A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 6 de 16

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A Entrega

6. Via crúcis

 

DEPOIS QUE TODOS SAÍRAM DA MISSA DAS SETE HORAS, inclusive o detetive Torres, que ao passar lançou a Bob um olhar de franco desprezo, e o padre Regan se recolheu à sacristia para mudar de roupa e lavar os cálices (um trabalho que antes cabia aos coroinhas, mas atualmente já não era possível ter coroinhas na missa das sete horas), Bob continuou em seu banco. O que ele fazia exatamente não era rezar: deixava-se ficar na quietude do silêncio que raras vezes se podia encontrar fora de uma igreja, para refletir sobre uma semana bastante agitada. Bob lembrava-se de anos inteiros em que nada lhe tinha acontecido. Anos em que ele olhava para o calendário esperando ler março, mas em vez disso lia novembro. Nos últimos sete dias, porém, ele achou o cachorro (a que ainda não dera um nome), conheceu Nadia, fora roubado sob a mira de uma arma e recebera a visita de um gângster que torturava homens na parte traseira de uma van.

Olhou para o teto abobadado, olhou para o altar de mármore. Olhou para as estações de via-sacra, cada uma delas situada regularmente entre os santos dos vitrais. A via crúcis, em que cada estação mostra uma escultura representando a última viagem de Cristo no mundo temporal, da condenação à crucificação e ao sepultamento. Havia catorze estações distribuídas na igreja. Bob seria capaz de desenhá-las de memória se tivesse algum talento para o desenho. O mesmo se poderia dizer dos santos representados nos vitrais, a começar por são Domingos, claro, padroeiro das mães esperançosas, que não deve ser confundido com são Domingos, padroeiro das vítimas de acusações falsas e fundador da Ordem Dominicana. A maioria dos membros da paróquia de São Domingos não sabia que havia dois são Domingos e, se algum deles soubesse, não tinha ideia de a qual deles a igreja fora dedicada. Mas Bob sabia. Seu pai, porteiro daquela igreja por muitos anos e o homem mais devoto que Bob conhecera em toda a sua vida, também sabia, claro, e passara a informação ao filho.

Você não me disse, pai, que no mundo havia homens que espancam cães e os deixam morrer em frios latões de lixo nem homens que enfiam pinos de metal nos pés de outros homens.

Eu não precisava lhe dizer isso. A crueldade é mais velha do que a Bíblia. A selvageria já se manifestou no primeiro verão do homem e continuou com ele todos os dias desde então. O mal é a coisa mais comum entre os homens. As coisas boas são muito mais raras.

Bob foi passando pelas estações da via crúcis. Ele parou na quarta, em que Jesus se encontra com Sua mãe enquanto carrega a cruz colina acima, a coroa de espinhos na cabeça, dois centuriões postados atrás d’Ele com seus chicotes, prontos para usá-los, para afastá-lo de Sua mãe, obrigá-lo a subir a colina onde iriam pregá-Lo na mesma cruz que o obrigaram a carregar. Será que aqueles centuriões algum dia se arrependeram? Será que poderia haver arrependimento?

Ou alguns pecados eram simplesmente grandes demais?

A Igreja dizia que não. Desde que houvesse um verdadeiro propósito de penitenciar-se, a Igreja dizia que Deus com certeza perdoaria. Mas a Igreja era um meio de interpretação às vezes imperfeito. E se naquele caso a Igreja estivesse errada? E se algumas almas não pudessem ser resgatadas das negras profundezas de seu pecado?

Se o céu tivesse de ser considerado um destino a almejar, então o inferno teria o dobro de almas.

Bob nem se tinha dado conta de que abaixara a cabeça até o momento em que a levantou.

À esquerda da quarta estação da cruz estava santa Ágata, padroeira das enfermeiras e dos padeiros, entre outras coisas, e à direita

encontrava-se são Rocco,* padroeiro de solteiros, peregrinos e...

Bob recuou um pouco no corredor central para observar melhor o vitral pelo qual passara tantas vezes que havia muito tempo perdera a capacidade de vê-lo. E ali, no canto inferior direito do vitral, olhando para seu santo e dono, estava um cão.

Rocco, padroeiro dos solteiros, dos peregrinos e... dos cães.

