A Entrega
8. Regras e regulamentos
8. Regras e
regulamentos
ERIC DEEDS NASCEU e foi criado (se se pode dizer assim) em East Buckingham, mas passou alguns anos fora – anos difíceis – antes de voltar, pouco mais de um ano atrás, para a casa onde cresceu. Naqueles anos em que estivera fora, porém, ficou na Carolina do Sul.
Ele voltou para lá para cometer um crime, mas a coisa não funcionou muito bem, e a consequência foi o dono de uma loja de penhores com sangramento no crânio e impedido de falar; um dos parceiros de Eric foi baleado, e lá ficou o sujeito morto, com aparência estúpida, fustigado pela chuva da primavera. Eric e outro camarada foram mandados para a Casa de Correção de Broad River para cumprir três anos.
Eric não tinha estrutura para suportar dificuldades, e em seu terceiro dia de confinamento se viu no meio de uma confusão no refeitório. Ele levantou a mão assustado e conseguiu bloquear uma lâmina que vinha no ar; a lâmina atravessou sua mão, mas não atingiu a cabeça de um cara chamado Padgett Webster.
Padgett era um traficante de drogas respeitado em Broad River. Padgett se tornou o protetor de Eric. Ainda que ele jogasse Eric no colchão e enfiasse em sua bunda um pinto do tamanho e da grossura de um pepino, Padgett garantiu a Eric que tinha uma dívida para com ele. E não iria esquecer. Eric devia procurá-lo quando fosse libertado e cobrar o favor: alguma coisa para recomeçar a vida depois do período de prisão.
Padgett foi solto seis meses antes de Eric, que ficou um tempo sozinho e pôde refletir sobre as coisas. Pensar sobre sua vida, sobre os caminhos transversos que o levaram àquela situação. O companheiro que lhe sobrara da aventura – Vinny Campbell, que veio para cá de Boston e se ferrou junto com ele – pegou mais um ano de cadeia por meter um martelo no cotovelo de outro prisioneiro na oficina de carpintaria. Ele fez isso por causa dos Aryans, seus novos irmãos. Em troca eles o viciaram em heroína, e Vinny agora mal falava com Eric, simplesmente topava com ele com seu bando skinhead, olheiras caídas, pretas como café.
Em Broad River, eles eram brinquedos com membros quebrados, fios das baterias rebentados, o estofo exposto. Mesmo que fossem consertados, aqueles brinquedos não seriam bem-vindos no quarto das crianças.
A única chance que sobrara a Eric para se virar no mundo era criar seu próprio código de leis. Leis só para ele. Ele o fez certa noite em sua cela, e elaborou uma cuidadosa lista de nove regras. Eric as escreveu numa folha de papel, dobrou-a e saiu da casa de correção de Broad River com a folha no bolso de trás, as dobras amassadas de tanto desdobrar e tornar a dobrar.
NO DIA SEGUINTE AO DE SUA LIBERTAÇÃO, ele roubou um carro. Conduziu-o até uma loja à margem da rodovia interestadual e roubou uma camisa havaiana duas vezes maior do que seu número e dois rolos de fita adesiva para embalagens. Ele economizou os trocados que tinha para comprar uma arma de um cara cujo nome lhe deram em Broad River. Então ligou para Padgett de uma cabine pública na frente de um motel em Bremeth e combinou algumas coisas, o calor emanando do chão alcatroado e fazendo as árvores gotejarem.
Passou o resto do dia em seu quarto, lembrando-se do que o psiquiatra da prisão tinha dito: que ele não era mau. Sua cabeça não era má. Ele sabia que ela não era; passou um bocado de tempo vagando pelos recessos róseos de sua mente. Ele era simplesmente confuso, dolorido e cheio de peças deformadas, como um ferro-velho. Fotografias fora de foco, um tampo de mesa de vidro engordurado, uma pia metida diagonalmente entre duas paredes de blocos de concreto de cinzas, a vagina de sua mãe, duas cadeiras de plástico, um bar mal iluminado, trapos marrons sujos, uma tigela com amendoins, os lábios de uma mulher dizendo Gosto de você, gosto mesmo, uma cadeira de balanço branca de plástico duro, uma bola de beisebol despedaçada contra o céu azul-acinzentado, a grade de um esgoto, um rato, dois chicletes Charleston apertadas numa mãozinha pequena e suada, uma cerca alta, um vestido bege de algodão jogado no banco de trás de vinil de um carro, um cartão desejando melhoras assinado por toda a turma do sexto ano, um dique de madeira com o lago agitando-se lá embaixo, um par de tênis molhados.
