A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 6/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

olhe esse bronco, sem inteligência nem talento, mas ávido, desejando a

fortuna a todo custo e hábil em negócios, que, na loja de Dauriat, me tomou

quarenta por cento com ares de me fazer um favor... Pois bem, ele possui

cartas em que vários gênios em embrião se põem de joelhos diante dele por

cem francos.

Uma contração de desgosto apertou o coração de Luciano, que se

recordou de: Finot, e os meus cem francos?, aquele desenho deixado sobre

o pano verde da mesa da redação.

— Antes morrer — disse.

— Antes viver — retrucou-lhe Estêvão.

Ao levantar o pano, o diretor saiu e foi aos bastidores dar ordens.

— Meu caro — disse então Finot a Estêvão —, tenho a palavra de

Dauriat: um terço do hebdomadário é de minha propriedade. Tratei por

trinta mil francos a vista, com a condição de ser o diretor da redação. É um

soberbo negócio. Blondet me confiou que se preparam leis restritivas contra a

imprensa. Serão conservados apenas os jornais já existentes. Dentro de seis

meses, será preciso um milhão para organizar um novo jornal. Fechei, pois, o

negócio sem ter de meu mais que dez mil francos. Escuta. Se conseguires

fazer Matifat comprar a metade de minha parte, um sexto, por trinta mil

francos, dar-te-ei o cargo de redator chefe do meu jornalzinho, com

duzentos e cinquenta francos por mês. Serás o meu testa de ferro. Quero

continuar dirigindo a redação e lá conservar todos os meus interesses sem

parecer intervir em coisa alguma. Todos os artigos te serão pagos à razão de

cem sous a coluna. Poderás assim obter uma bonificação de quinze francos

por dia pagando-os a três francos apenas e aproveitando a colaboração

gratuita. Serão mais quatrocentos e cinquenta francos por mês. Mas quero

ficar com o direito de mandar atacar ou defender, no jornal, os homens e os negócios que bem entender, deixando-te satisfazer os ódios e amizades que

não interfiram com a minha política. Serei talvez ministerial ou ultra, não sei

ainda; mas quero conservar secretamente as minhas relações liberais. Digo-te

tudo isto porque és um bom menino. Talvez te faça ficar com a seção das

câmaras, nos jornais em que as faço. Não as poderei, sem dúvida, conservar.

Emprega, pois, Florina nessa maquinaçãozinha e dize-lhe que aperte com

força a mola do droguista: tenho quarenta e oito horas apenas para me

desdizer, se não puder pagar. Dauriat vendeu o outro terço por trinta mil

francos ao seu impressor e ao seu fornecedor de papel. Ficou com a outra

parte de graça, e ganha dez mil francos, visto que só empregou no total

cinquenta mil. Dentro de um ano, porém, o conjunto valerá duzentos mil

francos para venda à Corte, se ela tiver, como se diz, bom senso de amortizar

os jornais.

— Como tens sorte! — exclamou Lousteau.

— Se tivesses passado pelos dias de miséria que conheci, não dirias isso.

Mas, nos tempos que correm, fica sabendo, padeço de um mal sem remédio:

sou filho de um chapeleiro que ainda vende chapéus na Rue du Coq. Só

uma revolução me poderia fazer subir; e, na falta de uma reviravolta social,

preciso possuir milhões. Não sei se das duas coisas não será a revolução a

mais fácil. Se eu tivesse o nome de teu amigo, estaria bem encaminhado.

Silêncio, ali vem o diretor. Adeus — disse Finot levantando-se. — Vou à

Opéra; talvez me espere amanhã um duelo. Escrevi e assino com um “F.”

um artigo fulminante contra duas bailarinas cujos amigos são generais.

Ataco, de rijo, a Opéra.

— Ah, bah! — disse o diretor.

— Sim, todos são mesquinhos comigo — respondeu Finot. — Este

diminui o número de meus camarotes, aquele se recusa a me tomar

cinquenta assinaturas. Mandei um ultimato à Opéra: quero agora cem

assinaturas e quatro camarotes por mês. Se aceitarem, meu jornal terá

oitocentos assinantes efetivos e mil pagantes. Conheço o meio de obter ainda

outras duzentas assinaturas: teremos mil e duzentas em janeiro...

— Os senhores acabarão por nos arruinar — disse o diretor.

— O senhor está mesmo em perigo com as suas dez assinaturas. Fiz com

que escrevessem dois bons artigos a seu respeito no Constitucional.

— Oh, não me queixo do senhor! — exclamou o diretor.

— Até amanhã à noite, Lousteau — disse Finot. — Dar-me-ás a resposta

no Français, onde há uma estreia; e, como não vou poder escrever o artigo,

ocuparás o meu lugar no jornal. Dou-te a preferência: tens te esfalfado por

mim, sou-te reconhecido. Feliciano Vernou me ofereceu dar

adiantadamente meus vencimentos de um ano e me propõe vinte mil

francos por um terço da propriedade do jornal, mas quero continuar como

único dono. Adeus.

— Não é à toa que ele se chama Finot[239] — observou Luciano a

Lousteau.

— Oh, é um celerado que há de abrir caminho! — respondeu Estêvão

sem se importar se estava sendo ouvido ou não pelo homem hábil que

fechava a porta do camarote.

— Ele?... — disse o diretor. — Ele há de ser milionário, há de gozar a

consideração geral e há de ter, quem sabe, amigos...

— Meu Deus, que covil! E você vai fazer entabular por essa deliciosa

menina um negócio desses? — perguntou Luciano, mostrando Florina, que

lhes lançava olhadelas.

— E ela terá êxito. Você não conhece o devotamento e a delicadeza

dessas queridas criaturas — respondeu Lousteau.

— Elas resgatam todos os seus defeitos, apagam todos os seus erros pela

extensão, pelo infinito do seu amor, quando amam — disse o diretor,

continuando. — A paixão de uma atriz é uma coisa tanto mais bela quanto

mais violento o seu contraste com tudo o que a cerca.

— É encontrar na lama um diamante digno de ornar a mais orgulhosa

das coroas — replicou Lousteau.

— Mas — tornou o diretor — Corália está distraída. O seu amigo

perturba-a, sem dúvida nenhuma, e vai fazê-la falhar a todas as deixas; não

presta atenção às réplicas, já lá se vão duas vezes que não ouve o ponto.

Senhor, por obséquio, ponha-se aqui neste canto — pediu ele a Luciano. —

Se Corália se enamorou do senhor, irei dizer-lhe que o senhor partiu.

— Eh, não — exclamou Lousteau —, diga-lhe que este senhor estará na

ceia, e que ali fará dele o que quiser; ela há de representar como a srta. Mars.

[240]

O diretor partiu.

— Meu amigo — disse Luciano a Estêvão —, como assim! Você não sente

escrúpulo algum em fazer com que a srta. Florina peça trinta mil francos a

esse droguista pela metade de uma coisa que Finot acaba de comprar por

esse mesmo preço?

Lousteau não deu tempo a Luciano de acabar o seu arrazoado.

— Mas de que terra é você, meu filho querido? Esse droguista não é um

homem, é um cofre-forte doado pelo amor.

— E a sua consciência?

