelos industriais, a favor dos

quais ou contra os quais ele me permite escrever alguns artigos. A Água

carminativa, a Pasta das sultanas, o Óleo cerebral, a Mistura brasileira

pagam vinte ou trinta francos por um artigo engraçado. Sou forçado a ladrar atrás do livreiro que fornece poucos exemplares ao jornal; na redação ficam

dois que Finot vende, e é preciso que haja outros dois para eu vender. O

livreiro avaro de exemplares é desancado ainda que publique uma obra-

prima. É ignóbil, mas vivo dessa profissão, eu, como centenas de outros! E

não pense que o mundo político é mais belo que esse ofício literário: tudo em

ambos é corrupção. Os homens, neles, ou são corruptores ou corrompidos.

Quando se trata de um empreendimento mais importante do editor, ele me

paga, com medo de ser atacado. Assim, meus lucros estão sempre de acordo

com os prospectos. Quando os prospectos surgem como epidemia, o dinheiro

entra a rodo no meu bolso, e posso então regalar os meus amigos. Quando

não há negócios de livraria, vou jantar no Flicoteaux. As artistas pagam

também os elogios, mas as mais hábeis pagam as críticas; é que, mais do que

tudo, temem o silêncio. Desse modo é que uma crítica, feita para ser alhures

contestada, vale mais e é mais bem paga do que um seco elogio, esquecido no

dia seguinte. A polêmica, meu caro, é o pedestal das celebridades. Nesse

trabalho de espadachim das ideias e das reputações industriais, literárias e

dramáticas, ganho cinquenta escudos por mês, posso vender um romance

por quinhentos francos, e começo a ser considerado um homem temível.

Quando, em vez de viver em casa de Florina,[174] à custa de um droguista

que se dá ares de milorde, estiver alojado em “minha” casa e trabalhando no

grande jornal em que hei de manter um rodapé, nesse dia, meu caro, Florina

se tornará uma grande artista. Quanto a mim, não sei o que poderei vir a ser

então: ministro ou homem honesto, tudo é possível. (Levantou a cabeça

humilhada, mergulhou na folhagem um olhar de desespero acusador,

terrível.) E tenho uma bela tragédia aceita! E tenho em meus papéis um

poema que há de morrer! E eu era bom e tinha o coração puro! Tenho por

amante uma atriz do Panorama-Dramatique, eu, que sonhava belos amores

entre as mais distintas mulheres da alta-roda! Enfim, por causa de um

exemplar recusado ao meu jornal pelo livreiro, digo mal de um livro que em

verdade acho belo!

Luciano, comovido até as lágrimas, apertou a mão de Estêvão.

— Fora do mundo literário — disse o jornalista levantando-se e dirigindo-

se para a grande allée de l’Observatoire, por onde os dois poetas caminharam

como para dar mais ar aos pulmões — não há uma só pessoa que conheça a horrível odisseia pela qual se chega ao que é preciso chamar, segundo o

talento, a voga, a moda, a reputação, o renome, a celebridade, o favor do

público; diferentes degraus que levam à glória e que não a substituem

nunca. Esse fenômeno moral, tão brilhante, compõe-se de mil incidentes

que variam com tal rapidez que não há exemplos de dois homens que

houvessem triunfado por caminhos iguais. Canalis e Nathan[175] são dois

fatos dissemelhantes que não se repetirão jamais. D’Arthez, que se esfalfa a

trabalhar, tornar-se-á célebre por um outro qualquer acaso. Essa tão desejada

reputação é, quase sempre, uma prostituta coroada. Sim, para as baixas obras

da literatura, ela representa a pobre moça que se enregela pelas esquinas;

para a literatura de segunda classe, é a manteúda que sai dos lugares

suspeitos do jornalismo e a quem eu sirvo de rufião; para a literatura

vitoriosa, é a brilhante cortesã insolente, que possui bens, paga contribuições

ao Estado, recebe os grandes senhores, a quem trata e maltrata, tem sua

libré, sua carruagem, e pode fazer esperar os credores ávidos! Ai daqueles

para quem ela é, como para mim outrora e hoje para o senhor, um anjo de

asas matizadas, revestido de alva túnica, trazendo numa das mãos uma

palma verde e na outra uma espada flamejante, partilhando a um tempo da

abstração mitológica que vive no fundo de um poço e da pobre menina

virtuosa exilada num arrabalde, que se enriquece unicamente pelas

claridades da virtude e em consequência de uma nobre coragem, e que voa

para os céus com o caráter imaculado, quando não morre enlameada,

bolinada, violada, esquecida, no carro dos pobres. Os homens de cérebro

cintados de bronze, corações ainda quentes sob as camadas de neve da

experiência, são raros nesta terra que aí vê a nossos pés! — continuou ele,

mostrando a grande cidade que fumegava ao cair do dia.

