A Entrega
7. Eric Deeds
QUANDO EVANDRO TORRES TINHA CINCO ANOS DE IDADE, ficou suspenso no ponto mais alto da roda-gigante do Paragon Park, em Nantasket Beach, que teve um problema e emperrou. Os pais dele o deixaram ir sozinho na roda-gigante. Até aquele dia não tinha conseguido entender que diabos eles estavam pensando e tampouco entender por que os funcionários do parque deixaram que uma criança de cinco anos ficasse sozinha numa cadeira a centenas de metros do chão. Mas naquela época, porra, para a maioria das pessoas a segurança de uma criança não era motivo de preocupação; você pediu a seu velho um cinto de segurança; correndo loucamente com um litrão de cerveja Shilitz entre as pernas, ele lhe passou sua gravata, e disse que se virasse.
Então lá estava o pequeno Evandro no ponto mais alto da rotação da roda-gigante quando ela emperrou, sentado sob um sol branco que batia em seu rosto e em sua cabeça como um enxame de abelhas; se ele olhasse para a esquerda via o parque, depois o resto de Hull e, mais adiante, Weymouth. Ele podia enxergar até partes de Quincy. À sua direita, porém, estava o oceano – o oceano e então as Harbor Islands, seguidas pelo skyline de Boston. E ele percebeu estar vendo as coisas da forma como Deus as via.
Ele sentia um frio só de pensar em quão pequenas e frágeis todas as coisas eram – cada edifício, cada pessoa.
Quando eles conseguiram fazer a roda-gigante funcionar novamente, e ele por fim foi levado para baixo, chorava porque a altura o assustara. E a verdade é que ele nunca mais haveria de gostar de altura; mas não era essa a causa de seu choro. Ele chorava – e fez isso por tanto tempo que quando voltavam para casa, seu pai, Hector, ameaçou jogá-lo para fora do carro sem diminuir a velocidade – porque ele entendia que a vida era finita. Sim, sim, ele iria lhe contar a sensação de aviltamento depois de seu segundo rebaixamento. Eu sei – todos sabemos que a vida acaba. Mas na verdade não sabemos. Em algum recesso de nossa cabeça, achamos que vamos superar isso. Achamos que vai acontecer alguma coisa para mudar isso – uma nova descoberta científica, a Segunda Vinda, ETs, alguma coisa – e vamos viver para sempre. Mas aos cinco anos – no diabo dos cinco anos – ele viu com uma clareza cristalina que ele, Evandro Manolo Torres, iria morrer. Talvez não naquele dia. Mas, quem sabe... sim.
Esse conhecimento pôs um relógio a tiquetaquear no centro de sua cabeça e, em seu coração, um sino que tocava a toda hora.
E então Evandro rezava. E ia à missa. E lia a Bíblia. E tentava comungar todos os dias com Nosso Senhor e Salvador, o Pai Celeste.
E bebia muito.
E por algum tempo ele também fumou demais e cheirou cocaína, ambos hábitos degradantes; agora, pensando em retrospecto, já fazia mais de cinco anos.
Amava sua mulher e seus filhos e tentava garantir que eles soubessem disso e o sentissem todos os dias.
Mas não era o bastante. O vácuo – o diabo da brecha, do buraco, o abscesso no meio dele – não iria se fechar. Fosse lá o que fosse que o mundo visse quando olhava para ele, quando Evandro olhava para si mesmo via um homem correndo para um ponto do horizonte que nunca iria alcançar. E um dia, no meio da correria, as luzes simplesmente iriam se apagar, para nunca mais voltarem a se acender. Não neste mundo.
E isso fazia o relógio bater mais rápido e o sino tocar mais alto, fazia Evandro Torres sentir-se enlouquecido, desamparado e precisando de alguma coisa – qualquer coisa – que o ancorasse no momento presente.
Esse algo, desde que ele se tornou adulto o bastante para tomar conhecimento dele, era a carne.