— A consciência, meu caro, é uma bengala de que cada qual lança mão

para bater no vizinho e da qual não se serve jamais para uso próprio. Ora

essa! Por que esta irritação? O acaso faz para você num dia o milagre pelo

qual esperei durante dois anos, e você se diverte a discutir os meios? Como!

Você que parecia ser inteligente, que chegou à independência de ideias que

devem ter os aventureiros intelectuais no mundo em que vivemos, você

chafurda em escrúpulos de freira que se acusa de ter comido um ovo com

concupiscência?... Se Florina triunfar, torno-me redator chefe, passo a

ganhar duzentos e cinquenta francos fixos, tomo conta dos grandes teatros,

deixo a Vernou os teatros de vaudeville, você põe o pé no estribo tornando-

se meu sucessor em todos os teatros dos bulevares. Terá ainda três francos

por coluna e escreverá uma por dia, trinta por mês, que lhe darão noventa

francos; terá uns sessenta francos dos livros que vender a Barbet; depois

poderá exigir mensalmente dos seus teatros dez entradas, ao todo quarenta

lugares, que venderá a quarenta francos ao Barbet dos teatros, um homem

com quem o hei de pôr em relações. Terá, assim, duzentos francos por mês.

Poderá, tornando-se útil a Finot, colocar um artigo de cem francos no seu

novo hebdomadário, desde que demonstre talento transcendente, porque ali

os artigos são assinados e não se deve fazer nada nas coxas como no

jornaleco. Teria nesse caso cem escudos por mês. Meu caro, há pessoas de

talento, como esse pobre D’Arthez, que jantam todos os dias no Flicoteaux,

que passam dez anos sem que consigam ganhar cem escudos. Você faria com

a pena quatro mil francos por ano, sem contar os proventos da livraria, se

escrever livros. Ora, um subprefeito só recebe mil escudos de ordenado, e, no

seu distrito, diverte-se tanto como uma perna de cadeira. Não falo do prazer de frequentar espetáculos sem pagar, porque esse prazer se torna depressa

uma fadiga; mas terá entrada nos bastidores de quatro teatros. Seja duro e

espirituoso durante um ou dois meses, e se verá sobrecarregado de convites,

de diversões com as artistas; será cortejado pelos amantes delas; só jantará

no Flicoteaux nos dias em que não tiver trinta sous no bolso nem um convite

para jantar. Ainda às cinco horas, no Luxembourg, você não sabia que

decisão tomar; está agora em vésperas de tornar-se uma das cem pessoas

privilegiadas que impõem opiniões à França. Dentro de três dias, se formos

bem-sucedidos, você poderá, com trinta piadas impressas à razão de três por

dia, fazer um homem maldizer a vida. Poderá obter favores de todas as

atrizes dos seus quatro teatros; poderá fazer fracassar uma boa peça e fazer

toda Paris acorrer a uma péssima. Se Dauriat se recusar a imprimir as

Boninas, mesmo sem nada lhe pagar, você poderá fazê-lo vir, humilde e

submisso, à sua procura, para as adquirir por dois mil francos. Mostre talento

e pespegue em dois ou três jornais diferentes três artigos que ameacem

matar qualquer das especulações de Dauriat ou um livro com o qual ele

conta, e há de vê-lo subindo até a sua mansarda e lá se instalar como uma

clematite. Enfim, o seu romance: os livreiros, que neste momento mais ou

menos polidamente o põem todos à porta, hão de fazer fila em sua casa, e o

manuscrito, que o pai Doguereau avaliou em quatrocentos francos, terá o

lance coberto até por quatro mil! São esses os benefícios da profissão de

jornalista. Por isso impedimos a aproximação dos jornais a todos os recém-

chegados. Não só é preciso um imenso talento, mas uma grande sorte para

neles penetrar. E você a reclamar contra a sua sorte!... Veja! Se não nos

tivéssemos encontrado hoje no Flicoteaux, você poderia permanecer com o

pé no ar por mais três anos ou morrer de fome, como D’Arthez, numa

mansarda. Quando D’Arthez se houver tornado tão culto quanto Bayle[241]

e tão grande escritor quanto Rousseau, teremos feito nossa fortuna, seremos

donos da dele e da sua glória. Finot será então deputado, proprietário de um

grande jornal, e nós, nós seremos o que quisermos ser: pares de França ou

prisioneiros por dívidas em Sainte-Pélagie.[242]

— E Finot há de vender o seu jornal aos ministros que mais derem por

ele, como vende seus elogios à sra. Bastienne denegrindo a srta. Virgínia e

provando que os chapéus da primeira são superiores aos que o jornal elogiava antes! — exclamou Luciano, lembrando-se da cena de que havia sido

testemunha.

— Você é um tolo, meu caro — respondeu Lousteau num tom seco. —

Finot, há três anos, pisava sobre os canos das suas botas, jantava no Tabar por

dezoito sous, garatujava um prospecto por dez francos, e a roupa se lhe

apegava ao corpo por um mistério tão impenetrável como o da Imaculada

Conceição. Hoje, Finot é o único dono de um jornal avaliado em cem mil

francos, e com assinantes que pagam para não receber o jornal; com os

assinantes reais e as contribuições indiretas, cavadas pelo tio, ganha vinte mil

francos por ano. Tem diariamente os mais suntuosos jantares do mundo, há

um mês que tem cabriolé; amanhã, enfim, estará à frente de um jornal

hebdomadário, com um sexto das cotas de graça e quinhentos francos por

mês de ordenado, aos quais adicionará mil francos de colaboração obtida de

graça e que fará os sócios pagarem. E você, antes do mais, se Finot consentir

em lhe dar cinquenta francos por folha, sentir-se-á muito feliz em lhe dar

três artigos de graça. Só quando estiver em posição análoga poderá julgar

Finot; não se pode ser julgado senão por seus pares. Você terá um futuro

imenso se obedecer cegamente aos ódios da chefia, se atacar quando Finot

disser: “Ataque!”, se louvar quando ele disser: “Louve!”. Quando você quiser

exercer uma vingança contra alguém, poderá supliciar seu amigo ou inimigo

por meio de uma frase inserida cada manhã em nosso jornal, para o que

basta dizer-me: “Lousteau, aniquilemos aquele homem!”. Voltará a agredir a

sua vítima com um grande artigo no hebdomadário. Enfim, se o negócio for

capital para você, Finot, a quem você se terá tornado necessário, lhe deixará

dar um último golpe de maça através dum grande jornal que tenha dez ou

doze mil assinantes.

— Assim, você acha que Florina conseguirá decidir o droguista a fazer o

negócio? — perguntou Luciano, seduzido.

— Assim o espero! Eis o entreato. Vai dizer-lhe já duas palavras. A coisa

se concluirá esta noite. Desde que lhe ensine a lição, Florina somará a minha

inteligência à sua.

— E o honesto negociante lá está de boca aberta a admirar Florina, sem

suspeitar que lhe vão extorquir trinta mil francos!...

— Mais uma tolice sua! Dir-se-ia que o vamos roubar — exclamou Lousteau. — Mas, meu caro, se o ministério comprar o jornal, dentro de seis

meses o droguista receberá talvez cinquenta mil francos pelos trinta mil.

