A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
das cortesãs, que ligam suas gavinhas aos recantos mais ternos da alma
dobrando-se com incrível flexibilidade a todos os desejos, favorecendo os
hábitos de moleza de onde tiram sua força. Tinha já sede dos prazeres
parisienses; amava a vida fácil, abundante e magnífica que a atriz lhe
proporcionava em sua casa.
Encontrou Corália e Camusot loucos de alegria. O Gymnase propunha,
para a próxima Páscoa, um contrato cujas condições, nitidamente
formuladas, ultrapassavam as esperanças de Corália.
— Nós lhe devemos este triunfo — disse Camusot.
— Oh! certamente! Sem ele, O alcaide fracassaria — exclamou Corália.
— Não teria havido artigo algum, e eu permaneceria ainda no bulevar por
mais seis anos.
Ela saltou-lhe ao pescoço diante de Camusot. A efusão da artista tinha um não sei quê de macio em sua rapidez e de suave no seu arrebatamento:
ela amava! Como todos os homens nas grandes dores, Camusot baixou os
olhos para a terra e reconheceu ao longo da costura das botas de Luciano o
fio de cor empregado pelos sapateiros célebres e que se desenhava em
amarelo-escuro sobre o negro brilhante do cano. A cor original desse fio
havia-o preocupado durante o seu monólogo sobre a presença inexplicável
de um par de botas diante da lareira de Corália. Havia lido em letras negras
impressas sobre o couro branco e suave do forro o endereço de um sapateiro
famoso naquele tempo: Gay, na Rue de La Michodière.
— Senhor — disse ele a Luciano —, tem umas botas muito bonitas.
— Ele tem tudo bonito — respondeu Corália.
— Eu gostaria de ser freguês de seu sapateiro.
— Oh! — disse Corália — seria como se fosse à Rue des Bourdonnais
pedir endereços de fornecedores! Vai usar botas de moço? Seria um bonito
rapaz! Fique com suas botas de foles, que são as que convêm a um homem
estabelecido, que tem mulher, filhos e amante.
— Mas, enfim, se este senhor quisesse tirar uma de suas botas, far-me-ia
um assinalado serviço — disse o obstinado Camusot.
— Não as poderia tornar a calçar sem abotoadores — disse Luciano,
corando.
— Berenice irá procurá-los, eles não serão supérfluos aqui — disse o
negociante com um ar terrivelmente zombeteiro.
— Papai Camusot — disse Corália atirando-lhe um olhar cheio de atroz
desprezo —, tenha a coragem de sua covardia! Vamos, diga todo o seu
pensamento. Acha que as botas deste senhor se parecem com as minhas? Eu
lhe proíbo de tirar as botas — disse ela a Luciano. — Sim, sr. Camusot, sim,
estas botas são absolutamente aquelas mesmas que estavam como que de
braços dados diante de minha lareira, outro dia, e este senhor as esperava
escondido no meu quarto de vestir. Ele havia passado a noite aqui. É isto o
que pensa, não? Pense! Quero que pense. É a pura verdade. Eu o engano. E
depois? Isso me agrada, a mim!
Sentou-se sem cólera e com o ar mais desembaraçado do mundo,
olhando Camusot e Luciano, que não ousavam olhar um para o outro.
— Não acreditarei senão no que quiser que eu acredite — disse Camusot.
— Não graceje. Eu fiz mal.
— Ou eu sou uma infame desavergonhada que num instante namoricou
este senhor, ou sou uma pobre miserável criatura que sentiu pela primeira
vez o amor verdadeiro atrás do qual correm todas as mulheres. Em qualquer
dos casos, é preciso deixar-me ou aceitar-me tal como sou — disse ela
fazendo um gesto de soberana com o qual esmagou o negociante.
— Será verdade? — perguntou Camusot, que, vendo pela atitude de
Luciano que Corália não brincava, mendigava um engano.
— Eu amo Corália — disse Luciano.
Ouvindo essas palavras ditas com voz comovida, Corália saltou ao
pescoço do seu poeta, apertou-o nos braços e voltou a cabeça para o
negociante de sedas, mostrando-lhe o admirável par amoroso que ela fazia
com Luciano.
— Pobre Musot, leva tudo o que me deste, nada quero de ti; amo como
uma louca esta criança, não por sua inteligência, mas pela sua beleza. Prefiro
a miséria com ele aos milhões contigo.
Camusot tombou sobre uma poltrona, pôs a cabeça entre as mãos e ficou
silencioso.
— Quer que saiamos daqui? — perguntou ela com incrível ferocidade.
Luciano sentiu um frio na espinha vendo-se sobrecarregado com uma
mulher, uma atriz e uma casa.
— Fica aqui, guarda tudo, Corália — disse o negociante com voz fraca e
dolorosa que partia da alma. — Nada quero retomar. Há aqui seiscentos mil
francos de mobiliário, mas eu não poderia imaginar a minha Corália na
miséria. Por grandes que sejam os talentos deste senhor, eles não te poderão
dar uma vida sem privações. Eis o que nos espera a todos, a nós outros, os
velhos! Corália, deixa-me o direito de vir ver-te algumas vezes. Poderei ser-te
útil. Aliás, confesso, ser-me-ia impossível viver sem ti.
A doçura do pobre homem, despojado de toda a sua felicidade no
momento em que se acreditava mais venturoso, tocou vivamente Luciano,
mas não Corália.
— Vem, meu pobre Musot, vem quando quiseres — disse ela. — Hei de te
querer mais assim, não te enganando.
Camusot pareceu contente por não ser expulso de seu paraíso terrestre, onde iria sem dúvida sofrer, mas onde esperava tornar a entrar mais tarde
na posse de todos os seus direitos, contando com os acasos da vida parisiense
e com as seduções que iriam cercar Luciano. O velho negociante matreiro
pensou que, cedo ou tarde, o belo rapaz haveria de permitir-se algumas
infidelidades, e, para o espionar, para perdê-lo no espírito de Corália, queria
continuar amigo dos dois. Essa covardia da verdadeira paixão assombrou
Luciano.
Camusot convidou-os a jantar no Palais-Royal, no Véry, o que foi aceito.
— Que felicidade! — exclamou Corália quando Camusot partiu. — Nada
mais de mansardas no Quartier Latin; morarás aqui. Não nos separaremos
nunca. Tomarás, para conservar as aparências, um pequeno apartamento na
Rue Charlot, e deixa correr o barco!
Pôs-se a dançar o seu passo espanhol com um arrebatamento que
revelava sua paixão indomável.
— Posso ganhar quinhentos francos por mês trabalhando muito —
lembrou Luciano.
— Eu recebo outro tanto no teatro, sem contar os extraordinários.
Camusot continuará me vestindo, ele me ama! Com mil e quinhentos
francos por mês viveremos como Cresos.
— E os cavalos, e o cocheiro, e o criado? — perguntou Berenice.
— Farei dívidas — exclamou Corália.
E se pôs de novo a dançar uma jiga com Luciano.
— É preciso, desde logo, aceitar as propostas de Finot — exclamou
Luciano.
— Vamos — disse Corália. — Vou-me vestir e te levo ao teu jornal. Depois
te esperarei com a carruagem no bulevar.
Luciano sentou-se num sofá e ficou olhando a atriz vestir-se, entregue
às mais graves reflexões. Teria preferido deixar Corália livre a ser levado às
obrigações de uma tal ligação; mas via-a tão linda, tão bem-feita, tão
atraente que se sentiu enlevado pelos aspectos pitorescos dessa vida de
boemia e atirou a luva à face da fortuna.