Uma visão do cenáculo passou rapidamente diante dos olhos de Luciano

e o deixou comovido, mas foi arrastado por Lousteau, que continuava sua

espantosa lamentação.

— São raros e esparsos nesta cuba em fermentação. Raros como os

verdadeiros amantes no mundo amoroso, raros como as fortunas honestas no

mundo das finanças, raros como um homem puro no jornalismo. A

experiência do primeiro que me disse isto que lhe estou dizendo perdeu-se,

como a minha será sem dúvida inútil para o senhor. Idêntico ardor precipita todos os anos, da província, para cá, número igual, para não dizer crescente,

de ambições imberbes que se lançam, cabeça erguida e coração altivo, ao

assalto da moda, essa espécie de princesa Turandocte dos Mil e um dias,

para quem cada qual deseja ser o príncipe Calaf![176] Mas nenhum

consegue decifrar o enigma. Tombam todos na fossa da desgraça, na lama do

jornal, nos charcos das livrarias. Respigam, esses mendigos, artigos

biográficos, crônicas e “fatos de Paris” nos jornais, ou livros encomendados

por lógicos negociantes de papel impresso, que preferem a asneira vendida

em quinze dias à obra-prima que leva tempo para ser colocada. Lagartas

esmagadas antes de se tornarem borboletas, vivem de vergonhas e de

infâmias, prontos a morder ou a gabar um talento nascente, por ordem de

um paxá de O Constitucional,[177] de O Diário,[178] do Debates,[179] a um

sinal dos livreiros, a pedido de um camarada invejoso, ou, muitas vezes, por

um jantar. Aqueles que vencem esses obstáculos esquecem as misérias do

começo. Eu, que lhe estou falando, escrevi durante seis meses artigos, onde

pus a flor de minha inteligência, para um miserável que os fazia passar por

seus e que, por causa dessas amostras, foi admitido como redator de um

rodapé. Não me colocou como colaborador; não me deu sequer cem sous. E

sou forçado a lhe estender a mão e a apertar a dele.

— Mas por quê? — disse arrogantemente Luciano.

— Posso vir a precisar colocar dez linhas no seu rodapé — respondeu

friamente Lousteau. — Enfim, meu caro, o segredo da fortuna, em

literatura, não é trabalhar; trata-se de explorar o trabalho de outrem. Os

proprietários de jornais são empreiteiros, e nós pedreiros. Assim é que,

quanto mais medíocre for um homem, tanto mais rapidamente subirá. Pode

engolir sapos, resignar-se a tudo, lisonjear as pequenas e baixas paixões dos

sultões literários, como um recém-chegado de Limoges, Heitor Merlin,[180]

que se encarrega já da política num jornal da direita e que trabalha em nosso

jornaleco: vi-o apanhar o chapéu que um redator chefe deixara cair no

chão. Sem fazer sombra a ninguém, o tal rapaz passará entre as ambições

rivais, enquanto elas estiverem se batendo. Você me dá pena. Vejo-me em

você tal como eu era, e estou certo de que, dentro de um ou dois anos, será

como sou agora. Pensará que existe alguma inveja oculta, algum interesse

pessoal nestes conselhos amargos, que apenas são ditados pelo desespero do condenado que não pode sair do inferno. Ninguém ousa dizer o que eu lhe

grito com a dor do homem atingido no coração e como um outro Jó sobre a

esterqueira: eis aqui minhas úlceras!

— Lutar, nesse campo ou nalgum outro, devo lutar — disse Luciano.

