A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
no semanário de Finot, por dez mil francos. Finot me daria mil escudos, no
caso de êxito. Matifat ia fazer o negócio, feliz de reaver dez mil francos dos
trinta mil que lhe pareciam estar correndo risco, porque havia dias Florina
lhe vinha dizendo que o semanário de Finot não pegava. Em vez de um
dividendo a receber, seria o caso de uma nova chamada de capital. Antes, porém, de realizar o seu balanço, o diretor do Panorama-Dramatique
precisou negociar alguns títulos de favor, e, para os fazer colocar por Matifat,
preveniu-o da peça que Finot lhe ia pregar. Matifat, comerciante finório,
abandonou Florina, conservou a sua sexta parte e agora nos persegue. Finot
e eu urramos de desespero. Tivemos a desgraça de atacar um homem que
não se importa com a amante, um miserável sem alma nem coração.
Desgraçadamente, o negócio que Matifat faz não está na alçada da justiça
da imprensa. É inatacável em seus interesses. Não se critica um droguista
como se criticam chapéus, coisas da moda, teatros ou negócios de arte. O
cacau, a pimenta, as tintas, as madeiras de tinturaria, o ópio não se podem
depreciar. Florina está em apuros; o Panorama fecha amanhã e ela não sabe
o que fazer.
— Em consequência do fechamento do teatro, Corália estreará dentro de
poucos dias no Gymnase — disse Luciano. — Ela poderá ser útil a Florina.
— Jamais! — respondeu Lousteau. — Corália não é inteligente, mas
também não é tão burra que vá arranjar uma rival! Nossos negócios estão
completamente estragados! Mas Finot tem tamanha pressa de resgatar
aquela sexta parte...
— Mas por quê?
— O negócio é excelente, meu caro. Existe a possibilidade de vender o
jornal por trezentos mil francos. Finot teria então um terço, mais uma
comissão, concedida pelos sócios e que ele repartiria com Des Lupeaulx. Daí
a proposta de um golpe de chantagem.
— Mas a chantagem é então a bolsa ou a vida?
— Muito melhor — respondeu Lousteau. — É a bolsa ou a honra!
Anteontem, um pequeno jornal, a cujo proprietário haviam recusado um
crédito, noticiou que o relógio de repetição cercado de brilhantes
pertencente a uma das notabilidades da capital fora visto de maneira bizarra
entre as mãos de um soldado da guarda real, e prometia o relato dessa
aventura digna das Mil e uma noites. Tal notabilidade apressou-se a
convidar o redator chefe para almoçar. É certo que o redator chefe ganhou
alguma coisa, mas a história contemporânea perdeu a anedota do relógio.
Toda vez que vires a imprensa encarniçada contra qualquer pessoa
poderosa, fica sabendo que há por trás disso algum desconto recusado, algum favor que não quiseram prestar. A chantagem relativa à vida privada é
o que mais temem os ricos ingleses, e que contribui com boa cota para os
lucros da imprensa britânica, infinitamente mais depravada do que a nossa.
Nós somos umas crianças! Na Inglaterra, compra-se uma carta
comprometedora por cinco ou seis mil francos, para a revender.
— Que meio encontraste para ferir Matifat? — perguntou Luciano.
— Meu caro — respondeu Lousteau —, esse vil especieiro escreveu as
mais curiosas cartas a Florina: ortografia, estilo, pensamento, tudo é de um
cômico rematado. Matifat teme muito a mulher. Poderemos, sem o nomear,
sem que ele se possa queixar, atingi-lo nos seus lares e nos seus penates, onde
se julga em segurança. Imagina o seu furor ao ler o primeiro artigo de um
pequeno romance de costumes intitulado Osamores de um droguista, após
ter sido lealmente prevenido do acaso que pôs entre as mãos dos redatores
de tal jornal cartas em que ele fala do pequeno Cupido, onde escreveu
cenpre em vez de sempre, onde afirma a Florina que ela o ajuda a atravessar
o deserto da vida, o que pode fazer acreditar que ele a considera um camelo.
Enfim, há com que desopilar o fígado dos assinantes durante quinze dias em
tal correspondência eminentemente divertida. Far-lhe-iam temer uma carta
anônima que pusesse a mulher a par do gracejo. Será que Florina vai
concordar em parecer perseguir Matifat? Ela ainda conserva alguns
princípios, isto é, algumas esperanças. Talvez guarde as cartas para si mesma
e queira uma parte nos lucros. É astuciosa; é minha aluna. Mas quando
souber que o oficial de diligências não é brincadeira, quando Finot lhe
houver feito um presente em condições ou lhe houver dado a esperança de
um contrato, há de me entregar as cartas, que darei a Finot em troca dos
escudos. Finot entregará a correspondência ao tio, e Giroudeau fará o
droguista capitular.
Aquela confidência desembriagou Luciano e o fez pensar. Pensou em
primeiro lugar que tinha amigos extremamente perigosos; refletiu depois
que era melhor não se inimizar com eles, porque poderia precisar da terrível
influência deles, caso a sra. d’Espard, a sra. de Bargeton e Châtelet faltassem
à palavra. Estêvão e Luciano haviam chegado, a palestrar, ao cais e estavam
diante da miserável loja de Barbet.
XXXV – OS DESCONTADORES
— Barbet — disse Estêvão ao livreiro —, temos cinco mil francos de Fendant
e Cavalier, a seis, nove e doze meses; quer descontar-nos as letras?
— Fico com elas por mil escudos — respondeu Barbet com calma
imperturbável.
— Mil escudos![348] — exclamou Luciano.
— Os senhores não os conseguirão em nenhuma outra casa — afirmou o
livreiro. — Esses senhores abrirão falência antes de três meses; mas eu
conheço em casa deles algumas boas obras de venda demorada. Sei que não
podem esperar e as comprarei à vista entregando-lhes as próprias letras.
Desse modo terei dois mil francos de abatimento na mercadoria.
— Queres perder dois mil francos? — perguntou Estêvão a Luciano.
— Não! — exclamou Luciano, indignado com essa primeira oferta.
— Fazes mal — respondeu Estêvão.
— Os senhores não negociarão esses papéis em parte alguma — afirmou
Barbet. — O livro deste senhor é a última cartada de Fendant e Cavalier. Não
o podem imprimir senão deixando os exemplares em depósito em casa do
impressor. Um êxito não os salvará senão por seis meses, porque, mais cedo
ou mais tarde, terão que saltar! Essa gente bebe copinhos em maior número
do que os livros que vende! Para mim seus títulos representam um bom
negócio, e os senhores podem por isso conseguir um valor superior ao que
dariam os cambistas, que indagam quanto valem as assinaturas. O negócio do
cambista consiste em saber se três assinaturas darão cada uma trinta por
cento em caso de falência. Aliás, os senhores não oferecem senão duas
assinaturas, e cada uma delas não vale nem dez por cento.
Os dois rapazes trocaram um olhar, atônitos por ouvirem sair da boca
daquele pedante uma análise em que se encontrava em poucas palavras
todo o espírito dos bancos de desconto.
— Chega de frases, Barbet! — atalhou Lousteau. — À casa de que
cambista nos devemos dirigir?
— O pai Chaboisseau, no Quai Saint-Michel, os senhores sabem, facilitou
o último “fim de mês” a Fendant. Se recusam minha proposta, podem ir à
casa dele. Mas hão de voltar a mim e não lhes darei então mais de dois mil e quinhentos francos.
