A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 3 de 16

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A Entrega

3. O bar da vez

 

DUAS PATRULHEIRAS, FENTON, G., e Bernardo, R., responderam primeiro ao chamado. Deram uma olhada em Rardy, e R. Bernardo regulou seu microfone de ombro e pediu que enviassem uma ambulância. Elas interrogaram os três, mas se concentraram em Rardy, porque ninguém imaginava que ele ia durar muito. Sua pele estava da cor de novembro, e ele ficava o tempo todo lambendo os lábios e piscando os olhos. Se nunca tivesse tido uma concussão antes, agora ia poder acrescentar essa ocorrência à lista.

Então a porta se abriu, e o detetive-chefe entrou; seu rosto inexpressivo, desinteressado, foi ficando cada vez mais curioso e quase alegre quando seus olhos pousaram em Bob.

Ele o apontou. “A missa das sete na igreja de São Domingos.”

Bob assentiu. “Sim.”

“Todas as manhãs nos vemos, há quanto tempo? Dois, três anos? E nunca nos conhecemos.” Ele estendeu a mão. “Detetive Evandro Torres.”

Bob apertou sua mão. “Bob Saginowski.”

O detetive Torres apertou a mão de Marv também. “Deixem-me falar com minhas garotas – minhas oficiais, melhor dizendo, me desculpem –, e então vamos todos nos ocupar do que aconteceu.”

Ele andou alguns passos em direção às oficiais Fenton e Bernardo, e todos falaram em voz baixa, balançaram a cabeça e apontaram várias vezes.

Marv disse: “Você conhece o cara?”.

“Não o conheço”, disse Bob. “Ele vai à mesma missa que eu.”

“Como ele é?”

Bob deu de ombros. “Não sei.”

“Ele vai à mesma missa que você e você não sabe como ele é?”

“Você conhece todos os frequentadores do ginásio de esportes?”

“Isso é diferente.”

“Como assim?”

Marv suspirou. “Simplesmente é.”

Torres voltou, os dentes perolados e uma expressão jocosa nos olhos. Disse-lhes que contassem a ele, com suas próprias palavras, exatamente aquilo de que se lembravam, e suas histórias eram bastante idênticas, embora discordassem quanto a se o cara da pistola tinha chamado Marv de “babaca” ou de “seu porra”. No mais, porém, seus relatos coincidiam. Eles deixaram de fora toda a parte em que Marv perguntou ao sujeito parrudo se ele sabia a quem o bar realmente pertencia, embora não tivessem tido tempo de combinar isso. Mas em East Buckingham, a ala da maternidade do Hospital Santa Margarete tinha, rabiscadas acima da entrada, as palavras MANTENHAM A PORRA DA BOCA FECHADA.

Torres tomou notas em seu caderno. “Então, quer dizer, máscaras de esqui, camisetas polo pretas, casacos pretos, jeans pretos, o magro mais nervoso do que o outro, mas ambos mostrando bastante frieza sob pressão. Não se lembram de mais nada?”

“É mais ou menos isso”, disse Marv, mostrando seu sorriso de cooperação. O sr. Bem-Intencionado.

“O cara ficou bem perto de mim”, disse Bob. “O relógio dele estava parado.”

Ele sentiu os olhos de Marv nele, viu Rardy, com uma bolsa de gelo no rosto, olhando-o também. Pelo resto da vida não teve ideia de por que abrira a boca. E então, para a sua surpresa ainda maior, continuou dando com a língua nos dentes.

“Ele ficava com o rosto virado assim.” Bob levantou o punho.

Torres pegou a caneta sobre o papel. “E os ponteiros estavam parados?”

Bob fez que sim. “Sim. Às seis e quinze.”

Torres anotou a informação. “Quanto eles levaram de vocês?”

Marv disse: “O que estava na caixa registradora”.

Torres continuou olhando e sorrindo para Bob. “Só o que estava na registradora?”

