A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 16 de 16

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A Entrega

16. Último telefonema

16. Último

telefonema

 

MARV SUBIU NA CALÇADA COM O CARRO, estacionou-o sob um poste com a lâmpada quebrada, onde ninguém o veria, e ficou olhando a moça sair do bar sozinha e seguir pela rua na outra direção.

Aquilo não fazia porra de sentido nenhum. Àquela altura Deeds devia estar lá fora. Devia ter saído dez minutos atrás. Ele viu o movimento pela janela à luz de neon, e a luz se apagou. Um minuto antes que ela se apagasse, porém, ele viu a parte de cima da cabeça de alguém.

Bob. Só Bob era alto o bastante para a cabeça chegar à altura daquela janela. Eric Deeds teria de tomar impulso e saltar para conseguir aquilo. Mas Bob, Bob era encorpado. Encorpado, alto e muito, muito mais esperto do que deixava transparecer na maior parte do tempo, e, porra, era exatamente o tipo do cara certinho capaz de meter o bedelho nas coisas e pôr tudo a perder.

Foi isso que você fez, Bob? Você me fodeu? Você pôs areia no meu jogo?

Marv olhou o saco ao seu lado, as passagens de avião apontando do bolso como um dedo médio.

Ele concluiu que o melhor a fazer era ir para a viela, entrar furtivamente por trás do bar e ver o que havia. Na verdade, ele sabia o que tinha acontecido: Eric não tinha conseguido fechar o negócio. Num momento de desespero, Marv chegara a ligar pelo celular dez minutos antes, mas ninguém respondeu.

Claro que não haveria resposta. Ele está morto.

Ele não está morto, considerou Marv. Essa época já passou.

Para você talvez tenha passado. Bob, por outro lado...

Foda-se. Marv ia dar a volta por trás do bar e ver que diabos estava acontecendo. Ele ligou o motor e já começava a acelerar quando o Suburban preto de Chovka passou por ele, com a van branca em sua cola. Marv desligou o motor e deslizou para trás de seu banco. Olhou por cima do para-lama no momento em que Chovka, Anwar e mais alguns caras saíam dos veículos. Todos, menos Chovka, carregavam malas de rodinhas. Mesmo àquela distância, Marv seria capaz de jurar que elas estavam vazias: os caras as balançavam enquanto se dirigiam à porta da frente. Anwar bateu na porta, e eles ficaram esperando, o hálito saindo branco de suas bocas. Então a porta se abriu e eles abriram passagem para Chovka entrar primeiro. Eles entrariam em seguida.

Porra, pensou Marv. Porra, porra, porra.

Ele olhou para as passagens de avião – não ia lhe adiantar nada chegar em Bangcoc no dia seguinte sem um centavo. O plano fora partir com dinheiro bastante para conseguir, por meio de suborno, atravessar a fronteira para o Camboja, seguir para o sul até Kampuchea, onde ele imaginava que ninguém o iria procurar. Ele não sabia exatamente por que ninguém iria procurá-lo lá. O último lugar seria, tipo... Finlândia ou Manchúria, algum lugar friíssimo, e talvez essa fosse a melhor opção, a jogada mais esperta, mas Marv já suportara tantos invernos na Nova Inglaterra que tinha certeza de que sua narina direita e seu testículo esquerdo estavam permanentemente inutilizados pelo frio excessivo; portanto, ao diabo com a ideia de ir para algum lugar frio.

Ele olhou para o bar. Se Eric estivesse morto – e essa porra parecia muito provável àquela altura –, então Bob tinha acabado de salvar a organização Umarov e também milhões de dólares para cada sindicato da cidade. Milhões. Ele fora um puta dum herói desgraçado. Talvez eles lhe dessem uma pensão vitalícia. Chovka sempre gostara de Bob porque Bob estava sempre lhe puxando o saco. Talvez ele lhe desse até cinco por cento. Isso poderia permitir que Marv fosse para o Camboja.

Sendo assim, tudo bem: mudança de plano. Vamos esperar que os chechenos saiam, depois ter uma conversa com Bob.

