A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 2 de 16

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A Entrega

2. Infinito

 

MESMO ANTES DO NASCIMENTO DE BOB, a missa diária das sete horas na igreja de São Domingos não reunia muita gente. Mas agora a frequência, sempre baixa, minguava mês a mês.

Na manhã seguinte àquela em que achou o cão, ele ouviu, da terceira fileira de bancos, a orla da batina do padre Regan roçar o piso de mármore do altar. As únicas pessoas presentes naquela manhã – uma manhã inclemente, sem dúvida, neve escura cobrindo as ruas, o vento tão frio que quase se podia vê-lo – eram Bob, a viúva Malone, Theresa Coe, outrora diretora da Escola São Domingos, quando ainda havia uma Escola São Domingos, o velho Williams e o policial de Porto Rico, cujo nome Bob tinha quase certeza de que era Torres.

Torres não parecia ser policial – seus olhos eram bondosos, às vezes até engraçados –, por isso podia ser surpreendente notar o coldre em seu quadril quando ele voltava para o banco depois da comunhão. Bob mesmo nunca comungava, um fato que não passava despercebido ao padre Regan, que por várias vezes tentara convencê-lo de que o mal de não tomar a Eucaristia, se ele de fato estivesse em estado de pecado mortal, era muito pior, na opinião do bom padre, do que o mal que podia advir de partilhar o sacramento. Bob, porém, fora criado como católico da velha escola, na época em que se ouvia muito sobre o Limbo, e mais ainda sobre o Purgatório, nos tempos em que as freiras reinavam com réguas usadas para punição. Então, embora, em termos teológicos, tendesse para a esquerda em muitos dos ensinamentos da Igreja, continuava sendo um tradicionalista.

A São Domingos era uma igreja antiga. Remontava ao final dos anos 1800. Um belo edifício – mogno escuro e mármore não totalmente branco, altas janelas com vitrais dedicados a vários santos de olhos tristes. Era como as igrejas devem ser. As igrejas mais novas – Bob não sabia o que fazer com elas. Os bancos eram muito claros, as claraboias numerosas demais. Ele se sentia como se estivesse lá para comprazer-se de sua vida, e não para refletir sobre os próprios pecados.

Mas numa velha igreja, uma igreja de mogno e mármore e lambris escuros, uma igreja de silenciosa majestade e história implacável, ele podia refletir devidamente sobre suas esperanças e suas transgressões.

Os outros paroquianos formaram fila para receber a hóstia, ao passo que Bob permaneceu ajoelhado em seu banco. Não havia ninguém perto dele. Ele era uma ilha.

O policial Torres estava lá agora, um tipo de boa aparência, com quarenta e poucos anos, já um tanto gordo. Recebeu a hóstia na língua, não nas mãos em concha. Ele também era um tradicionalista.

Torres se voltou, benzeu-se, e seus olhos voltaram-se para Bob, antes de chegar ao seu banco.

“Todos de pé.”

Bob benzeu-se e se levantou. Puxou com o pé a almofada de ajoelhar-se e a recolocou no lugar.

O padre Regan levantou a mão acima dos fiéis e fechou os olhos. “Que o Senhor vos abençoe e vos acompanhe em todos os dias de suas vidas. Que Ele faça brilhar Sua face sobre vós e vos seja complacente. Que o Senhor levante Sua face sobre vós e vos dê paz. A missa terminou. Ide em paz para amar e servir ao Senhor. Amém.”

Bob saiu de seu banco e foi andando pelo corredor central. Na pia de água benta, próximo à saída, molhou os dedos e se benzeu. E na pia seguinte, mais adiante, Torres fez o mesmo. Torres saudou-o com um aceno de cabeça, desconhecidos familiares que eram um do outro. Bob retribuiu o aceno, e eles tomaram saídas diferentes, internando-se no frio.

 

BOB FOI TRABALHAR no bar Cousin Marv’s por volta do meio-dia, porque gostava de lá quando tudo estava tranquilo. Agora tinha tempo para pensar sobre o caso do filhote com o qual se defrontava.

A maioria das pessoas chamava Marv de Cousin Marv por uma questão de hábito, algo que remontava à escola primária, embora ninguém pudesse lembrar a razão, mas na verdade Marv era primo de Bob, por parte de mãe.