— Pois saiba, então! — tornou Lousteau —, a luta há de ser sem tréguas,

se tiver talento, porque sua melhor sorte será a de não o possuir. A

austeridade de sua consciência hoje pura curvar-se-á diante daqueles de

quem o seu êxito depende, daqueles que com uma palavra lhe podem dar a

vida, mas não a querem dizer, porque, acredite, o escritor da moda é mais

insolente, mais duro para com os recém-chegados do que o mais brutal dos

livreiros. Onde o livreiro não vê senão uma perda, o escritor receia um rival:

um o despede, o outro o esmaga. Para fazer obras belas, meu pobre rapaz,

terá de, a penadas de tinta, esgotar seu coração de ternura, de seiva, de

energia, e ostentar paixões, sentimentos, frases! Sim, escreverá em lugar de

agir, cantará em vez de combater, há de amar, há de odiar, há de viver, em

seus livros; mas quando tiver reservado suas riquezas para o estilo, seu ouro e

sua púrpura para os personagens, tendo de andar em andrajos pelas ruas de

Paris, feliz por haver criado, rivalizando com o Registro Civil,[181] um ser

chamado Adolfo, Corina, Clarissa ou Manon,[182] quando houver estragado

sua vida e seu estômago para dar vida a essa criação, há de vê-la caluniada,

traída, vendida, deportada para as lacunas do olvido pelos jornalistas,

sepultada por seus melhores amigos. Poderá o senhor esperar pelo dia em

que sua criatura se há de animar, acordada, por quem? Quando? Como? Há

um livro magnífico, o pianto da incredulidade, Obermann,[183] que passeia

solitário pelo deserto das prateleiras e que desde então os livreiros chamam

ironicamente um “rouxinol”: quando chegará a Páscoa dele? Ninguém o

sabe! Antes de tudo, procure encontrar um livreiro bastante ousado para

imprimir as Boninas. Não se trata de fazer com que as paguem, mas apenas

que as imprimam. Há de ver então cenas bem curiosas.

Esta rude tirada, pronunciada com os acentos diversos das paixões que

exprimia, caiu como uma avalanche de neve sobre o coração de Luciano e

nele pôs um frio glacial. Permaneceu de pé e silencioso alguns instantes. Por

fim, seu coração, como que estimulado pela horrível poesia das dificuldades,

expandiu-se. Luciano apertou a mão de Lousteau e lhe disse:

— Hei de triunfar!

— Bem! — respondeu o jornalista —, mais um cristão que desce à arena

para se entregar às feras. Meu caro, esta noite há uma representação no

Panorama-Dramatique, só começa às oito horas; são seis. Vá pôr a sua melhor

roupa; torne-se enfim apresentável. Venha buscar-me. Moro na Rue de La

Harpe, nos altos do Café Servel, no quarto andar. Passaremos primeiro pela

casa de Dauriat. O senhor persiste, não é verdade? Pois bem, far-lhe-ei

conhecer esta noite um dos reis da livraria e alguns jornalistas. Depois do

espetáculo, cearemos na casa de minha amante com alguns amigos, porque

nosso jantar não pode ser contado como uma refeição. Ali há de encontrar

Finot, redator chefe e proprietário do meu jornal. Conhece o dito de

Minette, do Vaudeville: O tempo é um grande bacalhau?[184] Pois bem,

para nós, o acaso é também um grande bacalhau, é preciso tentá-lo.

— Jamais hei de esquecer este dia — falou Luciano.

— Venha munido de seu manuscrito e esteja bem trajado, menos por

causa de Florina do que do livreiro.

A bonomia de camarada, que sucedeu ao grito violento do poeta ao

pintar a guerra literária, tocou Luciano tão vivamente como o havia

comovido outrora, no mesmo local, a palavra grave e religiosa de D’Arthez.

