A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
velhos da biblioteca Sainte-Geneviève? — perguntou Corália a Luciano, que
lhe havia contado toda a sua vida. — Olha, os teus amiguinhos da Rue des
Quatre-Vents me dão a impressão de serem uns grandes basbaques!
Seus irmãos do cenáculo eram uns basbaques! E Luciano ouviu a rir essa
sentença. Havia lido o seu artigo impresso, acabava de saborear essa inefável
alegria dos escritores, esse primeiro prazer do amor-próprio que não acaricia
o espírito mais que uma única vez. Lendo e relendo o artigo, saboreava
melhor a extensão de seu alcance e poder. A letra de fôrma é para os
manuscritos o que o teatro é para as mulheres, põe em relevo as belezas e os
defeitos; tanto mata como faz viver. Um defeito salta então aos olhos tão
nitidamente como os belos pensamentos. Luciano, embriagado, nem
pensava mais em Nathan. Nathan era o seu degrau. Nadava em felicidade; via-se rico. Para um menino que outrora descia modestamente as rampas de
Beaulieu a Angoulême e voltava, no Houmeau, para o sótão de Pastel onde
toda a família vivia com duzentos francos por ano, a soma trazida por
Dauriat era o Potosi.[313] Uma lembrança bem viva ainda, mas que os gozos
contínuos da vida parisiense deveriam apagar, levou-o à Place du Mûrier.
Lembrou-se de sua bela, sua nobre irmã Eva, de seu David e de sua pobre
mãe.
Imediatamente mandou Berenice trocar uma das notas, enquanto
escrevia uma cartinha à família; depois, despachou Berenice à posta, com
receio de não poder, se se demorasse, remeter os quinhentos francos que
enviava a sua mãe.
Para ele e para Corália essa restituição parecia ser uma boa ação. A atriz
beijou Luciano, achou-o o modelo dos filhos e dos irmãos. Encheu-o de
carícias, porque rasgos como esse encantam essas boas raparigas, que têm,
todas, o coração nas mãos.
— Temos agora — disse-lhe ela — um jantar por dia durante uma
semana. Vamos fazer um pequeno carnaval; trabalhaste bastante.
Corália, como mulher que deseja gozar a beleza de um homem que todas
as outras lhe invejariam, levou-o de novo à casa de Staub. Não achava ainda
Luciano suficientemente bem-vestido. De lá, os dois amantes foram ao Bois
de Boulogne e voltaram para jantar em casa da sra. du Val-Noble, onde
Luciano encontrou Rastignac, Bixiou,[314] Des Lupeaulx, Finot, Blondet,
Vignon, o barão de Nucingen,[315] Beaudenord,[316] Felipe Bridau, Conti,
[317] o grande músico, todo o mundo dos artistas, dos especuladores, das
criaturas que querem opor grandes emoções a grandes trabalhos. Todos
acolheram maravilhosamente Luciano. Este, seguro de si, mostrou seu
espírito como se dele não fizesse comércio, e foi proclamado homem forte,
elogio que estava então em moda entre aqueles semicamaradas.
— Oh! ele ainda há de mostrar como são os seus bofes — disse Teodoro
Gaillard a um dos poetas protegidos pela Corte e que sonhava fundar um
pequeno jornal monarquista, chamado mais tarde A Alvorada.
XXVII – ESTUDO SOBRE A ARTE DE CANTAR A PALINÓDIA
Depois do jantar, os dois jornalistas acompanharam as amantes à Opéra,
onde Merlin tinha um camarote e para onde foi todo o grupo. Desse modo,
Luciano reaparecia triunfante lá onde meses antes caíra pesadamente.
Apresentou-se no saguão dando o braço a Merlin e a Blondet, encarando os
janotas que não há muito o haviam mistificado. Tinha Du Châtelet aos seus
pés! De Marsay, Vandenesse, Manerville, os leões daquela época,
conservaram ainda certos ares insolentes para com ele. Com certeza falou-se
do belo, do elegante Luciano, no camarote da sra. d’Espard, no qual
Rastignac fez demorada visita, porque a marquesa e a sra. de Bargeton
assestaram as lunetas em Corália. Excitaria Luciano algum pesar no coração
da sra. de Bargeton? Esse pensamento preocupava o poeta: ao ver a
Corina[318] de Angoulême, um desejo de vingança agitou-lhe o coração tal
como no dia em que sofrera o desprezo daquela mulher e de sua prima nos
Champs-Élysées.
— Você trouxe da província algum amuleto? — perguntou Blondet a
Luciano, entrando, alguns dias após, às onze horas, em casa deste, que não
estava ainda levantado. — Sua beleza — disse ele mostrando Luciano a
Corália e beijando-a na fronte — produz estragos da adega até as águas-
furtadas, de alto a baixo. Venho requisitá-lo, meu caro — disse apertando a
mão do poeta. — Ontem, no Italiens, a sra. condessa de Montcornet[319]
mostrou-se desejosa de que eu o apresentasse em sua casa. Você não vai
decerto recusar o convite de uma mulher encantadora, jovem, e em casa de
quem há de encontrar a nata do mundo elegante?
— Se Luciano quiser ser gentil — atalhou Corália —, não irá à casa dessa
sua condessa. Que necessidade tem ele de arrastar os pés pela alta
sociedade? Ele se entediaria lá.
— Quer conservá-lo em cárcere privado? — perguntou Blondet. — Tem
ciúmes das mulheres distintas?
— Sim — exclamou Corália —, são piores do que nós.
— Como é que você sabe disso, minha gatinha? — perguntou Blondet.
— Pelos seus maridos — respondeu ela. — Esquece que estive com De
Marsay durante seis meses?
— Acredita, minha filha — continuou Blondet —, que eu faça muita
questão de introduzir em casa da sra. de Montcornet um homem tão belo como o seu? Se você se opõe a isso, façamos como se eu nada houvesse dito.
Mas creio que se trata menos de mulheres do que de obter a paz e a
misericórdia de Luciano para um pobre-diabo, alvo das zombarias de seu
jornal. O barão du Châtelet comete a tolice de tomar a sério os artigos. A
marquesa d’Espard, a sra. de Bargeton e o salão da condessa de Montcornet
se interessam pelo Socó, e prometi reconciliar Laura e Petrarca, a sra. de
Bargeton e Luciano.
— Ah! — exclamou Luciano, cujas veias receberam ondas de sangue
novo, e que sentiu o gozo embriagador da vingança satisfeita —; tenho então
o pé sobre o ventre deles! Você faz-me adorar minha pena, adorar meus
amigos, adorar o poder fatal da imprensa! Eu nada escrevi ainda sobre a
“Espinha e o Socó”. Irei, meu pequeno — prometeu ele tomando Blondet
pela cintura —, sim, irei, mas depois que esse parzinho tenha sentido o peso
desta coisa tão leve! — Apanhou e brandiu a pena com que havia escrito o
artigo sobre Nathan. — Amanhã eu lhes lançarei à cabeça dois palmos de
coluna. Depois veremos. Não te inquietes com coisa alguma, Corália; não se
trata de amor, mas de vingança, e eu a quero completa.
— Eis um homem! — exclamou Blondet. — Se soubesses, Luciano, como
é raro encontrar uma explosão assim neste mundo embotado de Paris, tu
mesmo te apreciarias. Serás um sujeito formidável — afirmou ele servindo-se
de uma expressão um pouco mais enérgica —; estás na estrada que conduz
ao poder.