Cousin Marv liderara um bando nos fins da década de 1980 e começo da de 1990. O bando era composto principalmente por caras que se interessavam por agiotagem, embora Marv nunca menosprezasse nenhuma proposta que redundasse em pagamento, porque acreditava, no mais fundo de sua alma, que os que deixavam de diversificar eram sempre os primeiros a se dobrar quando o vento mudava de direção. Como os dinossauros – ele costumava dizer a Bob – quando os homens das cavernas chegaram e inventaram as flechas. Imagine os homens das cavernas atirando suas flechas, ele costumava dizer, e os tiranossauros chafurdando na lama. Uma tragédia muito fácil de evitar.

A turma de Marv não fora a mais esperta e a mais bem-sucedida que atuara no bairro – nem chegava perto disso –, mas por algum tempo eles foram levando. Outros grupos ficavam em sua cola; porém, salvo por uma notável exceção, eles nunca tendiam à violência. Logo cedo, tiveram de optar por render-se a bandos que eram muito mais fracos que eles ou sair no pau. Eles pegaram a Porta Número Um.

Agora Marv era um receptador de objetos roubados, um dos melhores da cidade, mas um receptador no mundo deles era como um funcionário dos correios no mundo lá fora – se você continuasse nessa depois dos trinta, não poderia mais fazer outra coisa. Marv apenas arriscava algumas apostas, mas somente para o pai de Chovka e o resto dos chechenos, que eram os verdadeiros donos do bar. Não era exatamente do conhecimento de todos, mas também não era segredo que há anos Cousin Marv já não era o único dono do bar.

Para Bob, era um alívio – ele gostava de ser bartender e odiara aquela vez em que tivera de engrossar. Marv, porém, continuava a esperar que o trem cravejado de diamantes viesse nos trilhos de dezoito quilates e o levasse embora de tudo aquilo. Na maioria das vezes, ele fingia ser feliz. Mas Bob sabia que as coisas que preocupavam Marv eram as mesmas que perturbavam Bob – porcarias que a gente tem de enfrentar. Aquelas coisas riam de você se suas ambições fracassavam por demais; um homem de sucesso podia esconder seu passado, mas um homem malsucedido passava o resto da vida tentando não se deixar afogar no seu.

Naquela tarde, Marv estava um tanto sorumbático, então Bob tentou animá-lo contando-lhe sua aventura com o cachorro. Marv não pareceu muito interessado, mas Bob continuou tentando enquanto espalhava sal para derreter a neve da ruela, e Marv fumava junto à porta dos fundos.

“Faça o possível para espalhar por toda parte”, disse Marv. “Só me faltava que um desses cabo-verdianos escorregassem no caminho do latão de lixo.”

“Que cabo-verdianos?”

“Os do salão do cabeleireiro.”

“Do salão de beleza? Eles são vietnamitas.”

“Bem, não quero que eles escorreguem.”

Bob disse: “Você conhece Nadia Dunn?”.

Marv balançou a cabeça, negando.

“É a que está com o cachorro.”

Marv disse: “Lá vem você de novo com o tal cachorro”.

Bob disse: “Treinar um cachorro, sabe? Arrombamento? Uma enorme responsabilidade”.

Cousin Marv jogou seu cigarro na viela. “Não é como um parente retardado que aparece na sua porta numa cadeira de rodas, com uma bolsa de colostomia, dizendo que agora é seu. É só um cão.”

Bob disse: “Sim, mas...”, e não conseguiu achar as palavras para exprimir o que sentira desde que tirou o filhote do latão de lixo pela primeira vez e olhou em seus olhos, que pela primeira vez, pelo que se lembrava, ele se sentiu como se estivesse assistindo a um filme de sua própria vida, não simplesmente sentado na última fileira de bancos de um cine-teatro barulhento, vendo o filme.

Cousin Marv bateu em seu ombro, soltando uma nuvem de fumaça, e repetiu para ele mesmo. “É. Um. Cachorro.” E então voltou para dentro do bar.

 

POR VOLTA DAS TRÊS, ANWAR, um dos homens de Chovka, entrou pelos fundos para o último registro de apostas. Os homens de Chovka estavam rodando tarde em picapes por toda a cidade, porque o Departamento de Polícia de Boston (BDP) tinha feito uma pequena batida no Clube Social Checheno na noite anterior e pusera na cadeia, por uma noite, metade dos chefes e coletores de apostas. Anwar pegou a bolsa que Marv lhe deu e se serviu de uma Stella. Ele a bebeu de um longo trago enquanto lançava olhares lânguidos a Marv e Bob. Ao terminar, arrotou, colocou a garrafa de volta no balcão e foi embora sem uma palavra, a bolsa de dinheiro debaixo do braço.

“Nenhum respeito.” Marv jogou a garrafa no lixo e enxugou o círculo úmido que ela deixara no balcão. “Você notou?”

