A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 2/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

“Mas por que acaso se encontra ele aqui?”.

Du Châtelet foi bem compreendido, porque De Marsay inclinou-se para

Montriveau para lhe dizer ao ouvido, de maneira a ser ouvido pelo barão:

— Pergunte-lhe quem é este singular rapaz que tem o ar de um

manequim vestido à porta de um alfaiate.

Du Châtelet falou por um momento ao ouvido do antigo companheiro,

com o ar de quem renova conhecimento, e, sem dúvida, reduziu o rival a

quatro pedaços.

Surpreendido pela vivacidade de espírito, pela finura com que aqueles

homens formulavam suas respostas, por aquilo a que chamam dito agudo,

flechada, e sobretudo pela desenvoltura das suas maneiras, Luciano sentia-

se aturdido.

O luxo que pela manhã o assombrara nas coisas, ele encontrava-o agora

nas ideias. Perguntava a si mesmo por que espécie de mágica aquelas

criaturas encontravam à queima-roupa reflexões mordazes, réplica que ele

não teria achado senão depois de longas meditações. Além disso, aqueles

cinco homens da sociedade estavam à vontade, não só usando a palavra, mas também em suas roupas: nada tinham de novo e nada de velho. Nada

brilhava neles e tudo chamava a atenção. Seu luxo de hoje era o de ontem e

deveria ser o de amanhã. Luciano adivinhou que tinha o ar de um homem

que se houvesse vestido pela primeira vez na vida.

— Meu caro — dizia De Marsay a Félix de Vandenesse —, esse pequeno

Rastignac sobe como uma pipa de papel! Lá está ele com a marquesa de

Listomère;[108] faz progressos. Veja como nos assesta a luneta! Sem dúvida

conhece o senhor? — continuou o grã-fino dirigindo-se a Luciano, mas sem

olhar para ele.

— É difícil — respondeu a sra. de Bargeton — que o nome do grande

homem de quem nos orgulhamos não tenha chegado até ele; sua irmã ouviu

o sr. de Rubempré ler-nos belos versos, não faz muito.

Félix de Vandenesse e De Marsay saudaram a marquesa e dirigiram-se

para o camarote da sra. de Listomère, irmã de Vandenesse.

O segundo ato começou, e todos deixaram sós a sra. d’Espard, sua prima

e Luciano. Uns foram explicar a sra. de Bargeton às mulheres intrigadas pela

sua presença, outros foram contar a chegada do poeta e rir de seu traje.

Canalis voltou ao camarote da duquesa de Chaulieu e dali não mais saiu.

Luciano sentia-se feliz com a distração que o espetáculo lhe proporcionava,

mas os temores da sra. de Bargeton com relação a ele aumentaram

grandemente com a atenção que a prima concedera ao barão du Châtelet,

atenção que tinha caráter bem diverso do de sua polidez protetora para com

Luciano.

Durante o segundo ato, o camarote da sra. de Listomère continuou

cheio de gente e pareceu agitado por uma conversa em que se tratava da

sra. de Bargeton e de Luciano. O jovem Rastignac era evidentemente quem

divertia o camarote, estimulando esse riso parisiense que, em se atirando

cada dia a novo pasto, apressa-se em esgotar o assunto presente,

transformando-o num instante em qualquer coisa de usado e velho.

A sra. d’Espard, inquieta, sabia que se não deixa por muito tempo na

ignorância duma maledicência aqueles a quem ela fere. Esperou pelo fim do

ato. Quando os sentimentos se recolhem e ensimesmam, como acontecia

com Luciano e a sra. de Bargeton, estranhas coisas acontecem em pouco

tempo: as revoluções morais operam-se por leis de efeito rapidíssimo. Luísa tinha presentes na memória as palavras sábias e astutas que Du Châtelet lhe

murmurara a respeito de Luciano ao voltar do Vaudeville. Cada frase era

uma profecia, e Luciano se encarregou de cumpri-las todas. Ao perder suas

ilusões sobre a sra. de Bargeton, do mesmo modo por que ela perdia as suas

sobre ele, o pobre moço, cujo destino se assemelhava um pouco ao de J.-J.

Rousseau,[109] imitou-o neste ponto: ficou fascinado pela sra. d’Espard e

dela se enamorou instantaneamente. Os jovens e os homens que se

recordam das emoções da mocidade concordarão em que tal paixão era

extremamente provável e natural. As belas maneiras, o falar apurado, o tom

de voz suave daquela mulher elegante, tão nobre, tão altamente colocada,

tão invejada; aquela rainha empolgava o poeta como a sra. de Bargeton o

empolgara em Angoulême. A mobilidade de seu caráter o impeliu

imediatamente a desejar tão alta proteção, e o meio mais seguro de alcançá-

la seria possuir a mulher. Teria tudo, então! Tivera êxito em Angoulême, por

que não o teria em Paris? Involuntariamente e apesar das magias da Opéra,

novas para ele, seu olhar, atraído por aquela magnífica Célimene,[110]

deslizava a todo o instante para ela, e quanto mais a via tanto mais desejos

tinha de a ver!

A sra. de Bargeton surpreendeu um desses olhares crepitantes de

Luciano; observou e viu-o mais ocupado com a marquesa do que com o

espetáculo. Ela se teria resignado de bom grado a ser preterida pelas

cinquenta filhas de Danaus;[111] mas quando um olhar mais ambicioso, mais

ardente, mais significativo que os outros lhe demonstrou o que se passava no

coração de Luciano, sentiu ciúmes, menos pelo futuro que pelo passado.

“Ele nunca me olhou assim”, pensou. “Meu Deus, Du Châtelet tem

razão!”

Reconheceu então o erro de seu amor. Sempre que uma mulher chega a

se arrepender de suas fraquezas, passa uma esponja sobre a sua vida, a fim

de tudo apagar. Entretanto, embora a encolerizasse cada olhar de Luciano,

permaneceu calma.

De Marsay voltou no entreato trazendo o sr. de Listomère. O homem

grave e o jovem fátuo contaram logo à altiva marquesa que o padrinho de

casamento endomingado que ela tivera a desgraça de admirar em seu

camarote chama-se tanto sr. de Rubempré quanto um judeu tem nome de batismo. Luciano era filho de um boticário chamado Chardon. O sr. de

Rastignac, muito a par dos acontecimentos de Angoulême, já fizera rir dois

camarotes à custa daquela espécie de múmia que a marquesa chamava de

prima, e da precaução por ela tomada de ter perto de si um farmacêutico,

sem dúvida para poder alimentar, por meio de drogas, sua vida artificial. De

Marsay repetiu, afinal, alguns dos mil epigramas tão do gosto dos parisienses,

que tão depressa os pronunciam como os esquecem, mas por trás dos quais

estava Du Châtelet, o artífice daquela traição cartaginesa.

— Querida — disse sob o leque a sra. d’Espard à sra. de Bargeton —, diga-

me, por favor, seu protegido chama-se realmente sr. de Rubempré?

— Ele adotou o nome da mãe — disse Anaïs, embaraçada.

— Mas qual é o nome do pai?

— Chardon.

— E que fazia esse Chardon?

— Era farmacêutico.

— Eu estava certa, querida amiga, que Paris não poderia zombar de uma

mulher com quem eu me relacione. Não faço questão de ver surgir aqui

gracejadores encantados por me encontrarem com o filho de um boticário;

mas, se me atender, sairemos ambas daqui e imediatamente.

