A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 3/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

nada essa singular combinação: tinha o ar magistral, dogmático, o rosto

encovado do mestre de retórica e os olhos vivos, a boca desconfiada, a vaga

inquietação do livreiro.

— O sr. Doguereau? — perguntou Luciano.

— Sou eu, senhor...

— Sou o autor de um romance — disse Luciano.

— É bem jovem — disse o livreiro.

— Mas, senhor, minha idade nada tem que ver com o negócio.

— É certo — disse o velho livreiro, tomando o manuscrito. — Oh, diacho!

O arqueiro de Carlos ix, um bom título. Vejamos, rapaz, conte-me seu

enredo em duas palavras.

— É uma obra histórica, senhor, no gênero de Walter Scott, em que o

caráter da luta entre protestantes e católicos é apresentado como um

combate entre dois sistemas de governo, durante o qual o trono esteve

seriamente ameaçado. Tomei o partido dos católicos.

— Eh, menino, eis aí uma ideia. Está bem, vou ler o seu livro, prometo.

Gostaria mais de um romance no gênero da sra. Radcliffe;[140] mas, se é

trabalhador, se tem um pouco de estilo, de concepção, de ideias, a arte da

encenação, não desejo mais que lhe ser útil. Que é que nos falta?... Bons

manuscritos.

— Quando poderei vir?

— Vou para fora esta tarde, estarei de volta depois de amanhã; terei lido

sua obra, e, se ela me agradar, poderemos fazer o negócio nesse mesmo dia.

Luciano, vendo-o tão simples, teve a fatal ideia de tirar o manuscrito das

Boninas.

— Senhor, tenho também uma coleção de versos...

— Ah! O senhor é poeta! Não quero mais o seu romance — disse o

velhote, estendendo-lhe o manuscrito. — Os rimadores fracassam quando

querem fazer prosa. Em prosa não há rípios, é absolutamente preciso dizer-

se alguma coisa.

— Mas, senhor, Walter Scott também fez versos...

— É verdade — disse Doguereau, que se abrandou, adivinhando a

penúria do rapaz, e guardou o manuscrito. — Onde mora o senhor? Irei vê-lo.

Luciano deu seu endereço, sem suspeitar naquele velhote nem sombra

de segunda intenção; não reconhecia nele o livreiro da velha escola, o

homem do tempo em que os livreiros sonhavam ter numa mansarda, a sete

chaves, Voltaire e Montesquieu morrendo de fome.

— Volto precisamente pelo Quartier Latin — disse o velho depois de ter

lido o endereço.

“Criatura bondosa!”, pensou Luciano ao cumprimentar o livreiro.

“Encontrei enfim um amigo da mocidade, um conhecedor que sabe alguma

coisa. Falem-me de homens assim! Bem que eu dizia a David: o talento

triunfa com facilidade em Paris.”

Luciano voltou lépido e feliz, sonhava com a glória. Sem mais pensar nas

sinistras palavras que acabavam de lhe ferir os ouvidos no balcão de Vidal e

Porchon, via-se rico, dono de, pelo menos, mil e duzentos francos. Mil e

duzentos francos representavam um ano de estada em Paris, um ano

durante o qual prepararia novas obras. Quantos projetos arquitetados sobre

essa esperança! Quantos sonhos doces vendo sua vida alicerçada sobre o

trabalho! Imaginou-se firmado, bem-arranjado; pouco faltou para que não

fizesse algumas compras. Iludiu a impaciência por meio de leituras

constantes no Gabinete de Blosse.

Dois dias depois, o velho Doguereau, surpreso com o belo estilo que

Luciano já demonstrava na primeira obra, encantado com o exagero dos

caracteres permitido pela época em que se desenvolvia o drama,

impressionado com o transporte de imaginação com que um jovem autor

traça sempre seu primeiro plano (não estava viciado o pai Doguereau!), veio

ao hotel onde morava o seu Walter Scott em embrião. Estava decidido a

pagar mil francos pelos direitos completos de O arqueiro de Carlos ix e a

contratar Luciano para escrever várias obras. Ao ver a casa, a velha raposa se

desdisse. “Um rapaz que mora aqui tem gostos modestos, ama o estudo, o

trabalho: posso dar-lhe apenas oitocentos francos.”

A hoteleira, a quem perguntou pelo sr. Luciano de Rubempré,

respondeu:

— No quarto andar!

O livreiro levantou o nariz e não viu mais que o céu acima do quarto andar. “Este moço”, pensou ele, “é um bonito rapaz, é mesmo muito bonito;

se ganhar dinheiro demais, tornar-se-á um dissipador, não trabalhará mais.

Em nosso comum interesse, eu lhe oferecerei seiscentos francos; mas em

prata, nada de cédulas.” Subiu a escada e bateu três pancadas à porta de

Luciano, que veio abrir. O quarto era de uma nudez desesperante. Havia

sobre a mesa uma tigela de leite e um pãozinho de dois sous. Essa miséria do

gênio impressionou o bondoso Doguereau.

“Que ele conserve”, pensou, “esses costumes simples, essa frugalidade,

essas modestas necessidades.”

— Muito prazer em vê-lo — disse ele a Luciano. — Eis aí como vivia Jean-

Jacques, com quem o senhor tem mais de uma analogia. Em alojamentos

assim brilha o fogo do gênio e se compõem as belas obras. Eis como deveriam

viver todos os homens de letras, em vez de andar em patuscadas pelos cafés

e restaurantes, a perder seu tempo, seu talento e o nosso dinheiro.

Sentou-se.

— Moço, seu romance não está mau. Fui professor de retórica, conheço a

história da França; há nele coisas excelentes. Enfim, o senhor tem futuro.

— Oh, senhor!

— É, sim, estou-lhe dizendo, juntos poderemos fazer negócios. Compro

seu romance...

O coração de Luciano se expandiu, palpitou; ele ia enfim entrar no

mundo literário, seria enfim impresso.

— Compro-o por quatrocentos francos — disse Doguereau num tom

meloso e olhando Luciano com um ar que parecia anunciar um excesso de

generosidade.[141]

— O volume? — disse Luciano.

— O romance — respondeu Doguereau sem se alterar com a surpresa de

Luciano. — Mas — acrescentou — será de contado. O senhor se

comprometerá a me escrever dois por ano, durante seis anos. Se o primeiro

se esgotar em seis meses, eu lhe pagarei os seguintes a seiscentos francos.

Assim, à razão de dois por ano, terá cem francos por mês, sua vida estará

assegurada, será feliz. Tenho autores a quem não pago mais de trezentos

francos por romance. Dou duzentos francos por uma tradução do inglês, o

que, não há muito, seria um preço exorbitante.

— Não nos poderemos entender, senhor, peço-lhe que devolva o meu

manuscrito — disse Luciano friamente.

— Aqui está — disse o velho livreiro. — Não entende de negócios, senhor.