Depois, Matifat não verá o jornal, mas o interesse de Florina. Quando se

souber que Matifat e Camusot (porque eles hão de partilhar do negócio) são

proprietários de uma gazeta, surgirão em todos os jornais artigos

benevolentes para com Florina e Corália. Florina vai tornar-se célebre,

conseguirá talvez um contrato de doze mil francos noutro teatro. Enfim,

Matifat economizará os mil francos por mês que lhe custariam os presentes e

jantares aos jornalistas. Você não conhece os homens nem os negócios.

— Pobre homem! — disse Luciano —, e ele conta passar uma noite

agradável!

— E — continuou Lousteau — há de partir-se em dois sob mil arrazoados

até que possa mostrar a Florina a aquisição da cota comprada a Finot. No dia

seguinte serei redator chefe, ganharei mil francos por mês. Eis o fim da

minha miséria! — exclamou o amante de Florina.

Lousteau saiu, deixando Luciano atordoado, perdido num abismo de

pensamentos, voando acima do mundo tal como é na realidade.

Depois de ter visto, nas Galeries de Bois, os cordéis do comércio de livros

e a cozinha da glória, depois de haver percorrido os bastidores do teatro, o

poeta percebia o avesso das consciências, o jogo das engrenagens da vida

parisiense, o mecanismo de todas as coisas. Ele, que invejara a felicidade de

Lousteau ao admirar Florina em cena, em poucos instantes esqueceu

Matifat. Permaneceu ali durante um tempo incalculável; cinco minutos,

talvez. Foi uma eternidade. Pensamentos ardentes inflamavam-lhe a alma,

assim como seus sentidos eram empolgados pelo espetáculo dessas atrizes de

olhos lascivos, realçados pelo carmim, de colos resplandecentes, vestidas de

voluptuosas vasquinhas de pregas licenciosas, de saias curtas, mostrando as

pernas envoltas em meias vermelhas com pontas verdes, calçadas de

maneira a pôr a plateia em alvoroço. Duas corrupções marchavam em linhas

paralelas, como duas torrentes que, numa inundação, querem juntar-se; elas

devoravam o poeta absorto a um canto do camarote, tendo um braço sobre o

veludo vermelho do peitoril e a mão pendente, os olhos fixos sobre o pano, e

tanto mais acessível à fascinação dessa vida composta de raios e de nuvens

quanto mais ela brilhava diante dele como um fogo de artifício, depois da profunda noite de sua vida trabalhosa, obscura e monótona.

 

XVI – CORÁLIA

 

Repentinamente, a luz amorosa de um olhar jorrou sobre os olhos desatentos

de Luciano por um orifício do pano de boca. O poeta, despertado de seu

torpor, reconheceu o olhar de Corália, que o queimava: baixou a cabeça e

olhou Camusot, que naquele instante entrava para a frisa fronteira.

Esse amador era um bom, corpulento e gordo negociante de sedas da

Rue des Bourdonnais, juiz no Tribunal de Comércio, pai de quatro filhos,

casado pela segunda vez, rico de oitenta mil libras de renda,[243] mas com

cinquenta e seis anos. Tinha como que uma coroa de cabelos grisalhos à

cabeça, o ar tartufo de um homem que gozava o seu saldo de vida e que não

queria deixá-la sem a sua parte no prazer, depois de haver engolido os mil e

um sapos do comércio. A fronte cor de manteiga fresca, as faces monásticas

e floridas pareciam não ser bastante largas para conter a expansão de um

júbilo superlativo. Camusot estava sem a mulher e ouvia aplaudirem Corália

entusiasticamente. Corália representava todas as vaidades reunidas desse

rico burguês, o qual com ela se dava ares de um grande senhor de outrora.

Naquela noite ele se imaginava credor da metade do sucesso da atriz e

acreditava tanto mais nele quanto o havia pago. Essa conduta era

sancionada pela presença do sogro de Camusot, velhinho de cabelos

empoados, olhos espertos e, no entanto, muito digno. As repugnâncias de

Luciano de novo acordavam; lembrou-se do amor puro, exaltado, que

durante um ano sentira pela sra. de Bargeton. O amor dos poetas desdobrou

rapidamente suas asas diáfanas: mil recordações povoaram com seus

horizontes azuis o espírito do grande homem de Angoulême, que recaiu em

sua cisma. O pano subiu. Corália e Florina estavam em cena.

— Minha querida, ele pensa em ti tanto como no Grão-Turco! — disse

Florina em voz baixa a Corália, que declamava uma réplica.

Luciano não pôde deixar de rir e olhou para Corália. Essa mulher, uma

das mais encantadoras e deliciosas atrizes de Paris, rival da sra. Perrin[244] e

da srta. Fleuriet,[245] com as quais se parecia e cuja sorte deveria ser

também a sua, era o tipo das mulheres que exercem, à vontade, sua fascinação sobre os homens. Corália possuía o tipo sublime do semblante

judeu, esse comprido rosto oval de um tom de marfim louro, de boca

vermelha como uma romã, de queixo fino como a borda de uma taça. Sob as

pálpebras queimadas por pupilas de azeviche, sob cílios recurvos,

adivinhava-se um lânguido olhar, onde cintilavam, por vezes, os ardores do

deserto. Acima desses olhos obumbrados por um círculo azulado, havia

supercílios arqueados e espessos. Por trás da fronte morena, coroada por dois

bandós de ébano, onde brilhavam então as luzes como sobre verniz, havia

uma tal magnificência de pensamento que fazia crer na existência do gênio.

Mas, à semelhança de muitas atrizes, Corália, sem espírito, apesar de sua

ironia de bastidores, sem instrução, apesar de sua experiência de toucador,

possuía apenas a inteligência dos sentidos e as qualidades das mulheres

amorosas. Podia alguém acaso lembrar-se da moral, quando ela deslumbrava

o olhar com os braços redondos e polidos, os dedos torneados como fusos, as

douradas espáduas, com os seios cantados pelo Cântico dos Cânticos,[246]

com um pescoço flexível e recurvo, com pernas de uma elegância adorável e

calçadas de seda vermelha? Toda essa beleza, de uma poesia

verdadeiramente oriental, era ainda posta em relevo pelo traje espanhol

convencionado em nossos teatros. Corália fazia a alegria da sala, onde todos

os olhos lhe cingiam o talhe apertado na vasquinha e lhe acariciavam as

ancas andaluzas, que imprimiam à saia lascivos movimentos. Houve um

instante em que Luciano, ao ver aquela criatura a representar para ele

somente, importando-se tanto com Camusot quanto um garoto do paraíso se

importaria com a casca de uma maçã, pôs o amor sensual acima do amor

puro, o prazer acima do desejo, e o demônio da luxúria lhe sugeriu atrozes

pensamentos. “Ignoro tudo do amor que se ceva na boa vida, no vinho, nas

alegrias materiais”, pensou ele. “Tenho vivido mais pelo pensamento que

pelos fatos. Um homem que tudo quer descrever deve tudo conhecer. Esta é

a minha primeira ceia faustosa, minha primeira orgia com um mundo

estranho. Por que não hei de saborear, por uma vez, essas delícias tão

celebradas em que mergulhavam os grandes senhores do século passado

vivendo com mulheres impuras? Quando mais não fosse senão para os

transportar às belas regiões do verdadeiro amor, não é necessário conhecer as

alegrias, as perfeições, os transportes, os recursos, as finezas do amor das cortesãs e das atrizes? Não é, afinal de contas, a poesia dos sentidos? Há dois

meses essas mulheres me pareceriam divindades guardadas por dragões

inabordáveis. Ali está uma cuja beleza supera a de Florina, que eu invejava a

Lousteau. Por que não me aproveitar da sua fantasia, quando os grãos-

senhores compram com seus tesouros mais ricos uma só noite a essas

mulheres? Os embaixadores, quando põem os pés nestes abismos, não se

preocupam nem com a véspera nem com o dia seguinte. Seria eu um tolo se

mostrasse mais escrúpulos do que os príncipes, sobretudo quando ainda não

amo ninguém.”