A lista estava em seu bolso de trás quando ele foi andando até a casa de Padgett à meia-noite. As árvores gotejavam na escuridão, gotejavam na calçada de pedras quebradas com um ruído suave e contínuo. Todo o estado gotejava. Eric achava que tudo estava úmido demais. Enlameado. Meia-noite, e ele sentia a umidade gotejando em sua nuca, deixando manchas escuras em sua camisa sob as axilas.
Ele não via a hora de ir embora dali. Queria deixar para trás, o mais rápido possível, Broad River, as figueiras-de-bengala, o cheiro de plantações de tabaco que travava a garganta, fábricas têxteis e toda aquela gente negra – gente negra, por toda parte, rabugenta, ladina, andando com uma vagareza enervante, e o constante gotejar do Sul da América.
Ansiava por voltar para as ruas pavimentadas com pedra, um toque de outono no ar da noite e uma lanchonete decente. Voltar a bares que não tocavam música country e ruas onde um terço dos carros não era de picapes e as pessoas não falavam de forma tão arrastada que a gente não conseguia entender metade do que elas diziam.
Eric tinha vindo pegar um quilo de heroína de má qualidade. Iria vendê-la no norte, mandar o dinheiro de volta a Padgett numa proporção de sessenta-quarenta, sendo os sessenta de Padgett, os quarenta de Eric, mas mesmo assim um bom negócio, porque Eric não tinha de bancar o preço do produto. Padgett estava apenas lhe pagando, em confiança, a dívida pelo que Eric fizera com a mão.
Padgett abriu a porta para uma varanda de tela, e a pequena habitação rangeu ao impacto de um vento que passou entre as árvores. A varanda era iluminada por uma luz verde e cheirava a cachorro molhado, e Eric viu uma sacola de carvão colocada à direita da porta, ao lado de um fogareiro japonês enferrujado e uma caixa de papelão cheia de garrafas de vinho e garrafinhas de uísque Early Times.
Padgett disse: “Você não é uma figura, garoto?”, e deu-lhe um tapinha no ombro. Padgett era esbelto e rijo, os músculos encrespados com cartilagens. Seus cabelos, quase todos brancos, pareciam neve numa região carbonífera, e ele cheirava ao calor e à brisa impregnada do cheiro de banana. “Um branco por aqui. Faz tempo que não aparece um tipo como você por estas bandas.”
Para chegar ali, Eric seguiu a principal pista através da cidade suja, pegou à direita depois das linhas de trem, passou por trás de três postos de gasolina, um bar e um 7-Eleven. Dirigiu por três milhas através de estradas de terra cortadas por becos sujos, florestas de eucaliptos caindo sobre cabanas de caça abandonadas, a última face branca em algum lugar lá atrás, antes dos trilhos do trem e a mil anos de distância. A cada quatro quarteirões de casas em declive e campos escuros remexidos, talvez um único poste de iluminação com a luz funcionando. Sujeitos em varandas desmoronadas bebendo cerveja barata e fumando cigarros comuns, mas com maconha em lugar de tabaco, montes de carros enferrujando em meio a caóticas hastes de relva, enquanto moças com ossos proeminentes arrastavam os pés passando por janelas quebradas, expostas, com bebês aos ombros. Meia-noite, e toda aquela área letargicamente acordada, esperando que alguém chegasse para desligar o calor.
Enquanto entravam na casa, ele disse a Padgett: “Cara, aqui tem um bocado de umidade”.
“Porra, é verdade”, disse o velho. “Temos bastante mesmo. Como você está, cara?”
