A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 9 de 16

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A Entrega

9. Fique

 

ELES NÃO TINHAM VISTO RARDY desde o assalto. Ele tivera alta do hospital no dia seguinte, era só o que sabiam, mas afora isso ele se tornara um fantasma. Certa manhã eles conversaram sobre isso no bar vazio, metade das cadeiras ainda em cima das mesas e do balcão.

Cousin Marv disse: “Não é o estilo dele”.

Bob estava com o jornal aberto à sua frente no balcão. Era oficial: a arquidiocese anunciara o fechamento da igreja São Domingos em East Buckingham, fechamento que o cardeal classificara como “iminente”.

Bob disse: “Ele já desapareceu antes”.

Cousin Marv disse: “Não depois de uma confusão, não sem ter ligado”.

 

HAVIA DUAS FOTOGRAFIAS da igreja no jornal, uma delas tirada recentemente, a outra cem anos atrás. O mesmo céu acima. Mas ninguém que estivera sob o primeiro céu ainda estava vivo no segundo. E talvez eles estivessem contentes de não se encontrar num mundo tão irreconhecível comparado àquele em que tinham vivido. Quando Bob era criança, sua paróquia era seu país. Tudo aquilo de que você necessitasse e precisasse saber estava contido nela. Agora que a arquidiocese tinha fechado metade das paróquias para pagar pelos crimes dos padres molestadores de crianças, Bob não podia escapar do fato de que o tempo da hegemonia das paróquias tinha acabado. Ele era aquele tipo de cara, de certa meia geração, uma quase geração – e embora ainda tivessem sobrado muitos deles, agora estavam mais velhos, mais grisalhos, tinham tosse de fumantes, iam fazer checkups e não voltavam mais.

“Não sei”, dizia Marvin. “Essa história de Rardy me deixa preocupado, não me importo de dizer a você. Quer dizer, tem uns caras atrás de mim e...”

Bob disse: “Não tem caras atrás de você” .

Cousin Marv disse: “O que foi que lhe falei sobre o cara no carro?”.

Bob disse: “Ele lhe pediu informações sobre que caminho tomar”.

Cousin Marv disse: “Mas foi o jeito como ele o fez, o jeito como ficou me olhando. E que diz sobre o cara com o guarda-chuva?”.

Bob disse: “Isso tem a ver com o cachorro”.

Cousin Marvin disse: “‘O cachorro.’ Como você sabe?”.

Bob olhou para as partes do salão do bar ainda não iluminadas e sentiu a morte à sua volta, efeito colateral, acreditava ele, do assalto e do pobre sujeito na traseira da van. As sombras se transformaram em camas de hospital, velhos encurvados comprando cartões de felicitações, cadeiras de rodas vazias.

“Rardy está só doente”, disse Bob por fim. “Ele vai aparecer.”

 

MAS POUCAS HORAS DEPOIS, enquanto Marv tocava o serviço do bar para os beberrões que bebiam de dia, Bob foi para o lugar onde Rardy morava. Um apartamento no segundo andar, imprensado entre dois outros, num edifício de três, em Perceval.

Bob ficou na sala de estar com Moira, a mulher de Rardy. Moira já fora de fato uma bela moça, mas a vida com Rardy e uma criança com problemas de aprendizagem sugou-lhe a beleza como açúcar por um canudinho.

Moira disse: “Faz dias que não o vejo”.

Bob disse: “Dias, é?”.

Ela fez que sim. “Ele bebe muito mais do que deixa transparecer”.

Bob inclinou-se para a frente, com expressão de surpresa.

“Sei o que estou dizendo, certo?”, ela disse. “Ele esconde muito bem, mas fica o tempo todo bebendo desde que levanta de manhã.”

Bob disse: “Eu o vi tomar um drinque”.

“Sabe aquelas garrafinhas de avião?”, disse Moira. “Ele as leva no casaco. Então, não sei, ele pode estar com os irmãos ou com alguns dos velhos amigos de Tuttle Park.”

“Quando foi a última vez?”, perguntou Bob.

“Que eu o vi? Há alguns dias. Mas o safado já fez isso comigo antes.”

“Você tenta ligar para ele?”

Moira deu um suspiro. “Ele não atende ao celular.”

