A Entrega
10. Quem quer que esteja em estado de graça
10. Quem quer
que esteja em
estado de graça
COUSIN MARV ESTAVA na porta que dava para a viela, fumando, enquanto Bob recolhia os latões de lixo da noite anterior. Como de costume, tinham sido jogados por toda a viela pelos caras do caminhão de lixo, e Bob teve de andar um bocado para os recolher.
Cousin Marv disse: “Pra eles é demais recolocá-los no lugar onde os encontraram. Isso exigiria mais educação”.
Bob pôs um latão sobre outro e os levou para a parede do fundo. Notou, encostado contra a parede entre os latões e uma ratoeira, um saco de lixo de plástico preto tamanho grande, do tipo que se usa em canteiros de obras. Ele não o deixara ali. Ele conhecia bastante os estabelecimentos da vizinhança mais próxima – Nails Saigon e dr. Sanjeev K Seth – para saber como era o lixo deles, e aquele saco não era deles. Ele deixou o saco ali por um instante e voltou para a viela para pegar o último latão.
Bob disse: “Pague por uma caçamba estacionária pro lixo...”.
Cousin Marv respondeu: “Por que eu haveria de pagar por uma caçamba? ‘Pague por uma caçamba.’ O bar não é mais meu, lembra-se? Não foi de você que Chovka tomou o bar”.
Bob disse: “Isso foi há dez anos”.
“Oito e meio”, respondeu Cousin Marv.
Bob trouxe o último latão para junto da parede e andou até o saco plástico preto. Era um saco com capacidade para duzentos litros, mas estava longe de estar cheio. O que quer que contivesse, não era grande, porém estava estufado dos lados; assim, o conteúdo tinha o comprimento de trinta a quarenta e cinco centímetros. O comprimento de um tubo de papelão, talvez, desses em que se guardam pôsteres.
Cousin Marvin disse: “Dottie acha que a gente devia passear na Europa. Foi esse o tipo de cara que me tornei: o cara que vai para a Europa com a irmã, entra em diabos de ônibus de turismo com uma máquina fotográfica pendurada no pescoço”.
Bob debruçou-se sobre o saco. Ele estava amarrado na parte de cima, mas com um nó tão frouxo que bastava um leve puxão para que se abrisse como uma rosa.
“Houve um tempo”, disse Cousin Marv, “em que eu quis fazer uma viagem. Fui com Brenda Mulligan ou Cheryl Hodge ou, ou... lembra-se da Jillian?”
Bob aproximou-se mais do saco. Agora ele se encontrava tão perto que a única forma de se aproximar mais era subir nele. “Jillian Waingrove. Ela era bonita.”
“Ela era muito atraente. Sabe quando passamos todo aquele verão juntos? A gente costumava ir a um bar com área ao ar livre em Marina Bay. Como era mesmo o nome dele?”
Bob ouviu-se dizer “The Tent”, enquanto abria o saco e olhava para dentro. Seus pulmões se encheram de chumbo, e sua cabeça, de hélio. Ele se afastou do saco por um instante e teve a sensação de que a viela pendia para a direita.
“The Tent”, dizia Marv. “Isso mesmo, isso mesmo. Será que ainda existe?”
“Sim”, Bob ouviu a si mesmo dizer, a voz chegando aos seus ouvidos como se saísse de um túnel. “Mas agora ele tem outro nome.”
Ele olhou para Marv por cima do ombro, deixou que Marv visse em seus olhos.
Cousin Marv jogou seu cigarro na viela. “O que é?”
Bob ficou onde estava, as abas do saco na mão. Um cheiro pútrido saiu do saco, um cheiro parecido com o de partes de carne de galinha crua expostas ao sol.
Cousin Marv olhou para o saco, depois de novo para Bob. Ele continuava no vão da porta.
Bob disse: “Você precisa...”.
Cousin Marv disse: “Não, não preciso”.
“O quê?”, perguntou Bob.
Cousin Marv disse: “Não preciso fazer nada, tá? Eu estou aqui nesta porra. Estou aqui porque...”.
Bob disse: “Você precisa ver...”.
“Eu não preciso ver nada! Está me ouvindo? Eu não preciso ver a Europa, nem a porra da Tailândia, nem que diabos esteja nesse saco. Vou ficar aqui e pronto.”
“Marv.”
Marv sacudiu a cabeça violentamente, como uma criança.
Bob esperou.
Cousin Marv esfregou os olhos, subitamente embaraçados. “Antigamente a gente formava um bando, lembra? As pessoas tinham medo de nós.”
“Sim”, disse Bob.
Marv acendeu um cigarro, andou até o saco da forma como a gente se aproxima de um rato atordoado no canto do porão.
Ele chegou perto de Bob e olhou para dentro do saco.
Um braço, decepado logo abaixo do cotovelo, jazia em meio a uma pilha de dinheiro ensanguentado. O braço exibia um relógio de pulso parado em seis horas e quinze minutos.