 

“ROCCO”, DISSE NADIA QUANDO ELE LHE CONTOU. “Eu... gosto dele. É um belo nome.”

“Você acha? Quase lhe dei o nome de Cassius.”

“Por quê?”

“Porque pensei que ele fosse um boxer.”**

“E daí?”

“Cassius Clay”, ele explicou.

“Ele era lutador de boxe?”

“Sim. E mudou o nome para Muhammad Ali.”

“Ouvi falar dele”, disse ela. “Não tem um grill com o nome dele?”

“Não, era outro cara.”

Bob, Nadia e o recém-batizado Rocco foram andando ao longo de um caminho junto ao rio no Pen’ Park. Vez por outra Nadia ia até ali depois do trabalho, e ela e Bob levavam Rocco para passear. Bob sabia que Nadia era um tanto estranha – o fato de o cão ter sido encontrado perto de sua casa e sua falta de surpresa e de interesse não passaram despercebidos a Bob – mas havia alguém, em algum lugar deste planeta, que não fosse um pouco estranho? Na maioria das vezes até mais do que um pouco? Nadia veio para ajudar com o cachorro, e Bob, que não tinha tido muitas amizades em sua vida, conformou-se com o que apareceu.

Eles ensinaram Rocco a sentar, deitar, escarvar a terra e rolar no chão. Bob leu todo o livro dos monges e seguiu suas instruções. O filhote foi submetido a um tratamento preventivo contra verminose, tosse canina e raiva. Foi vacinado contra parvovirose. Além disso, o veterinário cuidou de todos os danos sérios de sua cabeça. Apenas arranhões profundos, disse ele, apenas isso. Ele foi registrado e cresceu rápido.

Agora Nadia estava ensinando o cão a postar-se ao lado de Bob.

“Certo, Bob, agora pare de vez e diga.”

Bob parou e puxou a trela para que Rocco se postasse ao lado de seu pé esquerdo. Rocco quase ficou sufocado pela trela. Então fez uma pirueta e deitou-se de costas.

“Sente-se. Não, Rocco. Sente-se.”

Rocco endireitou o corpo e olhou para Bob.

“Certo”, disse Nadia. “Nada mau, nada mau. Dê dez passos e faça novamente.”

Bob e Rocco foram andando pelo caminho. Bob parou. “Sentado.”

Rocco obedeceu.

“Grande garoto”, disse Bob fazendo-lhe um afago.

Eles andaram outros dez passos, tentando novamente. Dessa vez Rocco saltou até a altura do quadril de Bob, caiu ao seu lado e rolou várias vezes no chão.

“Sentado”, disse Bob. “Sentado.”

Eles deram mais dez passos e a coisa funcionou.

Tentaram novamente, mas não deu certo.

Bob olhou para Nadia. “Leva certo tempo, não é?”

Nadia fez que sim. “Alguns mais do que outros. Quanto a vocês dois... acho que vai levar certo tempo.”

Pouco depois, Bob tirou a trela de Rocco, e o filhote saltou do caminho, meteu-se entre as árvores e correu de um lado para outro entre os troncos mais próximos do caminho.

“Ele não vai se afastar muito de você”, disse Nadia. “Você notou? Ele não tira os olhos de você.”

Bob ficou afogueado de orgulho. “Ele dorme sobre minha perna quando estou vendo TV.”

“É mesmo?”, disse Nadia sorrindo. “Ele ainda anda aprontando na casa?”

“Ah, sim”, disse Bob com um suspiro.

Cerca de cem metros parque adentro, eles pararam perto dos toaletes. Nadia entrou no banheiro feminino enquanto Bob recolocava a trela em Rocco e lhe fazia mais uma festinha.

“Que belo cão!”

Bob se voltou e viu um jovem passando por eles. Cabelos escorridos, magro, olhos descorados, uma argolinha de prata no lóbulo da orelha esquerda.

Bob fez um aceno de cabeça para o jovem e deu-lhe um sorriso de agradecimento.

O cara parou no caminho a pouco mais de um metro de distância e disse: “É um belo cão”.

Bob respondeu: “Obrigado”.

“Um belíssimo cão.”

Bob olhou para o cara, mas ele já se tinha voltado e estava se afastando. O sujeito pôs uma capa sobre os ombros e sobre a cabeça e começou a andar com as mãos nos bolsos e os ombros encurvados para proteger-se do tempo rigoroso.