A sra. d’Espard tomou um ar assaz impertinente, sem que Luciano

pudesse adivinhar que motivo havia dado para aquela mudança de

fisionomia. Pensou que seu colete era de mau gosto, o que era verdade; que

o corte de sua casaca era exagerado, o que ainda era verdade. Reconheceu

com sincera amargura que era preciso fazer-se vestir por um hábil alfaiate, e

resolveu ir no dia seguinte à casa do mais renomado, a fim de poder, na

próxima segunda-feira, rivalizar com os homens que encontrasse em casa da

marquesa. Embora perdido nessas reflexões, seus olhos, atentos ao terceiro

ato, não se afastaram da cena. Olhando as pompas daquele espetáculo

único, entregava-se ao seu devaneio sobre a sra. d’Espard. Sentiu-se

desesperado com aquela súbita frieza que contrastava estranhamente com o

ardor intelectual que ele punha naquele novo amor, descuidado das imensas

dificuldades que percebia, e que prometia a si mesmo vencer. Saiu afinal de

sua profunda abstração para contemplar o seu novo ídolo; mas, voltando a

cabeça, viu que estava só; mal percebera o leve ruído da porta que se fechava sobre a sra. d’Espard e a prima. Ficou extremamente surpreendido

com o brusco abandono, mas não pensou nisso por muito tempo,

precisamente porque o achava inexplicável.

Quando as duas mulheres subiram na carruagem, que rodava pela Rue

du Richelieu em direção ao Faubourg Saint-Honoré, a marquesa disse num

tom de cólera disfarçada:

— Minha querida filha, que é que pensa? Espere ao menos que o filho de

um boticário se torne realmente célebre para se interessar por ele. A duquesa

de Chaulieu não admite ainda Canalis, que, no entanto, é célebre e é um

gentil-homem. Esse rapaz não é seu filho nem seu amante, não é verdade?

— acrescentou aquela mulher altiva lançando à prima um olhar inquisidor e

claro.

“Que felicidade para mim ter conservado esse velhaquete à distância e

nada lhe ter concedido!”, pensou a sra. de Bargeton.

— Pois bem — tornou a marquesa, que tomou por uma resposta a

expressão dos olhos da prima —, deixe-o, é o que lhe aconselho. Arrogar-se

um nome ilustre?... mas é uma audácia que a sociedade pune. Admito que

seja o de sua mãe; mas pense, querida, que ao rei somente cabe o direito de

conferir, por decreto, o nome dos Rubempré ao filho de uma dama dessa

casa; se ela fez um mau casamento, o favor seria enorme, e para obtê-lo seria

preciso imensa fortuna, serviços prestados e altíssimos empenhos. Aquelas

roupas de lojista endomingado provam que o rapaz não é rico nem gentil-

homem; tem um belo rosto, mas me parece bastante tolo, não sabe

apresentar-se nem falar; enfim, não é educado. Por que cargas d’água o

protege?

A sra. de Bargeton, que renegou Luciano como Luciano a havia

renegado consigo mesmo, sentiu um medo louco de que a prima soubesse a

verdade sobre sua viagem.

— Mas, querida prima, estou desesperada por tê-la comprometido.

— Nada me compromete — disse sorrindo a sra. d’Espard. — Não penso

senão em você.

— Mas convidou-o a vir jantar segunda-feira.

— Estarei doente — respondeu vivamente a marquesa —, previna-o e eu

o recomendarei com ambos os nomes ao meu porteiro.

Luciano pensou em passear durante o entreato no saguão, ao ver que

toda a gente ia para lá. Ali, nenhuma das pessoas que tinham vindo ao

camarote o cumprimentou nem lhe pareceu dar atenção, coisa que se

afigurava muito extraordinário ao poeta da província. Du Châtelet, ao qual

tentou agarrar-se, vigiava-o com o canto dos olhos e o evitou

constantemente. Convencido, ao ver os homens que vagavam pelo saguão,

que seu traje era grandemente ridículo, Luciano foi recolocar-se no seu

canto do camarote e permaneceu durante o resto da representação absorto

alternativamente no pomposo espetáculo do bailado do quinto ato, tão

celebrado pelo seu Inferno, no aspecto da sala na qual seu olhar ia de

camarote a camarote, e nas suas próprias reflexões, que foram profundas, a

respeito da sociedade parisiense. “Eis aí o meu reino!”, pensava, “eis aqui a

sociedade que devo dominar.” Voltou a pé para casa pensando em tudo o

que haviam dito os personagens que tinham ido fazer a corte à sra.

d’Espard; suas maneiras, seus gestos, o modo de entrar e de sair, tudo voltou

à sua memória com assombrosa fidelidade. No dia seguinte, cerca de meio-

dia, sua primeira preocupação foi ir ter à casa de Staub, o alfaiate mais

célebre da época.[112] Obteve, à força de pedidos e pela virtude do dinheiro

contado, que seu traje ficasse pronto para a famosa segunda-feira. Staub

teve de lhe prometer uma deliciosa sobrecasaca, um colete e umas calças

para o dia decisivo. Luciano encomendou camisas, lenços, enfim, um

verdadeiro pequeno enxoval a uma costureira de roupa branca, e mandou

tomar medidas para sapatos e botas por um sapateiro afamado. Comprou

uma bonita bengala no Verdier,[113] luvas e botões de camisa da sra. Irlande;

tratou, enfim, de se pôr à altura dos janotas. Quando suas fantasias se viram

satisfeitas, dirigiu-se à Rue Neuve-du-Luxembourg e soube que Luísa saíra.

— Foi jantar com a sra. marquesa d’Espard e voltará tarde — disse-lhe

Albertina.

Luciano jantou num restaurante de quarenta sous no Palais-Royal e

deitou-se cedo. No domingo, às onze horas, dirigiu-se à casa de Luísa; ela

não se havia levantado. Voltou às duas horas.

— A senhora não recebe ainda — disse-lhe Albertina —, mas me deu um

bilhete para o senhor.

— Não recebe ainda — repetiu Luciano —; mas eu não sou qualquer um...

— Não sei, não — disse Albertina com ar impertinente.

Luciano, menos surpreendido com a resposta de Albertina do que com

receber uma carta da sra. de Bargeton, tomou o bilhete e leu na rua estas

linhas desesperadoras:

 

A sra. d’Espard está indisposta e não poderá recebê-lo segunda-feira.

Eu mesma não me sinto bem, entretanto vou vestir-me para ir fazer-

lhe companhia. Estou desesperada com esta pequena contrariedade;

mas seu talento me tranquiliza e sinto que avançará sem

charlatanismo.