Berenice teve ordem de tratar da mudança e da instalação de Luciano.
Depois, a triunfante, a bela, a feliz Corália arrebatou seu amado, o seu poeta,
e atravessou toda Paris para ir à Rue Saint-Fiacre.
XXIII – OS ARCANOS DO JORNAL
Luciano subiu lentamente a escada e apresentou-se como um dos donos no
escritório do jornal. Colocíntida, tendo sempre seu papel timbrado à cabeça,
e o velho Giroudeau afirmaram-lhe, ainda mui hipocritamente, que
ninguém havia chegado.
— Mas os redatores devem encontrar-se nalgum lugar para combinar o
jornal — disse ele.
— Provavelmente, mas nada tenho a ver com a redação — disse o
capitão da guarda imperial, que se pôs de novo a verificar suas tiras
resmungando seu eterno grum! grum!
Nesse instante, por um acaso — deveríamos dizer feliz ou desgraçado?
—, chegou Finot, que vinha anunciar a Giroudeau sua falsa abdicação e
recomendar-lhe que velasse pelos seus interesses.
— Nada de diplomacia com este senhor, ele é do jornal — disse Finot ao
tio, tomando a mão de Luciano e apertando-a.
— Ah! o senhor é do jornal — exclamou Giroudeau, surpreendido com o
gesto do sobrinho. — Muito bem, senhor, não encontrou dificuldades para
entrar.
— Quero fazer aqui a sua cama para que não seja logrado por Estêvão —
disse Finot olhando para Luciano com um ar malicioso. — O senhor terá três
francos por coluna em todos os seus trabalhos, inclusive as críticas teatrais.
— Nunca ofereceste essas condições a ninguém — disse Giroudeau
olhando com assombro para Luciano.
— Ele terá os quatro teatros do bulevar e tu cuidarás para que seus
camarotes não lhe sejam abafados e para que suas entradas dos espetáculos
lhe sejam remetidas. Eu o aconselho, apesar disso, a fazê-las endereçar para
sua casa — continuou ele, voltando-se para Luciano. — O senhor se
compromete a escrever, além da crítica, dez artigos de variedades de mais
ou menos duas colunas por cinquenta francos por mês durante um ano.
Serve-lhe?
— Serve — respondeu Luciano, que tinha a mão forçada pelas
circunstâncias.
— Meu tio — disse Finot ao caixa —, redige o contrato que assinaremos ao descer.
— Quem é este senhor? — perguntou Giroudeau levantando-se e
tirando o boné de seda negra.
— O sr. Luciano de Rubempré, autor do artigo sobre O alcaide —
respondeu Finot.
— Moço — exclamou o velho militar, batendo na fronte de Luciano —,
tem aí minas de ouro. Não sou literato, mas li o seu artigo; gostei dele. Falem-
me de coisas assim! Isso sim que é a alegria. Por isso eu disse “Isto nos trará
assinantes!”. E trouxe. Vendemos cinquenta números.
— Do contrato com Estêvão Lousteau foram tiradas duas cópias e estão
prontas para ser assinadas? — perguntou Finot ao tio.
— Sim — disse Giroudeau.
— Põe na que vou assinar com este senhor a data de ontem, a fim de que
Lousteau fique sob o império destas convenções. — Finot tomou o braço de
seu novo redator com um gesto de camaradagem que seduziu o poeta, e o
levou para a escada, dizendo:
— Terá assim uma posição definida. Eu mesmo o apresentarei aos meus
redatores. Depois, esta noite, Lousteau o apresentará nos teatros. Poderá
ganhar cento e cinquenta francos por mês no nosso pequeno jornal que
Lousteau vai dirigir; procure assim viver bem com ele. Já o velhaco me vai
querer mal por lhe haver atado as mãos no que lhe concerne, mas o senhor
tem talento e não quero que ande a tropeçar com os caprichos de um
redator chefe. Aqui entre nós: pode levar até duas páginas por mês para o
meu hebdomadário; pagar-lhas-ei duzentos francos. Não fale a pessoa
alguma a respeito deste arranjo; eu ficaria sendo a presa de todos esses
amores-próprios feridos pela fortuna de um recém-chegado. Faça das suas
duas páginas quatro artigos. Assine dois com o seu nome e dois com
pseudônimo, a fim de não dar a impressão de estar tirando o pão dos outros.
Deve a sua posição a Blondet e a Vignon, que são de opinião que o senhor
tem futuro, de modo que não deve estragar sua boa situação. Sobretudo
desconfie de seus amigos. Quanto a nós dois, entendamo-nos sempre bem.
Sirva-me que eu lhe servirei. O senhor tem mais ou menos quarenta francos
de camarotes e entradas para vender, e uns sessenta francos de livros a
recuperar. Isto e mais o seu trabalho lhe dará quatrocentos e cinquenta francos por mês. Com inteligência saberá conseguir pelo menos duzentos
francos entre os livreiros que lhe hão de pagar artigos e prospectos. Mas o
senhor me pertence, não é? Posso contar com o senhor!
Luciano apertou a mão de Finot com um transporte de indizível alegria.
— Não demos a entender que estamos de acordo — disse-lhe Finot ao
ouvido, empurrando a porta de uma mansarda no quinto andar da casa e
situada ao fundo de um longo corredor.
Luciano avistou então Lousteau, Feliciano Vernou, Heitor Merlin e dois
outros redatores a quem não conhecia, reunidos em torno de uma mesa
coberta com um pano verde, diante de um bom fogo, instalados em cadeiras
ou poltronas, fumando ou rindo. A mesa estava carregada de papéis; havia
um verdadeiro tinteiro cheio de tinta, penas muito feias que, mesmo assim,
serviam aos redatores. Demonstrou-se assim ao novo jornalista que ali se
elaborava a grande obra.
— Senhores — disse Finot —, o objeto desta reunião é a instalação em
meu lugar e cargo do nosso caro Lousteau como redator chefe do jornal que
sou obrigado a deixar. Mas, se bem que as minhas opiniões sofram a
transformação necessária para que eu me possa tornar o redator chefe do
semanário, cujos destinos lhes são conhecidos, minhas convicções
permanecem as mesmas e continuaremos amigos. Podem contar comigo
como eu conto com os senhores. As circunstâncias são variáveis. Os
princípios são fixos. Os princípios são o eixo sobre o qual giram os ponteiros
do barômetro político.
Todos os redatores estalaram uma gargalhada.
— Quem te forneceu essas frases? — perguntou Lousteau.
— Blondet — respondeu Finot.
— Vento, chuva, tempestade, bom tempo — disse Merlin —, tudo
haveremos de atravessar juntos.
— Enfim — continuou Finot —, não nos afoguemos em metáforas: todos
os que tiverem artigos para mos trazer tornarão a encontrar Finot. Este
senhor — disse ele apresentando Luciano — é dos nossos. Já combinei com
ele, Lousteau.
Todos cumprimentaram Finot pela sua elevação e por seus novos
destinos.
— Eis-te a cavalo sobre nós e sobre os outros — disse um dos redatores
desconhecidos de Luciano. — Tornaste-te Jano...
— Contanto que não seja Janot[274] — disse Vernou.
— Deixar-nos-ás atacar as nossas vítimas à vontade?
— Tudo o que quiserem! — prometeu Finot.
— Ah! mas — disse Lousteau — o jornal não pode recuar. O sr. du
Châtelet incomodou-se; não o deixaremos em sossego durante uma semana.
