A Entrega
12. Como se o tempo tivesse voado
12. Como se o
tempo tivesse
voado
NA MANHÃ DE SEXTA-FEIRA, ERIC DEEDS estava no fundo do salão da Hi-Fi Pizza com duas fatias. Ele sempre se sentava no fundo do salão em qualquer lugar onde podia comer ou beber. Gostava sempre de ficar a não mais de três metros de uma saída. Para o caso, explicou certa vez a uma garota.
“Para o caso de quê?”
“Para o caso de eles virem atrás de mim.”
“Quem são ‘eles’?”
“Sempre existe um ‘eles’, disse Eric, olhando nos olhos dela – ela era Jeannie Madden, com quem ele estava namorando àquela época – e ele pensou ter visto um olhar de verdadeira compreensão nos olhos da jovem. Finalmente – finalmente, porra – alguém o entendeu.
Ela acariciou a mão dele. “Sempre há um ‘eles’, não é?”
“Sim”, disse Eric. “Sim.”
Ela o dispensou três horas depois. Deixou uma mensagem na velha e pesadona secretária eletrônica que o pai de Eric mantinha no corredor de entrada da casa deles em Parker Hill. Na mensagem, ela começava bem, falando que o problema era com ela, não com ele, e que as pessoas simplesmente se afastavam, era o que faziam, e algum dia ela esperava que fossem amigos, mas que se ele tentasse alguma merda daquela com ela; se ele ao menos pensasse, porra, em fazer uma merda daquela com ela, seus quatro irmãos iriam saltar de um carro quando ele estivesse andando na Bucky Avenue e iriam acabar com ele. Peça alguma ajuda, Eric. Consiga alguma ajuda pra valer. Mas me deixe em paz.
Ele a deixou em paz. Ela se casou com Paul Giraldi, o eletricista, exatamente seis meses depois. Agora tinham três filhos.
E Eric ainda estava olhando a saída dos fundos de alguma pizzaria. Sozinho.
Ele pensou em recorrer a ela naquela manhã quando o sujeito gordo, Cousin Marv, foi até sua mesa, mas não queria fazer uma cena, perder seus privilégios mais uma vez. Em 2005 ele já fora afastado dali por seis meses, depois do incidente com a Sprite e pimentões, e aqueles foram os mais longos seis meses de sua vida, porque a Hi-Fi fazia as melhores pizzas na história da pizza.
Então ele permaneceu onde estava enquanto Cousin Marv tirava o casaco e se sentava diante dele.
“Eu ainda não recebi nenhuma Zima.”
Eric continuou a comer, sem saber direito qual era a jogada.
Cousin Marv afastou o sal e o frasco de queijo parmesão de entre eles e olhou por sobre a mesa. “Por que você não gosta de meu primo?”
“Ele tomou meu cachorro.” Eric recolocou o frasco de parmesão no lugar.
Cousin Marv disse: “Ouvi dizer que você o machucou”.
“Me senti muito mal com aquilo.” Eric tomou um golinho de Coca. “Isso importa?”
Cousin Marv olhou para ele de um modo que muita gente fazia – como se lesse seus pensamentos e os achasse desprezíveis.
Um dia desses vou fazer você se sentir desprezível, Eric pensou. Fazer você chorar, sangrar e implorar.
Cousin Marv disse: “Você ainda quer o cachorro de volta?”.
Eric disse: “Eu não sei. Mas não quero seu primo rondando por aqui pensando que é o máximo. Ele precisa aprender”.
“Aprender o quê?”, perguntou Cousin Marv.
Eric disse: “Que ele não devia foder comigo. E agora você está fazendo o mesmo. Você acha que vou suportar isso?”.
“Relaxe, eu vim com intenção de paz.”
Eric mastigou um pouco de pizza.
Cousin Marv disse: “Você já puxou algum tempo?”
“Tempo?”
“Sim”, disse Marv. “Numa prisão.”
Eric terminou de comer sua fatia de pizza, sacudiu algumas migalhas das mãos. “Eu puxei uma cadeia.”
“É mesmo?”, disse Marv erguendo as sobrancelhas. “Onde?”
“Broad River.”
Marv balançou a cabeça. “Não sei onde fica isso.”
“Na Carolina do Sul.”
“Merda”, disse Marv. “Como você foi parar lá?”
Eric deu de ombros.
“Quer dizer que você cumpriu sua pena – de quanto, uns poucos anos – e voltou?”
