A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 5 de 6 · parte 10/12

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

vocês quer escrever uma brochura pedindo o restabelecimento do direito de

primogenitura,[337] a fim de levantar protestos contra os ocultos desígnios

da Corte? A brochura será bem paga.

— Eu — respondeu Heitor Merlin —; está de acordo com as minhas

opiniões.

— Teu partido diria que tu o comprometes — replicou Finot. —

Feliciano, encarrega-te dessa brochura. Dauriat a editará, e nós guardaremos

o segredo.

— Quanto pagam? — perguntou Vernou.

— Seiscentos francos! Assinarás: Conde C...

— Está certo! — concordou Vernou.

— Vão então elevar o boato até a política? — interrogou Lousteau.

— É o negócio de Chabot[338] transportado para a esfera das ideias —

explicou Finot. — Atribuem-se ao governo certas intenções, e se desencadeia

contra ele a opinião pública.

— Mergulharei no mais profundo assombro se vir o governo abandonar a

direção das ideias a malandros como nós — observou Cláudio Vignon.

— Se o ministério cometer a tolice de descer à arena — replicou Finot —,

acometê-lo-emos a toque de caixa. Se se irritar, envenenar-se-á a questão

intrigando-o com as massas. O jornal nunca arrisca nada onde o poder tudo

tem a perder.

— A França permanecerá aniquilada enquanto o jornal não for posto

fora da lei — afirmou Cláudio Vignon. — Vocês progridem de hora em hora,

serão jesuítas, tendo de menos a fé, o pensamento fixo, a disciplina e a

união.

Voltaram todos para as mesas de jogo. A luz da aurora, logo depois, fez as

velas empalidecerem.

— Teus amigos da Rue des Quatre-Vents estavam tristes como

condenados à morte — disse Corália ao amante.

— Eram os juízes — respondeu o poeta.

— Os juízes são mais divertidos que eles — disse Corália.

 

XXXI – A SOCIEDADE

 

Durante um mês Luciano viu seu tempo tomado por ceias, jantares, almoços

e festas, e foi arrastado por uma torrente invencível num turbilhão de

prazeres e de trabalho fácil. Não fazia mais cálculos. O poder do cálculo em

meio às complicações da vida é como que o selo das grandes vontades, que os

poetas, as criaturas fracas ou puramente espirituais jamais podem imitar.

Como a maior parte dos jornalistas, Luciano viveu imprevidentemente

gastando o dinheiro à medida que o ganhava, sem pensar absolutamente nas

exigências periódicas da vida parisiense, esmagadoras para tais boêmios. Suas

roupas e modo de vida rivalizavam com os dos mais notados leões da moda.

Corália, como todos os fanáticos, adorava enfeitar seu ídolo; arruinava-se

para dar a seu querido poeta a requintada indumentária dos elegantes que

ele tanto havia desejado no seu primeiro passeio pelas Tuileries. Luciano teve então maravilhosas bengalas, uma encantadora luneta, botões de

diamantes, prendedores para as gravatas, solitários, além de coletes miríficos

e em grande número para poder combinar com as cores dos trajes. Depressa

foi proclamado dândi. No dia em que atendeu ao convite do diplomata

alemão, sua metamorfose excitou uma espécie de inveja contida entre os

jovens que ali se encontravam e que ocupavam os mais altos postos no reino

da elegância, tais como De Marsay, Vandenesse, D’Ajuda-Pinto, Máximo de

Trailles, Rastignac, o duque de Maufrigneuse, Beaudenord, Manerville etc.

Os homens de sociedade têm ciúmes uns dos outros, tal como as

mulheres. A condessa de Montcornet e a marquesa d’Espard, a quem era

oferecido o jantar, ficaram com Luciano entre elas e o cumularam de

amabilidades.

— Por que motivo abandonou a sociedade? — perguntou-lhe a marquesa

—, ela estava tão disposta a acolhê-lo e festejá-lo. Tenho uma queixa a lhe

fazer: o senhor me deve uma visita e a espero até hoje. Vi-o outro dia na

Opéra, e não se dignou ver-me nem me cumprimentar.

— Sua prima, senhora, despediu-me de um modo tão positivo...

— Não conhece as mulheres — respondeu a sra. d’Espard,

interrompendo-o. — O senhor feriu o coração mais angélico e a mais nobre

alma que conheço. Ignora tudo o que Luísa desejou fazer pelo senhor e

quanta delicadeza pôs em seu plano. Oh! ela teria sido bem-sucedida —

afirmou ao ver o gesto de mudo protesto de Luciano. — Seu marido, agora

morto como deveria morrer, de uma indigestão, não lhe iria devolver, mais

cedo ou mais tarde, a liberdade? Acredita que ela pudesse desejar ser a sra.

Chardon? O título de condessa de Rubempré, sim, valeria bem a pena ser

conquistado. Saiba que o amor é uma grande vaidade que se deve combinar,

sobretudo no casamento, com todas as outras vaidades. Eu poderia amá-lo

até a loucura, isto é, a ponto de me casar com o senhor, e me haveria de ser

bastante duro chamar-me sra. Chardon. Não concorda? Hoje, que conhece

as dificuldades da vida em Paris, sabe quantas voltas é preciso dar para

chegar a um fim; pois bem, confesse que, para um desconhecido sem

futuro, Luísa aspirava a um favor quase impossível; precisava pois não

negligenciar coisa alguma. O senhor tem muita inteligência, mas nós,

quando amamos, temo-la muito mais do que o homem mais talentoso. Minha prima queria empregar esse ridículo Du Châtelet... Devo-lhe um prazer, seus

artigos contra ele me têm feito rir muito! — disse ela, interrompendo-se.

Luciano não sabia o que pensar. Iniciado nas traições e perfídias do

jornalismo, ignorava as da sociedade; e por isso, apesar de sua perspicácia,

deveria receber rudes lições.

— Como, senhora! — perguntou o poeta, com a curiosidade vivamente

despenada. — Não protege o Socó?

— Mas na sociedade somos forçados a tratar com polidez aos mais cruéis

inimigos, a parecer divertir-nos com os enfadonhos e muitas vezes

sacrificamos, aparentemente, os amigos para melhor os servir. É ainda tão

ingênuo assim? Como! O senhor que quer escrever ignora os ardis correntes

na sociedade? Se minha prima pareceu sacrificá-lo ao Socó, não o fazia ao

acaso, pois isso era necessário para pôr a sua influência em campo pelo

senhor, visto que o nosso homem é muito bem visto pelo atual ministério.

Desse modo, demonstramos a ele que até certo ponto seus ataques lhe eram

úteis, com o fito de os poder harmonizar ainda algum dia. Du Châtelet foi

indenizado das suas perseguições, pois como dizia Des Lupeaulx aos

ministros: “Enquanto os jornais ridicularizam Du Châtelet, deixam o

ministério em paz”.

— O sr. Blondet deu-me a esperança de ter o prazer de vê-lo em minha

casa — disse a condessa de Montcornet num intervalo de tempo em que a

marquesa abandonara Luciano às suas reflexões. — Lá encontrará alguns

artistas, escritores, e uma mulher que tem o mais vivo desejo de o conhecer,

a srta. des Touches,[339] um desses talentos raros em nosso sexo, e à casa de

quem o senhor haverá de ir sem dúvida. A srta. des Touches, Camille

Maupin, se quiser, possui um dos salões mais interessantes de Paris. É

prodigiosamente rica. Disseram-lhe que o senhor é tão belo como inteligente,

e ela morre de desejo de o conhecer.