— E lá há de chegar — concluiu Corália.
— Mas já andou um bom trecho em seis semanas.
— E quando ele não estiver separado de algum cetro senão pela
distância de um cadáver, poderá fazer um degrau do corpo de Corália.
— Vocês se amam como no tempo da idade do ouro — disse Blondet. —
Minhas felicitações pelo teu grande artigo — continuou, olhando para
Luciano —; está cheio de coisas novas. Estás consagrado mestre.
Lousteau veio, com Heitor Merlin e Vernou, ver Luciano, que se sentiu
prodigiosamente lisonjeado por ser objeto de tais atenções. Feliciano
entregou cem francos a Luciano em paga de seu artigo. O jornal havia
sentido a necessidade de retribuir um trabalho tão bem-feito, a fim de ligar a
si o autor.
Corália, ao ver entrar esse capítulo de jornalistas, mandara encomendar
um almoço ao Cadran Bleu,[320] o restaurante mais próximo. Quando
Berenice lhe veio dizer que tudo estava pronto, convidou todos a passar para
a bela sala de jantar. Em meio da refeição, quando a champanha havia já
subido às cabeças, revelou-se o motivo da visita que seus camaradas faziam a
Luciano.
— Queres mesmo — perguntou Lousteau — fazer de Nathan um
inimigo? Nathan é jornalista, tem amigos, ele te pregaria uma boa peça na
tua primeira publicação. Não tens O arqueiro de Carlos ix para vender?
Vimos Nathan esta manhã, está desesperado; mas tu vais escrever um artigo
em que lhe borrifarás elogios pela cara.
— Como! depois do meu artigo contra seu livro, vocês querem... —
perguntou Luciano.
Emílio Blondet, Heitor Merlin, Estêvão Lousteau, Feliciano Vernou,
todos, enfim, interromperam Luciano com um acesso de riso.
— Tu o convidaste para cear aqui depois de amanhã! — lembrou-lhe
Blondet.
— Teu artigo — disse Lousteau — não foi assinado. Feliciano, que não é
novato como tu, não esqueceu de pôr-lhe ao pé um “C.”, com o qual poderás,
de agora em diante, assinar teus artigos em seu jornal, que é esquerda pura.
Todos nós somos da oposição. Feliciano teve a delicadeza de não
comprometer tuas futuras opiniões. Na loja de Heitor, cujo jornal é de
centro-direita, poderás assinar com um “L.”. Fica-se anônimo no ataque, mas
assina-se, e muito bem, o elogio.
— As assinaturas não me inquietam — disse Luciano —, mas não vejo o
que se possa dizer a favor do livro.
— Pensavas então aquilo que escreveste? — perguntou Heitor a Luciano.
— Sim.
— Ah! meu filho — atalhou Blondet —, eu te julgava mais forte! Não,
palavra de honra, olhando tua fronte eu te dotava de uma onipotência
semelhante à dos grandes espíritos, todos eles assaz poderosamente
constituídos a fim de serem capazes de considerar todas as coisas sob o seu
duplo aspecto. Em literatura, meu filho, todas as ideias têm direito e avesso;
ninguém pode arcar com a responsabilidade de dizer qual o avesso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As ideias são binárias. Jano é o mito da
crítica e o símbolo do talento. Triangular não há senão Deus! O que eleva
Molière e Corneille acima dos outros não é a faculdade de fazer Alceste dizer
sim e Filinto, Otávio e Cina, não?[321] Rousseau, na Nova Heloísa,[322]
escreveu uma carta a favor e outra contra o duelo; ousarias assumir a
responsabilidade de determinar qual a sua verdadeira opinião? Quem de nós
poderia pronunciar-se entre Clarissa e Lovelace, entre Heitor e Aquiles?
Qual é o herói de Homero? Qual foi a intenção de Richardson? A crítica
deve contemplar as obras sob todos os seus aspectos. Nós somos, enfim, uns
grandes enredadores.
— Você liga então importância às coisas que escreve? — perguntou-lhe
Vernou com ar de zombaria. — Mas nós somos negociantes de frases e
vivemos de nosso comércio. Quando você quiser fazer uma grande e bela
obra, um livro, enfim, poderá colocar nele os seus pensamentos, sua alma,
amá-lo, defendê-lo; mas artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, esses não
valem a meus olhos senão aquilo que por eles nos pagam. Se você dá tanta
importância a tais bobagens, fará então o sinal da cruz e invocará o Espírito
Santo para escrever um prospecto?
Pareciam todos assombrados de encontrar em Luciano tais escrúpulos, e
acabaram de rasgar-lhe a toga pretexta[323] para vestir-lhe a túnica viril dos
jornalistas.
— Sabes com que palavras Nathan se consolou depois de haver lido o teu
artigo? — perguntou Lousteau.
— Como poderia saber?
— Nathan bradou: “Os pequenos artigos passam, as grandes obras
permanecem!”. Esse homem virá cear aqui dentro de dois dias, e deverá
prosternar-se a teus pés, beijar tuas esporas e te dizer que és um grande
homem.
— Seria engraçado — admitiu Luciano.
— Engraçado? — continuou Blondet. — É necessário.
— Meus amigos, bem que o desejaria — concedeu Luciano, já um pouco
embriagado —, mas como fazer?
— Bem — respondeu Lousteau —, escreve para o jornal de Merlin três
belas colunas onde te refutes a ti mesmo. Depois de haver gozado o furor de Nathan, acabamos de lhe dizer que dentro em pouco ele nos haveria de
agradecer pela polêmica cerrada, com a ajuda da qual iríamos fazer seu livro
ser vendido em oito dias. Neste momento és, a seus olhos, um espião, um
canalha, um tolo; depois de amanhã serás um grande homem, uma cabeça
forte, um varão de Plutarco! Nathan te abraçará, considerando-te o seu
melhor amigo. Dauriat veio ver-te e tens três notas de mil francos; a peça foi
pregada. Faltam-te agora a estima e a amizade de Nathan. Somente o
livreiro deve ser apanhado. Só devemos imolar e perseguir os nossos inimigos.
Se se tratasse de um homem que tivesse conquistado nome sem o nosso
auxílio, de um talento incômodo que fosse necessário anular, não faríamos
semelhante réplica; mas Nathan é um dos nossos amigos, Blondet o fez
atacar no Mercure para dar-se o prazer de responder no Debates. Desse
modo, a primeira edição do livro se esgotou!
— Meus amigos, palavra de homem honesto, sou incapaz de escrever
duas palavras de elogio a esse livro...
— Terás mais cem francos — disse Merlin —, assim Nathan já te haverá
rendido dez luíses, sem contar um artigo que poderás escrever para o
semanário de Finot e que te será pago a cem francos por Dauriat e cem
francos pela revista. Total: vinte luíses!
— Mas que hei de dizer? — perguntou Luciano.