Publicando o primeiro romance de um autor, o editor tem de arriscar mil e

seiscentos francos de impressão e de papel. É mais fácil escrever um

romance do que encontrar tal soma. Tenho cem manuscritos de romances

em minha casa e não tenho sessenta mil francos em minha caixa. Arre! Não

ganhei tal soma nos vinte anos em que sou livreiro. Não se faz fortuna com o

ofício de imprimir romances. Vidal e Porchon não os aceitam senão em

condições que se tornam dia a dia mais onerosas para nós. Onde o senhor

arrisca apenas o seu tempo, tenho de desembolsar dois mil francos. Se nos

enganamos, pois habent sua fata libelli,[142] eu perco dois mil francos, ao

passo que o senhor nada mais terá a fazer do que escrever uma ode contra a

estupidez do público. Depois de meditar sobre o que tive a honra de dizer-

lhe, virá de novo me ver. Voltará a mim — repetiu o livreiro com autoridade,

respondendo a um gesto cheio de altivez que Luciano deixou escapar. — E,

em vez de um livreiro que queira arriscar dois mil francos por um jovem

desconhecido, não encontrará sequer um caixeiro que se dê ao trabalho de

ler as suas garatujas. Eu, que as li, posso assinalar nelas vários erros de

vernáculo. O senhor escreveu “observer”, em vez de “faire observer”, e

“malgré que”, quando “malgré” exige regência direta.

Luciano pareceu humilhado.

— Se voltar a procurar-me, terá perdido cem francos — acrescentou —;

não lhe darei então mais que cem escudos. — Levantou-se, saudou e já sobre

a soleira da porta concluiu: — Se o senhor não tivesse talento e futuro, se eu

não me interessasse pelos moços estudiosos, não lhe teria proposto condições

tão vantajosas. Cem francos por mês! Veja bem. Afinal, um romance numa

gaveta não é um cavalo na cavalariça; não come. Mas, em verdade, também

nada rende!

Luciano pegou o manuscrito e atirou-o ao chão, exclamando:

— Prefiro queimá-lo, senhor!

— Tem cabeça de poeta — disse o velho.

Luciano devorou seu pão, bebeu o leite e desceu. O quarto não era

suficientemente grande, e nele teria dado voltas em torno de si próprio como um leão na sua jaula no Jardin des Plantes.

 

IV – UM PRIMEIRO AMIGO

 

Na biblioteca Sainte-Geneviève, onde Luciano pensava ir, sempre notara no

mesmo canto um rapaz de vinte e cinco anos aproximadamente, que

trabalhava com essa aplicação persistente que nada distrai nem altera e pela

qual se reconhecem os verdadeiros trabalhadores literários. Ali vinha, sem

dúvida, havia muito tempo; os empregados e até mesmo o bibliotecário

tinham para com ele certas condescendências: o bibliotecário deixava-o

levar certos livros que Luciano via serem trazidos de volta no dia seguinte

pelo estudioso desconhecido, em quem o poeta reconhecia um irmão na

miséria e na esperança. Pequeno, magro e pálido, esse trabalhador escondia

uma bela fronte sob espessa cabeleira negra malcuidada, possuía belas mãos,

atraía os olhares dos indiferentes por uma vaga semelhança com o retrato de

Bonaparte conforme a gravura de Robert Lefebvre. Essa gravura é todo um

poema de melancolia ardente, de ambição contida, de atividade secreta.

Examinai-a bem! Encontrareis nela gênio e discrição, finura e grandeza. Os

olhos têm o brilho de olhos de mulher, parecem ávidos do espaço e sequiosos

de dificuldades a vencer. Ainda que o nome de Bonaparte não estivesse

escrito por baixo, contemplá-la-íeis da mesma forma demoradamente.

O rapaz que tornava realidade a gravura vestia ordinariamente um par

de calças com presilhas sob os sapatos de grossas solas, sobrecasaca de pano

comum, gravata negra, colete de tecido gris com fios brancos, abotoado de

alto a baixo, e um chapéu barato. Era visível seu desdém por toda roupa

inútil. Luciano encontrava também esse misterioso desconhecido, marcado

com o selo que o gênio imprime na fronte de seus escravos, jantando no

Flicoteaux, como o mais assíduo de seus frequentadores. Comia ali para

viver, sem prestar atenção aos alimentos, com os quais parecia familiarizado.

Bebia água. Tanto na biblioteca como no Flicoteaux, o desconhecido

ostentava em tudo certa dignidade, que lhe vinha sem dúvida da

consciência de uma vida ocupada por qualquer coisa de grande e que o

tornava inabordável. Seu olhar era pensativo. A meditação habitava sob

aquela bela fronte nobremente talhada. Os olhos, negros e vivos, que viam bem e rapidamente, denunciavam o hábito de chegar ao fundo das coisas.

Simples nos gestos, tinha sempre uma atitude grave. Luciano sentia por ele

um respeito involuntário. Já, por várias vezes, haviam olhado um para o

outro, como que para se falarem, à entrada ou à saída da biblioteca ou do

restaurante, mas nem um nem outro o havia ousado. O silencioso rapaz ia

para o fundo da sala, na parte situada sobre a esquina da Place de la

Sorbonne. Luciano não conseguira assim travar relações com ele, apesar de

se sentir atraído para o jovem trabalhador, em quem se evidenciavam os

indescritíveis sinais da superioridade. Tanto um como o outro, tal como o

reconheceram mais tarde, eram de natureza virgem e tímida, dada a todos

os temores cujas emoções aprazem aos homens solitários. Sem seu encontro

súbito no momento do desastre que acabava de acontecer a Luciano, talvez

nunca se tivessem comunicado. Mas, ao entrar na Rue des Grès, Luciano viu

o jovem desconhecido que voltava de Sainte-Geneviève.

— A biblioteca está fechada, não sei por que, senhor — informou ele.

Luciano tinha naquele momento os olhos cheios de lágrimas. Agradeceu

ao desconhecido por um desses gestos que são mais eloquentes que as

palavras e que, de um moço para outro, abrem imediatamente os corações.

Desceram ambos à Rue des Grès dirigindo-se para a Rue de La Harpe.

— Vou andar então pelo Luxembourg — disse Luciano. — A gente

saindo, é difícil voltar ao trabalho.

— É, perde-se o fio das ideias — respondeu o desconhecido. — O senhor

parece estar triste.

— Acaba de me acontecer uma singular aventura — disse Luciano.

E contou a visita aos livreiros do cais, depois a outra ao velho editor e as

propostas que acabava de receber; disse o seu nome e algumas palavras sobre

sua situação. No espaço de um mês, mais ou menos, havia gasto sessenta

francos em refeições, trinta francos de hospedagem, vinte no teatro, dez no

gabinete literário, ao todo cento e vinte francos; não lhe restavam mais que

cento e vinte.

— Senhor — disse-lhe o desconhecido —, sua história é a minha e a

mesma de mil a mil e duzentos jovens que todos os anos chegam da

província a Paris. Não somos ainda dos mais desgraçados. Vê este teatro? —

disse, mostrando a cúpula do Odéon. — Um dia veio alojar-se numa das casas que ficam ali na praça um homem de talento que se havia despenhado

nos abismos da miséria. Casado (acréscimo de desgraça que não nos aflige

ainda nem a um nem ao outro) com uma mulher que ele amava e mais

empobrecido ainda, ou enriquecido, como quiser, por dois filhos, crivado de

dívidas, mas confiante em sua pena. Apresentou no Odéon uma comédia

em cinco atos. Foi aceita. Obteve prioridade. Os artistas a ensaiaram, o

diretor ativou os ensaios. Mas essas cinco felicidades constituíram cinco

dramas ainda mais difíceis de realizar do que escrever os cinco atos. O pobre

autor, albergado numa água-furtada que daqui se pode ver, esgota os

últimos recursos para viver durante a montagem da peça; a mulher

empenha as roupas; a família come apenas pão. No dia do último ensaio,

véspera da representação, deviam cinquenta francos no bairro, ao padeiro,

ao leiteiro, ao porteiro. O poeta conservara apenas o estritamente necessário:

uma casaca, uma camisa, umas calças, um colete e um par de botas. Seguro

do sucesso, vem beijar a mulher e lhe anuncia o fim de seus infortúnios.