— Que se passou? — indagou Luciano.
— Veio pedir satisfações — disse Vernou. — O ex-elegante do Império
encontrou o pai Giroudeau, que, com o maior sangue-frio do mundo,
apontou Felipe Bridau[275] como autor do artigo, e Felipe pediu ao barão
que designasse armas e hora. O negócio ficou nisso. Estamos ocupados a
apresentar escusas ao barão no número de amanhã. Cada frase é uma
punhalada.
— Mordam-no firme, ele virá encontrar-me — disse Finot. — Fingirei
prestar-lhe um serviço apaziguando vocês. Ele é considerado no ministério, e
nós arranjaremos lá qualquer coisa, nem que seja um lugar de professor
substituto ou alguma agência de venda de tabaco. Foi uma felicidade ele se
ter irritado. Qual de vocês quer fazer para o meu novo jornal um artigo de
fundo sobre Nathan?
— Dê a Luciano — disse Lousteau. — Heitor e Vernou escreverão artigos
em seus respectivos jornais...
— Adeus, senhores, nós nos encontraremos a sós no Barbin — disse Finot
a rir.
Luciano recebeu alguns cumprimentos pela sua admissão na temível
corporação dos jornalistas, e Lousteau o apresentou como um homem com
quem se poderia contar.
— Luciano os convida, em massa, senhores, para cearem em casa de sua
amante, a bela Corália.
— Corália vai ao Gymnase — disse Luciano a Estêvão.
— Muito bem, senhores, fica combinado que ajudaremos Corália, hem?
Em todos os seus jornais, ponham algumas linhas sobre o contrato e falem no
seu talento. Vocês emprestarão tato e habilidade à administração do
Gymnase. Poderemos dar-lhe também inteligência?
— Dar-lhe-emos inteligência — respondeu Merlin. — Frederico tem lá
uma peça com Scribe.
— Oh! o diretor do Gymnase é então o mais previdente e o mais
perspicaz dos especuladores — disse Vernou.
— Ah, esperem! Não escrevam artigo algum sobre o livro de Nathan sem
que nos acertemos. Vocês saberão por quê — disse Lousteau. — Devemos ser
úteis ao nosso novo camarada. Luciano tem dois livros para colocar, uma
coleção de sonetos e um romance. À força de notas, ele deve ser um grande
poeta no prazo de três meses. Servir-nos-emos de suas Boninas para rebaixar
as odes, as baladas, as meditações, toda a poesia romântica.
— Será divertido se os sonetos nada valerem — disse Vernou. — Que é
que você pensa de seus sonetos, Luciano?
— Aqui, como os acha? — perguntou um dos redatores desconhecidos.
— Senhores, são bons — disse Lousteau —, palavra de honra.
— Muito bem, estou satisfeito — disse Vernou —, vou atirá-los às pernas
desses poetas de sacristia que me cansam.
— Se Dauriat, esta noite, não aceitar as Boninas, nós lhe arrumaremos
artigo sobre artigo contra Nathan.
— E Nathan, o que dirá? — exclamou Luciano.
Os cinco redatores entraram a rir a bandeiras despregadas.
— Há de ficar encantado — disse Vernou. — Verá como havemos de
arranjar as coisas.
— Assim, este senhor é dos nossos? — perguntou um dos redatores, que
Luciano não conhecia.
— Sim, sim, Frederico, nada de farsas. Estás vendo, Luciano — disse
Estêvão ao neófito —, como é que agimos contigo. Não irás recuar chegando
a ocasião. Todos nós gostamos de Nathan e vamos atacá-lo. Agora,
partilhemos o império de Alexandre: Frederico, queres o Français e o
Odéon?[276]
— Se os senhores consentem — respondeu Frederico.
Todos inclinaram a cabeça, mas Luciano viu brilhar olhares de inveja.
— Eu guardo a Opéra, o Italiens, e a Opéra-Comique — disse Vernou.
— Está bem, Heitor ficará com os teatros de vaudeville — disse
Lousteau.
— E eu? Eu fico então sem teatro? — exclamou o outro redator, que
Luciano não conhecia.
— Pois bem, Heitor te deixará o Variétés, e Luciano a Porte Saint-
Martin[277] — disse Estêvão. — Abandona-lhe a Porte Saint-Martin, ele está
louco por Fanny Beaupré — disse ele a Luciano. — Em troca, ficarás com o
Cirque-Olympique.[278] Eu terei o Bobino,[279] o Funambules[280] e a sra.
Saqui.[281] Que é que temos para o jornal de amanhã?
— Nada.
— Nada.
— Nada!
— Senhores, sejam brilhantes para o meu primeiro número. O barão du
Châtelet e sua espinha de peixe não durarão nem oito dias. O autor de O
solitário já está muito surrado.
— Sosthène-Démosthène[282] não tem mais graça — disse Vernou. —
Todo mundo no-lo tomou.
— Oh! são-nos precisos novos defuntos — disse Frederico.
— Senhores, e se emprestássemos ridículos aos homens virtuosos da
direita? Se disséssemos que o sr. de Bonald[283] tem os pés malcheirosos? —
exclamou Lousteau.
— Comecemos uma série de retratos dos oradores ministeriais? — disse
Heitor Merlin.
— Faze tu isso, meu filho — respondeu Lousteau —, tu os conheces, são
do teu partido, poderás assim satisfazer alguns ódios intestinos. Agarra
Beugnot,[284] Siryeis de Mayrinhac[285] e outros. Os artigos podem ficar
prontos com antecedência, não ficaremos embaraçados por causa do jornal.
— E se inventássemos algumas recusas de sepultura[286] com
circunstâncias mais ou menos agravantes? — disse Heitor.
— Não, não vamos seguir o exemplo dos grandes jornais constitucionais
com sua “página dos curas” ilustrada, cheia de boatos — respondeu Vernou.
— De boatos? — estranhou Luciano.
— Chamamos boato — respondeu-lhe Heitor — a um fato que tem a
aparência de verdadeiro, mas que se inventou para tornar mais interessantes
os “fatos de Paris” quando estão muito frouxos. O boato é um achado de
Franklin,[287] que inventou o para-raios, o boato e a república. Esse jornalista enganou tão bem os enciclopedistas com seus boatos de ultramar
que, na História filosófica das Índias, Raynal[288] apresentou dois deles
como fatos autênticos.
— Eu não sabia disso. Quais são? — perguntou Vernou.
— A história do inglês que vendeu sua libertadora, uma negra, depois de
havê-la feito mãe, a fim de valorizá-la mais. Depois, a defesa sublime da
moça grávida, ganhando sua causa. Quando Franklin veio a Paris, confessou
suas balelas em casa de Necker,[289] para grande confusão dos filósofos
franceses. E eis aí de que maneira o novo mundo por duas vezes corrompeu
o antigo.
— O jornal — disse Lousteau — toma como verdade tudo o que é
provável. Partimos daí.
— A justiça criminal não procede de outra maneira — disse Vernou.
— Muito bem, até a noite, às nove horas, aqui — disse Merlin.
Todos se levantaram e apertaram-se as mãos, e a sessão foi levantada
entre testemunhos da mais tocante familiaridade.
— O que é que fizeste a Finot — perguntou Estêvão a Luciano quando
desciam — para que ele houvesse feito diretamente o contrato contigo? És o
único com quem ele se ligou desse modo.
— Eu, nada; ele é que me propôs — respondeu Luciano.