Estêvão e Luciano foram ao cais, a uma pequena casa com passadiço
lateral, onde morava o tal Chaboisseau, um dos prestamistas de livraria, e o
encontraram no segundo andar, num apartamento mobiliado da maneira
mais original. Aquele banqueiro subalterno, e, não obstante, milionário,
amava o estilo grego. A cornija do quarto era grega. Guarnecido com um
estofo tinto de púrpura e disposto à grega, ao longo da parede, como fundo
de um quadro de David, o leito, de uma linha muito pura, datava do tempo
do Império, quando tudo era fabricado nesse gosto. As poltronas, as mesas, as
lâmpadas, os lustres, os menores acessórios, escolhidos sem dúvida com
paciência em casa dos negociantes de móveis, respiravam a graça fina e
delicada, mas elegante, da Antiguidade. Esse conjunto mitológico e gracioso
formava um contraste bizarro com os costumes do cambista. É de notar que
se encontram homens dos mais bizarros entre as pessoas dedicadas ao
comércio do dinheiro. Tais pessoas são, de certo modo, os libertinos do
pensamento. Enfarados de tudo, por isso que tudo podem possuir, fazem
um esforço enorme para sair de sua indiferença. Quem os souber estudar há
de encontrar-lhes sempre alguma mania, um canto qualquer do coração por
onde se mostrem acessíveis. Chaboisseau parecia entrincheirado na
Antiguidade como num campo inexpugnável.
— Ele é, sem dúvida, digno da sua moldura — observou Estêvão sorrindo.
Chaboisseau, homenzinho de cabelos empoados, de sobrecasaca
esverdeada, colete cor de avelã, decorado com umas calças pretas
terminadas por meias variegadas e sapatos que rangiam sob os pés, tomou as
letras, examinou-as, e, a seguir, entregou-as gravemente a Luciano.
— Os srs. Fendant e Cavalier são uns moços encantadores, jovens cheios
de inteligência, mas eu me encontro sem dinheiro — disse com voz doce.
— Meu amigo será razoável com o desconto — explicou Estêvão.
— Não ficaria com esses valores por vantagem alguma — disse o
homenzinho, e suas palavras deslizaram pela proposição de Lousteau como
a lâmina da guilhotina pela cabeça de um homem.
Os amigos retiraram-se. Ao atravessarem a antecâmara, até onde
prudentemente os reconduziu Chaboisseau, Luciano viu uma pilha de
alfarrábios que o prestamista, antigo livreiro, havia comprado, e entre os quais brilhou imediatamente aos olhos do romancista a obra do arquiteto
Ducerceau[349] sobre os palácios reais e os castelos célebres da França, cujas
plantas vêm desenhadas nesse livro com grande exatidão.
— Pode ceder-me esta obra? — perguntou Luciano.
— Sim — respondeu Chaboisseau, que de prestamista se transformou em
livreiro.
— Qual é o preço?
— Cinquenta francos.
— É caro, mas me faz falta; também, não teria para pagar senão os
valores que o senhor não quer aceitar.
— O senhor tem uma letra de quinhentos francos a seis meses; ficarei
com ela — respondeu Chaboisseau, que sem dúvida devia soma equivalente
a Fendant e Cavalier por algum saldo de fatura.
Os rapazes voltaram para o quarto grego, onde Chaboisseau preencheu
um rol em que se consignava seis por cento de desconto e seis por cento de
comissão, produzindo no total uma dedução de trinta francos. Acrescentou
ao desconto os cinquenta francos, preço do Ducerceau, e tirou do cofre,
cheio de belos escudos, quatrocentos e vinte francos.
— Ora essa, sr. Chaboisseau! As letras são todas boas ou todas más, por
que não nos desconta as outras?
— Não estou descontando; estou me pagando de uma venda —
respondeu o homenzinho.
Estêvão e Luciano riam-se ainda de Chaboisseau, sem o terem
compreendido, quando chegaram à casa de Dauriat, onde Lousteau pediu a
Gabusson que lhe indicasse um prestamista. Dali tomaram ambos um
cabriolé à hora e foram ao Boulevard Poissonnière, munidos de uma carta de
recomendação que Gabusson lhes havia dado, anunciando-lhes o mais
bizarro e mais estranho dos agiotas, segundo sua expressão.
— Se Samanon não ficar com suas letras — dissera Gabusson —, ninguém
mais as descontará.
Alfarrabista no rés do chão, negociante de roupas no primeiro andar,
vendedor de gravuras proibidas no segundo, Samanon era ainda prestamista
sob penhor. Personagem algum dos introduzidos nos romances de
Hoffmann, nenhum dos sinistros avarentos de Walter Scott poderia ser comparado ao que a natureza social e parisiense se havia permitido criar
naquele homem, se, acaso, Samanon era homem. Luciano não pôde reprimir
um movimento de susto ao ver aquele velhote pequeno e seco, cujos ossos
pareciam querer furar o couro perfeitamente curtido, manchado por
numerosas placas verdes ou amarelas, como uma pintura de Ticiano ou de
Paolo Veronese vista de perto. Samanon tinha um dos olhos imóvel e frio, o
outro vivo e brilhante. O avaro, que parecia servir-se daquele olho morto
quando fazia os descontos, e empregar o outro para vender suas gravuras
obscenas, usava uma pequena peruca chata, cujo negro puxava a vermelho,
e sob a qual se eriçavam cabelos brancos. A fronte macilenta tinha aparência
ameaçadora; as faces eram encaixilhadas nos ângulos retos das saliências dos
maxilares; os dentes, ainda brancos, pareciam sair dos lábios, como os de um
cavalo que relincha. O contraste daqueles olhos com o trejeito da boca, tudo
lhe dava aspecto nitidamente feroz. Os pelos da barba, duros e eriçados,
deveriam picar como alfinetes. Uma curta sobrecasaca puída, que já atingira
o estado de completa ruína, uma gravata negra desbotada, raspada pela
barba, e que deixava entrever o pescoço enrugado como o de um peru, não
demonstravam sequer o desejo de disfarçar pela indumentária aquela
fisionomia sinistra. Os jornalistas encontraram esse homem sentado a um
balcão extremamente sujo e ocupado em colar etiquetas no dorso de livros
velhos comprados em leilão.
Depois de uma troca de olhares em que resumiram as mil perguntas
sugeridas pela existência de tal personagem, Luciano e Lousteau o
cumprimentaram apresentando-lhe a carta de Gabusson e os títulos de
Fendant e Cavalier. Enquanto Samanon lia, entrou na escura loja um dos
representantes da alta intelectualidade da época, paramentado com uma
velha sobrecasaca que parecia ter sido cortada numa folha de zinco, de tal
modo se via solidificada pela mistura de mil substâncias diferentes.
— Preciso da minha casaca, de minha calça preta e de meu colete de
cetim — disse ele a Samanon, apresentando um cartão numerado.
Mal Samanon puxara o botão de cobre de uma campainha, surgiu uma
mulher que pela frescura de sua rica carnação parecia normanda.
— Empresta a este senhor as suas roupas — disse ele, estendendo a mão
ao escritor. — É um prazer trabalhar com o senhor; mas um dos seus amigos me trouxe um rapazote que me passou a perna sem cerimônias!