Luciano só pôde confundir-se em agradecimentos. Lançou a Blondet

um olhar de inveja. Havia tamanha diferença entre uma mulher do gênero

e da qualidade da condessa de Montcornet e de Corália, como entre Corália

e uma mulher das ruas. A condessa, jovem, bela e inteligente, tinha como

traço de beleza predominante a excessiva brancura das mulheres do norte;

sua mãe nascera princesa de Scherbellof. Também o ministro, antes do jantar, prodigalizara-lhe as mais respeitosas atenções. A marquesa havia já

acabado de chupar desdenhosamente uma asa de frango.

— A minha pobre Luísa — começou ela dirigindo-se a Luciano — tinha

tanta afeição pelo senhor! Eu era confidente do belo futuro que ela sonhava

para o senhor. Ela teria suportado muitas coisas, mas quanto desprezo o

senhor lhe demonstrou devolvendo-lhe as cartas! Perdoamos crueldades —

é preciso crer ainda em nós para nos ferir. Mas a indiferença! A indiferença

é como a neve dos polos, mata tudo. Vamos, terá de convir em que perdeu

tesouros por sua própria culpa. Para que um rompimento? Mesmo que

houvesse sido desdenhado, não tem acaso sua fortuna a fazer, seu nome a

reconquistar? Luísa pensava em tudo isso.

— Por que nada me disse então? — perguntou Luciano.

— Mas, meu Deus! Fui eu mesma que lhe dei o conselho de nada confiar

ao senhor. Ouça, aqui entre nós, ao vê-lo tão pouco afeito ao mundo, eu o

temia — tinha medo de que sua inexperiência e seu inconsiderado ardor

destruíssem ou atrapalhassem seus cálculos e nossos planos. Pode neste

momento lembrar-se de si mesmo? Confesse que seria de minha opinião se

visse hoje seu sósia. Não se parece mais com o senhor mesmo. Foi esse o

único erro que cometemos; mas, entre mil, encontra-se acaso um único

homem que reúna a tanta inteligência tão maravilhosa possibilidade de

adaptar-se? Não julguei que constituísse tão surpreendente exceção. A

metamorfose foi tão rápida, o senhor iniciou-se tão facilmente nos hábitos

parisienses, que não o reconheci no Bois de Boulogne, há um mês.

Luciano escutava a grande dama com um prazer inexprimível: ela aliava

às palavras lisonjeiras um ar tão confiante, tão teimoso, tão ingênuo, parecia

interessar-se tão profundamente por ele que acreditou nalgum prodígio

semelhante ao de sua primeira noite no Panorama-Dramatique. A partir

daquela noite feliz, todo o mundo lhe sorria. Ele atribuía à sua mocidade um

poder talismânico. Quis então pôr à prova a marquesa, prometendo porém a

si mesmo que não se deixaria surpreender.

— Quais eram então, senhora, esses planos hoje transformados em

quimeras?

— Luísa queria obter do rei um decreto que lhe permitisse usar o nome e

o título De Rubempré. Queria enterrar o Chardon. Esse primeiro êxito, tão fácil de obter então, e que atualmente suas opiniões tornam quase

impossível, seria para o senhor uma fortuna. Chamará essas ideias de visões e

bagatelas, mas conhecemos alguma coisa da vida e sabemos tudo o que há de

sólido num título de conde usado por um elegante, por um rapaz

encantador. Anuncie aqui diante de alguns jovens milionários ingleses ou

diante de ricas herdeiras: “Sr. Chardon” ou “O sr. conde de Rubempré” e

haverá dois movimentos muito diferentes. Mesmo cheio de dívidas, o conde

encontraria os corações abertos. Sua beleza, posta em relevo, seria como um

brilhante em rico engaste. O sr. Chardon nem sequer seria notado. Essas

ideias não foram criadas por nós, encontramo-las reinando por toda a parte,

mesmo entre os burgueses. Neste momento o senhor está voltando as costas

à fortuna. Olhe aquele rapaz ali, o visconde Félix de Vandenesse, é um dos

dois secretários particulares do rei. O rei gosta muito dos jovens de talento, e

esse ali, quando chegou de sua província, não trazia bagagem mais vultosa

do que a sua, e o senhor tem mil vezes mais inteligência que ele. Mas

pertence acaso a uma grande família? Tem um nome? Conhece Des

Lupeaulx? Seu nome se assemelha ao seu, chama-se Chardin; mas não

venderia por um milhão sua propriedade rural Des Lupeaulx; ele será

qualquer dia conde des Lupeaulx, e seu neto talvez ainda venha a ser um

grande senhor. Se o senhor continuar pela falsa estrada por onde se

encaminhou, estará perdido. Veja como o sr. Emílio Blondet é mais prudente

que o senhor: pertence a um jornal que apoia o poder, é bem-visto por todas

as potências atuais e pode, sem perigo, conviver com os liberais; ele pensa

bem. Por isso, mais cedo ou mais tarde há de triunfar. Soube escolher suas

opiniões e seus protetores. Essa linda criatura, sua vizinha, é uma nobre De

Troisville que tem na família dois pares de França e dois deputados. Fez um

casamento rico devido ao nome. Recebe muito. Terá influência e há de

revolver o mundo político por esse pequeno Emílio Blondet. A que o leva

uma Corália? A se encontrar perdido de dívidas e fatigado de prazeres daqui

a alguns anos. Emprega mal o seu amor e arranja mal a sua vida. Eis o que

me dizia outro dia, na Opéra, a mulher que o senhor sente prazer em ferir.

Deplorando o uso que faz de seu talento e de sua bela juventude, ela não

pensava em si, mas no senhor.

— Ah! se fosse verdade, senhora! — exclamou Luciano.

— Que interesse teríamos em lhe mentir? — perguntou a marquesa,

lançando a Luciano um olhar altivo e frio que o tornou a mergulhar no caos.

Luciano, interdito, não retomou a conversa; a marquesa, ofendida, não

mais lhe falou. Sentia-se melindrado, mas reconheceu que tinha havido

inabilidade de sua parte e tencionou repará-la. Voltou-se para a sra. de

Montcornet e lhe falou em Blondet, exaltando o mérito do jovem escritor.

Foi bem recebido pela condessa, que, a um sinal da sra. d’Espard, convidou-

o para a sua próxima recepção, perguntando-lhe se não teria prazer em ver

ali a sra. de Bargeton, que, apesar do luto, compareceria; não se tratava de

uma grande festa, era sua reunião cotidiana, estariam entre amigos.

— A senhora marquesa — respondeu Luciano — pretende que todos os

erros estão do meu lado; não será a vez de sua prima de ser amável comigo?

— Faça cessar os ridículos ataques de que ela é alvo, e que, aliás, tanto a

comprometem com um homem de quem ela zomba, e o senhor terá em

seguida a paz assinada. Julgou-se enganado por ela, segundo me disseram;

entretanto eu a vi bem triste com o seu abandono. É verdade que ela deixou

sua província com o senhor e por sua causa?

Luciano olhou para a condessa sorrindo sem ousar responder.