Bob deu de ombros. Claro que tinha notado, mas o que é que se podia fazer?

“Esse cachorro, certo?”, disse ele para desanuviar a atmosfera. “Suas patas são do tamanho da cabeça. Três são marrons, mas uma é branca, com pequenas manchas cor de pêssego sobre o branco. E...”

“Esse troço cozinha?”, perguntou Marv. “Limpa a casa? Quer dizer, é uma merda dum cachorro.”

“Sim, mas ele...” Bob deixou cair as mãos. Ele não sabia como explicar. “Você sabe aquele sentimento que a gente às vezes tem num dia realmente especial? Como se os Patriots ganhassem um jogo em que você apostou tudo ou quando lhe preparam um bife perfeito ou, ou, quando você simplesmente se sente bem? Assim...”, Bob sentiu suas mãos acenando novamente, “bem?”

Marv anuiu com um gesto de cabeça e lhe deu um tímido sorriso. E voltou para sua folha de corridas de cavalos.

Bob revezava-se, ora retirando as decorações de Natal, ora trabalhando no balcão, mas o estabelecimento começou a encher depois das cinco, e logo só sobrou tempo para seu trabalho de bartender. Àquela altura, Rardy, o outro bartender, já devia ter aparecido, porém estava atrasado.

Bob serviu por duas vezes bebidas a uma dezena de caras – próximo aos alvos de dardos – que estendiam cabos de fibra ótica em todos os hotéis que se distribuíam no declive que ia até o porto. Ele voltou para os fundos do bar, encontrou Marv encostado num refrigerador de cerveja, lendo o Herald, mas os fregueses culpavam Bob pelo atraso, e um de seus parceiros perguntou se ele estava vindo a passos de tartaruga.

Bob deslocou Marv com um cutucão, enfiou a mão no refrigerador e disse que Rardy estava atrasado. Mais uma vez. Bob, que nunca chegara atrasado em sua vida, desconfiava que havia algo de hostil no íntimo de pessoas que sempre se atrasavam.

Marv disse: “Não, ele está aqui”, e fez um gesto com a cabeça. Então Bob viu o cara; Rardy tinha uns trinta anos de idade, mas sempre lhe pediam os documentos quando queria entrar num clube. Rardy, passando conversa nos fregueses enquanto avançava por entre a multidão com seu capuz desbotado e seus jeans amarrotados, chapéu de abas reviradas para cima pousado no alto da cabeça, sempre dando a impressão de que estava a caminho de um espetáculo aberto de poesia ou de humor. Bob, porém, já o conhecia havia cinco anos e sabia que Rardy não tinha uma gota de sensibilidade e que era absolutamente incapaz de contar uma piada.

“E aí”, disse o garotão quando se pôs atrás do balcão. Ele levou um bom tempo para tirar o blusão. “Os reforços chegaram”, disse ele dando um tapinha nas costas de Bob. “Sorte sua, não?”

 

LÁ FORA, NO FRIO, dois irmãos passaram de carro pelo bar pela terceira vez naquele dia, dando a volta por trás, pela viela, voltando em seguida para a rua principal, onde se afastaram do bar para poder encontrar um estacionamento para cheirar mais umas carreirinhas.

Seus nomes eram Ed e Brian Fitzgerald. Ed era mais velho, corpulento, e todos o chamavam de Fitz. Brian era mais fino que um abaixa-língua, e todos o chamavam de Bri. Salvo quando eram chamados como uma dupla, caso em que as pessoas os denominavam “10”, porque era assim que eles pareciam quando estavam lado a lado.

Fitz trazia as máscaras de esqui no banco de trás e as armas no porta-malas. A pistola ele deixava no console entre os dois bancos. Bri precisava se drogar. Do contrário, nunca se aproximaria de uma porra de uma arma.

Eles acharam um lugar isolado sob a via expressa. Dali podiam ver o Penitentiary Park, coberto de crostas de gelo e restos de neve. De onde estavam, podiam ver até o lugar onde ficava a tela do drive-in. Cerca de um ano antes ela fora rasgada, e lá encontraram uma moça espancada até a morte, provavelmente o mais famoso assassinato do bairro. Fitz fez carreirinhas num quadrado de vidro que tinha tirado de um espelho retrovisor de um ferro-velho. Ele aspirou o primeiro bocado de droga e passou o espelho e a nota de cinco dólares enrolada ao seu irmão.

Bri aspirou sua carreirinha e nem perguntou se podia cheirar a seguinte.