— Passaram-lhe a perna! — exclamou o artista, dirigindo-se aos dois
jornalistas e mostrando-lhes Samanon com um gesto profundamente
cômico.
E o grande homem pagou, como pagam os lazzaroni para reaver por um
dia da casa de penhores as suas roupas de festa, trinta sous, que a mão
amarela e encarquilhada do agiota apanhou e deixou cair no caixa do balcão.
— Que negócio singular o que fazes! — observou Lousteau ao notável
artista, que não passava de uma presa do ópio e que, detido pela
contemplação em palácios encantados, nada queria ou nada podia criar.
— Este homem empresta muito mais do que a casa de penhores sobre os
objetos penhoráveis e tem, além disso, a assombrosa caridade de no-los
devolver nas ocasiões em que é preciso que estejamos vestidos — respondeu
ele. — Vou esta noite jantar em casa dos Keller[350] com a minha amante. É
mais fácil, para mim, conseguir trinta sous que duzentos francos, e venho
assim buscar meu guarda-roupa, que nos últimos seis meses já rendeu cem
francos a este caridoso usurário. Samanon já devorou a minha biblioteca,
livro a livro.
— E vintém a vintém — disse rindo Lousteau.
— Dou-lhe mil e quinhentos francos — disse Samanon a Luciano.
Luciano deu um salto como se o agiota lhe houvesse enterrado no
coração um estilete de ferro em brasa.
Samanon examinava as letras com atenção, fixando-se nas datas.
— E ainda assim — continuou o negociante — preciso ver Fendant, que
me deverá dar um penhor de livros. Do senhor sei que não vale grande coisa
— disse a Luciano —, o senhor vive com Corália, e seus móveis foram
penhorados.
Lousteau olhou para Luciano, que retomou os títulos e saltou da loja
para a rua dizendo:
— Será que ele é o diabo?
O poeta contemplou por instantes a lojinha, diante da qual os
transeuntes deviam sorrir, de tal forma era miserável, tão mesquinhas e sujas
eram as pequenas estantes de livros etiquetados, pensando: “Que negócio se
fará aí?”.
Instantes após, o grande desconhecido, que deveria assistir dali a dez
anos ao empreendimento imenso mas sem base dos saint-simonianos, saiu
muito bem-vestido, sorriu aos jornalistas e com eles se dirigiu para o beco dos
Panoramas, para ali completar sua arrumação mandando lustrar as botas.
— Quando se vê Samanon entrar em casa de um livreiro, de um
negociante de papel ou de um impressor, é que estão perdidos — disse o
escritor aos jornalistas. — Samanon representa então o gato-pingado que vai
tomar as medidas do ataúde.
— Não descontarás mais tuas letras — disse então Estêvão a Luciano.
— O que Samanon recusa — disse o escritor — ninguém mais aceita,
porque ele é a ultima ratio! É um dos agentes de Gigonnet, de Palma e
Werbrust, de Gobseck[351] e de outros crocodilos que nadam na praça de
Paris, e com os quais todo o homem cuja fortuna está por se fazer ou se
desfazer deve encontrar-se mais cedo ou mais tarde.
— Se não podes descontar teus títulos a cinquenta por cento —
recomendou Estêvão —, será preciso trocá-los por escudos.
— Mas como?
— Dá-os a Corália, ela os apresentará a Camusot. Tu te revoltas? —
continuou Lousteau, a quem Luciano interrompera num sobressalto. — Que
criancice! Podes pôr na balança o teu futuro e uma tal ninharia?
— De qualquer modo vou levar o resto do dinheiro a Corália — disse
Luciano.
— Outra tolice! — exclamou Lousteau. — Não mitigarás coisa alguma
com quatrocentos francos onde são precisos quatro mil. Guardemos o
necessário para nos embriagarmos em caso de perda, e joga o resto!
— O conselho é bom — disse o grande desconhecido.
A quatro passos do Frascati,[352] aquelas palavras tiveram efeito
magnético. Os dois amigos despediram o cabriolé e subiram para o jogo. A
princípio ganharam três mil francos, voltaram a quinhentos e tornaram a
ganhar três mil e setecentos. Retombaram depois em cem sous, subiram a
dois mil francos e os arriscaram no par, para os duplicar em um só golpe. Não
havia dado par nas últimas cinco jogadas, e puseram nele a soma toda; saiu
ainda ímpar. Luciano e Lousteau atiraram-se então escadas abaixo daquele
célebre pavilhão, após terem consumido duas horas em emoções dilacerantes. Haviam guardado cem francos. Já nos degraus do peristilo de
duas colunas que sustinham exteriormente o reduzido alpendre de zinco
que mais de um par de olhos já contemplou com amor ou desespero,
Lousteau disse, vendo o olhar inflamado de Luciano:
— Não queimemos mais de cinquenta francos.
Tornaram a subir. Numa hora chegaram a ganhar mil escudos; puseram-
nos então sobre o vermelho, que havia saído cinco vezes, contando com o
acaso ao qual deviam a perda anterior. Saiu o negro. Eram seis horas.
— Queimem-se ainda vinte e cinco francos, não mais — disse Luciano.
A nova tentativa pouco durou; os vinte e cinco francos foram perdidos
em dez jogadas. Luciano atirou raivosamente seus últimos vinte e cinco
francos sobre o número de sua idade, e ganhou: nada poderia pintar a
tremura de suas mãos quando tomou a pá para retirar os escudos que o
banqueiro lhe atirou um a um.
Deu dez luíses a Lousteau e lhe disse:
— Corre ao Véry!
Lousteau compreendeu e foi encomendar o jantar.
Luciano, tendo ficado só no jogo, pôs seus trinta luíses no vermelho e
ganhou. Animado pela voz secreta que os jogadores às vezes ouvem, pôs
ainda tudo no vermelho e ganhou. Seu ventre tornou-se então um braseiro!
Apesar do aviso, tornou a botar os cento e vinte luíses sobre o negro, e
perdeu. Sentiu então na própria carne a sensação deliciosa que sucede, nos
jogadores, às suas terríveis agitações, quando, nada mais tendo para arriscar,
deixam o palácio ardente onde se passam seus sonhos fugazes. Foi ao
encontro de Lousteau no Véry, onde chafurdou na cozinha, segundo a
expressão de La Fontaine, e afogou as preocupações no vinho.
Às nove horas estava tão completamente embriagado que não
compreendeu por que a porteira da Rue de Vendôme o mandou para a Rue
de la Lune.
— A srta. Corália deixou o apartamento e se instalou na casa cujo
endereço está escrito neste papel.
Luciano, muito bêbado para se espantar com o que quer que fosse,
tomou novamente o fiacre que o trouxera e se fez conduzir à Rue de la
Lune, murmurando para si mesmo trocadilhos sobre o nome da rua. Naquela manhã fora declarada a falência do Panorama-Dramatique. A atriz,
aterrorizada, apressou-se a vender todo o seu mobiliário, com o
consentimento dos credores, ao pequeno pai Cardot, que, para não mudar o
destino do apartamento, lá colocou Florentina.