“Isso aí.”
“Como é que foi esse seu tempo na Carolina do Sul?”
Eric pegou sua segunda fatia de pizza, olhou para Cousin Marv por cima dela. “Como se o tempo tivesse voado.”
DURANTE TODO O TEMPO QUE TORRES passou investigando o desaparecimento de Richie Whelan, dez anos antes, não conseguiu absolutamente nada. O cara simplesmente sumiu determinada noite. Saiu do Cousin Marv’s Bar, disse que voltaria em quinze minutos, assim que conseguisse um pouco de fumo nas imediações. Aquela noite estava geladíssima. Na verdade mais que isso – o tipo de noite que fazia as pessoas investirem em terras de que nunca tinham ouvido falar na Flórida. Catorze graus negativos quando Richie Whelan saiu do bar às onze e quarenta e cinco. Torres fez mais algumas investigações, viu que o efeito de resfriamento do vento naquela noite fazia com que os catorze graus parecessem vinte e três graus negativos. Então lá está Richie Whelan andando depressa na calçada, a vinte e três graus negativos, tipo de frio que o faria sentir os pulmões e os espaços entre os dentes inferiores queimando. Não havia mais ninguém na rua naquela noite, porque só um maconheiro necessitado de maconha ou um viciado em cocaína em síndrome de abstinência seria capaz de encarar um tempo como aquele para dar uma caminhada à meia-noite. Ainda que a caminhada não passasse de três quarteirões, que era a distância exata entre o Cousin Marv’s Bar e o lugar onde ele ia conseguir a droga.
Os fornecedores de Whelan naquela noite eram dois imbecis chamados Eric Deeds e Tim Brennan. Brennan deu um depoimento à polícia alguns dias depois afirmando que Richie Whelan não foi ao seu apartamento naquela noite. Quando perguntado sobre suas relações com Whelan, Tim Brennan respondeu: “Às vezes ele me comprava erva”. Eric Deeds nunca prestara depoimento, seu nome só surgiu nos depoimentos pela boca dos amigos que Richie Whelan deixara no bar naquela noite.
Assim, se Torres aceitou que Brennan não tinha motivo para mentir, visto ter se mostrado razoavelmente acessível ao admitir negociar drogas com o desaparecido Richie Whelan, então era possível acreditar que Richie Whelan desaparecera a três quarteirões do Cousin Marv’s Bar.
E Torres não podia afastar a suposição de que esse pequeno detalhe era muito mais significativo do que consideraram os detetives que tinham trabalhado antes no caso do desaparecimento de Whelan.
Por quê?, seu tenente, Mark Adeline, teria perguntado (se Torres fosse tolo o bastante para admitir que estava trabalhando num caso já meio antigo de responsabilidade de outra pessoa).
Porque esse filho da puta não comunga, responderia Torres.
No filme da vida de Torres, Mark Adeline se recostaria na cadeira, a névoa da sabedoria manifestando-se em seus olhos, e diria: “Hum, você pode achar alguma coisa aqui. Vou lhe dar três dias”.
Na realidade, Adeline estava no pé dele para conseguir que aquela porra daquele assalto fosse esclarecido. E... bem. Uma nova classe de recrutas estava saindo da Academia. Isso significava que um monte de patrulheiros estava prestes a atuar em trajes de paisano. Assalto, Crimes Graves, Homicídio, Vícios – todos estariam à cata de sangue novo. E o sangue velho? Aqueles que buscavam informações sobre casos meio caducos de outros policiais enquanto seus próprios casos ficavam às moscas? Eles foram mandados para a Custódia de Bens ou para a inspeção de táxis e veículos de turismo, Relações Públicas ou, pior, para a Unidade Portuária, fazendo cumprir regras marítimas a uma porra de quinze graus negativos. Os casos de Evandro Torres se empilhavam em sua mesa e entupiam seu disco rígido. Ele tinha ordens para colher depoimentos sobre o assalto a uma loja de bebidas em Allston, um roubo na Newbury Street e uma gangue de assaltantes que atacavam farmácias em toda a cidade. Mais o assalto do Cousin Marv’s. Mais as casas que estavam sendo atacadas ao meio-dia no South End. Mais os caminhões de entrega em Seaport, aos quais surrupiavam frutos do mar e carne congelada.
Mais, mais, mais. A merda se empilhava e continuava a empilhar-se cada vez mais enquanto a base se deslocava em direção a um homem. Antes que ele se desse conta, foi devorado pela pilha.