— Enfim, mesmo que tivesses teus arranjos com ele, eu ficaria
encantado, pois assim nos tornaríamos ambos mais fortes.
No andar térreo, Estêvão e Luciano encontraram Finot, que tomou
Lousteau à parte, levando-o para o gabinete ostensivo da redação.
— Assine o seu contrato para que o novo diretor acredite que a coisa foi
feita ontem — disse Giroudeau ao apresentar a Luciano dois papéis
timbrados.
Enquanto lia o contrato, Luciano ouviu entre Estêvão e Finot uma
discussão muito viva que versava sobre os produtos em espécie do jornal.
Estêvão queria sua parte nesses impostos arranjados por Giroudeau. Houve,
sem dúvida, uma transação entre Finot e Lousteau, porque os dois amigos
surgiram afinal inteiramente de acordo.
— Às oito horas, nas Galeries de Bois, na loja de Dauriat — disse Estêvão a
Luciano.
Um rapaz se apresentou, pedindo um lugar de redator com o ar tímido e
inquieto que Luciano tinha até há pouco. Luciano viu com secreto prazer
Giroudeau praticar com o neófito os mesmos gracejos com que o velho
militar o havia enganado. Seu interesse fê-lo compreender perfeitamente a
necessidade desse manejo, que punha barreiras quase intransponíveis entre
os estreantes e a mansarda onde só penetravam os eleitos.
— Já não há muito dinheiro para os redatores — disse ele a Giroudeau.
— Se fossem em maior número, cada qual ficaria com menos ainda —
respondeu o capitão. — Portanto!
O antigo militar fez um molinete com a bengala ferrada e saiu
grumgrumando. Pareceu ficar estupefato ao ver Luciano subir à bela
carruagem que estacionava no bulevar.
— Vocês são agora os militares e nós os paisanos — disse-lhe o soldado.
XXIV – REDAURIAT
— Palavra de honra, esses rapazes parecem-me ser as melhores criaturas do
mundo — disse Luciano a Corália. — Eis-me jornalista, com a certeza de
poder ganhar seiscentos francos por mês, trabalhando como um cavalo; mas
hei de colocar meus dois primeiros livros e hei de escrever outros. Meus
amigos vão-me organizar um êxito de estrondo! Assim é que digo como tu,
Corália: deixa correr o barco!
— Hás de triunfar, meu filho; mas não deves ser tão bom como és
bonito; estarias perdido. É preciso que sejas mau com os homens; é boa
política.
Corália e Luciano foram passear pelo Bois de Boulogne. De novo ali
encontraram a marquesa d’Espard, a sra. de Bargeton e o barão du Châtelet.
A sra. de Bargeton olhou para Luciano com um arzinho sedutor que poderia
passar por um cumprimento.
Camusot havia encomendado o melhor jantar do mundo. Corália,
sabendo-se livre dele, foi tão encantadora para com o pobre negociante de
sedas que ele não se lembrou de a ter visto tão graciosa nem tão atraente
durante os catorze meses de sua ligação.
— Vamos — pensou ele —, fiquemos com ela, apesar dos pesares.[290]
Camusot propôs secretamente a Corália uma inscrição de seis mil libras
de renda no livro-razão, que sua mulher não conhecia, se ela quisesse
continuar sua amante, consentindo em fechar os olhos aos seus amores com
Luciano.
— Trair um anjo assim?... mas olha bem para ele, pobre chimpanzé, e
olha para ti! — disse ela, mostrando-lhe o poeta, que Camusot havia
ligeiramente aturdido, fazendo-o beber.
Camusot resolveu esperar que a miséria lhe restituísse a mulher que a
miséria lhe havia entregue.
— Serei então apenas teu amigo — disse ele, beijando-a na fronte.
Luciano deixou Corália e Camusot para dirigir-se às Galeries de Bois. Que
mudança produzira em seu espírito a iniciação nos mistérios do jornal!
Misturou-se sem medo à multidão que ondulava nas galerias, assumiu ares
impertinentes porque tinha uma amante, entrou em casa de Dauriat com ar
desembaraçado porque agora era um jornalista. Encontrou lá grande
número de pessoas; deu a mão a Blondet, a Nathan, a Finot, a toda a
literatura com a qual fraternizava havia uma semana. Imaginou-se todo um
personagem e persuadiu-se de que sobrepujava aos camaradas. A leve dose
de vinho que o animava serviu-lhe maravilhosamente; foi espirituoso e
mostrou que sabia ser lobo entre lobos. Não obteve, entretanto, as aprovações
tácitas, mudas ou faladas, com que contava. Percebeu um primeiro
movimento de inveja nesse mundo talvez menos inquieto que curioso por
saber que lugar iria tomar essa nova notabilidade e quanto iria abocanhar na
partilha geral das vantagens da imprensa.
Finot, que encontrava em Luciano uma mina a explorar, e Lousteau,
que pensava possuir direitos sobre ele, foram os únicos que o poeta viu
sorridentes. Lousteau, que assumira já os modos de um redator chefe, bateu
vivamente nas vidraças do gabinete de Dauriat.
— Um momento, meu amigo — respondeu-lhe o livreiro, levantando a
cabeça acima das cortinas verdes e reconhecendo-o.
O momento durou uma hora, só após a qual Luciano e o amigo entraram
no santuário.
— E então? Pensou no negócio do nosso amigo? — perguntou o novo
redator chefe.
— Certamente — disse Dauriat recostando-se sultanescamente na
poltrona. — Li os seus versos e os fiz ler por um homem de gosto, por um
bom juiz, porque não tenho a pretensão de ser um conhecedor. Eu, meu
amigo, compro a glória já feita como aquele inglês comprava o amor. O
senhor é tão grande poeta quanto bonito rapaz, meu filho — disse Dauriat.
— Palavra de homem honesto, não digo de livreiro!, seus sonetos são
magníficos, não se sente neles o lavor, o que é raro quando se tem inspiração
e estro. Enfim, o senhor sabe rimar, uma das qualidades da nova escola. Suas
Boninas são um belo livro, mas não um negócio, e eu só me posso ocupar de
vastos empreendimentos. Em consciência, não posso ficar com os seus
sonetos; ser-me-ia impossível lançá-los; não há neles a ganhar o suficiente
para cobrir as despesas do lançamento. Além disso, o senhor não vai
continuar com a poesia; seu livro é um livro isolado. O senhor é muito jovem,
meu jovem amigo! Traz-me a eterna coleção dos primeiros versos, que todos
os homens de letras fazem ao sair do colégio, e que a princípio é tudo para
eles, embora deles se riam mais tarde. Lousteau, o seu amigo, deve ter
também algum poema escondido entre as meias velhas. Não tens um poema
no qual acreditaste, Lousteau? — perguntou Dauriat lançando a Estêvão um
olhar matreiro, de cúmplice.
— Eh! como poderia eu escrever em prosa, se não o tivesse? — disse
Lousteau.
— Está vendo? E ele nunca me falou nisso. Mas nosso amigo conhece o
comércio de livros e os negócios. A questão, para mim — continuou Dauriat
lisonjeando Luciano —, não é saber se é um grande poeta. O senhor tem
muito, mas muito mérito. Se eu fosse um novato em livraria, cometeria o erro
de editá-lo. Entretanto, hoje, meus comanditários e fornecedores me
cortariam o crédito. Bastou que eu houvesse perdido mais de vinte mil
francos no ano passado para que nem queiram ouvir falar em poesia; e eles
são os meus chefes. Entretanto, a questão não é essa. Admito que o senhor
seja um grande poeta; mas será fecundo? Desovará com regularidade os
seus sonetos? Chegará a dez volumes? Será o senhor um negócio? Pois bem,
não. Será um delicioso prosador; tem muito espírito para estragá-lo com
rípios. Poderá ganhar trinta mil francos por ano nos jornais e não irá trocá-los
por três mil francos, que, com dificuldade, lhe darão os seus hemistíquios, suas estrofes e versalhadas!
