A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 5/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

— Tem mais alguma coisa? — perguntou Barbet.

— Nada, meu pequeno Shylock. Hei de te arranjar um negócio excelente

(em que hás de perder mil escudos, para te ensinar a não me roubar assim) — acrescentou Estêvão em voz baixa, dirigindo-se a Luciano.

— E os seus artigos? — perguntou Luciano, no fiacre que os levava para o

Palais-Royal.

— Bah! o senhor não sabe como se alinhava isso. Quanto a Viagem ao

Egito, abri o livro e li alguns trechos aqui e ali, sem lhe cortar as folhas.

Descobri nele onze erros de vernáculo. Escreverei uma coluna dizendo que,

se o autor conseguiu aprender a linguagem dos boatos gravados nos calhaus

egípcios chamados obeliscos, em compensação não conhece a sua própria

língua, e o provarei. Direi que, em vez de nos falar de história natural e de

antiguidades, deveria ocupar-se com o futuro do Egito, o progresso da

civilização, e os meios de ligar o Egito à França, que, depois de o haver

conquistado e perdido, pode ainda atraí-lo pelo ascendente moral. Depois

disso uma tirada patriótica, lardeada de observações sobre Marseille, sobre o

Levante, sobre o nosso comércio.

— Mas, se ele tivesse feito isso, que diria o senhor?

— Bem, eu diria que, em vez de nos fastidiar com política, deveria ter-se

limitado à arte, a pintar-nos o país pelo seu lado pitoresco e geográfico.

Cabem aí algumas recriminações. A política, diria, nos satura, nos entedia,

encontramo-la por toda parte. Eu lamentaria essas encantadoras viagens em

que nos explicavam as dificuldades da navegação, o encanto das entradas

das barras, as delícias da passagem do Equador, enfim, tudo o que precisam

saber aqueles que nunca hão de viajar. Mas, mesmo aprovando-os, a gente

pode rir dos viajantes que celebram como grandes acontecimentos uma ave

que passa, um peixe-voador, uma pescaria, os pontos geográficos notáveis, os

fundos de mar explorados. Reclamam-se essas coisas científicas,

perfeitamente ininteligíveis, que fascinam como tudo o que é profundo,

misterioso ou incompreensível. O assinante ri, está servido. Quanto aos

romances, Florina é a maior leitora de romances que há no mundo; ela me

faz deles uma síntese e eu rabisco o meu artigo conforme a sua opinião.

Quando acha fastidiosas o que ela chama as frases do autor, dou ao livro

maior consideração e mando pedir um exemplar ao livreiro, que o envia,

encantado por conseguir um artigo favorável.

— Oh, meu Deus! Mas e a crítica, a santa crítica? — perguntou Luciano

imbuído das doutrinas do cenáculo.

— Meu caro — respondeu Lousteau —, a crítica é uma escova que não

pode ser empregada em tecidos delicados, pois arrasaria tudo. Escute,

deixemos de lado a profissão. Está vendo esta marca? — disse ele mostrando

o manuscrito das Boninas. — Com um pouco de tinta, marquei no papel o

lugar do cordão. Se Dauriat ler o manuscrito, ser-lhe-á certamente

impossível recolocar o cordão exatamente como estava. Assim, o seu

manuscrito fica como que selado. Isto não é inútil na experiência que deseja

fazer. Note ainda que não vai só e sem padrinho àquela barraca de feira,

como esses jovenzinhos que se apresentam a dez livreiros antes de haver

encontrado um que lhes ofereça uma cadeira...

Luciano já verificara a verdade desse detalhe. Lousteau pagou o fiacre

dando ao cocheiro três francos, com grande assombro de Luciano,

surpreendido com a prodigalidade que sucedia a tanta miséria. Entraram os

dois amigos nas Galeries de Bois, onde imperava então a livraria dita de

novidades.

 

XI – AS GALERIES DE BOIS

 

Naquela época as Galeries de Bois constituíam uma das mais ilustres

curiosidades parisienses. Não será assim inútil pintar esse ignóbil bazar, pois

durante trinta e seis anos desempenhou tão importante papel na vida

parisiense, que poucos homens haverá de mais de quarenta anos a quem

esta descrição, inacreditável para as pessoas jovens, não dê ainda prazer. Na

fria, larga e alta Galerie d‘Orléans, espécie de estufas sem flores,

encontravam-se barracas, ou, para ser mais exato, cabanas de tábuas, mal

cobertas, pequenas, mal iluminadas, do lado do pátio e do jardim, por frestas

chamadas de janelas, mas que se assemelhavam às mais sujas aberturas das

tabernas de fora das barreiras. Uma tríplice fileira de lojas formava duas

galerias de cerca de doze pés de altura. As lojas situadas ao centro davam

para as duas galerias cuja atmosfera lhes transmitia um ar mefítico, e cujos

tetos deixavam passar um pouco de claridade através dos vidros sempre

sujos. Tais cubículos haviam alcançado preço tão alto, dada a concorrência,

que, apesar da exiguidade de alguns, com seis pés apenas de largura e oito a

dez de comprimento, seus aluguéis custavam mil escudos. As lojas que recebiam luz do jardim e do pátio eram protegidas por pequenas latadas

verdes, talvez para impedir a multidão de demolir, pelo seu contato, as

paredes de argamassa ordinária que formavam os fundos das lojas. Nestes se

encontravam, num espaço de dois ou três pés, os mais bizarros produtos de

uma botânica desconhecida pela ciência, misturados com os de diversas

indústrias, não menos florescentes.

Uma prova de impressão servia por vezes de toucado a uma roseira, de

modo que as flores de retórica ficavam perfumadas pelas flores abortadas

desse jardim malcuidado, mas fetidamente regado. Tiras de todas as cores e

prospectos floriam entre folhagens. As sobras de artigos da moda asfixiavam

a vegetação: viam-se laços de fita sobre tufos de verdura, e sentia-se uma

decepção quando, ao se pretender admitir uma flor, percebia-se que era um

coque de cetim que figurava uma dália.

Tanto pelo lado do pátio como pelo do jardim, o aspecto desse palácio

fantástico oferecia tudo o que a sujeira parisiense já produziu de mais

bizarro: restos de tintas e de argamassa lavadas, estuques refeitos, velhas

pinturas, cartazes fantásticos. Além disso, o público parisiense emporcalhava

enormemente as grades verdes de um e de outro lado. Assim, pelos dois

lados, uma moldura reles e nauseabunda parecia impedir a aproximação das

galerias às pessoas delicadas. Mas as pessoas delicadas não recuavam diante

dessas horríveis baiucas, tal como os príncipes dos contos de fada não

recuam diante dos dragões e dos obstáculos interpostos por um gênio mau

entre eles e as princesas. Essas galerias eram, como ainda hoje, cortadas ao

centro por uma passagem e, como agora, ali se penetrava pelos dois peristilos

atuais, começados antes da Revolução e abandonados por falta de dinheiro.

A bela galeria de pedra que leva ao Théâtre-Français formava então uma

passagem estreita, de altura desmesurada e tão mal coberta que

frequentemente deixava passar a água da chuva. Chamavam-na Galeria

Envidraçada, para a distinguir das Galeries de Bois. Aliás, os tetos dessas

espeluncas estavam todos em tão mau estado que a Casa de Orléans foi

processada por um célebre negociante de casimiras e tecidos que, numa

noite, perdeu soma considerável em mercadorias avariadas. O comerciante

teve ganho de causa. Nalguns lugares uma dupla tela alcatroada servia de

teto. O solo da Galeria Envidraçada, onde Chevet[194] começou sua fortuna, e o da Galerie de Bois eram o solo natural de Paris, aumentado pelo

solo adventício trazido pelas botas e sapatos dos transeuntes. Em todos os

tempos, os pés calcavam ali montes e vales de lama endurecida,

incessantemente varridos pelos negociantes, exigindo dos recém-chegados

certa prática para andar por eles.