“Enfim, não há mais nada contra nós!”, exclama ele. “Há o fogo”, diz a

mulher; “olha, o Odéon arde.” E o Odéon ardia, senhor. Não se lamente,

pois. Tem roupas, não tem mulher nem filhos, tem por sorte cento e vinte

francos na bolsa e nada deve a pessoa alguma. A peça de que lhe falei obteve

afinal cento e cinquenta representações no teatro Louvois. O rei concedeu,

depois, uma pensão ao autor. Buffon o disse: o gênio é a paciência. A

paciência é, sem dúvida, o que no homem mais se assemelha ao processo que

a natureza emprega em suas criações. O que é a arte, senhor, senão a

natureza concentrada?

Os dois rapazes caminhavam agora pelo Luxembourg. Luciano soube

logo o nome, que depois se tornou célebre, do desconhecido que se esforçava

por consolá-lo. Era Daniel d’Arthez, hoje um dos mais ilustres escritores da

época e uma dessas raras criaturas que, segundo o belo pensamento de um

poeta, oferecem “a amálgama de um belo talento e de um belo caráter”.

— Não se pode ser um grande homem gratuitamente — afirmou Daniel

com sua voz branda. — O gênio orvalha suas obras com lágrimas. O talento é

uma entidade moral que tem, como todos os seres, uma infância sujeita a

várias doenças. A sociedade repele os talentos incompletos, como a natureza

elimina as criaturas fracas ou malconformadas. Quem se quer elevar acima dos homens deve preparar-se para a luta, não recuar diante de dificuldade

alguma. Um grande escritor é um mártir que não morrerá. Eis tudo. O

senhor tem na fronte o selo do gênio — disse D’Arthez a Luciano,

envolvendo-o num olhar —; se não tem dele a vontade no coração, se dele

não possui a paciência angélica, se a qualquer distância da meta em que o

ponham os caprichos do destino não souber retomar o caminho do seu

infinito, como as tartarugas que, seja qual for o lugar em que estiverem,

tomam sempre o rumo do seu amado oceano, então renuncie hoje mesmo.

— Aguarda então, também, muitos sofrimentos? — perguntou Luciano.

— Provações de toda a espécie; calúnias, traições, injustiças de meus

rivais; desaforos, espertezas e grosserias do comércio — respondeu o moço

com voz resignada. — Se a sua obra é bela, que importa uma primeira

perda...

— Quer ler e julgá-la? — perguntou Luciano.

— Que seja — disse D’Arthez. — Moro na Rue des Quatre-Vents, numa

casa onde um dos homens mais ilustres, um dos mais belos gênios de nosso

tempo, um fenômeno na ciência, Desplein, o maior cirurgião conhecido,

sofreu seu primeiro martírio debatendo-se ante as primeiras dificuldades da

vida e da glória em Paris. Essa lembrança dá-me todas as noites a dose de

coragem de que preciso todas as manhãs. Vivo no quarto onde ele muitas

vezes comeu, como Rousseau, pão e cerejas, mas sem uma Teresa.[143] Vá

daqui a uma hora, estarei em casa.

Separaram-se os dois poetas apertando-se as mãos com indizível efusão

de melancólica ternura. Luciano foi buscar seu manuscrito. Daniel d’Arthez

foi levar seu relógio ao penhor para poder comprar dois feixes de lenha, a

fim de que o novo amigo encontrasse o fogo aceso em sua casa, pois fazia

frio. Luciano foi pontual e viu-se numa casa menos decente que seu hotel,

com um corredor sombrio ao fim do qual começava uma escada escura. O

quarto de Daniel d’Arthez, situado no quinto andar, tinha duas feias janelas

entre as quais havia uma estante de madeira enegrecida, cheia de pastas

com etiquetas. Uma pobre tarimba de madeira pintada, semelhante às

camas de colégio, uma mesinha de cabeceira, comprada de segunda mão, e

duas poltronas estofadas de crina ocupavam o fundo da peça. A parede era

forrada de papel escocês, envernizado pela fumaça e pelo tempo. Uma comprida mesa carregada de papéis estava colocada entre a lareira e uma

das janelas. Em frente à lareira havia uma velha cômoda de mogno. Um

tapete gasto cobria inteiramente o assoalho. Era um luxo necessário para

evitar despesas com o aquecimento. Diante da mesa, uma vulgar cadeira de

escritório forrada de couro vermelho embranquecido pelo tempo. Mais seis

cadeiras velhas completavam o mobiliário. Sobre a lareira, Luciano viu um

velho castiçal com para-luz, munido de quatro velas. Perguntou o motivo do

uso de velas, quando em todas as coisas reconhecia os sintomas de uma

áspera miséria. D’Arthez respondeu que lhe era impossível suportar o cheiro

do candeeiro. Essa circunstância indicava grande delicadeza, era índice de

fina sensibilidade.

A leitura durou sete horas. Daniel ouviu religiosamente, sem dizer

palavra nem fazer uma só observação, uma das mais raras provas de bom

gosto que possa dar um escritor.

— E então? — disse Luciano, colocando o manuscrito sobre a chaminé.

— O senhor vai por um bom e belo caminho — respondeu gravemente o

moço —, mas sua obra precisa ser remodelada. Se não quer macaquear a

Walter Scott,[144] é-lhe necessário criar uma técnica diferente, e o senhor o

imitou. Começa, como ele, por longas conversações para apresentar os

personagens; terminada a conversa, é que vêm a descrição e a ação. Esse

antagonismo necessário a toda obra dramática vem por último. Inverta os

termos do problema. Substitua essas conversas difusas, magníficas em Scott,

porém sem cor no seu livro, por descrições às quais tanto se presta a nossa

língua. Faça com que em seu livro o diálogo seja a consequência esperada a

coroar os preparativos. Entre preliminarmente na ação. Tome o assunto ora

pelo meio, ora pelo fim. Varie, enfim, os seus planos, para não ser sempre o

mesmo. Será mesmo original adaptando à história da França a forma do

drama dialogado do escocês. Walter Scott não tem paixão, ignora-a, ou

talvez lhe fosse ela interdita pelos costumes hipócritas de seu país. Para ele,

a mulher é a encarnação do dever. Com raras exceções, suas heroínas são

absolutamente iguais; usou para todas elas o mesmo toque, segundo a

expressão dos pintores. Procedem todas de Clarissa Harlowe,[145]

relacionando todas com uma ideia; não podia senão tirar cópias do mesmo

tipo, variando-as apenas pelo colorido mais ou menos vivo. A mulher leva a desordem à sociedade pela paixão. A paixão tem acidentes infinitos. Pinte

pois as paixões, e terá os imensos recursos de que se privou aquele grande

talento para poder ser lido por todas as famílias da puritana Inglaterra. Na

França, encontrará os pecados encantadores e os costumes brilhantes do

catolicismo para opor às sombrias figuras do calvinismo durante o período

mais apaixonado de nossa história. Cada grande reinado, a partir de Carlos

Magno, necessita de pelo menos uma obra, e por vezes quatro ou cinco,

como os de Luís xiv, Henrique iv, Francisco i. Fará assim uma história da

França pitoresca, na qual pintará os costumes, os móveis, as casas, os

interiores, a vida privada, comunicando-lhe o espírito do tempo, em vez de

narrar penosamente fatos conhecidos. Encontrará meio de ser original

reparando os erros populares que desfiguram a maior parte de nossos reis.