Luciano não pensava mais em Camusot. Depois de haver manifestado a

Lousteau o mais profundo desgosto pela odiosa partilha, caía nessa fossa,

nadava no desejo, arrastado pelo jesuitismo da paixão.

— Corália está louca por você — disse Lousteau, entrando. — Sua beleza,

digna dos mais ilustres mármores da Grécia, faz um estrago inaudito nos

bastidores. Você é feliz, meu caro. Com dezoito anos, Corália poderá dentro

de alguns dias obter sessenta mil francos por ano com a sua beleza. Ela é

ainda muito bem-comportada. Vendida pela mãe, há três anos, por sessenta

mil francos, só colheu até agora sofrimentos, e procura a felicidade. Entrou

para o teatro por desespero. Tinha horror de De Marsay,[247] seu primeiro

comprador. E, ao sair das galés, porque depressa foi abandonada pelo rei dos

nossos janotas, encontrou esse bom Camusot, a quem absolutamente não

ama, mas que é para ela como um pai, e por isso o suporta e se deixa amar.

Já recusou as mais ricas propostas e se apega a Camusot, que, ao menos, não

a atormenta. Você é, pois, o seu primeiro amor. Oh! Ela recebeu como que

um tiro de pistola no coração ao vê-lo. Florina foi ao camarote dela para ver

se a faz raciocinar; ela está chorando pela sua frieza. A peça vai cair, Corália

não sabe mais seu papel, e adeus contrato no Gymnase, que Camusot lhe

preparava!

— Bah!... Pobre rapariga! — disse Luciano, cuja vaidade se sentiu

afagada por essas palavras, e que viu o coração túmido de amor-próprio. —

Acontecem-me numa noite, meu caro, mais coisas do que nos primeiros

dezoito anos de minha vida. — E Luciano contou seus amores com a sra. de

Bargeton e seu ódio ao barão du Châtelet.

— Espere! O jornal não tem uma vítima; vamos agarrá-lo. Esse barão é um elegante do Império, é do partido ministerial, e nos serve. Vi-o muitas

vezes na Opéra. Lembro-me agora da sua grande dama; aparece

frequentemente no camarote da marquesa d’Espard. O barão faz a corte à

sua ex-amante; uma espinha de peixe. Espere! Finot acaba de me mandar

um mensageiro dizendo que o jornal está sem originais. Uma peça que lhe

pregou um dos nossos redatores, um velhaco, o pequeno Heitor Merlin, a

quem cortaram o pagamento das linhas em branco. Finot, desesperado,

alinhava um artigo contra a Opéra. Pois bem, meu caro, escreva a nota sobre

esta peça, escute-a, pense nela. Por mim, vou ao gabinete do diretor, pensar

em três colunas sobre o seu homem e a sua bela desdenhosa, que não estarão

em festa amanhã...

— Eis aí então onde e como se faz o jornal — falou Luciano.

— É sempre assim — respondeu Lousteau. — Durante os dez meses em

que nele trabalho, o jornal está sempre sem “cópias” às oito horas da noite.

Em gíria tipográfica, chama-se “cópia” ao manuscrito a compor, sem

dúvida porque se julga que os autores não enviam aos jornais senão cópias de

sua obra. Ou, quem sabe, também, é uma irônica tradução da palavra latina

copia (abundância), porque a “cópia” falta sempre!...

— O grande projeto que jamais realizaremos é o de estarmos com alguns

números adiantados — continuou Lousteau. — São dez horas e não há uma

única linha. Vou dizer a Vernou e a Nathan, para terminar brilhantemente o

número, que nos forneçam uma vintena de epigramas a respeito dos

deputados, sobre o chanceler Cruzoé,[248] sobre os ministros e até sobre

nossos amigos, se preciso for. Num caso destes se chacina o próprio pai, faz-

se como um corsário que, para não morrer, carrega seus canhões com as

moedas do butim. Escreva um artigo inteligente e terá dado um grande

passo no espírito de Finot: ele é reconhecido, por cautela. É a melhor e a

mais sólida das cautelas, excetuadas as da casa de penhores...

— Que espécie de homens são então os jornalistas?... — exclamou

Luciano. — Como! é preciso sentar-se a uma mesa e possuir inteligência...

— Tal qual como se acende um candeeiro... até que o óleo falta.

No momento em que Lousteau abria a porta da frisa, o diretor e Du

Bruel entraram.

— Senhor — disse a Luciano o autor da peça —, deixe-me dizer de sua parte a Corália que sairá com ela depois da ceia, ou minha peça vai fracassar.

A pobre menina não sabe mais o que diz nem o que faz. Irá chorar quando

for preciso rir e há de rir quando for necessário chorar. Já assobiaram. O

senhor poderia ainda salvar a peça. E além disso não é nenhuma desgraça,

mas um prazer, que o espera.

— Senhor, não tenho o hábito de ter rivais — respondeu Luciano.

— Não lhe repita isso! — exclamou o diretor, olhando para Du Bruel. —

Corália é mulher para atirar Camusot pela janela e para se arruinar por

completo. Esse digno proprietário do Casulo de Ouro dá a Corália dois mil

francos por mês, paga todos os seus trajes e os seus aplaudentes.

— Como sua promessa não me obriga a coisa alguma, salve sua peça —

disse nababescamente Luciano.

— Mas não conserve o ar de repelir com desdém essa encantadora

criatura — suplicou Du Bruel.

— Vamos, é preciso que eu escreva a respeito de sua peça e que sorria à

sua jovem primeira atriz; pois seja! — exclamou o poeta.

O autor desapareceu, depois de haver feito um sinal a Corália, que

representou daí em diante maravilhosamente. Bouffé,[249] que

desempenhava o papel de um velho alcaide no qual revelou pela primeira

vez seu talento para se caracterizar de velhote, apareceu, no final, entre

tempestades de aplausos, para dizer:

— Senhores, a peça que tivemos a honra de representar para vós é dos

srs. Raul e De Cursy.[250]

— Ora essa, Nathan é da peça — disse Lousteau —; não me admiro mais

de sua presença.

— Corália! Corália! — gritava a plateia, excitada.

Do camarote onde estavam os dois comerciantes, partiu uma voz de

trovão que berrou:

— E Florina!

— Florina e Corália! — repetiram então algumas vozes. O pano subiu.