“Eu não sei”, disse Bri, que vinha repetindo isso na última semana com tanta frequência que Fitz o estrangularia se ele continuasse com aquilo. “Eu não sei.”

Fitz pegou de volta a nota enrolada e o espelho. “Vai ser legal.”

“Não”, disse Bri. Ele ficou brincando com seu relógio de pulso que parara de funcionar havia um ano. Um presente de despedida de seu pai no dia em que resolvera que não queria mais ser pai. “É uma bosta de ideia. Uma bosta. A gente devia atacá-los com tudo ou não fazer isso de jeito nenhum.”

“Meu chefe”, explicou Fitz talvez pela quinquagésima vez, “quer ver se podemos lidar com nossa cagada. Diz que a gente faz isso por partes. Para ver como os proprietários reagem de cara.”

Os olhos de Bri se arregalaram. “Eles poderiam reagir de um puta jeito ruim, seu louco. É um puta dum bar de gângsteres. Um bar onde rola droga.”

Fitz lhe deu um sorriso tenso. “Aí é que está. Se não fosse um bar onde rolasse droga, não valeria o risco.”

“Não. Certo?”, disse Bri chutando a parte de baixo do porta-luvas. Uma criança com um acesso de raiva. Ele brincou com o relógio novamente, girando a pulseira de forma que o mostrador ficasse voltado para seu punho. “Não, não, não.”

Fitz disse: “Não? Irmãozinho, você tem Ashley, as crianças e uma aparência lamentável. Seu carro está com o mesmo tanque de gasolina desde o Dia de Ação de Graças, e a porra do seu relógio continua sem funcionar”. Inclinou-se no carro até sua cabeça tocar na cabeça de seu irmão mais novo. Ele lhe pôs a mão na nuca. “Diga ‘não’ mais uma vez.”

Mas naturalmente ele não disse. Em vez disso, cheirou outra carreirinha.

 

ERA UMA GRANDE noite, um monte de caras e montes de apostas correndo soltas. Bob e Rardy lidavam com os primeiros. Marv cuidava dos chatos dos apostadores – sempre um tanto aturdidos – e colocava as apostas na fenda do gabinete sob a registradora. A certa altura, ele desapareceu nos fundos para somar tudo e voltou depois que a multidão tinha diminuído bastante.

Bob estava tirando a espuma de duas garrafinhas de Guinness quando dois chechenos entraram, com seus cabelos à escovinha e barba de dois dias, usando blusões esportivos sob sobretudos de lã. Marv passou por eles e entregou o envelope de papel manilha sem diminuir o passo; quando Bob terminou de tirar a espuma das duas garrafas, os chechenos tinham ido embora. Foi entrar e sair. Como se eles não tivessem estado ali.

Uma hora depois, o local estava vazio. Bob secava o chão atrás do balcão, Marv contava a féria do dia. Rardy arrastou o lixo pela porta dos fundos e o pôs na viela. Bob torceu o pano de chão no balde, e quando levantou a vista, lá estava um cara na porta dos fundos, apontando uma espingarda para ele.

A coisa que nunca mais ele haveria de esquecer, pelo resto da vida, era o silêncio. O fato de que o resto do mundo estava dormindo – dentro e fora – e tudo estava imóvel. Não obstante, um homem se encontrava no vão da porta com uma máscara de esqui e uma espingarda apontada para Bob e Marv.

Bob deixou cair o pano de chão.

Marv, ao lado de um dos refrigeradores de cerveja, levantou a vista. Seus olhos se apertaram. Logo abaixo de sua mão havia uma Glock 9 milímetros. E Bob esperava em Deus que ele não fosse estúpido o bastante para tentar pegá-la. A espingarda os partiria pelo meio antes que a mão de Marv desobstruísse o balcão.

Mas Marv não era louco. Bem devagar, ele levantou as mãos acima dos ombros antes mesmo que o sujeito tivesse tempo de mandar-lhe fazer isso, e Bob fez o mesmo.

O cara entrou no salão, e Bob sentiu uma dor no peito quando outro sujeito veio atrás do primeiro, apontando um revólver para eles, as mãos dele um tanto trêmulas. De certa forma, dava para dar um jeito se se tratasse de um cara com uma arma, mas como eram dois, o bar ficava tão tenso quanto uma bolha cheia. Bastava apenas um alfinete. Aquilo poderia ser o fim, percebeu Bob. Daí a cinco minutos – ou mesmo trinta segundos – ele iria poder saber se havia uma vida depois desta ou apenas a dor do aço penetrando em seu corpo e rompendo seus órgãos. E depois o nada.

