A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
compreendido o quanto a amante era inocente. Inábil nas falsidades das
atrizes, Corália era incapaz de se defender das rivalidades e das manobras
dos bastidores, que eram a força de Florina, rapariga tão perigosa, tão
depravada já, quanto a amiga era simples e generosa. Os papéis deviam vir
ao encontro de Corália; era muito altiva para os implorar aos autores e
suportar-lhes condições desonrosas, ou para se entregar ao primeiro
jornalista que a ameaçasse com seu amor e sua pena. O talento, já tão raro na
arte extraordinária do comediante, é apenas uma das condições do triunfo.
O talento é mesmo por muito tempo prejudicial se não se fizer acompanhar
de um certo jeito para a intriga, que faltava absolutamente a Corália.
Prevendo os sofrimentos que aguardavam a amante na estreia no
Gymnase, Luciano quis a todo custo assegurar-lhe o triunfo. O dinheiro que
restava da mobília vendida, o que Luciano ganhava, tudo havia sido
empregado nas vestimentas, no arranjo do camarim, em todas as despesas
de uma primeira representação. Dias antes desta, Luciano deu um passo
humilhante a que foi levado pelo amor: pegou as letras de Fendant e
Cavalier, foi à Rue des Bourdonnais, ao Casulo de Ouro, para propor a
Camusot que as descontasse. Não estava ainda bastante corrompido a ponto
de poder lançar-se friamente ao assalto. Espalhou muitas dores pelo
caminho, juncou-o dos mais terríveis pensamentos, dizendo para si mesmo,
alternativamente: — Sim!... Não!... Chegou, entretanto, ao pequeno gabinete
escuro e frio, que recebia luz de um pátio interior, onde imperava
gravemente não mais o enamorado de Corália, o bonachão, o desocupado, o
libertino, o incrédulo Camusot que ele conhecia, mas o grave pai de família, o
negociante lardeado de manhas e virtudes, mascarado no puritanismo
judiciário de magistrado do Tribunal de Comércio e defendido pela frieza
patronal de um chefe de firma, cercado de auxiliares, de caixas, de pastas verdes de faturas e de amostras, encouraçado por sua mulher,
acompanhado por uma filha trajada com simplicidade. Luciano fremiu da
cabeça aos pés ao abordá-lo, porque o digno negociante atirou-lhe um olhar
de insolente indiferença, idêntico ao que ele já havia lido nos olhos dos
cambistas.
— Aqui estão alguns valores, senhor; ficar-lhe-ia muitíssimo obrigado se
quisesse descontá-los — disse ele conservando-se de pé à frente do
negociante sentado.
— O senhor tomou-me alguma coisa, lembro-me bem — respondeu
Camusot.
Luciano explicou então a situação de Corália, em voz baixa e falando ao
ouvido do negociante de sedas, que pôde perceber as palpitações do poeta
humilhado. Não fazia parte das intenções de Camusot que Corália sofresse
uma queda. Enquanto escutava, o negociante olhava as assinaturas e sorria.
Ele era juiz no Tribunal do Comércio; conhecia a situação dos livreiros. Deu
quatro mil e quinhentos francos a Luciano, com a condição de pôr no
endosso: valor recebido em sedas. Luciano dirigiu-se imediatamente a
Braulard e arranjou muito bem as coisas a fim de assegurar a Corália um
êxito completo. Braulard prometeu comparecer e compareceu ao ensaio
geral a fim de combinar as ocasiões em que a claque empregaria suas
manzorras para apoiar o triunfo. Luciano deu o resto do dinheiro a Corália,
escondendo-lhe a diligência junto a Camusot. Acalmou as inquietações da
atriz e de Berenice, que não sabiam mais como sustentar a casa. Martainville,
que era um dos homens desse tempo que melhor conheciam o teatro, viera
muitas vezes fazer Corália ensaiar o papel. Luciano obtivera de vários
redatores monarquistas a promessa de artigos favoráveis, não desconfiava da
desgraça.
Na véspera da estreia de Corália, aconteceu algo funesto a Luciano. Saíra
o livro de D’Arthez. O redator chefe do jornal de Heitor Merlin deu a obra a
Luciano como ao homem mais capaz de criticá-la; devia sua fatal reputação
no gênero aos artigos que escrevera sobre Nathan. Havia muita gente no
jornal, todos os redatores lá se encontravam. Martainville lá estava para
entender-se quanto a um ponto da polêmica geral adotada pelos jornais
monarquistas contra os liberais. Nathan, Merlin, todos os colaboradores do Alvorada ali conversavam sobre a influência do jornal semi-hebdomadário
de Leão Giraud, influência tanto mais perniciosa quanto a linguagem dele
era prudente, moderada e sábia. Começava-se a falar no cenáculo da Rue
des Quatre-Vents; chamaram-no uma convenção. Havia-se decidido que os
jornais monarquistas fariam guerra de morte sistemática àqueles perigosos
adversários, que se tornaram de fato os executores da Doutrina, seita fatal
que viria a derrubar os Bourbon, no dia em que a mais mesquinha das
vinganças iria conduzir o mais brilhante dos escritores monarquistas[365] a
uma aliança com ela. D’Arthez, cujas opiniões absolutistas eram
desconhecidas, envolvido no anátema lançado contra o cenáculo, iria ser a
primeira vítima.
Seu livro deveria ser desancado, segundo a palavra clássica. Luciano
recusou-se a escrever o artigo. Essa recusa suscitou enorme escândalo entre
os homens eminentes do partido monarquista presentes à reunião.
Declarou-se claramente a Luciano que um recém-convertido não tinha
vontade própria. Se não lhe conviesse pertencer à monarquia e à religião,
podia voltar ao seu primeiro campo. Merlin e Martainville chamaram-no à
parte e lhe fizeram ver que ele entregava Corália ao ódio que os jornais
liberais lhe votavam, e que ela não teria mais os jornais monarquistas para se
defender. A atriz iria sem dúvida dar lugar a uma polêmica ardente que lhe
valeria a fama por que suspiram todas as mulheres de teatro.
— Você não conhece nada dessas coisas — disse Martainville. — Ela
representará por três meses em meio dos fogos cruzados de nossos artigos e
conseguirá trinta mil francos na província durante os três meses de férias.
Por um desses escrúpulos que o impedirão de ser um político e que a gente
calca aos pés, você vai matar Corália e o seu próprio futuro. Vai jogar fora o
seu ganha-pão.
Luciano viu-se forçado a escolher entre D’Arthez e Corália. Sua amante
estaria perdida se ele não agredisse a D’Arthez no grande jornal e no
Alvorada. O pobre poeta foi para casa com a morte na alma. Sentou-se junto
à lareira, no quarto, e leu o livro — um dos mais belos da literatura moderna.
Semeou lágrimas de página em página. Hesitou por muito tempo, mas
escreveu enfim um artigo cheio de humor, como tão bem sabia fazer. Tratou
o livro tal como as crianças que pegam de um belo pássaro para o depenar e martirizar. Suas terríveis zombarias iriam causar dano ao livro. Relendo a bela
obra, todos os bons sentimentos de Luciano acordaram: atravessou Paris à
meia-noite, chegou à casa de D’Arthez, viu através dos vidros tremeluzir a
casta e tímida luz que tantas vezes contemplara com o sentimento de
admiração que a nobre constância daquele verdadeiro grande homem
merecia. Não se sentiu com forças para subir, ficou parado junto a um marco
durante alguns instantes. Finalmente, impelido por seu anjo bom, bateu.