 

“E nenhuma assinatura!”, pensou Luciano, que se viu nas Tuileries sem

perceber que caminhara tanto. O dom da vidência que as pessoas de talento

possuem fez-lhe desconfiar a catástrofe anunciada pelo frio bilhete. Ia

andando, perdido em seus pensamentos, seguia para a frente, olhando os

monumentos da Place Louis xv. Fazia um lindo tempo. Passavam

incessantemente sob seus olhos belas carruagens que se dirigiam para a

grande avenida dos Champs-Elysées. Deixou-se levar pela fila de passeantes

e viu então os três ou quatro mil carros que, nas tardes bonitas de domingo,

afluem àquele local e improvisam um Longchamps.[114]

Aturdido pelo luxo dos cavalos, dos trajes e das librés, continuou sempre

a andar e chegou diante do Arco do Triunfo começado. Qual não foi o seu

assombro quando, ao voltar, viu virem em sua direção a sra. d’Espard e a sra.

de Bargeton numa caleça admiravelmente atrelada, e por trás da qual

ondulavam as plumas do lacaio cuja casaca verde bordada a ouro fez com

que as reconhecesse! A fila parou devido a uma obstrução. Luciano pôde ver

Luísa em sua transformação. Estava irreconhecível: as cores da sua

vestimenta tinham sido escolhidas de modo a realçar-lhe a tez; o vestido era

delicioso; os cabelos graciosamente arranjados lhe sentavam bem, e o

chapéu, de raro gosto, chamava a atenção mesmo ao lado do da sra.

d’Espard, que impunha a moda.

Há modos indefiníveis de se pôr um chapéu: colocai-o um pouquinho

mais para trás e tereis um ar atrevido; ponde-o muito para a frente e tereis um ar velhaco; de lado, o ar é de um cavaleiro; as mulheres comme il faut

põem o chapéu de qualquer modo e ficam sempre com ar encantador. A sra.

de Bargeton resolvera imediatamente o difícil problema. Um lindo cinto

revelava seu talhe esbelto. Adotara os gestos e maneiras da prima; sentada

como ela, brincava com um elegante porta-perfumes preso por pequenina

corrente a um dos dedos da mão direita, e mostrava assim a mão fina e bem

enluvada sem parecer que a queria mostrar. Havia-se feito, enfim,

semelhante à sra. d’Espard, sem a macaquear; era a digna prima da

marquesa, que parecia orgulhosa da discípula.

As mulheres e os homens que passeavam pelas calçadas admiravam a

brilhante carruagem com as armas dos d’Espard e dos Blamont-Chauvry,

cujos escudos se viam lado a lado.

Luciano maravilhou-se com o grande número de pessoas que saudava as

duas primas; ignorava que toda Paris, que consiste em apenas vinte salões,

sabia já do parentesco da sra. de Bargeton e da sra. d’Espard. Rapazes a

cavalo, entre os quais Luciano notou De Marsay e Rastignac, uniram-se à

caleça para acompanhar as primas ao parque. Foi fácil a Luciano perceber,

pelos gestos dos dois pretensiosos, que eles cumprimentavam a sra. de

Bargeton pela sua metamorfose. A sra. d’Espard cintilava de graça e de

saúde; sua indisposição fora, assim, pretexto para o não receber, visto que

não transferira o jantar para outro dia. O poeta, furioso, procurou

aproximar-se da caleça, andou lentamente e, quando se achou à vista das

duas mulheres, saudou-as. A sra. de Bargeton fingiu não vê-lo; a marquesa

mirou-o através da luneta e não respondeu ao cumprimento.

A reprovação da aristocracia parisiense não se assemelhava à dos

soberanos de Angoulême: esforçando-se por ferir Luciano, os nobres, lá,

admitiam seu poder e olhavam-no como a um homem, enquanto para a sra.

d’Espard ele nem sequer existia. Não era uma sentença, mas uma denegação

de justiça. Um frio mortal assaltou o pobre poeta ao ver De Marsay assestar-

lhe a luneta; o leão parisiense deixou-a cair de modo tão singular que

pareceu a Luciano ser o cutelo da guilhotina. A caleça passou. A raiva e o

desejo de vingança se apossaram daquele homem desdenhado: se tivesse ao

seu alcance a sra. de Bargeton, tê-la-ia estrangulado; imaginou-se Fouquier-

Tinville[115] para outorgar-se o prazer de enviar a sra. d’Espard ao cadafalso; desejaria poder fazer com que De Marsay sofresse um desses suplícios

refinados que os selvagens inventaram. Viu passar Canalis a cavalo, elegante

como deveria ser o mais terno dos poetas, a saudar as mais lindas mulheres.

“Meu Deus! preciso de ouro, custe o que custar!”, dizia Luciano. “O ouro

é o único poder diante do qual este mundo se ajoelha.” “Não!”, gritava-lhe a

consciência, “não o ouro, mas a glória, e a glória é o trabalho! Trabalho!, é o

mote de David. Meu Deus! Por que estou aqui? Mas hei de triunfar!

Passearei nesta avenida numa caleça com lacaio! Possuirei marquesas

d’Espard!”

Murmurando essas palavras enraivecidas, almoçava no Hurbain a

quarenta sous. No dia seguinte, às nove horas, foi à residência de Luísa na

intenção de exprobrar-lhe a crueldade. Mas a sra. de Bargeton não só não

estava para ele, como ainda o porteiro não o deixou subir. Ficou na rua, de

atalaia, até meio-dia. A essa hora, Du Châtelet saiu do apartamento da sra.

de Bargeton e, vendo o poeta com o rabo do olho, evitou-o. Luciano,

espicaçado agudamente, perseguiu o rival; Du Châtelet, sentindo-se

alcançado, voltou-se e o saudou com a intenção evidente de fazer-se ao

largo depois desse ato de polidez.

— Um momento, faça o favor — disse Luciano —, conceda-me alguns

segundos, preciso dizer-lhe duas palavras. Deu-me provas de amizade e eu

as invoco para pedir-lhe um pequeno obséquio. Saiu agora de casa da sra. de

Bargeton; explique-me a causa do meu desfavor junto dela e da sra.

d’Espard.

— Sr. Chardon — respondeu Du Châtelet, com falsa bonomia —, sabe por

que essas damas o deixaram na Opéra?

— Não — disse o pobre poeta.

— Pois bem, foi prejudicado já de saída pelo sr. de Rastignac. O jovem

peralta, interrogado a seu respeito, informou pura e simplesmente que o

senhor se chama Chardon e não De Rubempré; que sua mãe cuida de

parturientes, que seu pai era quando vivo boticário no Houmeau, bairro de

Angoulême; que sua irmã é uma interessante menina que engoma camisas

admiravelmente e que vai desposar um impressor daquela cidade, chamado

Séchard. O mundo é assim. Põe-se alguém em evidência? Ele o discute. De

Marsay veio rir-se do senhor com a sra. d’Espard e imediatamente as duas mulheres fugiram achando que se comprometiam ao seu lado. Não tente ir à

casa de uma ou de outra. A sra. de Bargeton não seria recebida pela prima se

continuasse a vê-lo. O senhor tem gênio, trate de vingar-se. A sociedade o

desdenha, desdenhe a sociedade. Refugie-se numa mansarda, faça obras-

primas, alcance um poder qualquer, e verá o mundo a seus pés; retribuirá

então os golpes que ela lhe tiver dado, justamente onde ela os tiver dado.

Quanto mais a sra. de Bargeton lhe tinha manifestado amizade, tanto mais

se afastará do senhor. São assim os sentimentos femininos. Mas não se trata

neste momento de reconquistar a amizade de Anaïs; trata-se de não fazer

dela uma inimiga, e eu lhe vou proporcionar os meios. Ela lhe escrevia;

devolva-lhe todas as cartas e ela será sensível a esse procedimento fidalgo;

mais tarde, se tiver precisão dela, ela não lhe será hostil. Quanto a mim,

tenho tão alta opinião acerca do seu futuro, que por toda parte o defendi, e

desde agora, se alguma coisa puder fazer aqui pelo senhor, encontrar-me-á

sempre pronto a lhe prestar qualquer serviço.