— Escuta aqui, de que modo podes te arranjar, meu filho — respondeu
Blondet concentrando-se. — Dirás: “A inveja, que persegue todas as belas
obras como o verme aos bons frutos, tentou morder este livro. Para conseguir
encontrar-lhe defeitos, a crítica foi obrigada a inventar teorias com o
propósito de distinguir duas literaturas: a que se entrega às ideias e a que
recorre às imagens”. Aí chegado, meu pequeno, dirás que a última perfeição
da arte literária é exprimir a ideia pela imagem. Procurando provar que a
imagem é toda a poesia, lamentarás ser tão pouca a poesia que a nossa língua
comporta. Falarás nas censuras que nos são feitas pelos estrangeiros sobre o
positivismo do nosso estilo, e louvarás Canalis e Nathan pelos serviços que
prestam à França poetizando a sua língua. Combate tua argumentação
precedente, fazendo ver que evoluímos do século xviii para cá. Inventa o
progresso! (uma admirável mistificação destinada aos burgueses). Nossa
jovem literatura procede por quadros em que se concentram todos os gêneros: a comédia e o drama, descrições, caracteres, diálogos, ligados pelos
laços brilhantes de um enredo interessante. O romance, que requer
sentimento, estilo e imagens, é a maior das criações modernas. Sucede à
comédia, que, entre os costumes modernos, não é mais possível com suas
velhas leis. Ele entrelaça o fato e a ideia num enredo que exige o espírito de
La Bruyère e sua moral incisiva, os caracteres tratados como os entendia
Molière, os grandes recursos cênicos de Shakespeare, e a pintura dos mais
delicados matizes da paixão, único tesouro que nos legaram os nossos
predecessores. Por isso, é o romance muito superior à discussão fria e
matemática, à seca análise do século xviii. O romance, dirás tu,
sentenciosamente, é uma epopeia divertida. Cita Corina, apoia-te na
Madame de Staël. O século xviii pôs em equação todos os assuntos; o século
xix , encarregado de tirar as conclusões, optou pelas realidades, porém
realidades que vivem e andam; ele põe, enfim, em jogo a paixão, elemento
desconhecido de Voltaire. Cabe aí uma tirada contra Voltaire. Quanto a
Rousseau, não fez senão vestir raciocínios e sistemas. Júlia e Clara são
enteléquias,[324] não têm carne nem ossos. Podes insistir nesse tema e dizer
que devemos à paz, aos Bourbon, uma literatura moça e original, pois estarás
escrevendo para um jornal do centro-direita. Zomba dos fazedores de
sistemas. Podes enfim bradar num belo movimento: “Quantos erros aí estão,
quantas mentiras, no artigo do nosso confrade! E para quê? Para depreciar
uma bela obra, para enganar o público e chegar a esta conclusão: um livro
que se vende, não se vende. Proh pudor![325] Brada Proh pudor! Essa
honesta exclamação servirá para animar o leitor. Anuncia, finalmente, a
decadência da crítica. Conclusão: existe uma única literatura, a dos livros
interessantes. Nathan segue por uma estrada nova; compreendeu a sua
época e corresponde às suas necessidades. A necessidade da nossa época é o
drama. O drama é a aspiração de um século no qual a política é uma
tragicomédia perpétua. Não vimos nós em vinte anos, perguntarás, os quatro
dramas da Revolução, do Diretório, do Império e da Restauração? Desse
ponto em diante, descambarás pelo ditirambo do elogio, e a segunda edição
voará. Ouve de que maneira! Sábado próximo encherás uma página do nosso
semanário e assinarás de rubempré com todas as letras. Nesse último artigo,
dirás: “É próprio das belas obras levantar amplas discussões. Nesta semana, tal jornal disse tal coisa do livro de Nathan, e tal outro deu-lhe uma vigorosa
resposta”. Criticarás a ambos os críticos — C. e L. —; dirás, de passagem, duas
palavras polidas a meu respeito, a propósito do primeiro artigo que escrevi no
Debates, e terminarás afirmando que o livro de Nathan é o mais belo da
época. É como se nada dissesses, porque isso se diz de todos os livros. Terás
ganhado quatrocentos francos nesta semana, além do prazer de haver
escrito a verdade nalgum lugar. As pessoas sensatas hão de dar razão a C. ou
a L. ou a Rubempré, ou, talvez, a todos os três! A mitologia, que é uma das
maiores invenções humanas, colocou a verdade no fundo de um poço; para
a tirar não são precisos baldes? Terás fornecido três, em vez de um, ao
público. Aí está, meu filho. Vamos! — Luciano estava aturdido. Blondet
beijou-o nas duas faces, dizendo:
— Vou para a minha loja.
Cada qual foi para a sua loja. Para aqueles homens fortes, o jornal não
passava de uma loja. Todos deveriam tornar a encontrar-se à noite nas
Galeries de Bois, onde Luciano iria assinar o contrato com Dauriat. Florina e
Lousteau, Luciano e Corália, Blondet e Finot jantavam no Palais-Royal, onde
Du Bruel banqueteava o diretor do Panorama-Dramatique.
— Eles têm razão! — exclamou Luciano, quando ficou a sós com Corália
—; os homens devem ser instrumentos nas mãos dos seres fortes.
Quatrocentos francos por três artigos! Doguereau mos daria, depois de
muito regatear, por um livro que me custou dois anos de trabalho.
— Faze crítica — disse Corália —, diverte-te! Não serei esta noite uma
andaluza? Amanhã não me transformarei em cigana e no dia seguinte em
homem? Faze como eu, dá-lhes caretas pelo seu dinheiro, e vivamos felizes!
Luciano, seduzido pelo paradoxo, fez com que seu espírito montasse
essa caprichosa mula, filha de Pégaso e da burra de Balaão. Pôs-se a galopar
pelos campos do pensamento, durante o passeio pelo bosque, e descobriu
belezas originais na tese de Blondet. Jantou como costumam jantar as
criaturas felizes. Assinou em casa de Dauriat um contrato mediante o qual
lhe cedia a plena propriedade do manuscrito das Boninas, sem ver nisso
qualquer inconveniente. Foi em seguida dar uma volta até o jornal, onde
rabiscou duas colunas, e voltou para a Rue de Vendôme. No dia seguinte
pela manhã sentiu que as ideias da véspera haviam germinado em seu cérebro, como acontece com todas as inteligências cheias de seiva cujas
faculdades tenham sido pouco usadas. Sentiu prazer em meditar o novo
artigo e atirou-se a ele com ardor. Sob sua pena surgiram as belezas que a
contradição faz nascer. Foi espirituoso e zombeteiro, abalançou-se mesmo a
novas considerações sobre o sentimento e a imagem na literatura. Engenhoso
e fino, encontrou, para fazer o elogio de Nathan, suas primeiras impressões
da leitura do livro no gabinete literário no pátio do Comércio. De
contundente e áspero crítico, de satírico, tornou-se poeta nas frases finais
que se balançaram majestosamente como um incensório carregado de
perfumes se balança frente ao altar.
— Cem francos, Corália! — lembrou ele, mostrando as oito tiras de papel
escritas enquanto ela se vestia.
Na boa disposição em que estava, escreveu logo em duas penadas o
terrível artigo, prometido a Blondet, contra Du Châtelet e a sra. de Bargeton.
Gozou naquela manhã um dos mais vivos prazeres íntimos do jornalista: o de
aguçar um epigrama, polir-lhe a lâmina fria que há de ter por bainha o
coração da vítima, deixando o cabo esculpido para os leitores. O público
admira o trabalho artístico do punhal, não compreende a malícia, ignora que
o aço da frase espirituosa, corrompido pela vingança, mergulha num amor-
próprio alvejado com requinte, ferido por mil golpes. Este horrível prazer,
sombrio e solitário, degustado sem testemunhas, é como um duelo com um
ausente, ferido a distância com a haste de uma pena, como se o jornalista
possuísse o poder fantástico concedido aos desejos daqueles que, nos contos
árabes, possuem talismãs. O epigrama é a inteligência do ódio, do ódio que é
herdeiro de todas as más paixões do homem, tal como o amor concentra
todas as suas boas qualidades. Aliás, não há um só homem que não se julgue
inteligente quando se vinga, pela mesma razão por que não há um só a quem
o amor não proporcione gozos.