Nadia saiu do banheiro feminino e viu algo estranho no rosto de Bob.

“O que é que há?”

Bob fez um gesto com o queixo em direção ao caminho. “Aquele cara ficou dizendo o tempo todo que Rocco era um cão muito bonito.”

Nadia disse: “Rocco é um cão muito bonito”.

“Sim, mas...”

“Mas o quê?”

Bob deu de ombros e deixou pra lá, embora soubesse que havia algo mais naquela história. Ele sentia isso – alguma coisa na estrutura do mundo acabava de ser danificada.

 

NAQUELES DIAS, MARV TEVE DE PAGAR POR AQUILO.

Depois de meia hora com Fantasia Ibanez, ele saiu e tomou o caminho de casa. Ele se encontrava com Fantasia uma vez por semana no quarto no fundo do prostíbulo comandado por Betsy Cannon, numa das antigas mansões dos diretores de presídio no alto de The Heights. Todas as casas eram estilo vitoriano Segundo Império e tinham sido construídas na década de 1800, quando a prisão era a principal fonte de trabalho em East Buckingham. Há muito a prisão não existia: dela sobraram apenas os nomes – Pen’ Park, Justice Lane, Probation Avenue e o bar mais velho do bairro, The Gallows.

Marv desceu a colina, rumou para os Flats, surpreso com o intenso calor daquele dia, prolongando-se agora noite adentro, todas as sarjetas gorgolejando com torrentes de neve derretida, os canos dos esgotos despejando um líquido cinza nas calçadas, as casas de estrutura de madeira com marcas de umidade, como se tivessem passado a tarde suando.

Ao aproximar-se de casa, ele se perguntou como é que se tornara um sujeito que morava com a irmã e pagava por sexo. Naquela tarde, fora visitar seu velho, o sr. Marv, e contou-lhe um monte de mentiras, ainda que o velho nem ao menos se apercebesse de que ele estava na sala. Ele contou ao pai que se aproveitara do fato de o mercado de imóveis estar aquecido e da limitação de licenças para venda de bebidas alcoólicas na cidade: converteu seus bens em dinheiro, vendeu o Bar Cousin Marv por uma boa grana. O bastante para instalar seu pai numa casa muito boa, aquela alemã em West Roxbury, talvez, se molhasse a mão das pessoas certas. E agora ele tinha condições de fazer isso. Quando toda a papelada tivesse sido assinada e o dinheiro liberado pelo banco – “Sabe, pai, os bancos o seguram até começarmos a fazer trambiques para receber o que é nosso” –, Marv poderia cuidar da família de novo, exatamente como fizera em seus bons tempos.

Só que o velho não aceitara o dinheiro dele naquela época. O velho era um puta chato quanto a isso, perguntando a Marv em seu polonês estropiado (Stipler era uma americanização, por sinal não muito boa, de Stepanski) por que ele não poderia trabalhar honestamente como seu pai, sua mãe e sua irmã.

O sr. Marv fora sapateiro, sua mulher trabalhara numa lavanderia durante trinta anos, e Dottie fazia trabalho de escritório para a companhia de seguros Allstate. Marv preferiria vender seu pinto para a ciência a submeter-se a empregos vagabundos por salários vagabundos pelo resto da vida. Para no fim acordar e se perguntar: Que diabo aconteceu?

Não obstante todos os seus conflitos, ele gostava de seu velho, e, esperava ele, vice-versa. Eles viam um monte de jogos do Sox e jogavam juntos na Liga de Boliche uma vez por semana; o velho era um verdadeiro craque e atingia pontuações incríveis. Então ele sofreu o derrame, seguido um ano depois pelo ataque do coração. Três meses depois teve o segundo derrame. Agora o sr. Marvin Stipler estava numa sala escura que cheirava a bolor, e não aquele tipo de bolor que se encontra em paredes úmidas, mas do tipo que dá nas pessoas quando elas se aproximam do fim. Porém Marv alimentava a esperança de que seu velho ainda estava por perto e voltando. E não apenas voltando, mas voltando com um brilho nos olhos. Acontecera um montão de coisas neste mundo. O segredo era não deixar de ter esperança. Não abandonar a esperança e ir atrás de algum dinheiro, colocá-lo num lugar onde acreditassem em milagres, não em estocagem.