Animado pela perspectiva de uma luta imediata entre ele e os homens, o

inexperiente rapaz não calculava, absolutamente, a realidade dos

sofrimentos morais que o jornalismo lhe pressagiava. Não se sabia colocado

entre dois caminhos diferentes, entre dois sistemas representados pelo

cenáculo e pelo jornalismo, dos quais um era longo, honrado, seguro; o outro,

semeado de escolhos e perigoso, cheio de charcos lamacentos onde sua

consciência teria de se conspurcar. Seu caráter levava-o a escolher o

caminho mais curto e aparentemente mais agradável, a empregar os meios

decisivos e rápidos. Não via, naquele momento, nenhuma diferença entre a

nobre amizade de D’Arthez e a fácil camaradagem de Lousteau. Aquele

espírito inconstante percebeu no jornal uma arma ao seu alcance, sentiu-se

bastante hábil para a manejar e desejou tomá-la. Deslumbrado pelos

oferecimentos de seu novo amigo, cuja mão tocou a sua com uma

negligência que lhe pareceu graciosa, poderia acaso adivinhar que no

exército da imprensa todos precisam de amigos, como os generais precisam de soldados? Lousteau, vendo-o resoluto, aliciava-o na esperança de o

prender a si. O jornalista estava em seu primeiro amigo, como Luciano em

seu primeiro protetor: um queria passar a cabo de esquadra, o outro queria

ser soldado.

 

X – TERCEIRA VARIEDADE DE LIVREIRO

 

O neófito voltou alegremente ao hotel, onde se preparou com indumentária

tão cuidada como a do nefasto dia em que se apresentou na Opéra no

camarote da marquesa d’Espard. Mas já suas roupas lhe ficavam melhor; ele

as havia afeiçoado a seu corpo. Pôs as belas calças colantes de cor clara,

bonitas botas com borlas, que lhe haviam custado quarenta francos, e a

casaca de baile. Mandou frisar, perfumar, enrolar em anéis brilhantes os

abundantes e finos cabelos louros. Sua fronte se ornou de uma audácia

colhida no sentimento de seu valor e de seu futuro. Suas mãos de mulher

foram tratadas, as unhas em amêndoa tornaram-se polidas e rosadas. Sobre a

gola de cetim negro, a curva branca do queixo resplandecia. Jovem mais

bonito jamais descera a colina do Quartier Latin. Belo como um deus grego,

Luciano tomou um fiacre, e às sete horas menos um quarto estava à porta da

casa do Café Servel. A porteira convidou-o a subir quatro andares dando-lhe

complicadíssimas noções topográficas. Munido dessas informações,

encontrou, não sem custo, uma porta aberta ao fim de um longo corredor

escuro, e reconheceu o quarto clássico do Quartier Latin. A miséria dos

moços perseguia-o ali como na Rue de Cluny, em casa de D’Arthez, em casa

de Chrestien, em toda parte! Mas em toda parte ela se distingue pelo cunho

que lhe dá o caráter do paciente. Ali, a miséria era sinistra. Um leito de

nogueira, sem cortinas, embaixo do qual se enrugava um pobre tapete de

liquidação; nas janelas, cortinas amareladas pela fumaça de uma chaminé

que não funcionava e pela dos charutos; sobre a lareira, uma lâmpada

Carcel,[185] dada por Florina e até ali salva da casa de penhores; depois,

uma cômoda de acaju desbotado, uma mesa carregada de papéis, e, sobre

eles, duas ou três penas arrepiadas, nenhum livro além dos trazidos na

véspera ou durante o dia: tal era o mobiliário desse quarto, despido de

objetos de valor, mas que escancarava ao olhar o ignóbil conjunto de botas velhas a bocejar num canto, meias velhas já transformadas em renda;

noutro, charutos esmagados, lenços sujos, camisas em dois volumes, gravatas

com três edições. Era enfim um acampamento literário mobiliado de coisas

negativas e da mais estranha nudez que imaginar se possa. Na mesa de

cabeceira, carregada de livros lidos durante a manhã, brilhava o tubo

vermelho de Fumade.[186] Sobre o pano da lareira erravam uma navalha,

um par de pistolas e uma caixa de charutos. Num painel, Luciano viu

floretes cruzados sob uma máscara. Três cadeiras e duas poltronas, dignas do

pior quarto mobiliado daquela rua, completavam o mobiliário. O quarto, ao

mesmo tempo sujo e triste, denunciava uma vida sem descanso e sem

dignidade: ali se dormia e ali se trabalhava às pressas. Era habitado por

necessidade; sentia-se o desejo de o abandonar. Que diferença entre esta

cínica desordem e a limpa, a decente miséria de D’Arthez!...