Bouffé reapareceu com as duas artistas, a quem Matifat e Camusot jogaram

cada um uma coroa de louros. Corália apanhou a sua e a estendeu, num

gesto, a Luciano. Para o poeta, aquelas duas horas passadas no teatro foram

como que de sonho. Os bastidores, apesar de seus horrores, haviam começado a obra dessa fascinação. O poeta, ainda inocente, ali havia

respirado o vento da desordem e a atmosfera da volúpia. Naqueles sujos

corredores atravancados de máquinas, onde fumegavam candeeiros oleosos,

reina como que uma peste que devora a alma. A vida ali não é mais nem

santa nem real. Ali a gente ri de todas as coisas sérias, e as coisas impossíveis

parecem verdadeiras. Aquilo foi como um narcótico para Luciano, e Corália

acabou de mergulhá-lo numa embriaguez feliz.

O lustre se apagara. Não havia mais na sala senão as porteiras dos

camarotes, que faziam um barulho singular retirando os pequenos bancos e

fechando as portas. A ribalta, soprada como uma só candeia, desprendia um

odor infecto. O pano subiu. Uma lanterna pendia do arco da abóbada. Os

bombeiros começaram a ronda com os serventes. À féerie da cena, ao

espetáculo dos camarotes cheios de lindas mulheres, às luzes ofuscantes, à

esplêndida magia das decorações e dos trajes novos sucediam-se o frio, o

horror, a escuridão, o vácuo. Foi hediondo.

Luciano sentia uma surpresa indizível.

— Eh! então, não vens, meu pequeno? — perguntou Lousteau do palco.

— Salta do camarote aqui.

De um pulo, Luciano se encontrou no palco. Mal pôde reconhecer

Florina e Corália sem seus trajes de há pouco, envoltas em mantos, mas de

vestidos comuns, e com a cabeça coberta de chapéus com veuzinhos negros,

semelhantes, enfim, a borboletas que houvessem voltado a crisálidas.

— Quer dar-me a honra do seu braço? — perguntou Corália, tremendo.

— Com muito gosto — respondeu Luciano, que sentia o coração da atriz

palpitante junto ao seu como o de um pássaro aprisionado.

A atriz, apertando-se contra o poeta, tinha a voluptuosidade de uma

gata que se esfrega contra a perna do dono com flexível ardor.

— Vamos então cear juntos! — disse-lhe ela.

Saíram os quatro e viram dois fiacres à porta dos artistas, que dava para a

Rue des Fossés-du-Temple. Corália fez Luciano subir para o carro em que já

se encontravam Camusot e o sogro, o velhote Cardot. Ofereceu o quarto

lugar a Du Bruel. O diretor seguiu com Florina, Matifat e Lousteau.

— Estes fiacres são infames! — disse Corália.

— Por que não tem a sua carruagem? — perguntou Du Bruel.

— Por quê?! — exclamou ela, irritada. — Não o quero dizer diante do sr.

Cardot, que sem dúvida formou o genro. Acredita que, pequeno e velho

como é, o sr. Cardot só dá quinhentos francos por mês a Florentina, apenas o

suficiente para pagar seu alojamento, sua sopa e seus tamancos? O velho

marquês de Rochegude, que tem seiscentas mil libras de renda, há dois

meses me oferece um cupê. Mas eu sou uma artista, e não uma meretriz.

— Terá uma carruagem depois de amanhã, senhorita — disse

graciosamente Camusot. — Mas não ma havia pedido nunca.

— E isso se pede? Como? Quando se ama uma mulher, a gente a deixa

patinhar no lodo e arriscar-se a quebrar as pernas andando a pé? Não há

ninguém como esses cavaleiros da vara[251] para gostar de lama na barra de

um vestido.

Dizendo essas palavras com tal acritude que partiu o coração de

Camusot, Corália encontrou a perna de Luciano e a apertou entre as suas;

tomou-lhe a mão e a estreitou. Calou-se então e pareceu concentrada num

desses gozos infinitos que recompensam essas pobres criaturas de todos os

sofrimentos passados, de todas as suas desventuras e que lhes desenvolvem

na alma uma poesia desconhecida para as outras mulheres, a quem

felizmente faltam esses violentos contrastes.

— Terminou por representar tão bem como a srta. Mars — disse Du Bruel

a Corália.

— Sim — disse Camusot —, a senhorita teve qualquer coisa no começo

que a preocupava; mas, da metade do segundo ato em diante, esteve

magnífica. Ela lhe deve a metade do grande êxito do senhor.

— E ela me deve metade do seu — disse Du Bruel.

— Vocês discutem sobre coisa de que nenhum dos dois entende — disse

ela com voz alterada.

A atriz aproveitou um momento de escuridão para levar aos lábios a mão

de Luciano, e a beijou molhando-a de lágrimas. Luciano então sentiu-se

comovido até a medula dos ossos. A humildade da cortesã amorosa comporta

magnificências que a elevam acima dos anjos.

— Este senhor vai escrever o artigo de crítica — disse Du Bruel falando

de Luciano —, e ele bem pode escrever um encantador parágrafo sobre a

nossa cara Corália.

— Oh! preste-nos esse pequeno serviço — pediu Camusot com a voz de

um homem que se pusesse de joelhos diante de Luciano —; encontrará em

mim um servidor bem-disposto a seu favor, em qualquer tempo.

— Mas deixem a este senhor a sua independência — gritou a atriz,

enraivecida —; escreverá o que quiser. Papai Camusot, compre-me

carruagens, mas não elogios.

— A senhorita os terá e sem retribuição — respondeu polidamente

Luciano. — Jamais escrevi para os jornais, não estou a par dos costumes

deles, a senhorita terá a virgindade de minha pena...

— Será interessante — disse Du Bruel.

— Chegamos à Rue de Bondy — avisou o paizinho Cardot, a quem o

revide de Corália havia aterrado.

— Se tenho as primícias de tua pena, tu terás as de meu coração — disse

Corália durante o rápido instante em que ficou só no carro com Luciano.

 

XVII – COMO SE FAZEM OS PEQUENOS JORNAIS

 

Corália foi juntar-se a Florina no seu quarto de dormir, para nele vestir o

traje que mandara para a casa desta. Luciano não conhecia o luxo que

costumam ostentar em casa das artistas ou em casa das amantes os

negociantes ricos que querem gozar a vida. Embora Matifat, que não possuía

fortuna tão considerável como a de seu amigo Camusot, tivesse feito as coisas

com mesquinhez, Luciano ficou surpreendido ao ver uma sala de jantar

artisticamente decorada, com tapeçarias de tecido verde guarnecidas de

pregos com cabeças douradas, iluminada por belas lâmpadas, mobiliada com

jardineiras cheias de flores, e um salão forrado de seda amarela realçada com

ornatos escuros, onde resplandeciam os móveis então em moda, um lustre

de Thomire[252] e um tapete de desenhos persas. A pêndula, os

candelabros, a lareira, tudo era de bom gosto. Matifat havia deixado tudo a

cargo de Grindot,[253] jovem arquiteto que lhe construíra uma casa e que,

sabendo o destino do apartamento, nele pusera cuidados especiais.