Cousin Marv soltou o ar dos pulmões devagar e se manteve assim até que os pulmões ficaram completamente vazios.
Cousin Marv disse: “Bem, é... quer dizer...”.
“Eu sei.”
“É...”
“Eu sei”, disse Bob.
“É repugnante.”
Bob fez que sim. “Temos de fazer algo com isso.”
Cousin Marv disse: “O dinheiro? Ou o...?”.
Bob disse: “Aposto como a soma do dinheiro é igual à que perdemos naquela noite”.
Cousin Marv disse: “Então, tudo bem...”.
Bob disse: “Então a gente devolve o dinheiro para eles. É o que eles esperam”.
“E aquilo?”, disse Marv apontando para o braço. “Aquilo?”
“Nós simplesmente não podemos deixá-lo aqui”, disse Bob. “Isso fará com que aquele policial venha direto pra cima de nós.”
“Mas nós não fizemos nada.”
“Agora não”, disse Bob. “Mas pense só no que Chovka ou Papa Umarov vão sentir em relação a nós se os policiais mostrarem um interesse especial pelo caso.”
“É”, disse Marv. “Claro, claro.”
“Preciso que você se concentre nisso, Marv.”
Marv piscou os olhos. “Você precisa que eu me concentre?”
“Sim, preciso”, disse Bob, e carregou o saco para dentro.
NA COZINHA MINÚSCULA, próximo da grelha com quatro queimadores e da frigideira funda de peixe, havia um espaço onde eles faziam sanduíches. Bob colocou um pouco de papel-manteiga em cima do balcão. Depois pegou papel-filme de um dispensador acima do balcão. Levantou o braço da pia onde o lavara e embrulhou-o com o papel-filme. Quando ele estava bem embrulhado, colocou-o sobre o papel-manteiga.
Marv olhava do vão da porta com uma expressão de repulsa no rosto lívido.
Cousin Marv disse: “Parece até que você já fez isso mil vezes”.
Bob lhe lançou um olhar duro. Cousin Marv piscou os olhos e olhou para o chão.
Cousin Marv disse: “Você já imaginou que, se não tivesse mencionado o relógio, talvez...”.
“Não”, disse Bob de forma mais ríspida do que desejara. “Não.”
“Bem, pois eu sim”, respondeu Cousin Marv.
Bob passou uma fita adesiva nas bordas do papel-manteiga, e então o braço estava parecendo um caro taco de bilhar ou um sanduíche de trinta centímetros e meio. Bob o colocou numa mochila esportiva.
Ele e Marv foram da cozinha para o bar e viram Eric Deeds sentado lá, mãos cruzadas sobre o balcão, mero cliente esperando um drinque.
Marv e Bob seguiram em frente.
Cousin Marv disse: “Nós estamos fechados”.
Eric disse: “Você tem Zima?”.
“Para quem a gente deveria servir?”, perguntou Marv. “Para uma mocinha?”
Bob e Cousin Marv foram para trás do balcão e olharam para Deeds.
Eric levantou-se. “A porta estava aberta, então achei que...”
Marv e Bob se entreolharam.
“Nada contra você”, disse Marv a Eric Deeds. “Mas dê o fora daqui, porra.”
“Quer dizer que nada de Zima mesmo?”, disse Eric encaminhando-se para a porta. “Gostei de ver você, Bob”, disse ele fazendo-lhe um aceno. “Dê lembranças a Nadia, mano.”
Eric saiu. Marv correu para a porta e a trancou.
Cousin Marv disse: “A gente fica levando a parte que está faltando do Homem de Um Braço Só de um lado para outro como se estivesse equilibrando uma bola a botinadas, e com a porra da porta aberta”.
Bob disse: “Bem, não aconteceu nada”.
“Mas podia ter acontecido.” Ele tomou fôlego. “Você conhece esse cara?”
Bob disse: “O cara de quem eu te falei”.
“O que diz que o cachorro é dele?”
“É.”
“Esse cara é pirado.”
Bob disse: “Você o conhece?”.
Cousin Marv fez que sim. “Ele é da Mayhew Street, paróquia de Santa Cecília. Você é atrasadão – se alguém não é de sua paróquia, pode muito bem ser um porra dum flamengo. O cara é um merdinha. Esteve na cadeia algumas vezes, passou uns trinta dias num hospício, se bem me lembro. Toda a porra da família Deeds devia ser internada num hospital psiquiátrico há uma geração.” Cousin Marv acrescentou: “Dizem por aí que foi ele quem matou Glory Days”.
“Também ouvi falar nisso”, disse Bob.
“Despachou-o do planeta Terra. É o que dizem”, falou Cousin Marv.
“Bem...” disse Bob, então, sem mais nada para falar, pegou a mochila esportiva e saiu pela porta dos fundos.
Depois que ele saiu, Marv encheu a pia do bar com o dinheiro ensanguentado, apertou o botão de uma máquina e lançou um jato de água tônica sobre o dinheiro.
Ele parou e olhou para todo o sangue que escorria.