Bob disse: “O que quer que estivesse na registradora, senhor agente”.

“Detetive.”

“Detetive. Só o que estava lá.”

Torres ficou um tempinho olhando o bar. “Quer dizer que se eu perguntar, não vou ouvir nada sobre alguém mantendo um registro aqui ou... não sei” – ele olhou para Marv – “permitindo uma passagem segura para coisas subtraídas?”

“Que porra de coisas?”

“Subtraídas”, disse Torres. “É uma palavra bonita para roubadas.”

Marv agiu como se estivesse refletindo um pouco sobre aquilo. Então balançou a cabeça.

Torres olhou para Bob e ele também balançou a cabeça.

“Ou levando uma bolsa com erva de vez em quando?”, disse Torres. “Eu não iria ouvir nada sobre isso?”

Marv e Bob valeram-se da Quinta Emenda sem chegar a mencioná-la.

Torres inclinou-se para trás apoiando-se nos saltos dos sapatos, considerando os dois como se eles estivessem numa comédia. “E quando eu verificar as fitas da registradora – Rita, trate de pegá-las, está bem? –, elas vão coincidir exatamente com a quantia que eles levaram?”

“Claro”, disse Marv.

“Não tenha dúvida”, disse Bob.

Torres riu. “Ah, então o homem que coleta dinheiro já tinha vindo. Sorte de vocês.”

Aquilo finalmente incomodou Marv, e ele fechou a cara. “Não estou gostando nada dessas insinuações. Nós fomos roubados.”

“Eu sei que vocês foram roubados.”

“Mas você está nos tratando como suspeitos.”

“Mas não de roubar o próprio bar”, disse Torres lançando um olhar a Marv e revirando ligeiramente os olhos. “Marv, o nome é este, não é?”

Marv fez que sim. “Sim, é o que está escrito no letreiro do prédio.”

“Tudo bem, Marv.” Torres deu um tapinha no cotovelo de Marv, e Bob teve a impressão de que ele estava tentando reprimir um sorriso. “Todo mundo sabe que vocês são receptadores.”

“O quê?”, disse Marv pondo a mão atrás da orelha e inclinando-se para a frente.

“Receptadores”, disse Torres. “Um bar de receptação.”

“Não conheço esse termo”, disse Marv, olhando em volta procurando uma plateia para dizer umas gracinhas.

“Não?”, continuou Torres, se divertindo. “Bem, vamos dizer apenas que neste bairro, e em mais alguns outros aqui na cidade, rola certo grau de criminalidade.”

“Cala a boca”, disse Marv.

Os olhos de Torres se arregalaram. “Oh, estou falando sério. E o boato – alguns chamam isso de lenda urbana, outros o consideram uma porra duma verdade inquestionável, desculpe minha linguagem –, o boato é que um grupo criminoso, um sindicato se você quiser...”

Marv riu. “Um sindicato!”

Torres também riu. “Certo? Sim, um sindicato do crime, sim, de leste-europeus, croatas, russos, chechenos e ucranianos...”

“E nada de búlgaros?”, perguntou Marv.

“Eles também”, disse Torres. “Então o boato é que... você está preparado?”

“Estou”, disse Marv, e foi a sua vez de apoiar-se nos saltos dos sapatos.

“O boato é que esse sindicato coleta apostas, vende drogas e agencia prostitutas por toda a cidade. Quer dizer, de leste a oeste e de norte a sul. Mas toda vez que nós da polícia tentamos barrar esses ganhos ilícitos, como os chamamos, o dinheiro não se encontra onde pensávamos que estava.” Torres levantou a mão em sinal de surpresa.

Marv macaqueou o gesto, acrescentando o rosto triste de um palhaço para reforçar a atitude.

“Onde está o dinheiro?”

“Onde?”, admirou-se Marv.

“Não está no depósito, não está no esconderijo da droga nem no lugar onde se fazem as apostas. Sumiu.”

“Ora.”