Apesar da facilidade, da vulgaridade dessa espécie de espírito na
França, ele é sempre bem acolhido. O artigo de Luciano deveria elevar, e
elevou, ao auge a reputação de malícia e de maldade do jornal. Penetrou até
o âmago de dois corações, feriu profundamente a sra. de Bargeton, sua ex-
Laura, e o barão Du Châtelet, seu rival.
— Bem, vamos dar um passeio pelo bosque, os cavalos estão atrelados e se impacientam — disse-lhe Corália —; não é preciso a gente se matar.
— Levemos o artigo sobre Nathan à casa de Heitor. Decididamente, o
jornal é como a lança de Aquiles, que curava as feridas que havia feito —
disse Luciano corrigindo uma ou outra frase.
Os amantes partiram e se mostraram em seu esplendor a essa Paris que,
havia pouco, renegara Luciano e agora começava a dar-lhe atenção.
Ocupar a atenção de Paris, quando se compreende a imensa extensão
da cidade e o quanto é difícil ser nela alguma coisa, causa embriagadoras
alegrias, que embebedaram Luciano.
— Meu coração — disse a atriz —, passemos pelo teu alfaiate para
apressar teus trajes ou experimentá-los, se estiverem prontos. Se tens de ir à
casa de tuas belas damas, quero que seja para fazer desaparecer esse
monstro de De Marsay, o pequeno Rastignac, os Vandenesse,[326] os
D’Ajuda-Pinto,[327] os Máximo de Trailles,[328] todos os elegantes enfim.
Lembra-te de que tua amante é Corália! Mas não me pregues peça alguma,
hem?
XXVIII – GRANDEZAS E MISÉRIAS DO JORNAL
Dois dias depois, na véspera do jantar oferecido por Luciano e Corália a seus
amigos, o Ambigu levava uma nova peça cuja crítica deveria ser feita por
Luciano. Depois do jantar, Luciano e Corália foram a pé da Rue de
Vendôme ao Panorama-Dramatique, pelo Boulevard du Temple, pelo lado
do Café Turco que, nesse tempo, era um lugar de passeio em voga. Luciano
ouviu elogiar a beleza da amante e a sua felicidade. Diziam uns que Corália
era a mais bela mulher de Paris, outros achavam que Luciano era digno dela.
O poeta sentia-se em seu clima. Aquela vida era a sua vida. Mal se recordava
do cenáculo. Perguntava-se agora se aqueles grandes espíritos, que tanto
admirava dois meses atrás, não seriam um pouco ingênuos nas suas ideias e
no seu puritanismo. A palavra “basbaques”, dita ao acaso por Corália, havia
germinado no espírito de Luciano e já começava a dar frutos. Levou Corália
ao camarim, flanou pelos bastidores do teatro, onde passeava como um
sultão, onde todas as atrizes o acariciavam com olhares ardentes ou palavras
lisonjeiras.
“É preciso que eu vá ao Ambigu cumprir minha obrigação”, pensou ele.
A sala estava cheia, no Ambigu. Não havia lugar para Luciano, que foi aos
bastidores e queixou-se amargamente por não ter lugar. O administrador,
que não o conhecia ainda, respondeu que haviam enviado dois camarotes ao
seu jornal, e o mandou passear.
— Falarei da peça segundo o que tiver ouvido — disse Luciano com ar
irritado.
— Mas você está louco? — perguntou a jovem première ao
administrador. — É o amante de Corália!
Imediatamente o administrador voltou-se para Luciano e lhe disse:
— Um momentinho, senhor, vou falar com o diretor.
E, assim, até os menores detalhes provavam a Luciano o poder imenso
do jornal e afagavam sua vaidade. O diretor apareceu e obteve do duque de
Rhétoré e de Túlia, a primeira atriz, e que se achavam num camarote do
proscênio, que aceitassem Luciano na sua companhia. O duque consentiu
ao reconhecer Luciano.
— O senhor lançou duas pessoas ao desespero — disse-lhe o moço
referindo-se ao barão du Châtelet e à sra. de Bargeton.
— Que acontecerá então amanhã? — perguntou Luciano. — Até agora
meus amigos se lançaram contra eles como fuzileiros; mas eu atiro com
artilharia esta noite. Amanhã, verá por que zombamos de Potelet. O artigo se
intitula: “Potelet de 1811 a Potelet de 1821”. Du Châtelet será o tipo das
criaturas que renegaram seu benfeitor, ao se ligarem aos Bourbon. Depois de
haver feito sentir tudo o que posso, irei à casa da sra. de Montcornet.
E entabulou com o jovem duque uma palestra cintilante de inteligência.
Estava ansioso de provar àquele aristocrata o quanto as sras. d’Espard e de
Bargeton se haviam grosseiramente enganado ao desprezá-lo. Mostrou,
porém, a ponta da orelha ao tentar estabelecer seus direitos ao uso do nome
de Rubempré, quando, por malícia, o duque de Rhétoré o chamou Chardon.
— O senhor deveria — disse-lhe o duque — fazer-se monarquista.
Mostrou-se homem de inteligência; mostre-se agora homem de bom senso. A
única maneira de obter um decreto real que lhe devolva o título e nome de
seus ancestrais maternos é solicitá-los como recompensa a serviços prestados
ao palácio. Os liberais não o poderão fazer conde nunca! Olhe, a Restauração acabará por dominar a imprensa, único poder a que teme. Já se
esperou demais; ela deveria estar amordaçada. Aproveite os seus últimos
momentos de liberdade para se tornar temido. Dentro de alguns anos, um
nome e um título serão, na França, riquezas mais seguras que o talento.
Poderá assim possuir tudo: nobreza, inteligência e beleza. Chegará aonde
quiser. Não seja, pois, liberal neste momento senão para vender com
vantagem o seu monarquismo.
O duque pediu a Luciano que aceitasse o convite para jantar, que lhe
deveria ser enviado pelo ministro com quem havia ceado em casa de Florina.
Luciano sentiu-se num instante seduzido pelas reflexões do gentil-homem,
e encantado por ver se abrirem à sua frente as portas dos salões de onde,
poucos meses antes, se acreditara banido para sempre. Admirou o poder do
pensamento. A imprensa e a inteligência eram então a alavanca da
sociedade presente.
Luciano compreendeu que talvez Lousteau se arrependesse de lhe
haver aberto as portas do Templo; sentia já, por sua própria conta, a
necessidade de opor barreiras difíceis de franquear às ambições daqueles que
se lançavam da província à conquista de Paris. Se um poeta viesse a ele
agora, como ele se havia atirado aos braços de Estêvão, não ousava
perguntar-se que acolhimento lhe faria. O jovem duque percebeu em
Luciano os indícios de uma profunda meditação e não se enganou ao
procurar-lhe a causa: havia descerrado àquele ambicioso, sem vontade fixa,
mas não sem desejo, todo o horizonte político, tal como os jornalistas lhe
haviam mostrado, do alto do templo, como o demônio a Jesus, o mundo
literário e as suas riquezas.