E foi assim que ele se encontrou na cama de Lisa Romsey pela primeira vez em dois anos, os dois entregando-se àquilo como se a coisa nunca tivesse parado, encontrando seu ritmo mesmo antes de se jogarem no colchão, hálito e pele cheirando a álcool, mas era hálito quente e pele quente. E quando atingiu o orgasmo, Evandro o sentiu até no menor dos ossos de seu corpo. Lisa gozou na mesma hora que ele, e o gemido que escapou de sua garganta foi tão alto que abalou o teto.
Ele levou quatro segundos para sair dela e mais cinco para arrepender-se de ter começado aquilo.
Ela se sentou na cama e estendeu a mão para a garrafa de vinho tinto da mesinha de cabeceira. Bebeu da garrafa e disse: “Meu Deus”. Ela disse: “Cara”. Ela disse: “Merda”.
Passou a garrafa a Torres.
Ele tomou um gole. “Ei, isso acontece.”
“Mas não significa que devia acontecer, seu babaca.”
“Por que sou o babaca?”
“Porque você é casado.”
“Não bem casado.”
Ela pegou a garrafa de volta. “Você quer dizer que não é um casamento feliz.”
“Não”, disse Torres. “Quero dizer que no geral somos felizes, mas não somos muito fiéis. É como a porra da teoria das cordas da física moderna. Cara, tenho que olhar nos olhos do meu confessor amanhã e confessar esta merda.”
Romsey disse: “Você é o pior católico de que tenho notícia”.
Diante disso, Torres arregalou os olhos e riu. “Não estou nem perto disso.”
“Como isso é possível, Pecador?”
“O problema não é pecar”, explicou ele. “O problema é aceitar que você nasceu caído e a vida está tentando remediar isso.”
Romsey revirou os olhos. “Por que você não tira a bunda de minha cama e vai embora?”
Torres suspirou e levantou-se de sob os lençóis. Sentou-se na beira da cama, vestiu a calça, procurou a camisa e as meias. Ele surpreendeu Romsey no espelho observando-o e sabia que, por mais que resistisse, ela gostava dele.
Obrigado, Jesus, pelos pequenos milagres.
Romsey acendeu um cigarro. “Depois que você saiu no outro dia, fiquei observando o bar que você frequenta, o Cousin Marv’s.”
Torres achou uma meia, mas não a outra. “E aí?”
“Relacionaram o bar a um caso não resolvido há uma década.”
Torres parou de procurar a meia por um instante. Ele levantou a vista da cama e olhou para ela. “Você não está brincando?”
Ela estendeu a mão para trás de si e pegou uma coisa que ele não conseguiu distinguir o que era. Fez um movimento rápido com o pulso, e a meia dele foi parar perto de seu quadril. “Um cara chamado Richard Whelan saiu de lá certa noite, e ninguém mais tornou a vê-lo. Se você resolvesse um caso de assassinato velho de dez anos, Evandro?”
“Eu poderia encaminhar o caso de volta ao Departamento de Homicídios.”
Ela franziu o cenho. “Você nunca vai fazer isso.”
“Por que não?”
“Nun-ca.”
“Por que não?”, repetiu ele. Ele sabia a resposta, tinha a esperança de que a coisa de algum modo tivesse mudado.
Os olhos dela se arregalaram. “Porque quem está encarregado do caso é Scarpone.”
“E daí?”
“E você fodeu com a mulher dele, seu panaca. Depois levou a mulher para a casa dela, dirigindo bêbado, em serviço, e escangalhou a viatura que estava dirigindo.”
Torres fechou os olhos. “Certo, não vou poder encaminhar o caso para o Departamento de Homicídios.”
“Mas se você resolver esse tipo de caso antigo, pode ir parar no Departamento de Crimes Graves.”
“Você acha?”
Ela lhe sorriu. “Acho.”
Torres calçou a meia, gostando muito daquela ideia.
Eu estava perdido, ele diria no dia de sua transferência, mas agora me encontrei.
MARV SAIU DO COTTAGE MARKET COM DOIS CAFÉS, um saquinho de bolinhos, o Herald debaixo do braço e dez bilhetes de raspadinha da loteria Mass Millions no bolso do casaco.