Ouse, em sua primeira obra, restabelecer a grande e magnífica figura de

Catarina,[146] que o senhor sacrificou aos preconceitos que subsistem ainda

contra ela. Pinte, enfim, Carlos ix como em verdade foi, e não como o

fizeram os escritores protestantes. Ao cabo de dez anos de persistência há de

alcançar glória e fortuna.

Eram já nove horas. Luciano, imitando a ação oculta de seu futuro

amigo, ofereceu-lhe um jantar no Édon, onde despendeu doze francos.

Durante o jantar, Daniel revelou a Luciano o segredo de suas esperanças e

de seus estudos. D’Arthez não admitia talento superior sem profundo

conhecimento de metafísica. Entregava-se nessa ocasião ao assalto de todos

os tesouros filosóficos dos tempos antigos e modernos, para os assimilar.

Queria, como Molière, ser um filósofo profundo antes de escrever comédias.

Estudava o mundo escrito e o mundo vivo, o pensamento e os fatos. Tinha

como amigos sábios naturalistas, jovens médicos, escritores políticos e artistas,

círculo de pessoas estudiosas, sérias, cheias de futuro. Vivia de artigos

conscienciosos e mal pagos, feitos para dicionários biográficos, enciclopédicos

ou de ciências naturais; não escrevia nem mais nem menos do que o

necessário para viver e poder dedicar-se ao seu sonho. D’Arthez entregara-se

a uma obra de ficção unicamente para estudar os recursos da língua. O livro,

inacabado ainda, tomado e deixado por capricho, era guardado para os dias

de grande abatimento. Era uma obra psicológica e de largo fôlego, sob a

forma de romance.

Embora Daniel mal se houvesse revelado modestamente, pareceu

gigantesco a Luciano. Ao sair do restaurante, às onze horas, Luciano já se

havia tomado de viva amizade por aquela virtude sem ênfase, por aquela

natureza sublime sem o saber.

O poeta não discutiu os conselhos de Daniel; seguiu-os ao pé da letra.

Aquele belo talento já amadurecido pela meditação e por uma crítica

solitária, inédita, feita para ele e não para outrem, havia-lhe de repente

descerrado as portas dos mais magníficos palácios da fantasia. Os lábios do

provinciano como que haviam sido tocados por um carvão ardente, e a

palavra do trabalhador parisiense encontrou no cérebro do poeta de

Angoulême uma terra preparada. Luciano pôs-se a refundir a própria obra.

 

V – O CENÁCULO

 

Feliz por haver encontrado no deserto de Paris um coração em que

abundavam sentimentos generosos que se harmonizavam com os seus, o

grande homem da província fez o que fazem todos os moços famintos de

afeição: ligou-se a D’Arthez como uma doença crônica. Ia procurá-lo para o

acompanhar à biblioteca, passeava a seu lado no Luxembourg nas tardes

bonitas, reconduzia-o todas as noites até seu pobre quarto, depois de haver

jantado a seu lado no Flicoteaux, aferrava-se enfim a ele como um soldado

se achegava ao vizinho nas planícies geladas da Rússia. Nos primeiros dias de

suas relações com Daniel, Luciano notou, com pesar, certo constrangimento

causado por sua presença ao reunir-se o grupo de íntimos. A conversa

daqueles seres superiores, de quem D’Arthez lhe falava com acentuado

entusiasmo, mantinha-se nas raias de uma reserva em desacordo com os

vivos testemunhos da amizade que os unia. Luciano saía então

discretamente sentindo-se triste ante o ostracismo de que era objeto e a

curiosidade que nele excitavam aquelas criaturas desconhecidas, pois todos

se chamavam pelos nomes de batismo. Cada um trazia na fronte, como

D’Arthez, o signo de um talento especial. Após secretas oposições,

combatidas, sem que ele o soubesse, por Daniel, Luciano foi enfim julgado

digno de entrar para aquele cenáculo de grandes espíritos. Pôde assim

conhecer aquelas pessoas que, ligadas pela mais viva simpatia e pela seriedade de sua existência intelectual, reuniam-se quase todas as noites no

quarto de D’Arthez, em quem todos pressentiam o grande escritor:

consideravam-no seu guia desde que haviam perdido um dos espíritos mais

extraordinários da época, um gênio místico, seu primeiro chefe, que, em

virtude de razões que é inútil recordar, voltara para a sua província e a quem

Luciano os ouvia frequentemente designar pelo prenome de Luís.[147]

Compreender-se-á facilmente o quanto aqueles personagens deveriam

despertar o interesse e a curiosidade de um poeta, sabendo-se que, mais

tarde, conquistaram vários deles, inclusive D’Arthez, plena glória, enquanto

outros sucumbiram.

Entre aqueles que ainda vivem contava-se Horácio Bianchon,[148]

então interno do Hôtel-Dieu,[149] que veio a ser depois um dos luminares

da Escola de Paris, e tão conhecido hoje em dia que é desnecessário pintar

sua pessoa ou descrever-lhe o caráter e a natureza de seu espírito. Vinha em

seguida Leão Giraud,[150] o filósofo profundo, teorista ousado, que,

revolvendo todos os sistemas, os julga, resume, formula para os arrojar aos

pés de seu ídolo, a humanidade; sempre grande, mesmo em seus erros,

enobrecidos pela boa-fé. Esse trabalhador intrépido, esse sábio consciencioso

tornou-se chefe de uma escola moral e política sobre cujo mérito somente o

tempo se poderá pronunciar. Se suas convicções o destinaram a regiões

diversas daquelas para as quais se arremessaram seus camaradas, nem por

isso deixou ele de se conservar o mesmo fiel amigo.

A arte estava ali representada por José Bridau,[151] um dos melhores

pintores da nova escola. Sem as secretas infelicidades a que o condenava a

sua natureza extraordinariamente impressionável, José — sobre quem, aliás,

ainda não se pronunciou juízo definitivo — seria um continuador dos

grandes mestres da escola italiana: possui o desenho de Roma e o colorido

de Veneza; o amor, entretanto, o mata, e não lhe fere apenas o coração:

lança-lhe as flechas no cérebro, transforma-lhe a vida e o leva a fazer os mais

estranhos zigue-zagues. Conforme uma amante efêmera o torne muito feliz

ou muito desgraçado, José envia à Exposição ou esboços em que a cor

empasta o desenho ou quadros que entendeu acabar sob o peso de aflições

imaginárias e nos quais o desenho o preocupou tanto que a cor, da qual

dispõe com maestria, deles se encontra ausente. Desilude incessantemente

tanto o público como os amigos. Hoffmann[152] o teria adorado por suas

ousadas inovações no campo das artes, por seus caprichos, por sua fantasia.