Corália tudo havia pago, tudo liquidado, e satisfeito o proprietário. No
espaço de tempo tomado por essa operação, que ela chamou uma alvejada,
Berenice guarnecia, com os móveis indispensáveis comprados de segunda
mão, um apartamento de três peças no quarto andar duma casa da Rue de
la Lune, a dois passos do Gymnase. Corália ali esperava por Luciano, tendo
salvo do naufrágio seu amor sem mácula e uma bolsa com duzentos francos.
Luciano, na sua embriaguez, contou suas desgraças a Corália e Berenice.
— Fizeste bem, meu anjo — disse-lhe a atriz apertando-o nos braços. —
Berenice saberá dar um jeito para negociar tuas letras com Braulard.
XXXVI – MUDANÇA DE FRENTE
No dia seguinte, Luciano acordou na encantadora felicidade que Corália lhe
prodigalizava. A atriz redobrou de amor e de ternura, como que para
compensar com os mais ricos tesouros do coração a indigência do novo lar.
Estava radiante de beleza, os cabelos escapando de sob um lenço de seda
torcido, branca e fresca, de olhos risonhos e palavra alegre como o raio de sol
nascente que entrava pela janela para dourar aquela encantadora miséria. O
quarto, ainda decente, era forrado de papel verde-água com cercadura
vermelha, ornado com dois espelhos, um na lareira, outro em cima da
cômoda. Um tapete de segunda mão, comprado por Berenice com o seu
próprio dinheiro, apesar das ordens de Corália, disfarçava o assoalho nu e
frio. O guarda-roupa dos dois amantes ficava num armário de espelho e na
cômoda. Os móveis de mogno eram guarnecidos de azul. Berenice salvara do
desastre uma pêndula e dois vasos de porcelana, quatro talheres de prata e
seis colherinhas. A sala de jantar, que ficava antes do quarto de dormir,
parecia a de um empregado que ganhasse mil e duzentos francos. A cozinha
fazia face ao patamar. Por cima dela ficava a mansarda onde Berenice
dormia. O aluguel não ia além de cem escudos. A casa, horrível, tinha uma
falsa porta para carros. O porteiro alojava-se num dos cubículos condenados, de onde através de uma janelinha gradeada vigiava dezessete locatários. Tais
cortiços chamavam-se casas de renda na linguagem dos notários. Luciano
viu uma escrivaninha, uma poltrona, tinta, penas e papel. A alegria de
Berenice, que contava com a estreia de Corália no Gymnase, e a da atriz, que
olhava para o seu papel, um caderno atado com a fita de seda azul,
afastaram a tristeza e as inquietações do poeta já livre da ressaca.
— Contanto que na sociedade nada se saiba desta derrocada, nós nos
arranjaremos — disse ele. — Afinal de contas, temos quatro mil e quinhentos
francos diante de nós! Vou explorar minha nova posição nos jornais
monarquistas. Amanhã, inauguraremos o Alvorada, e agora já entendo de
jornalismo; poderei fazê-lo!
Corália, que nada mais viu, a não ser amor, nessas palavras, beijou os
lábios que as haviam pronunciado. Nesse meio-tempo, Berenice havia posto
a mesa junto ao fogo e acabava de servir um modesto almoço, composto de
ovos mexidos, duas costeletas e café com creme. Bateram. Três amigos
sinceros, D’Arthez, Leão Giraud e Miguel Chrestien, apareceram ante os
olhos espantados de Luciano, que, vivamente tocado, convidou-os a
partilharem do almoço.
— Não — disse D’Arthez. — Vimos para coisas mais sérias que simples
consolações, porque tudo sabemos; estivemos na Rue de Vendôme. Você
conhece minhas opiniões, Luciano. Em quaisquer outras circunstâncias, eu
me rejubilaria ao ver que você adotava minhas convicções políticas; mas, na
situação em que você se colocou, escrevendo nos jornais liberais, não poderá
passar para as fileiras dos ultras sem tisnar para sempre o seu caráter e
enodoar sua vida. Vimos para o conjurar, em nome da nossa amizade, por
mais enfraquecida que ela esteja, a que não se macule desse modo. Você
atacou os românticos, a direita e o governo; você não pode agora defender o
governo, a direita e os românticos.
— As razões que me levam a assim agir são motivadas numa ordem
superior de pensamentos; o fim justificará tudo — respondeu Luciano.
— Você não está compreendendo talvez a situação em que nos
encontramos — disse Leão Giraud. — O governo, a Corte, os Bourbon, o
partido absolutista, ou, se você quiser tudo englobar numa expressão geral, o
sistema oposto ao sistema constitucional, e que se divide em várias facções divergentes no que respeita aos meios a empregar para sufocar a Revolução,
está entretanto de acordo quanto à necessidade de suprimir a imprensa. A
fundação do Alvorada, de O Clarão,[353] de A Flâmula Branca,[354]
todos jornais destinados a responder às calúnias, às injúrias, às zombarias da
imprensa liberal, coisa que não aprovo, porque esse desconhecimento da
grandeza do nosso sacerdócio é precisamente o que nos levou a publicar um
jornal digno e grave cuja influência será, dentro em pouco, reconhecida e
respeitada, imponente e digna — disse ele fazendo um parêntese. — Pois
bem, essa artilharia monarquista e ministerial é uma primeira tentativa de
represálias, empreendida para devolver aos liberais flechada por flechada,
ferida por ferida. Que pensa que irá acontecer, Luciano? Os assinantes são,
na maioria, da esquerda. Na imprensa, como na guerra, a vitória se colocará
ao lado dos grandes batalhões! Vocês hão de ser infames, mentirosos,
inimigos do povo; os outros serão defensores da pátria, pessoas honradas,
mártires, apesar de serem mais hipócritas e mais pérfidos talvez do que
vocês. Isso há de aumentar a influência perniciosa da imprensa, legitimando
e consagrando suas mais odiosas violências. A injúria e os casos pessoais
tornar-se-ão um de seus direitos públicos, adotado a fim de aumentar o
número dos assinantes, e passará à categoria de coisa julgada por consenso
mútuo. Quando o mal se tiver revelado em toda a sua extensão, as leis
restritivas e proibitivas, a censura, estabelecida a pretexto do assassínio do
duque de Berry e levantada desde a abertura das câmaras, tudo isso voltará.
E você sabe qual é a conclusão que o povo francês há de tirar desse debate?
Admitirá as insinuações da imprensa liberal, acreditará que os Bourbon
querem atacar as conquistas materiais da Revolução; há de levantar-se um
belo dia e expulsar os Bourbon. Você, assim, não apenas enodoaria a sua vida,
mas iria encontrar-se um dia fazendo parte do partido derrotado. Você é
muito jovem, muito novo na imprensa; conhece pouco as suas manhas
secretas, os seus estratagemas; você excitou muitas invejas no jornalismo
para poder resistir à grita geral que se levantará contra você nos jornais
liberais. Há de ser arrastado pelo furor dos partidos, que estão ainda nos
paroxismos da febre; só que sua febre passou, das ações brutais de 1815-1816,
para o domínio das ideias, das lutas orais na Câmara e nos debates da
imprensa.
— Meus amigos — respondeu Luciano —, não sou o leviano, o poeta que
vocês querem ver em mim. Aconteça o que acontecer, terei conquistado uma
vantagem que nunca o triunfo do partido liberal me poderia dar. Quando
vocês chegarem à vitória, minha causa já estará ganha.
— Nós te cortaremos... os cabelos — disse rindo Miguel Chrestien.