O menino apareceu na soleira da porta, ainda de pijama às três da tarde. Patrick Dugan, nove ou dez anos, Bob não conseguia lembrar qual das duas idades. Ele lançou a Bob um olhar sem expressão, ainda que se tivessem encontrado uma centena de vezes, depois olhou para a mãe, coçando-se, sacudindo os ombros.

“Você falou”, disse Patrick para a mãe. “Eu preciso de ajuda.”

“Certo. Mas deixe eu terminar de conversar com o Bob.”

“Você falou, você falou, você falou. Eu preciso de ajuda. Eu preciso.”

“Mas sabe, querido?”, disse Moira fechando os olhos por um breve instante. “Eu disse que vou fazer isso e vou fazer. Mas me mostre que, como já conversamos, você consegue trabalhar sozinho por mais uns minutos.”

“Mas você falou”, disse Patrick batendo um pé contra o outro na soleira. “Você falou.”

“Patrick”, disse Moira, agora num tom mais áspero.

Patrick soltou um uivo, no rosto uma desagradável mistura de fúria e medo. Era um som primal, um som animal, um gemido dirigido a pequenos deuses. Seu rosto ficou de um vermelho bronzeado, e os nervos do pescoço, ressaltados. O uivo prolongou-se e não parava mais. Bob olhou para o chão, olhou para a janela, tentou agir de forma natural. Moira parecia cansada.

Então o menino fechou a boca e disparou pelo corredor.

Moira tirou o invólucro de um chiclete e o pôs na boca.

Ela ofereceu o pacote a Bob, ele agradeceu, pegou um tablete, e ficaram os dois em silêncio, mascando.

Moira apontou o polegar para a porta onde seu filho estivera. “Rardy não diria por que ele bebe. Ele nos contou que Patrick tem HDHD? E/ou TDA. E/ou deficiência de um troço qualquer. Minha mãe diz que ele é só um panaca. Eu não sei. Ele é meu filho.”

“Claro”, disse Bob.

“Você está bem?”

“Eu?”, disse Bob inclinando-se um pouco para trás. “Sim, por quê?”

“Você está diferente.”

“Como assim?”

Moira deu de ombros e se levantou. “Não sei. Você parece mais alto ou sei lá o quê. Se você vir Rardy, diga-lhe que precisamos de detergentes 409 e Tide.”

Ela foi ao encontro do filho. Bob foi embora.

 

NADIA E BOB estavam sentados nos balanços do parquinho vazio no Pen’ Park. Rocco estava a seus pés na areia, com uma bola de tênis na boca. Bob olhou para a cicatriz no pescoço de Nadia, e ela o viu desviar o olhar.

“Você nunca perguntou sobre a cicatriz. Foi a única pessoa que não perguntou sobre ela já nos primeiros, digamos... cinco minutos.”

Bob disse: “Não é da minha conta. É da sua”.

Nadia perguntou: “De onde você é?”.

Bob olhou em volta. “Eu sou daqui.”

“Não, quero dizer: de que planeta?”

Bob sorriu e balançou a cabeça. Ele finalmente entendeu o que as pessoas queriam dizer quando falavam “maravilhado”. Era mais ou menos como ela o fazia sentir-se – a uma distância, em sua mente, ou, como agora, sentados juntos o bastante para que se pudessem tocar (embora nunca o tivessem feito) – maravilhado.

Ele disse: “Sabe quando as pessoas usavam o telefone público? Elas entravam numa cabine, fechavam a porta. Ou então falavam o mais baixo possível. Mas agora? As pessoas falam sobre... sim, agora falam sobre os movimentos de seus intestinos quando os estão sentindo num banheiro público. Eu não entendo”.

Nadia riu.

“O que foi?”

“Nada não”, disse ela levantando a mão à guisa de desculpas. “É que nunca vi você exaltado. Nem tenho bem certeza se estou entendendo. O que tem a ver um telefone público com minha cicatriz?”

“Ninguém hoje em dia”, disse Bob, “respeita a privacidade. Todos querem contar a você qualquer porra sobre si mesmos. Desculpe. Desculpe. Eu não devia ter dito essa palavra. Você é uma dama.”

Ela abriu um sorriso ainda mais largo. “Continue.”