— Como podia desconfiar de uma mulher que fez tais sacrifícios pelo

senhor? Aliás, bela e inteligente como é, ela devia ser amada apesar dos

pesares. A sra. de Bargeton amava-o menos pelo senhor que pelo seu

talento. Acredite-me, as mulheres amam o espírito antes de amar a beleza

física — disse ela olhando furtivamente para Emílio Blondet.

Luciano conheceu no palácio do ministro as diferenças existentes entre

a alta sociedade e o mundo excepcional em que vivia há algum tempo. Essas

duas magnificências não tinham similitude alguma, ponto algum de

contato. A altura e a disposição das peças naquele apartamento — um dos

mais ricos do Faubourg Saint-Germain —, os antigos dourados dos salões, a

grandiosidade das decorações, a grave riqueza dos acessórios, tudo lhe era

novo e estranho. Mas o hábito das coisas de luxo, tão rapidamente adquirido,

impediu Luciano de parecer admirado. Sua atitude manteve-se tão

distanciada do convencimento e da fatuidade como da lisonja e do

servilismo. O poeta mostrou boas maneiras e agradou àqueles que não

tinham razão alguma para lhe ser hostis, como os jovens a quem sua repentina introdução na alta-roda, seus êxitos e beleza haviam despertado

ciúmes.

Ao sair da mesa, ofereceu o braço à sra. d’Espard, que o aceitou. Ao ver

Luciano cortejado pela marquesa d’Espard, Rastignac veio lembrar-lhe sua

qualidade de conterrâneo e recordar sua primeira entrevista em casa da sra.

du Val-Noble. O jovem fidalgo pareceu querer ligar-se ao grande homem de

sua província convidando-o a almoçar em sua casa qualquer dia e se

oferecendo para fazê-lo conhecer os rapazes da moda.

Luciano aceitou a proposta.

— O caro Blondet lá também estará — disse Rastignac.

O ministro veio juntar-se ao grupo formado pelo marquês de

Ronquerolles, o duque de Rhétoré, De Marsay, o general Montriveau,

Rastignac e Luciano.

— Muito bem — disse ele a Luciano com sua bonomia alemã sob a qual

escondia temível argúcia —; fez as pazes com a sra. d’Espard, que está

encantada com senhor; e todos nós sabemos — disse ele, olhando os homens

em torno — o quanto é difícil agradar-lhe.

— É verdade, porém ela adora a inteligência — afirmou Rastignac —, e

aqui o meu ilustre compatriota a tem para dar e vender.

— Ele não tardará a reconhecer o mau negócio que faz — atalhou

vivamente Blondet. — Há de vir para nós; será dentro em breve um dos

nossos.

Houve então em torno de Luciano um coro sobre esse tema. Os homens

graves lançaram algumas frases profundas em tom despótico; os moços

zombaram do partido liberal.

— Ele jogou cara ou coroa, tenho certeza — disse Blondet —, pela

esquerda ou pela direita; agora é que vai realmente escolher.

Luciano pôs-se a rir lembrando-se da cena no Luxembourg com

Lousteau.

— Ele tomou por cornaca — continuou Blondet — um tal Estêvão

Lousteau, um aventureiro de jornaleco que numa coluna vê apenas uma

peça de cem sous, cuja política consiste em acreditar na volta de Napoleão e,

o que me parece ainda mais parvo, no reconhecimento, no patriotismo dos

senhores da esquerda. Como um Rubempré, os pendores de Luciano devem ser aristocratas; como jornalista, deve ser pelo poder, ou não há de ser nunca

nem Rubempré nem secretário-geral.

Luciano, a quem o diplomata oferecera cartas para jogar o uíste, excitou

a mais viva surpresa confessando que não sabia jogar.

— Meu amigo — disse-lhe Rastignac ao ouvido —, vá cedo a minha casa

no dia em que se dispuser a aceitar meu mau almoço; eu lhe ensinarei o

uíste. O senhor desonra nossa real cidade de Angoulême, e repetirei um dito

de Talleyrand dizendo que quem não sabe esse jogo está preparando uma

velhice bem infeliz.

Anunciaram Des Lupeaulx, um referendário em pleno fastígio, que

prestava serviços secretos ao ministério, homem sagaz e ambicioso que se

insinuava por toda a parte.

Cumprimentou Luciano, com o qual já se havia encontrado em casa da

sra. du Val-Noble, e mostrou em seu cumprimento modos amáveis que

deveriam enganar Luciano. Encontrando o jovem jornalista, aquele homem,

que se fazia em política amigo de todo mundo a fim de não ser tomado

desprevenido por ninguém, compreendeu que Luciano iria obter na

sociedade triunfo igual ao que tivera na literatura. Viu no poeta um

ambicioso e o cercou de protestos e testemunhos de amizade e de interesse,

de maneira a consolidar relações e a enganar Luciano quanto ao valor de

suas promessas e palavras. Des Lupeaulx tinha por princípio conhecer bem

aqueles de quem se queria desfazer, quando neles encontrava rivais.

Luciano foi, assim, bem acolhido pela sociedade. Compreendeu tudo o

que devia ao duque de Rhétoré, ao ministro, à sra. d’Espard, à sra. de

Montcornet. Foi conversar durante alguns instantes com cada um deles

antes de partir e ostentou para eles toda a graça de seu espírito.

— Quanta fatuidade! — comentou Des Lupeaulx para a marquesa, mal

Luciano a deixou.

— Ele se estragará antes de amadurecer — observou De Marsay à

marquesa, sorrindo. — A senhora deve ter razões ocultas para lhe fazer a

cabeça andar assim à roda.

Luciano encontrou Corália no fundo de sua carruagem, no pátio; tinha

vindo esperá-lo. Ficou comovido com a atenção e contou-lhe o que se

passara durante a noite. Para seu grande espanto, a atriz aprovou as novas ideias que martelavam já na cabeça de Luciano e o aconselhou com

empenho a se alistar sob a bandeira ministerial.

— Com os liberais só terás golpes a receber. Eles conspiram. Mataram o

duque de Berry. Chegarão a derrubar o governo? Jamais! Com eles nunca

hás de chegar a coisa alguma; enquanto, do outro lado, te tornarás conde de

Rubempré. Podes prestar serviços, ser nomeado par de França, desposar

uma mulher rica. Torna-te um ultra. Aliás, é o bom gênero — acrescentou,

lançando a palavra que para ela era a razão suprema.

— A Du Val-Noble, em casa de quem fui jantar, disse-me que Teodoro

Gaillard vai decididamente fundar seu pequeno jornal realista chamado A

Alvorada,[340] a fim de ripostar aos remoques do de vocês e aos do Espelho.

[341] Segundo diz ela, o sr. de Villèle e seu partido estarão no ministério

antes de um ano. Trata de te aproveitar dessa mudança tornando-te um dos

do grupo enquanto nada são ainda. Nada digas, porém, a Estêvão nem aos

teus amigos, que seriam capazes de te pregar alguma peça.

Oito dias depois, Luciano apresentou-se em casa da sra. de Montcornet,

onde sentiu a mais violenta agitação ao rever a mulher que tanto havia

amado, e cujo coração ferira com suas caçoadas. Luísa também se havia

metamorfoseado! Tornara-se o que teria sido sempre sem a estada na

província — uma grande dama. Tinha no luto a graça e o requinte que

revelam uma viúva feliz. Luciano julgou-se em parte causa daquela garridice

e não se enganava. Mas havia, como um ogre, provado carne fresca e

permaneceu, durante toda a recepção, indeciso entre a bela, a amorosa, a

voluptuosa Corália e a seca, a altiva, a cruel Luísa. Não pôde tomar a decisão

de sacrificar a atriz à grande dama.