Esse sinistro acervo de lama, essas vidraças enxovalhadas pela chuva e

pela poeira, esses tugúrios acachapados e cobertos de farrapos por fora, a

sujeira das paredes começadas, esse conjunto semelhante a um

acampamento de ciganos, às barracas de uma feira, às construções

provisórias com que se cercam em Paris os monumentos que nunca

terminam de construir-se, essa fisionomia careteante sentava

admiravelmente aos diferentes negócios que fervilhavam nesse hangar

impudico, descarado, cheio de murmúrios e de louca alegria, onde, desde a

Revolução de 1789 até a de 1830, se fizeram negócios imensos. Durante

vinte anos, a Bolsa se conservou ali em frente, no andar térreo do palácio.

Desse modo, a opinião pública e as reputações se faziam e desfaziam ali

tanto como os negócios políticos e financeiros. Marcavam-se encontros

nessas galerias para antes e para depois da Bolsa. A Paris dos banqueiros e

dos comerciantes atravanca com frequência o pátio do Palais-Royal e refluía

para esses abrigos em tempo de chuva. A natureza da edificação, surgida

nesse ponto não se sabe como, tornava-a de uma estranha sonoridade. As

risadas ali se multiplicavam. Não podia travar-se uma discussão numa das

extremidades sem que se soubesse na outra de que se tratava. Não havia ali

senão livreiros, poesia, política e prosa, negociantes de modas e, enfim,

mulheres de vida airada que só apareciam à noite. Ali floresciam os boatos e

os livros, as glórias jovens e velhas, as conspirações da tribuna e as mentiras

da livraria. Ali se vendiam as novidades ao público, que se obstinava a

comprá-las só ali. Ali foram vendidos em uma só tarde vários milhares de tal

ou qual panfleto de Paul-Louis Courier[195] ou de As aventuras da filha de

um rei,[196] primeiro tiro dado pela Casa de Orléans na Constituição de

Luís xviii. Na época em que Luciano apareceu por ali, algumas lojas tinham

mostradores e portas de vidro muito elegantes; eram das que davam para o

jardim ou para o pátio. Até o dia em que pereceu essa estranha colônia, sob a

picareta do arquiteto Fontaine,[197] as lojas situadas entre as duas galerias eram inteiramente abertas, sustidas por pilares como as barracas de feiras na

província, e os olhares mergulhavam nas duas galerias através das

mercadorias ou das portas de vidro. Como era impossível acender fogo, os

negociantes tinham apenas pequenos aquecedores, e faziam eles mesmos o

policiamento do fogo, porque uma imprudência poderia inflamar num

quarto de hora aquela república de tábuas ressequidas pelo sol e como que já

crestadas pela prostituição e atravancadas de gaze, de musselina, de papéis,

e às vezes ventiladas por correntes de ar. As lojas das modistas estavam

cheias de chapéus inconcebíveis, que pareciam estar ali menos para venda

que para ostentação, presos, às centenas, a hastes de ferro terminadas em

bola, empavesando as galerias com suas mil cores. Durante vinte anos

indagaram os transeuntes sobre que cabeças esses chapéus poeirentos

acabariam sua carreira.

Operárias geralmente feias, mas espertas, prendiam as mulheres por

meio de palavras astuciosas, segundo o costume e com linguagem de

regateiras. Uma grisette,[198] cuja língua era tão solta como os olhos ativos,

subia a um tamborete e provocava os transeuntes: — Não compra um lindo

chapéu, senhora? Deixe-me vender-lhe qualquer coisa, senhor! — Seu

vocabulário fecundo e pitoresco tornava-se variado pelas inflexões de voz,

pelos olhares e pelas críticas feitas aos que passavam.

Livreiros e negociantes de modas viviam em boa harmonia. Na passagem

pomposamente chamada Galeria Envidraçada, encontravam-se os mais

singulares comércios. Ali se estabeleciam os ventríloquos, os charlatães de

toda espécie, espetáculos em que nada se via e outros em que era mostrado o

mundo inteiro. Ali se estabeleceu pela primeira vez um homem que ganhou

sete ou oito mil francos a percorrer as feiras. Tinha por tabuleta um sol a

girar num quadro negro, em torno do qual sobressaíam escritas em vermelho

estas palavras:

Aqui o homem vê o que Deus não poderia ver. Preço: dois sous.

O explorador não admitia ninguém sozinho nem mais de duas pessoas

ao mesmo tempo. Uma vez lá dentro, dava-se com o nariz num grande

espelho. No mesmo instante, uma voz que teria apavorado Hoffmann, o

berlinês,[199] soava como um mecanismo cuja mola fosse distendida: “Aqui

vedes, senhores, o que em toda a eternidade Deus não poderia ver, isto é, vosso semelhante. Deus não tem semelhante!”. Saía-se dali envergonhado,

sem coragem para confessar a própria estupidez.

De todas as portinholas partiam vozes semelhantes que gabavam

cosmoramas, vistas de Constantinopla, espetáculos de títeres, autômatos que

jogavam xadrez, cães que distinguiam qual a mais bela mulher da assistência.

O ventríloquo Fitz-James prosperou no Café Borel, antes de ir morrer em

Montmartre entre os alunos da Escola Politécnica. Havia vendedoras de

frutas e de ramalhetes e um famoso alfaiate cujos bordados militares

reluziam à noite como sóis. De dia, até as duas horas da tarde, as Galeries de

Bois ficavam mudas, sombrias e desertas. Os negociantes conversavam como

se estivessem em casa. Os encontros marcados pela população parisiense não

se iniciavam senão às três horas, hora da Bolsa. Desde que a multidão

chegava, ofereciam-se leituras gratuitas nas livrarias para os jovens famintos

de literatura e desprovidos de dinheiro. Os caixeiros encarregados de velar

pelos livros expostos deixavam, caridosamente, que as páginas fossem

folheadas pelos pobres. Se se tratava de um in-12 de duzentas páginas, como

Smarra,[200] Pedro Schlémihl,[201] Jean Sbogar,[202] Jocko,[203] era

devorado em duas sessões. Naquele tempo não existiam bibliotecas públicas;

para se ler um livro era preciso comprá-lo. Por isso, a venda de romances

atingia então um número que hoje pareceria fabuloso. Havia um não sei quê

de francês naquela esmola feita à inteligência jovem, ávida e pobre.

A poesia desse terrível bazar resplandecia ao cair da tarde. De todas as

ruas adjacentes surgia grande número de raparigas que ali podiam ir e vir

sem pagar contribuição. De todos os quadrantes de Paris, raparigas de vida

airada acorriam a fazer seu Palais. As Galerias de Pedra pertenciam a firmas

privilegiadas que pagavam o direito de ali expor criaturas vestidas como

princesas, entre tal ou qual arcada, e no local correspondente ao jardim;

enquanto as Galeries de Bois eram para a prostituição um mercado livre, o

Palais por excelência, palavra que significava então o templo da

prostituição. Uma mulher podia lá ir, de lá sair acompanhada pela sua presa,

e levá-la aonde bem quisesse. Essas mulheres atraíam então, à noite, para as

Galeries de Bois, tão considerável multidão que se caminhava a passo, como

nas procissões ou nos bailes de máscaras. Essa lentidão, que a ninguém

incomodava, servia para o exame.