Esta advertência envolta numa lembrança não foi ouvida por Luciano,

porque Estêvão lhe disse um gracejo a mascarar a nudez do vício:

— Eis o meu canil; o meu grande cenário está na Rue de Bondy, no novo

apartamento que o tal droguista mobiliou para Florina, e que inauguramos

esta noite.

Estêvão Lousteau vestia calças pretas, botas bem lustradas, casaca

abotoada até o pescoço. A camisa, que Florina, sem dúvida, iria fazer-lhe

trocar, estava oculta por uma gravata de veludo. Escovava o chapéu para lhe

dar aparência de novo.

— Partamos — convidou Luciano.

— Ainda não; espero um livreiro que me deve trazer uns cobres. Talvez

joguemos. Não tenho vintém; e além disso preciso de luvas.

Nesse momento os dois novos amigos ouviram os passos de um homem

no corredor.

— É ele — disse Lousteau. — Vai ver, meu caro, a forma que toma a

providência quando se manifesta aos poetas. Antes de contemplar em sua

glória Dauriat, o livreiro da moda, você verá o livreiro do Quai des Augustins,

o livreiro agiota, negociante do ferro-velho literário, o normando ex-

vendedor de hortaliças.

— Chegue-se, velho tártaro! — gritou Lousteau.

— Aqui estou — disse uma voz de sino rachado.

— Com dinheiro?

— Dinheiro? Não há mais disso nas livrarias — respondeu um homem

ainda moço que entrou, olhando para Luciano com ar curioso.

— Antes de tudo, você me deve cinquenta francos — tornou Lousteau.

— Depois, aqui estão dois exemplares de Viagem no Egito,[187] que,

segundo se diz, é uma maravilha, tem muitas gravuras, vender-se-á: Finot

foi pago por dois artigos que eu terei de escrever. Item, dois dos últimos

romances de Victor Ducange, um autor ilustre no Marais.[188] Item, dois

exemplares da segunda obra de um novato, Paul de Kock,[189] que trabalha

no mesmo gênero. Item, dois de Yseult de Dôle,[190] uma bonita obra da

província. Preço de venda ao público, cem francos ao todo. Assim é que me

deve cem francos, meu pequeno Barbet.

Barbet olhou os livros examinando-lhes a borda das folhas e as capas.

— Oh! estão em perfeito estado de conservação — exclamou Lousteau.

— A Viagem não foi cortada, nem o Paul de Kock, nem o Ducange, nem

aquele que ali está sobre a lareira, Considerações sobre o simbólico.[191] Este

dou-lhe de presente. O mito é tão enfadonho que dele não quero nem traço;

dou-o logo ao senhor para não ver dele saírem milhares de traças.

— Mas então — perguntou Luciano — como é que há de escrever os

artigos?

Barbet lançou a Luciano um olhar de profundo espanto e voltou depois

os olhos para Lousteau, escarnecendo:

— Vê-se que este senhor não tem a desgraça de ser homem de letras.

— Não, Barbet, não, este senhor é um poeta, um grande poeta que há de

enterrar Canalis, Béranger e Delavigne. Há de ir longe, a menos que se jogue

no rio, e mesmo assim haveria de ir até Saint-Cloud.

— Se eu tivesse de dar um conselho ao senhor — disse Barbet — seria o

de deixar os versos e entregar-se à prosa. Ninguém mais quer versos nas

livrarias do cais.

Barbet vestia uma velha sobrecasaca abotoada por um único botão, e de

gola sebosa. Conservava o chapéu na cabeça e calçava sapatos rústicos; o

colete entreaberto deixava ver uma boa camisa de fazenda resistente. Ao

rosto redondo, perfurado por dois olhos ávidos, não faltava uma certa

bonomia; tinha porém no olhar essa vaga inquietação das pessoas que estão habituadas a ouvir pedidos de dinheiro e que o têm. Parecia franco e fácil,