A sra. de Bargeton, que tornava agora a sentir amor por Luciano ao vê-lo

tão inteligente e tão belo, esperou por esse sacrifício durante toda a noitada;

gastou em vão suas palavras insidiosas, seus modos sedutores, e saiu do salão

com um irrevogável desejo de vingança.

— E então, caro Luciano — disse ela com uma bondade cheia de graça

parisiense e de nobreza —, você que deveria ser o meu orgulho me escolheu,

no entanto, para sua primeira vítima. Perdoei-lhe, meu filho, ao pensar que

havia ainda um resto de amor numa vingança assim.

A sra. de Bargeton retomava sua posição com essa frase acentuada pela atitude soberana que assumiu ao pronunciá-la. Luciano, que acreditava ter

mil vezes razão, encontrou-se culpado. Não se falou na terrível carta que ele

escrevera por ocasião do rompimento, nem nos motivos deste. As mulheres

da alta-roda têm um talento maravilhoso para diminuir seus erros

gracejando. Podem e sabem tudo apagar com um sorriso, com uma pergunta

que finge surpresa. Não se lembram de nada, explicam tudo, assombram-se,

interrogam, comentam, ampliam, brigam e acabam por fazer desaparecer

suas faltas assim como se tira qualquer mancha com uma ensaboadela: são

negras, mas num momento tornam-se brancas e inocentes. Quanto a nós, é o

caso de nos julgarmos bem felizes se não formos acusados de um crime

irremissível. Num instante Luciano e Luísa haviam readquirido todas as

ilusões recíprocas e falavam a linguagem da amizade. Luciano, porém,

embriagado de vaidade satisfeita, embriagado de Corália, que — digamo-lo —

lhe tornava a vida fácil, não soube responder nitidamente à pergunta que

Luísa acompanhou com um suspiro de hesitação:

— É feliz?

Um “não” melancólico teria sido a sua sorte. Pensou ser inteligente

explicando Corália. Disse que era amado por si mesmo, disse enfim todas as

tolices de um homem enamorado. A sra. de Bargeton mordeu os lábios. Tudo

fora dito. A sra. d’Espard veio para junto da prima com a sra. de Montcornet.

Luciano viu-se transformado, por assim dizer, no herói da noite: foi

acariciado, mimado pelas três mulheres que o embrulharam com arte

infinita. Seu triunfo nessa bela e brilhante sociedade não foi pois menor que

no seio do jornalismo. A linda srta. des Touches, célebre sob o pseudônimo de

Camille Maupin, e a quem as sras. d’Espard e de Bargeton apresentaram

Luciano, convidou-o para um de seus jantares de quarta-feira e pareceu

impressionada por aquela beleza tão justamente famosa.

Luciano tentou demonstrar que era ainda mais inteligente do que

bonito. A srta. des Touches exprimiu sua admiração com essa ingênua graça

e esse furioso empenho da amizade superficial na qual se deixam prender

todos aqueles que não conhecem a fundo a vida parisiense, onde o hábito e a

continuidade dos gozos fazem todos tão ávidos de novidades.

— Se eu lhe agradasse tanto quanto ela me agrada — confessou Luciano

a Rastignac e a De Marsay —, abreviaríamos o romance...

— Vocês ambos sabem muito bem escrevê-los para quererem vivê-lo —

respondeu Rastignac. — Entre escritores pode acaso existir o amor? Chega

sempre um certo momento em que se dizem mutuamente palavrinhas

mordazes.

— Não seria para você um mau sonho — disse De Marsay rindo. — Essa

encantadora moça tem trinta anos, é verdade, mas tem perto de oitenta mil

francos de renda. É adoravelmente caprichosa e o seu gênero de beleza

deverá conservar-se assim por muito tempo. Corália é uma tolinha, meu

caro, boa apenas para o pôr em evidência, já que é preciso que um bonito

rapaz não deixe de ter uma amante; mas, se você não fizer uma bela

conquista na sociedade, a atriz com o correr do tempo acabará por

prejudicá-lo. Vamos, meu caro, suplante Conti, que vai cantar com Camille

Maupin. Em todos os tempos a poesia teve primazia sobre a música.

Quando Luciano ouviu a srta. des Touches e Conti, suas esperanças se

desvaneceram.

— Conti canta muito bem — confessou a Des Lupeaulx, e voltou para

junto da sra. de Bargeton, que o conduziu ao salão em que se achava a

marquesa d’Espard.

— E então, não quer interessar-se por ele? — perguntou a sra. de

Bargeton à prima.

— Sim, desde que o sr. Chardon se coloque em posição de ser protegido

sem inconveniente para seus protetores — respondeu a marquesa com ar

impertinente e doce ao mesmo tempo. — Se quer obter o decreto que lhe

permita trocar o triste nome de seu pai pelo de sua mãe, não deve ao menos

ser dos nossos?

— Antes de dois meses terei tudo arranjado — prometeu Luciano.

— Pois bem — disse a marquesa —, falarei com meu pai e meu tio, que

estão a serviço do rei. Eles falarão do senhor ao chanceler.

O diplomata e essas duas mulheres haviam adivinhado bem o ponto

sensível em Luciano. O poeta, deslumbrado com os esplendores

aristocráticos, sentia indizíveis mortificações ao se ouvir chamar Chardon,

quando só via terem entrada nos salões homens que ostentavam nomes

sonoros encastoados em títulos. Esse constrangimento repetiu-se em todos os

lugares que frequentou por vários dias. Sentia aliás uma sensação desagradável ao tornar a descer aos afazeres de sua profissão, após ter ido,

na véspera, à alta sociedade, onde se apresentava convenientemente com a

carruagem e os criados de Corália. Aprendeu a montar a cavalo para poder

galopar junto à portinhola das carruagens da sra. d’Espard, da srta. des

Touches e da condessa de Montcornet, privilégio que tanto invejara por

ocasião de sua chegada a Paris. Finot sentia-se encantado em conseguir para

o seu melhor redator uma entrada de favor na Opéra, onde Luciano perdeu

muitas noites. Pertencia, porém, agora ao mundo especial dos elegantes da

época. E se soube oferecer a Rastignac e a seus amigos da alta sociedade um

esplêndido almoço, cometeu a falta de realizá-lo em casa de Corália, porque

era muito jovem, muito poeta e muito confiante para conhecer certos

matizes de procedimento. Uma atriz, excelente menina mas sem educação,

poderia acaso ensiná-lo a viver? O provinciano provou da maneira mais

evidente àqueles rapazes, cheios de malévolas disposições a seu respeito, a

existência de um conluio de interesses entre ele e a atriz, conluio que todo

rapaz secretamente inveja e que todos verberam. Quem, nessa mesma noite,

mais cruelmente o ridicularizou foi Rastignac, que, apesar de se manter na

sociedade por idênticos meios, guardava tão bem as aparências que podia

tachar de calúnia qualquer maledicência.