Essas mulheres usavam trajes como já não se veem mais. O modo pelo

qual se decotavam até ao meio das costas e até muito embaixo também na

frente; os penteados bizarros inventados para atrair os olhares: uma se

penteava à normanda, outra à espanhola; encacheava-se esta como um

cãozinho, usava aquela bandós lisos; as pernas cingidas por meias brancas e

mostradas não se sabe como, mas sempre a propósito, toda essa infame

poesia perdeu-se. A licença das interrogações e das respostas, esse cinismo

público em harmonia com o local não se encontra mais nem nos bailes de

máscaras nem mesmo nos mais célebres bailes dados hoje em dia. Era

horrível e alegre. A carne brilhante das espáduas e dos colos resplandecia

entre as roupas quase sempre sombrias dos homens, e produzia magnífico

contraste. O bruaá das vozes e o ruído dos passos formavam um murmúrio

que se ampliava pelo jardim como o som contínuo de um rabecão

entremeado pelo riso das mulheres ou os gritos de algumas raras disputas.

Pessoas distintas, os homens mais em evidência, eram ali acotoveladas por

criaturas de caras patibulares. Esse monstruoso ajuntamento tinha um não

sei quê de picante; os homens mais insensíveis sentiam-se excitados. Assim,

Paris inteira ali compareceu até o último instante, e ali passeou sobre o

pavimento de tábuas que o arquiteto armou por cima dos porões enquanto

construía o novo edifício. Um pesar imenso e unânime acompanhou a

demolição desses ignóbeis pedaços de madeira.

O livreiro Ladvocat estabelecera-se havia alguns dias no ângulo que

formavam, ao centro, as galerias, em frente a Dauriat, moço hoje esquecido,

mas audacioso e que desbravou a estrada onde brilhou depois seu

concorrente. A loja de Dauriat encontrava-se no renque das que davam para

o jardim, e a de Ladvocat dava para o pátio. Dividida em duas partes, a loja

de Dauriat oferecia uma vasta sala para a sua livraria, e da outra parte fizera

o proprietário o seu gabinete. Luciano, que ali vinha pela primeira vez à

noite, sentiu-se aturdido com aquele aspecto, ao qual não resistiam os

provincianos e os rapazinhos. Perdeu logo o seu introdutor.

— Se fosses bonito como aquele rapaz ali, eu retribuiria teus sentimentos

— disse uma criatura a um velho, mostrando-lhe Luciano.

Luciano ficou envergonhado como o cão de um cego. Seguiu a torrente

num estado de atordoamento e de excitação difícil de descrever. Perseguido pelos olhares das mulheres, solicitado por curvas brancas e seios audaciosos

que o fascinavam, agarrava-se ao seu manuscrito, que apertava para que não

lho roubassem — o inocente!

— E então, senhor! — gritou ele, sentindo-se preso por um dos braços e

acreditando que sua poesia houvesse atraído alguém. Reconheceu

Lousteau, que lhe disse:

— Eu bem sabia que você acabaria por passar aqui.

 

XII – FISIONOMIA DE UMA LIVRARIA

NAS GALERIES DE BOIS

 

O poeta estava à porta da loja para onde Lousteau o fez entrar, e que estava

cheia de pessoas que esperavam a ocasião de falar ao sultão da livraria.

Impressores, papeleiros e desenhistas, agrupados em torno dos caixeiros,

interrogavam-nos sobre negócios em andamento ou projetados.

— Olhe, ali está Finot, o diretor do meu jornal. Está falando com um

moço de talento, Feliciano Vernou,[204] um rapaz divertido e ruim como

uma doença secreta.

— Ah, bem, você tinha um ingresso para uma estreia, meu velho — disse

Finot vindo com Vernou para Lousteau. — Mas eu dispus do camarote.

— Quê? Vendeste-o a Braulard?

— Sim, e depois? Tu te arranjarás. Que é que vens pedir a Dauriat? Ah!

ficou combinado que se há de ajudar Paul de Kock. Dauriat ficou com

duzentos exemplares, porque Victor Ducange lhe recusou um romance.

Dauriat quer, segundo diz, “lançar” um novo autor no mesmo gênero. Tens

de colocar Paul de Kock acima de Ducange.

— Mas eu tenho uma peça com Ducange na Gaîté — observou Lousteau.

— Pois bem! Dir-lhe-ás que o artigo é meu; passarei por tê-lo feito atroz,

tu o terás suavizado, e ele ficará a te dever agradecimentos.

— Não poderias me fazer descontar esta letrinha de cem francos pelo

caixa de Dauriat? — perguntou Estêvão a Finot. — Sabes! Cearemos juntos

para inaugurar o novo apartamento de Florina.

— Ah! sim, tu nos recebes — disse Finot tomando o ar de quem faz um

esforço de memória. — Bem! Gabusson — disse Finot tomando a promissória de Barbet e apresentando-a ao caixa —, dê noventa francos por mim a este

homem. Endosse a letra, meu velho.

Lousteau tomou a pena do caixa enquanto este contava o dinheiro, e

assinou. Luciano, todo olhos e todo ouvidos, não perdera uma sílaba da

conversa.

— Isto não é tudo, meu caro amigo — tornou Estêvão —, não te digo

obrigado; entre nós é para a vida e para a morte. Devo apresentar este

senhor a Dauriat, e tu deverás predispô-lo a nos escutar.

— De que se trata? — perguntou Finot.

— De uma coleção de poesias — respondeu Luciano.

— Ah! — disse Finot levantando os ombros.

— O senhor — disse Vernou olhando para Luciano — há muito tempo

que não frequenta livraria, de outro modo teria já encerrado seu manuscrito

nos cantos mais recônditos de seu domicílio.

Naquele instante, um belo rapaz, Emílio Blondet,[205] que acabava de

estrear no Jornal de Debates com artigos de grande valor, entrou, estendeu

a mão a Finot, a Lousteau, e saudou ligeiramente a Vernou.

— Vem cear conosco, à meia-noite, em casa de Florina — disse-lhe

Lousteau.

— Lá estarei — disse o moço. — Mas quem serão os outros?

— Ah! — disse Lousteau — são Florina e Matifat, o droguista;[206] Du

Bruel,[207] o autor que deu um papel a Florina, na sua peça de estreia; um

velhinho, o pai Cardot,[208] e seu genro Camusot;[209] e Finot.

— Faz as coisas convenientemente o teu droguista?

— Certamente não nos dará drogas — disse Luciano.

— O senhor tem muito espírito — disse gravemente Blondet olhando

para Luciano.

— Ele é do jantar, Lousteau?

— Sim.

— Vamos rir bastante.

Luciano corou até as orelhas.

— Levas ainda muito tempo, Dauriat? — perguntou Blondet batendo no

vidro que ficava por cima da mesa de Dauriat.

— Meu amigo, estou às tuas ordens.

— Bom — disse Lousteau a seu protegido. — Este rapaz, quase tão moço

como você, está no Debates. É um dos príncipes da crítica: é temido,

Dauriat virá requestá-lo. Poderemos então falar de nosso caso ao paxá das

vinhetas e da impressão. De outra maneira, às onze horas não teria ainda

chegado a nossa vez. A assistência irá aumentando de momento a momento.