Muito tempo atrás, no momento mais difícil e de maior orgulho de sua vida, Marv largou a cocaína. Ele ganhara um bom dinheiro inesperadamente e fez a coisa certa – pagou suas dívidas e acabou com aquela porcaria. Até aquele dia, porém, fora um diabo dum degenerado sem dignidade nenhuma e sem nenhum controle. Mas uma vez paga a dívida, recuperou a dignidade. Desde então, deixou seu corpo num ponto em que só prostitutas iriam foder com ele, e provavelmente era verdade que ele queimara mais relacionamentos do que muita gente tem cabelos, mas agora ele tinha sua dignidade.
Levava consigo também os dez bilhetes de loteria que rasparia, sem pressa, naquela noite, enquanto Dottie assistisse a Survivor ou Undercover Boss ou qualquer diabo de reality show que estivesse passando naquela noite.
Quando ele desceu do meio-fio, um carro foi diminuindo a velocidade na frente dele.
Então parou.
A janela do passageiro rangeu enquanto o vidro descia.
O motorista debruçou-se sobre o banco e disse: “Ei”.
Marv olhou para o carro, depois para o cara. O carro era um Jetta de 2011 ou coisa assim. Tipo de carro para garotos de faculdade, mas aquele cara tinha pouco mais de quarenta anos. Havia nele algo notoriamente passível de ser esquecido, um rosto tão delicado que a gente não era capaz de determinar suas feições nem quando elas estavam bem na sua frente. Marv deu uma sacada no cara – cabelos castanhos-claros, olhos castanhos-claros, roupas cor de canela.
O cara disse: “Pode me dizer onde é o hospital?”.
Marv disse: “Você tem de fazer uma curva em U e voltar duas, três milhas. Fica à esquerda”.
“À esquerda?”
“Sim.”
“Minha esquerda.”
“Sua esquerda.”
“Não a sua.”
“Estamos olhando na mesma direção.”
“Estamos?”
“Falando em termos gerais.”
“Certo, então”, disse o cara sorrindo para ele. Poderia ser um sorriso de agradecimento, mas podia ser outra coisa, algo meio incômodo, impossível de definir. Impossível de dizer. Com os olhos ainda fitando Marv, ele segurou o volante e fez uma curva em U perfeita.
Marv ficou olhando ele partir e tentou ignorar o suor que lhe escorria pelas coxas, num dia de temperatura baixa.
BOB SACUDIU OS OMBROS, pronto para mais um dia no bar. Foi para a cozinha, onde Rocco estava dando cabo de um biscoito para cachorro. Encheu a tigela de água de Rocco, olhou em volta da cozinha até descobrir o pato amarelo de brinquedo de mascar que Rocco carregava para toda parte. Ele o colocou no canto da casinha, pôs a tigela de água no outro canto e bateu os dedos de leve.
Bob disse: “Venha, garoto. Casinha”.
Rocco correu para dentro da casinha e se enroscou no pato amarelo. Bob deu-lhe um tapinha na cara e fechou a porta.
“Vejo você à noite.” Bob passou pelo corredor rumo à porta da frente e a abriu.
O cara que estava na entrada era magro. Não magro fraco. Magro duro. Como se o que quer que queimasse dentro dele queimasse tão forte que a gordura não resistiria. Seus olhos azuis, muito claros, eram quase cinzentos. Os cabelos escorridos eram tão loiros quanto o cavanhaque que ia dos lábios até o queixo. Bob o reconheceu de imediato – o cara que outro dia passara por ele no parque e dissera que Rocco era um belo cão.
Olhando com mais atenção, notou que não se tratava de um rapaz. Provavelmente trinta anos, quando visto mais de perto.
Ele sorriu e estendeu a mão. “Sr. Saginowski?”
Bob apertou a mão do outro. “Sim.”
“Bob Saginowski?” O homem sacudiu a mão grande de Bob com sua mão pequena, e havia muita força naquele aperto.
“Sim.”
“Eric Deeds, Bob.” O sujeito largou a mão dele. “Acho que você está com o meu cachorro.”
Bob sentiu como se tivesse sido golpeado no rosto com um saco de gelo. “O quê?”