Encontrou D’Arthez a ler e sem fogo.
— Que lhe aconteceu? — perguntou o jovem escritor ao ver Luciano e
adivinhando que somente uma horrível desgraça o poderia ameaçar.
— Teu livro é sublime! — exclamou Luciano com os olhos cheios de
lágrimas. — E eles me mandam atacá-lo!
— Pobre criança, comes um pão bem duro! — observou D’Arthez.
— Só lhe peço um favor: guarde segredo quanto a esta visita e me deixe
no meu inferno com as minhas ocupações de condenado. Talvez não seja
possível chegar-se a coisa alguma sem ter feito calos nos pontos mais
sensíveis do coração.
— Sempre o mesmo! — disse D’Arthez.
— Acredita que eu seja um covarde? Não, D’Arthez, não; sou uma
criança ébria de amor.
E lhe explicou sua posição.
— Vejamos o artigo — disse D’Arthez, comovido com tudo o que Luciano
acabava de lhe contar sobre Corália.
Luciano estendeu-lhe o manuscrito. D’Arthez leu e não pôde deixar de
sorrir:
— Que fatal emprego da inteligência! — exclamou.
Calou-se, porém, ao ver Luciano numa poltrona, acabrunhado por uma
dor verdadeira.
— Quer deixá-lo para que eu o corrija? Mando-o amanhã — disse ele. —
A zombaria desonra uma obra; uma crítica séria e grave é às vezes um elogio.
Saberei deixar o seu artigo mais honroso para você e para mim. Aliás,
somente eu conheço bem as minhas deficiências.
— Ao subir uma encosta árida, algumas vezes se encontra um fruto para
apaziguar os ardores de horrível sede. Encontrei esse fruto, aqui está! — disse Luciano, que se jogou nos braços de D’Arthez, neles chorou, e disse
beijando-lhe a fronte:
— Parece-me que eu lhe confio a minha consciência para que ma
devolva um dia!
— Considero o arrependimento periódico uma grande hipocrisia —
declarou solenemente D’Arthez —; o arrependimento converte-se desse
modo num prêmio outorgado às más ações. O arrependimento é uma
virgindade que nossa alma deve a Deus. O homem que se arrepende duas
vezes é, pois, um horrível sicofanta. Receio muito que não vejas senão
absolvições nos teus arrependimentos.
Essas palavras fulminaram Luciano, que voltou a passos lentos para a
Rue de la Lune. No dia seguinte o poeta levou ao jornal o artigo, recomposto
por D’Arthez, mas sentiu-se desse dia em diante devorado por uma
melancolia que não soube mais disfarçar. Quando, à noite, viu a sala do
Gymnase cheia, sentiu as terríveis emoções que se experimenta numa estreia
de teatro, e que nele eram aumentadas por toda a força de seu amor. Todas
as suas vaidades estavam em jogo. Seu olhar abarcava todas as fisionomias,
como o de um acusado abarca os rostos dos jurados e dos juízes. Um
murmúrio fazia-o estremecer; um pequeno incidente em cena, as entradas
e saídas de Corália, as menores inflexões de voz faziam-no sobressaltar-se
desmesuradamente. A peça em que Corália estreava era dessas que caem,
mas que se erguem depois; e a peça tombou. Ao entrar em cena, Corália não
foi aplaudida e se sentiu ferida pela frieza da plateia. Nos camarotes, não
teve outros aplausos além dos de Camusot. Pessoas colocadas no balcão e nas
galerias fizeram calar o negociante por meio de chitões repetidos. As galerias
impuseram silêncio à claque quando esta se entregou a palmas
evidentemente exageradas. Martainville aplaudia corajosamente, e a
hipócrita Florina, Nathan e Merlin o imitavam. No final, diante do fracasso
da peça, apresentou-se uma multidão no camarim de Corália, mas essa
multidão agravou o mal com as palavras de consolo que lhe diziam. A atriz
entregou-se ao desespero, menos por ela que por Luciano.
— Fomos traídos por Braulard — exclamou ele.
Corália foi presa de uma febre horrível, tinha sido atingida no coração.
No dia seguinte foi-lhe impossível representar. Viu assim a carreira interrompida. Luciano escondeu-lhe os jornais, que abriu na sala de jantar.
Todos os cronistas atribuíam a Corália a queda da peça. Havia superestimado
as suas forças; ela, que fazia as delícias dos bulevares, estava deslocada no
Gymnase; havia sido guindada até lá por uma louvável ambição, mas não
avaliara seus recursos, não havia valorizado convenientemente o papel.
Luciano leu ainda a respeito de Corália crônicas compostas pelo sistema
hipócrita de seus artigos sobre Nathan. Uma raiva digna de Milão de
Crotona,[366] quando sentiu as mãos presas no carvalho que ele mesmo
havia aberto, enfureceu Luciano. Empalideceu. Seus amigos davam a
Corália, numa fraseologia admirável de bondade, de interesse e
complacência, os mais pérfidos conselhos. Ela deveria limitar-se, diziam,
justamente aos papéis que os pérfidos autores das notas infames sabiam ser
inteiramente contrários ao seu talento. Assim eram os jornais monarquistas
industriados sem dúvidas por Nathan. Quanto aos liberais e aos pequenos
jornais, desenvolviam as perfídias, as zombarias que Luciano havia praticado.
Corália ouviu um ou dois soluços, saltou do leito, correu para Luciano,
percebeu os jornais, quis vê-los e leu. Depois, foi de novo deitar-se e guardou
silêncio.
Florina fazia parte da conspiração, havia-lhe previsto o desenlace, e
sabia o papel de Corália; tivera Nathan por ensaiador. A administração, que
estava interessada na peça, entendeu dar o papel de Corália a Florina. O
diretor foi procurar a pobre atriz, que encontrou abatida e a chorar. Mas, ao
ouvir diante de Luciano que Florina sabia o papel e que era impossível deixar
de representar a peça naquela noite, levantou-se, saltou da cama.
— Eu representarei! — exclamou. E caiu desmaiada.
Florina obteve assim o papel e com ele criou reputação, pois reergueu a
peça e teve uma ovação em cada jornal, tornando-se em consequência a
grande atriz que todos sabem.
O triunfo de Florina exasperou Luciano no mais alto grau.
— Uma miserável, a quem deste o pão na mão! Se o Gymnase quiser,
pode resgatar o teu contrato. Serei conde de Rubempré. Hei de fazer
fortuna e de casar contigo.
— Que tolice! — disse Corália, lançando-lhe um olhar mortiço.
— Tolice? — exclamou Luciano. — Pois dentro de alguns dias hás de habitar uma bela casa, hás de ter uma carruagem, e escreverei para ti uma
peça!
Tomou dois mil francos e correu a Frascati. O desgraçado lá se demorou
sete horas devorado pelas fúrias, embora aparentasse na fisionomia
indiferença e calma. No decorrer do dia e de uma parte da noite, sua sorte
passou pelas mais diversas alternativas: chegou a possuir trinta mil francos, e
saiu sem vintém. Ao regressar, encontrou Finot, que o esperava para obter
seus pequenos artigos. Luciano cometeu o erro de queixar-se.