Luciano ignorava a pequena conspiração urdida contra ele pelas pessoas
a quem nesse momento o jornal feria, e da qual Rhétoré era cúmplice. O
jovem duque havia assombrado a sociedade da sra. d’Espard falando-lhes na
inteligência de Luciano. Encarregado pela sra. de Bargeton de sondar o
jornalista, esperava encontrá-lo no Ambigu-Comique. Nem a sociedade nem
os jornalistas eram profundos; não acrediteis em traições premeditadamente
urdidas. Nem uns nem outros forjavam planos; seu maquiavelismo, por
assim dizer, seguia ao sabor das circunstâncias e consistia em estar sempre
prontos para tudo, prontos a se aproveitar tanto do mal como do bem, à espreita do momento em que a paixão lhes entregasse um homem. Durante
o jantar de Florina, o jovem duque se permitira estudar o caráter de Luciano
e acabava de prendê-lo pela vaidade, ensaiando-se sobre ele em sua futura
profissão de diplomata. Terminada a peça, Luciano correu à Rue Saint-
Fiacre para ali escrever a sua nota. A crítica foi, por cálculo, áspera e
mordente. Divertiu-se a experimentar o seu poder. O melodrama valia mais
que o do Panorama-Dramatique; mas queria saber se poderia, como lhe
haviam dito, matar uma boa peça e fazer triunfar uma má. No dia seguinte,
almoçando com Corália, desdobrou o jornal, depois de lhe haver dito que
desancava o Ambigu-Comique. Não foi pequeno o assombro de Luciano ao
ler, depois do seu artigo sobre a sra. de Bargeton e Du Châtelet, a crítica
sobre a peça do Ambigu tão bem suavizada durante a noite que,
conservando-lhe a análise espirituosa, chegava a uma conclusão favorável. A
peça deveria encher o caixa do teatro. Não se pode descrever o seu furor;
decidiu logo dizer duas palavras a Lousteau. Acreditava-se já necessário, e a
si mesmo prometeu que não se deixaria dominar, explorar como um tolo.
Para estabelecer definitivamente o seu poder, escreveu o artigo em que
resumia e dava balanço a todas as opiniões emitidas sobre o livro de Nathan
para o semanário de Dauriat e Finot. Depois, já que estava com a mão na
massa, escreveu um de seus artigos de variedades para o pequeno jornal. Na
primeira efervescência, os jovens jornalistas lançam os artigos com amor,
entregando assim, imprudentemente, todas as suas flores. O diretor do
Panorama-Dramatique dava a primeira representação de um vaudeville, a
fim de deixar a Florina e a Corália sua noite de descanso. A representação
devia realizar-se antes da ceia. Lousteau veio buscar o artigo de Luciano,
feito de antemão, sobre a pequena peça da qual assistira ao ensaio geral, a
fim de não dificultar a composição do número subsequente do jornal.
Após ouvir Luciano ler um desses pequenos e encantadores artigos sobre
as peculiaridades da vida parisiense, que fizeram a popularidade da folha,
Estêvão beijou-o nos dois olhos e o chamou de providência dos jornais.
— Por que então te divertes a mudar o espírito de meus artigos? —
perguntou Luciano, que havia feito aquele tópico brilhante só para dar mais
força a suas queixas.
— Eu! — exclamou Lousteau.
— Claro, quem alterou então a minha crônica?
— Meu caro — respondeu Estêvão, rindo —, não estás ainda a par dos
negócios. O Ambigu nos toma vinte assinaturas, das quais apenas nove são
entregues ao diretor, ao chefe da orquestra, ao administrador, às suas
amantes, e a três coproprietários do teatro. Cada um dos teatros do bulevar
paga assim oitocentos francos ao jornal. Há igual quantia em camarotes
dados a Finot, sem contar as assinaturas dos atores e autores. O patife ganha
pois oito mil francos no bulevar. Pelos pequenos teatros, julga o que será com
os grandes! Compreendes? Somos obrigados a muita indulgência.
— Compreendo é que não tenho a liberdade de escrever o que penso...
— E isso o que te importa, desde que caves o teu milho? — perguntou
Lousteau. — Além disso, meu caro, que queixa tens do teatro? É preciso que
tenhas uma razão para desancar a peça de ontem. Desancando só por
desancar, comprometeríamos o jornal. Quando atacasse com justiça, não
produziria mais efeito algum. O diretor portou-se mal contigo?
— Não me reservou lugar.
— Bom — disse Lousteau. — Mostrarei teu artigo ao diretor, e direi que te
amansei; será ainda melhor para ti do que se tivesse sido publicado. Pede-
lhe entradas amanhã, ele te dará quarenta em branco todos os meses, e eu te
levarei à casa de uma pessoa com quem combinarás a colocação delas. Ser-
te-ão adquiridas com cinquenta por cento de desconto sobre o preço
marcado. Faz-se com as entradas de espetáculo o mesmo negócio que com
os livros. Verás um outro Barbet, um chefe de claque. Não mora longe daqui;
temos tempo. Vem.
— Mas, meu caro, Finot tem um ofício infame, lançando assim
contribuições indiretas sobre o campo do pensamento. Mais cedo ou mais
tarde...
— Ora essa! De onde é que tu vens? — exclamou Lousteau. — Por quem
tomas Finot? Sob a sua falsa bonomia, sob aquele ar de Turcaret,[329] sob a
sua ignorância e estupidez, esconde toda a argúcia do negociante de
chapéus de quem descende. Não viste na sua gaiola, no escritório do jornal, o
velho soldado do Império, tio de Finot? O tal tio não é só um homem
honrado; tem ainda a felicidade de passar por tolo. É o homem
comprometido em todas as transações pecuniárias. Em Paris, qualquer ambicioso é rico quando tem junto de si uma criatura que consente em ser
comprometida. Há na política, como no jornalismo, um sem-número de
casos em que os chefes nunca devem ser envolvidos. Se Finot se tornasse um
personagem político, o tio passaria a seu secretário e receberia por sua conta
as contribuições que se lançam aos grandes negócios. Giroudeau, que à
primeira vista se toma por um tolo, tem bastante finura para ser um
comparsa indecifrável. Está de sentinela para evitar que sejamos agredidos
pela gritaria, pelos estreantes e pelas reclamações. E não creio que haja igual
em outro jornal.
— Representa bem o seu papel — afirmou Luciano —; já o vi em cena.
XXIX – O BANQUEIRO DOS AUTORES DRAMÁTICOS
Estêvão e Luciano dirigiram-se à Rue du Faubourg-du-Temple, onde o
redator chefe parou diante de uma casa de bela aparência.
— O sr. Braulard está? — perguntou ao porteiro.
— Como! Senhor? — estranhou Luciano. — O chefe da claque é então
um senhor?
— Meu caro, Braulard tem vinte mil libras de renda, tem a chancela dos
autores dramáticos do bulevar, que têm, todos, conta corrente em sua casa,
como num banco. As entradas de autor e de favor se vendem. E desse
negócio é Braulard quem se encarrega. Faze um pouco de estatística, ciência
muito útil quando dela não se abusa: a cinquenta entradas de favor, por
noite, em cada espetáculo, encontrarás duzentos e cinquenta entradas por
dia; se, umas pelas outras, valem quarenta sous, Braulard paga cento e vinte
e cinco francos por dia aos autores e tem a probabilidade de ganhar outro
tanto. Desse modo somente as entradas dos autores lhe proporcionam perto
de quatro mil francos por mês, num total de quarenta e oito mil francos por
ano. Supõe vinte mil francos de perdas, porque nem sempre consegue
colocar todas as entradas.