“Ora”, concordou Torres. Ele abaixou a voz e puxou Bob e Marv para perto de si. Falava muito baixo, quase num sussurro. “A ideia é que toda noite, todo o dinheiro é coletado e” – ele traçou aspas no ar com os dedos – “largado num bar predeterminado em algum lugar da cidade. O bar guarda até de manhã o dinheiro de toda a merda ilegal que rolou na cidade naquela noite. Então algum russo com uma capa de couro preta e muita loção pós-barba aparece, pega o dinheiro e o leva pela cidade até o sindicato.”

“O tal sindicato novamente”, disse Marv.

“E é isso mesmo”, disse Torres batendo palmas com tanta força que Rardy levantou a vista. “O dinheiro se foi.”

“Posso lhe fazer uma pergunta?”, disse Marv.

“Claro.”

“Por que não simplesmente entrar no bar em questão com mandado de prisão e prendê-los por receber todo esse dinheiro ilegal?”

“Ah”, disse Torres levantando o indicador. “Grande ideia. Você já pensou em se tornar um policial?”

“Não.”

“Tem certeza? Você tem jeito pra isso, Marv.”

“Sou apenas um dono de bar.”

Torres deu um risinho e inclinou-se novamente para a frente, com ar conspiratório. “O motivo pelo qual não podemos interditar um bar receptador é que nenhum, nem mesmo o bar receptador da vez, sabe que vai ser o da vez até poucas horas antes que a coisa aconteça.”

“Não.”

“Sim. E então ele passará seis meses sem ser o receptador. Ou então vai ser requisitado novamente dois dias depois. O problema é que... a gente nunca sabe.”

Marv coçou sua barba por fazer. “A gente nunca sabe”, repetiu ele com um leve espanto.

Os três simplesmente se deixaram ficar ali um instante, sem dizer nada.

“Bem, se lhes ocorrer mais alguma coisa”, disse Torres por fim, “vocês me dão um telefonema.” Ele passou seu cartão para cada um dos dois.

“Há alguma chance de pegar esses caras?”, disse Marv abanando o rosto com o cartão.

“Oh”, disse Torres magnânimo. “Muito pouca.”

“Pelo menos você está sendo franco.”

“Pelo menos um de nós está”, disse Torres com um riso sonoro.

Marv acompanhou-o, mas logo se interrompeu abruptamente, deixando seus olhos gélidos como se ele ainda fosse durão.

Torres olhou para Bob. “Uma vergonha o caso da São Domingos, não?”

“Que quer dizer com isso?”, perguntou Bob, contente por poder falar sobre outra coisa – qualquer outra coisa.

“Acabou, Bob. Eles vão fechar suas portas.”

A boca de Bob se abriu, mas ele não conseguiu falar.

“Eu sei, eu sei”, disse Torres. “Ouvi isso hoje mesmo. Eles vão se unir a Santa Cecília. Acredita numa coisa dessas?” Ele balançou a cabeça. “Os caras armados se parecem com alguém que já esteve aqui?”

Bob ainda estava na São Domingos. Torres, ele desconfiava, gostava de ferrar com um sujeito.

“Eles se pareciam com uns mil caras que já passaram por aqui.”

“E qual a aparência desses mil caras?”

Bob refletiu um pouco sobre aquilo. “É como se tivessem acabado de se recuperar de um resfriado.”

Torres tornou a sorrir, mas dessa vez o riso parecia genuíno. “Isso parece bem apropriado para esta parte da cidade.”

 

ALGUNS MINUTOS DEPOIS, Rardy estava numa maca na parte de trás da ambulância. As duas patrulheiras o deixaram em sua unidade, e um dos paramédicos tentava tirar uma grande lata de cerveja Narragansett da mão de Rardy.

“Você está com uma concussão”, disse o cara.

Rardy tomou a cerveja de volta. “Não foi a cerveja que a causou.”

O paramédico olhou para Cousin Marvin, que tomou a cerveja da mão de Rardy. “É para seu bem.”