Torres foi andando até seu carro, dizendo consigo mesmo que iria a Seaport para interrogar, a respeito dos furtos, o motorista que se mostrara tão receptivo da última vez que conversaram e mascou chiclete como um esquilo masca nozes.
Mas em vez disso ele se dirigiu à central elétrica do Southie, o sol surgindo ao mesmo tempo em que o turno da noite chegava ao fim, e o contramestre lhe indicou Sean McGrath. McGrath era um dos velhos parceiros de Whelan e, de acordo com alguém com quem Torres havia conversado, o líder de um grupo de caras que prestavam homenagem a Glory Days uma vez por ano no aniversário do seu desaparecimento.
Torres se apresentou e começou a explicar por que fora até ali, mas McGrath levantou uma mão e chamou um dos outros caras. “Ei, Jimmy.”
“Que é que há?”
“Para onde estamos indo?”
“Para o lugar.”
“O lugar perto da delicatessen?”
Jimmy negou com a cabeça e acendeu um cigarro. “Outro lugar.”
Sean McGrath disse: “Legal”.
Jimmy fez um aceno e saiu com outros caras.
Sean McGrath voltou-se novamente para Torres. “Quer dizer que você está perguntando sobre a noite em que Richie sumiu?”
“Isso mesmo. Você tem algo a me dizer sobre isso?”
“Nada a dizer. Ele saiu do bar. Nunca mais o vimos.”
“Só isso?”
“Só isso”, disse McGrath. “Pode acreditar, ninguém gosta que tenha sido assim, mas foi. Ninguém mais o viu. Se existe um céu e eu for para lá, a primeira pergunta que vou fazer – mesmo antes de ‘Quem matou John Kennedy?’ ou ‘Jesus está por aqui?’ – vai ser ‘Que diabos aconteceu com meu amigo Richie Whelan?’”
Torres viu que o sujeito estava apoiando-se ora num pé ora no outro, no frio da manhã, e percebeu que não poderia mantê-lo ali por muito tempo. “Em seu primeiro depoimento, você disse que foi para...”
“Conseguir erva, sim. Os caras normalmente a conseguem com aquele sacana. Tim Bennan e outro cara.”
Torres consultou seu caderno de anotações. “Eric Deeds. Era o que constava de seu primeiro depoimento. Mas deixe-me perguntar-lhe uma coisa.”
McGrath soprou as próprias mãos. “Claro.”
“Bob Saginowski e Cousin Marv: onde eles estavam trabalhando naquela noite?”
Sean McGrath parou de soprar as mãos. “Você está querendo estabelecer uma relação deles com essa história”
Torres disse: “Eu estava só tentando...”.
McGrath aproximou-se mais, e Torres sentiu no outro aquele raro acesso de exaltação de um homem que não suporta muita provocação. “Sabe de uma coisa, você me procura e diz que está na Assaltos. Mas Richie Whelan não foi roubado. E você me faz ficar aqui fora, sob as vistas de todos os caras que trabalham comigo, parecendo um delator. Então, tipo, obrigado por isso.”
“Ouça, sr. McGrath...”
“Sabe, o Cousin Marv’s é meu bar.” Ele deu mais um passo em direção a Torres, lançou-lhe um olhar intenso, respirou fundo pelas narinas inflamadas. “Não foda com meu bar.”
Ele brindou Torres com uma saudação trocista e seguiu pela calçada em direção a seus amigos.
ERIC DEEDS OLHOU PELA JANELA de seu segundo andar quando a campainha tocou pela segunda vez. Ele não conseguiu acreditar. Lá estava Bob, Bob Saginowski. O Problema. O Raptor de Cães. O Boa Praça.
Eric ouviu o ruído das rodas tarde demais, voltou-se e viu seu pai indo em sua cadeira de rodas para o vestíbulo, junto ao interfone.
Eric apontou para ele. “Volte para sua sala.”
O velho olhou para ele como uma criança que ainda não sabia falar. Havia nove anos que o velho não falava, o que fez muita gente pensar que ele era fraco, retardado e o diabo, mas Eric sabia que o sacana ainda estava lá, vivendo por trás da pele. Ainda pensando em formas de pegar você, foder com você, providenciar para que o chão sob seus pés parecesse areia movediça.
A campainha tocou novamente, e o dedo do velho apertou sucessivamente os botões do interfone OUVIR, FALAR e ENTRAR.