“Animais”, sussurrou fechando os olhos para todo aquele sangue. “Selvagens desgraçados.”
NO PEN’ PARK BOB jogou uma vareta para Rocco, e este saiu correndo atrás dela. Ele a trouxe de volta e largou-a diante de Bob. Bob a jogou novamente, o mais longe que conseguiu. Enquanto Rocco corria atrás da vareta, Bob pegou a mochila esportiva e o braço embrulhado, voltou-se para o canal e jogou o braço como se fosse uma machadinha. Ele o viu traçar um arco alto, desabar antes de atingir o ponto máximo e cair rapidamente. Foi parar no meio do canal com um barulho maior do que Bob imaginara. E também mais alto. Tão alto que ele achou que todos os carros que passavam na estrada da margem oposta iriam parar. Mas nenhum parou.
Rocco voltou com a vareta.
“Bom garoto”, disse Bob.
Bob jogou a vareta novamente, ela quicou no asfalto e foi parar fora do caminho. Rocco saiu disparado, cruzando o parque.
Bob ouviu pneus atrás dele. Voltou-se, esperando ver uma das picapes do parque, mas, em vez disso, era o detetive Torres vindo em sua direção. Bob não tinha a menor ideia se ele vira alguma coisa. Torres parou, saiu do carro e se aproximou de Bob.
“Olá, sr. Saginowski”, disse ele olhando para a mochila vazia aos pés de Bob. “Ainda não os pegamos.”
Bob olhou para ele.
“Os caras que roubaram seu bar.”
“Ah...”
Torres riu. “Você se lembra, não é?”
“Claro.”
“Ou você foi roubado tantas vezes que termina confundindo tudo?”
Rocco correu em direção a eles e largou a vareta, ofegante. Bob jogou a vareta, e Rocco saiu correndo novamente.
“Não”, disse Bob. “Eu me lembro.”
“Ótimo. Bom, sim, nós não os encontramos.”
“Achei que não encontrariam mesmo”, disse Bob.
Torres disse: “Você imaginou que não fizemos nosso trabalho?”.
Bob disse: “Não. Eu sempre soube que é difícil prender assaltantes”.
Torres disse: “Quer dizer que o que faço para ganhar a vida não adianta nada”.
Como não havia jeito de levar vantagem naquela conversa, Bob simplesmente calou a boca.
Depois de algum tempo, Torres disse: “O que é que tem nessa mochila?”.
“Eu carrego trelas, bolas, sacos com comida pra cachorro, coisas assim.”
Torres disse: “Está vazia”.
Bob disse: “Usei minha última sacola de comida de cachorro, perdi uma bola”.
Rocco veio correndo e largou a vareta. Bob jogou-a mais uma vez, e o cachorro disparou novamente.
Torres disse: “Richie Whelan”.
Bob perguntou: “O que é que tem ele?”.
“Você se lembra dele?”, perguntou Torres.
Bob disse: “Os amigos dele estiveram no bar na semana passada comemorando o aniversário”.
Torres perguntou: “Que aniversário?”.
“Da última vez que ele foi visto.”
“Que foi no seu bar”, disse Torres.
“Sim, ele foi embora”, disse Bob. “Saiu para descolar um pouco de erva, foi o que sempre me disseram.”
Torres aquiesceu. “Você conhece Eric Deeds? Um cara loiro?”
Bob disse: “Não sei. Quer dizer, talvez, mas o nome não me lembra nada”.
Torres disse: “Pelo que se sabe, ele teve uma conversa com Whelan mais cedo, naquele dia”.
Bob deu um sorriso a Torres e um dar de ombros que combinava com o sorriso.
Torres balançou a cabeça e chutou uma pedra com o bico do sapato. “Quem quer que esteja em estado de graça, deixem que se aproxime de mim.”
“O que você quer dizer com isso?”, perguntou Bob.
Torres disse: “É a posição da Igreja relativa a quem pode receber a Comunhão. Se você está em estado de graça, pode comungar. Mas você continua sem receber o sacramento. O senhor se esqueceu de se arrepender de alguma coisa, sr. Saginowski?”.
Bob ficou calado e jogou a vareta para Rocco novamente.
Torres disse: “Eu faço cagadas todos os dias. É um caminho difícil. No fim do caminho, porém, eu vou me confessar. É uma terapia melhor do que AA. Fico quite com Deus e na manhã seguinte eu o recebo na Sagrada Comunhão. Mas você... nem tanto”.
Rocco trouxe a vareta de volta, e daquela vez foi Torres que a pegou. Ele a segurou na mão por um bom tempo, até que Rocco começou a ganir. Era um som muito agudo, um som que Bob nunca ouvira. Mas ele não tinha o hábito de reprimir seu cão. No exato instante em que este estava prestes a pegar a vareta da mão de Torres, o policial levantou o braço e jogou a vareta para o alto. Rocco correu atrás dela.
Torres disse: “Penitência significativa, sr. Saginowski – você devia refletir um pouco sobre isso. Belo cão”.
Ele foi embora.