Rardy estendeu a mão para a cerveja e chamou Marv de otário.

Torres e Bob observavam o pequeno conflito quando Torres disse: “Essa coisa toda é uma palhaçada”.

“Ele vai ficar bem”, disse Bob.

Torres olhou para ele. “Me refiro à São Domingos. Bela igreja. E eles celebram a missa muito bem. Nada de dengos com Nosso Pai, nada de cantores populares.” Ele olhou para a viela com o desconcerto irremediável de uma vítima. “Na época em que os leigos concluírem sua perseguição à Igreja, tudo que haveremos de deixar será um bocado de condomínios com vitrais.”

Bob disse: “Mas...”.

Torres lançou-lhe um olhar digno de um mártir observando os pagãos construindo sua fogueira. “Mas o quê?”

“Bem...”, disse Bob estendendo as mãos.

“Então o quê?”

“Se a Igreja fosse purificada...”

Torres endireitou o corpo sem mais nada de divertido nos olhos. “Quer dizer que era isso, hein? Você não vê o Globe dedicando suas primeiras páginas aos casos de maus-tratos no mundo muçulmano.”

Bob sabia que devia calar a porra da sua boca, mas não conseguia se conter. “Eles esconderam casos de abuso de crianças. Por ordens de Roma.”

“Eles pediram desculpas.”

“Mas de que adianta isso?”, perguntou Bob. “Se eles não divulgam os nomes dos padres que cometeram os abusos...”

Torres ergueu as mãos no ar. “O catolicismo da boca pra fora foi responsável por isso. Em sua maioria, as pessoas querem ser católicas, menos, sabe, o núcleo duro. Por que você nunca comunga?”

“O quê?”

“Faz anos que o vejo na missa. Você não comungou nenhuma vez.”

Bob sentiu-se desconcertado e invadido em sua privacidade. “Isso é problema meu.”

Torres finalmente voltou a sorrir, mas era um sorriso tão perverso que Bob conseguia perceber isso de olhos fechados.

Torres disse: “Você acha isso, não é?”, e foi andando até seu carro.

Bob se dirigiu à ambulância perguntando-se que diabos acabara de acontecer. Mas ele sabia o que tinha acontecido – ele se fizera inimigo de um policial. Uma vida vivida num cubículo de total anonimato, e o cubículo acabava de ser escancarado no meio da rua.

Os paramédicos prepararam-se para erguer e pôr a maca de rodinhas na ambulância.

Bob disse: “Moira vai visitar você?”.

Rardy disse: “Sim, eu liguei para ela”. Ele arrebatou a lata de cerveja da mão de Marv e a esvaziou. “Minha cabeça está doendo pra cacete. Pra cacete.”

Eles o ergueram até a ambulância. Bob agarrou a lata de cerveja vazia quando ele a jogou, os paramédicos fecharam as portas traseiras e foram embora.

Marv e Bob se surpreenderam num silêncio repentino.

“O policial deixou você usar o blusão dele ou primeiro você vai ter de deixá-lo dar um beliscão nos seus mamilos?”

Bob suspirou.

Marv não lhe deu folga. “Pra que diabos você contou a ele sobre o relógio?”

“Não sei”, disse Bob, e se deu conta de que realmente não sabia. Não tinha a menor ideia.

Marv disse: “Bem, vamos cortar pela raiz esse impulso pelo resto de sua vida, sabe?”. Ele acendeu um cigarro e bateu os pés no chão por causa do frio. “Perdemos cinco mil e uns trocados. Mas Anwar e Makkhal pegaram nosso envelope, por isso não estou numa enrascada.”

“Então estamos bem.”

“Perdemos cinco mil”, disse Marv. “O bar é deles, o dinheiro é deles. Não estamos tão bem assim, porra.”

Eles olharam novamente para a viela. Ambos tremiam por causa do frio. Depois de algum tempo, voltaram para dentro.