Eric Deeds abraçou o próprio corpo. “Brrr. Aqui fora está frio, Bob. Não é adequado para um homem nem... A propósito, onde ele está?”
Ele quis passar por Bob. Bob se postou na frente do cara. Este mediu Bob de alto a baixo e sorriu.
“Aposto como ele está lá atrás. Você o mantém na cozinha? Ou lá embaixo, no porão?”
“De que é que você está falando?”
“Do cachorro”, respondeu Eric.
Bob disse: “Olhe, outro dia você gostou do meu cachorro no parque, mas...”.
Eric disse: “O cachorro não é seu”.
Bob disse: “O quê? Ele é meu sim”.
Eric balançou a cabeça do jeito que fazem as freiras quando pegam a gente numa mentira. “Você tem um minuto para conversar?” Ele levantou o indicador. “Só um minuto.”
NA COZINHA, ERIC DEEDS disse: “Ei, lá está ele. É o meu garoto”. E acrescentou: “Ele cresceu: a estatura dele”.
Quando Bob abriu a casinha, doeu-lhe o coração ver Rocco precipitar-se em direção a Eric Deeds. Rocco chegou a pular em seu colo quando Eric, sem ter sido convidado, sentou-se à mesa de Bob e deu tapinhas na parte interna da coxa de Rocco duas vezes. Bob nem saberia dizer como o sujeito entrara na casa; ele era simplesmente um daqueles sujeitos que se impunham a ele, como policiais e caminhoneiros: ele queria entrar e ia entrando.
“Bob”, disse Eric, “você conhece uma franga chamada Nadia Dunn?” Ele passou a mão na barriga de Rocco. Bob sentiu uma pontada de inveja quando Rocco deu uma patada em sua perna esquerda, ainda que um constante tremor – quase uma paralisia – se espalhasse em seu pelo.
“Nadia Dunn?”, perguntou Bob.
“Não é que eu conheça tantas Nadias que esteja confundindo os nomes delas, cara.” Eric Deeds coçou por baixo o queixo de Rocco. As orelhas e a cauda de Rocco ficaram grudadas em seu corpo. Ele parecia envergonhado, os olhos voltados para dentro.
“Eu a conheço”, Bob disse, depois tirou Rocco do colo de Eric e o pôs em seu próprio colo, coçando-lhe a parte de trás das orelhas. “Algumas vezes ela me acompanhou em passeios com Rocco.”
Agora a coisa era entre eles dois. Bob tirara o filhote do colo de Eric sem avisar. Eric ficou olhando para ele só por um segundo como se dissesse: “Que merda é isso?”. Eric ainda tinha um sorriso no rosto, mas agora já não era amplo e também não expressava nenhuma alegria. Sua testa se estreitou, o que deu a seus olhos um ar de surpresa, como se eles nunca tivessem esperado achar-se em seu rosto. Naquele instante, ele pareceu cruel, o tipo de cara que, quando lamentava a própria sorte, ficava puto com o mundo todo.
“Rocco?”, disse ele.
Bob fez que sim, enquanto Rocco desprendia as orelhas da cabeça e lambia o punho de Bob. “É o nome dele. Como você o chamava?”
“Eu o chamava principalmente de Cachorro. Às vezes de Cão.”
Eric Deeds olhou em volta da cozinha, olhou para a lâmpada fluorescente no teto, algo que remontava ao tempo da mãe de Bob; diabo, o pai de Bob naquela época também andava obcecado com apainelamento – apainelou a cozinha, a sala de estar, e teria apainelado o toalete se tivesse imaginado como fazer isso.
“Bob, vou querer meu cão de volta.”
Por um segundo, Bob ficou sem saber o que dizer. “Ele é meu”, disse finalmente.
Eric balançou a cabeça. “Você estava ficando com ele por um tempo para mim.” Ele olhou para o cão nos braços de Bob. “Esse tempo acabou.”
“Você o espancou.”
Eric enfiou a mão no bolso, tirou um cigarro e o pôs na boca. Ele o acendeu, sacudiu o fósforo e o jogou na mesa da cozinha de Bob.
“Você não pode fumar aqui.”