Luciano havia aprendido rapidamente o uíste. O jogo tornou-se para ele

uma paixão. Corália, para evitar rivais, longe de desaprovar Luciano, antes

favorecia suas dissipações com a cegueira peculiar aos sentimentos

absorventes que nada mais veem além do presente e que tudo sacrificam,

até mesmo o futuro, ao gozo do momento. O caráter do verdadeiro amor

oferece constantes similitudes com a infância: tem dela a irreflexão, a

imprudência, a dissipação, o riso e as lágrimas.

 

XXXII – OS VIVEDORES

 

Por essa época florescia uma sociedade de jovens, ricos ou pobres, todos

desocupados, chamados vivedores, e que, efetivamente, viviam com uma

despreocupação incrível. Eram comedores intrépidos e bebedores mais

intrépidos ainda. Perdulários todos, uniam as mais rudes brincadeiras àquela

existência que não era louca, mas alucinada, e não recuavam diante de impossibilidade alguma; vangloriavam-se até de seus defeitos, contidos,

entretanto, dentro de certos limites. O espírito mais original encobria suas

escorregadelas, tornando impossível não as perdoar. Nenhum outro fato

demonstra como esse tão claramente o hilotismo a que a Restauração

condenara a juventude. Os rapazes, que não sabiam em que empregar suas

forças, não as lançavam apenas no jornalismo, nas conspirações, na literatura

e na arte; dissipavam-nas nos excessos mais extravagantes, tal a abundância

de seiva e de poder luxuriante que existia na jovem França. Trabalhadora,

aquela galharda juventude desejava o poder e o prazer; artista, desejava

tesouros; ociosa, queria animar suas paixões; de qualquer modo, queria um

lugar, e a política não lho oferecia em parte alguma. Os vivedores eram

criaturas dotadas, quase todas, de faculdades eminentes. Alguns perderam-

nas nessa vida enervante, outros resistiram. O mais celebrado desses

vivedores, Rastignac, o mais inteligente, terminou entrando, conduzido por

De Marsay, para uma carreira séria, na qual se distinguiu. As troças a que se

entregavam esses rapazes tornaram-se tão famosas que forneceram assunto

para vários vaudevilles.

Luciano, lançado por Blondet nessa sociedade de dissipadores, ali

brilhou ao lado de Bixiou, um dos espíritos mais perversos e o mais infatigável

forjador de zombarias daquela época. Durante todo o inverno, a vida de

Luciano foi uma longa embriaguez intercalada de fáceis trabalhos do

jornalismo. Continuou a série dos seus pequenos artigos e fez enormes

esforços para produzir de quando em vez algumas belas páginas de crítica

maduramente pensada.

O estudo era, porém, uma exceção; o poeta só se entregava a ele

premido pela necessidade. Os almoços, os jantares, as diversões, as reuniões

sociais e o jogo tomavam-lhe todo o tempo. Corália devorava o resto. Luciano

proibia-se de pensar no amanhã. Via, aliás, seus pretensos amigos

conduzirem-se todos como ele, sustentando-se por meio de prospectos de

livraria pagos a bom preço ou de gratificações outorgadas a certos artigos

indispensáveis a especulações temerárias, comendo de qualquer modo e

pouco se preocupando com o futuro.

Uma vez admitido no jornalismo e na literatura num pé de igualdade,

Luciano percebeu as enormes dificuldades a vencer no caso de querer elevar-se: todos consentiam em tê-lo como igual; ninguém o queria como

superior. Insensivelmente renunciou, pois, à glória literária acreditando o

sucesso político mais fácil de obter.

— A intriga desperta menor número de paixões contrárias do que o

talento; seus meneios surdos não chamam a atenção de ninguém — disse-

lhe um dia Châtelet, com quem Luciano se havia reconciliado. — A intriga é,

aliás, superior ao talento: do nada faz alguma coisa, enquanto, na maior

parte do tempo, os imensos recursos do talento servem apenas para fazer a

desgraça do homem.

Através dessa vida exuberante, cercada de luxo, em que o amanhã

marchava invariavelmente nas pegadas da véspera numa perpétua orgia e

sem encetar nunca o trabalho prometido, Luciano perseguia seu fito

principal: era assíduo na sociedade, cortejava a sra. de Bargeton, a marquesa

d’Espard, a condessa de Montcornet, e não faltava a uma só das recepções

da srta. des Touches. Apresentava-se na sociedade ora antes de uma farra,

ora depois de algum almoço oferecido pelos escritores ou pelos livreiros.

Deixava os salões por um jantar, fruto de uma aposta qualquer. Os gastos da

palestra parisiense e o jogo absorviam o pouco de ideias e de forças que seus

excessos lhe deixavam. O poeta ia perdendo aos poucos a lucidez de

inteligência e a frieza de julgamento necessárias para observar em torno de

si, para desenvolver esse tato requintado que os aventureiros devem

empregar a todo o instante. Foi-lhe impossível reconhecer os momentos em

que a sra. de Bargeton se voltava para ele ou dele se afastava ferida, em que

o perdoava ou de novo o condenava.

Châtelet percebeu as possibilidades que restavam ao rival e tornou-se

amigo de Luciano para mantê-lo na dissipação onde sua energia se

dispersava. Rastignac, invejoso do conterrâneo, e encontrando, além disso,

no barão um aliado mais seguro e mais útil que Luciano, esposou a causa de

Châtelet. Fora desse modo que, poucos dias após a entrevista do Petrarca

com a Laura de Angoulême, Rastignac pudera reconciliar o poeta com o

velho elegante do Império, numa ceia magnífica no Rocher de Cancale.

Luciano, que só entrava em casa pela manhã e se levantava no meio do dia,

não sabia resistir a um amor a domicílio e sempre bem-disposto. Assim, a

mola de sua vontade, sempre amolentada por uma preguiça que o tornava indiferente às belas resoluções tomadas nos momentos em que entrevia sua

posição com clareza, tornou-se nula, e, aos poucos, passou a não responder

às mais fortes pressões da miséria.

Depois de se haver sentido muito feliz ao ver Luciano divertir-se, depois

de o haver encorajado, vendo naquela dissipação um penhor de duração de

sua ligação e laços nas necessidades que ela criava, a terna e doce Corália

teve a coragem de recomendar ao amante que não esquecesse o trabalho, e

muitas vezes viu-se obrigada a observar-lhe que pouco havia ganho durante

o mês. Endividaram-se ambos com assustadora rapidez. Os mil e quinhentos

francos restantes do preço pago pelas Boninas e os primeiros quinhentos

francos ganhados por Luciano com os seus artigos haviam sido rapidamente

esbanjados. Em três meses, seus escritos renderam apenas mil francos ao

poeta que, no entanto, pensava ter trabalhado enormemente. Mas Luciano

havia adotado já a jurisprudência zombeteira dos vivedores com respeito às

dívidas. As dívidas são interessantes nos rapazes de vinte e cinco anos; mais

tarde, ninguém lhas perdoará. É de notar que certas almas verdadeiramente

poéticas, mas de vontade fraca, ocupadas em sentir para devolver suas

sensações em imagens, são essencialmente falhas do senso moral que deve

acompanhar toda observação. Os poetas preferem receber em si mesmos as

impressões a penetrar nos outros e neles estudar o mecanismo dos

sentimentos. Luciano nunca se lembrou de pedir contas aos vivedores

daqueles entre eles que desapareciam; não via o futuro desses pretensos

amigos que tinham, uns uma herança, outros esperanças certas, estes

reconhecido talento, aqueles a fé mais intrépida no seu destino e o desígnio

premeditado de torcer as leis. Luciano acreditou em seu futuro fiando-se

nestes profundos axiomas de Blondet: “Tudo acaba por se arranjar. — Nada

se perde em casa das pessoas que nada têm. — Só podemos perder a fortuna

que buscamos! — Deixando-se levar pela correnteza, a gente acaba por

chegar a alguma parte. — Um homem inteligente com ingresso na sociedade

faz fortuna quando quer!”.