“Tudo bem.” Eles passaram por uma sala de estar ondulada e desagradável por causa do calor, e Eric lembrou-se de que Padgett costumava deitar-se em cima dele e sussurrar-lhe ao ouvido: “Meu negrinho branco”, os dedos agarrando-lhe os cabelos.
“Essa é a Monica”, disse Padgett quando eles entraram na cozinha. Ela estava sentada a uma mesa, encostada de comprido contra uma janela, feições desfeitas e articulações nodosas, olhos tão grandes e mortos como um par de esgotos de pia, pele esticada sobre os ossos. Pelas conversas em sua cela, Eric sabia que ela era a mulher de Padgett, mãe de quatro filhos que havia muito tinham ido embora dali, e que à direita de sua mão havia uma espingarda cerrada pendendo de ganchos atarraxados na parte de baixo da mesa.
Monica tomou um gole de seu ponche, fez uma careta de reconhecimento, voltou a folhear uma revista que estava junto ao seu cotovelo.
Regra Número Um, pensou Eric. Lembre-se da Regra Número Um. “Não ligue para ela”, disse Padgett enquanto abria a geladeira. “Ela fica mal-humorada entre as onze horas da manhã, mais ou menos, e o meio-dia do dia seguinte.” Ele passou a Eric uma lata de cerveja Milwaukee’s Best tirada de um verdadeiro pelotão delas que ocupava toda a prateleira de cima, pegou uma para si mesmo e fechou a porta.
“Monica”, disse ele, “esse é o homem de quem lhe falei, o neguinho que salvou minha vida. Mostre a mão a ela, cara.”
Eric ergueu a palma na frente do rosto dela, mostrou-lhe as cicatrizes ressaltadas no ponto em que a lâmina a atravessou. Monica fez um leve gesto de cabeça, e Eric abaixou a mão. Ele ainda não se sentia confortável ali, embora tudo estivesse indo bem.
Monica voltou os olhos para a revista, virou uma página. “Eu sei quem é ele, velho pirado. Você não parou de falar daquele lugar desde que saiu de lá.”
Padgett deu a Eric um sorriso radiante. “E então, há quanto tempo você saiu?”
“Hoje.” Eric tomou uma boa golada de sua cerveja.
Eles passaram alguns minutos falando sobre Broad River. Eric informou a Padgett sobre algumas lutas pelo poder a que ele não assistira, a maioria delas sem consequências, contou-lhe do idiota que foi mandado embora numa licença médica depois de roubar do prisioneiro errado, e que começou a pensar que sua pele tinha ficado roxa e arrancou fora várias unhas dos dedos esfregando-as contra o muro do pátio. Padgett procurou arrancar dele as fofocas que pôde, e Eric lembrou-se do velho tagarela que Padgett sempre fora, sentando-se todas as manhãs perto dos aparelhos de ginástica, acompanhado dos prisioneiros antigos, todos falando pelos cotovelos como se estivessem num talk show.
Padgett jogou as latas vazias num cesto de lixo, pegou mais duas e passou uma para Eric. “Eu lhe disse que na divisão da grana seria oitenta para mim e vinte para você, certo?”
Eric sentiu o ar pesar na sala. “Você disse sessenta-quarenta.”
Padgett inclinou-se para a frente arregalando os olhos. “E eu na linha de frente do negócio? Cara, você pode ter salvado minha vida, mas, porra...”
“Eu só estava lhe dizendo o que você me falou.”
“O que você acha que ouviu”, disse o velho. “Não, não. Vai ser na proporção de oitenta-vinte. Mandar você sair pela minha porta com um bocado de muamba sem saber se vou tornar a ver você? É um bocado de confiança, cara. Uma carrada de confiança.”
“Você tem razão”, disse Monica, olhos na revista.
“Sim. É oitenta-vinte.”
Os olhos vivazes de Padgett diminuíram, mostrando insatisfação. “Estamos entendidos?”
“Claro”, disse Eric, sentindo-se pequeno, sentindo-se branco. “Claro, Padgett, assim está bem.”
Padgett lhe deu outro daqueles sorrisos de cem watts. “Sim. Eu poderia dizer noventa por dez e, francamente, o que você podia fazer, não é mesmo?”