Agora que tinha um plano, ergueu o corpo um pouco mais no banco. Se bem que lhe ocorreu que provavelmente devia ter aprendido tailandês. Ou pelo menos comprado um livro sobre o assunto.

De todo modo, eles teriam um no aeroporto.

 

CHOVKA SENTOU-SE AO balcão e examinou os últimos telefonemas no celular de Eric Deeds. Bob ficou atrás do balcão.

Chovka virou o telefone para Bob para que ele pudesse ver o número de uma chamada perdida recente.

“Você conhece esse número?”

Bob fez que sim.

Chovka soltou um suspiro. “Eu também conheço esse número.”

Anwar voltou do refrigerador, puxando uma malinha de rodas atrás de si.

Chovka disse: “Ele coube na mala?”.

Anwar respondeu: “Quebramos as pernas dele. Coube direitinho”.

Anwar deixou a mala cheia de Eric na porta da frente e esperou.

Chovka guardou o celular de Eric e pegou o seu.

Os outros chechenos vieram dos fundos.

George disse: “Vamos pôr o dinheiro em barris, chefe. Dakka disse que dentro de uns vinte minutos estará aqui com o caminhão de cerveja”.

Chovka assentiu. Ele se concentrava em seu telefone, escrevendo mensagens como uma mocinha de dezesseis anos na hora do lanche na escola. Quando terminou de digitar, afastou o telefone e olhou para Bob por um bom tempo. Se Bob tivesse um palpite, diria que o silêncio se estendeu por três minutos, talvez quatro. Mas ele teve a impressão de que durou três dias. Absolutamente ninguém se mexia no bar, não se ouvia um som, exceto o da respiração dos seis homens. Chovka olhou dentro dos olhos de Bob, depois para além dos olhos e através de seu sangue. Seguiu esse sangue até os pulmões, o cérebro, revolveu os pensamentos de Bob e então suas lembranças, como se passeasse pelos quartos de uma casa que talvez já estivesse condenada.

Chovka enfiou a mão no bolso, colocou um envelope no balcão e arqueou as sobrancelhas para Bob.

Bob abriu o envelope. Dentro havia ingressos para o Celtic.

Chovka disse: “Não são cadeiras no nível do chão, mas são muito boas. Essas cadeiras são minhas”.

O coração de Bob voltou a bater. Seus pulmões se encheram de oxigênio. “Oh. Uau. Muito obrigado.”

Chovka disse: “Vou lhe passar mais alguns ingressos na próxima semana. Não assisto a todos os jogos. Os jogos são muitos, sabe? Não posso assistir a todos”.

“Claro”, disse Bob.

Chovka leu uma mensagem em seu celular e começou a digitar a resposta. “Procure ir ao estádio uma hora antes do jogo, para conseguir chegar lá. Por causa do trânsito.”

Bob disse: “O trânsito pode ficar muito ruim”.

“Eu digo isso a Anwar, ele diz que não é ruim.”

Anwar disse: “Não é como em Londres”.

Chovka continuava digitando. “O que é como Londres? Depois me diga o que achou, Bob. Ele simplesmente entrou aqui?” Ele pôs o telefone no bolso e olhou para Bob.

Bob pestanejou. “Sim. Entrou pela porta da frente depois que a abri para Millie sair.”

Chovka disse: “Pôs a arma em sua cara, mas você disse: ‘Hoje não’, não foi?”.

Bob disse: “Eu não falei nada”.

Chovka imitou o gesto de puxar um gatilho. “Claro que disse. Você disse pop.” Chovka meteu a mão no bolso novamente e tirou outro envelope. Empapuçado de dinheiro, o envelope se abriu quando ele o jogou em cima do balcão. “Meu pai quer que você fique com isso. Sabe a última vez que meu pai deu dinheiro a alguém? Uhh. Agora você é um Umarov honorário, Bob.”

Bob não conseguiu dizer mais que “obrigado”.

Chovka deu um tapinha no rosto de Bob. “Logo Dakka estará aqui. Boa noite.”