Luciano e Lousteau aproximaram-se então de Blondet, de Finot e de

Vernou, e foram formar um grupo no fundo da loja.

— Que faz ele? — perguntou Blondet a Gabusson, o primeiro caixeiro

que se levantou para vir cumprimentá-lo.

— Está tratando da compra de um jornal hebdomadário que quer

restaurar a fim de contrabalançar a influência da Minerva,[210] que serve

quase exclusivamente a Eymery,[211] e ao Conservador,[212] que aplaude

cegamente o romantismo.

— Vai pagar bem?

— Mas como sempre... demais! — respondeu o caixeiro.

Nesse instante entrou um rapaz, que acabava de publicar magnífico

romance, rapidamente vendido e coroado do mais belo êxito, romance cuja

segunda edição estava sendo impressa por Dauriat. O moço, dotado dessa

aparência extraordinária e bizarra que assinala as naturezas de artista,

impressionou vivamente Luciano.

— Ali está Nathan — disse Lousteau ao ouvido do poeta provinciano.

Nathan, apesar do selvagem orgulho da fisionomia, então em plena

juventude, aproximou-se dos jornalistas de chapéu na mão e se conservou

quase humilde diante de Blondet, que conhecia apenas de vista. Blondet e

Finot conservaram-se de chapéu na cabeça.

— Senhor, sinto-me feliz com a ocasião que o acaso me proporciona...

— Está tão perturbado que comete um pleonasmo — observou Feliciano

a Lousteau.

— ... de lhe dizer o meu reconhecimento pelo belo artigo que teve a

gentileza de escrever a meu respeito no Jornal de Debates. Devo ao senhor

metade do êxito de meu livro.

— Não, meu caro, não — disse Blondet com ar em que a proteção se

disfarçava sob a bonomia. — Diabos me levem se o senhor não tem talento!

Estou encantado por conhecê-lo.

— Como seu artigo já foi publicado, não parecerei estar cortejando o

poder: estamos agora à vontade um diante do outro. Quer me dar a honra e

o prazer de jantar comigo amanhã? Finot virá. Lousteau, meu velho, você

não se recusará, não é verdade? — acrescentou Nathan, dando um aperto

de mão a Estêvão. — Ah! o senhor está num belo caminho — disse ele a

Blondet —, é o continuador dos Dussault,[213] dos Fiévée,[214] dos Geoffroi!

[215] Hoffmann falou no senhor a Cláudio Vignon,[216] seu aluno, um de

meus amigos, e disse que morrerá tranquilo, pois o Jornal de Debates viverá

eternamente. Devem pagá-lo de maneira régia?

— Cem francos a coluna — respondeu Blondet. — É pouco quando se é

obrigado a ler os livros, a ler cem para encontrar um de que se possa falar,

como o seu. Sua obra me proporcionou um prazer, palavra de honra.

— E lhe rendeu mil e quinhentos francos — disse Lousteau a Luciano.

— Ocupa-se de política? — tornou Nathan.

— Sim, de quando em vez — respondeu Blondet.

Luciano, que se encontrava ali sem jeito, havia admirado o livro de

Nathan, reverenciava o autor como se fora um deus, e ficou assombrado de

tanta baixeza diante daquele crítico cujo nome e projeção lhe eram

desconhecidos.

“Farei eu o mesmo algum dia? É então preciso abdicar-se da própria

dignidade! Põe teu chapéu, Nathan! Escreveste um belo livro e esse crítico

apenas um artigo.” Esses pensamentos fustigavam-lhe o sangue nas veias.

Notava, a cada instante, moços tímidos, autores necessitados que pediam

para falar a Dauriat, mas que, vendo a loja cheia, desesperavam de conseguir

audiência e diziam ao sair: — Voltarei.

Dois ou três políticos falavam sobre a convocação das câmaras e sobre

negócios públicos no meio de um grupo composto de celebridades da

política. O jornal hebdomadário de que Dauriat se ocupava tinha o direito de

tratar de política. Naquele tempo, as tribunas de papel impresso eram raras.

Um jornal era um privilégio tão solicitado como um teatro. Um dos acionistas

mais influentes de O Constitucional encontrava-se no centro do grupo de

políticos. Lousteau desempenhava-se maravilhosamente seu papel de

cicerone. Assim, de frase em frase, Dauriat se engrandecia no espírito de

Luciano, que via a política e a literatura convergirem para aquela loja.

Ao ver um poeta eminente que ali prostituía a musa a um jornalista,

humilhando a arte, como a mulher era humilhada e prostituída sob aquelas

ignóbeis galerias, o grande homem da província recebia terríveis

ensinamentos. Dinheiro! Era a chave de todos os enigmas. Luciano sentia-se

só, desconhecido, ligado pelo fio de uma duvidosa amizade ao êxito e à

fortuna. Acusava seus ternos, seus verdadeiros amigos do cenáculo, de lhe

terem pintado o mundo sob falsas cores, de o terem impedido de lançar-se

na refrega com a pena na mão.

— Eu seria já um Blondet! — exclamou consigo mesmo.

Lousteau, que acabava de gritar nos altos do Luxembourg como uma

águia ferida, que tão grande lhe parecera, ficou então reduzido a proporções

mínimas. Ali, o livreiro da moda, centro de todas aquelas existências,

pareceu-lhe ser o homem importante. E o poeta, com o manuscrito na mão,

sentiu um tremor que se assemelhava a medo.

No centro da loja, sobre pedestais de madeira pintada imitando

mármore, viu alguns bustos: o de Byron, o de Goethe e o do sr. de Canalis, de

quem Dauriat esperava obter um volume, e que pôde assim, no dia em que

visitou pela primeira vez a loja, medir a altura em que o colocavam os

editores. Involuntariamente, Luciano perdia aos poucos a convicção de seu

próprio valor; enfraquecia-se-lhe a coragem. Entrevia a influência desse

Dauriat sobre o seu destino e impacientemente esperava a sua aparição.

 

XIII – QUARTA VARIEDADE DE LIVREIRO

 

— Então, meus filhos — disse um homenzinho gordo e atarracado com o

aspecto de um procônsul romano, mas suavizado por um ar de placidez ao

qual se atinham os observadores superficiais —, eis-me proprietário do único

jornal hebdomadário que pôde ser comprado e que tem dois mil assinantes.

— Farsante! O registro acusa setecentos, o que já é uma bela coisa —

disse Blondet.

— Dou-lhes minha palavra de honra mais sagrada como são mil e

duzentos. Disse dois mil — acrescentou em voz baixa — por causa dos

papeleiros e dos impressores que estão por aí. Julgava-te com mais tato, meu

filho — continuou em voz alta.

— Aceita sócios? — perguntou Finot.

— Conforme — respondeu Dauriat. — Queres ficar com um terço por

quarenta mil francos?

— Está certo, se o senhor aceitar como redatores Emílio Blondet aqui

presente, Cláudio Vignon, Scribe, Théodore Leclercq, Feliciano Vernou, Jay,

Jouy, Lousteau...[217]

— E por que não Luciano de Rubempré? — disse ousadamente o poeta

de província, interrompendo Finot.

— E Nathan — terminou Finot.

— E por que não também todas as pessoas que passam? — disse o livreiro,

franzindo o sobrecenho e voltando-se para o autor das Boninas: — A quem

tenho a honra de falar? — disse, lançando a Luciano um olhar impertinente.