Quando normal, excita a admiração, saboreia-a e se espanta então de não

receberem elogios as obras fracassadas nas quais com os olhos da alma vê

tudo o que está ausente aos olhos do público. Bizarro até o mais alto grau,

seus amigos viram-no um dia destruir um quadro perfeito no qual

encontrava um ar muito arranjado. “Muito acabado”, dizia ele, “muito

escolar.” Original e sublime por vezes, sente todas as desditas e todas as

venturas dos organismos nervosos, nos quais a perfeição se transforma em

doença. Seu espírito é irmão do de Sterne,[153] embora sem seu lavor

literário. Seus ditos, seus arroubos de pensamento têm um sabor inédito. É

eloquente e sabe amar, mas com seus caprichos, que revela tanto nos

sentimentos como no trabalho. Era estimado no cenáculo precisamente por

aquilo que no mundo burguês se teria chamado de defeitos.

Havia, enfim, Fulgêncio Ridal, um dos autores contemporâneos de

maior veia cômica, poeta despreocupado da glória, que não leva ao teatro

senão as mais vulgares de suas produções e que guarda no serralho de seu

cérebro, para si próprio e para os amigos, as cenas mais encantadoras; não

pede ao público senão o dinheiro necessário à sua independência, nada mais

fazendo desde que o haja conseguido. Preguiçoso e fecundo como Rossini,

obrigado, como os grandes poetas satíricos, como Molière e Rabelais, a só

considerar o pró e não o contra, era um cético, podia rir e ria de tudo.

Fulgêncio Ridal é um grande filósofo prático. O conhecimento do mundo, o

gênio de observação, o desdém pela glória não lhe secaram entretanto o

coração. Tão ativo por outrem quanto indiferente aos seus próprios

interesses, quando se dá a algum trabalho é sempre por um amigo. Para não

mentir à sua máscara verdadeiramente rabelaisiana, não odeia a boa comida

mas também não a procura, é ao mesmo tempo alegre e melancólico. Seus

amigos o chamam de cão do regimento, e nada o pintaria melhor que esse

apelido.

Três outros, pelo menos tão grandes como esses quatro amigos aqui

desenhados de perfil, deveriam sucumbir com pequenos intervalos: primeiro

Meyraux,[154] depois de haver agitado a célebre disputa entre Cuvier e

Geoffroy Saint-Hilaire, grande questão que deveria dividir o mundo científico entre esses dois gênios rivais, meses antes da morte daquele que

pugnava por uma ciência estreita e analista contra o panteísta que ainda

vive e que a Alemanha reverencia. Meyraux era um amigo de Luís, que uma

morte prematura iria logo arrebatar ao mundo intelectual. A esses dois

homens, marcados ambos pela morte, ambos obscuros hoje, apesar da imensa

projeção do seu saber e do seu gênio, devemos acrescentar Miguel Chrestien,

[155] republicano de grande projeção, que sonhava a federação da Europa e

que em 1830 muito se empenhou no movimento moral dos saint-simonianos.

Político da força de Saint-Just e de Danton, porém simples e doce como

uma moça, cheio de ilusões e de amor, dotado de uma voz melodiosa que

teria encantado Mozart, Weber ou Rossini, e cantando certas canções de

Béranger[156] de forma a inebriar os corações de poesia, de amor ou de

esperança, Miguel Chrestien, pobre como Luciano, como Daniel, como todos

os seus amigos, ganhava a vida com a despreocupação de um Diógenes.[157]

Fazia índices para grandes obras, prospectos para livreiros, tão mudo, quanto

às suas doutrinas, como é mudo o túmulo sobre o segredo da morte. Esse

alegre boêmio da inteligência, esse grande homem de Estado, que teria,

talvez, modificado a face do mundo, morreu depois, no claustro Saint-

Merry,[158] como simples soldado. A bala de algum negociante matou ali

uma das mais nobres criaturas que já pisaram o solo francês. Miguel

Chrestien pereceu por outras doutrinas que não as suas. Sua federação

ameaçava, mais ainda que a propaganda republicana, a aristocracia

europeia; era mais racional e menos louca que as tremendas ideias de

liberdade indefinida proclamadas pelos moços insensatos que se apresentam

como herdeiros da Convenção. Esse nobre plebeu foi chorado por todos

quantos o conheceram; não há um só entre eles que não pense

frequentemente nesse grande político desconhecido.

Esses nove personagens compunham um cenáculo onde a estima e a

amizade faziam reinar a paz entre as ideias e doutrinas mais opostas.

Daniel d’Arthez, cavalheiro da Picardia, pugnava pela monarquia com

uma convicção igual à que fazia Chrestien se bater pelo federalismo

europeu. Fulgêncio Ridal zombava das doutrinas filosóficas de Leão Giraud,

que predizia a D’Arthez o fim do cristianismo e da família. Miguel Chrestien,

que acreditava na religião do Cristo, o divino legislador da igualdade, defendia a imortalidade da alma contra o escalpelo de Bianchon, o analista

por excelência. Discutiam todos sem disputar. Não tinham vaidades, e eram

eles mesmos seu auditório. Comunicavam-se seus trabalhos e se consultavam

com a adorável boa-fé da juventude. Tratava-se de uma questão séria? O

oponente abandonava sua opinião para colaborar nas ideias do amigo, tanto

mais apto para o auxiliar quanto era imparcial numa causa ou numa obra

estranha às suas convicções. Quase todos tinham o espírito amável e

tolerante, duas qualidades que provam superioridade. A inveja, esse terrível

tesouro de nossas esperanças frustradas, de nossos talentos abortados, de

nossos êxitos comprometidos e nossas pretensões feridas, era-lhes

desconhecida. Marchavam todos, aliás, por diferentes caminhos. Também

aqueles que eram admitidos, como Luciano, na sua sociedade sentiam-se à

vontade. O verdadeiro talento é sempre acolhedor e cândido, aberto, franco;

nele o epigrama acalenta o espírito e não visa jamais o amor-próprio. Uma

vez dissipado o constrangimento inicial causado pelo respeito,

experimentava-se uma doçura infinita junto àquelas criaturas de escol. A

familiaridade não excluía a consciência que cada qual tinha do próprio valor.

Sentiam uns pelos outros profunda estima. Sentindo-se todos capazes tanto

de ser o benfeitor como o beneficiado, aceitavam qualquer favor sem

cerimônia. As conversas, cheias de encanto e infatigáveis, abrangiam os mais

variados assuntos. Leves como flechas, as palavras atingiam fundo o alvo,

partindo com rapidez.

A grande miséria exterior e o esplendor das riquezas intelectuais

produziam um contraste singular. Ali, ninguém pensava nas realidades da

vida senão para fazer gracejos amáveis.

Num dia em que o frio se fez sentir prematuramente, cinco dos amigos

de D’Arthez chegaram, cada qual tendo tido a mesma ideia: todos traziam

alguma lenha sob a capa, tal como nesses repastos campestres a que cada

convidado deve fornecer um prato e ao qual levam todos um pastelão.

Dotados dessa beleza moral que reage sobre o físico e que, não menos que os

trabalhos e vigílias, doura os rostos jovens de um colorido divino, eles

apresentavam os traços um pouco atormentados que a pureza da vida e o

fogo do pensamento regularizam e purificam. Suas frontes faziam-se notar

pela amplitude poética. Os olhos vivos e brilhantes testemunhavam uma vida sem máculas. Os sofrimentos da miséria, quando se faziam sentir, eram

suportados tão alegremente, aceitos com tal ardor por todos que

absolutamente não alteravam a serenidade peculiar aos jovens, ainda isentos

de faltas graves, que não se amesquinharam em nenhuma das covardes

transações a que levam a miséria mal suportada, o desejo de triunfar sem

escolha dos meios e a fácil complacência com que os homens de letras

acolhem ou perdoam as traições.