“Eu lhe disse para não tocar em nada, porra.”
O velho dobrou o dedo e colocou sobre o botão ENTRAR.
Eric disse: “Eu te jogo da janela. E jogo essa merda dessa cadeira barulhenta em cima de você enquanto estiver caído”.
O velho congelou, sobrancelhas arqueadas.
“Estou falando sério.”
O velho sorriu.
“Nem pense–”
O velho apertou ENTRAR e segurou o botão.
Eric atravessou o quarto e acertou o pai, o derrubando da cadeira. O velho só riu. Ficou lá sem a cadeira de rodas, rindo e com um olhar distante e pálido, como se ele pudesse ver um outro mundo, um mundo onde as pessoas também fossem uns merdas como nesse aqui.
BOB ACABARA DE SUBIR NA CALÇADA quando ouviu o barulho da porta abrindo. Ele subiu os degraus, cruzou a varanda e aproximou-se da porta no exato momento em que o ruído cessou.
Merda!
Bob tocou a campainha novamente. Esperou. Tocou mais uma vez. Esperou. Esticou o pescoço na extremidade da varanda, olhou para a janela do segundo andar. Voltou à campainha e tocou novamente. Depois de algum tempo, saiu da varanda, se pôs na calçada e olhou de novo para o segundo andar, perguntando-se se algum morador tinha deixado a porta dos fundos aberta. Isso era muito comum; podia ser também que o proprietário não prestasse muita atenção para ver se a madeira em volta da fechadura tinha apodrecido no inverno ou se os cupins a tinham comido. Mas o que Bob iria fazer? Invadir? Esse tipo de bobagem estava tão longe de sua perspectiva como da vida de um sósia seu ou de um gêmeo, com os quais ele nunca tivesse tido proximidade.
Olhou para a rua e deu com Eric Deeds bem à sua frente, olhando para ele com aquela expressão de drogado na cara, como se tivesse sido finalista numa cerimônia de beatificação para pessoas que, quando crianças, tinham sido largadas de cabeça contra o chão. Ele devia ter se deslocado sorrateiramente pela viela lateral, concluiu Bob, e agora estava diante dele com a potência de um raio caído numa tempestade, silvando e agitando-se na rua.
“Você assustou meu pai.”
Bob não disse nada, mas deve ter contorcido o rosto de certa maneira, porque Eric zombou dele com uma pantomima meticulosa, erguendo e abaixando a boca e as sobrancelhas.
“Porra, quantas vezes você acha que deve tocar a campainha antes de concluir que as pessoas não poderão responder, Bob? Meu pai é muito idoso. Ele precisa de paz, serenidade e o diabo.”
“Desculpe”, disse Bob.
Eric adorou aquilo. Ficou radiante. “Desculpe. É o que você tinha de dizer. O velho ‘desculpe’.” O sorriso sumiu do rosto de Eric, e algo tão desolado o substituiu – o olhar de um animalzinho com uma pata quebrada que se viu numa parte da floresta que não reconhecia – e então a desolação foi sepultada por uma onda de esperteza e frieza. “Bem, você me poupou uma viagem.”
“Como assim?”
“De todo modo eu iria a sua casa mais tarde.”
“Eu tive essa impressão”, disse Bob.”
“Devolvi seu guarda-chuva.”
Bob aquiesceu.
“Poderia ter levado o cachorro.”
Mais uma aquiescência de Bob.
“Mas não levei.”
“Por que não?”, perguntou Bob.
Eric olhou para a rua por um instante enquanto o trânsito da manhã começava a amainar. “Ele já não está em meus planos.”
“Tudo bem”, disse Bob.
Eric soltou ar frio pelas narinas e jogou um pouco de catarro na rua. “Dê-me dez mil.”
“O quê?”, perguntou Bob.
“Dólares. Amanhã de manhã.”
“Quem tem dez mil dólares?”
“Você pode conseguir.”
“Como diabos eu pod...?”
“Digamos... aquele cofre no escritório do Cousin Marv’s. Pode ser o lugar por onde começar.”
Bob balançou a cabeça. “Isso é impossível. Ele tem uma fechadura eletrônica...”, principiou.