— Ah! nem tudo são flores — respondeu Finot. — Você fez tão
brutalmente sua meia-volta à direita que tinha de perder o apoio da
imprensa liberal, muito mais forte que a ministerial e monarquista. Não se
deve nunca passar de um campo a outro sem antes haver preparado boa
cama, na qual a gente se console das perdas que se devem prever. Em
qualquer caso, porém, um homem prudente vai ver os amigos, expõe-lhes
suas razões, e faz-se aconselhar por eles na sua abjuração. Os amigos se
tornam, desse modo, cúmplices; lastimam-no, mas concordam então, como
Nathan e Merlin com seus camaradas, em se prestarem serviços mútuos.
Lobo não come lobo. Você, neste negócio, andou com a inocência de um
cordeiro. Será forçado a mostrar os dentes a seu novo partido para dele tirar
coxa ou asa. Assim sendo, você foi necessariamente sacrificado a Nathan.
Não lhe esconderei o barulho, o escândalo e a gritaria que seu artigo contra
D’Arthez levanta. Marat é um santo, comparado com você. Preparam-se
ataques contra você, nos quais o seu livro sucumbirá. Em que ponto está o
seu romance?
— Aqui estão as últimas folhas — respondeu Luciano mostrando um
pacote de provas.
— Atribuem-lhe os artigos não assinados dos jornais ministeriais e ultras
contra esse pequeno D’Arthez. Atualmente, as alfinetadas diárias do
Alvorada são dirigidas contra o pessoal da Rue des Quatre-Vents, e as
zombarias são tanto mais ferinas quanto mais engraçadas. Há todo um
corrilho político grave e sério, por trás do jornal de Leão Giraud, um corrilho
a quem o poder pertencerá mais cedo ou mais tarde.
— Há oito dias que não ponho os pés no Alvorada.
— Pois bem, pense nos meus pequenos artigos. Faça cinquenta imediatamente, eu lhe pagarei por atacado. Faça-os, porém, na cor do
jornal.
E Finot deu negligentemente a Luciano o assunto de uma sátira contra
o ministro da Justiça, contando-lhe uma pretensa anedota que, segundo
afirmou, corria pelos salões. Para ressarcir seu prejuízo no jogo, Luciano,
apesar do abatimento, encontrou inspiração, mocidade, espírito, e compôs
trinta artigos de duas colunas cada um. Terminados os artigos, Luciano
dirigiu-se à livraria de Dauriat, na certeza de ali encontrar Finot, a quem os
queria entregar secreta-mente. Tinha, aliás, necessidade de fazer o livreiro
explicar-se quanto à não publicação das Boninas. Encontrou a loja cheia de
inimigos. À sua entrada, fez-se um silêncio completo; as conversas cessaram.
Ao se ver colocado no banco dos réus do jornalismo, Luciano sentiu a
coragem redobrar, e disse consigo mesmo, como na alameda do
Luxembourg: “Hei de triunfar!”.
Dauriat não foi brando nem protetor; mostrou-se chocarreiro,
encastelado nos seus direitos. Faria aparecer as Boninas quando bem
entendesse. Esperaria até que a posição de Luciano lhe garantisse o êxito;
havia comprado a plena propriedade. Quando Luciano objetou que Dauriat
era obrigado a publicar suas Boninas em virtude da própria natureza do
contrato e da qualidade dos contratantes, o livreiro sustentou o contrário e
afirmou que judicialmente não podia ser constrangido a uma operação que
reputava má; era ele o único juiz da oportunidade. Havia aliás uma solução
que todos os tribunais admitiriam: Luciano era senhor de lhe devolver os mil
escudos; de retomar o livro e de o fazer publicar por um livreiro
monarquista. Luciano retirou-se mais ferido pelo tom moderado que Dauriat
empregara do que o fora pela sua pompa autocrática, por ocasião de sua
primeira entrevista. Assim, as Boninas só seriam, decerto, publicadas quando
Luciano tivesse por si forças auxiliares de amizades poderosas ou se tornasse
ele mesmo poderoso.
O poeta voltou para casa lentamente, presa de um desalento que o teria
levado ao suicídio, se a ação tivesse acompanhado o pensamento. Viu Corália
na cama, pálida e sofredora.
— Um desempenho numa peça, ou ela morre! — exclamou Berenice,
enquanto ele se vestia para ir à Rue du Mont-Blanc à casa da srta. des Touches, que oferecia uma grande recepção, onde se deveriam encontrar
Des Lupeaulx, Vignon, Blondet, a sra. d’Espard e a sra. de Bargeton.
A recepção era oferecida a Conti,[367] o grande compositor que possuía
uma das melhores vozes fora do teatro, a Cinti, a Pasta, a Garcia, a
Levasseur[368] e a duas ou três vozes ilustres da alta sociedade. Luciano
esgueirou-se até o sítio onde a marquesa, sua prima e a sra. de Montcornet se
achavam sentadas. O desgraçado rapaz assumiu ar despreocupado,
contente e feliz. Gracejou, apresentou-se como era nos seus dias de
esplendor. Não queria demonstrar que precisava da sociedade. Espraiou-se
sobre os serviços que prestara ao partido monarquista, dando como prova os
brados de ódio lançados pelos liberais.
— Será largamente recompensado por isso, meu amigo — afirmou-lhe a
sra. de Bargeton, dirigindo-lhe gracioso sorriso. — Vá depois de amanhã à
chancelaria com o Socó e Des Lupeaulx; lá há de encontrar o seu decreto
assinado pelo rei. O ministro da Justiça há de levá-lo amanhã ao palácio,
mas, sendo dia do conselho, regressará tarde. Entretanto, se eu souber o
resultado durante a noite, mandarei à sua casa. Onde mora o senhor?
— Eu virei — respondeu Luciano, com vergonha de confessar que
morava na Rue de la Lune.
— Os duques de Lenoncourt e de Navarreins falaram ao rei a seu
respeito — acrescentou a marquesa. — Elogiaram no senhor uma dessas
dedicações absolutas e completas que merecem recompensa brilhante, a fim
de o vingar das perseguições do partido liberal. Aliás, o nome e o título dos
Rubempré, aos quais tem direito pela sua mãe, vão se tornar ilustres no
senhor. O rei ordenou à Sua Grandeza, esta noite, que lhe levasse um
decreto autorizando o sr. Luciano Chardon a usar o nome e o título dos
condes de Rubempré, dada a sua qualidade de neto do último conde, por
parte de mãe. “Favoreçamos os pintassilgos[369] do Pindo”, disse sua
majestade depois de haver lido o seu soneto sobre os lírios, do qual, por
felicidade, minha prima se recordava, e que dera ao duque. “Sobretudo
quando o rei pode fazer o milagre de os transformar em águias”, respondeu o
sr. de Navarreins.
Luciano sentiu uma efusão tal que teria enternecido a qualquer mulher
menos profundamente magoada do que o estava Luísa d’Espard de Nègrepelisse. Quanto mais belo via Luciano, tanto mais sede de vingança ela
sentia. Des Lupeaulx tinha razão: faltava tato a Luciano. Não soube
adivinhar que o decreto de que lhe falavam era apenas uma caçoada, como
tão bem a sabia fazer a sra. d’Espard. Encorajado por esse triunfo e pela
lisonjeira distinção que lhe testemunhava a srta. des Touches, demorou-se
até as duas da manhã para poder falar-lhe em particular. Soubera nos meios
monarquistas que a srta. des Touches colaborava secretamente numa peça
em que deveria representar a grande maravilha do momento, a pequena
Fay.[370] Ao ficarem desertos os salões, ele conduziu a srta. des Touches a
um sofá, no toucador, e lhe contou de maneira tão tocante a desgraça de
Corália e a sua própria que a ilustre hermafrodita das letras prometeu-lhe
fazer com que o papel principal fosse dado a Corália.