Luciano estava tão abatido, tão pálido, tão desfeito que nem retribuiu ao

elegante velho rejuvenescido pela atmosfera parisiense a saudação

secamente polida que este lhe fez. Voltou ao hotel, onde encontrou Staub

em pessoa, vindo menos para provar o traje, como provou, que para

interrogar a hoteleira do Gaillard-Bois quem era, quanto a condições

financeiras, seu freguês desconhecido. Luciano chegara de diligência, a sra.

de Bargeton o havia trazido do Vaudeville quinta-feira última de carruagem.

Essas informações eram boas. Staub chamou Luciano de “senhor conde” e

lhe fez notar o talento com que havia feito valer suas belas formas.

— Um rapaz vestido deste modo — disse ele — pode passear pelas

Tuileries; desposará uma inglesa rica ao cabo de quinze dias.

Esse gracejo de alfaiate alemão, a perfeição do traje, a qualidade do

tecido, a graça que encontrava em si próprio ao se olhar no espelho, todas

essas pequenas coisas deixaram Luciano menos triste.

Pensou vagamente que Paris era a capital do acaso e por um momento

acreditou no acaso. Não tinha um volume de poesias e um magnífico

romance, O arqueiro de Carlosix, em manuscrito? Teve esperanças em seu

destino. Staub prometeu a sobrecasaca e o resto da vestimenta para o dia

seguinte.

No dia seguinte apareceram o sapateiro, a camiseira e o alfaiate, todos

munidos de suas faturas. Luciano, ignorando outra maneira de os despedir,

ainda sob o domínio dos costumes da província, pagou-os; mas, depois de os

haver pago, viu que não lhe restavam mais que trezentos e sessenta francos

dos dois mil que trouxera para Paris — e ali estava havia apenas uma

semana! Vestiu-se, apesar disso, e foi dar uma volta pelo Terrasse des

Feuillants. Tomou ali uma desforra. Estava tão bem-vestido, tão gracioso, tão

belo, que várias mulheres olharam para ele e duas ou três ficaram tão

impressionadas com a sua beleza que se voltaram. Luciano estudou o andar

e os modos dos rapazes e fez seu curso de boas maneiras sempre a pensar

nos seus trezentos e sessenta francos. À noite, só em seu quarto, veio-lhe a

ideia de esclarecer o problema de sua vida no hotel do Gaillard-Bois onde

almoçava os pratos mais simples, pensando economizar. Pediu a conta como

quem quer mudar-se e viu-se devedor de uma centena de francos.

Na manhã seguinte correu ao Quartier Latin, que David lhe

recomendara por ser barato. Depois de procurar por muito tempo, acabou

por encontrar na Rue de Cluny, perto da Sorbonne, um miserável hotel

onde obteve quarto pelo preço que desejava. Pagou imediatamente a

hoteleira do Gaillard-Bois e no mesmo dia veio instalar-se na Rue de Cluny.

A mudança custou-lhe apenas uma corrida de fiacre.

Após tomar posse de seu pobre quarto, reuniu todas as cartas da sra. de

Bargeton, fez um pacote, colocou-o em cima da mesa e, antes de lhe

escrever, pôs-se a pensar naquela fatal semana. Não pensou em que ele

próprio havia, em primeiro lugar e estouvadamente, renegado o seu amor,

sem saber o que seria de sua Luísa em Paris; não viu seus erros, viu apenas a

sua posição atual e acusou a sra. de Bargeton: em vez de o esclarecer, ela o

havia perdido. Irritou-se, encheu-se de orgulho, e se pôs a escrever a carta

seguinte, no paroxismo da cólera:

 

Que diria, senhora, de uma mulher a quem houvesse agradado algum

pobre rapaz tímido, cheio dessas nobres crenças que mais tarde o

homem chama ilusões, e que houvesse empregado a sedução dos seus

encantos, as finuras de sua inteligência e os mais belos recursos do

amor maternal para o desencaminhar? As promessas mais fagueiras, os

castelos de cartas que o maravilham nada lhe custam; ela o conduz,

apodera-se dele, e ora o censura pela sua falta de confiança, ora o

lisonjeia. Quando a criança abandona a família para cegamente a

seguir, ela a conduz às bordas de um mar imenso, fá-la entrar com um

sorriso num frágil esquife e o lança só, desprotegido, através das

tempestades. Depois, do rochedo onde ficou, ela se põe a rir e lhe

deseja boa sorte.

Essa mulher é a senhora; essa criança sou eu.

Nas mãos dessa criança se encontra uma lembrança que poderia

trair os crimes dos benefícios que lhe foram concedidos e do abandono

com que foi favorecido. Poderia a senhora ter de corar ao rever a

criança presa das vagas, se se lembrasse de que a havia aconchegado

ao seio. Ao ler esta carta, terá tal lembrança em seu poder. Está livre

para esquecer tudo. Depois das belas esperanças que seu dedo me

apontou no céu, percebo as realidades da miséria na lama de Paris.

Enquanto a senhora irá, brilhante e adorada, através das grandezas

deste mundo, ao limiar do qual me conduziu, eu tremerei de frio no

miserável sótão no qual me atirou. Mas talvez o remorso a assalte no

meio das festas e dos prazeres, talvez pense na criança que a senhora

mergulhou num abismo. Pois bem, senhora, pense nela sem remorsos!

Do fundo de sua miséria, essa criança oferece-lhe a única coisa que lhe

resta: o seu perdão, num último olhar.

Sim, graças à senhora, nada mais me resta. Nada? Não foi do nada

que se fez o mundo? O gênio deve imitar a Deus: começo por ter a

clemência dele sem saber se terei a sua força. A senhora só teria a

temer que eu caísse porque seria cúmplice de minhas faltas. Oh!

lastimo-a porque nada mais pode significar na glória ao encontro da

qual vou dirigir-me, conduzido pelo trabalho.

 

Escrita essa carta enfática, mas cheia dessa sombria dignidade que o artista

de vinte e um anos muitas vezes exagera, Luciano transportou-se pelo

pensamento ao seio da família: reviu o lindo apartamento que David decorara para ele, sacrificando para isso parte de suas economias, teve uma

visão das alegrias tranquilas, modestas, burguesas que havia saboreado. As

sombras da mãe, da irmã e de David puseram-se ao seu lado; viu de novo as

lágrimas que haviam vertido na hora da partida dele, e chorou, por estar

sozinho em Paris, sem amigos, sem protetores.