Eric deu de ombros, bebeu mais cerveja, olhos na pia.
“Eu disse: ‘Não é mesmo?’.”
Eric olhou para o velho. “Você tem razão, Padgett.”
Padgett balançou a cabeça, bateu sua lata de cerveja na de Eric e tomou um gole.
Regra Número Dois, Eric lembrou a si mesmo. Nunca esqueça esta. Nem por um segundo em toda a sua vida.
Um cara esguio num roupão de banho multicolorido e meias marrons entrou na cozinha fungando, um pedaço de tecido colado ao lábio superior. Jeffrey, pensou Eric, o irmão mais novo de Padgett. Padgett lhe disse certa vez que, pelo que ele sabia, Jeffrey matara cinco homens, disse que aquilo não significava mais para ele do que dar uma nadada. Disse que se Jeffrey tivesse uma alma, teriam de mandar uma equipe de busca para tentar achá-la.
Jeffrey tinha os olhos apáticos de uma toupeira, e eles se voltaram para o rosto de Eric. “Como vai? Está tudo bem?”
Eric disse: “Estou bem, e você?”.
“Beleza.” Jeffrey bateu o tecido de leve no nariz, sugou com força pelas narinas, abriu um armário acima da pia e pegou um frasco de xarope Robitussin. Tirou a tampa com um rápido movimento do polegar, inclinou a cabeça para trás e bebeu metade do frasco.
“Como você está se sentindo de verdade?”, perguntou Monica, olhos ainda na revista, mas foi a primeira vez que mostrou interesse em alguma coisa ou em alguém desde que Eric entrara na casa.
“Não muito bem”, disse Jeffrey. “Essa filha da puta me pegou e não quer ir embora.”
“Você devia tomar um pouco de sopa”, disse Monica. “Enrole-se numa manta.”
“Sim”, disse Jeffrey. “Sim, tem razão.” Ele tornou a tampar o frasco de xarope e o recolocou no armário.
Padgett disse: “Você fala com aquele negro?”.
“Que negro?”
“Aquele que está sempre na frente da loja Pic-N-Pay.”
Regras Números Três e Cinco, repetiu Eric em sua cabeça como um mantra. Três e Cinco.
“Eu falei com ele”, disse Jeffrey aspirando com força novamente pelo nariz, encostando o tecido de leve sob ele.
“E daí?”
“E daí o quê? O negro está sempre no mesmo lugar todos os dias. Ele não vai a canto nenhum.”
“Não é com ele que estou preocupado. É com os amigos dele.”
“Amigos”, disse Jeffrey balançando a cabeça. “Os amigos daquele maconheiro não são problema.”
“Como você sabe?”
Jeffrey tossiu várias vezes nas costas da mão, o peito sacudindo-se como cutelos empurrados sobre um monte de calotas de pneus. Ele enxugou os olhos e olhou para Eric, como se o estivesse vendo pela primeira vez.
De repente viu algo no rosto de Eric de que não gostou.
Ele disse a Padgett: “Você revistou esse cara?”.
Padgett fez um gesto com a mão. “Ora, olhe só para ele. Ele não quer confusão.”
Jeffrey escarrou dentro da pia. “Você está marcando bobeira, velho.”
“É o que eu estava dizendo”, disse Monica numa voz cansada e monótona, passando outra página da revista.
“Garoto branco”, disse Jeffrey atravessando a cozinha. “Vou revistar você, meu velho.”
Eric pôs a cerveja num canto da parte de cima do fogão e levantou os braços.
“Vou tentar não passar a gripe para você”, disse Jeffrey enfiando o tecido no bolso do roupão. “Você também não ia gostar desta merda.” Suas mãos pressionaram o peito de Eric, depois a cintura, testículos, a parte interna das coxas e os tornozelos. “A cabeça da gente fica cheia. Sinto como se um filha da puta de um gato tivesse caído dentro da minha garganta e estivesse tentando subir por ela usando as garras.” Jeffrey tateou rápido e confiantemente a parte inferior das costas de Eric e fungou.
“Tudo bem, você está limpo.” Ele se voltou para Padgett: “Isso é tão difícil, velho?”.