No dia seguinte à recepção, no momento em que Corália, feliz com a
promessa da srta. des Touches a Luciano, voltava à vida e almoçava com o
seu poeta, Luciano leu no jornal de Lousteau, no qual fora publicada, a
narrativa epigramática da anedota inventada sobre o ministro da Justiça e
sua mulher. A mais negra das maldades se escondia ali sob o espírito mais
incisivo. O rei Luís xviii era admiravelmente posto em cena e ridicularizado,
sem que a justiça pudesse intervir. Eis o fato ao qual o partido liberal
procurava dar visos de verdade, mas que serviu apenas para aumentar o
número de suas espirituosas calúnias.
A paixão de Luís xviii por uma correspondência galante e almiscarada,
cheia de madrigais e de centelhas, era ali interpretada como a última
expressão do seu amor que se estava tornando verbalístico: passara, dizia-se,
do fato à ideia. A ilustre amante, tão cruelmente atacada por Béranger[371]
sob o pseudônimo de Otávia, armara-se, por isso, dos mais sérios receios. A
retribuição de suas expressões esmorecia. Quanto mais Otávia desenvolvia
inteligência, tanto mais o amante se mostrava frio e fraco. Otávia acabara por
descobrir a causa de seu desfavor. Seu poder estava ameaçado pelas
primícias e pelo picante de uma nova correspondência do régio escritor com
a esposa do ministro da Justiça. A excelente senhora era tida como incapaz
de escrever um bilhete. Deveria ser, assim, pura e simplesmente a editora
responsável de alguma ambição audaz. Quem poderia estar escondido por
trás daquelas saias? Depois de algum tempo de observação, Otávia descobrira que o rei se correspondia com o seu ministro. Urdiu um plano. Auxiliada por
um amigo fiel, reteve um dia o ministro na Câmara graças a uma discussão
tempestuosa e conseguiu uma entrevista na qual irritou o amor-próprio do
rei com a revelação do embuste. Luís xviii foi tomado por um acesso de
cólera bourbônica e real. Explode contra Otávia; duvida. Otávia oferece-lhe
a oportunidade de uma prova imediata pedindo-lhe que escrevesse um
bilhete que exigisse, formalmente, uma resposta. Atônita, a desgraçada
mulher manda chamar o marido na Câmara. Tudo, porém, fora previsto:
naquele momento ele ocupava a tribuna. A mulher suou sangue e lágrimas,
fez apelo a toda a sua inteligência, e respondeu de conformidade com a
inteligência que encontrou. “Seu ministro dir-lhe-á o resto”, exclamou
Otávia, rindo do desapontamento do rei.
Apesar de mentiroso, o artigo feriu vivamente o ministro da Justiça, a
sua esposa e o rei. Finot guardou invariável segredo; dizia-se, porém, que
fora Des Lupeaulx quem inventara a anedota. Esse artigo espirituoso e
mordaz fez a alegria dos liberais e do partido de Monsieur.[372] Luciano
também com ele se divertiu, nele vendo apenas um boato engraçado. No dia
seguinte foi buscar Des Lupeaulx e o barão du Châtelet. O barão ia agradecer
a sua grandeza. O sr. de Châtelet, nomeado conselheiro de Estado em
serviço extraordinário, havia sido feito conde com a promessa da prefeitura
de Charente logo que o então prefeito tivesse completado os poucos meses
necessários para obter o máximo de sua aposentadoria. O conde de Châtelet,
porque o du fora inserido no decreto, fez Luciano subir para a sua
carruagem e o tratou em pé de igualdade. Sem os artigos de Luciano, talvez
não houvesse subido tão rapidamente; a perseguição dos liberais fora para
ele como que um pedestal. Des Lupeaulx estava no ministério, no gabinete
do diretor-geral. Ao avistar Luciano, esse funcionário deu um salto de
admiração e olhou para Des Lupeaulx.
— Como! O senhor ousa vir aqui? — disse o diretor-geral a Luciano
estupefato. — Sua Grandeza rasgou o seu decreto já lavrado; ei-lo aqui. — E
mostrou o primeiro papel que encontrou à mão rasgado em quatro. — O
ministro quis conhecer o autor do assombroso artigo de ontem, e aqui está o
seu autógrafo — acrescentou o diretor-geral apresentando a Luciano os
originais. — O senhor se diz monarquista, cavalheiro!, e é colaborador desse infame jornal que faz embranquecer os cabelos dos ministros, que magoa o
centro e o arrasta para o abismo? O senhor almoça Corsário,[373] Espelho,
Constitucional, Correio;[374] janta O Diário e Alvorada; e ceia com
Martainville, o mais terrível antagonista do ministério, que vive a impelir o rei
para o absolutismo, coisa que nos levaria a uma revolução, tão seguramente
como se ele se entregasse à extrema esquerda. O senhor é um jornalista
muito inteligente, mas jamais há de ser um político. O ministro denunciou-o
como autor do artigo ao rei, e este, na sua cólera, repreendeu o sr. duque de
Navarreins, seu primeiro gentil-homem de serviço. O senhor criou inimigos
tanto mais poderosos quanto mais lhe eram favoráveis! Aquilo que pareceria
natural da parte de um inimigo é espantoso da parte de um amigo.
— Mas você é então uma criança, meu caro? — exclamou Des Lupeaulx.
— Você me comprometeu! As sras. d’Espard e de Bargeton, a sra. de
Montcornet, que haviam respondido por você, devem estar furiosas. O
duque terá de fazer recair a sua cólera sobre a marquesa, e a marquesa terá
de repreender a prima. Não vá à casa delas! Espere.
— Aí vem sua grandeza, saia! — disse o diretor-geral.
Luciano viu-se na Place Vendôme, estonteado como se acabasse de
receber na cabeça um golpe de maça. Regressou a pé, pelos bulevares,
procurando julgar-se. Sentiu-se joguete de indivíduos invejosos, ávidos e
pérfidos. Quem era ele nesse mundo de ambições? Uma criança que corria
atrás dos prazeres e gozos da vaidade, sacrificando-lhes tudo; um poeta sem
reflexão profunda, dirigindo-se de uma luz para outra luz como uma
borboleta, sem plano fixo, escravo das circunstâncias, pensando bem e
agindo mal. Sua consciência foi-lhe um carrasco impiedoso. Por fim, não
tinha mais dinheiro e se sentia esgotado pelo trabalho e pela dor. Seus artigos
não apareciam senão depois dos de Merlin e de Nathan. Caminhava à
aventura, perdido nas suas reflexões. Ao passar por alguns gabinetes
literários, que começavam a fornecer livros além dos jornais, viu um cartaz
em que, sob um título bizarro, completamente desconhecido para ele,
brilhava seu nome: Pelo sr. Luciano Chardon de Rubempré. Seu livro
aparecera, e ele de nada soubera, os jornais calavam-se. Ficou ali, com os
braços caídos, imóvel, sem perceber um grupo de moços dos mais elegantes,
entre os quais se achavam Rastignac, De Marsay e outros seus conhecidos. Não notou Miguel Chrestien e Leão Giraud, que se dirigiam para ele.