— Você sabia, Dauriat, que Luciano é do jornal? — perguntou Lousteau.
— Sim — respondeu Dauriat —, li seu artigo; e, no seu próprio interesse,
bem entendido, é que recuso as Boninas! Sim, senhor, em seis meses lhe
terei pago mais pelos artigos que lhe pedir do que pela sua poesia
invendável!
— Mas e a glória? — exclamou Luciano.
Dauriat e Lousteau puseram-se a rir.
— Ora essa! — disse Lousteau — este conserva ilusões.
— A glória — respondeu Dauriat — são dez anos de persistência e uma
alternativa de cem mil francos de lucros ou perdas para o livreiro. Se
encontrar algum louco que imprima suas poesias, daqui a um ano há de
sentir estima por mim, ao ver o resultado da operação.
— Tem aí o manuscrito? — perguntou Luciano friamente.
— Aqui está ele, meu amigo — respondeu Dauriat, cujas maneiras para
com Luciano se haviam já singularmente adoçado.
Luciano tomou o rolo sem olhar o estado em que estava o cordão, tanto
Dauriat infundia a impressão de haver lido as Boninas. Saiu com Lousteau
sem parecer consternado nem descontente. Dauriat acompanhou os dois
amigos até a loja falando em seu jornal e no de Lousteau. Luciano brincava
negligentemente com o manuscrito das Boninas.
— Acreditas que Dauriat tenha lido ou feito ler teus sonetos? —
perguntou-lhe Estêvão ao ouvido.
— Acredito — respondeu Luciano.
— Olha para o cordão e a marca.
Luciano viu a tinta e o cordão a concordarem perfeitamente.
— Qual dos sonetos lhe agradou mais particularmente? — perguntou
Luciano ao livreiro, empalidecendo de cólera e de raiva.
— São todos notáveis, meu amigo — respondeu Dauriat —, mas aquele
sobre a margarida é delicioso, termina com um pensamento sutil e delicado.
Foi aí que compreendi o êxito que sua prosa há de obter. Por isso,
imediatamente recomendei-o a Finot. Escreva-nos artigos, havemos de
pagá-los bem. Olhe aqui: quer pensar na glória, muito bem; mas não esqueça
a parte sólida e aceite tudo o que se apresentar. Quando for rico, então escreva versos.
O poeta saiu bruscamente para as galerias para não estourar. Estava
furioso.
XXV – A PRIMEIRA LUTA
— Então, criança — disse Lousteau, que o seguia —, acalma-te, aceita os
homens pelo que realmente são: meros instrumentos. Queres tomar
vingança?
— Custe o que custar — respondeu o poeta.
— Aqui está um exemplar do livro de Nathan que Dauriat acaba de me
dar. A segunda edição aparecerá amanhã. Relê a obra e rabisca um artigo
demolindo-a. Feliciano Vernou não pode suportar Nathan, cuja vitória
prejudica, segundo pensa, o futuro êxito de suas obras. Uma das manias
desses espíritos tacanhos é a de imaginar que sob o sol não há lugar para dois
êxitos. Fará, por isso, com que teu artigo saia no jornal em que trabalha.
— Mas que é que se pode dizer contra ele? É um belo livro — exclamou
Luciano.
— Ora essa! Meu caro, aprende teu ofício — respondeu rindo Lousteau.
— Qualquer livro, mesmo uma verdadeira obra-prima, deve tornar-se sob a
tua pena uma estólida bobagem, uma obra perigosa e malsã.
— Mas como?
— Transformarás as belezas em defeitos.
— Sou incapaz de tal esforço.
— Meu caro, um jornalista é um acrobata, é preciso que te habitues aos
inconvenientes da função. Olha, como bom camarada, vou indicar-te a
maneira de proceder em casos como este. Presta atenção, meu filho.
Começarás por achar bela a obra e podes te dar o gosto de escrever então
tudo o que pensas. O público pensará: “Este crítico não tem inveja, sem
dúvida há de ser imparcial”. Desde então o público há de considerar a tua
uma crítica conscienciosa. Depois de haver conquistado a estima do leitor,
lamentarás ter de reprovar o sistema para o qual semelhantes livros vão fazer
entrar a literatura francesa. A França, dirás, não orienta acaso a inteligência
do mundo inteiro? Até hoje, século após século, os escritores franceses têm mantido a Europa no caminho da análise, do exame filosófico, pela pujança
do estilo e pela forma original das ideias. Aqui colocas, para o burguês, um
elogio de Voltaire, de Rousseau, de Diderot, de Montesquieu, de Buffon.
Explicarás como na França a língua é impiedosa, provarás que é um verniz
distendido sobre o pensamento. Deixarás escapar alguns axiomas, como:
“Um grande escritor, em França, é sempre um grande homem, ele é forçado
pela natureza da língua a pensar sempre, o que não acontece nos outros
países” etc. Demonstrarás tua assertiva comparando Rabener,[291] um
moralista satírico alemão, a La Bruyère.[292] Não há nada para dar
autoridade a um crítico como falar de um autor estrangeiro desconhecido.
Kant[293] é o pedestal de Cousin.[294] Firmado nesse terreno, lanças uma
palavra que resume e explica aos tolos o sistema dos nossos homens de gênio
do último século, chamando a sua literatura de “literatura de ideias”.
Armado dessa expressão, jogas todos os mortos ilustres à cabeça dos autores
vivos. Explicarás então que em nossos dias surge uma nova literatura na qual
se abusa do diálogo (a mais fácil das formas literárias) e das descrições que
dispensam a ideia. Oporás os romances de Voltaire, de Diderot, de Sterne, de
Lesage, tão substanciais e incisivos, ao romance moderno, em que tudo se
traduz por meio de imagens, e que Walter Scott dramatizou em demasia.