— Já terei filhos então — respondeu Luciano —, e cortar-me a cabeça
será como nada cortar.
Os três amigos não compreenderam Luciano, cujas relações com a alta-
roda haviam desenvolvido ao mais alto grau o orgulho nobiliárquico e as
vaidades aristocráticas. O poeta via, aliás com razão, uma imensa fortuna em
sua beleza e inteligência apoiadas no nome e no título de conde de
Rubempré. A sra. d’Espard, a sra. de Bargeton e a sra. de Montcornet
prendiam-no por esse fio tal como uma criança sujeita um besouro. Luciano
não mais voava senão num círculo determinado. As palavras: “É um dos
nossos, ele pensa bem!”, ditas três dias antes no salão da srta. des Touches,
haviam-no embriagado, assim como as felicitações que recebera dos duques
de Lenoncourt, de Navarreins e de Grandlieu, de Rastignac, de Blondet, e
da bela duquesa de Maufrigneuse, do conde d’Esgrignon, de Des Lupeaulx,
das pessoas mais influentes e mais chegadas à Corte do partido monarquista.
— Vamos! tudo já está dito — respondeu D’Arthez. — Para ti será mais
difícil que para qualquer outro te conservares puro e possuíres tua própria
estima. Eu te conheço. Vais sofrer muito quando te vires desprezado por
aqueles mesmos aos quais te houveres devotado.
Os três amigos disseram adeus a Luciano sem lhe estenderem
amigavelmente a mão.
Luciano ficou por alguns instantes pensativo e triste.
— Ora, deixa esses tolos! — disse Corália sentando-se nos joelhos de
Luciano e pondo-lhe em torno do pescoço os belos braços frescos. — Eles
tomam a vida a sério e a vida é uma caçoada. Aliás, hás de ser o conde
Luciano de Rubempré. Farei, se for preciso, agrados à chancelaria. Sei como
levar esse libertino do Des Lupeaulx, que há de fazer com que assinem o teu
decreto. Já não te disse que, quando te for preciso um degrau a mais para
alcançares tua presa, hás de ter o cadáver de Corália?
No dia seguinte, Luciano consentiu em que pusessem o seu nome entre os dos colaboradores do Alvorada. Seu nome foi anunciado como uma
conquista no prospecto que, graças aos cuidados especiais do ministério, foi
distribuído em cem mil exemplares. Luciano compareceu ao banquete
triunfal, que durou nove horas, no Robert, a dois passos de Frascati, e ao
qual assistiram os corifeus da imprensa monarquista; Martainville, Auger,
Destains[355] e uma multidão de escritores ainda vivos, que, naquele tempo,
faziam a monarquia e a religião, segundo expressão consagrada.
— Vamos dar aos liberais o que eles merecem! — exclamou Heitor Merlin.
— Senhores — respondeu Nathan, que se havia alistado sob a mesma
bandeira, julgando, com razão, que seria melhor ter a autoridade a seu favor
do que contra na exploração do teatro com que sonhava —, se lhes vamos
fazer guerra, façamo-la seriamente. Não troquemos balas de cortiça!
Ataquemos todos os escritores clássicos e liberais sem distinção de idade nem
de sexo; passemo-los ao fio do escárnio sem lhes dar quartel.
— Sejamos honrados, não nos deixemos subornar por alguns volumes,
por presentes ou dinheiro dos livreiros. Façamos a restauração do jornalismo.
— Bem! — exclamou Martainville — Justum et tenacem propositi
virum![356] Sejamos implacáveis e mordazes. Eu farei de Lafayette o que
ele em verdade é: Gilles![357]
— Por mim — disse Luciano —, eu me encarrego dos heróis do
Constitucional, do sargento Mercier,[358] das obras completas do sr. de
Jouy, dos ilustres oradores da esquerda!
Uma guerra de morte foi resolvida e votada por unanimidade, à uma
hora da manhã, pelos redatores que afogavam todas as suas diferenças de
tons e todas as suas ideias num ponche flamejante.
— Metemo-nos em famosos calções monárquicos e religiosos — disse à
soleira da porta um dos escritores mais em evidência da literatura romântica.
Esse dito histórico, revelado por um dos livreiros que assistia ao jantar,
apareceu no dia seguinte no Espelho. E essa revelação foi atribuída a
Luciano. Tal defecção foi o sinal para espantoso alvoroço nos jornais liberais.
Luciano tornou-se a principal vítima deles e viu-se difamado do modo mais
cruel: contaram os infortúnios de seus sonetos; tornaram público que
Dauriat preferia perder mil escudos a imprimir o livro; chamaram-no poeta
sem sonetos![359]
Certa manhã, no mesmo jornalzinho em que Luciano havia estreado tão
brilhantemente, encontrou as linhas seguintes escritas unicamente para ele,
dado que o público quase nada poderia compreender da zombaria:
Se o livreiro Dauriat persiste em não publicar os sonetos do futuro
Petrarca francês, vamos agir como inimigos generosos, abrindo nossas
colunas a esses poemas que devem ser picantes, a julgar por este que
nos foi dado por um amigo do autor.
E, sob o temível exórdio, o poeta leu este soneto,[360] que o fez chorar
ardentes lágrimas:
Uma planta de pobre aspecto macilento
Nasceu certa manhã num canteiro de flores;
Ao que dizia, em breve as mais flamantes cores
Dariam fé de sua estirpe e valimento.
Foi tolerada, pois! Em reconhecimento
Eis que insulta as irmãs com ares superiores;
Estas, feridas nos mais íntimos pudores,
Reptaram-na a provar seu nobre nascimento.
Floriu então. Mas, oh! jamais nenhum farsante
Já se vaiou como vaiou naquele instante
Todo o jardim o chocho cálice vulgar!
Era um cardo! Era um cardo ignóbil! Chega o dono,
Quebra-o. A noite, no sepulcro em abandono,
Somente um asno — que oração! — veio zurrar.
Vernou falou da paixão de Luciano pelo jogo e assinalou antecipadamente O
arqueiro como obra antinacional, em que o autor retomava o partido dos
degoladores católicos contra as vítimas calvinistas. Em apenas oitos dias, a querela se azedou.
Luciano contava com seu amigo Lousteau, que lhe devia mil francos, e
com o qual tinha estabelecido convenções secretas; mas Lousteau tornou-se
logo inimigo jurado de Luciano. Eis como. Havia três meses que Nathan
amava Florina e não sabia como tomá-la de Lousteau, para quem aliás ela era
a providência. Na miséria e no desespero em que se encontrava a atriz que se
via sem contrato, Nathan, o colaborador de Luciano, foi visitar Corália e
pediu-lhe que oferecesse a Florina um papel numa peça dele, garantindo
que obteria um contrato condicional do Gymnase para a atriz sem teatro.