O cara de mãos trêmulas era magro, o da espingarda era robusto, na verdade gordo, e ambos respiravam pesadamente através das máscaras de esqui. O magro pôs um saco de lixo no balcão, mas foi o gordo quem falou.

Ele disse a Marv: “Nem ao menos pense. Só encha”.

Marv fez que sim com a cabeça como se estivesse atendendo ao pedido de um drinque e começou a colocar dentro do saco o dinheiro que ele acabara de prender com um elástico.

“Não estou querendo criar problema”, disse Marv.

“Bem, é essa porra que você está fazendo”, disse o corpulento.

Marv parou de pôr o dinheiro na sacola e olhou para ele. “Mas você sabe de quem é este bar? De quem é o dinheiro que vocês estão pegando aqui?”

O magro aproximou-se com a arma na mão trêmula. “Encha o saco de lixo, seu babaca desgraçado.”

O magro usava um relógio no punho direito com o mostrador voltado para dentro. Bob notou que ele marcava seis e quinze, embora já fossem duas e meia da manhã.

“Sem problema”, disse Marv para a arma trêmula. “Sem problema.” E pôs o resto do dinheiro no saco de lixo.

O sujeito magro puxou o saco para si, recuou, e agora lá estavam os dois num lado do balcão com as armas apontadas para Bob e Marv do outro lado. O coração de Bob batia no peito como um saco de doninhas atirado de um barco.

Naquele terrível momento, Bob sentiu toda a extensão do tempo, desde o nascimento do mundo, abrindo sua boca para ele. Ele via o céu noturno expandindo-se no espaço, o espaço expandindo-se em infinito espaço com estrelas disparando pelo céu negro como diamantes sobre feltro, e tudo era muito frio e interminável, e ele era menos que um grão de poeira em meio àquilo. Ele era a lembrança de um grão de poeira, a lembrança de algo que passara despercebido. A lembrança de alguma coisa que não merecia ser lembrada.

Eu só quero criar o cachorro, pensou ele sem saber bem por quê. Eu só queria ensinar-lhe uns truques e viver um pouco mais esta vida.

O magro pôs a pistola no bolso e saiu.

Agora só restava o corpulento com a espingarda.

Ele disse a Marv: “Você fala demais, porra”.

Depois se foi.

A porta que dava para a viela rangeu quando eles a abriram, rangeu novamente quando a fecharam. Bob não tomara fôlego por pelo menos meio minuto, e então ele e Marv expiraram o ar ao mesmo tempo.

Bob ouviu um som baixo, uma espécie de gemido, mas não era de Marv.

“Rardy”, disse Bob.

“Ah, merda.” Marv deu a volta ao balcão com ele, e ambos correram para a cozinha minúscula lá no fundo, onde eles armazenavam os velhos barris, e lá estava Rardy, o ventre encostado no lado esquerdo da porta, o rosto empastado de sangue.

Bob não sabia ao certo o que fazer, mas Marv se deixou cair ao lado dele e começou a sacudir seu ombro para a frente e para trás como se fosse a cordinha de um motor de popa. Rardy deu alguns gemidos, depois arfou. Era um som horrível, sufocado e entrecortado, como se ele estivesse inalando cacos de vidro. Ele encurvou as costas, rolou de lado e se sentou, o rosto esticado, os lábios contraídos sobre os dentes como uma espécie de máscara mortuária.

“Ah”, disse ele. “Puta que pariu. Puta que pariu. Deus.”

Ele abriu os olhos pela primeira vez, e Bob viu-o tentar focalizar a vista. Levou um minuto.

“Que merda é essa?”, disse ele, o que Bob achava ser um avanço em relação ao “puta que pariu”, caso alguém estivesse imaginando um trauma cerebral.

“Você está bem?”, perguntou Bob.

“Sim, você está bem?”, disse Marv ajoelhado ao lado de Rardy.

“Eu vou vomitar.”

Bob e Marv recuaram alguns passos.

Rardy expirou levemente algumas vezes, tomou vários fôlegos curtos, expirou mais algumas vezes e anunciou: “Não, não vou”.

Bob avançou alguns passos. Marv se deixou ficar onde estava.

Bob deu a Rardy um pano de prato, que Randy passou na geleia de sangue e de carne exposta que lhe cobria o lado direito do rosto, da órbita do olho até o canto da boca.

“Estou com uma aparência horrível, não?”

“Não, você parece bem”, mentiu Bob.

“Verdade, você parece bem”, disse Marv.

“Não, não pareço”, disse Rardy.

“Não, não parece”, Bob e Marv concordaram.