Padgett voltou os olhos para Jeffrey.
Eric coçou a nuca e se perguntou quantas pessoas morreram naquela casa. Como já o fizera muitas vezes na prisão, ele se admirava de quão aborrecidos e grosseiros poderiam ser os piores lados das pessoas. A luz acima de sua cabeça atravessava seu couro cabeludo, espalhava calor em seu cérebro.
Jeffrey disse: “Onde está o diabo do gim?”.
Padgett apontou para uma garrafa de Seagram na prateleira acima do fogão.
Jeffrey pegou a garrafa e um copo. “Mas eu disse a você para deixá-la no freezer. Gosto do meu gim gelado, cara.”
Padgett disse: “Você precisa dar uma saída e comprar um xale. Está virando uma pobre velhinha, Jeffrey”.
A sala balançou um pouco quando Eric coçou a nuca, os dedos deslizando por trás do colarinho e entre as omoplatas. Ele se sentiu quente, sua cabeça martelava e sua boca ficou seca. Muito seca. Como se ele nunca mais fosse tomar mais nenhum drinque até morrer. Ele viu sua lata de cerveja no lugar onde Jeffrey a jogara ao revistá-lo. Pensou em pegá-la, depois percebeu que não tinha condições de fazer isso.
“O que ouço todos os dias, meu velho, é que sua boca não para. Fica matraqueando como uma porra de sei lá o quê. Mas matraqueando.”
Padgett bebeu sua cerveja Old Mil’, amassou a lata e abriu a geladeira para pegar outra.
Jeffrey deixou seu drinque em um lado da pia, voltou-se para Eric e disse: “Negro, o que é?”, num tom de surpresa desarmada quando Eric tirou a mão das costas da camisa, com uma pequena 22 com uma ponta de fita adesiva ainda colada ao cano, a carne da parte superior de sua espinha ardendo no lugar de onde a fita tinha sido arrancada. Ele atirou em Jeffrey logo abaixo do pomo-de-adão, e Jeffrey desabou para debaixo da pia.
Ele encaixou a segunda bala na parede ao lado do ouvido de Monica, e ela enfiou a mão debaixo da mesa, abaixou-se, enfiou o queixo entre as coxas, e Eric mandou-lhe um balaço no alto de seu crânio. Por um segundo, talvez, ele parou, fascinado pelo pequeno buraco que apareceu na cabeça dela, mais escuro que todos os buracos que tinha visto na vida, mais preto que o cabelo dela, pretíssimo. E então ele se voltou.
O tiro seguinte atingiu Padgett, arrancou a cerveja de sua mão e fez o homem girar, bater com o quadril e parte da cabeça na porta da geladeira.
O eco dos tiros fez toda a sala tremer.
A arma na mão de Eric tremia levemente, não muito, e o martelar em sua cabeça parecia estar desaparecendo.
Sentado no chão, Padgett disse: “Seu merdinha estúpido”. Sua voz era aguda, feminina. Ele estava com um buraco no meio da camiseta molhada de suor, que gotejava e aumentava cada vez mais.
Eric pensou: Acabo de matar três pessoas. Puxa vida!
Ele pegou a lata de cerveja do chão, abriu-a, e ela borrifou o pé da mesa. Pôs a lata na mão de Padgett, ficou olhando a espuma derramar-se e espalhar-se no punho e nos dedos de Padgett. O rosto de Padgett ficou branco como seus cabelos. Ouviu-se um apito que vinha de algum ponto de seu peito. Eric sentou-se no chão por um instante enquanto o corpo de Monica caía da cadeira, indo bater contra o linóleo.
Ele passou a mão nos cabelos nevados na cabeça de Padgett. Mesmo na condição em que se encontrava, este buscou esquivar-se. Ele não tinha saída, porém, e Eric passou a mão em seus cabelos várias vezes, depois voltou a sentar-se.