“... temporizada, eu sei”, completou Eric acendendo um cigarro. O vento soprou a chama, que atingiu seu dedo. Ele sacudiu os dois até a chama apagar-se e soprou o dedo. “Abre às duas da manhã, e você tem noventa segundos para tirar o dinheiro do fundo do cofre, que dispara dois alarmes silenciosos, nenhum dos quais chega a uma delegacia de polícia nem a uma companhia de segurança. Pense nisso.” Eric arqueou as sobrancelhas mais algumas vezes e deu uma tragada no cigarro. “Não sou ganancioso, Bob. Só que preciso de algum dinheiro para começar algum negócio. Não quero tudo o que está no cofre, apenas dez mil. Se você me der dez mil, eu sumo.”
“Isso é ridículo.”
“Então, é ridículo.”
“A gente não se intromete na vida de alguma pessoa e...”
“A vida é assim... alguém como eu chegando até você quando você não está alerta nem preparado. No frigir dos ovos eu valho uma boa grana, Bob.”
Bob disse: “Deve haver outra forma”.
Eric Deeds arqueou as sobrancelhas novamente. “Você está estudando todas as suas opções, mas trata-se de opções para pessoas normais em circunstâncias normais. Não estou lhe propondo essas. Preciso dos meus dez mil. Você o consegue esta noite, eu os pego amanhã de manhã. Independentemente do que você esteja pensando, vou apostar na final do campeonato, pode acreditar. Simplesmente esteja em sua casa amanhã de manhã, às nove em ponto, com os dez mil. Se você não fizer isso, eu vou ficar pulando na cabeça daquela piranha Nadia até seu pescoço quebrar e não lhe sobrar mais rosto. Então vou bater com uma pedra na cabeça do cachorro. Olhe nos meus olhos e me diga em que parte desta minha fala eu estou mentindo, Bob.”
Bob olhou os olhos dele. Não era a primeira vez em sua vida nem a última em que ele teve de controlar a náusea que lhe irritava o estômago diante da crueldade. Era a única coisa que ele podia fazer para não vomitar na cara de Eric.
“O que há de errado com você?”, perguntou Bob.
Eric estendeu as mãos. “Muita coisa. Fui seriamente esmagado, Bob. E você levou meu cachorro.”
“Você tentou matá-lo.”
“Não”, disse Eric balançando a cabeça como se acreditasse nisso. “Você ficou sabendo o que fiz com Richie Whelan, não é?”
Bob fez que sim.
Eric disse: “Aquele cara era um merda. Eu o peguei tentando comer minha garota, então adeus, Richie. Sabe por que o mencionei, Bob? Tive um parceiro na história de Richie. E ainda tenho. Então você acha que vai fazer alguma coisa comigo? Então vai passar o resto de seus dias de liberdade se perguntando quando meu parceiro vai abrir o bico para um policial”. Eric jogou o cigarro na rua. “Mais alguma coisa, Bob?”
Bob não respondeu porra nenhuma.
“A gente se vê amanhã de manhã”, disse Eric, deixando o outro na calçada e voltando para casa.
QUEM É ELE?”, BOB PERGUNTOU A NADIA quando passeavam com Rocco no parque.
“Quem é ele?”, disse Nadia. “Ou ‘Quem é ele para mim?’”
O rio tinha congelado na noite anterior, mas o gelo já estava se quebrando com uma série de estalidos e gemidos. Rocco ficava tentando colocar uma pata na borda da margem, enquanto Bob o puxava para trás.
“Para você, então.”
“Eu já lhe disse. Namoramos por algum tempo.” Ela sacudiu os ombros estreitos. “Ele é um cara que cresceu na minha rua. Vive entrando e saindo da prisão. De hospitais também. As pessoas dizem que ele matou Richie Whelan algum tempo atrás.”
“As pessoas dizem ou ele diz?”
Outro dar de ombros. “É a mesma coisa.”
“Por que ele matou Richie Whelan?”
“Ouvi dizer que ele queria impressionar alguns caras durões da Stoughton Street.”
“O bando de Leo.”
Ela olhou para ele, o rosto uma lua branca sob o capuz preto. “É o que dizem.”
“Então ele é um cara mau.”
“Todos são maus.”
“Não”, disse Bob. “Não são. A maioria das pessoas é legal.”
“Você acha?”, disse ela com um sorriso de incredulidade.
“Acho. As pessoas... não sei, fazem um monte de bobagens e fazem mais outras tentando apagar as primeiras. Depois de algum tempo, a vida delas se resume a isso.”
Ela fungou e riu ao mesmo tempo. “Quer dizer que é assim, é?”
“Às vezes é assim.” Ele olhou para a cicatriz escura em volta do pescoço dela.