— Um momento, Dauriat — respondeu Lousteau. — Sou eu quem lhe

traz este cavalheiro. Enquanto Finot reflete a respeito de sua proposta,

escute-me um instante.

Luciano sentiu a camisa molhada nas costas ao ver o ar frio e

descontente do temível tirano da livraria, que tuteava Finot embora Finot o

tratasse por senhor; que chamava de meu filho ao temido Blondet; que

havia regiamente estendido a mão a Nathan, fazendo-lhe um gesto de

familiaridade.

— Um novo negócio, meu pequeno! — exclamou Dauriat. — Mas tu

sabes, eu tenho mil e cem manuscritos! Sim, senhores — exclamou ele —,

ofereceram-me mil e cem manuscritos; perguntem a Gabusson. Enfim, em

breve terei necessidade de um administrador para o depósito de

manuscritos, e um gabinete de leitura para os examinar. Haverá assembleias

para dar parecer a respeito do mérito deles, com retribuição pela presença,

um secretário perpétuo para me apresentar os relatórios. Será a sucursal da

Academia Francesa, e os acadêmicos serão mais bem pagos nas Galeries de

Bois do que no Instituto.

— É uma ideia — disse Blondet.

— Uma má ideia — tornou Dauriat. — Meu ofício não é de proceder à

depuração das elucubrações daqueles de entre os senhores que se metem a

literatos quando não podem ser capitalistas nem sapateiros, nem cabos de

esquadra, nem criados, nem administradores, nem porteiros! Não se entra aqui senão com reputação já feita! Tornem-se célebres e aqui encontrarão

rios de ouro. Vejam! Nestes últimos dois anos, houve três grandes homens

feitos por mim; criei três ingratos! Nathan fala em seis mil francos pela

segunda edição de seu livro que me custou três mil francos de artigos e não

me deixou nem mil francos de lucro. Paguei os dois artigos de Blondet a mil

francos e um jantar de quinhentos francos...

— Mas, se todos os livreiros disserem o que o senhor diz, como se poderá

publicar um livro de estreia? — perguntou Luciano, aos olhos de quem

Blondet perdeu grande parte de seu valor, ao saber ele a que preço Dauriat

pagava os artigos do Debates.

— Isso não é comigo — disse Dauriat lançando um olhar assassino sobre o

belo Luciano, que olhava para ele amavelmente. — Não me divirto a publicar

um livro, a arriscar dois mil francos para ganhar dois mil. Especulo com a

literatura: publico quarenta obras a dez mil exemplares, como fazem

Panckoucke[218] e os Beaudouin.[219] O meu poder e os artigos que

obtenho visam um negócio de cem mil escudos e não um volume de dois mil

francos. É preciso tanto trabalho para lançar um novo nome, um autor e seu

livro, como para fazer triunfar Teatros estrangeiros,[220] Vitórias e

conquistas[221] ou as Memórias sobre a Revolução,[222] que representam

uma fortuna. Não estou aqui para ser o degrau de futuras glórias, mas para

ganhar dinheiro e para o dar a ganhar aos homens célebres. O manuscrito

que compro por cem mil francos é mais barato do que outro cujo autor

desconhecido me pede seiscentos francos! Se não sou de todo um mecenas,

tenho direito ao reconhecimento da literatura: já fiz subir a mais do dobro o

preço dos manuscritos. Dou-lhe estas razões, meu filho, porque o senhor é

amigo de Lousteau — disse Dauriat ao poeta, batendo-lhe no ombro, com

um gesto de revoltante familiaridade. — Se eu conversasse com todos os

autores que querem que eu seja seu editor, seria preciso fechar minha loja,

pois passaria o meu tempo em palestras extremamente agradáveis, mas

caríssimas. Ainda não estou suficientemente rico para escutar os monólogos

de cada amor-próprio. Isso só se vê no teatro, nas tragédias clássicas.

O luxo da indumentária desse terrível Dauriat apoiava, aos olhos do

poeta da província, esse discurso cruelmente lógico.

— Que é isto? — perguntou ele a Lousteau.

— Um magnífico volume de versos.

Ouvindo essas palavras, Dauriat voltou-se para Gabusson com um

movimento digno de Talma:

— Gabusson, meu amigo, a partir de hoje, quem quer que aqui venha

para me oferecer manuscritos... Estão ouvindo aí, todos vocês? (disse ele

dirigindo-se a três caixeiros que saíram de baixo das pilhas de livros ao

ouvirem a voz colérica do patrão, que olhava as unhas e a mão, que era

bonita.) A quem quer que me traga manuscritos, perguntem se são versos ou

prosa. Se forem versos, mandem embora imediatamente. Os versos hão de

devorar os livreiros.[223]

— Bravo! Essa foi ótima, Dauriat! — exclamaram os jornalistas.

— É verdade! — exclamou o livreiro andando pela sala com o manuscrito

de Luciano na mão. — Os senhores não sabem o mal causado pelo sucesso de

Lord Byron, de Lamartine, de Victor Hugo, de Casimir Delavigne, de Canalis

e de Béranger. A glória deles representa para nós uma invasão de bárbaros.

Estou certo de que há neste momento em proposta de edição mil volumes

de versos que começam por histórias interrompidas, sem pés nem cabeça, ao

modo do Corsário[224] e de Lara.[225] Sob o pretexto de originalidade, os

moços perpetram estrofes incompreensíveis, poemas descritivos nos quais a

escola jovem se julga nova, inventando Delille![226] Há dois anos que os

poetas pululam como besouros. Perdi nisso vinte mil francos no ano passado!

Perguntem a Gabusson. É possível que haja no mundo poetas imortais.

Conheço alguns rosados e moços que ainda não fazem a barba — disse ele a

Luciano —, mas para o comércio de livros, jovem, só há quatro poetas:

Béranger, Casimir Delavigne, Lamartine e Victor Hugo; porque Canalis!...

esse é um poeta feito a golpes de artigos.

Luciano não se sentiu com coragem para levantar a cabeça e de mostrar-

se orgulhoso diante daqueles homens influentes que riam de bom grado.

Compreendeu que ficaria coberto de ridículo, mas sentia um violento desejo

de saltar à garganta do livreiro, de lhe desmanchar a insultante

impecabilidade do nó da gravata, de rebentar a corrente de ouro que lhe

brilhava ao peito, de lhe pisotear o relógio e rasgar a roupa. O amor-próprio

irritado abriu a porta à vingança. Jurou ódio mortal àquele livreiro a quem

sorria.

— A poesia é como o sol que faz brotar as florestas eternas e que

engendra os mosquitos, as mutucas e as moscas — disse Blondet. — Não há

uma única virtude que não seja forrada de vício. A literatura também

engendra os livreiros.

— E os jornalistas! — disse Lousteau.

Dauriat deu uma gargalhada.

— Mas que é isto, afinal? — perguntou ele mostrando o manuscrito.

— Uma coleção de sonetos capazes de envergonhar Petrarca — disse

Lousteau.

— Que é que você quer dizer com isso? — perguntou Dauriat.

— O que todo mundo sabe — respondeu Lousteau, vendo em todos os

lábios um fino sorriso.

Luciano não se podia zangar, mas suava para se conter.

— Pois bem, eu os lerei — disse Dauriat, fazendo um gesto de rei que

mostrava toda a grandeza da concessão. — Se teus sonetos estiverem à altura

do século xix, farei de ti, meu filho, um grande poeta.