Aquele inverno, tão cheio de prazeres, foi gasto por Teodoro Gaillard e

Heitor Merlin à procura do capital que a fundação do Alvorada exigia. Seu

primeiro número só apareceu em março de 1822. As negociações foram

celebradas em casa da sra. du Val-Noble, a elegante e espirituosa cortesã que dizia, mostrando seus magníficos aposentos: “Eis aqui as contas das Mil e

uma noites!”.

Exercia ela certa influência sobre os banqueiros, os fidalgos e os escritores

do partido monarquista, habituados todos a se reunirem em seu salão para

tratar de negócios que só ali poderiam ser tratados. Heitor Merlin, a quem

estava prometido o cargo de redator chefe do Alvorada, deveria ter como

braço direito Luciano, que se tornara seu amigo íntimo e a quem fora

igualmente prometido o folhetim de um dos jornais ministeriais. Essa

mudança na posição de Luciano preparava-se silenciosamente através dos

prazeres de sua vida. Aquela criança acreditava-se grande político ao

dissimular esse golpe teatral, e contava com as larguezas ministeriais para

dar um jeito em suas contas, e, assim, mitigar as secretas atribulações de

Corália. A atriz, sempre sorridente, escondia sua angústia; mas Berenice,

mais ousada, esclarecia Luciano. Como todos os poetas, aquele grande

homem em embrião impressionava-se por momentos com os desastres e

tomava a resolução de trabalhar, mas esquecia logo após a resolução e

afogava nas orgias a preocupação passageira. No dia em que Corália percebia

uma nuvem na fronte do amante, ralhava com Berenice e afirmava ao seu

poeta que tudo se haveria de arranjar.

A sra. d’Espard e a sra. de Bargeton esperavam a conversão de Luciano

para, diziam elas, fazer com que Châtelet pedisse ao ministro a ordenança

tão desejada para a mudança de nome. Luciano prometera dedicar As

boninas à marquesa d’Espard, que parecia lisonjeada com uma distinção que

os autores tornaram rara depois que se tornaram um poder. Sempre que

Luciano ia, à noite, à casa do livreiro e perguntava pelo livro, Dauriat

apresentava-lhe excelentes razões para retardar a sua entrada no prelo.

Tinha esta ou aquela operação em andamento que lhe tomava o tempo

todo; iam publicar um novo livro de Canalis, contra o qual era preciso não se

interpor; as segundas Meditações[342] de Lamartine estavam no prelo, e

dois importantes livros de poesia não deviam sair ao mesmo tempo. O autor

deveria, de resto, fiar-se na habilidade de seu livreiro.

As necessidades de Luciano tornaram-se entretanto tão prementes que

ele teve de recorrer a Finot para que lhe adiantasse alguma coisa por futuros

artigos.

Quando certa noite, numa ceia, o poeta-jornalista explicou a situação a

seus amigos vivedores, estes trataram de lhe afogar os escrúpulos em ondas

de champanha gelada em gracejos. As dívidas! Não existe homem forte sem

dívidas! As dívidas representam necessidades satisfeitas, vícios exigentes.

Ninguém triunfa senão acossado pela mão de ferro da necessidade.

— Aos grandes homens, a casa de penhores reconhecida![343] — gritou-

lhe Blondet.

— Tudo querer é tudo dever — afirmava Bixiou.

— Não! Tudo dever é tudo ter tido! — respondia Des Lupeaulx.

Os vivedores sabiam provar àquele criançola que suas dívidas seriam o

aguilhão de ouro com o qual ele haveria de incitar os cavalos atrelados ao

carro da sua fortuna. Depois vinha sempre à tona César com seus quarenta

milhões de dívidas, e Frederico ii recebendo do pai um ducado por mês;

sempre os famosos, os corruptores exemplos dos grandes homens mostrados

em seus vícios mas não no imenso poder de sua coragem e de suas

concepções!

Finalmente a carruagem, os cavalos e a mobília de Corália foram tomados

por vários credores por dívidas num total de quatro mil francos. Luciano

recorreu então a Lousteau para lhe pedir os mil francos que lhe emprestara,

mas este mostrou-lhe mandados que demonstravam que a casa de Florina

estava em condições análogas à de Corália. Lousteau, porém, reconhecido,

propôs-lhe dar os passos necessários para colocar O arqueiro de Carlos ix.

— De que maneira Florina chegou a isso? — perguntou Luciano.

— Matifat assustou-se — respondeu Lousteau. — Perdemo-lo. Mas, se

Florina quiser, ele há de pagar caro sua traição! Eu te contarei a história.

 

XXXIII – QUINTA VARIEDADE DE LIVREIRO

 

Três dias depois da inútil tentativa de Luciano junto a Lousteau, os dois

amantes almoçavam tristemente, ao pé do fogo, em seu lindo quarto de

dormir. Berenice preparara-lhes alguns ovos ao prato na lareira, porque a

cozinheira, o cocheiro, e os criados se haviam despedido. Era-lhes impossível

dispor da mobília sequestrada. Não havia mais em casa um único objeto de

ouro ou de prata, ou qualquer coisa que possuísse valor intrínseco; tudo estava, aliás, representado por cautelas de penhor que formavam pequeno

volume in-octavo muito instrutivo. Berenice havia conservado dois talheres.

O jornal prestava inapreciáveis serviços a Luciano e Corália conservando-lhes

o alfaiate, a modista e a costureira, temerosos todos de descontentar um

jornalista capaz de desacreditar-lhes os estabelecimentos. Lousteau

apareceu à hora do almoço a gritar:

— Urra! Viva O arqueiro de Carlos ix. Eu cavei cem francos de livros,

meus filhos, repartamos!

Deu cinquenta francos a Corália e mandou Berenice à procura de um

almoço substancial.

— Ontem eu e Heitor Merlin jantamos com livreiros, e através de sábias

insinuações preparamos a venda de teu romance. Estás em negócios com

Dauriat, mas Dauriat é avaro e não quer dar mais de quatro mil francos por

dois mil exemplares, e tu queres seis mil. Fizemos-te duas vezes maior do que

Walter Scott. Oh! tens no ventre romances incomparáveis! Não ofereces um

livro, mas um grande negócio; não és o autor de um romance mais ou menos

engenhoso, serás uma coleção! A palavra coleção fez um grande efeito.

Convém, assim, que não esqueças teu papel; tens na pasta: A grande

mademoiselle ou A França sob Luís xiv. — Saiote I ou Os primeiros dias de

Luís xv. — A rainha e ocardeal ou Quadro de Paris sob a Fronda. — O

filho de Concini ou Uma intriga de Richelieu... Esses romances serão

anunciados na capa. Chamamos a essa manobra “mantear” o triunfo. A

gente faz saltar os seus livros na capa até que se tornem célebres, e assim se

fica, em consequência, muito maior pelas obras que não se escreveu do que

pelas publicadas. O no prelo é a hipoteca literária! Vamos! um pouco de

alegria! Aqui temos champanha. Tu compreendes, Luciano, os nossos

homens abriram olhos tão grandes como os teus pires... Tens ainda os teus

pires?