Padgett pôs uma mão no chão e tentou erguer-se. A mão fraquejou, e Padgett sentou-se novamente. Ele fez nova tentativa, buscando, às cegas, alcançar uma cadeira, e por fim as costas de sua mão toparam com uma; a língua, pra fora da boca, pendeu do lábio inferior quando ele tomou impulso para erguer o corpo. Padgett ficou com o corpo meio erguido, joelhos dobrados e trêmulos, e então a cadeira deslizou, ele caiu de novo, dessa vez mais pesadamente, e sentou-se ofegando lenta e fracamente, boca crispada, olhos no próprio colo.
“O que fez você pensar que levaria a melhor sobre mim?”, perguntou Eric a Padgett, e seus próprios lábios pareceram de elástico.
O velho ofegou fracamente, olhos arregalados, boca aberta. Estava tentando falar, mas o único som que conseguia emitir era u, u, u.
Eric inclinou-se para trás para apontar a arma. Padgett olhou para o cano, olhos espantados e súplices. Eric deixou que ele desse uma boa e demorada olhada. Padgett fechou bem os olhos para não ver a bala que ele sabia que viria.
Eric ficou esperando.
Quando o outro abriu os olhos, Eric lhe deu um tiro no rosto.
“Regra Número Sete.” Eric levantou-se. “Tenho de ir, tenho de ir.”
Ele desceu as escadas, entrou no quarto de trás e abriu a porta do closet. Lá havia um cofre. Tinha cerca de um metro de altura e setenta centímetros de largura, e Eric sabia, das muitas noites em companhia de Padgett em sua cela, que lá dentro só havia catálogos telefônicos. O cofre nem ao menos era fixado ao chão. Ele o tirou do lugar, grunhindo por causa do esforço, lutando de um lado para outro até liberar a soleira. Deixou-se ficar olhando as tábuas do piso arranhadas, danificadas e soltas, com torrões de areia por cima. Levantou uma prancha, e ela se soltou com facilidade. Ele a jogou para trás, levantou mais quatro e olhou para o esconderijo – sacolas e sacolas de heroína, densamente empacotadas. Tirou as sacolas uma a uma e as colocou na cama até o esconderijo ficar vazio. Havia catorze sacolas.
Olhou em volta procurando uma maleta ou uma mochila esportiva, mas, como não havia nenhuma, voltou para a cozinha. Teve de passar por cima das pernas de Padgett e da cabeça de Monica para abrir as portas sob a pia. Encontrou uma caixa de sacos de lixo no mesmo instante em que lhe ocorreu que deixara Jeffrey encostado contra aquelas mesmas portas, Jeffrey com seu roupão de banho e meias marrons, com a porra da bala na garganta.
Viu manchas e gotas de sangue nas gavetas à sua esquerda, depois outras no piso, na porta e no umbral que conduzia ao corredor, quando na verdade ele esperava encontrar Jeffrey deitado de bruços, agonizante ou morto.
Mas ele não estava lá. As manchas de sangue davam a volta na escadaria e então desapareciam na escuridão dos degraus estreitos, bambos e no tapete desbotado e esfarrapado no meio. No alto, uma lâmpada nua pendia do teto.
Deixando-se ficar ali, ouviu um arfar dificultoso que vinha da direita daquela lâmpada, nos quartos dos fundos acima dele. Ouviu uma gaveta sendo aberta.
Ele reprimiu um acesso de pânico. Regra Número Sete, Regra Número Sete. Não pense, faça. Ele voltou mais que depressa para a varanda e pegou um saco de carvão que vira ali. Fósforos. Sem necessidade de nenhum fluido. Naquela época eles pensavam em tudo.
De volta ao corredor, avançou de mansinho enquanto espichava a cabeça em volta da escadaria, ouvindo o estertor da respiração de uma garganta aberta. Quando se convenceu de que Jeffrey não o estava esperando na escadaria escura nem no alto dela, voltou para o degrau mais baixo e deixou o saco de carvão lá.
Levou uns trinta segundos para depositar o saco de carvão e acionou com o polegar seu isqueiro Bic. Imediatamente, as chamas começaram a dançar. Alguém devia ter derramado uma porra duma tonelada de bebida alcoólica no tapete ao longo dos anos, porque as chamas pegaram as bordas do tapete desbotado e subiram feito um rastilho de pólvora escada acima. O monóxido de carbono chegou à sua cabeça, e ele recuou. A fumaça era negra e de enlouquecer, com aquele cheiro de petróleo; Eric procurou evitar o fogo, e uma bala atingiu o soalho logo à sua frente. Outra bala passou zumbindo perto de sua cabeça e atingiu a porta da varanda.