Em casa, ele pegou uma cerveja, uma dose de vodca, o cinzeiro, e foi se juntar a Dottie na salinha onde ficava a TV e as confortáveis poltronas reclináveis. Dottie estava degustando uma tigela de sorvete. Ela disse que era a segunda, por isso Marv concluiu que era a terceira. Mas quem era ele para implicar com coisas que davam prazer a uma pessoa? Ele acendeu um cigarro e ficou assistindo a uma propaganda de varredores motorizados de pisos, os diabos zumbindo no soalho de uma dona de casa dentuça, como aparelhos que tivessem se rebelado num filme de ficção científica. Marv imaginou que a dona de casa dentuça iria abrir um closet e surpreender um par de pequenos robôs alienígenas conspirando em voz baixa um com o outro. E então ela seria a primeira a perecer, com cada um dos pequenos desgraçados lançando-se contra ela e reduzindo-a a pedaços.

Marv tinha um monte de ideias como essa. Num daqueles dias ele ficou falando consigo mesmo que deveria anotá-las.

Quando a TV voltou a passar o American Idol, Dottie voltou-se em sua poltrona reclinável e disse: “A gente devia participar desse programa”.

“Você não sabe cantar”, ele lhe lembrou.

Ela fez um gesto com a colher. “Não, o outro, com pessoas que saem pelo mundo procurando pistas.”

“The Amazing Race?”

Ela fez que sim com a cabeça.

Marv deu-lhe um tapinha no braço. “Dottie, você é minha irmã e eu gosto de você, mas considerando-se meus cigarros e seus sorvetes, eles vão ter de... o quê? Correr ao nosso lado com desfibriladores e aqueles troços que aplicam choques elétricos. A cada dez passos que damos... Bzzt! Bzzt!”

A colher de Dottie raspava o fundo da tigela. “Ia ser divertido. Nós veríamos coisas.”

“Que coisas?”

“Outros países, outros costumes.”

Ocorreu a Marv, quando eles assaltaram o bar, que ele tinha de deixar o país. Não havia outra saída. Meu Deus. Dizer adeus a Dottie? Nem ao menos dizer adeus. Simplesmente partir. Caramba, o mundo exigia demais de homens ambiciosos.

“Você viu papai hoje?”

“Passei por lá.”

“Eles querem o dinheiro deles, Marv.”

Marv olhou em volta da sala. “Quem?”

“A casa”, disse Dottie.

“Eles vão conseguir.” Marv apagou o cigarro, sentindo-se exausto de repente. “Eles o terão.”

Dottie pôs a tigela na mesa entre eles. “Quem está nos acossando são as agências de cobrança, não a casa, sabia? Redução do reembolso para os serviços de saúde, aposentadoria para mim... Eles vão despachá-lo.”

“Para onde?”

“Para um lugar pior.”

“Existe algum?”

Ela o olhou atentamente. “Talvez já esteja na hora.”

Marv acendeu um cigarro, embora sua garganta ainda estivesse irritada por causa do último. “Simplesmente o mate é o que você está dizendo. Nosso pai... ele é um incômodo.”

“Ele está morto, Marv.”

“É mesmo? Que barulhos são esses que as máquinas estão fazendo? Aquelas ondas na tela do troço? É a vida.”

“É eletricidade.”

Marv fechou os olhos. A escuridão era cálida, convidativa. “Pus a mão dele em meu rosto hoje, sabe?” Ele abriu os olhos e encarou a irmã. “Consegui ouvir a pulsação de seu sangue.”

Os dois ficaram calados por tanto tempo que o American Idol passou para uma nova série de comerciais quando Dottie temperou a garganta e abriu a boca.

“Na outra encarnação eu vou para a Europa”, disse ela.

Marv olhou nos olhos dela e, com um aceno, agradeceu-lhe.

Depois de um minuto, ele lhe deu um tapinha na perna. “Quer mais um pouco de sorvete?”

Ela lhe passou a tigela.

 

* Rocco em português corresponde a são Roque. (N. T.)

** Boxer, além de dar nome à raça de cães, significa pugilista, lutador. (N. T.)