O que torna as amizades indissolúveis e lhes duplica o encanto é um

sentimento que falta ao amor: a certeza. Aqueles moços sentiam-se seguros

de si mesmos: o inimigo de um deles tornava-se inimigo de todos.

Abandonariam seus interesses mais urgentes para obedecer à santa

solidariedade de seus corações. Incapazes todos de uma covardia, podiam

opor um não formidável a qualquer acusação e defender-se uns aos outros

com segurança. Igualmente nobres de coração e de igual força nas coisas de

sentimento, tudo podiam pensar, tudo dizer-se no terreno da ciência e da

inteligência; daí a inocência de suas palestras, a jovialidade de suas palavras.

Certos de se compreenderem, seus espíritos divagavam à vontade; por isso

não faziam cerimônias entre si, confiavam-se mutuamente suas penas e

alegrias, pensavam e sofriam de coração aberto. As encantadoras gentilezas

que fazem da fábula Os dois amigos[159] um tesouro para as grandes almas,

eram entre eles habituais. Compreende-se, pois, a severidade com que

julgavam antes de admitir um novo frequentador em sua roda. Possuíam em

alto grau a consciência de sua grandeza e de sua felicidade para arriscá-la

deixando ali entrar elementos novos e desconhecidos.

Essa comunidade de sentimentos e de interesses perdurou sem choques

nem descontentamentos por vinte anos. Somente a morte, que lhes

arrebatou Luís Lambert, Meyraux e Miguel Chrestien, pôde diminuir a nobre

plêiade. Em 1832, ao sucumbir este último, Horácio Bianchon, Daniel

d’Arthez, Leão Giraud, José Bridau e Fulgêncio Ridal foram, apesar do

perigo da diligência, retirar seu corpo de Saint-Merry para lhe prestar suas

últimas homenagens à face inflamada da política. Acompanharam-lhe os

restos queridos até o cemitério do Père-Lachaise em plena noite. Horácio

Bianchon conseguiu remover todas as dificuldades do caso e não recuou

diante de nenhuma, indo até falar aos ministros, confessando-lhes a velha amizade que o ligava ao federalista morto. Foi uma cena tocante que ficou

gravada na memória dos poucos amigos que acompanharam os cinco

notáveis companheiros.

Ao passar alguém por aquele elegante cemitério, verá uma sepultura

perpétua sobre a qual se eleva um túmulo de relva encimado por uma cruz

de madeira negra, na qual se veem gravados em letras vermelhas estes dois

nomes: miguel chrestien. É o único monumento nesse estilo ali existente. Os

cinco amigos acharam que era preciso render homenagem àquele homem

simples através dessa simplicidade.

Na fria mansarda faziam-se realidade, assim, os mais belos sonhos do

sentimento. Ali, irmãos, igualmente fortes em diferentes ramos da ciência,

esclareciam-se mutuamente com inteira boa-fé, tudo dizendo, mesmo os

pensamentos maus, possuidores que eram todos de imensa instrução e todos

provados no cadinho da pobreza. Admitido entre aquelas criaturas de escol e

considerado como seu igual, Luciano passou a representar ali a poesia e a

beleza. Leu a esses amigos sonetos que foram admirados. Pediam-lhe que

dissesse um soneto, como ele pedia a Miguel Chrestien que cantasse uma

canção. No deserto de Paris, Luciano encontrou um oásis naquela Rue des

Quatre-Vents.

 

VI – AS FLORES DA MISÉRIA

 

No começo do mês de outubro, Luciano, depois de haver empregado o resto

do seu dinheiro na compra de um pouco de lenha, ficou sem recursos, no

meio do mais ardente trabalho de remodelação de sua obra. Daniel d’Arthez

queimava bolas de turfa e suportava heroicamente a miséria: não se

queixava nunca, era metódico como uma solteirona e, de tão meticuloso,

assemelhava-se a um avaro.

Tal coragem excitava a de Luciano, que, recém-chegado ao cenáculo,

sentia invencível constrangimento em falar de seus apertos. Certa manhã foi

à Rue du Coq para vender O arqueiro de Carlos ix a Doguereau, a quem

não encontrou.

Luciano ignorava o quanto os espíritos superiores são indulgentes. Os

seus amigos compreendiam as fraquezas peculiares aos poetas, o abatimento que se segue aos esforços da alma superexcitada pela contemplação da

natureza que têm a missão de reproduzir. Aqueles homens tão fortes contra

seus próprios males eram fracos quando se tratava das dores de Luciano.

Haviam adivinhado sua falta de dinheiro. O cenáculo coroou, pois, os doces

serões de palestras, de profundas meditações, de poesias, de confidências,

de excursões a pleno voo nos campos da inteligência, no futuro das nações,

nos domínios da história, por um rasgo que provava o quanto Luciano

compreendera pouco seus novos amigos.

— Luciano, meu amigo — disse-lhe Daniel —, não foste ontem jantar no

Flicoteaux, e nós sabemos por quê.

Luciano não pôde reter as lágrimas que lhe correram pelas faces.

— Não tiveste confiança em nós — acrescentou Miguel Chrestien —,

faremos uma cruz na chaminé, e quando chegarmos a dez...

— Encontramos todos — disse Bianchon — algum trabalho

extraordinário: eu cuidei por conta de Desplein de um doente rico;

D’Arthez escreveu um artigo para a Revue Encyclopédique;[160] Chrestien

quis ir cantar uma noite nos Champs-Elysées com um lenço e quatro velas,

mas achou uma brochura para escrever por conta de um sujeito que quer se

fazer na política e fez-se de Maquiavel por seiscentos francos; Leão Giraud

pediu emprestados cinquenta francos a seu livreiro; José vendeu alguns

esboços; e a peça de Fulgêncio foi levada domingo e teve a sala repleta.

— Eis aqui duzentos francos — disse Daniel —; aceita-os, e que nunca

mais nos faças outra.

— Ora, não é que ele vai nos abraçar, como se tivéssemos feito qualquer

coisa de extraordinário? — disse Chrestien.

Para que compreendamos bem quanta felicidade sentia Luciano no

meio daquela enciclopédia viva de espíritos angélicos, de rapazes assinalados

por diferentes originalidades tiradas das ciências que cultivavam, basta

conhecermos a resposta que Luciano recebeu, no dia seguinte, a uma carta

escrita à família, obra-prima de sensibilidade e de gratidão, um grito da alma

que a aflição lhe arrancara.