Alguns dias depois, escreveu à irmã:

 

Eva querida,[116] as irmãs têm o triste privilégio de desposar mais

amarguras que alegrias, ao compartilharem a existência de irmãos

votados à arte, e eu começo a temer vir a ser uma carga para ti. Não

abusei já de todos vocês, que se sacrificaram por mim? Essa lembrança

de meu passado, tão cheio das alegrias da família, me tem sustentado

na solidão do meu presente. Com que rapidez de águia que volta ao

ninho não teria eu atravessado a distância que nos separa a fim de me

encontrar numa esfera de afeições verdadeiras, após haver

experimentado as primeiras misérias e as primeiras decepções do

mundo parisiense! As lâmpadas aí não crepitaram? Os tições da lareira

não rolaram? Não sentiram um zumbido nos ouvidos? Minha mãe não

disse: “Luciano pensa em nós?”. David não respondeu: “Ele se debate

com os homens e as coisas”? Minha Eva, escrevo esta carta somente

para ti. A ti somente ouso confiar o bem e o mal que me advirão,

corando de um e outro, porque aqui o bem é tão raro quanto o deveria

ser o mal. Vais saber muitas coisas em poucas palavras: a sra. de

Bargeton envergonhou-se de mim, me renegou, despediu e repudiou

ao nono dia de chegada. Ao ver-me, voltou a cabeça, e eu, para segui-

la na sociedade onde me queria lançar, havia dispendido mil e

setecentos e sessenta francos dos dois mil trazidos de Angoulême e tão

penosamente conseguidos. Em quê?, dirás tu. Minha pobre irmã, Paris

é um estranho sorvedouro: aqui se paga por um almoço dezoito sous,

[117] e o mais simples jantar de um restaurât elegante custa

cinquenta francos; há coletes e calças de quatro francos e quarenta

sous, mas os alfaiates da moda não os fazem por menos de cem

francos. Dá-se um sou para passar as sarjetas das ruas quando chove.

Enfim, a menor volta em carruagem custa trinta sous. Depois de haver

morado na zona elegante, estou agora no Hotel de Cluny, na Rue de

Cluny, uma das mais pobres e sombrias ruazinhas de Paris, encerrada

entre três igrejas e os velhos edifícios da Sorbonne. Ocupo um quarto

mobiliado no quarto andar do hotel e, embora muito sujo e despido,

pago por ele quinze francos por mês. Minha primeira refeição consiste

num pãozinho de dois sous e de um sou de leite, mas janto muito bem

por vinte e dois sous no restaurât de um tal Flicoteaux, situado na

Place de la Sorbonne. Até o inverno minha despesa não excederá de

sessenta francos por mês, tudo incluído, pelo menos assim espero. De

modo que meus duzentos e quarenta francos serão suficientes para os

quatro primeiros meses. Daqui até lá terei sem dúvida vendido O

arqueiro de Carlos ix e As boninas.

Não deves ter, portanto, inquietação alguma a meu respeito. Se o

presente é frio, nu, mesquinho, o futuro é azul, rico e esplêndido. A

maior parte dos grandes homens provou as vicissitudes que me

perseguem sem se abater. Plauto, um grande poeta cômico, foi

empregado de moinho.[118] Maquiavel escrevia O Príncipe à noite,

depois de se haver confundido com os operários durante o dia.[119]

Enfim, o grande Cervantes, que havia perdido o braço na batalha de

Lepanto, contribuindo para a vitória desse famoso dia, chamado de

velho e ignóbil maneta pelos escrevinhadores de seu tempo, pôs, por

falta de livreiro, dez anos de intervalo entre a primeira e a segunda

parte do seu sublime Dom Quixote. Não estamos mais nesses tempos.

Os desgostos e a miséria não afligem senão aos talentos desconhecidos;

depois de postos em evidência, os escritores se tornam ricos, e eu serei

rico. Vivo, aliás, pelo pensamento, passo a metade do dia na biblioteca

Sainte-Geneviève, onde adquiro a instrução que me falta e sem a qual

não poderia ir longe. Encontro-me hoje quase feliz. Em poucos dias me

conformei alegremente com a minha situação. Entrego-me, desde

manhã cedo, a um trabalho de que gosto; assegurada a vida material,

medito muito, estudo, e não vejo onde possa hoje ser ferido, depois de

haver renunciado à sociedade onde a cada instante minha vaidade

podia sofrer. Os homens ilustres de todas as épocas são obrigados a

viver isolados. Não são acaso como os pássaros da floresta? Cantam,

enfeitiçam a natureza, e ninguém os percebe. Assim farei eu, se acaso

puder realizar os ambiciosos planos de meu espírito. Não lamento a

separação da sra. de Bargeton. Uma mulher que assim procede não

merece uma saudade. Não lamento tampouco haver saído de

Angoulême. Essa mulher teve razão em me jogar em Paris

abandonando-me às minhas próprias forças. Esta é a terra dos

escritores, dos poetas e dos pensadores. Somente aqui se cultiva a

glória, e hoje conheço as belas messes que ela produz. Só aqui os

escritores podem encontrar, nos museus e nas coleções, as obras-

primas dos gênios do passado, obras que reaquecem as imaginações e

as estimulam.

Só aqui as imensas bibliotecas, sempre abertas, oferecem ao espírito

informações e alimento. Existe enfim, em Paris, no ar e nas menores

coisas, um espírito que se respira e que se imprime nas criações

literárias. Aprende-se mais a conversar no café ou no teatro, durante

meia hora, do que em dez anos na província. Tudo aqui é realmente

espetáculo, comparação e instrução. O excessivamente barato, o

excessivamente caro, eis o que é Paris, onde cada abelha encontra seu

favo, onde cada alma assimila o que lhe é próprio. Assim, se neste

instante sofro, de nada me arrependo. Ao contrário, um belo futuro se

desdobra diante de mim e me alegra o coração por um instante

dolorido. Adeus, minha querida irmã, não esperes receber

regularmente minhas cartas: uma das particularidades de Paris é que

a gente não sabe realmente como o tempo passa. A vida aqui é de uma

assombrosa rapidez.

Beijo minha mãe, David e a ti mais ternamente que nunca.

II – FLICOTEAUX

 

Flicoteaux é um nome escrito em muitas memórias. Poucos estudantes há

que, instalados no Quartier Latin[120] durante os doze primeiros anos da

Restauração, não tenham frequentado esse templo da fome e da miséria. O

jantar, composto de três pratos, custava dezoito sous com um quartilho de

vinho ou uma garrafa de cerveja, e vinte e dois com uma garrafa de vinho. O

que, sem dúvida, impediu esse amigo da juventude de fazer uma fortuna

colossal foi um artigo de seu programa impresso em grandes letras nos

cardápios e assim concebido: pão à discrição, isto é, até a indiscrição.

Muitas glórias tiveram Flicoteaux por pai e protetor.

O coração de mais de um homem célebre deve, certamente, sentir o

gozo de mil recordações indizíveis ante a fachada de pequenos ladrilhos que

dá para a Place de la Sorbonne e para a Rue Neuve-du-Richelieu, que

Flicoteaux ii ou iii respeitou até os dias de Julho,[121] deixando-lhe as cores

escuras, o ar antigo e respeitável que anunciava profundo desdém pelo

charlatanismo das aparências, espécie de anúncio feito para os olhos em

detrimento do ventre por quase todos os restaurateurs de nossos dias. Em

vez de uma quantidade de caça empalhada, destinada a jamais ser cozida,

em vez dos peixes fantásticos que justificam o dito do saltimbanco: “Vi uma

bela carpa, que penso comprar dentro de oito dias”, em vez desses primores,

que se diriam melhor “postmores”, expostos com falaciosa ostentação para o

prazer dos cabos de esquadra e de suas companheiras, o honesto Flicoteaux

expunha compoteiras ornadas de vários modos, onde montes de ameixas

confeitadas alegravam os olhos dos consumidores, certos de que a palavra

sobremesa, por demais prodigalizada em outros anúncios, não era ali uma

promessa vã.