— É o sr. Chardon? — perguntou-lhe Miguel, num tom que fez vibrarem
como cordas as entranhas de Luciano.
— Não me conhece? — perguntou, empalidecendo.
Miguel cuspiu-lhe no rosto.
— Aí vão os honorários dos seus artigos contra D’Arthez. Se todos
imitassem o meu proceder, em causa própria ou na dos amigos, a imprensa
se tornaria o que dever ser: um sacerdócio respeitável e respeitado!
Luciano, que cambaleara, apoiou-se em Rastignac, dizendo-lhe, assim
como a De Marsay:
— Senhores, não se recusarão decerto a ser minhas testemunhas. Mas
vou primeiro tornar a partida igual e o caso sem remédio.
E deu vivamente uma bofetada em Miguel, que não a esperava. Os
jovens elegantes e os amigos de Miguel jogaram-se entre o republicano e o
monarquista, a fim de evitar que a luta tomasse aspecto plebeu. Rastignac
agarrou Luciano e o conduziu para sua casa, na Rue Taitbout, a dois passos
da cena, que tivera lugar no Boulevard de Gand, à hora do almoço. Essa
circunstância evitou os ajuntamentos usuais nesses casos. De Marsay veio
buscar Luciano, a quem os dois janotas forçaram a almoçar alegremente,
acompanhando-o ao Café Inglês, onde se embriagaram.
— Você é forte na espada? — perguntou De Marsay.
— Nunca peguei numa.
— Na pistola? — perguntou Rastignac.
— Em toda a minha vida nunca dei um tiro.
— Você tem o acaso a seu favor, você é um adversário terrível, pode
matar o seu homem — afirmou De Marsay.
XXXIX – JOÍSMO
Por felicidade, Luciano encontrou Corália na cama e dormindo. A atriz havia
representado numa pequena peça, de improviso, e conseguira uma desforra,
obtendo aplausos legítimos e não estipendiados. Essa noite, não esperada
pelos seus inimigos, fez com que o diretor resolvesse dar-lhe o papel
principal na peça de Camille Maupin, pois acabara por descobrir a causa do insucesso de Corália na estreia. Encolerizado com as intrigas de Florina e de
Nathan para fazer fracassar uma atriz a quem considerava, o diretor
prometera a Corália a proteção da administração. Às cinco horas da manhã,
Rastignac veio procurar Luciano.
— Meu caro, você está alojado conforme o sistema de sua rua — disse ele
por todo cumprimento. — Sejamos os primeiros a chegar ao lugar do
encontro, na estrada de Clignancourt; é de bom gosto, e devemos dar bons
exemplos.
— O programa é este — disse De Marsay logo que o fiacre rodou pelo
Faubourg Saint-Denis. — Batem-se a pistola, a vinte e cinco passos,
caminhando à vontade um para o outro, até a distância de quinze passos.
Cada um tem cinco passos e três tiros a dar, nada mais que isso. Haja o que
houver, vocês se comprometem ambos a ficar nisso. Carregaremos as pistolas
do adversário e as testemunhas dele carregarão as suas. As armas foram
escolhidas pelas quatro testemunhas reunidas num armeiro. Asseguro-lhe
que ajudamos o acaso: você vai ter pistolas de cavalaria.
Para Luciano, a vida tornara-se um sonho mau; era-lhe indiferente viver
ou morrer. A coragem peculiar ao suicida serviu-lhe então para aparecer
forrado de bravura aos olhos dos espectadores do duelo. Permaneceu em seu
lugar, sem avançar. Essa despreocupação passou por frio cálculo; acharam
que o poeta era muito forte. Miguel Chrestien avançou até o seu limite. Os
dois adversários fizeram fogo ao mesmo tempo, porque os insultos haviam
sido considerados iguais. Ao primeiro tiro, a bala de Chrestien aflorou o
queixo de Luciano, e a bala deste passou a dez pés acima da cabeça do
adversário. Ao segundo tiro, a bala de Miguel se alojou na gola da sobrecasaca
do poeta, a qual, por felicidade, era acolchoada e guarnecida de entretela.
Ao terceiro tiro, Luciano recebeu a bala no peito e caiu.
— Está morto? — perguntou Miguel.
— Não — respondeu o cirurgião —, há de curar-se.
— Tanto pior! — respondeu Miguel.
— Oh, sim, tanto pior — repetiu Luciano, deixando correr as lágrimas.
Ao meio-dia, a desgraçada criança encontrava-se no seu quarto e no seu
leito. Haviam sido necessárias cinco horas e grandes cuidados para o
transportar para ali. Apesar de seu estado não oferecer perigo, exigia precauções: a febre poderia trazer complicações desagradáveis. Corália
abafou seu desespero e aflição. Durante todo o tempo em que o amante
esteve em perigo, ela passou as noites com Berenice decorando o novo papel.
A fase de perigo durou dois meses. A pobre criatura representou por vezes
papéis que exigiam alegria, enquanto pensava consigo mesma: “O meu
Luciano querido talvez esteja morrendo neste instante!”.
Durante esse tempo, Luciano foi cuidado por Bianchon. Deveu a vida ao
devotamento desse amigo tão cruelmente ofendido, mas a quem D’Arthez
confiara o segredo do caso de Luciano, para justificar o infeliz poeta. Num
momento de lucidez — porque Luciano teve uma febre nervosa gravíssima
— Bianchon, que suspeitava certa generosidade em D’Arthez, interrogou o
seu doente. Luciano disse-lhe que não escrevera nenhum outro artigo com
respeito ao livro de D’Arthez a não ser o trabalho sério e grave inserido no
jornal de Heitor Merlin.
No fim do primeiro mês, a casa Fendant e Cavalier abriu falência.
Bianchon aconselhou à atriz que ocultasse a Luciano esse terrível golpe.
O famoso romance O arqueiro de Carlos ix, publicado sob um título
bizarro, não obtivera o menor êxito. Para arranjar dinheiro, antes de
declarada a falência, Fendant, sem que Cavalier soubesse, vendera a obra,
em bloco, a merceeiros que a ofereciam a baixo preço através de vendedores
ambulantes. O livro de Luciano passara a guarnecer o parapeito das pontes e
dos cais de Paris. A livraria do Quai des Augustins, que tomara certa
quantidade de exemplares do romance, perdeu uma soma considerável com
a queda súbita do preço: os quatro volumes in-12 que adquirira por quatro
francos e cinquenta eram oferecidos a cinquenta sous. O comércio lançava
altos brados, e os jornais continuavam a guardar o mais profundo silêncio.
Barbet não previra essa lavagem, pois acreditava no talento de Luciano.
Contra seus hábitos, havia-se abalançado à compra de duzentos exemplares,
e a perspectiva de uma perda o deixava louco. Dizia horrores de Luciano.
Barbet tomou afinal um partido heroico: pôs seus exemplares a um canto da
loja, por uma teimosia peculiar aos avaros, e deixou que seus confrades se
desembaraçassem dos seus a preço vil. Mais tarde, em 1824, quando o belo
prefácio de D’Arthez, o mérito do próprio livro e dois artigos escritos por
Leão Giraud restituíram a essa obra o seu valor, Barbet vendeu seus exemplares, um a um, ao preço de dez francos.