Eric apontou a arma para além do fogo e atirou no escuro. Um clarão respondeu ao seu tiro, vários clarões, e as balas atingiram as paredes, cobrindo seus cabelos com fragmentos de argila.
Ele se agachou junto à parede. Chamas lambiam-lhe a orelha, e ele viu que seu ombro estava em chamas. Bateu as mãos nele até apagar o fogo, mas então era a parede que estava pegando fogo. A parede, a escadaria, a cama do outro lado da parede. Foda-se. A heroína estava naquele quarto, esperando na cama.
Agora todo o corredor estava em chamas, e as ondas negras de fumaça gordurosa invadiam-lhe os olhos e pulmões. Ele atirou em Jeffrey quando este pulou por cima do corrimão e desceu através das chamas, com uma 9 milímetros inútil na mão. Eric atirou em Jeffrey novamente quando ele foi parar no corredor. Jeffrey escorregou e caiu no fogo, o roupão em chamas, uma mão ainda pressionando a garganta fendida.
Eric tentou dar a volta ao fogo, mas era uma tentativa vã. O fogo agora tomara tudo. E onde não havia fogo estava tudo preto de fumaça.
Imbecil, ele pensou. Eric, você é imbecil. Imbecil, imbecil, imbecil.
Mas não tão estúpido quanto os três babacas que ele estava deixando para trás.
Eric saiu pela porta e voltou para a via pavimentada com pedras, com suas árvores titilantes e gotejantes, entrou em seu carro e seguiu em frente na rua suja. Entrou em outra rua de asfalto rachado e se perguntou como diabos as pessoas viviam numa merda de bairro daquele. Conseguir uma porra dum emprego, pensou ele. Largar o crack. Conseguir um pouco de autorrespeito, senão você não vai ser melhor que ratos. Porra de ratos desgraçados numa gaiolinha de merda.
Mesmo que seu plano tivesse dado certo e ele tivesse voltado com vários quilos de heroína, não havia garantia de que conseguisse vendê-la. A quem poderia vendê-la? Ele não conhecia ninguém em Boston que pudesse transportar aquele tipo de volume, e mesmo que fosse apresentado a esse tipo de pessoa, seria roubado. Provavelmente teriam de matá-lo, para que não fosse atrás deles.
Sendo assim, tanto fazia, mas agora ele estava voltando para casa sem recursos e sem uma forma de ganhar dinheiro. Não que não houvesse uma forma de conseguir dinheiro desde que ele mantivesse os olhos abertos e os ouvidos no chão. Uma coisa boa da porra do velho East Buckingham era que havia tanto dinheiro sujo voando para dentro e para fora do bairro em qualquer dia – muito mais do que qualquer renda legítima –, que a um cara esperto bastava ter paciência.
Ele tirou do bolso sua lista de regras, desdobrou-a com uma mão e a apoiou na coxa para ir lendo enquanto dirigia. Estava escuro dentro do carro, mas ele a sabia de cor; na verdade, não precisava lê-la de novo, simplesmente apreciava o que ela representava ali em sua perna. Em sua caligrafia, as letras cuidadosamente inscritas ali...
Nunca confie num
1. presidiário.
2. Ninguém ama você.
3. Atire primeiro.
Penteie-se três vezes
4.
por dia.
Os outros farão o
5.
trabalho por você.
Nunca deixe de
6. receber o que lhe
devem.
7. Trabalhe rápido.
8. Sempre pareça
razoável.
9. Arrume um cachorro.
Ele entrou à esquerda na altura dos trilhos do trem e viu as luzes do 7-Eleven mais adiante, refletindo que a viagem de ida parecia duas vezes mais longa que a de volta e em como era estranho que as coisas normalmente funcionassem assim. Então pensou: Nadia.
Me pergunto o que ela anda fazendo atualmente.