Matifat, sempre comerciante, tomava precauções para tocar nas

menores coisas; parecia-lhe ter sempre diante dos olhos a cifra das faturas e

olhava para aquelas magnificências como para joias imprudentemente tiradas de um escrínio.

“Eis aqui, pois, o que vou ser forçado a fazer por Florentina”, era o

pensamento que se lia nos olhos do pai Cardot.

Luciano compreendeu de súbito que o estado do quarto onde morava

Lousteau não inquietasse absolutamente o jornalista amado. Rei secreto

dessas festas, Estêvão desfrutava todas aquelas lindas coisas. Por isso se

pavoneava representando o dono da casa, diante da chaminé, a conversar

com o diretor, que felicitava Du Bruel.

— A cópia! A cópia! — gritou Finot, entrando. — Nada na caixa do

jornal. Os compositores só têm o meu artigo, e logo o terminarão.

— Acabamos de chegar — disse Estêvão. — Encontraremos uma mesa e

fogo no camarim de Florina. Se o sr. Matifat nos quiser dar papel e tinta,

alinhavaremos o jornal enquanto Florina e Corália se vestem.

Cardot, Camusot e Matifat desapareceram, solícitos, à procura de penas,

canivetes e o mais que era preciso aos dois escritores. Nesse instante, Túlia,

uma das mais lindas dançarinas daquele tempo, precipitou-se no salão.

— Meu querido filho — disse ela a Finot —, concedem-te cem

assinaturas, que nada custarão à diretoria; estão já colocadas, impostas, ao

Canto, à Orquestra e ao Corpo de Bailados. Teu jornal é tão espirituoso que

ninguém se queixará. Terás teus camarotes. Aqui está, enfim, o preço do

primeiro trimestre — disse, apresentando duas notas. — Não me desanques,

portanto!

— Estou perdido! — exclamou Finot. — Não tenho artigo de fundo para

este número, já que é preciso suprimir a minha infame diatribe...

— Que bela atividade, minha divina Laïs! — exclamou Blondet, que viera

com a bailarina e na companhia de Nathan, Vernou e Cláudio Vignon,

trazidos por ele. — Ficarás para cear conosco, meu lindo amor, ou te farei

esmagar como borboleta que és. Na tua qualidade de bailarina, não excitarás

aqui nenhuma rivalidade de talento. Quanto à beleza, têm todas bastante

inteligência para não se mostrarem ciumentas em público.

— Meu Deus! Meus amigos, Du Bruel, Nathan, Blondet, salvem-me! —

exclamou Finot. — Preciso de cinco colunas.

— Encherei duas com a peça — disse Luciano.

— Meu assunto fornece uma — acrescentou Lousteau.

— Pois bem, Nathan, Vernou, Du Bruel, deixem os gracejos para depois.

O bravo Blondet bem que poderá preencher as duas pequenas colunas da

primeira página. Corro à tipografia. Felizmente, Túlia, vieste com a

carruagem.

— Sim, mas o duque lá está com um ministro alemão — explicou ela.

— Convidemos o duque e o ministro — alvitrou Nathan.

— Um alemão! Isso bebe demais e ouve bastante; nós lhe diremos tanta

coisa petulante que ele escreverá à sua Corte — exclamou Blondet.

— Qual é, de nós todos, o personagem suficientemente sério para descer

e lhe falar? — perguntou Finot. — Vamos, Du Bruel, tu que és burocrata,

traze o duque de Rhétoré,[254] o ministro, e dá o braço a Túlia. Meu Deus!

Como Túlia está linda esta noite!...

— Seremos treze! — lembrou Matifat, empalidecendo.

— Não, catorze — exclamou Florentina, chegando —, quero vigiar

milorde Cardot.

— Aliás — interveio Lousteau —, Blondet veio acompanhado de Cláudio

Vignon.

— Levei-o a beber — respondeu Blondet, pegando num tinteiro. —

Vejam lá, vocês, é preciso ter espírito à altura das cinquenta e seis garrafas de

vinho que haveremos de beber — disse ele a Nathan e a Vernou. —

Sobretudo, estimulem Du Bruel, é um vaudevillista, capaz assim de fazer

algumas gracinhas; empurrem-no até aos ditos felizes.

Luciano, animado pelo desejo de fazer suas provas diante de tão

notáveis personagens, escreveu o seu primeiro artigo à mesa redonda do

camarim de Florina, à luz de velas cor-de-rosa acesas por Matifat:

 

panorama-dramatique

 

Primeira representação de O alcaide em embaraços, imbroglio em

três atos. — Estreia da srta. Florina. — Srta. Corália. — Bouffé.

Entram, saem, falam, andam, procuram qualquer coisa e nada

encontram. Tudo está em rebuliço. O alcaide perdeu a filha e

encontra sua gorra; mas a gorra não lhe fica bem, deve ser a de um

ladrão. Onde está o ladrão? Entram, saem, falam, andam, procuram

cada vez mais. O alcaide acaba por encontrar um homem sem sua

filha, e sua filha sem um homem, o que é satisfatório para o

magistrado, mas não para o público. A calma renasce, o alcaide quer

interrogar o homem.

O velho alcaide toma assento numa grande poltrona de alcaide,

ajeitando suas mangas de alcaide. A Espanha é o único país onde há

alcaides apegados a grandes mangas, onde se veem em torno do

pescoço dos alcaides essas golilhas que, nos teatros de Paris,

constituem metade de suas funções. Esse alcaide, que tanto correu

num passinho de velhote asmático, é Bouffé; Bouffé, sucessor de

Potier, um jovem ator que representa tão bem os velhos que consegue

fazer rir aos mais idosos anciãos. Há um futuro de cem anciãos

naquela fronte calva, naquela voz trêmula, naqueles cambitos trôpegos

sob um corpo de Geronte. É tão velho esse jovem ator que até assusta;

a gente tem medo de que sua velhice se transmita como doença

contagiosa. E que admirável alcaide! Que encantador sorriso inquieto!

Que grande estupidez! Que dignidade estúpida! Que hesitação

judiciária! Como aquele homem sabe bem que tudo pode tornar-se

alternativamente falso e verdadeiro! Como ele é digno de ser feito

ministro de um rei constitucional! A cada uma das perguntas do

alcaide, o desconhecido o interroga por sua vez; e Bouffé responde, de

sorte que, interrogado pela resposta, o alcaide tudo esclarece pelas

suas perguntas. Essa cena eminentemente cômica em que se respira

um perfume de Molière fez a alegria da sala. Todo o mundo em cena

parecia de acordo; mas eu não estou em estado de vos dizer o que é

claro e o que é obscuro. A filha do alcaide ali estava representada por

uma verdadeira andaluza, uma espanhola com olhos espanhóis, com

tez espanhola, com corpo de espanhola, com andar espanhol; uma

espanhola dos pés à cabeça, com seu punhal na liga, seu amor no

coração, sua cruz presa a uma fita, sobre o seio. Findo o ato, alguém

me perguntou como ia a peça, e eu lhe respondi: “Ela tem meias

vermelhas com extremidades verdes, um pé deste tamanhinho, em

sapatos de verniz, e as mais belas pernas de toda a Andaluzia!”.