“Boa noite”, respondeu Bob. “Obrigado. Boa noite.”

George abriu a porta, e Chovka saiu, acendendo um cigarro. Anwar o seguiu, puxando atrás de si a mala com Eric. As rodas bateram na soleira, depois na calçada coberta de gelo.

 

QUE DIABOS ERA AQUILO AGORA? Marv viu os chechenos saírem do bar com uma mala de rodinhas que precisou de dois caras para levantá-la e colocá-la na traseira da van. Ele pensara que eles tinham mais de uma mala. Ali estava todo o dinheiro?

Ele abaixou o vidro da janela do carro e jogou seu cigarro na crosta de neve junto do hidrante. O cigarro rolou do montículo duro para o meio-fio e chiou quando caiu numa poça que havia lá.

Outra coisa de que ele precisava quando fosse para a Tailândia: parar de fumar. Aquilo já bastava. Ele ia levantar o vidro da janela e viu um cara na calçada a uns oito centímetros de distância.

O mesmo cara que lhe pedira informações sobre como chegar a determinado lugar algumas semanas antes.

“Ah, merda”, disse Marv baixinho quando o cara lhe meteu uma bala na cara.

 

“AGORA VÃO EM PAZ para amar e servir ao Senhor.”

O padre Regan fez o sinal da cruz, e foi tudo. A última missa.

Todos olharam em volta uns para os outros, os poucos obstinados, os penitentes e os indefectíveis da missa das sete – Bob e Torres, a viúva Malone, Theresa Coe, o velho Williams e também várias pessoas que estiveram ausentes por algum tempo e apareceram para aquela última celebração. Bob percebia o mesmo torpor no rosto de todos – eles sabiam que aquilo ia acontecer; não obstante, de certa forma, não sabiam.

O padre Regan disse: “Se alguém quiser comprar um dos bancos da igreja antes que sejam postos à venda em consignação, por favor, procurem Bridie na reitoria, que ficará aberta por mais três semanas. Deus abençoe a todos”.

Por um minuto, ninguém se mexeu. E então a viúva Malone levantou-se do banco e saiu atabalhoadamente para a nave lateral, seguida, depois, por Torres, atrás do qual foram alguns dos convidados de honra. Bob e o velho Williams foram os dois últimos a sair. Na pia de água benta, Bob se benzeu naquele recinto pela última vez, e seu olhar cruzou com o do velho Williams. O velho sorriu e balançou a cabeça várias vezes, mas não disse nada, e os dois saíram juntos.

 

NA CALÇADA, ELE E TORRES ficaram olhando para trás, contemplando a igreja.

“Quando você retirou sua árvore este ano?”, perguntou Bob.

Torres disse: “No dia seguinte ao Dia de Reis. E você?”.

“Também”, respondeu Bob.

Eles acenaram com a cabeça um para o outro e voltaram a olhar para a igreja.

“Exatamente como eu previ”, disse Torres.

“Como assim?”

“Eles a venderam para a construtora Milligan. Aqui serão construídos condomínios, Bob. Leigos aboletados atrás daquela bela janela, bebericando diabos de Starbucks e falando na confiança que têm em seu professor de pilates.” Ele deu um sorrisinho pesaroso a Bob e deu de ombros. Um minuto depois, disse: “Você gosta de seu pai?”.

Bob olhou para ele o bastante para constatar que ele estava falando muito sério. “Muitíssimo.”

Torres disse: “Vocês eram amigos?”.

Bob disse: “Sim”.

“Eu também. Não é toda hora que a gente ouve isso.” Ele olhou novamente para trás. “Era uma bela igreja. Sinto muito por Cousin Marv.”

“O roubo do carro deu nisso, disseram.”

Torres arregalou os olhos. “Foi uma execução. A um quarteirão e meio de seu bar.”

Bob olhou para a rua por um instante e não disse nada.

Torres disse: “Eric Deeds. Certa vez falei a você sobre ele”.

“Eu me lembro.”

“Na ocasião você não se lembrava dele.”