Ele levantou uma mão próximo ao ouvido e só notou quando o tinha feito. Ele a abaixou. “Todas as pessoas querem contar alguma coisa a você – qualquer coisa, tudo – sobre elas mesmas e então simplesmente vão contando sem parar. Mas quando se trata de mostrar a você quem elas são, o que acontece? A coisa muda de figura, Nadia. Elas não têm coragem. E elas simplesmente disfarçam falando mais, explicando o que não pode ser explicado. E então elas continuam falando mais mentiras sobre outra pessoa. Que sentido tem isso?”

O largo sorriso de Nadia agora se reduzira, tornando-se curioso e ao mesmo tempo indecifrável. “Não sei muito bem.”

Ele se pegou passando a língua no lábio superior, um antigo tique nervoso. Ele queria que ela entendesse. Ele precisava que ela entendesse. Que Bob se lembrasse, não houvera nada antes de que ele precisasse tanto.

“Sua cicatriz, sabe?”, disse ele. “Ela é sua. Você me falará sobre ela quando falar. Ou então não. Tanto faz.”

Ele ficou um instante olhando para o canal. Nadia deu-lhe um tapinha na mão, também olhou para o canal, e os dois ficaram assim por algum tempo.

 

ANTES DE IR TRABALHAR, BOB deu uma passada na São Domingos, sentou-se num banco vazio na igreja vazia e ficou observando tudo.

Vindo da sacristia, o padre Regan foi até o altar, em trajes normais, embora estivesse de calça preta. Por um instante, ficou olhando Bob sentado ali.

Bob perguntou: “É verdade?”.

O padre Regan desceu até o meio do corredor e se sentou no banco na frente do de Bob. Ele se voltou e passou o braço por cima do encosto do banco. “Sim, a diocese acha que desempenharemos melhor nossas tarefas pastorais se nos integrarmos à de Santa Cecília.”

“Mas eles estão vendendo esta igreja”, disse Bob apontando para seu banco.

“Sim, este edifício e a escola serão vendidos.”

Bob levantou os olhos para os tetos elevados. Desde os três anos de idade tinha o hábito de fazer isso. Ele nunca conhecera os tetos de nenhuma outra igreja. Ele imaginava que seria assim até a sua morte. Como acontecera com seu pai e o pai de seu pai. Algumas coisas – algumas coisas raras – deviam continuar como sempre foram.

Bob disse: “E você?”.

O padre Regan respondeu: “Ainda não fui designado para outro lugar”.

Bob disse: “Eles protegem os molestadores de crianças e os pilantras que lhes deram cobertura, mas não decidiram o que fazer com você? Que puta esperteza, hein?”.

O padre Regan lançou-lhe um olhar como se não tivesse conhecido aquele Bob antes. E talvez não tivesse mesmo.

O padre Regan disse “E no mais, tudo bem?”.

“Claro”, disse Bob olhando para os transeptos. Não pela primeira vez, ele se perguntou como eles arrumaram recursos, em 1878 – ou 1078, por falar nisso – para construí-los. “Claro, claro, claro.”

Padre Regan disse; “Fiquei sabendo que você fez amizade com Nadia Dunn”.

Bob olhou para ele.

“Ela teve alguns problemas no passado”, disse o padre Regan batendo a mão de leve no banco. Aquela batidinha logo se tornou um afago distraído. “Alguns diriam que ela é meio perturbada.”

A igreja silenciosa se impôs sobre eles, batendo como um terceiro coração.

“Você tem amigos?”, perguntou Bob.

Padre Regan arqueou as sobrancelhas. “Claro.”

Bob disse: “Não estou falando de, tipo, outros padres. Me refiro a amigos. Gente com quem, sei lá, você possa ficar junto”.

Padre Regan fez que sim. “Sim, Bob, eu tenho.”

“Eu não”, disse Bob. “Quer dizer, eu não tinha.”

Bob olhou em volta da igreja um pouco mais. Sorriu para o padre Regan e disse: “Que Deus o abençoe”, e levantou-se do banco.

Padre Regan respondeu: “Que Deus o abençoe”.

A caminho da porta, Bob parou na pia batismal, benzeu-se e se deixou ficar ali com a cabeça abaixada. Então se benzeu mais uma vez e saiu pela porta principal.