tanto a sua esperteza se acolchoava de banha. Depois de ter sido caixeiro,

abrira, havia dois anos, uma pequena loja miserável, no cais, de onde se

atirava à caça dos jornalistas, dos escritores e impressores, deles comprando a

baixo preço os livros que lhes eram dados, e ganhando assim uns dez ou

vinte francos por dia. Rico à força de economias, farejava as necessidades de

todos e andava à espreita de algum bom negócio. Descontava à taxa de

quinze ou vinte por cento, aos autores em apuros, as promissórias dos

livreiros, aos quais ia no dia seguinte comprar, a preço discutido como se fora

para comprar à vista, alguns bons livros, já solicitados, para entregar-lhes

depois suas próprias letras em vez de dinheiro. Havia estudado, e a

instrução lhe servia para evitar cuidadosamente a poesia e os romances

modernos. Gostava das pequenas especulações; livros de utilidade cujos

direitos definitivos lhe custavam mil francos e que podia explorar à sua

vontade, tais como A história da França ao alcance das crianças, a

Contabilidade em vinte lições, ou a Botânica das moças. Deixara já que lhe

fugissem dois ou três bons livros, após haver feito os autores voltarem vinte

vezes à sua casa, sem se decidir a comprar-lhes os manuscritos. Se lhe

censuravam a covardia, ele mostrava o relato de famoso processo cujo

manuscrito, copiado dos jornais, nada lhe custara, e lhe dera a ganhar dois

ou três mil francos. Barbet era o livreiro medroso, que vive de nozes e de pão,

que assina poucas duplicatas, que mete a unha nas faturas para conseguir

abatimentos, que mascateia em pessoa os seus livros não se sabe onde, mas

que os coloca e os faz pagar. Era o terror dos impressores, que não sabiam

como agarrá-lo: pagava com desconto as suas faturas adivinhando-lhes

necessidades urgentes; depois não mais voltava àqueles a quem escorchara,

com receio de alguma cilada.

— E então? Continuamos nossos negócios? — perguntou Lousteau.

— Eh! meu pequeno — respondeu familiarmente Barbet —, tenho em

minha loja seis mil volumes para vender. Ora, segundo a sentença de um

velho livreiro, os livros não são libras. A livraria vai mal.

— Se fosse à loja dele, meu caro Luciano — disse Estêvão —, encontraria

sobre um balcão de carvalho, que procede do leilão do espólio de algum

negociante de vinho falido, uma vela não espevitada, porque assim se consome menos depressa. Mal iluminadas por essa luz anônima, perceberia

prateleiras vazias. Para guardar essa coisa nenhuma, um rapazinho de blusa

azul sopra os dedos, bate as solas dos sapatos ou cruza os braços como um

cocheiro de fiacre na boleia. Olhe! não há ali mais livros do que os que tenho

aqui. Ninguém poderá adivinhar que espécie de negócio lá se faz.

— Aqui está uma letra de cem francos a três meses — observou Barbet,

que não pôde deixar de sorrir ao tirar do bolso um papel timbrado — e levarei

seus livros. Veja, senhor, não posso mais dar dinheiro a vista, as vendas estão

muito difíceis. Pensei que estivesse precisando de mim; estava sem dinheiro

algum; assinei esta letra para lhe ser agradável, porque não gosto de dar

minha assinatura.

— Assim, quer ainda minha estima e agradecimentos? — disse Lousteau.

— Apesar de que não se pagam letras com sentimentos, mesmo assim

aceitarei sua estima — respondeu Barbet.

— Mas faltam-me luvas, e os perfumistas cometerão a infâmia de recusar

o seu papel — disse Lousteau. — Olhe, aí está uma soberba gravura, aí, na

primeira gaveta da cômoda; vale oitenta francos e isto antes da “letra” e

depois do “artigo”,[192] porque a propósito escrevi um bem chistoso. Havia

por onde atacar Hipócrates recusando os presentes de Artaxerxes.[193]

Opa! essa bela estampa convém a todos os médicos que recusam o

pagamento exagerado dos sátrapas parisienses. Encontrará ainda sob a

gravura uma trintena de romanças. Vamos, leve tudo e me dê quarenta

francos.

— Quarenta francos! — disse o livreiro, num cacarejo de galinha

assustada — quando muito vinte! e ainda arrisco perdê-los.

— Onde estão os vinte francos? — disse Lousteau.

— Palavra, não sei se os tenho — disse Barbet, esquadrinhando as

algibeiras. — Aqui estão. O senhor me esfola; o senhor tem sobre mim um

ascendente...

— Bem, partamos — disse Lousteau, que tomou o manuscrito de

Luciano e lhe pôs um traço à tinta por baixo do cordão.

Continuar: parte 5 de 12