Florina, inebriada de ambição, não hesitou. Havia tido tempo para observar
Lousteau. Nathan era literato e político ambicioso, homem que tinha tantas
energias quanto necessidades, ao passo que em Lousteau os vícios matavam
a vontade. A atriz, que desejava reaparecer cercada de novo esplendor,
entregou as cartas do droguista a Nathan, que fez com que Matifat as
resgatasse dando em troca a sexta parte do jornal cobiçada por Finot. Florina
teve então magnífico apartamento na Rue Hauteville e tomou Nathan por
protetor à face de todo o jornalismo e do mundo teatral. Lousteau sentiu-se
tão cruelmente ferido por esse acontecimento que chorou ao fim de um
jantar que os amigos lhe ofereceram para o consolar. Nessa orgia, os convivas
acharam que Nathan dera o seu golpe. Certos jornalistas, como Finot e
Vernou, sabiam da paixão do dramaturgo por Florina; mas, na opinião de
todos, Luciano, mancomunando-se na empresa, faltara às mais santas leis da
amizade. O espírito de partido e o desejo de servir a seus novos amigos
tornavam o novo monarquista indesculpável.
— Nathan foi levado pela lógica da paixão, ao passo que o grande
homem da província, como diz Blondet, cedeu apenas aos cálculos! —
exclamou Bixiou.
Desse modo, a perda de Luciano, do intruso, do pequeno tolo que queria
devorar todo mundo, foi unanimemente resolvida e profundamente
meditada. Vernou, que odiava Luciano, encarregou-se de não lhe dar
tréguas. Para não ter de pagar mil escudos a Lousteau, Finot acusou
Luciano de o haver impedido de ganhar cinquenta mil francos
comunicando a Nathan o segredo da operação contra Matifat.
XXXVII – FINURAS DE FINOT
Nathan, aconselhado por Florina, negociara o apoio de Finot, vendendo-lhe
seu pequeno sexto por quinze mil francos. Lousteau, que perdia mil escudos,
não perdoou a Luciano essa enorme lesão de seus interesses. As feridas do
amor-próprio tornam-se incuráveis quando o óxido de prata nelas penetra.
Nenhuma expressão, descrição alguma poderá dar ideia da raiva que se
apodera dos escritores quando seu amor-próprio sofre nem da energia que
encontram no momento em que se sentem picados pelas flechas
envenenadas da zombaria. Aqueles cuja energia e resistência só são
estimuladas pelo ataque sucumbem logo. As pessoas calmas cujo tema só se
fixa depois do profundo esquecimento em que tomba um artigo injurioso,
essas manifestam a verdadeira coragem literária. Desse modo, à primeira
vista, os fracos parecem ser os fortes; mas a sua resistência não é longa. Nos
primeiros quinze dias, Luciano, enraivecido, fez chover um granizo de
artigos nos jornais monarquistas onde compartilhava o poder da crítica com
Heitor Merlin. Diariamente, da muralha do Alvorada, fez fogo com toda a
sua inteligência, apoiado, aliás, por Martainville, o único que o servia sem
intenções ocultas, pois que não havia sido posto a par dos convênios secretos
assinados pelas zombarias avinhadas ou firmados nas Galeries de Bois, em
casa de Dauriat e nos bastidores dos teatros, entre os jornalistas de ambos os
partidos, que a camaradagem unia secretamente. Se Luciano aparecia no
saguão do Vaudeville, não era tratado como amigo. Unicamente as pessoas
que pertenciam ao seu partido lhe estendiam a mão, enquanto Nathan,
Heitor Merlin e Teodoro Gaillard fraternizavam, sem constrangimento, com
Finot, Lousteau, Vernou e mais alguns desses jornalistas decorados com o
nome de bons rapazes. Nessa época, o saguão do Vaudeville era o quartel-
general das maledicências literárias, uma espécie de toucador onde se viam
pessoas de todos os partidos, políticos e magistrados. Depois de uma
reprimenda feita em reunião do tribunal, o presidente, que havia censurado
a um de seus colegas o varrer os bastidores de teatro com sua toga,
encontrava-se, toga a toga, com o repreendido, no saguão do Vaudeville. Ali,
Lousteau acabou por dar a mão a Nathan. Finot ali era visto quase todas as
noites. Dispondo de tempo, Luciano ia até lá para estudar as disposições de seus inimigos, e o infeliz rapaz neles via sempre uma implacável frieza.
Naquele tempo o espírito de partido engendrava ódios muito mais sérios
do que hoje. Agora, com o correr do tempo, tudo se suavizou dada a tensão
excessivamente forte das molas. Hoje, a crítica, após haver imolado o livro de
alguém, estende-lhe a mão. A vítima deve abraçar o verdugo sob pena de ser
fustigada pelos açoites do escárnio. Em caso de recusa, o escritor passa por
insociável, intratável, saturado de amor-próprio, inabordável, rancoroso,
odiento. Hoje, o escritor apunhalado pelas costas à traição, se se livra das
ciladas que lhe armam com infame hipocrisia, se suporta os piores
procedimentos, ouve os seus assaltantes lhe desejarem bom-dia,
manifestando pretensões à sua estima e até mesmo à sua amizade. Tudo se
desculpa e justifica numa época em que se transformou a virtude em vício,
tal como se erigiram certos vícios em virtudes. A camaradagem tornou-se a
mais santa das liberdades. Os chefes das opiniões mais contrárias falam-se
com palavras embotadas, com alusões corteses. Naquele tempo, tanto quanto
nos podemos lembrar, era preciso coragem aos escritores monarquistas e aos
escritores liberais para que se encontrassem no mesmo teatro. Ouviam-se as
provocações mais odientas. Os olhares eram carregados como pistolas; a
menor faísca poderia fazer partir o tiro de uma discussão. Não era então raro
surpreenderem-se imprecações de um vizinho à entrada de alguns dos
homens mais especialmente visados pelos ataques recíprocos dos partidos.
Havia apenas dois partidos: o monarquista e o liberal, o dos românticos e o
dos clássicos. O mesmo ódio sob duas formas. Um ódio que fazia com que se
justificassem os cadafalsos da Convenção. Luciano, que se havia tornado
monarquista e romântico furioso, de liberal e voltaireano extremado que
havia sido desde sua estreia, viu-se assim sob o peso das inimizades que
pairavam sobre a cabeça do homem mais detestado nessa época pelos
liberais: de Martainville, o único que o defendeu e prezou. Tal solidariedade
foi prejudicial a Luciano. Os partidos são ingratos para com os seus guardas
avançados e abandonam de bom grado os filiados que se desgarram. Em
política, sobretudo, é necessário, aos que desejam triunfar, que marchem
com o grosso do exército. A maldade principal dos pequenos jornais consistiu
em jungir Luciano a Martainville. O liberalismo lançou-os um nos braços do
outro. Essa amizade, falsa ou verdadeira, valeu a ambos artigos escritos com fel por Feliciano, que via com desespero o êxito de Luciano na alta
sociedade, e acreditava, como todos os antigos camaradas do poeta, na sua
próxima ascensão. Sua pretendida traição foi de pronto envenenada e
acrescida de circunstâncias agravantes. Luciano foi apelidado de pequeno
Judas, e Martainville de grande Judas, pois Martainville era, com ou sem
razão, acusado de haver entregue a Pont du Pecq[361] aos exércitos
estrangeiros. Luciano respondeu rindo a Des Lupeaulx que, quanto a ele,
seguramente havia entregue uma ponte aos asnos.[362]
O luxo de Luciano, se bem que oco e fundado em esperanças, revoltava
os velhos amigos, que não lhe perdoavam nem a carruagem (porque
supunham que a possuía ainda) nem os esplendores da Rue de Vendôme.
Sentiam todos instintivamente que um homem moço e belo, inteligente e
corrompido por eles, tudo conseguiria. Daí empregarem todos os meios para
derrubá-lo.