— Se ele tiver tanta inteligência como beleza, você não corre grandes

riscos — disse um dos mais famosos oradores da Câmara, que conversava com

um dos redatores de O Constitucional e o diretor da Minerva.

— General — respondeu Dauriat —, a glória são doze mil francos de

artigos e mil escudos de jantares; pergunte ao autor de O solitário. Se o sr.

Benjamin Constant quiser escrever um artigo sobre este jovem poeta, não

será difícil concluir o negócio. À palavra “general”, e ao ouvir nomear o ilustre

Benjamin Constant, a loja tomou as proporções do Olimpo aos olhos do

grande homem da província.

— Lousteau, preciso falar contigo — disse Finot —, mas te encontrarei de

novo no teatro. Dauriat, faço o negócio, mas sob certas condições. Vamos ao

seu gabinete.

— Vem, meu pequeno — disse Dauriat deixando Finot passar à sua

frente e fazendo um gesto de homem ocupado a dez pessoas que

esperavam. Ia já saindo, quando Luciano, impaciente, o fez parar.

— O senhor fica com o meu manuscrito. Para quando a resposta?

— Mas, meu poetazinho, volta daqui a três ou quatro dias. Veremos.

Luciano foi arrastado por Lousteau, que não lhe deu tempo de cumprimentar Vernou nem Blondet, nem Raul Nathan, nem o general Foy,

nem Benjamin Constant, cuja obra sobre os Cem Dias[227] acabava de

aparecer. Luciano apenas entreviu aquela cabeça loira e fina, aquele rosto

oblongo, aqueles olhos inteligentes e aquela boca agradável, o homem, enfim,

que durante vinte anos havia sido o Potemkin[228] de Madame de Staël, e

que fazia guerra aos Bourbon depois de a haver feito a Napoleão, mas que

devia morrer abatido pela sua vitória.

 

XIV – OS BASTIDORES

 

— Que bodega! — exclamou Luciano, quando se viu sentado num cabriolé

de praça, ao lado de Lousteau.

— Ao Panorama-Dramatique, e depressa! Tens trinta sous pela corrida —

disse Estêvão ao cocheiro. — Dauriat é um velhaco que vende de milhão e

meio a milhão e seiscentos mil francos de livros por ano. É como que o

ministro da literatura — respondeu Lousteau, cujo amor-próprio se sentia

agradavelmente lisonjeado, e que se fazia de autoridade diante de Luciano.

— Sua avidez, tão grande como a de Barbet, se exerce sobre as massas.

Dauriat tem suas normas; é generoso, mas vão. Quanto à sua cultura,

compõe-se de tudo o que ouve dizer em torno de si. Sua loja é um lugar

excelente para se frequentar. Pode-se ali conversar com as pessoas

superiores da época. Ali, meu caro, um moço aprende mais numa hora do

que a empalidecer sobre os livros durante dez anos. Discutem-se artigos,

pescam-se assuntos, ligamo-nos com pessoas célebres ou influentes que nos

podem ser úteis. Hoje em dia, para triunfar, é preciso ter relações. Tudo é

acaso, como vê. O que há de mais perigoso é ter inteligência sozinho no seu

canto.

— Mas quanta impertinência! — disse Luciano.

— Bah! todos nós zombamos de Dauriat — respondeu Estêvão. — Se

você precisa dele, ele lhe põe a faca no peito: se ele precisa do Jornal de

Debates, Emílio Blondet o faz andar à roda como um pião. Oh! se você

entrar na literatura, há de ver boas! Então, eu não lhe dizia?

— Sim, tinha razão — respondeu Luciano. — Sofri nessa loja mais

cruelmente do que esperava, depois da sua previsão.

— E para que entregar-se ao sofrimento? O que nos custa a vida, o

assunto que durante noites de estudo assolou o nosso cérebro, todas as

incursões através dos campos do pensamento, o monumento construído

com o nosso sangue para os editores é apenas um negócio bom ou mau. Os

livreiros vendem ou deixam de vender o nosso manuscrito. Eis, para eles,

todo o problema. Um livro, para eles, representa capital a arriscar. Quanto

mais belo é o livro, menos probabilidade tem de ser vendido. Todo homem

superior eleva-se acima das massas; seu sucesso está pois na razão direta do

tempo para que a obra seja apreciada. Nenhum livreiro quer esperar. O livro

de hoje deve ser vendido amanhã. Com esse sistema, os livreiros recusam os

livros substanciosos, que necessitam de altas e lentas aprovações.

— D’Arthez tem razão! — exclamou Luciano.

— Conheces D’Arthez? — perguntou Lousteau. — Não sei de nada mais

perigoso que os espíritos solitários que pensam, como esse rapaz, poder atrair

o mundo a si. Fanatizando as jovens imaginações por meio de uma crença

que lisonjeia a força imensa que a princípio sentimos em nós, essa gente da

glória póstuma as impede de se agitar na idade em que o movimento é

possível e aproveitável. Eu sou pelo sistema de Maomé, que, depois de haver

mandado que a montanha viesse a ele, exclamou: “Se não vens a mim, irei

então eu a ti!”.

Esse arrebatamento, em que a razão tomava força incisiva, era de

natureza a fazer Luciano hesitar entre o sistema de submissa pobreza

pregada pelo cenáculo e a doutrina militante que Lousteau lhe expunha.

Desse modo, o poeta de Angoulême guardou silêncio até o Boulevard du

Temple.

O Panorama-Dramatique, hoje substituído por uma residência, era uma

encantadora sala de espetáculos situada em frente à Rue Charlot, no

Boulevard du Temple, e onde duas administrações sucumbiram sem obter

um único êxito, apesar de Bouffé,[229] um dos atores que compartilharam a

sucessão de Potier,[230] ali ter estreado, assim como Florina, atriz que cinco

anos mais tarde se tornaria célebre. Os teatros estão, como os homens,

sujeitos à fatalidade. O Panorama-Dramatique tinha como rivais o Ambigu, a

Gaîté, a Porte Saint-Martin[231] e os teatros de vaudeville. Não pôde resistir-

lhes às manobras, às restrições de seu privilégio e à falta de boas peças. Os autores não se quiseram indispor com os teatros existentes por um teatro

cuja vida parecia problemática. Entretanto, a administração contava com

nova peça, espécie de melodrama cômico, de um autor jovem, colaborador

de algumas celebridades, chamado Du Bruel, que dizia havê-la feito só. A

peça havia sido composta para a estreia de Florina, até aí comparsa na Gaîté,

onde havia um ano desempenhava pequenos papéis nos quais se fizera

notar, sem poder conseguir um contrato, de sorte que o Panorama a havia

arrebatado ao vizinho. Corália, outra atriz, aí devia estrear também. Quando

os dois amigos chegaram, Luciano ficou estupefato com o poder da

imprensa.

— Este senhor veio comigo — disse Estêvão ao porteiro, que se inclinou

profundamente.

— Dificilmente encontrará onde colocar-se — disse o porteiro chefe. —

Nada mais há disponível além do camarote do diretor.

Estêvão e Luciano perderam algum tempo a errar pelos corredores e a

parlamentear com as porteiras dos camarotes.

— Vamos para a sala, falaremos com o diretor, que nos levará para o seu

camarote. Além disso, eu o apresentarei à heroína da noite, a Florina.