 

david séchard a luciano

Meu caro Luciano, junto a esta encontrarás uma letra a noventa dias e

 

à tua ordem no valor de duzentos francos. Poderás descontá-la na

casa do sr. Métivier, negociante de papel, nosso correspondente em

Paris, na Rue Serpent. Meu bom Luciano, não possuímos

absolutamente nada. Minha mulher pôs-se a dirigir a tipografia e se

desincumbe de sua tarefa com um devotamento, uma paciência, uma

atividade que me fazem bendizer os céus por me haverem dado por

mulher um anjo assim. Ela mesma verificou a impossibilidade em que

estamos de te enviar o menor auxílio. Mas, meu amigo, eu te julgo num

tão belo caminho, acompanhado por corações tão grandes e tão

nobres, que não poderás faltar ao teu belo destino, ajudado pelas

inteligências quase divinas de Daniel d’Arthez, Miguel Chrestien e

Leão Giraud, aconselhado por Meyraux, Bianchon e Ridal, que tua

prezada carta nos fez conhecer. Sem que Eva o saiba, assinei esta letra,

que hei de encontrar meios de saldar no vencimento. Não te afastes de

tua estrada: é rude, mas há de ser gloriosa.

Preferiria sofrer mil dores antes de te saber caído em algum dos

lamaçais de Paris, onde vi tanta gente. Continua com a coragem de

evitar, como tens feito, os maus lugares, as pessoas nocivas, os

estouvados e certos homens de letras que aprendi a julgar em seu justo

valor durante a minha estada em Paris. Torna-te, enfim, o digno

êmulo desses espíritos celestes que tão caros tomaste para mim. Teu

procedimento será em breve recompensado.

Adeus, meu irmão bem-amado, tu me alegraste o coração, não

esperava de ti tanta coragem.

david

 

eva séchard a luciano

 

Meu amigo, tua carta fez-nos chorar a todos.

Que esses nobres corações, para os quais teu bom anjo te guiou, o

saibam: uma mãe e uma pobre moça todas as noites e todas as manhãs

rogarão a Deus por eles; e, se as preces mais ferventes subirem até o

Seu trono, hão de obter algumas graças para todos vós. Sim, meu

irmão, seus nomes estão gravados em meu coração. Ah! Um dia hei de

vê-los! Irei, nem que tenha de fazer o caminho a pé, agradecer-lhes a

sua amizade por ti, porque ela se espalhou como um bálsamo sobre

minhas chagas vivas. Aqui, meu amigo, trabalhamos como pobres

operários. Meu marido, esse grande homem desconhecido, que amo

cada dia mais, descobrindo a cada momento novas riquezas em seu

coração, abandonou a tipografia, e adivinho por quê: tua miséria, a

nossa, a de nossa mãe o assassinam. Nosso adorado David é, como

Prometeu,[161] devorado por um abutre, um negro desgosto de bico

agudo. Quanto a ele, nobre que é, nem pensa sequer na fortuna que

há de herdar. Passa os seus dias a fazer experiências sobre a fabricação

de papel.

Pediu-me que, em seu lugar, me ocupasse dos negócios, nos quais

me ajuda tanto quanto lhe permite a sua preocupação. Mas... estou

grávida. Este acontecimento, que me teria enchido de alegria, me

entristece na situação em que estamos todos. Minha pobre mãe

tornou-se de novo moça, recuperou forças para seu fatigante trabalho

de enfermeira. Postas de lado as preocupações de dinheiro, seríamos

felizes.

O velho pai Séchard não dá um único cobre ao filho. David foi vê-

lo para lhe pedir emprestado algum dinheiro a fim de te socorrer,

porque tua carta o deixara desesperado. “Conheço Luciano, perderá a

cabeça e fará loucuras”, dizia ele. Eu o repreendi. “Meu irmão, faltar

seja no que for!...”, lhe respondi. “Luciano sabe que eu morreria de

desgosto!” Minha mãe e eu, sem que David desconfie, empenhamos

alguns objetos. Minha mãe os retirará logo que consiga algum dinheiro.

Pudemos obter assim cem francos, que te mando pela posta.

Não me queiras mal, meu amigo, por não ter respondido à tua

primeira carta. Estávamos numa situação de trabalhar até mesmo à

noite; eu lidava como um homem. Ah! Não me sabia com tanta

resistência. A sra. de Bargeton é uma mulher sem alma nem coração.

Devia a si própria, mesmo não te amando mais, proteger-te e ajudar-te

depois de te haver arrancado de nossos braços para te atirar nesse

espantoso mar parisiense, onde é preciso a bênção de Deus para

encontrar amizades verdadeiras entre essas vagas de homens e de

interesses. Ela não deve ser lamentada. Eu desejava para ti uma

mulher devotada, uma segunda eu mesma, mas agora, que sei teres

amigos que te votam os mesmos sentimentos que nós, estou tranquila.

Abre as tuas asas, meu belo gênio amado! Serás a nossa glória, como és

já o nosso amor.

eva

 

Meu filho querido, não posso senão abençoar-te depois do que te diz

tua irmã e assegurar-te que minhas preces e meus pensamentos estão,

pudera não!, cheios de ti apenas, em detrimento daqueles a quem

vejo; porque há corações em que os ausentes têm sempre a

preferência.

E é assim no coração de

tua mãe

 

Em dois dias, Luciano pôde, assim, devolver a seus amigos o empréstimo tão

bondosamente oferecido.

Nunca talvez a vida lhe tenha parecido tão bela, mas o movimento de

seu amor-próprio não escapou aos olhares penetrantes de seus amigos e à

sua delicada sensibilidade.

— Dir-se-ia que tens medo de nos dever alguma coisa — disse Fulgêncio.

— Oh! O prazer que ele manifesta é bem grave a meus olhos — observou

Miguel Chrestien —, confirma as observações que eu já havia feito: Luciano é

vaidoso.

— É poeta — disse D’Arthez.

— Censuram um sentimento tão natural como o meu?

— É preciso levar em conta que ele não no-lo escondeu — disse Leão Giraud —, ainda é franco; receio, porém, que mais tarde venha a nos temer.

— Mas por quê? — perguntou Luciano.

— Nós lemos em teu coração — respondeu José Bridau.

— Há em ti — disse Miguel Chrestien — um espírito diabólico com o qual

justificarás a teus próprios olhos as coisas mais contrárias aos nossos

princípios: em vez de sofista de ideias, serás um sofista de ação.

— Ah! Tenho medo disso — disse D’Arthez. — Travarás contigo mesmo,

Luciano, discussões admiráveis, nas quais serás grande, para afinal

terminarem em feitos censuráveis... Não estarás nunca de acordo contigo

mesmo.

— Sobre o que fundam vocês esse requisitório? — perguntou Luciano.

— Tua vaidade, meu caro poeta, é tão grande que a pões até mesmo na

amizade! — exclamou Fulgêncio. — Toda vaidade desse gênero acusa um

egoísmo assustador, e o egoísmo é o veneno da amizade.

— Oh! Meu Deus — exclamou Luciano —, vocês não sabem então

quanto os estimo!

— Se nos estimasses como nós te estimamos, terias posto acaso tanto

empenho e tanta ênfase em nos devolver o que tivemos tanto prazer em te

dar?

— Aqui não se empresta nada, dá-se — disse-lhe brutalmente José

Bridau.

— Não nos consideres rudes, meu querido filho — disse-lhe Miguel

Chrestien —, somos previdentes. Temos medo de te ver um dia preferindo as

alegrias de uma pequena vingança às alegrias de nossa pura amizade. Lê o

Tasso de Goethe, a maior obra desse grande gênio, e verás ali que o poeta

ama os estofos cintilantes, os festins, os triunfos, o brilho: pois bem, sê tu o

Tasso, sem a sua loucura. O mundo e seus prazeres te chamam? Permanece

aqui... Transporta para a região do ideal tudo o que pedes à tua vaidade.