Dias antes da estreia de Corália no Gymnase, Luciano apareceu de braço
dado com Heitor Merlin no saguão do Vaudeville. Merlin repreendia o amigo
por haver auxiliado Nathan no caso de Florina.
— Você fez de Lousteau e de Nathan inimigos mortais. Dei-lhe conselhos
e você não os aproveitou. Distribuiu elogios e espalhou benefícios; há de ser
cruelmente castigado pelas suas boas ações. Florina e Corália jamais hão de
viver em harmonia; encontrando-se no mesmo palco, cada qual há de mais
querer sobressair. Você tem apenas os nossos jornais para defender Corália.
Nathan, além da vantagem que lhe dá o seu ofício de fazedor de peças,
dispõe dos jornais liberais em assuntos de teatro e está no jornalismo há mais
tempo que você.
Essas palavras correspondiam ao íntimo receio de Luciano, que não
percebia em Nathan nem em Gaillard a franqueza a que tinha direito. Mas
não se podia queixar; estava convertido havia tão pouco tempo! Gaillard
atormentava Luciano afirmando que os novatos deviam, por muito tempo,
dar garantias antes que o partido neles pudesse confiar. O poeta encontrava
no seio dos jornais monarquistas e ministeriais uma inveja com que não
contara, a inveja que se declara entre quaisquer homens na presença de um
bolo a dividir, e que os torna comparáveis a cães a disputar uma presa:
veem-se nuns e noutros as mesmas atitudes, os mesmos caracteres, o mesmo rosnar. Esses escritores pregavam-se secretamente as piores peças para se
prejudicarem uns aos outros perante o poder; acusavam-se de tibieza, e,
para se desfazerem de um concorrente, inventavam as mais pérfidas
maquinações. Os liberais não tinham motivo algum para debates internos,
visto que estavam longe do poder e de suas graças. Ao entrever esse
inextricável emaranhado de ambições, Luciano não teve coragem bastante
para tirar a espada a fim de lhe cortar os nós, nem se sentiu com paciência
bastante para os desenredar. Não podendo ser nem o Aretino nem o
Beaumarchais nem o Fréron[363] de sua época, limitou-se a um único
desejo: conseguir o seu decreto, compreendendo que essa restauração lhe
valeria um bom casamento. Sua fortuna não dependeria então mais que de
um acaso que teria a ajuda de sua beleza. Lousteau, que lhe havia dado
provas de tanta confiança, tinha seu segredo. O jornalista sabia onde ferir de
morte o poeta de Angoulême. No dia mesmo em que Merlin conduzia o
poeta ao Vaudeville, Estêvão preparara horrenda cilada, em que Luciano,
criança como sempre, deveria cair de modo irremediável.
— Lá está o nosso belo Luciano — disse Finot levando Des Lupeaulx,
com quem conversava, para junto do poeta cuja mão tomou com enganosos
trejeitos de amizade. — Não conheço outro exemplo de fortuna tão rápida
como a sua — disse Finot olhando ora para Luciano, ora para o referendário.
— Em Paris, a fortuna pode ser de duas espécies: há a fortuna material, a do
dinheiro, que todo mundo pode amontoar, e a fortuna moral das relações da
posição, do acesso a uma certa sociedade inatingível para muitos, seja qual
for a sua riqueza material, e o meu amigo...
— Nosso amigo — corrigiu Des Lupeaulx, volvendo para Luciano um
olhar acariciador.
— Nosso amigo — continuou Finot, dando tapinhas amáveis na mão de
Luciano que tinha entre as suas — fez, sob este último aspecto, uma fortuna
brilhante. Em verdade, Luciano possui mais meios, mais talento, mais
espírito que todos os seus invejosos; depois, é de uma beleza deslumbrante.
Seus velhos amigos não lhe perdoam o êxito, dizem que ele teve sorte.
— Essa espécie de sorte, porém — disse Des Lupeaulx —, nunca chega
aos tolos nem aos incapazes. Eh! pode-se chamar de sorte o destino de
Bonaparte? Havia vinte generais antes dele para comandar os exércitos da Itália, assim como há cem rapazes neste momento que desejariam ser
recebidos em casa da srta. des Touches, que na sociedade já lhe dão por
esposa, meu caro! — disse Des Lupeaulx, batendo no ombro de Luciano. —
Ah! você goza de muito prestígio. A sra. d’Espard, a sra. de Bargeton e a sra.
de Montcornet são loucas por você. Não vai esta noite à recepção da sra.
Firmiani e amanhã à festa da duquesa de Grandlieu?[364]
— Sim — respondeu Luciano.
— Permita-me que lhe apresente um jovem banqueiro, o sr. Du Tillet,
homem digno de você. Soube fazer uma bela fortuna e em pouco tempo.
Luciano e Du Tillet saudaram-se, puseram-se a conversar e o banqueiro
convidou Luciano para jantar. Finot e Des Lupeaulx, dois homens de igual
profundeza e que se conheciam sobejamente para não continuarem amigos,
pareciam prosseguir numa conversa interrompida. Deixaram Luciano,
Merlin, Du Tillet e Nathan em palestra e se dirigiram para um dos divãs que
mobiliavam o saguão do Vaudeville.
— Ah! escute, caro amigo — disse Finot a Des Lupeaulx —, diga-me a
verdade: Luciano é realmente protegido? Porque ele se tornou o alvo de
todos os meus redatores, e, antes de lhes favorecer a conspiração, quis
consultá-lo para saber se não será melhor frustrá-la e servir o rapaz.
Nesta altura, o referendário e Finot olharam um para o outro com
profunda atenção, numa breve pausa.
— Como é que você, meu caro — respondeu Des Lupeaulx —, pôde
imaginar que a marquesa d’Espard, Châtelet e a sra. de Bargeton, que obteve
para o barão o cargo de prefeito de Charente e o título de conde a fim de vê-
lo reentrar triunfalmente em Angoulême, perdoem a Luciano os seus
ataques? Atraíram-no ao partido monarquista a fim de o anular. Andam
agora à procura de motivos para recusar o que prometeram a essa criança.
Será você capaz de encontrar algum? Prestaria imenso serviço a essas duas
mulheres, e um dia ou outro haveriam de lembrá-lo. Possuo o segredo dessas
duas damas: odeiam a esse rapazinho a tal ponto que me surpreenderam.
Esse Luciano teria podido desembaraçar-se de sua mais cruel inimiga, a sra.
de Bargeton, só cessando os ataques sob condições que todas as mulheres
gostam de executar, compreende? Ele é belo, é jovem, teria afogado aquele
ódio em torrentes de amor. Seria então conde de Rubempré; a Espinha lhe teria obtido um lugar na casa do rei, sinecuras! Luciano seria um bonito
leitor para Luís xviii; teria sido bibliotecário não sei onde, referendário para
divertir-se, diretor de qualquer coisa nalguma repartição de fantasia. Esse
tolinho deixou falhar o golpe. Talvez seja isso o que não lhe perdoaram. Em
vez de impor condições, ele as recebeu. No dia em que Luciano se deixou
prender à promessa do decreto, o barão Châtelet deu um grande passo. Foi
Corália quem perdeu esse menino. Se não tivesse a atriz por amante, teria
tornado a querer a Espinha, e esta seria sua.