Ela notou. “Por que você nunca perguntou sobre isso?”
“Eu já lhe disse... acho que não seria delicado de minha parte.”
Ela deu aquele seu sorriso pungente. “Delicado? Quem ainda conserva essas maneiras atualmente?”
“Ninguém”, reconheceu ele. Aquela admissão pareceu um pouco trágica, como se muitas coisas a que se deveria dar importância no mundo tivessem saído de moda. Um dia a gente iria acordar e tudo teria acabado, como listas de músicas selecionadas ou jornais. “Foi Eric Deeds?”
Ela negou com a cabeça, depois aquiesceu. A seguir negou com a cabeça novamente. “Ele fez uma coisa comigo durante uma de suas... não sei... os psiquiatras chamam de ‘surtos maníacos’. Não gostei nada daquilo. Tinha um monte de merda caindo na minha cabeça ao mesmo tempo, na verdade não foi só bem ele...”
“Foi sim.”
“... mas ele definitivamente foi a gota d’água.”
“Você mesma cortou a própria garganta?”
Ela fez pequenos e rápidos gestos de aquiescência. “Eu estava drogada.”
Bob disse: “Você fez isso consigo mesma?”.
Nadia disse: “Com um estilete. Um desses...”.
“Oh, Deus. Não, sei do que se trata.” Bob repetiu: “Você fez isso a si mesma?”.
Nadia olhou para ele. “Eu era uma pessoa diferente. Sabe, eu não gostava nem um pouco de mim.”
“Agora você gosta de você?”, perguntou Bob.
Nadia deu de ombros.
Bob não disse nada. Ele sabia que se falasse mataria alguma coisa que merecia viver.
Depois de algum tempo, Nadia olhou para Bob, os olhos brilhando, e deu de ombros novamente.
Eles andaram um pouco.
“Você já o viu com Rocco?”
“Ahn?”
“Você viu? Quer dizer, ele morava em seu quarteirão.”
“Não, acho que não.”
“Você acha que não?”
Ela recuou um passo. “Quem é você neste instante, Bob? Porque você não está como era.”
“Estou sim”, ele lhe garantiu. Ele falou com mais suavidade. “Você alguma vez viu Eric Deeds com Rocco?”
Outra série de ligeiros gestos de aquiescência, como um passarinho mexendo a cabeça para tomar água.
“Então você sabia que o cachorro era dele.”
Os acenos continuaram, curtos e rápidos.
“Que ele o jogou no lixo”, acrescentou Bob com um leve suspiro.
“Isso mesmo.”
Eles atravessaram uma pequena ponte de madeira sobre uma área de rio congelado, o gelo agora azul-claro e fino, mas mantendo-se firme.
“Então ele avisa que quer dez mil?”, disse ela por fim.
Bob fez que sim.
“Mas se você perder esses dez mil?”
“Alguém vai pagar.”
“Você?”
“E Marv. Nós dois. O bar já foi assaltado antes.”
“Eles vão matar vocês?”
“Depende. Um grupo deles vai se reunir, os chechenos, os italianos, os irlandeses. Cinco ou seis caras parrudos tomando café num estacionamento, aí eles tomam uma decisão. Dez mil além dos cinco que perdemos no assalto... Não vai parecer nada bom.” Ele olhou para o céu sem nuvens. “Quer dizer... eu podia arrumar dez por mim mesmo. Andei economizando.”
“Para quê? Por que Bob Saginowski haveria de economizar?”
Bob ficou calado até ela deixar pra lá.
“Quer dizer que se você aparece com os dez...”, disse ela.
“Não bastaria.”
“Mas é esse valor que ele está pedindo.”
“É verdade”, disse Bob, “mas não é isso o que ele quer. Um sujeito morrendo de fome vê um saquinho de batatas fritas, certo? E é o único saquinho de batatas, quem sabe, para sempre. Ele come três ou quatro batatas a cada quatro horas; ele pode fazer esse saquinho durar cinco dias? Mas você acha que ele vai fazer isso?”
“Ele vai comer todo o conteúdo do saquinho.”
Bob fez que sim.
“O que é que você vai fazer?”
Rocco tentou novamente aproximar-se da margem do rio, e Bob o puxou para trás. Ele inclinou o corpo e tocou no focinho do cachorro com o indicador. “Não, está bem? Não.” Ele olhou para Nadia. “Não tenho a menor ideia.”