Loucura por loucura, põe a virtude em tuas ações e o vício em tuas ideias,

em vez de, como te dizia D’Arthez, pensar bem e proceder mal.

Luciano baixou a cabeça. Seus amigos tinham razão.

— Confesso que não sou tão forte como vocês — disse, lançando-lhes um

olhar adorável. — Não tenho rins nem ombros capazes de suster Paris, de

lutar com coragem. A natureza nos deu temperamentos e faculdades diferentes, e vocês conhecem melhor que ninguém o reverso dos vícios e das

virtudes. Já estou cansado, confesso.

— Nós te ampararemos — disse D’Arthez. — É para isso, precisamente,

que servem as amizades fiéis.

— A ajuda que acabo de receber é precária, e somos todos igualmente

pobres. Em breve a necessidade me perseguirá. Chrestien, a soldo do

primeiro que aparece, nada pode em matéria de livraria. Bianchon está fora

desse círculo de negócios. D’Arthez conhece apenas livreiros e editores de

livros de ciências ou de especialidades, que nenhuma influência têm sobre

os editores de obras de ficção. Horácio, Fulgêncio, Ridal e Bridau trabalham

numa ordem de ideias que os colocam a cem léguas dos livreiros. Preciso

tomar uma decisão.

— Adota então a nossa: sofrer! — disse Bianchon. — Sofrer

corajosamente e confiar no trabalho!

— Mas o que não é senão sofrimento para vocês é a morte para mim —

replicou vivamente Luciano.

— Antes que o galo tenha cantado três vezes — disse sorrindo Leão

Giraud —, este homem terá traído a causa do trabalho pela da preguiça e

dos vícios de Paris.

— A que os conduziu o trabalho? — perguntou Luciano, rindo.

— Quando se parte de Paris para a Itália, não se encontra Roma a meio

caminho — disse José Bridau. — Para ti, as ervilhas deveriam nascer já

preparadas com manteiga.

— E elas só nascem assim para os primogênitos dos pares de França —

disse Miguel Chrestien. — Nós outros, porém, que as semeamos e as regamos,

as achamos melhores.

A conversa tornou-se divertida e mudou de assunto.

Aqueles espíritos perspicazes, aqueles corações bondosos procuraram

fazer esquecer essa pequena querela a Luciano, que compreendeu desde

logo o quanto era difícil enganá-los.

Bem depressa chegou ele a um desespero interior que cuidadosamente

ocultou dos amigos, julgando-os mentores implacáveis. Seu espírito

meridional, que tão facilmente percorria a escala dos sentimentos, fazia-o

tomar as mais contraditórias resoluções. Por várias vezes falou em lançar-se no jornalismo, e sempre seus amigos lhe diziam:

— Evita fazer isso.

— Seria a sepultura do belo, do suave Luciano que amamos e

conhecemos — disse D’Arthez. — Não resistirias à constante alternativa de

prazer e de trabalho de que é feita a vida dos jornalistas, e resistir é o

fundamento da virtude. Ficarias tão encantado por exercer o poder, por ter

direito de vida e morte sobre as obras do pensamento que te tornarias

jornalista em dois meses. Ser jornalista é passar a procônsul na república das

letras. Quem tudo pode dizer chega a tudo fazer! Esta máxima é de

Napoleão, e é fácil de compreender.

— Não estarão vocês, por acaso, a meu lado? — perguntou Luciano.

— Não estaremos mais — exclamou Fulgêncio; — jornalista, não

pensarias mais em nós, assim como a corista da Opéra, adorada e brilhante,

no seu carro forrado de seda, não pensa em sua aldeia, em suas vacas e em

seus tamancos. Já tens em demasia as qualidades do jornalista: o brilho e a

rapidez do pensamento. Não te privarias nunca de um dito de espírito,

embora fizesse ele chorar a um teu amigo. Vejo os jornalistas nos saguões dos

teatros; eles me causam horror. O jornalismo é um inferno, um abismo de

iniquidades, de mentiras, de traições, que não se pode atravessar e de onde

não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de

Virgílio.[162]

Quanto mais o cenáculo interditava a Luciano tal caminho, tanto mais o

seu desejo de conhecer o perigo o convidava a nele se arriscar. Começava a

discutir consigo mesmo: não seria ridículo deixar-se uma vez mais

surpreender pela miséria sem nada ter feito contra ela? Diante do insucesso

das diligências a propósito de seu primeiro romance, Luciano estava pouco

tentado a escrever um segundo. Aliás, de que viveria ele enquanto o

escrevesse? Havia esgotado sua dose de paciência durante um mês de

privações. Não poderia então fazer com nobreza o que os jornalistas faziam

sem consciência nem dignidade? Seus amigos o insultavam com suas

desconfianças; queria provar-lhes sua força de espírito. Ele talvez ainda os

pudesse ajudar um dia, seria o arauto de suas glórias!

— De resto, o que é então uma amizade que recua diante da

cumplicidade? — perguntou ele uma noite a Miguel Chrestien, a quem, em companhia de Leão Giraud, havia acompanhado até a casa.

— Não recuamos diante de coisa alguma — respondeu Miguel Chrestien.

— Se tivesses a desgraça de matar tua amante, eu te ajudaria a esconder o

crime e poderia estimar-te ainda; mas, se te tornasses um espião, fugiria de

ti com horror, porque serias vil e infame conscientemente. Eis, em duas

palavras, o que é o jornalismo. A amizade perdoa o erro, o movimento

irrefletido da paixão, mas deve ser implacável para quem

premeditadamente vai traficar com a sua alma, o seu pensamento e o seu

espírito.

— Não poderei fazer-me jornalista para vender minhas poesias e meu

romance e abandonar em seguida o jornal?

— Maquiavel faria isso, mas Luciano de Rubempré, não — disse Leão

Giraud.

— Pois bem — exclamou Luciano —, hei de provar-lhe que valho tanto

quanto Maquiavel!

— Ah! — exclamou Miguel apertando a mão de Leão. — Acabas de

perdê-lo. Luciano — disse ele —, tens trezentos francos, com os quais podes

viver três meses à tua vontade; pois bem, trabalha, escreve um segundo

romance; D’Arthez e Fulgêncio te auxiliarão no plano, tornar-te-ás grande,

serás um romancista. Penetrarei eu num desses lupanares do pensamento;

serei jornalista durante três meses; venderei teus livros ao primeiro livreiro

de quem atacar as publicações. Escreverei os artigos, hei de obter tudo para

ti; organizaremos um grande êxito, serás um grande homem e continuarás a

ser o nosso Luciano.

— Desprezas-me então muito, acreditando que perecerei onde tu te hás

de salvar! — disse o poeta.

— Perdoa-lhe, meu Deus, é uma criança! — exclamou Miguel Chrestien.

 

VII – O JORNAL VISTO POR FORA

 

Após haver desentorpecido o espírito nos serões passados em casa de

D’Arthez, Luciano entrara a estudar os tópicos e as charges dos pequenos

jornais.

Certo de ser pelo menos igual aos mais espirituosos dos seus redatores, ensaiou-se secretamente nessa ginástica do pensamento, e saiu certa manhã

com a triunfante ideia de ir pedir trabalho a um dos coronéis dessas tropas

Continuar: parte 4 de 12