Os pães de seis libras, cortados em quatro pedaços, tranquilizavam

quanto à promessa do pão à discrição. Tal era o “luxo” do estabelecimento

que, em seu tempo, Molière o teria celebrado, tanto era divertido o epigrama

do nome. Flicoteaux subsiste, viverá enquanto os estudantes quiserem viver.

Come-se ali; nada menos, nada mais; mas come-se como se trabalha, com

atividade sombria ou alegre, segundo os caracteres ou as circunstâncias.

Esse estabelecimento célebre consistia então em duas salas dispostas em esquadro, longas, estreitas e baixas, com aberturas, uma, para a Place de la

Sorbonne, outra, para a Rue Neuve-du-Richelieu, ambas mobiliadas com

mesas vindas de algum refeitório abacial, porque seu comprimento tinha

qualquer coisa de monástico, e os talheres eram postos com os guardanapos

dos pensionistas passados em argolas metálicas numeradas. Flicoteaux i não

mudava as toalhas senão aos domingos; mas Flicoteaux ii, diz-se, trocava-as

duas vezes por semana desde que a concorrência passou a ameaçar a sua

dinastia. O restaurante é uma oficina com seus utensílios e não uma sala de

festins com sua elegância e seus prazeres: dele todos saem rapidamente.

Dentro os movimentos são desenvoltos. Os garçons vão e vêm sem descanso,

todos estão ocupados, são todos necessários. As iguarias são pouco variadas. A

batata é ali infalível; não houvesse uma só batata na Irlanda, faltasse ela em

toda parte, em casa de Flicoteaux se encontraria. Há trinta anos que ela ali

se apresenta sob a loira cor amada por Ticiano, polvilhada de verdura

picada, gozando de um privilégio invejado pelas mulheres: tal qual foi vista

em 1814, assim será encontrada em 1840. As costeletas de carneiro e o filé de

boi são para o cardápio desse estabelecimento o que o tetraz e o filé de

esturjão são para o de Véry:[122] iguarias extraordinárias que têm de ser

encomendadas já pela manhã. A fêmea do boi ali domina e seu filho abunda

sob os aspectos mais engenhosos. Quando a pescada e a cavala dão às costas

ao oceano, vão parar na casa de Flicoteaux. Ali, tudo está em relação com as

vicissitudes da agricultura e os caprichos das estações francesas. Aprendem-

se ali coisas de que nem suspeitam os ricos e os ociosos, os indiferentes às

fases da natureza. O estudante residente no Quartier Latin tem ali a mais

exata consciência do tempo: sabe quando os feijões e as ervilhas granam

bem, quando o mercado regurgita de couves, qual a salada que ali abunda e

se a beterraba enfezou. Uma velha calúnia, repetida ao tempo em que

Luciano frequentava o Flicoteaux, consistia em atribuir a aparição dos bifes a

alguma mortandade de cavalos.

Poucos restaurantes parisienses oferecem tão belo espetáculo. Ali só se

encontram juventude e fé, miséria alegremente suportada, se bem que os

rostos ardentes e graves, sombrios e inquietos também ali não faltem. As

roupas são geralmente desleixadas. Por isso notam-se os frequentadores que

aparecem bem-vestidos. Todos sabem o que tal traje extraordinário significa: amante esperada, noite de espetáculo ou visita às esferas superiores. Afirma-

se que ali se formaram algumas amizades entre estudantes que mais tarde se

tornaram célebres, como se verá nesta história.

Entretanto, exceto os rapazes da mesma região reunidos à mesma ponta

de mesa, geralmente os comensais têm uma gravidade que dificilmente se

desenruga, devido talvez ao catolicismo do vinho, que se opõe a toda

expansão. Os que cultivaram Flicoteaux poderão recordar, de certo, vários

personagens sombrios e misteriosos, envoltos na bruma da mais fria miséria,

que puderam lá jantar durante dois anos e desaparecer sem que luz alguma

haja iluminado esses duendes parisienses aos olhos dos frequentadores mais

curiosos.

As amizades esboçadas no Flicoteaux selavam-se nos cafés vizinhos às

chamas de um ponche licoroso, ou ao calor de uma meia xícara de café

abençoada por um pouco de aguardente.

Durante os primeiros dias de sua instalação no Hotel de Cluny, Luciano,

como todo neófito, teve modos tímidos e regulares.

Após a triste experiência da vida elegante que acabava de absorver seu

capital, atirou-se ao trabalho com esse primeiro ardor que depressa se

consome nas dificuldades e nos divertimentos que Paris oferece a todas as

existências, às mais luxuosas como às mais pobres, e que, para serem

dominadas, exigem a selvagem energia do verdadeiro talento ou o sombrio

poder da ambição.

Luciano caía no Flicoteaux pelas quatro horas e meia, depois de ter

observado a vantagem de ser dos primeiros a chegar; os pratos eram mais

variados e ainda havia daqueles que preferia. Como todos os espíritos

poéticos, havia se afeiçoado a um lugar, e sua escolha demonstrara muito

discernimento. Desde o primeiro dia de sua chegada ao Flicoteaux, havia

notado, junto ao balcão, uma mesa onde as fisionomias dos comensais, tanto

como as conversas, captadas de passagem, lhe denunciaram companheiros

literários. Ademais, uma espécie de instinto lhe fez adivinhar que,

colocando-se próximo ao balcão, poderia parlamentear com os donos do

restaurante. Com o correr do tempo o conhecimento se estabeleceria, e, no

dia da desgraça financeira, haveria de obter, sem dúvida, o crédito

necessário. Sentou-se pois a uma mesinha quadrada ao lado do balcão, onde se viam apenas dois talheres acompanhados de guardanapos brancos, sem

argola, e provavelmente destinados aos que iam e vinham. O comensal

fronteiro a Luciano era um rapaz magro e pálido, possivelmente tão pobre

como ele. Seu belo rosto, já desbotado, demonstrava que as esperanças

malogradas haviam fatigado sua fronte e deixado em sua alma sulcos em que

os grãos semeados não germinaram. Luciano sentiu-se atraído para o

desconhecido por esses vestígios de poesia e por um irresistível impulso de

simpatia.

Esse rapaz, o primeiro com quem o poeta de Angoulême pôde trocar

algumas palavras ao fim de uma semana de pequenas gentilezas de

monossílabos e de observações recíprocas, chamava-se Estêvão Lousteau.

[123] Como Luciano, Estêvão deixara a província, uma cidade do Berry,

havia dois anos. Seus gestos animados, seu olhar brilhante, a palavra breve

traíam um amargo conhecimento da vida literária.