Em tal gênero, não há lugar senão para o inventor. O romance à moda de
Walter Scott é um gênero, não um sistema, dirás tu. Fulminarás esse gênero
funesto no qual se diluem as ideias, no qual elas são passadas num
laminador; gênero acessível a todas as inteligências, gênero no qual qualquer
um se pode transformar num escritor sem grande custo, gênero enfim que
denominarás “literatura de imagens”. Farás incidir essa argumentação sobre
Nathan, demonstrando que é um imitador e que tem apenas a aparência do
talento. Dirás que falta ao seu livro o grande estilo compacto do século xviii;
provarás que o autor substituiu nele os sentimentos pelos acontecimentos. O
movimento não é a vida, o quadro não é a ideia! Formula sentenças assim, e
o público as repetirá. Apesar do seu mérito, a obra te parecerá então fatal e
perigosa, por abrir para a multidão o templo da glória. Deixarás entrever ao
longe um exército de autores de segunda ordem, ansiosos por imitar a sua
forma. Nessa altura poderás entregar-te então a estrondosas lamentações a
respeito da decadência do bom gosto, e insinuarás o elogio dos srs. Étienne,
[295] Jouy,[296] Tissot,[297] Gosse,[298] Duval,[299] Jay,[300] Benjamin
Constant,[301] Aignan,[302] Baour-Lormian,[303] Villemain,[304] os
corifeus do partido liberal napoleônico, sob cuja proteção se encontra o
jornal de Vernou. Mostrarás essa gloriosa falange resistindo à invasão dos
românticos, batendo-se pela ideia e pelo estilo contra a imagem e o
palavreado, continuando a escola voltaireana e se opondo à escola inglesa e
alemã, tal como os dezessete oradores da esquerda combatem pela nação
contra os ultras da direita. Protegido por esses nomes venerados pela imensa
maioria dos franceses, que hão de ser sempre pela oposição da esquerda,
podes esmagar Nathan, cuja obra, apesar de conter belezas superiores, dá
em França direito de cidadania a uma literatura sem ideias. Desde então,
não se trata mais de Nathan nem de seu livro, compreendes?, mas da glória
da França. O dever das penas honestas e corajosas é opor-se vivamente a
essas importações estrangeiras. Aí, tu lisonjearás o assinante. Dirás que a
França é muito esperta e que não é fácil surpreendê-la. Se o livreiro, por
motivos nos quais não podes penetrar, escamoteia um grande livro, o
verdadeiro público faz imediatamente justiça aos erros causados pelos
quinhentos simplórios que constituem sua vanguarda. Dirás que, depois de
ter tido a felicidade de vender uma edição desse livro, o livreiro é bem
audacioso ao tirar segunda, e lamentarás que tão hábil editor conheça tão
pouco os instintos do país. Aí tens o arcabouço. Polvilha-me de espírito esse
arrazoado, aviva-lhe o sabor com um fio de vinagre, e Dauriat estará frito na
panela dos artigos. Não esqueças, porém, de terminar com ar de quem
lamenta em Nathan o erro de um homem ao qual, se ele abandonar esse
caminho, a literatura contemporânea deverá belas obras.
Luciano sentiu-se estupefato ao ouvir Lousteau falar: a palavra do
jornalista tirava-lhe a venda dos olhos, descobria verdades literárias de que
não havia sequer suspeitado.
— Mas isso que estás dizendo — exclamou ele — é cheio de razão e de
verdade.
— Sem isso, poderias acaso atacar o livro de Nathan? — respondeu
Lousteau. — Aí está, meu filho, a primeira forma de artigo que se usa para
demolir uma obra. É a picareta do crítico. Há, porém, muitas outras
fórmulas! Tua educação há de fazer-se. Quando te vires absolutamente obrigado a falar a respeito de um homem de quem não gostes (algumas vezes
os proprietários e os redatores chefes de um jornal têm a mão forçada),
desenvolverás a negação daquilo a que chamamos um artigo de fundo. Põe-
se no alto, no cabeçalho do artigo, o título do livro do qual mandam que te
ocupes. Começa-se por considerações gerais nas quais se pode falar dos
gregos e dos romanos, depois se diz no fim: “Estas considerações nos levam
ao livro do senhor fulano, que será matéria de um próximo artigo”. E o
segundo artigo não aparecerá jamais. Mata-se assim o livro entre duas
promessas. No caso, não vais escrever um artigo contra Nathan, mas contra
Dauriat. É preciso um golpe de picareta. Numa bela obra, a picareta não faz
mossa alguma, mas num mau livro entra até ao âmago. No primeiro caso, não
fere senão o livreiro, e no segundo presta um serviço ao público. Estas formas
de crítica literária empregam-se igualmente na crítica política.
A cruel lição de Estêvão instalou-se na imaginação de Luciano, que
compreendeu admiravelmente o ofício.
— Vamos ao jornal — convidou Lousteau —, encontraremos lá nossos
amigos e combinaremos uma carga a fundo contra Nathan. Isso os fará rir,
vais ver.
Chegados à Rue Saint-Fiacre, subiram juntos à mansarda onde se fazia o
jornal, e Luciano sentiu-se tão surpreendido como encantado ao ver a
espécie de alegria com que seus camaradas concordaram em demolir o livro
de Nathan. Heitor Merlin tomou um quadrado de papel e escreveu estas
linhas para levar ao seu jornal:
Anuncia-se uma segunda edição do livro do sr. Nathan. Pretendíamos
guardar silêncio sobre essa obra, mas a aparência de êxito nos obriga a
publicar um artigo, menos sobre a obra em si que sobre a tendência da
nossa jovem literatura.
Iniciando os gracejos para o número do dia seguinte, Lousteau pôs estas
palavras:
O livreiro Dauriat publica uma segunda edição do livro do sr.
Nathan? Não conhecerá acaso o provérbio palaciano non bis in
idem?[305] Honra à coragem infeliz!
As palavras de Estêvão foram como um rastilho para Luciano, em quem o
desejo de vingar-se de Dauriat tomou o lugar da consciência e da inspiração.
Três dias depois, durante os quais não saíra do quarto de Corália, onde
trabalhava junto à lareira, servido por Berenice e acariciado em seus
momentos de lassitude pela atenta e silenciosa amante, Luciano passou a
limpo um artigo de crítica de cerca de três colunas, no qual se elevou a
alturas surpreendentes. Correu ao jornal, às nove horas da noite; encontrou
lá os redatores e leu-lhes o trabalho. Foi escutado em silêncio. Feliciano não
disse uma só palavra; pegou o artigo e precipitou-se escada abaixo.
— Que mosca o mordeu? — exclamou Luciano.
— Ele leva teu artigo para a tipografia! — respondeu Heitor Merlin. — É
uma obra-prima onde não há uma única palavra a suprimir, nem uma linha
a acrescentar.
— Vês? Não é preciso mais que te mostrar o caminho! — afirmou
Lousteau. — Gostaria de ver a cara que Nathan vai fazer amanhã ao ler isso
— disse outro redator, em cuja fisionomia brilhava uma doce satisfação.
— Vai ser preciso sermos seus amigos — afirmou Heitor Merlin.
— Acha então que está bem? — perguntou vivamente Luciano.
— Blondet e Vignon vão ficar doentes — disse Lousteau.
— Aqui está um artiguete — continuou Luciano — que alinhavei para
vocês e que pode, caso agrade, fornecer uma série de composições
semelhantes.
— Leia-nos isso — disse Lousteau.
Luciano leu-lhes então um dos deliciosos artigos que fizeram depois a
fortuna do jornalzinho, e nos quais, em duas colunas, se pintavam detalhes
íntimos da vida parisiense, um personagem, um tipo, um acontecimento
normal, ou algumas singularidades. A amostra, intitulada Os transeuntes de
Paris,[306] fora escrita de certa maneira nova e original na qual a ideia
resultava sobretudo do choque das palavras, na qual o tilintar dos advérbios e
adjetivos despertava a atenção. O artigo era tão diferente do grave e
profundo trabalho sobre Nathan como as Cartas persas[307] diferem de O
espírito das leis.[308]
— Nasceste jornalista — disse-lhe Lousteau. — Isto sairá amanhã.
Escreve tantos quantos quiseres desse gênero.
— Ah, sabem? — disse Merlin. — Dauriat está furioso com os dois obuses
que jogamos na loja. Venho de sua casa; gritava imprecações e se lançava
contra Finot, que lhe afirmava te haver vendido o jornal. Chamei-o de parte
e lhe escorreguei estas palavras ao ouvido: “As boninas vão lhe custar caro!
Aparece-lhe um homem de talento e você o manda passear, enquanto nós,
ao contrário, o acolhemos de braços abertos”.