Ah, a filha do alcaide! Ela faz vir o amor à boca, ela desperta

desejos incríveis. Vem-nos vontade de saltar em cena e lhe oferecer

nosso coração e nosso teto, ou trinta mil libras de renda e nossa pena.

Aquela andaluza é a mais bela artista de Paris. Corália, pois é preciso

chamá-la por seu nome, é capaz de ser condessa ou grisette. Não se

sabe em que papel agradaria mais. Ela será o que quiser ser, nasceu

para fazer tudo. E não é isto o que de melhor se pode dizer de uma

artista no bulevar?

No segundo ato chega uma espanhola de Paris, com um rosto de

camafeu e olhos assassinos. Perguntei, por minha vez, de onde vinha

ela. Responderam-me que saíra dos bastidores e que se chamava srta.

Florina; mas, palavra!, não pude acreditar em nada disso, tanto ardor

tinha nos movimentos e tamanha fúria em seu amor. Essa rival da filha

do alcaide é a mulher de um cavalheiro talhado na capa de Almaviva,

[255] onde há estofo para cem grandes senhores do bulevar. Se Florina

não tinha meias vermelhas com ângulos verdes nem sapatos de verniz,

tinha uma mantilha, um véu de que se servia admiravelmente, como

grande dama que é! Ela nos fez ver à maravilha que uma tigresa pode

transformar-se numa gata. Compreendi que havia ali um drama de

ciúme, pelas palavras contundentes que as duas espanholas trocavam.

Depois, quando tudo se ia arranjar, a estupidez do alcaide fez com que

de novo tudo se emaranhasse. Todo aquele mundo de astros, de ricos,

de criados, de fígaros, de senhores, de alcaides, de moças e de

mulheres põe-se outra vez a procurar, a ir, vir, voltar. A intriga então se

renovou e eu deixei que se renovasse, porque aquelas duas mulheres,

Florina, a ciumenta, e a feliz Corália, de novo me enlearam nas dobras

de sua vasquinha e de sua mantilha, metendo-me os pequeninos pés

pelos olhos adentro.

Consegui chegar até o terceiro ato, sem ter cometido crime algum,

sem que houvesse sido necessária a intervenção do comissário de

polícia, sem haver escandalizado a sala, e desde então acredito no

poder da moral pública e religiosa de que se fala tanto na Câmara dos

Deputados que se diria não haver mais moral na França. Consegui

compreender que se trata de um homem que ama as duas mulheres

sem ser amado, ou que é delas amado sem as amar; que não gosta dos

alcaides ou de quem os alcaides não gostam; mas que é, com toda a

certeza, um bom senhor que ama a alguém, a si próprio ou a Deus,

como último recurso, porque acaba fazendo-se monge.

Se algo mais quiserdes saber, ide ao Panorama-Dramatique. Ficai,

porém, desde já prevenidos de que é preciso ir a primeira vez para se

habituar com aquelas triunfantes meias vermelhas com extremidades

verdes, com aquele pequeno pé cheio de promessas, com aqueles olhos

por onde se filtra um raio de sol, com as sutilezas de uma parisiense

disfarçada de andaluza, e de uma andaluza disfarçada de parisiense;

e depois, uma segunda vez, para saborear a peça que faz morrer de rir

com o velho e chorar com o enamorado. A peça triunfou sob as duas

formas. O autor, que, segundo dizem, teve como colaborador um de

nossos grandes poetas, visou o êxito com uma pequena amorosa em

cada mão; e, por isso, quase matou de prazer a plateia emocionada.

As pernas das duas pequenas pareciam ter mais espírito que o

próprio autor. Entretanto, quando as duas rivais se iam, achava-se o

diálogo espirituoso, o que prova de sobejo a excelência da peça.

O autor foi chamado à cena em meio de aplausos tais que deram

inquietações ao arquiteto do teatro. Habituado, porém, às erupções do

Vesúvio inebriado que surge sob o lustre, não tremeu: é o sr. de Cursy.

Quanto às duas atrizes, dançaram o famoso bolero de Sevilha, que

mereceu indulgência outrora ante os padres do concílio e que a

censura permitiu, apesar da perigosa lascívia de suas poses. Bastará

esse bolero para atrair todos os velhos que não sabem o que fazer de

seus restos de amor, e eu tenho a caridade de os avisar que conservem

bem limpos os vidros das lunetas.

 

Enquanto Luciano escrevia essa página, que revolucionou o jornalismo pela revelação de uma maneira nova e original, Lousteau lançava um artigo, dito

de costumes, intitulado O ex-elegante e que começava assim:

 

O elegante do Império é sempre um homem comprido e delgado, bem

conservado, que usa espartilho e a cruz da Legião de Honra. Chama-se

qualquer coisa assim como Potelet, e, para ficar bem colocado na Corte

de hoje, o barão do Império se agraciou com um “du”: ele é Du Potelet,

pronto a voltar a ser Potelet em caso de revolução. Homem para dois

fins, aliás, como seu nome, faz a corte no Faubourg Saint-Germain,

depois de haver sido o glorioso, o útil e agradável caudatário de uma

das irmãs do homem que o pudor me impede de nomear.

Se Du Potelet renega seus serviços junto à alteza imperial, canta

ainda romanças à sua benfeitora íntima...

 

O artigo era um tecido de alusões muito confusas, como se escreviam na

época, pois esse gênero foi estranhamente aperfeiçoado depois

notadamente pelo Fígaro.[256] Lousteau imaginava entre a sra. de

Bargeton, a quem o barão du Châtelet fazia a corte, e uma espinha de peixe

um engraçado paralelo que divertia sem que fosse preciso conhecer as

pessoas de quem se zombava. Du Châtelet era comparado a um socó. Os

amores desse pernalta, que não podia engolir a espinha, que se quebrava em

três quando a deixava cair, provocavam riso irresistível. Tal gracejo, que foi

adiante em muitos artigos, teve, como se sabe, enorme repercussão no

Faubourg Saint-Germain e foi uma das mil e uma causas do rigor imposto à

legislação da imprensa. Uma hora depois, Blondet, Lousteau e Luciano

voltaram ao salão onde conversavam os convivas: o duque, o ministro, as

quatro mulheres, os três negociantes, o diretor do teatro, Finot e os três

escritores. Um aprendiz, tendo à cabeça um boné de papel, surgira em busca

de originais para o jornal.

— Os operários irão embora se eu não levar coisa alguma — disse ele.

— Toma, aí tens dez francos, e que esperem — respondeu Finot.

— Se eu lhos der, senhor, farão uma ebriografia, e adeus jornal.

— O bom senso deste menino me assombra — disse Finot.

E foi mesmo no momento em que o ministro predizia um brilhante

porvir ao garoto que os três escritores entraram. Blondet leu um artigo

extraordinariamente espirituoso contra os românticos. O artigo de Lousteau

fez rir. O duque de Rhétoré recomendou que, para não indispor muito o

Faubourg Saint-Germain, nele se introduzisse um elogio indireto à sra.

d’Espard.

— E o senhor, leia-nos o que escreveu — disse Finot a Luciano.