Apesar das precauções de Berenice e de Corália, foi-lhes impossível
impedir Heitor Merlin de vir ver o amigo que supunha moribundo. E ele lhe
fez beber gota a gota a taça amarga daquele caldo, palavra então em uso nas
livrarias para descrever a operação funesta a que se haviam entregado
Fendant e Cavalier, publicando o livro de um principiante. Martainville, o
único fiel a Luciano, escreveu magnífico artigo a favor do livro; mas a
exasperação era tal, quer entre os liberais, quer entre os ministeriais, contra o
redator chefe do Aristarco,[375] de A Auriflama[376] e do Flâmula
Branca, que os esforços daquele corajoso atleta, que pagava com dez cada
um dos insultos do liberalismo, só prejudicaram a Luciano.
Nenhum jornal levantou a luva da polêmica, por mais vivos que tivessem
sido os ataques do bravo monarquista. Corália, Berenice e Bianchon
fecharam a porta a todos os pretensos amigos de Luciano, não obstante seus
vivos protestos. Foi, porém, impossível fechá-la aos oficiais de diligências. A
falência de Fendant e Cavalier tornara suas letras cobráveis em virtude de
uma das disposições do código comercial, das mais atentatórias aos direitos
de terceiros, que são assim privados dos benefícios do prazo estabelecido.
Luciano viu-se vigorosamente perseguido por Camusot. Ao ouvir aquele
nome, a atriz compreendeu a terrível e humilhante diligência que tivera de
fazer o seu poeta, para ela tão angélico. Amou-o por isso dez vezes mais e
não quis implorar a Camusot. Quando os oficiais apareceram em busca do
prisioneiro, encontraram-no na cama e recuaram ante a ideia de o conduzir.
Foram à casa de Camusot antes de pedir ao presidente do tribunal que
indicasse a casa de saúde à qual devessem recolher o devedor. Camusot
correu imediatamente à Rue de la Lune. Corália desceu e tornou a subir
trazendo consigo as peças do processo que, devido ao endosso, declarava
Luciano comerciante. Como obtivera esses papéis de Camusot? Que
promessa lhe teria feito? Guardou o mais sombrio silêncio, mas tornara a
subir quase morta.
Corália representou na peça de Camille Maupin e muito contribuiu para
o triunfo da ilustre hermafrodita literária. A criação desse papel foi o último
clarão daquela bela lâmpada. Na vigésima representação, no momento em
que Luciano, restabelecido, começava a passear, a se alimentar e falava em retomar seus trabalhos, Corália caiu doente. Um pesar secreto a devorava.
Berenice acreditou sempre que, para salvar Luciano, houvesse ela prometido
voltar para Camusot. A atriz sofreu a mortificação de ver dar o seu papel a
Florina. Nathan ameaçou declarar guerra ao Gymnase, caso Florina não
sucedesse a Corália. Representando o papel até o último instante para que a
rival não o tomasse, Corália ultrapassou as possibilidades de suas forças. O
Gymnase fizera-lhe alguns adiantamentos durante a moléstia de Luciano, e
ela nada mais podia pedir no caixa do teatro. Apesar de sua boa vontade,
Luciano encontrava-se ainda incapaz de trabalhar. Cuidava, além disso, de
Corália, a fim de aliviar Berenice. O pobre casal chegou então à miséria
absoluta. Teve, no entanto, a felicidade de encontrar em Bianchon um
médico hábil e dedicado, que lhe abriu crédito numa farmácia. A situação de
Corália e de Luciano tornou-se logo conhecida dos fornecedores e do
proprietário. Os móveis foram embargados. A costureira e o alfaiate, não mais
temendo o jornalista, perseguiram a todo o transe os dois boêmios. Enfim,
não havia ninguém mais que fornecesse crédito às duas infelizes crianças,
além do farmacêutico e do salsicheiro. Luciano, Berenice e a doente viram-
se obrigados durante cerca de uma semana a comer apenas porco, sob todas
as formas engenhosas e variadas que os salsicheiros lhe dão. A carne de
porco, muito indigesta por natureza, agravou o mal da atriz. Luciano, afinal,
viu-se constrangido pela miséria a ir à casa de Lousteau reclamar os mil
francos que o antigo amigo, aquele traidor, lhe devia. Foi essa, em meio de
suas desgraças, a diligência que mais lhe custou. Lousteau já nem mais podia
entrar em sua casa na Rue de La Harpe. Dormia em casa dos amigos, era
perseguido, cercado como uma lebre. Luciano só pôde encontrar seu fatal
introdutor no mundo literário no Flicoteaux. Lousteau almoçava na mesma
mesa onde Luciano o havia encontrado, para sua desgraça, no dia em que se
afastara de D’Arthez.
Lousteau convidou-o a almoçar, e Luciano aceitou! Quando, ao saírem
juntos do Flicoteaux, Cláudio Vignon, que ali comera naquele dia, Lousteau,
Luciano e o grande escritor desconhecido que mantinha o guarda-roupa em
casa de Samanon quiseram ir ao Voltaire tomar café, não conseguiram
completar trinta sous, reunindo todo o troco que retinia em seus bolsos.
Flanaram pelo Jardin du Luxembourg, esperando encontrar por ali um livreiro, e, de fato, viram um dos mais famosos editores daquele tempo, ao
qual Lousteau pediu quarenta francos, obtendo-os. Lousteau dividiu a soma
em quatro partes iguais, ficando cada escritor com uma.
A miséria havia matado toda altivez e todo sentimento em Luciano;
chorou diante dos três artistas contando-lhes sua situação. Mas cada um dos
seus camaradas tinha também um drama tão cruelmente horrível a contar
que, ao acabarem de parafrasear a sua própria tragédia, o poeta se
considerou o menos desgraçado dos quatro. Todos eles tinham necessidade
de esquecer tanto sua infelicidade como o pensamento que duplicava essa
infelicidade.
Lousteau correu ao Palais-Royal para ali jogar os nove francos que lhe
restavam dos dez. O grande desconhecido, apesar de possuir uma amante
divina, foi a uma vil casa suspeita espojar-se na lama de voluptuosidades
perigosas. Vignon foi ao Petit Rocher du Cancale com a intenção de ali beber
duas garrafas de vinho de Bordeaux para obnubilar a razão e a memória.
Luciano deixou Cláudio Vignon à porta do restaurante, recusando a sua
parte na ceia. O aperto de mão que o grande homem da província deu ao
único jornalista que não lhe havia sido hostil foi acompanhado de um
horrível aperto de coração.
— Que fazer? — perguntou.
— Guerra é guerra — respondeu-lhe o grande crítico. — O seu livro é
belo, mas lhe criou invejosos. Sua luta há de ser longa e difícil. O talento é
uma moléstia horrível. Todo escritor nutre no coração um monstro que,
semelhante à tênia no intestino, devora os sentimentos à medida que
desabrocham. Quem triunfará? A doença do homem ou o homem da
doença? É preciso ser um grande homem para obter o equilíbrio entre a
inteligência e o caráter. O talento cresce, o coração seca. A menos que se seja
um colosso, a menos que se tenha espáduas de Hércules, acaba-se ou sem
coração ou sem talento. Você é pequeno e franzino, você há de sucumbir —
concluiu ele, entrando para o restaurante.
Luciano voltou para casa meditando na horrível sentença cuja profunda
verdade lhe revelava de vez a vida literária.