A um sinal de Lousteau, o porteiro da orquestra tomou de pequena

chave e abriu uma porta oculta numa espessa parede. Luciano seguiu o

amigo e passou repentinamente do corredor iluminado para o negro buraco

que, em quase todos os teatros, dá comunicação da plateia para os

bastidores. Depois, subindo alguns degraus úmidos, o poeta da província

chegou ao bastidor, onde o esperava o mais estranho espetáculo. A estreiteza

dos camarins, a altura do palco, as escadas iluminadas por candeeiros, as

decorações tão horríveis vistas de perto, os atores caiados, seus trajes bizarros

feitos de grosseiros estofos, os serventes de vestes engorduradas, as cordas

que pendem, o contrarregra que passeia com o chapéu na cabeça, os

comparsas sentados, os panos de fundo suspensos, os bombeiros, essa

mistura de coisas burlescas, tristes, sujas, espantosas, cintilantes pareciam-se

tão pouco ao que Luciano havia visto de seu lugar no teatro que seu espanto

foi sem limites. Acabavam de levar um dramalhão intitulado Bertram,[232]

peça imitada de uma tragédia de Maturin que havia agradado infinitamente

a Nodier, Lord Byron e Walter Scott, mas que não obteve em Paris sucesso algum.

— Não largues meu braço se não queres cair num alçapão, receber uma

floresta na cabeça, derrubar um palácio ou suspender uma cabana — disse

Estêvão a Luciano.

— Florina está no seu camarim, minha joia? — perguntou ele a uma atriz

que se preparava para entrar em cena e escutava os atores.

— Sim, meu amor. Agradeço-te pelo que disseste de mim. És aliás tanto

mais gentil quanto é certo que Florina estreia aqui.

— Vamos, não percas a tua deixa, minha pequena — disse Lousteau. —

Precipita-te, de patinha no ar! dize-me isso bem: “Suspende, desgraçado!”,

pois hoje há dois mil francos de renda.

Luciano, estupefato, viu a atriz compenetrar-se e exclamar “Suspende,

desgraçado!” de modo a gelá-lo de pavor. Não era mais a mesma mulher.

— É isto então o teatro — disse ele a Lousteau.

— É como a loja das Galeries de Bois, é como um jornal para a literatura,

uma verdadeira cozinha — respondeu o seu novo amigo.

Nathan apareceu.

— Que anda fazendo por aqui? — perguntou-lhe Lousteau.

— Faço os pequenos teatros na Gazeta,[233] à espera de coisa melhor —

respondeu Nathan.

— Eh! ceie então conosco esta noite e, em troca, trate bem Florina —

propôs Lousteau.

— Inteiramente às suas ordens — respondeu Nathan.

— Sabe, ela está morando agora na Rue de Bondy.

— Quem é esse rapaz tão bonito com quem andas, meu Lousteauzinho?

— perguntou a atriz voltando da cena para os bastidores.

— Ah! minha querida, um grande poeta, um homem que há de se tornar

célebre. Como devem cear juntos, sr. Nathan, apresento-lhe o sr. Luciano de

Rubempré.

— Um belo nome, senhor — disse Raul a Luciano.

— Luciano, o sr. Raul Nathan — disse Estêvão ao seu novo amigo.

— Palavra, senhor, li seu livro há dois dias e não imaginei que, tendo

escrito um volume como o seu e as suas poesias, fosse tão humilde diante de

um jornalista.

— Quero ver o senhor por ocasião do seu primeiro livro — respondeu

Nathan deixando escapar um fino sorriso.

— Olhem! olhem! os ultras e os liberais trocam apertos de mão —

exclamou Vernou ao ver o trio.

— Pela manhã sou da opinião de meu jornal — disse Nathan —, mas à

noite penso como quero. À noite todos os redatores são pardos.

— Estêvão — disse Feliciano dirigindo-se a Lousteau —, Finot veio

comigo, ele te procura. E... ali está.

— E esta agora! Não há então mais lugar algum? — perguntou Finot.

— Tem sempre um em nossos corações — disse-lhe a atriz endereçando-

lhe a frase com o mais agradável dos sorrisos.

— Olá, minha Florvillezinha, já por aqui e curada de teu amor? Diziam

que havias sido raptada por um príncipe russo.

— Será que, atualmente, ainda se raptam mulheres? — perguntou

Florville, a atriz do “Suspende, desgraçado!” — Ficamos dez dias em Saint-

Mandé. Meu príncipe ficou quite pagando uma indenização à

administração. O diretor — acrescentou Florville rindo — vai pedir a Deus

que apareçam muitos príncipes russos. Suas indenizações lhe dariam

receitas sem emprego de capital.

— E tu, pequena — perguntou Finot a uma bonita camponesa que os

escutava —, de onde roubaste os botões de diamantes que tens nas orelhas?

Arranjaste um príncipe hindu?

— Não, mas um comerciante de graxa, um inglês que já se foi embora.

Não há quem queira, como Florina e Corália, negociantes milionários

enfastiados do lar: serão por acaso felizes?

— Vais perder a vez, Florville — gritou Lousteau. — A graxa de tua amiga

te subiu à cabeça.

— Se queres ter êxito — disse-lhe Nathan —, em vez de gritar como uma

fúria “Está salvo!”, entra simplesmente, chega até o procênio e diz com voz

de peito “Está salvo”, como a Pasta[234] diz “Ó pátria!” em Tancredo.[235]

Vai, anda! — acrescentou empurrando-a.

— Não é mais tempo, faltou à deixa! — disse Vernou.

— Que teria feito? A plateia aplaude freneticamente — disse Lousteau.

— Mostrou-lhe os seios pondo-se de joelhos, é o seu grande recurso — disse a atriz “viúva” da graxa.

— O diretor nos cede o seu camarote, lá me encontrarás — disse Finot a

Estêvão.

Lousteau conduziu então Luciano por trás dos bastidores através de um

dédalo de cenários, corredores e escadas até o terceiro andar, a um camarim

onde chegaram seguidos por Nathan e Feliciano Vernou.

— Bom dia ou boa noite, meus senhores — disse Florina. — Senhor —

continuou, voltando-se para um homem gordo e baixo que se mantinha a

um canto —, estes senhores são os árbitros de meu destino, meu futuro está

nas suas mãos; mas estarão, assim espero, sob a nossa mesa ao amanhecer, se

o sr. Lousteau nada esqueceu...

— Eu? Terá Blondet do Debates — disse-lhe Estêvão —, o verdadeiro

Blondet, em carne e osso, Blondet enfim.

— Oh! meu Lousteauzinho, oh, preciso te dar um beijo — disse ela

saltando-lhe ao pescoço.

Diante dessa manifestação de agrado, Matifat, o homem gordo, fechou a

cara. Aos dezesseis anos, Florina era magra. Sua beleza, como um botão de

flor cheio de promessas, não podia agradar senão aos artistas que preferem

os esboços aos quadros. A encantadora artista tinha já nos traços toda a

finura que a caracterizou sempre, e se assemelhava então à Mignon[236] de

Goethe. Matifat, rico droguista da Rue des Lombards, calculara que uma

atrizinha dos bulevares seria pouco dispendiosa; mas, em onze meses,

Florina lhe custara sessenta mil francos.

Nada pareceu mais extraordinário a Luciano que aquele honesto e probo

negociante ali postado como um deus Termo[237] a um canto daquele

reduto de dez pés quadrados, forrado de bonito papel e decorado com

espelho em pé, um divã, duas cadeiras, um tapete, uma lareira, e cheio de

armários. Uma criadinha acabara de vestir a atriz com um traje de

espanhola. A peça era um imbroglio em que Florina fazia o papel de

condessa.