Luciano, que tremia de medo, viu, ao terminar, o salão ressoar de

aplausos; as atrizes beijaram o neófito, os três negociantes o sufocaram de

tantos abraços, Du Bruel lhe tomou a mão e tinha lágrimas nos olhos; enfim,

o diretor o convidou para jantar.

— Não há mais crianças — disse Blondet. — E, dado que Chateaubriand

já usou a expressão criança sublime em relação a Victor Hugo, sou obrigado

a dizer simplesmente que o senhor é um homem de espírito, de sensibilidade

e de estilo.

— Este senhor é do jornal — disse Finot, agradecendo a Estêvão e

lançando-lhe o olhar sutil de explorador.

— Que escreveram vocês? — perguntou Lousteau a Blondet e a Du

Bruel.

— Eis o que Du Bruel fez — disse Nathan.

 

Ao ver o quanto o sr. visconde d’ A*** ocupa a atenção do público, o sr.

visconde Demóstenes disse ontem:

— Talvez me deixem tranquilo agora.

Certa dama disse a um ultra que censurava o discurso do sr.

Pasquier[257] como continuador do sistema de Decazes:[258]— Sim,

mas tem a barriga da perna bem monárquica.

 

— Se isto começa assim, não lhes peço nada melhor; tudo vai bem — disse

Finot. — Corre a levar-lhes isto — disse ao aprendiz.

— O jornal está um pouco atrasado, mas é o nosso melhor número —

continuou ele, voltando-se para o grupo de escritores que olhavam já para

Luciano com olhar sorrateiro.

— Tem espírito esse rapaz — disse Blondet.

— Seu artigo está bem — disse Cláudio Vignon.

— Para a mesa! — gritou Matifat.

O duque deu o braço a Florina, Corália tomou o de Luciano, e a bailarina

ficou com Blondet de um lado e o ministro alemão do outro.

 

XVIII – A CEIA

 

— Não compreendo por que os senhores atacam a sra. de Bargeton e o barão

du Châtelet, que foi, segundo se diz, nomeado prefeito de Charente e

referendário.

— A sra. de Bargeton pôs Luciano na rua como a um patife — respondeu

Lousteau.

— A um rapaz tão bonito! — comentou o ministro.

A ceia, servida em prata nova e porcelana de Sèvres, sobre a toalha de

linho adamascado, demonstrava opulência magnificente. Chevet havia feito

a ceia; os vinhos haviam sido escolhidos pelo mais famoso dos negociantes do

Quai Saint-Bernard, amigo de Camusot, de Matifat e de Cardot.

Luciano, que pela primeira vez via o luxo parisiense funcionando, ia de

surpresa em surpresa e escondia seu espanto como homem de espírito, de

sensibilidade e de estilo que era, segundo as palavras de Blondet.

Ao atravessar o salão, Corália havia dito ao ouvido de Florina:

— Faze-me o favor de embriagar tão bem Camusot que ele se veja

obrigado a ficar dormindo em tua casa.

— Embrulhaste então o teu jornalista? — perguntou Florina,

empregando uma expressão da linguagem peculiar às raparigas do seu meio.

— Não, querida, eu o amo! — respondeu Corália, fazendo admirável e

breve movimento de espáduas. Essas palavras ressoaram aos ouvidos de

Luciano, trazidas pelo quinto pecado capital.[259]

Corália estava admiravelmente vestida, e sua vestimenta punha

habilmente em relevo suas belezas peculiares; porque toda mulher possui

perfeições que lhe são próprias. Seu vestido, como o de Florina, tinha o

mérito de ser do delicioso tecido então inédito chamado musselina de seda,

cujo privilégio de venda pertencia por alguns dias a Camusot, uma das

providências parisienses das fábricas de Lyon, dada a sua qualidade de chefe do Casulo de Ouro. Assim, o amor e o traje, essa pintura e esse

perfume da mulher realçavam as seduções da feliz Corália. Um prazer

esperado e que não nos pode escapar exerce seduções imensas nas criaturas

moças. Talvez a certeza seja a seus olhos toda a atração dos lugares

suspeitos; talvez nela resida o segredo das longas fidelidades? O amor puro,

sincero, o primeiro amor, enfim, junto a uma dessas paixões fantásticas que

ferem essas pobres criaturas, e, também, a admiração pela grande beleza de

Luciano deram a Corália a inteligência do coração.

— Eu te haveria de amar mesmo que fosses feio e doente! — disse ela ao

ouvido de Luciano ao sentarem-se à mesa.

Que palavras para um poeta! Camusot desapareceu e Luciano não mais

o viu ao ver Corália. Seria um homem todo gozo e todo sensação, enfadado

da monotonia da província, atraído pelos abismos de Paris, cansado da

miséria, aguilhoado pela continência forçada, fatigado da vida monacal da

Rue de Cluny, de seus trabalhos sem resultado, quem se poderia retirar

desse festim brilhante? Luciano tinha um pé no leito de Corália e o outro no

visco do jornal, ao encontro do qual tanto havia corrido sem o poder

alcançar. Depois de tanto ter montado guarda em vão na Rue du Sentier, foi

encontrar o jornal à mesa, bebendo bem, alegre e bom rapaz. Acabava de ser

vingado de todos os seus sofrimentos por um artigo que deveria, no dia

seguinte mesmo, ferir dois corações nos quais havia querido, mas em vão,

derramar a raiva e a dor que o haviam feito beber. Olhando para Lousteau,

pensava: “Eis ali um amigo!”, sem suspeitar que Lousteau já o temia como a

um perigoso rival. Luciano cometera o erro de mostrar toda a sua

inteligência: um artigo fraco o teria servido admiravelmente. Blondet

contrabalançou a inveja que devorava Lousteau, dizendo a Finot que era

preciso capitular com o talento quando era daquela força. Essa frase ditou a

conduta de Lousteau, que resolveu ficar amigo de Luciano e se entender

com Finot para explorar um recém-chegado tão perigoso, conservando-o na

necessidade. Foi uma resolução rapidamente tomada e compreendida em

toda a sua extensão por esses dois homens, mediante duas frases ditas ao

ouvido:

— Ele tem talento.

— Ele será exigente.

— Oh!

— Bom!

— Nunca é sem medo que ceio com jornalistas franceses — disse o

diplomata alemão com uma bonomia calma e digna olhando para Blondet,

que havia visto em casa da condessa de Montcornet. — Há uma frase de

Blücher[260] cuja realização está a cargo dos senhores.

— Que frase é? — perguntou Nathan.

— Quando Blücher chegou até as alturas de Montmartre com Saacken,

[261] em 1814 (perdoem-me se os transporto a esse dia fatal para os

senhores), Saacken, que era brutal, disse: “Vamos queimar Paris!”. “Não faça

isso, a França só há de morrer daquilo!”, respondeu Blücher, mostrando esse

grande cancro que viam estendido a seus pés, ardente e fumegante, no vale

do Sena. Bendigo a Deus por não haver jornais em meu país — continuou o

ministro, após uma pausa. — Ainda não voltei a mim do terror que me

causou esse homenzinho de chapéu de papel que, aos dez anos, possui a

razão de um velho diplomata. Assim, esta noite, parece-me que ceio com

leões e panteras que me fazem a honra de aveludar suas patas.

Continuar: parte 7 de 12