— Estão penhorados — respondeu Corália.

— Compreendo e continuo — disse Lousteau. — Os livreiros acreditarão

em todos os teus manuscritos, se virem um deles. Em negócios editoriais

pede-se um manuscrito para ver, tem-se a pretensão de o ler. Deixemos aos

livreiros essa fatuidade: não leem jamais livro algum. Se assim não fosse, não

publicariam tantos! Eu e Heitor demos a entender que por cinco mil francos cederias três mil exemplares, em duas edições. Dá-me o manuscrito do

Arqueiro; depois de amanhã almoçaremos com os livreiros e os forçaremos a

aceitar.

— Quem são eles? — perguntou Luciano.

— Dois bons rapazes, associados, muito francos em negócios, chamados

Fendant e Cavalier. Um é antigo primeiro caixeiro da casa Vidal e Porchon,

outro é o mais hábil viajante do Quai des Augustins. Ambos estabeleceram-se

há um ano. Depois de haverem perdido algum dinheiro a publicar romances

traduzidos do inglês, os meus sabidos querem agora explorar os romances

nativos. Corre o boato de que esses negociantes de papel rabiscado somente

arriscam capitais alheios, mas para ti é indiferente, suponho, saber a quem

pertence o dinheiro que te hão de dar.

Dois dias após, foram os dois jornalistas convidados para almoçar na Rue

Serpente, na antiga região de Luciano, onde Lousteau conservava sempre o

seu quarto da Rue de La Harpe. Luciano, que ali foi buscar o amigo, notou

que tudo se achava no mesmo estado da noite de sua introdução no mundo

literário. Agora, porém, isso já não o surpreendia: sua educação o havia

iniciado nas vicissitudes da vida de jornalista, na qual tudo se pode

conceber. O grande homem da província havia recebido, jogado, perdido o

preço de mais um artigo, perdendo também, assim, a vontade de os escrever.

Havia escrito mais de uma coluna de acordo com os engenhosos processos

que Lousteau lhe descrevera quando desciam da Rue de La Harpe para o

Palais-Royal. Tendo caído na dependência de Barbet e de Braulard,

traficava com livros e entradas de teatro. Não recuava, enfim, diante de

nenhum elogio nem de nenhum ataque. Experimentava mesmo naquele

momento certa alegria em tirar de Lousteau todo o partido possível antes de

voltar as costas aos liberais, a quem se propunha atacar tanto melhor quanto

mais de perto os havia estudado. Lousteau, por sua vez, recebia, com

prejuízo de Luciano, uma soma de quinhentos francos de Fendant e

Cavalier, a título de comissão, por ter conseguido um futuro Walter Scott

para os dois livreiros, que andavam à procura de um Scott francês.

A casa Fendant e Cavalier era uma dessas livrarias estabelecidas sem

capital algum, como muitas daquela época, e como se hão de estabelecer

sempre enquanto os papeleiros e impressores continuarem a fornecer crédito aos livreiros pelo tempo necessário à jogada de sete ou oito cartadas

chamadas edições. Naquele tempo, como ainda hoje, as obras eram

compradas aos autores mediante promissórias a vencer em seis, nove e doze

meses, pagamento baseado na natureza da venda, que se liquida, no ramo,

através de valores a prazos mais longos ainda. Os livreiros pagavam na

mesma moeda aos papeleiros e aos impressores, que tinham assim em mãos

pelo espaço de um ano, praticamente de graça, verdadeira livraria composta

de uma dúzia ou de uma vintena de obras. Admitindo-se dois ou três êxitos,

o produto dos bons negócios cobria os maus e a empresa se ia sustentando a

tentar livro após livro. Se as operações eram todas duvidosas ou se, para sua

desgraça, encontravam bons livros que só se podiam vender depois de

saboreados e julgados pelo verdadeiro público; se os descontos de seus

valores eram onerosos, se chegavam à falência, assinavam tranquilamente

seus balanços sem temor algum, preparados que estavam de antemão para

tal resultado. Assim, todas as probabilidades ficavam a seu favor. Jogavam

sobre o grande pano verde da especulação os fundos alheios, não os próprios.

Fendant e Cavalier encontravam-se exatamente nessa situação. Cavalier

entrara para o negócio com a sua experiência; Fendant a isso acrescentara a

sua indústria. O fundo social merecia eminentemente este título, pois que

consistia nalguns milhares de francos de economias penosamente feitas

pelas suas amantes e sobre os quais um e outro se haviam atribuído

consideráveis ordenados, muito escrupulosamente dispendidos em jantares

a jornalistas e escritores, e em espetáculos nos quais, segundo eles, se faziam

os negócios. Esses semipatifes passavam ambos por hábeis; Fendant, porém,

era mais esperto que Cavalier. Digno de seu nome, Cavalier viajava. Fendant

dirigia os negócios em Paris. Tal sociedade era o que sempre há de ser entre

dois livreiros: um duelo. Os associados ocupavam uma loja num velho

edifício da Rue Serpente, tendo o escritório ao fundo de vastos salões

transformados em lojas.

Haviam já publicado muitos romances, entre eles: A torre do norte, O

mercador de Benares, A fonte do sepulcro e Tekeli, romances de Galt,

[344] autor inglês que na França não teve êxito. O triunfo de Walter Scott

despertou de tal modo a atenção dos livreiros sobre os produtos ingleses que,

como bons normandos que eram, estavam todos preocupados com a conquista da Inglaterra. Procuravam entre estes um Walter Scott como mais

tarde se deveria procurar asfalto nos terrenos pedregosos, betume nos

pântanos, e realizar lucros com estradas de ferro em projeto. Uma das

maiores ingenuidades do comércio parisiense consiste no querer encontrar o

triunfo nos análogos quando ele está nos contrários. Em Paris,

principalmente, o triunfo mata o triunfo. Assim, sob o título de Os Strelitz ou

A Rússia há cem anos, Fendant e Cavalier haviam acrescentado em grandes

letras: “no gênero de Walter Scott”. Tinham sede de um triunfo. Um bom

livro poderia servir-lhes para dar saída às suas pilhas de pacotes, pois

haviam-se deixado engodar com a perspectiva de obter artigos laudatórios

nos jornais, condição essencial para a venda, naquele tempo, em que era

extremamente raro um livro ser comprado só pelo seu valor. Quase sempre,

eram publicados por alguma razão estranha ao mérito da obra. Fendant e

Cavalier viam em Luciano o jornalista, e no seu livro uma fornada cuja

primeira venda lhes facilitaria pelo menos uma prestação aos credores. Os

jornalistas encontraram os sócios em seus gabinetes, com o contrato

preparado e as promissórias assinadas. Aquela rapidez maravilhou Luciano.

Fendant era um homenzinho magro, dono de uma fisionomia sinistra; tinha

a aparência de um calmuco, cabecinha chata, nariz reentrante, boca

apertada, dois olhinhos negros, espertos, os contornos do rosto

atormentados, uma cor doentia, uma voz de sino rachado, todo o exterior

enfim de um consumado velhaco. Compensava, porém, tais desvantagens

com o tom meloso dos discursos; atingia a seus fins por meio da conversa.