“Eu me lembro de que você falou sobre ele.”

Torres disse: “Ah, ele estava no domingo em que as pessoas assistiram ao jogo no bar. Você o viu?”.

Bob disse: “Você sabe quantas pessoas estavam no bar naquele domingo?”.

Torres disse: “Foi o último lugar em que foi visto. E daí? Ora. Igualzinho o caso de Richie Whelan. Irônico, pois supõe-se que Deeds matou Whelan. Corpos sendo perfurados ou desaparecendo naquele lugar, e você não vê nada”.

Bob disse: “Ele pode reaparecer”.

Torres disse: “Se reaparecer, provavelmente estará numa prisão psiquiátrica. Que era onde ele estava na noite em que Whelan desapareceu”.

Bob lançou-lhe um olhar rápido.

Torres balançou a cabeça várias vezes. “É verdade. Seu sócio me contou que Deeds sempre assumia o assassinato de Whelan porque ninguém mais queria fazer isso, e ele achava que agir assim lhe daria mais moral na rua. Mas ele não matou Whelan.”

Bob disse: “Será que vão lamentar a morte dele?”.

Torres não podia acreditar naquele cara. Ele sorriu. “Será que o quê?”

“Que vão lamentar a morte dele”, respondeu Bob.

Torres disse: “Não, talvez a de Whelan também não”.

Bob disse: “Isso não é verdade. Eu conhecia Glory Days. Ele não era um cara mau. De jeito nenhum”.

Por algum tempo, nenhum dos dois disse nada. Então Torres se inclinou para a frente. “Ninguém vê você vindo, não é?”

Bob exibiu no rosto uma expressão transparente e aberta como o lago Walden. Estendeu a mão, e Torres a apertou. “Cuide-se, detetive.”

“Você também.”

Bob deixou-o ali, olhando para um edifício, sem esperança de mudar nada do que se passava por lá.

 

NADIA O PROCUROU NO BAR alguns dias depois. Quando chegou a hora de voltar para casa, eles foram para a dela, não para a dele.

“Eu acho”, disse Nadia quando eles estavam dentro de casa, “que há um propósito. E mesmo que você me mate logo que eu feche os olhos...”

“Eu? O quê? Não”, disse Bob. “Oh, não.”

“... então, tudo bem. Porque não posso continuar com isso sozinha. Nem um dia a mais.”

“Eu também”, disse ele, de olhos bem fechados. “Eu também.”

Eles ficaram calados por um bom tempo. E então:

“Ele precisa passear.”

“Quem?”

“Rocco. Faz tempo que ele não sai.”

Ele abriu os olhos e fitou o teto do quarto dela.

Ela tinha colado decalques de estrelas quando era criança, e eles continuavam lá.

“Vou pegar a trela.”

 

NO PARQUE, O CÉU de fevereiro pairava logo acima deles. O gelo tinha quebrado no rio, mas pequenos pedaços dele estavam grudados nas margens escuras.

Ele não sabia em que acreditava. Rocco andava na frente deles, puxando um pouco a trela, tão orgulhoso, tão satisfeito que não parecia a trêmula bola de pelos que Bob retirara do lixo fazia apenas dois meses.

Dois meses! Uau. Com certeza as coisas podiam mudar bem depressa. Você se revirou na cama certa manhã, e lá estava um mundo totalmente novo. O mundo se voltou para o sol, espreguiçou-se e bocejou. Ele se voltou para a noite. Mais algumas horas ele se voltaria para o sol novamente. Um novo mundo, a cada dia.

Quando eles chegaram no meio do parque, Bob tirou a trela de Rocco e meteu a mão no casaco para pegar uma bola de tênis. Rocco levantou a cabeça, bufou alto e escarvou a terra. Bob jogou a bola, e Rocco partiu atrás dela. Bob imaginou que a bola podia se desviar e cair na estrada. O rangido de pneus, o choque de metal contra o cão. Ou então o que podia acontecer se Rocco, de repente solto, desandasse a correr?

Mas o que se poderia fazer?

A gente não pode ter controle sobre tudo.

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