— Então, podemos abatê-lo — concluiu Finot.
— Por que meio? — perguntou negligentemente Des Lupeaulx, que
queria prevalecer-se desse serviço junto da marquesa d’Espard.
— Ele firmou contrato que o obriga a trabalhar no pequeno jornal de
Lousteau. Obrigá-lo-emos a escrever, escrever muitos artigos, tanto mais que
está sem um vintém. Se o ministro da Justiça se suscetibilizar com algum
tópico engraçado e lhe provarmos que Luciano é o seu autor, há de encará-
lo como indigno dos favores do rei. Para que o grande homem da província
perca um pouco a cabeça, estamos preparando a queda de Corália: há de
ver a amante vaiada e sem papéis. Uma vez adiado o decreto
indefinidamente, zombaremos de suas pretensões aristocráticas; falaremos
da mãe parteira e do pai boticário. Luciano não tem senão coragem de
epiderme, há de sucumbir; mandá-lo-emos de volta para o lugar de onde
veio. Nathan fez com que Florina me vendesse a sexta parte do semanário
que Matifat possuía. Consegui comprar a parte do papeleiro. Estou só, com
Dauriat. Poderemos entender-nos, você e eu, para converter o jornal aos
interesses da Corte. Só protegi Florina e Nathan com a condição de que me
fosse restituído o meu sexto. Eles mo cederam, devo servi-los; mas, antes,
desejava conhecer as possibilidades de Luciano...
— O senhor é digno de seu nome — confessou Des Lupeaulx a rir. —
Arre!... gosto das pessoas como o senhor...
— Muito bem; poderá o senhor conseguir para Florina um contrato
definitivo? — perguntou Finot.
— Sim; mas desembarace-nos de Luciano, porque Rastignac e De
Marsay não querem nem sequer ouvir falar nele.
— Durmam em paz — respondeu Finot. — Nathan e Merlin terão sempre preferência em artigos que se dirá serem exigidos por Gaillard.
Luciano não poderá publicar sequer uma linha. Nós lhe cortaremos assim os
víveres. Só contará com o jornal de Martainville para se defender e defender
Corália. Um jornal contra todos, será impossível resistir.
— Eu lhe direi quais os pontos sensíveis do ministro, mas terá de me
entregar o manuscrito do artigo que Luciano escrever — respondeu Des
Lupeaulx, que se absteve cuidadosamente de dizer a Finot que o decreto
prometido a Luciano era apenas brincadeira.
Des Lupeaulx deixou o saguão. Finot aproximou-se de Luciano e,
naquele tom de bonomia que tinha cativado tantas criaturas, explicou-lhe
que não podia renunciar à redação que lhe fora entregue. Finot fingiu
recuar diante da ideia de um processo que iria comprometer as esperanças
que o amigo depositava no partido monarquista. Gostava, disse, dos homens
bastante fortes para mudar ousadamente de opinião. Ele e Luciano não
deveriam acaso tornar a encontrar-se na vida? Não tinham então mil
pequenos serviços a prestar um ao outro? Luciano precisava de alguém bem
firmado no partido liberal para fazer atacar os ministeriais ou os ultras que se
recusassem a servi-lo.
— Se o desprezassem, que haveria de fazer? — perguntou Finot, para
terminar. — Se algum dos ministros, acreditando tê-lo preso pelo cabresto da
apostasia, perder o receio a ponto de o mandar passear, não seria necessário
lançar-lhe alguns cães para lhe morderem as pernas? Pois bem, você está
mortalmente inimizado com Lousteau, que pede a sua cabeça. Você e
Feliciano nem se falam mais. Somente eu fiquei a seu lado! Uma das leis da
minha profissão é viver em boa inteligência com os homens verdadeiramente
fortes. Poderá prestar-me, na sociedade a que vai pertencer, o equivalente
dos serviços que lhe prestarei na imprensa. Mas os negócios antes de tudo!
Mande-me artigos literários; eles não o comprometerão, e você terá
executado nossas convenções.
Luciano não viu mais que amizade unida a sábios cálculos nas
proposições de Finot, cujas lisonjas, somadas às de Des Lupeaulx, o haviam
posto de bom humor. Agradeceu.
XXXVIII – A SEMANA FATAL
Na vida dos ambiciosos e de todos quantos não podem triunfar senão com a
ajuda dos homens e das coisas, segundo um plano de ação mais ou menos
bem estabelecido, observado e mantido, há um momento cruel em que não
sei que poder os submete a rudes provas: tudo falha ao mesmo tempo, por
todos os lados os fios se rompem ou se emaranham, a desgraça surge de
todos os cantos. Se um homem perde a cabeça em meio dessa desordem
moral, está perdido. Os que sabem resistir a essa primeira revolta das
circunstâncias, que se conservam firmes deixando passar a tormenta, que
fogem, subindo, por meio de um espantoso esforço, à esfera superior, esses
são os homens realmente fortes. Todo homem, a menos que tenha nascido
rico, enfrenta assim o que é preciso chamar a sua semana fatal. Para
Napoleão, essa semana foi a da retirada de Moscou.
Esse cruel momento havia chegado para Luciano. Tudo havia sucedido
com demasiada felicidade para ele, tanto na sociedade como na literatura;
havia sido feliz demais; teria, pois, de ver os homens e as coisas voltarem-se
contra ele. A primeira dor foi a mais viva e a mais cruel de todas, atingindo-o
justamente lá onde ele se acreditava invulnerável: no seu coração e no seu
amor. Corália podia não ser inteligente; era, porém, dotada de uma bela
alma, tinha a faculdade de exteriorizá-la por meio desses impulsos
repentinos que fazem as grandes atrizes. Esse estranho fenômeno, enquanto
não se torna hábito pelo uso constante, submete-se aos caprichos do caráter
e muitas vezes a um admirável pudor que domina as atrizes ainda moças.
Interiormente ingênua e tímida, mas, na aparência, ousada e lesta como
deve ser uma comediante, Corália mesmo no amor sentia a reação de seu
coração de mulher contra a máscara de comediante. A arte de representar
os sentimentos, essa sublime falsidade, não havia ainda triunfado nela sobre
a natureza. Tinha vergonha de dar ao público aquilo que só pertencia ao
amor. Tinha, além disso, a fraqueza peculiar às mulheres verdadeiras.
Sabendo-se destinada a reinar no palco como soberana, tinha necessidade
do triunfo. Incapaz de afrontar uma plateia com a qual não simpatizasse,
tremia sempre ao entrar em cena, momento em que a frieza do público
podia enregelá-la. Essa terrível emoção fazia-a ver em cada novo papel uma
nova estreia. Os aplausos causavam-lhe uma espécie de embriaguez, inútil
ao seu amor-próprio, mas indispensável à sua coragem. Um murmúrio de desaprovação ou o silêncio de um público distraído anulavam-lhe os
recursos. Uma sala cheia, atenta, olhares de admiração e benevolência a
eletrizavam; punha-se então em comunhão com as qualidades nobres de
todas aquelas almas e sentia-se dotada do poder de as elevar e comover. Esse
duplo efeito demonstrava bem a natureza nervosa e a constituição do gênio,
traindo por outro lado a fragilidade e a ternura da pobre menina. Luciano
acabara por apreciar os tesouros que aquele coração encerrava; havia