— Dinheiro! — gritava-lhe uma voz.
Sem perda de tempo encheu, à sua ordem, três letras de mil francos cada uma, a um, dois e três meses de prazo, imitando com admirável
perfeição a assinatura de David Séchard; endossou-as e, no dia seguinte,
levou-as a Métivier, o negociante de papel da Rue Serpente, que as
descontou sem dificuldade alguma. Luciano escreveu algumas linhas ao
cunhado para o prevenir desse ataque a seu caixa, prometendo-lhe,
segundo o uso, efetuar o pagamento ao fim dos prazos. Pagas as dívidas de
Corália e de Luciano, sobraram trezentos francos, que o poeta pôs nas mãos
de Berenice, dizendo-lhe que nada lhe desse se ele lhe pedisse dinheiro:
tinha medo de ser empolgado pelo desejo de jogar.
XL – DESPEDIDAS
Luciano, animado de cólera sombria, fria e taciturna, pôs-se a escrever os
mais espirituosos artigos à luz de uma lâmpada, vigiando Corália. Enquanto
reunia ideias, via aquela adorada criatura, branca como uma porcelana,
linda, com a beleza dos moribundos, sorrindo-lhe com os lábios pálidos,
mostrando-lhe os olhos brilhantes como são os de todas as mulheres que
sucumbem tanto de doença como de pesar. Luciano mandava artigos aos
jornais; mas como não podia ir às redações para atormentar os redatores
chefes, os artigos não apareciam. Quando se decidia a dirigir-se ao jornal,
Teodoro Gaillard, que lhe havia dado dinheiro adiantado e que mais tarde
aproveitou aqueles diamantes literários, recebia-o friamente.
— Tome cuidado, meu caro, você não tem mais espírito; não se deixe
abater, tenha imaginação! — dizia ele.
— Este pequeno Luciano só trazia na cachola o seu romance e os
primeiros artigos — exclamavam Feliciano Vernou, Merlin e todos quanto o
odiavam, quando se falava nele em casa de Dauriat ou no Vaudeville. — Ele
nos manda coisas deploráveis.
Nada mais ter na cachola!, expressão consagrada na gíria do
jornalismo, constitui uma sentença soberana da qual é difícil apelar, desde
que pronunciada. Essa expressão, espalhada por toda a parte, matava
Luciano, sem que ele o soubesse, pois tinha então aborrecimentos acima de
suas forças. Em meio de trabalhos acabrunhadores, foi acossado pelas letras
de David Séchard e recorreu à experiência de Camusot. O ex-amigo de Corália teve a generosidade de proteger Luciano. Essa horrível situação
durou dois meses, que foram entremeados de muito papel timbrado, que,
segundo a recomendação de Camusot, Luciano mandava a Desroches,[377]
amigo de Bixiou, de Blondet e de Des Lupeaulx.
No começo do mês de agosto, Bianchon avisou ao poeta que Corália
estava perdida. Não tinha mais que alguns dias de vida.
Berenice e Luciano passaram esses dias fatais a chorar, sem poder
esconder suas lágrimas à pobre moça, desesperada por morrer por causa de
Luciano. Por estranha mudança, Corália exigiu que Luciano lhe trouxesse
um sacerdote. A artista quis reconciliar-se com a Igreja e morrer em paz.
Teve um fim cristão, seu arrependimento foi sincero. Essa agonia e essa
morte acabaram de tirar a Luciano a força e a coragem. O poeta
permaneceu num abatimento completo, sentado numa poltrona, ao pé do
leito de Corália, não cessando de olhar para ela até o momento em que viu os
olhos da atriz fechados pela mão da morte. Eram então cinco horas da
manhã. Um passarinho veio pousar num dos vasos de flor que estavam do
lado de fora da janela e gorjeou alguns trinados.
Berenice, ajoelhada, beijava a mão de Corália, que esfriava sob as suas
lágrimas. Havia ainda onze sous sobre a lareira. Luciano saiu, impelido por
um desespero que lhe aconselhava a pedir esmola para enterrar a amante,
ou a ir-se atirar aos pés da marquesa d’Espard, do conde du Châtelet, da sra.
de Bargeton, da srta. des Touches ou do terrível janota De Marsay. Não
sentia mais nem orgulho nem forças. Para conseguir algum dinheiro, ter-se-
ia alistado como soldado! Andou, com esse jeito curvado e descomposto que
os desgraçados conhecem, até o palacete de Camille Maupin; entrou sem
prestar atenção à desordem de suas vestes e mandou-lhe pedir que o
recebesse.
— A senhorita deitou-se às três horas da manhã e ninguém ousaria
entrar em seus aposentos antes de ela ter chamado — respondeu o criado de
quarto.
— A que horas ela chama?
— Nunca antes das dez.
Luciano escreveu então uma dessas cartas assombrosas em que os
mendigos elegantes não medem mais coisa alguma. Certa noite, havia posto em dúvida a possibilidade de tal aviltamento, quando Lousteau lhe falava
nos pedidos feitos a Finot por alguns rapazes de talento, e eis que sua pena o
levava talvez além dos limites a que o infortúnio arrastara seus
predecessores. Voltando, imbecilizado, pelos bulevares, sem suspeitar da
horrível obra-prima que o desespero acabava de lhe ditar, encontrou Barbet.
— Barbet, quinhentos francos? — disse ele, estendendo-lhe a mão.
— Não, duzentos — respondeu o livreiro.
— Ah, o senhor tem então um coração!
— Sim, mas tenho negócios também. O senhor me fez perder bom
dinheiro — acrescentou depois de lhe haver contado o caso da falência de
Fendant e Cavalier —; faça-me agora ganhar.
Luciano estremeceu.
— O senhor é poeta, deve saber fazer toda sorte de versos. Neste
momento, preciso de canções apimentadas para intercalar a outras tomadas
a diferentes autores, a fim de não ser perseguido como contrafator e poder
vender nas ruas uma bela coleção de canções a dez sous. Se quiser mandar-
me amanhã dez boas canções para beberrões, ou divertidas... hum... o senhor
sabe!... darei duzentos francos.
Luciano voltou para casa. Encontrou Corália estendida, direita e rígida,
sobre um catre, envolta numa pobre mortalha que Berenice cosia a chorar. A
gorda normanda havia acendido quatro velas aos cantos do leito. No rosto de
Corália brilhava essa flor de beleza que tão alto fala aos vivos apontando-lhes
a calma absoluta. Parecia-se a uma dessas meninas que trazem no rosto a
palidez doentia da clorose. Dir-se-ia que aqueles dois lábios violeta iam abrir-
se e murmurar o nome de Luciano, que, junto ao nome de Deus, havia
precedido seu último suspiro.
Luciano disse a Berenice que fosse encomendar à casa funerária um
carro que não custasse mais de duzentos francos, incluindo também o
serviço na pobre igreja de Bonne-Nouvelle.
Mal Berenice saíra, o poeta sentou-se à mesa, junto ao corpo de sua
pobre amiga, e ali compôs as dez canções que deveriam ter ideias alegres e
ritmo folgazão. Sofreu penas inenarráveis antes de poder trabalhar; mas
acabou por colocar a sua inteligência a serviço da necessidade, como se não
houvesse padecido.