— Dauriat será fulminado pelo artigo que acabamos de ouvir — disse
Lousteau a Luciano. — Estás vendo, meu rapaz, o que é o jornal? Mas tua
vingança continua! O barão du Châtelet veio esta manhã pedir teu
endereço, apareceu hoje um artigo terrível contra ele; o ex-elegante tem a
cabeça a estalar, está desesperado. Não leste o jornal? O artigo é engraçado!
Vê! “O enterro do Socó chorado pela Espinha de Peixe.” A sra. de Bargeton é
claramente cognominada “Espinha” na sociedade e Du Châtelet só é
chamado como “barão Socó”.
Luciano tomou o jornal e não pôde deixar de rir ao ler a pequena obra-
prima de humorismo devida a Vernou.
— Eles vão capitular — afirmou Heitor Merlin.
Luciano tomou parte alegremente nalgumas das piadas e sátiras com
que em geral se terminava a feitura do jornal, conversando e fumando, a
contar as aventuras do dia, os ridículos dos camaradas, ou algum novo
pormenor sobre seu caráter. Essa conversa eminentemente espirituosa,
zombeteira e maldosa pôs Luciano a par dos costumes e do pessoal da
literatura.
— Enquanto se compõe o jornal — disse Lousteau —, vou dar uma volta
contigo, apresentar-te a todos os controles e aos bastidores dos teatros onde
terás entradas. Iremos depois encontrar Florina e Corália no Panorama-
Dramatique, onde faremos loucuras com elas em seus camarins.
Saíram ambos de braços dados, e foram de teatro em teatro; Luciano foi
entronizado como redator, cumprimentado pelos diretores, binoculado pelas
atrizes, que todas sabiam da importância que um único artigo dele acabava
de dar a Corália e a Florina, contratadas, uma para o Gymnase por doze mil
francos anuais, e a outra por oito mil francos para o Panorama. Foram outras tantas pequenas ovações que elevaram Luciano a seus próprios olhos e lhe
deram a medida de seu poder. Às onze horas os dois amigos chegaram ao
Panorama-Dramatique, onde Luciano assumiu um ar desembaraçado que
obrou maravilhas. Nathan lá estava. Nathan estendeu a mão a Luciano, que
a tomou e apertou.
— Mas então! mestres — disse ele olhando para Luciano e Lousteau —,
querem mesmo enterrar-me?
— Espera até amanhã, meu caro, vais ver como Luciano te pegou!
Palavra de honra! Vais ficar contente. Quando a crítica é tão séria como essa,
um livro só tem a ganhar com ela.
Luciano estava vermelho de vergonha.
— É muito duro? — perguntou Nathan.
— É grave — respondeu Lousteau.
— Mas não há nela então nada de mal? — insistiu Nathan. — Heitor
Merlin dizia no saguão do Vaudeville que eu estava liquidado.
— Deixe-o dizer e espere — exclamou Luciano, que se escapou para o
camarim de Corália, seguindo a artista no momento em que ela deixava a
cena em seu atraente costume.
XXVI – O LIVREIRO EM CASA DO AUTOR
No dia seguinte, Luciano almoçava com Corália quando ouviu, nítido, o
ruído de um cabriolé, ruído que naquela rua deserta anunciava elegante
viatura, cujo cavalo tinha o andar desembaraçado e a maneira de parar que
trai a raça pura. De sua janela, Luciano percebeu, de fato, o magnífico
cavalo inglês de Dauriat e o próprio Dauriat, que entregava as rédeas ao
groom antes de descer.
— É o livreiro — gritou Luciano à amante.
— Manda esperar — disse imediatamente Corália a Berenice.
Luciano sorriu do desembaraço daquela jovem que tão admiravelmente
se identificava com os seus interesses, e voltou para beijá-la com verdadeira
efusão: ela tivera presença de espírito. A presteza do impertinente livreiro, a
súbita humilhação daquele príncipe dos charlatães provinha de
circunstâncias quase que inteiramente esquecidas na atualidade, tanto e tão completamente se transformou o comércio de livros nestes últimos quinze
anos. De 1816 a 1827, época em que os gabinetes literários, estabelecidos a
princípio para a leitura de jornais, começaram a oferecer à leitura os livros
novos, mediante retribuição, e em que a agravação das leis fiscais em relação
à imprensa periódica fez criar o anúncio, os livreiros não dispunham de
outros meios de publicidade além dos artigos inseridos ora nos suplementos
ora no corpo dos jornais. Até 1822, os jornais franceses apareciam em folhas
de formato tão reduzido que os grandes jornais mal ultrapassavam as
dimensões dos pequenos jornais dos nossos dias. Para resistir à tirania dos
jornalistas, Dauriat e Ladvocat (foram eles os primeiros) inventaram os
cartazes por meio dos quais captaram a atenção de Paris, neles ostentando
caracteres de fantasia, coloridos bizarros, vinhetas, e, mais tarde, as
litografias que fizeram dos cartazes um poema para os olhos e, muitas vezes,
uma decepção para a bolsa dos amadores. Os cartazes tornaram-se tão
originais que um desses maníacos chamados colecionadores possui uma
coleção completa de cartazes parisienses. Esse meio de anunciar, restrito, de
começo, às vitrines das lojas e às exposições de mercadoria dos bulevares, e
mais tarde espalhado por toda a França, foi substituído pelo anúncio. O
cartaz, entretanto, que atrai ainda os olhos mesmo depois de o anúncio e
muitas vezes a própria obra estarem esquecidos, subsistirá sempre, sobretudo
depois que se encontraram os meios de pintá-los nas paredes. O anúncio,
acessível a todos mediante pagamento, e que converteu a quarta página dos
jornais num campo tão fértil para o fisco como para os especuladores,
nasceu sob os rigores do selo, do correio e das cauções. Essas restrições
inventadas ao tempo do sr. de Villèle,[309] que poderia então haver matado
os jornais vulgarizando-os, criaram, pelo contrário, uma espécie tal de
privilégio que tornava a fundação de um periódico coisa quase impossível.
Em 1821, tinham pois os jornais direitos de vida e de morte sobre as
concepções do pensamento e os empreendimentos editoriais. Uma notícia
de algumas linhas inserta nos “fatos de Paris” pagava-se terrivelmente caro.
As intrigas multiplicavam-se de tal modo no interior das salas de redação e, à
noite, no campo de batalha das tipografias, à hora em que a paginação
decidia sobre a admissão ou recusa deste ou daquele artigo, que as grandes
livrarias tinham a seu soldo um homem de letras para redigir essas pequenas notas em que era preciso se colocarem muitas ideias em poucas palavras.
Esses jornalistas obscuros, pagos somente após a publicação, ficavam muitas
vezes durante a noite nas tipografias para ver postos no prelo ora os grandes
artigos (obtidos sabe Deus como!) ora essas poucas linhas, que tomaram
depois o nome de reclamos. Atualmente, os costumes da literatura e da
livraria mudaram tanto que muita gente dirá que são invenções os imensos
esforços, as seduções, as covardias, as intrigas, que a necessidade de obter
esses reclamos inspirava aos livreiros, aos autores, aos mártires da glória, a
todos os forçados condenados ao êxito perpétuo. Jantares, lisonjas,
presentes, de tudo se lançava mão junto aos jornalistas. A seguinte anedota
explicará melhor do que todas as asserções a estreita aliança entre a crítica e
o comércio de livros.