— Por quê?
— Ah! as pessoas que pagam suas entradas na bilheteria fazem
concorrência aos portadores de entradas de favor, pois estas não têm lugares
reservados. Enfim, o teatro conserva os seus direitos de locação. Há os dias de bom tempo e de maus espetáculos. Braulard ganha, assim, talvez trinta
mil francos por ano, com este ramo de comércio. Depois, tem a sua claque,
outra indústria. Florina e Corália são suas tributárias; se não o
subvencionassem, não seriam aplaudidas em todas as entradas e saídas.
Lousteau dava essas explicações em voz baixa, enquanto subiam a
escada.
— Paris é um lugar bem singular — disse Luciano, que começava a ver o
interesse escondido em cada canto.
Uma criada muito limpa introduziu os dois jornalistas no gabinete do sr.
Braulard. O negociante de entradas, que estava sentado numa cadeira
giratória diante de uma grande secretária cilíndrica, levantou-se ao ver
Lousteau. Braulard, envolto numa sobrecasaca de alpaca parda, usava calças
de presilha e chinelos vermelhos, exatamente como um médico ou um
advogado.
Luciano nele reconheceu o homem do povo enriquecido: rosto comum,
olhos cinzentos cheios de esperteza, mãos de claqueur, uma tez pela qual as
orgias haviam passado como a chuva sobre os telhados, cabelos grisalhos e
voz abafada.
— Vem, sem dúvida, pela srta. Florina, e o senhor pela srta. Corália —
disse ele —, conheço-os bem. Fique tranquilo, senhor — disse a Luciano —,
compro a clientela do Gymnase; cuidarei de sua amante e adverti-la-ei das
peças que lhe quiserem pregar.
— Isto não é coisa que se recuse, meu caro Braulard — respondeu
Lousteau —, mas desta vez aqui estamos pelas entradas do jornal em todos
os teatros dos bulevares: eu, como redator chefe, e este senhor, como redator
de cada teatro.
— Ah! sim, Finot vendeu o jornal. Soube do negócio. Finot vai bem.
Ofereço-lhe um jantar no fim desta semana. Se os senhores me quiserem dar
a honra e a satisfação de comparecer, poderão vir com as suas esposas,
haverá núpcias e festins. Teremos Adèle Dupuis, Ducange, Frédéric
Dupetit-Méré, e a srta. Millot, minha amante.[330] Riremos muito!
Beberemos ainda mais!
— Ducange deve estar aborrecido, perdeu o processo.
— Emprestei-lhe dez mil francos. O sucesso de Calas mos vai restituir. Também, de que modo o animei! Ducange é homem inteligente, tem
recursos...
Luciano julgava sonhar ouvindo aquele tipo a julgar o talento dos
escritores.
— Corália ganhou — disse-lhe Braulard num tom de juiz competente. —
Se se mostrar boa menina, hei de ampará-la secretamente contra a cabala,
na sua estreia no Gymnase. Escutem! Para ela, colocarei homens bem-
vestidos nas galerias, que hão de sorrir e lançar pequenas exclamações a fim
de animar os aplausos. É um manejo que agrada às atrizes. Gosto de Corália,
e o senhor deve estar contente com ela. A pequena tem coração. Ah! posso
fazer cair quem eu quiser...
— Mas arranjemos primeiro o negócio das entradas — interrompeu
Lousteau.
— Muito bem, irei buscá-las à sua casa, senhor, nos primeiros dias de
cada mês. Este senhor é seu amigo, tratá-lo-ei do mesmo modo. Tem cinco
teatros, hão de lhe dar trinta entradas. Será qualquer coisa assim como
setenta e cinco francos por mês. Desejam talvez algum adiantamento? —
perguntou o negociante de entradas, voltando à secretária e pegando uma
caixa cheia de escudos.
— Não, não — atalhou Lousteau —, guardaremos esse recurso para os
maus dias...
— Senhor — continuou Braulard, dirigindo-se a Luciano —, irei trabalhar
com Corália por estes dias, e nos entenderemos.
Luciano olhava com profundo espanto o gabinete de Braulard, onde via
uma biblioteca, algumas gravuras e mobiliário adequado. Ao passar pela sala,
notou a mobília que, como a do gabinete, distava tanto da mesquinharia
como do luxo excessivo. A sala de jantar pareceu-lhe a peça mais bem posta.
Gracejou a respeito.
— Mas Braulard é um gastrônomo — explicou Lousteau. — Seus jantares,
citados na literatura dramática, estão em harmonia com o seu cofre.
— Tenho bons vinhos — respondeu modestamente Braulard. — Vamos,
aí estão meus acendedores de entusiasmo — exclamou ele, ouvindo vozes
roucas e o ruído de estranhos passos na escada.
Ao sair, Luciano viu desfilar diante dele a malcheirosa malta dos claqueurs e vendedores de entradas, todos de bonés à cabeça, calças usadas,
sobrecasacas puídas, de caras patibulares, azuladas, esverdinhadas, sujas,
macilentas, de longas barbas e de olhos ferozes e hipócritas ao mesmo
tempo; população horrível que vive e pulula nos bulevares de Paris, que,
pela manhã, vende correntes de segurança, joias “de ouro” a vinte e cinco
sous, e que à noite bate palmas sob os lustres; que se dobra, enfim, a todas as
baixas necessidades de Paris.
— Eis aí os romanos! — disse Lousteau rindo. — Eis a glória dos artistas e
dos autores dramáticos! Vista de perto, não é mais bela que a nossa.
— É difícil — respondeu Luciano, enquanto voltavam para casa — ter
ilusões sobre o que quer que seja, em Paris. Há impostos aqui sobre tudo.
Tudo aqui se vende, tudo aqui se fabrica, até mesmo o êxito.
XXX – O BATISMO DO JORNALISTA
Os convivas de Luciano eram Dauriat, o diretor do Panorama, Matifat e
Florina, Camusot, Lousteau, Finot, Nathan, Heitor Merlin e a sra. du Val-
Noble, Feliciano Vernou, Blondet, Vignon, Felipe Bridau, Marieta,
Giroudeau, Cardot e Florentina, Bixiou. Convidara também os amigos do
cenáculo. Túlia, a bailarina, que, segundo se dizia, não era nada indiferente
a Du Bruel, também foi à festa, mas sem o seu duque, assim como os
proprietários dos jornais onde trabalhavam Nathan, Merlin, Vignon e
Vernou.
Formavam uma assembleia de trinta pessoas; a sala de jantar de Corália
não comportava maior número. Às oito horas, à luz dos lustres acesos, os
móveis, os reposteiros, as flores daquele aposento apresentavam esse ar de
festa que dá ao luxo parisiense a aparência de um sonho. Luciano sentiu
indescritível sentimento de felicidade, de vaidade satisfeita e de esperança,
vendo-se senhor daqueles domínios. Não sabia explicar a si mesmo como,
nem por quem, fora desferido aquele golpe de varinha de condão. Florina e
Corália, vestidas com o apurado gosto artístico e a louca magnificência das
atrizes, sorriam ao poeta da província como dois anjos encarregados de lhe
abrirem as portas do palácio dos sonhos. Luciano como que sonhava. Em
poucos meses sua vida havia mudado tão bruscamente de aspecto, tão rapidamente havia passado da extrema miséria à extrema opulência, que em
certos instantes era tomado de inquietações, tal como as pessoas que,
sonhando, sabem que estão dormindo. Seus olhos exprimiam, entretanto, à
vista da bela realidade, uma confiança a que os invejosos teriam dado o
nome de fatuidade. Ele próprio mudara. Diuturnamente feliz, suas cores
haviam empalidecido, e tinha o olhar embebido de úmida languidez. Enfim,
segundo palavras da sra. d’Espard, tinha ares de ser amado. Sua beleza
ganhara com isso. A consciência do seu poder e de sua força transparecia de
sua fisionomia iluminada pelo amor e pela experiência.