Cumpria já a terrível sentença de Cláudio Vignon a respeito da
separação que se processa entre coração e cérebro. Que noite aquela em que
o pobre menino se esfalfou à procura de poesias para oferecer aos beberrões,
escrevendo à luz dos círios, ao lado do padre que rezava por Corália! No dia
seguinte, pela manhã, Luciano, que terminara a última canção, tentou
cantá-la com uma música então em voga. Ouvindo-o cantar, Berenice e o
padre recearam que ele tivesse enlouquecido:
Amigos, moral em canção
Me aborrece e me cansa;
Deverá invocar a razão
Quem ao prazer se lança?
Aliás é bom todo refrão,
Diz Epicuro, num pifão
De alegres comensais.
Nunca Apolo procuraremos,
Se com Baco nos entretemos;
Riamos! bebamos! zombemos
De tudo mais.
Hipócrates ao bebedor
Cem anos prometia.
Que nos importa a nós o amor?
Que a perna bamba e fria
Não possa ir atrás de um brotinho?
Basta que a mão, virando o vinho,
Não demore demais!
Desde que aos sessenta cheguemos
Bebendo assim, que mais queremos?
Riamos! bebamos! zombemos
De tudo mais.
Saber dizer donde nós vimos
A toda a gente cabe;
Mas dizer aonde todos imos,
Ah, isso ninguém sabe!
Sem nos preocuparmos, enfim,
Tiremos proveito até o fim
Das graças celestiais!
É bem certo que morreremos;
Mas não menos é que vivemos:
Riamos! bebamos! zombemos
De tudo mais.[378]
No momento em que o poeta cantava esta última e espantosa estrofe,
Bianchon e D’Arthez entraram e vieram encontrá-lo no paroxismo do
abatimento. Derramava uma torrente de lágrimas e não tinha mais força
para passar a limpo as canções.
Quando, através dos soluços, acabou de explicar sua situação, viu
lágrimas nos olhos dos que o escutavam.
— Isto — disse D’Arthez — redime muitas faltas!
— Felizes os que encontram o inferno aqui embaixo! — disse gravemente
o padre.
O espetáculo daquela linda morta sorrindo à eternidade, a vista do
amante comprando-lhe a sepultura com versos licenciosos, de Barbet
pagando um ataúde, daquelas quatro velas em torno do corpo de uma atriz
cuja vasquinha e cujas meias vermelhas com extremos verdes faziam outrora
palpitar toda uma sala; afinal, do padre que a havia reconciliado com Deus e
que ia já na porta, volvendo à igreja para lá dizer uma missa por aquela que
tanto havia amado; todas aquelas grandezas e aquelas infâmias, aquelas
dores esmagadas sob a necessidade, gelaram o grande escritor e o grande
médico, que se sentaram sem poder proferir uma só palavra.
Um criado apareceu e anunciou a srta. des Touches. A bela e sublime
moça tudo compreendeu. Adiantou-se vivamente para Luciano, apertou-lhe a mão e nela deixou duas notas de mil francos.
— Agora é tarde — disse ele pondo nela uns olhos de moribundo.
D’Arthez, Bianchon e a srta. des Touches só deixaram Luciano depois de
haver tentado mitigar-lhe o desespero com as mais doces palavras. Todas as
molas, porém, estavam quebradas nele.
Ao meio-dia, o cenáculo (menos Miguel Chrestien, que, no entanto,
havia sido elucidado quanto à não culpabilidade de Luciano) encontrava-se
na igrejinha de Bonne-Nouvelle, bem como Berenice e a srta. des Touches,
dois comparsas do Gymnase, a caracterizadora de Corália e o desgraçado
Camusot. Todos os homens acompanharam a atriz até o cemitério do Père-
Lachaise. Camusot, que chorava lágrimas ardentes, jurou solenemente a
Luciano que compraria uma sepultura perpétua e nela mandaria construir
uma pequena coluna, sobre a qual seria gravado: corália, e abaixo: Morta
aos dezenove anos (agosto de 1822).
Luciano ficou sozinho até o pôr do sol sobre aquela colina de onde seus
olhos abarcavam Paris.
— Por quem hei de ser amado? — interrogava ele a si mesmo. — Meus
verdadeiros amigos me desprezam. Fosse o que fosse o que eu fizesse, tudo
em mim parecia nobre e bom àquela que ali está! Não tenho mais que minha
irmã, David e minha mãe! Que pensarão eles de mim?
O pobre grande homem da província voltou à Rue de la Lune, onde suas
impressões foram tão vivas ao rever o apartamento vazio que se foi alojar
num pobre hotel da mesma rua. Os dois mil francos da srta. des Touches
pagaram todas as dívidas, acrescentados que foram com o produto da venda
da mobília. Berenice e Luciano ficaram com cem francos, que foram
suficientes para viverem durante dois meses passados por Luciano num
abatimento doentio. Não podia escrever nem pensar; deixava-se levar pela
dor. Berenice teve piedade dele.
— Se voltasse para a sua terra, de que modo iria? — contestou ela a uma
exclamação de Luciano, que pensava na irmã, na mãe e em David Séchard.
— A pé.
— Será preciso também comer e dormir, durante a jornada. Se fizer doze
léguas por dia, precisará de, pelo menos, vinte francos.
— Eu os terei — disse ele.
Pegou em seus trajes e em sua bela roupa de baixo, reservando para si
apenas o estritamente necessário, e foi à casa de Samanon, que lhe ofereceu
cinquenta francos por todo o espólio.
Suplicou ao usurário que lhe desse o bastante para tomar a diligência,
mas não conseguiu comovê-lo. Na sua raiva, Luciano subiu com passos
impetuosos ao Frascati. Tentou a fortuna e voltou sem um cobre. Quando se
encontrou em seu miserável quarto, na Rue de la Lune, pediu a Berenice o
xale de Corália. Pelo seu modo de olhar, a boa moça compreendeu, depois da
confissão que Luciano lhe fez da perda no jogo, qual o intento do pobre
poeta desesperado: queria enforcar-se.
— Está louco, meu senhor? — disse ela. — Vá passear e volte à meia-
noite; terei ganho seu dinheiro. Mas fique nos bulevares, não vá para o cais.
Luciano passeou pelos bulevares, embrutecido de dor, olhando para as
carruagens e os passantes, achando-se diminuído, sozinho, naquela
multidão que turbilhonava, fustigada pelos mil interesses parisienses.
Revendo em pensamento as margens do seu Charente, sentiu sede das
alegrias da família. Sentiu então um desses relâmpagos de força que
enganam todas essas naturezas meio femininas. Não quis abandonar a
partida antes de haver descarregado o coração no de David Séchard e
pedido conselhos aos três anjos que lhe restavam.
Caminhando ao acaso, viu Berenice endomingada, a conversar com um
homem, no enlameado Boulevard Bonne-Nouvelle, onde estava parada à
esquina da Rue de la Lune.
— Que fazes aí? — perguntou Luciano, apavorado com as suspeitas que
concebeu ao aspecto da normanda.
— Aqui estão vinte francos que talvez custem caro, mas o senhor partirá
— respondeu ela colocando quatro moedas de cem sous na mão do poeta.
Berenice fugiu sem que Luciano pudesse saber por onde havia passado,
porque, é preciso que se diga em seu louvor, aquele dinheiro lhe queimava a
mão e ele queria devolvê-lo.
Foi, porém, forçado a guardá-lo como o último estigma da vida
parisiense.