— Esta criatura será daqui a cinco anos a mais bela artista de Paris —

murmurou Nathan a Feliciano.

— Ah! meus amores — disse Florina voltando-se para os três jornalistas

—, aplaudam-me amanhã: para começar, contratei carruagens para esta noite, porque os remeterei à casa bêbados como numa terça-feira gorda.

Matifat adquiriu vinhos, oh! mas vinhos dignos de Luís xviii, e contratou o

cozinheiro do ministro da Prússia.

— Esperamos realmente coisas enormes, desde que vimos este senhor —

disse Nathan.

— E ele sabe que está tratando com os homens mais perigosos de Paris —

respondeu Florina.

Matifat olhava para Luciano com ar inquieto, porque a grande beleza do

moço lhe despertava ciúmes.

— Mas eis ali um que não conheço — disse Florina avistando Luciano. —

Qual de vocês trouxe de Florença o Apolo de Belvedere? É bonito como uma

figura de Girodet.[238]

— Senhorita — disse Lousteau —, este senhor é um poeta da província

que esqueci de lhe apresentar. Está tão bela esta noite que é impossível a

gente pensar na civilidade pueril e honesta...

— É rico para se dedicar à poesia? — perguntou Florina.

— Pobre como Jó — respondeu Luciano.

— É bem tentador para nós — disse a atriz.

Du Bruel, o autor da peça, um rapaz de sobrecasaca, pequeno,

desenvolto, parecendo ao mesmo tempo burocrata, proprietário e agente de

câmbio, entrou repentinamente.

— Minha Florinazinha, você sabe bem o seu papel, hem? Nada de falta

de memória. Cuide bem da cena do segundo ato, seja mordaz, sutil! Diga

bem o “Não o amo” da maneira combinada.

— Por que aceita papéis onde há frases assim? — perguntou Matifat a

Florina.

Um riso geral acolheu a observação do droguista.

— Que lhe importa isso — retrucou ela — se não é ao senhor que falo,

animal estúpido? Oh! ele constrói a minha felicidade com as suas tolices —

continuou ela, olhando para os escritores. — Palavra de rapariga honesta, eu

lhe pagaria a tanto por asneira, se com isso não me arruinasse.

— É, mas você dirá tais palavras a olhar para mim, como quando

ensaiava o papel, e isso me dá medo — respondeu o droguista.

— Ora! olharei para o meu Lousteauzinho — respondeu ela.

Uma campainha retiniu pelos corredores.

— Vão-se embora todos — disse Florina —; deixem-me reler meu papel e

tratar de compreendê-lo.

Luciano e Lousteau saíram por último. Lousteau beijou as espáduas de

Florina e Luciano ouviu a atriz dizer:

— Esta noite é impossível. Essa velha besta disse à mulher que ia para o

campo.

— Achou-a simpática? — perguntou Estêvão a Luciano.

— Mas, meu caro, esse Matifat... — exclamou Luciano.

— Eh! Meu filho, você nada entende ainda da vida parisiense —

respondeu Lousteau. — Há coisas necessárias que é preciso suportar! É

como se amássemos uma mulher casada, mais nada. Arranja-se sempre uma

justificativa.

 

XV – UTILIDADE DOS DROGUISTAS

 

Estêvão e Luciano entraram para uma frisa junto ao palco, onde

encontraram o diretor do teatro e Finot. Em frente estava Matifat, noutra

frisa, com um de seus amigos, Camusot, um negociante de sedas que

protegia Corália e que se fazia acompanhar de um honesto velhote, seu

sogro. Os três burgueses limpavam os vidros das lunetas olhando a plateia,

cuja agitação os inquietava.

Os camarotes ofereciam à vista a sociedade bizarra das primeiras

representações: jornalistas e suas amantes; manteúdas com os seus

protetores; alguns velhos frequentadores de teatros, apaixonados pelas

estreias; e pessoas da boa sociedade amantes dessa espécie de emoções.

Num camarote de primeira ordem via-se, com a família, o diretor-geral das

contribuições, que havia encaixado Du Bruel numa repartição financeira

onde o fazedor de vaudevilles percebia os vencimentos de uma sinecura.

Luciano, desde o jantar, viajava de espanto em espanto. A vida literária, que

lhe parecera por dois meses tão pobre, tão nua a seus olhos, tão horrível no

quarto de Lousteau, tão humilde e tão insolente ao mesmo tempo nas

Galeries de Bois, ostentava-se com estranhas magnificências e sob aspectos

singulares. Essa mistura de altos e baixos, de transações de consciência, de elevações e de covardias, de traições e de prazeres, de grandezas e de

servidões deixava-o fora de si como um indivíduo empolgado por um

espetáculo inaudito.

— Acredita que a peça de Du Bruel dê dinheiro? — perguntou Finot ao

diretor.

— É uma peça de intriga na qual Du Bruel quis mostrar-se um

Beaumarchais. O público dos bulevares não gosta desse gênero; quer ser

saturado de emoções. O humor não é apreciado aqui. Tudo depende esta

noite de Florina e de Corália, que são maravilhosas de graça e de beleza.

Essas duas criaturas aparecem com saias muito curtas, numa dança

espanhola; podem arrebatar o público. Esta estreia é um jogo de cartas. Se os

jornais publicarem crônicas inteligentes, no caso de êxito, poderei ganhar

cem mil escudos.

— Então, pelo que vejo, não passará de um êxito convencional — disse

Finot.

— Há uma cabala organizada pelos três teatros vizinhos, para de

qualquer modo ser vaiada; mas arranjei meios de anular essas más intenções.

Paguei mais aos claqueurs enviados contra mim, para que a vaia seja

chocha. Lá estão três negociantes que, para conseguir um triunfo para

Corália e Florina, ficaram com cem entradas cada um e as deram a

conhecidos capazes de pôr na rua a claque. Paga duas vezes a cabala, ela se

deixará expulsar, e isso sempre dispõe bem o público.

— Duzentas entradas! Que gente preciosa! — exclamou Finot.

— Sim! Com duas outras artistas bonitas e ricamente mantidas como

Florina e Corália eu me safaria das dificuldades atuais.

Havia duas horas que, aos ouvidos de Luciano, tudo se resolvia através

do dinheiro. No teatro, como no lançamento de livros, neste como no jornal,

a arte e a glória não estavam em causa. As pancadas do fiel da balança da

moeda, repetidas em sua cabeça e no seu coração, os martelavam. Enquanto

a orquestra tocava a abertura, ele não pôde deixar de opor aos aplausos e aos

assobios da plateia em rebuliço as cenas de poesia calma e pura que havia

gozado na tipografia de David, quando ambos imaginavam as maravilhas da

arte, os nobres triunfos do gênio, a glória de asas brancas. Lembrando as

noites do cenáculo, uma lágrima brilhou nos olhos do poeta.

— Que é que você tem? — perguntou Lousteau.

— Vejo a poesia num lodaçal — respondeu.

— Eh, meu caro, você tem ainda ilusões.

— Mas então preciso rastejar e suportar aqui esses gordos Matifat e

Camusot, como as atrizes suportam os jornalistas, como nós suportamos os

livreiros?

— Meu pequeno — disse-lhe Estêvão ao ouvido, mostrando-lhe Finot —,

Continuar: parte 6 de 12