Estêvão viera de Sancerre, com sua tragédia no bolso, atraído pelo que

pungia também a Luciano: a glória, o poder e o dinheiro. A princípio jantou

vários dias seguidos, mas se mostrou logo depois só de longe em longe. Por

vezes, após cinco ou seis dias de ausência, reencontrando o seu poeta,

Luciano esperava tornar a vê-lo no dia seguinte; mas, no outro dia, o lugar

estava tomado por um desconhecido. Quando dois jovens se viram no dia

anterior, o calor da conversa de ontem se reflete na de hoje; mas esses

intervalos obrigavam Luciano a romper novamente o gelo de cada vez, e

retardavam na mesma proporção uma intimidade que, durante as primeiras

semanas, pouco progresso havia feito. Depois de interrogar a dama do caixa,

Luciano soube que seu futuro amigo era redator de um pequeno jornal,

onde escrevia artigos sobre livros novos e fazia a crítica das peças

representadas no Ambigu-Comique,[124] na Gaîté[125] e no Panorama-

Dramatique.[126] O rapaz tornou-se imediatamente um personagem aos

olhos de Luciano, que esperava encaminhar a conversa com ele de maneira

um pouco mais íntima, e fazer alguns sacrifícios para obter uma amizade tão

necessária a um principiante. O jornalista permaneceu, porém, quinze dias

ausente. Luciano não sabia ainda que Estêvão só jantava no Flicoteaux

quando estava sem dinheiro, fato que lhe dava aquele ar sombrio e

desencantado, aquela frieza a que Luciano opunha lisonjeiros sorrisos e palavras doces. Além do mais, a ligação pretendida exigia maduras reflexões,

porque o obscuro jornalista parecia levar uma vida custosa, entremeada de

aperitivos, de taças de café, de tigelas de ponche, de espetáculos e de

jantares. Ora, nos primeiros dias de sua instalação na região, o proceder de

Luciano foi o de um pobre rapazelho aturdido pela sua primeira experiência

da vida parisiense. Assim, depois de haver estudado o preço das refeições e

sopesado a bolsa, Luciano não ousou seguir as pegadas de Estêvão, temendo

recomeçar os desacertos de que ainda se arrependia. Sempre sob o jugo das

afeições da província, seus dois anjos da guarda, Eva e David, levantavam-se

ao menor pensamento mau e lhe recordavam as esperanças nele postas, a

felicidade de que era devedor à sua velha mãe e todas as promessas de seu

gênio.

Passava as manhãs na biblioteca Sainte-Geneviève[127] a estudar

história. Suas primeiras buscas haviam-no feito encontrar erros tremendos

em seu O Archeiro de Carlos ix. Fechada a biblioteca, vinha para o quarto

úmido e frio corrigir a obra, refazê-la, suprimir-lhe capítulos inteiros. Depois

de haver jantado no Flicoteaux, descia à Galeria do Comércio, lia no

Gabinete Literário de Blosse[128] as obras da literatura contemporânea, os

jornais, as revistas, os livros de poesia, para se pôr ao corrente do movimento

da inteligência, e voltava ao seu miserável hotel à meia-noite, sem haver

gasto lenha nem luz. Essas leituras alteravam tão completamente as suas

ideias que passou a rever sua coleção de sonetos sobre as flores, suas caras

Boninas, e tanto os retocou que não lhes deixou cem dos versos originais.

Assim, de começo, levou Luciano a vida inocente e pura dos meninos pobres

da província que achavam luxuoso o Flicoteaux comparando-o ao ordinário

da casa paterna, que se divertem em lentas caminhadas sob as alamedas do

Jardin du Luxembourg, olhando as lindas mulheres de esguelha e com o

coração pletórico de sangue, que não saem do bairro e se entregam

santamente ao trabalho, sonhando com o futuro. Mas Luciano, poeta nato,

submetido logo a imensos desejos, encontrou-se sem forças contra as

seduções dos cartazes de espetáculos. O Théâtre-Français,[129] o

Vaudeville, o Variétés,[130] a Opéra-Comique,[131] onde ia para a plateia,

levaram-lhe uns sessenta francos. Que estudante poderia resistir ao prazer

de ver Talma[132] nos papéis que ele tornou ilustres? O teatro, esse primeiro amor de todos os espíritos poéticos, fascinou Luciano. Os atores e atrizes

pareciam-lhe imponentes personagens; não acreditava na possibilidade de

transpor os bastidores e de os ver familiarmente. Esses autores dos seus

prazeres eram para ele criaturas maravilhosas, que os jornais discutiam como

aos grandes interesses do Estado. Ser autor dramático, fazer-se representar,

que sonho afagado! E esse sonho, alguns audaciosos, como Casimir

Delavigne,[133] o realizavam! Pensamentos fecundos, instantes de crença

em si mesmo, seguidos de desespero, agitaram Luciano e o mantiveram no

santo caminho do trabalho e da economia, apesar dos surdos bramidos de

mais de um desejo fanático. Por excesso de prudência, proibiu-se penetrar

no Palais-Royal, esse lugar de perdição onde, num só dia, gastara cinquenta

francos no Véry e perto de quinhentos francos em roupas. Assim, quando

cedia à tentação de ver Fleury,[134] Talma, os dois Baptiste,[135] ou Michot,

[136] não ia além da obscura galeria onde se fazia fila desde as cinco horas e

meia e onde os retardatários eram obrigados a comprar por dez sous um

lugar extra num corredor. Muitas vezes, depois de ali haver esperado

durante duas horas, as palavras Não há mais lugares! ressoavam cruéis ao

ouvido de mais de um estudante desapontado. Depois do espetáculo,

Luciano voltava de cabeça baixa sem olhar, absolutamente, para as ruas

povoadas de vivas seduções. Possivelmente lhe sucederam algumas dessas

aventuras de excessiva simplicidade, que tomam entretanto um lugar

imenso nas imaginações jovens e tímidas.

Aterrado com a baixa de seu capital, num dia em que contou seus

escudos, Luciano sentiu suores frios ao pensar na necessidade de procurar

um livreiro e de pedir algum trabalho pago. O jovem jornalista, de quem se

havia feito unilateralmente amigo, não aparecia mais no Flicoteaux. Luciano

esperava um acaso que não surgia.

Em Paris não há acasos senão para pessoas extremamente relacionadas;

o número de relações aumenta nela as possibilidades de qualquer espécie de

êxito, e o acaso também se põe do lado dos grandes batalhões. Como homem

em quem ainda subsistia a previdência da gente da província, Luciano não

quis chegar ao instante em que já não tivesse senão alguns escudos: resolveu

enfrentar os livreiros.

III – DUAS VARIEDADES DE LIVREIRO

 

Numa manhã muito fria de setembro, Luciano desceu a Rue de La Harpe,

sobraçando os seus dois manuscritos. Caminhou até o Quai des Augustins, e

se pôs a andar ao longo do passeio olhando alternativamente a água do Sena

e as livrarias, como se um bom gênio o aconselhasse a atirar-se antes à água

que à literatura. Depois de pungentes hesitações, após profundo exame das

fisionomias mais ou menos ternas, divertidas, carrancudas, alegres ou tristes

que ia observando através dos vidros ou à soleira das portas, avistou uma casa

diante da qual caixeiros diligentes empacotavam livros. Faziam-se

expedições, as paredes estavam cobertas de cartazes. À venda: o solitário,

pelo visconde d’Arlincourt.[137] Terceira edição. léonide, por Victor

Ducange;[138] cinco volumes in-12 impressos em papel fino. Preço: 12

francos.induções morais, por Kératry.[139]

— Como esses são felizes! — exclamou Luciano.

O cartaz, criação nova e original do famoso Ladvocat, florescia então

pela primeira vez sobre os muros. Paris viu-se logo policromada pelos

imitadores desse processo de propaganda, que é uma das fontes de renda

pública. Enfim, com o coração túmido de sangue e de inquietação, Luciano,

tão grande havia pouco em Angoulême e tão pequeno em Paris, deslizou ao

longo das paredes e reuniu toda a sua coragem para entrar na loja

atravancada de caixeiros, de fregueses, de livreiros! “E de autores talvez”,

pensou.