Contemplava enfim face a face o mundo literário e a sociedade,
contando poder percorrer a ambos como um dominador. A esse poeta, que
só podia refletir sob o peso da desgraça, o presente parecia sem cuidados. O
triunfo inflava as velas de seu barco; tinha às suas ordens os instrumentos
necessários a seus projetos: uma casa montada, uma amante que toda a
Paris lhe invejava, carruagem, e, enfim, somas incalculáveis ao dispor de sua
pena. Sua alma, seu coração e sua inteligência haviam-se igualmente
metamorfoseado: não pensava mais em discutir os meios diante de tão belos
resultados. Tal padrão de vida parecerá tão justamente suspeito às pessoas
econômicas, com prática da vida parisiense, que não será inútil mostrar em
que bases, embora frágeis, repousava a felicidade material da atriz e do seu
poeta. Sem se comprometer, Camusot fizera com que os fornecedores de
Corália lhe concedessem crédito por três meses ao menos. Cavalos, criados,
tudo deveria pois continuar como por encanto ao dispor daquelas duas
crianças ávidas de gozos e que de tudo gozavam com delícia. Corália veio
tomar Luciano pela mão e apresentou-lhe aquele espetáculo teatral da sala
de jantar ornamentada de esplêndida baixela e de candelabros carregados
com quarenta velas, contando-lhe os régios requintes do cardápio e das
sobremesas, obra de Chevet.[331] Luciano beijou Corália na fronte,
apertando-a contra o coração.
— Hei de triunfar, minha adorada — disse-lhe —, para te recompensar
tanto amor e tanto devotamento.
— Bah! — fez ela. — Estás contente?
— Seria bem exigente se não o estivesse.
— Pois bem, esse sorriso tudo paga — respondeu ela levando, com um movimento elástico de serpente, seus lábios aos lábios de Luciano.
Encontraram Florina, Lousteau, Matifat e Camusot a arrumar as mesas
de jogo. Os amigos de Luciano iam chegando, pois que toda aquela gente se
intitulava já amiga de Luciano.
Das nove à meia-noite jogou-se. Felizmente para ele, Luciano não
conhecia jogo algum; Lousteau, porém, perdeu mil francos e os pediu
emprestado a Luciano, que julgou não poder recusar-se à solicitação. Era o
amigo que lhos pedia. Pelas dez horas, mais ou menos, Miguel, Fulgêncio e
José se apresentaram a Luciano, que os reuniu a um canto para conversar.
Achou suas fisionomias muito frias e sérias, para não dizer contrafeitas.
D’Arthez não pudera vir; estava a terminar seu livro. Leão Giraud ocupava-
se com a publicação do primeiro número de sua revista. O cenáculo enviara
seus três artistas que decerto se encontrariam menos constrangidos que os
outros no cenário de uma orgia.
— E então, meus filhos — disse Luciano, ostentando um tonzinho de
superioridade —, vocês vão ver que o pequeno farsante pode vir a ser um
grande político.
— Nada mais desejo do que me haver enganado — respondeu Miguel.
— Vives com Corália esperando coisa melhor? — perguntou Fulgêncio.
— Sim — respondeu Luciano num tom que desejava tornar ingênuo. —
Corália tinha um pobre velho negociante que a adorava, e o pôs na rua. Sou
mais feliz que teu irmão Felipe, que não sabe como governar Marieta —
continuou ele olhando para José Bridau.
— Enfim — disse Fulgêncio —, és agora um homem como os outros.
Abrirás teu próprio caminho.
— Um homem que para vocês continuará sempre o mesmo, em qualquer
situação que se encontre — respondeu Luciano.
Miguel e Fulgêncio entreolharam-se trocando um sorriso zombeteiro que
Luciano percebeu e que lhe fez compreender o ridículo da frase.
— Corália é admiravelmente linda — exclamou José Bridau. — Que
magnífico retrato a fazer!
— E boa — acrescentou Luciano. — Palavra, é angélica; farás, sim, o seu
retrato. Poderás tomá-la por modelo, se quiseres, para a tua veneziana
levada ao senador por uma alcoviteira.
— Todas as mulheres que amam são angélicas — sentenciou Miguel
Chrestien.
Naquele instante Raul Nathan precipitou-se para Luciano com amizade
furiosa, tomou-lhe as mãos e as apertou:
— Meu bom amigo, não somente é um grande homem, mas ainda tem
coração, o que hoje em dia é mais raro que o gênio — disse ele. — É devotado
a seus amigos. Enfim, estarei sempre ao seu dispor, para a vida e para a
morte; nunca hei de esquecer o que fez por mim esta semana.
Luciano, no auge da alegria por se ver lisonjeado por um homem de
tanto renome, olhou para os amigos do cenáculo com certa superioridade.
Aquela entrada de Nathan era devida à comunicação que Merlin lhe fizera
da prova do artigo a favor de seu livro, e que apareceria no jornal do dia
seguinte.
— Não consenti em escrever o ataque — respondeu Luciano ao ouvido
de Nathan — senão sob a condição de o responder eu mesmo. Sou dos seus.
Voltou de novo para os três amigos do cenáculo, encantado com uma
circunstância que justificava a frase da qual Fulgêncio havia rido.
— Vai aparecer o livro de D’Arthez, e estou em condições de lhe ser útil.
Só esta oportunidade me obrigaria a continuar nos jornais.
— E és livre como jornalista? — perguntou Miguel.
— Tanto quanto se pode ser quando se é indispensável — respondeu
Luciano com falsa modéstia.
À meia-noite os convivas foram para a mesa e a orgia teve início. As
palestras foram mais livres em casa de Luciano do que na de Matifat, porque
ninguém suspeitava da divergência de sentimentos que havia entre os três
deputados do cenáculo e os representantes dos jornais. Aqueles jovens
espíritos, depravados pelo hábito do pró e do contra, travaram batalha e
trocaram os mais terríveis axiomas da jurisprudência que o jornalismo
começava então a dar à luz.
Cláudio Vignon, que desejava conservar-se à crítica um caráter augusto,
levantou-se contra a tendência dos pequenos jornais para o terreno pessoal,
afirmando que não tardava já o dia em que os escritores haveriam de chegar
a se desconsiderar a si próprios. Lousteau, Merlin e Finot tomaram então
abertamente a defesa desse sistema, chamado na gíria do jornalismo de
blague, sustentando que isso seria como um punção com o qual se haveria
de marcar o talento.
— Todos os que resistirem a semelhante prova serão homens realmente
fortes — afirmou Lousteau.
— Aliás — exclamou Merlin —, com o coro de elogios aos grandes
homens, é preciso também em torno deles, como sucedia junto aos
triunfadores romanos, um concerto de injúrias.
— Ah! então — respondeu Luciano —, todos aqueles de quem se zombar
acreditarão em seu triunfo!
— Dir-se-ia que isso te afeta! — exclamou Finot.