Um escritor de alto estilo e com miras a tornar-se homem de Estado, e,
naquele tempo, jovem, galante e redator de um grande jornal, tornara-se o
preferido de famosa livraria. Certo dia, um domingo, no campo, onde o
opulento livreiro festejava os principais redatores dos jornais, a dona da casa,
então jovem e bonita, acompanhava pelo parque o ilustre escritor. O gerente,
um alemão frio, grave e metódico, que só pensava em negócios, passeava de
braço dado a um folhetinista, conversando a respeito de certa iniciativa
sobre a qual este o consultava. A conversa levou-os para além do parque;
atingiram o bosque. Ao fundo de um maciço, o alemão viu qualquer coisa que
se assemelhava à sua patroa; pegou da luneta, fez sinal ao jovem redator
para que se calasse, para que se fosse, e voltou, também ele com precaução,
sobre seus passos.
— Que foi que viu? — perguntou-lhe o escritor.
— Quase nada — respondeu ele. — Nosso grande artigo sairá. Amanhã
teremos pelo menos três colunas no Debates.
Outro fato explicará esse poder dos artigos. O livro de Chateaubriand
sobre o último dos Stuart encalhara nas prateleiras de uma livraria em estado
de “rouxinol”. Um único artigo escrito por um rapaz no Jornal de Debates
fez com que a edição fosse vendida numa semana.
Numa época em que para ler um livro era preciso comprá-lo e não alugá-
lo, vendiam-se dez mil exemplares de certas obras liberais, elogiadas por
todas as folhas da oposição; é que, também, a contrafação belga[310] não existia ainda. Os ataques preparatórios dos amigos de Luciano e o seu artigo
tinham pois o poder de suster a venda do livro de Nathan. Este não sofria
senão em seu amor-próprio; nada mais tinha a perder, porque já havia sido
pago; mas Dauriat poderia perder trinta mil francos. Com efeito, o comércio
de livros chamado de novidades resume-se neste teorema comercial: uma
resma de papel em branco vale quinze francos; impresso, vale, segundo o
êxito, cem sous ou cem escudos.
Um artigo pró ou contra, naquele tempo, decidia muitas vezes essa
questão financeira. Dauriat, que tinha quinhentas resmas para vender,
corria pois a capitular diante de Luciano.
De sultão o livreiro se transformava em escravo. Depois de haver
esperado algum tempo, a murmurar, a fazer o maior barulho possível e a
parlamentar com Berenice, conseguiu falar com Luciano. O orgulhoso
livreiro assumiu o ar sorridente dos cortesãos quando penetraram na Corte,
mas entremeado de suficiência e de bonomia.
— Não se incomodem, meus caros amores! — disse. — Como são gentis
estes dois pombinhos! Vocês me dão a impressão de duas rolas! Quem diria,
senhorita, que este homem com o seu ar de moça fosse um tigre de garras de
aço que estraçalham uma reputação como devem estraçalhar os seus
penteadores quando a senhora demora em tirá-los? — E se pôs a rir sem
acabar o gracejo. — Meu filho... — continuou, sentando-se perto de Luciano.
— Senhorita, eu sou Dauriat — disse ele interrompendo-se.
Julgara necessário disparar o tiro de pistola de seu nome, não se
considerando bem recebido por Corália.
— O senhor já almoçou? Quer fazer-nos companhia? — perguntou a
atriz.
— Mas certamente, conversaremos melhor à mesa — respondeu Dauriat.
— Aliás, aceitando seu almoço, ficarei com o direito de convidá-la para jantar
assim como ao meu amigo Luciano, porque deveremos agora tornar-nos tão
amigos como a mão e a luva.
— Berenice! Ostras, limões, manteiga fresca e champanha — ordenou
Corália.
— O senhor é muito inteligente para não saber o que aqui me traz —
insinuou Dauriat, olhando para Luciano.
— Vem para comprar meu livro de sonetos?
— Precisamente — respondeu Dauriat. — Antes de tudo, deponhamos
as armas de parte a parte.
Tirou do bolso uma elegante carteira, tomou três notas de mil francos,
colocou-as num prato e apresentou-as a Luciano com maneiras de cortesão,
dizendo:
— Está satisfeito?
— Sim — respondeu o poeta, que se sentiu inundado de desconhecida
beatitude à vista daquela soma inesperada.
Luciano conteve-se, mas tinha vontade de cantar, de pular. Acreditava
na lâmpada maravilhosa, nos encantamentos; acreditava, enfim, no seu
gênio.
— Assim, As boninas me pertencem? — perguntou o livreiro. — Neste
caso o senhor não atacará jamais nenhuma das minhas publicações.
— As boninas pertencem-lhe, mas eu não posso comprometer minha
pena; ela está a serviço dos meus amigos, assim como a deles ao meu.
— Mas, enfim, o senhor será um dos meus autores. Todos os meus
autores são meus amigos. Assim, não prejudicará a meus negócios sem que
eu seja advertido dos ataques, a fim de que os possa prevenir.
— De acordo.
— À sua glória! — brindou Dauriat, levantando o copo.
— Bem vejo que o senhor leu mesmo As boninas — disse Luciano.
Dauriat não se desconcertou.
— Meu filho, comprar As boninas sem as conhecer é a mais bela lisonja
que um livreiro se pode permitir. Dentro de seis meses, o senhor será um
grande poeta. Hão de escrever muitos artigos a seu respeito, temem-no,
nada precisarei fazer para vender o seu livro. Sou hoje ainda o mesmo
negociante de há quatro dias. Não fui eu quem mudou, foi o senhor; a
semana passada, seus sonetos eram para mim como folhas de couve, hoje
sua posição fez deles Messênicas.[311]
— Muito bem — respondeu Luciano, a quem o prazer sultanesco de
possuir uma bela amante e a certeza do triunfo tornavam zombeteiro e
adoravelmente impertinente —, se o senhor não leu meus sonetos, leu o meu
artigo.
— Sim, meu amigo, não fosse isso teria eu vindo tão depressa?
Infelizmente é de grande beleza, esse terrível artigo. Ah! tem um imenso
talento, meu filho. Acredite-me: aproveite a maré — aconselhou ele com
bonomia que dissimulava a profunda impertinência da expressão. — Mas
recebeu o jornal, leu-o?
— Ainda não — respondeu Luciano —, e no entanto é esta a primeira
vez que publico um trecho regular de prosa. Mas Heitor há de tê-lo
mandado para minha casa, na Rue Charlot.
— Aqui o tens, lê — declamou Dauriat, imitando Talma em Mânlio.[312]
Luciano tomou a folha, mas Corália arrancou-lha das mãos.
— Pertencem-me as primícias de sua pena, bem sabe — disse ela rindo.
Dauriat mostrou-se estranhamente lisonjeiro e cortesão; temia Luciano.
Convidou-o, pois, assim como a Corália, para um grande almoço que
ofereceria aos jornalistas no fim da semana. Levou o manuscrito de As
boninas dizendo ao seu poeta que, quando lhe aprouvesse, passasse pelas
Galeries de Bois para assinar o contrato, que já estaria lavrado. Sempre fiel às
maneiras régias por meio das quais tentava impor-se às pessoas superficiais e
passar mais por um mecenas que por um livreiro, deixou os três mil francos
sem recibo, recusou, com gesto indolente, a quitação oferecida por Luciano,
e partiu beijando a mão de Corália.
— E então, meu amor, terias visto muitos desses papeizinhos aí, se
tivesses continuado no teu buraco da Rue de Cluny a catar coisas nos livros