— Desejo falar ao sr. Vidal ou ao sr. Porchon — disse a um caixeiro.

Havia lido sobre a tabuleta, em grandes letras:

vidal e porchon, livreiros distribuidores para a França e o

estrangeiro.

— Esses senhores estão ambos tratando de negócios — respondeu o

caixeiro azafamado.

— Esperarei.

Deixaram o poeta na loja, onde ele se pôs a examinar os pacotes;

permaneceu duas horas ocupado em olhar os títulos, em abrir os livros, em

ler algumas páginas aqui ou ali. Terminou por apoiar as costas numa divisão

guarnecida de pequenas cortinas verdes, atrás da qual supôs que se encontrasse Vidal ou Porchon, e ouviu a seguinte conversa:

— Quer ficar com quinhentos exemplares? Deixo-lhos a cinco francos e

dou-lhe um exemplar a mais em cada dúzia.

— Por que preço eles ficariam assim?

— Por dezesseis sous a menos.

— Quatro francos e quatro sous — disse Vidal ou Porchon a quem lhe

oferecia os livros.

— Isso mesmo — respondeu o vendedor.

— A prazo? — perguntou o comprador.

— Velho pândego! E me pagaria aos dezoito meses em promissórias a um

ano?

— Não, pagas imediatamente — respondeu Vidal ou Porchon.

— A que prazo? Nove meses? — perguntou o livreiro ou autor, que, sem

dúvida, oferecia um livro.

— Não, meu caro, a um ano — respondeu um dos livreiros-distribuidores.

Houve um momento de silêncio.

— Você me enforca! — exclamou o desconhecido.

— Mas teremos acaso colocado, em um ano, quinhentos exemplares de

Léonide? — respondeu o livreiro-distribuidor ao editor de Victor Ducange. —

Se os livros tivessem saída conforme o desejo dos editores, seríamos

milionários, meu caro mestre; eles saem, porém, segundo a vontade do

público. Há romances de Walter Scott a dezoito sous o volume, três livros a

doze sous o exemplar, e quer que eu venda os seus livrinhos mais caro? Se

quer que eu force a venda desse livro, faça-me vantagens. Vidal!

Um homem gordo deixou o caixa e aproximou-se com uma pena atrás

da orelha.

— Em tua última viagem, quanto colocaste de Ducange? — perguntou-

lhe Porchon.

— Fiz duzentos Anciõezinhos de Calais; mas foi preciso, para os colocar,

depreciar duas outras obras pelas quais não nos davam comissões tão boas e

que se tornaram belos “rouxinóis”.

Mais tarde Luciano veio a saber que a alcunha de “rouxinol” era dada

pelos livreiros às obras que ficavam empoleiradas nas prateleiras, na

profunda solidão das lojas.

— Sabes, aliás — replicou Vidal —, que Picard prepara o lançamento de

vários romances. Promete-nos vinte por cento sobre o preço comum de

livraria, a fim de organizarmos um acontecimento literário.

— Pois bem, a um ano — respondeu desconsoladamente o editor,

fulminado pela última observação confidencial de Vidal a Porchon.

— Está feito? — perguntou claramente Porchon ao desconhecido.

— Sim.

O livreiro saiu. Luciano ouviu Porchon dizendo a Vidal:

— Temos trezentos exemplares pedidos; demoraremos a pagá-lo,

venderemos os Léonide a cem sous o volume, faremos com que nos paguem

a seis meses de prazo, e...

— E — disse Vidal — são mil e quinhentos francos de lucro.

— Oh! Eu bem vi que ele estava em apertos.

— Está-se afundando! Pagou quatro mil francos a Ducange por dois mil

exemplares.

Luciano deteve Vidal fechando a portinhola daquele cubículo.

— Senhores — disse ele aos dois sócios —, tenho a honra de saudá-los.

Os livreiros mal o cumprimentaram.

— Sou autor de um romance sobre a história da França, à moda de

Walter Scott, e que tem por título O arqueiro de Carlos ix; proponho que

mo comprem.

Porchon lançou sobre Luciano um olhar frio, largando a pena sobre a

escrivaninha. Vidal olhou para o autor com ar brutal e respondeu:

— Senhor, não somos livreiros-editores, somos livreiros-distribuidores.

Quando editamos livros por nossa conta, eles constituem operações que

empreendemos com nomes feitos. Não compramos, aliás, senão livros sérios,

histórias, compêndios.

— Mas meu livro é muito sério, trata-se de pintar sob suas cores

verdadeiras a luta dos católicos, que eram pelo governo absoluto, e dos

protestantes, que desejavam a república.

— Sr. Vidal! — gritou um caixeiro.

Vidal sumiu.

— Não quero dizer, senhor, que seu livro não seja uma obra-prima —

tornou Porchon, fazendo um gesto bastante impolido —, mas só nos ocupamos de livros já impressos. Vá ver os compradores de manuscritos. O

pai Doguereau, na rue du Coq, perto do Louvre, é um dos que imprimem

romances. Se houvesse falado mais cedo, teria conhecido Pollet, o

concorrente de Doguereau e dos livreiros das Galeiries de Bois.

— Senhor, tenho uma coleção de poesias...

— Sr. Porchon! — gritou alguém.

— Poesia! — exclamou Porchon, colérico. — Por quem me toma o

senhor? — acrescentou, rindo-lhe no nariz e desaparecendo na contraloja.

Luciano atravessou a Pont-Neuf, mergulhado em mil reflexões. O que

havia compreendido daquela linguagem comercial fez-lhe adivinhar que,

para esses livreiros, os livros eram como os artigos de algodão para os

industriais do ramo: uma mercadoria a ser comprada barato e a ser vendida

caro.

“Enganei-me”, pensou ele, chocado, não obstante, pelo aspecto brutal e

material que a literatura tomava. Avistou na rue du Coq uma loja modesta

diante da qual havia já passado, na qual estavam pintadas em letras

amarelas sobre fundo verde estas palavras:

 

doguereau, livreiro.

 

Lembrou-se de haver visto essas palavras no frontispício de vários romances

que lera no Gabinete Literário de Blosse. Entrou, não sem essa trepidação

interior que causa a todos os homens de imaginação a certeza de uma luta.

Encontrou na loja um singular velhote, uma das figuras originais do

comércio de livros ao tempo do Império. Doguereau vestia casaca negra com

grandes abas quadradas — e a moda mandava talhar então as casacas em

cauda de bacalhau —, um colete de fazenda comum em xadrez de diversas

cores, de onde pendiam, no lugar do bolso, uma corrente de aço e uma

chave de cobre que caíam sobre uns vastos calções negros. O relógio deveria

ter a espessura de uma cebola. Tal traje era completado por meias de malha,

cor pardo-escura, e por sapatos ornados de fivelas de prata. O velho tinha a

cabeça nua, decorada por cabelos grisalhos e muito poeticamente esparsos.

O pai Doguereau, como o chamara Porchon, parecia-se, pela casaca, pelos

calções e pelos sapatos, a um professor de belas-letras e, pelo colete, pelo relógio e pelas meias, a um negociante. Sua fisionomia não desmentia em

Continuar: parte 3 de 12