— E os nossos sonetos? — perguntou Miguel Chrestien. — Não nos
valeriam o triunfo de Petrarca?
— Laura já apareceu por aí — disse Dauriat, cujo trocadilho[332]
despertou aclamações gerais.
— Faciamus experimentum in anima vili[333] — respondeu Luciano,
sorrindo.
— E ai daqueles a quem o jornal não discutir e a quem atirar coroas logo
na estreia! Esses hão de ficar relegados como os santos nos seus nichos, e
ninguém lhes há de prestar a menor atenção — concluiu Vernou.
— A esses se dirá como Champcenetz[334] ao marquês de Genlis, que
lhe olhava amorosamente para a mulher: “Passe adiante, amigo, pois já
recebeu seu quinhão” — acrescentou Blondet.
— Em França, o êxito mata — afirmou Finot. — Somos muito invejosos
uns dos outros para não querer esquecer e fazer com que sejam esquecidos
os triunfos alheios.
— Efetivamente, na literatura, a contradição é a vida — afirmou Cláudio
Vignon.
— Como na própria natureza, onde ela resulta de dois princípios que se
combatem — exclamou Fulgêncio —; o triunfo de um sobre o outro é a
morte.
— Como na política — acrescentou Miguel Chrestien.
— Acabamos de prová-lo — disse Lousteau. — Dauriat venderá esta
semana dois mil exemplares do livro de Nathan. Por quê? Só porque o livro
atacado vai ser bem defendido.
— Como é que um artigo como este — disse Merlin tomando a prova do
seu jornal do dia seguinte — não haveria de fazer esgotar uma edição?
— Leia-me o artigo — pediu Dauriat. — Sou livreiro em toda parte, até
mesmo ceando.
Merlin leu o triunfante artigo de Luciano, que foi aplaudido por toda a
assembleia.
— Este artigo poderia ter sido escrito se não existisse o primeiro? —
perguntou Lousteau.
Dauriat por sua vez tirou do bolso a prova do terceiro artigo e o leu. Finot
seguiu com atenção a leitura desse artigo destinado ao segundo número do
semanário, e, na sua qualidade de redator chefe, exagerou seu entusiasmo.
— Senhores — disse ele —, se Bossuet[335] vivesse em nosso século, não
teria escrito outra coisa.
— Acredito — respondeu Merlin —; Bossuet, em nossa época, seria
jornalista.
— A Bossuet ii! — disse Cláudio Vignon erguendo a taça e saudando
Luciano ironicamente.
— Ao meu Cristóvão Colombo! — respondeu Luciano levantando um
brinde a Dauriat.
— Bravo! — gritou Nathan.
— É um apelido? — perguntou Merlin maldosamente, olhando ao
mesmo tempo para Finot e para Luciano.
— Se continuarem assim — disse Dauriat —, não os poderemos seguir, e
estes senhores — acrescentou mostrando Matifat e Camusot — não os
poderão mais compreender. A ironia é como o algodão, que, fiado muito fino,
rebenta, disse Bonaparte.
— Senhores — disse Lousteau —, somos testemunhas de um fato grave,
inconcebível, inaudito, deveras surpreendente. Não os admira a rapidez com
que nosso amigo se transformou de provinciano em jornalista?
— Ele nasceu jornalista — afirmou Dauriat.
— Meus filhos — disse então Finot, levantando-se com uma garrafa de
champanha na mão —, todos nós protegemos e encorajamos a estreia do
nosso jovem anfitrião na carreira em que sobrepujou as nossas esperanças.
Venceu em dois meses com os belos artigos que conhecemos. Proponho, pois,
que o batizemos autêntico jornalista.
— Uma coroa de rosas, a fim de celebrar a sua dupla vitória! — gritou
Bixiou, olhando para Corália.
Corália fez um sinal a Berenice, que saiu à procura de velhas flores artificiais nas caixas da atriz. Uma coroa de rosas foi imediatamente tecida,
tão logo a gorda criada de quarto trouxe as flores com as quais se enfeitaram
grotescamente os que estavam mais bêbados. Finot, o grande sacerdote,
derramou algumas gotas de champanha na bela cabeça loura de Luciano,
pronunciando com deliciosa gravidade estas palavras sacramentais:
— Em nome do Selo, da Fiança e da Multa, eu te batizo jornalista. Que
teus artigos te sejam leves!
— E pagos sem descontar as linhas em branco! — acrescentou Merlin.
Luciano percebeu, nesse momento, as fisionomias entristecidas de
Miguel Chrestien, de José Bridau e de Fulgêncio Ridal, que tomaram os
chapéus e saíram em meio de um coro de imprecações.
— Ali vão uns singulares cristãos! — comentou Merlin.
— Fulgêncio era um bom rapaz — continuou Lousteau —, mas eles o
perverteram com moral.
— Quem? — perguntou Cláudio Vignon.
— Uns moços sisudos que se reúnem numa igrejinha filosófica e religiosa
da Rue des Quatre-Vents, onde se inquietam com o sentido geral da
humanidade... — respondeu Blondet.
— Oh! oh! oh!
— ... onde se procura saber se ela gira sobre si mesma — continuou
Blondet — ou se progride. Sentem-se muito indecisos entre a linha reta e a
linha curva; e, encontrando certo contrassenso no triângulo bíblico,
apareceu-lhes não sei que profeta que se pronunciou pela espiral.
— Alguns homens reunidos podem inventar tolices mais perigosas do
que essas! — exclamou Luciano, que desejava defender o cenáculo.
— Tomas essas teorias como palavras ociosas — atalhou Feliciano Vernou
—, mas chega um momento em que elas se transformam em tiros de fuzil ou
em guilhotina.
— Por enquanto — disse Bixiou — cuidam apenas de procurar o
pensamento providencial encerrado na champanha, o sentido humanitário
das calças, e o bichinho que faz o mundo andar. Levantam grandes homens
caídos, como Vico, Saint-Simon, Fourier.[336] Tenho muito receio de que
virem a cabeça do meu pobre José Bridau.
— São eles a causa — disse Lousteau — por que Bianchon, meu conterrâneo e companheiro de colégio, me trata friamente...
— Será que eles ensinam a ginástica e a ortopedia do espírito? —
perguntou Merlin.
— É bem possível — respondeu Finot —, visto que Bianchon acredita nos
sonhos deles.
— Bah! — exclamou Lousteau. — Mesmo assim há de ser um grande
médico.
— O seu chefe visível não é D’Arthez, um rapazinho que nos deve
engolir a todos? — perguntou Nathan.
— É um homem de gênio! — afirmou Luciano.
— Pois prefiro um copo de xerez — disse Cláudio Vignon, sorrindo.
A partir daí, cada qual procurava explicar o próprio caráter ao vizinho.
Quando pessoas inteligentes chegam a querer explicar-se a si mesmas, a
pretender dar a chave de seu coração, é certo que a embriaguez os leva na
garupa. Uma hora depois, todos os convivas, que se haviam tornado os
melhores amigos do mundo, chamavam-se uns aos outros grandes homens,
homens fortes, pessoas a quem o futuro pertencia. Luciano, na sua
qualidade de dono da casa, conservara certa lucidez de espírito: escutou
sofismas que o impressionaram e concluíram a obra de sua desmoralização.
— Meus filhos — disse Finot —, o partido liberal vê-se obrigado a reavivar
a sua polêmica, porque neste momento nada tem a dizer contra o governo, e
vocês compreendem em que embaraço se encontra a oposição. Qual de