Eric encarou Bob e continuou fumando. “Eu o espanquei?”
“Espancou sim.”
“Ah. E daí?” Eric jogou um pouco de cinza no chão. “Vou levar o cachorro, Bob.”
Bob ergueu o corpo o máximo que pôde. Ele segurava Rocco com firmeza. Este se contorcia um pouco em seus braços e mordiscava a palma de sua mão. Se fosse necessário, resolveu Bob, ele iria lançar seu um metro e noventa e noventa e três quilos contra Eric Deeds, que devia pesar pouco mais de setenta e cinco quilos. Não agora, não simplesmente estando ali. Mas se Eric tentasse pegar Rocco, bem, então...
Eric Deeds sorriu para ele. “Você quer dar uma de durão pra cima de mim, Bob? Sente-se. Francamente.” Eric recostou-se na cadeira e soprou um jato de fumaça em direção ao teto. “Eu lhe perguntei sobre Nadia porque conheço a Nadia. Ela mora no mesmo conjunto que eu desde que éramos crianças. Uma coisa engraçada sobre os bairros é que você pode não conhecer um monte de gente, principalmente se não são da sua idade, mas você conhece todo mundo que mora no seu conjunto.” Ele olhou para Bob enquanto este se sentava. “Eu vi você naquela noite. Eu não estava de muito bom humor, sabe? Então voltei para ver se o cão estava realmente morto e vi você tirá-lo do lixo e subir à varanda de Nadia. Você está na dela, Bob?”
Bob disse: “Acho mesmo que você deve ir embora”.
“Não o censuraria por isso. Ela não é nenhuma beldade, mas também não é uma megera. E você não é nenhum gato, é, Bob?”
Bob tirou o celular do bolso e o abriu. “Vou ligar para a polícia.”
“Fique à vontade”, disse Eric com um gesto de assentimento. “Você o registrou e tudo mais? A prefeitura determina que você tem de registrar seu cão, conseguir uma licença. Que tal um chip?”
Bob disse: “O quê?”.
Eric disse: “Um chip de segurança. Eles o implantam nos cães. Totó desaparece, aparece num veterinário, o veterinário faz uma varredura eletrônica nele, aí aparece um código de barras e todas as informações sobre o dono. Enquanto isso, o dono está andando por aí com uma folha de papel com o número de segurança do chip. É assim”.
Eric tirou uma tirinha de papel da carteira e estendeu-a para que Bob pudesse vê-la. Tinha o código de barras e tudo o mais. Ele a recolocou na carteira.
Eric disse: “Você está com meu cachorro, Bob”.
“O cachorro é meu.”
Os olhos de Eric procuraram os de Bob. Eric balançou a cabeça.
Bob atravessou a cozinha levando Rocco. Quando ele abriu a casinha, sentiu os olhos de Eric Deeds em suas costas. Pôs Rocco dentro da casinha e o acomodou. Voltou-se para Eric e disse: “Agora nós vamos indo”.
“Vamos?”
“Sim.”
Eric bateu as mãos nas próprias coxas e se levantou. “Então acho que nós vamos, não é?”
Ele e Bob atravessaram o corredor escuro e se encontraram novamente no vestíbulo.
Eric viu um guarda-chuva no descanso à direita da porta da frente. Ele o pegou e olhou para Bob. Ele abriu e fechou o guarda-chuva algumas vezes.
“Você o espancou”, repetiu Bob, porque aquilo lhe parecia um detalhe importante.
“Mas vou dizer à polícia que foi você quem o espancou”, continuou Eric, abrindo e fechando o guarda-chuva, agitando um pouco o tecido da cobertura.
Bob disse: “O que é que você quer?”.
Eric deu aquele seu sorrisinho, enrolou a correia em volta do guarda-chuva até que ela ficasse apertada. Abriu a porta da frente, olhou para fora, depois para Bob.
Eric disse: “Agora o sol abriu, mas a gente nunca sabe”.
Quando chegou à calçada, Eric Deeds tomou um grande trago de ar e foi andando pela rua, sob o céu luminoso, com o guarda-chuva debaixo do braço.