Cavalier, um rapaz redondo a quem se tomaria antes por um condutor de

diligência que por um livreiro, tinha os cabelos de um louro suspeito, a

fisionomia iluminada, a aparência tosca e a eterna parolagem do caixeiro-

viajante.

— Não discutiremos — disse Fendant, dirigindo-se a Luciano e a

Lousteau. — Li a obra; é muito literária e nos convém tanto que já mandei o

manuscrito para a tipografia. O contrato está redigido segundo as bases

convencionadas. Aliás, nós não nos apartamos jamais das condições que

estipulamos. Nossas letras são a seis, nove e doze meses. O senhor as

descontará facilmente e nós o indenizaremos do desconto. Reservamo-nos o

direito de dar outro título à obra. Não gostamos de O arqueiro de Carlos ix, não provoca bastante a curiosidade dos leitores. Houve muitos reis com o

nome de Carlos, e na Idade Média havia tantos arqueiros! Ah! se o senhor

dissesse O soldado de Napoleão! Mas O arqueiro de Carlos ix?... Cavalier

seria obrigado a fazer um curso de história da França para colocar cada

exemplar na província.

— Se o senhor conhecesse as pessoas com quem temos negócio! —

exclamou Cavalier.

— A noite de São Bartolomeu ficaria melhor — continuou Fendant.

— Catarina de Médicis[345] ou A França no tempo de Carlos ix —

lembrou Cavalier — assemelha-se mais a um título de Walter Scott.

— Enfim, nós o fixaremos logo que o livro esteja impresso — disse

Fendant.

— Como quiserem — respondeu Luciano, — contanto que o título me

convenha.

Lido e assinado o contrato, cada qual de posse duma via, Luciano pôs as

notas promissórias no bolso com uma satisfação sem igual. Subiram depois, os

quatro, até a casa de Fendant, onde comeram o mais vulgar dos almoços:

ostras, bifes, rins com champanha e queijo brie; mas os pratos eram

acompanhados de magníficos vinhos, devidos a Cavalier, que conhecia um

viajante do comércio de vinhos. No instante em que se punham à mesa,

apareceu o impressor a quem estava confiada a impressão do romance, para

surpreender Luciano entregando-lhe as provas das duas primeiras folhas do

livro.

— Queremos andar com rapidez — explicou Fendant. — Contamos com

o seu livro e temos diabólica necessidade de êxito.

O almoço, começado ao meio-dia, só terminou às cinco horas.

— Onde encontrar dinheiro? — perguntou Luciano a Lousteau.

— Vamos procurar Barbet — respondeu Estêvão.

Os dois amigos desceram, algo aquecidos e avinhados, em direção ao

Quai des Augustins.

 

XXXIV – A CHANTAGEM

 

— Corália mostra-se surpreendida a mais não poder com a perda que Florina acaba de sofrer. Florina só ontem lhe contou tudo atribuindo-te toda a sua

infelicidade. Parecia exasperada a ponto de pensar em te abandonar —

confidenciou-lhe Luciano.

— É verdade — respondeu Lousteau, que não pôde mais conservar a sua

reserva e se abriu com Luciano. — Meu amigo, porque és meu amigo, tu,

Luciano, que me emprestaste mil francos e não mos pediste senão uma vez,

desconfia do jogo. Se eu não jogasse, seria feliz. Devo a Deus e ao diabo.

Neste momento tenho os oficiais de diligências nos meus calcanhares. Sou

forçado, desse modo, ao me dirigir ao Palais-Royal, a dobrar cabos perigosos.

Na linguagem dos vivedores, dobrar um cabo em Paris era fazer voltas,

quer para não passar diante de um credor, quer para evitar o local onde

poderia encontrar-se um deles. Luciano, que não andava indiferentemente

por qualquer rua, conhecia a manobra sem lhe conhecer o nome.

— Deves muito, então?

— Uma miséria — respondeu Lousteau. — Mil escudos me salvariam.

Pretendi comportar-me, não jogar mais, e, para concluir, fiz um pouco de

chantagem.

— Que é chantagem? — perguntou Luciano, para quem a palavra era

desconhecida.

— A chantagem é uma invenção da imprensa inglesa que a França

recentemente importou. Os chantagistas são criaturas colocadas de modo a

poder dispor dos jornais. Jamais um diretor de jornal ou um redator chefe

será apanhado como cúmplice da chantagem. Há para isso os Giroudeau, os

Felipe Bridau. Esses bravi[346] saem à procura de um homem que, por

qualquer razão, não deseja que os jornais se ocupem dele. Muitas são as

pessoas que têm na consciência pecadilhos mais ou menos originais. Há

muitas fortunas suspeitas em Paris, obtidas por vias mais ou menos legais, e

muitas vezes por meio de manobras criminosas, que forneceriam deliciosas

anedotas, como a da polícia de Fouché, que, composta de secretas que não

estavam no segredo do fabrico dos falsos bilhetes do banco inglês, ia prender

os impressores clandestinos protegidos pelo ministro; a história dos

brilhantes do príncipe Galathione; o caso Maubreuil; a sucessão

Pombreton[347] etc. O chantagista, conseguindo obter qualquer peça,

qualquer documento importante, solicita uma entrevista ao homem enriquecido. Se a pessoa comprometida não entrega logo uma soma

qualquer, o chantagista lhe fala da imprensa pronta a cair sobre ele e a

revelar seus segredos. O ricaço fica com medo e paga. A trapaça está feita. Se

alguém se entrega a uma operação perigosa, que pode malograr ante uma

série de artigos, mandam-lhe um chantagista que lhe propõe o resgate dos

artigos. Há ministros a quem se enviam chantagistas que com eles estipulam

a condição de o jornal atacar seus interesses políticos mas não a eles

pessoalmente, ou que entregam sua própria pessoa e pedem graça para a

amante. Des Lupeaulx, esse bonito referendário que conheces, está

perpetuamente ocupado com essa espécie de negociações com os jornalistas.

O velhaco arranjou através de suas relações uma posição maravilhosa junto

do poder: é ao mesmo tempo o mandatário da imprensa e o embaixador dos

ministros. Trafica com amores-próprios; estende mesmo esse comércio aos

casos políticos; obtém dos jornais seu silêncio a respeito de tal ou qual

empréstimo, ou de determinada concessão obtida sem concorrência nem

publicidade, transações nas quais se dá uma parte aos agiotas da bancada

liberal. Tu mesmo fizeste um pouco de chantagem com Dauriat, que te deu

mil escudos para te impedir de desacreditar Nathan. No século xviii, quando

o jornalismo estava ainda nos cueiros, a chantagem era feita por meio de

panfletos cuja destruição era comprada pelos favoritos e pelos grandes

senhores. O inventor da chantagem foi Aretino, um grande italiano, que

taxava os reis como em nossos dias este ou aquele jornal taxa os atores.

— Que fizeste contra Matifat para conseguir os mil escudos?

— Fiz com que atacassem Florina em seis jornais, e Florina queixou-se a

Matifat, o qual pediu a Braulard que descobrisse o motivo de tais ataques.

Braulard foi enganado por Finot, em benefício de quem eu praticava a

chantagem; disse ele ao droguista que tu desacreditavas Florina em

benefício de Corália. Giroudeau foi dizer confidencialmente a Matifat que

tudo se arranjaria se ele quisesse vender a sexta parte de que era proprietário

Continuar: parte 11 de 12