A Entrega
5. Cousin Marv
EM FINS DE 1967, QUANDO AS PESSOAS decentes de Boston elegeram como prefeito Kevin White, a voz de Cousin Marvin – que então estava no terceiro ano – era considerada tão bonita que ele foi o convocado para cantar na cerimônia de posse. Toda manhã ele comparecia à São Domingos. Mas toda tarde, depois do almoço, era levado de ônibus para ensaiar com um coro de meninos na Old South em Back Bay. A igreja de Old South ficava no número 645 da Boylston Street – pelo resto de sua vida, Marv nunca se esqueceu do endereço – e fora construída em 1875. Ela se dispunha diagonalmente na praça da Trinity Church, outra obra-prima arquitetônica, a pouca distância da sede central da Biblioteca Pública de Boston e do Copley Plaza Hotel, quatro edifícios tão majestosos que quando o pequeno Marv se encontrava neles, mesmo em seus porões, sentia-se mais perto do céu. Mais perto do céu, mais perto de Deus ou de qualquer dos anjos ou outros espíritos que flutuavam nas orlas das velhas pinturas. Marv lembrava-se de ter sua primeira intuição adulta, como menino de coro – de que sentir-se mais perto de Deus tinha algo a ver com sentir-se mais perto do conhecimento.
E então eles o expulsaram do coro.
Outro menino, Chad Benson – Marv também nunca iria se esquecer daquela porra de nome – afirmou ter visto Marv roubar uma barra de chocolate Baby Ruth da mochila escolar de Donald Samuel no closet para casacos. Gritou isso diante do resto do coro quando o regente e os instrutores tinham feito uma pausa para urinar no térreo. Chad disse que todos sabiam que Marv era pobre, mas da próxima vez que ele quisesse comer, bastava pedir que eles lhe dariam uma esmola. Marv disse a Chad que ele era um monte de merda. Chad zombou de Marv por falar de forma descontrolada e ficar vermelho, disse que Marv devia estar no programa de auxílio do governo, perguntou se suas roupas vinham do brechó do porão em Quincy e se toda a família comprava ali, ou só Marv e sua mãe. Marv socou o rosto de Chad Benson com tanta força que o barulho ecoou no templo. Quando Chad caiu no chão, Marv subiu nele, agarrou-lhe uma mecha de cabelo e socou-o mais duas vezes. Foi o terceiro soco que provocou o descolamento da retina de Chad. Não que aquele dano, embora sério, tivesse grande peso na história toda – Marv já estava acabado no momento em que bateu pela primeira vez no sacana. Os Chad Bensons do mundo, ele ficou sabendo naquele dia, nunca deviam ser agredidos. Nem ao menos questionados. De todo modo, não pelos Marv Stiplers da vida.
No processo de expulsão, Ted Bing, o regente do coro, desfechou outro golpe contra Marv ao lhe dizer que, segundo seu ouvido apurado, a voz de Marv iria declinar aos nove anos.
Marv tinha oito.
Eles nem o deixaram tomar o ônibus com os demais componentes do coro. Deram-lhe apenas o dinheiro da passagem, e ele pegou a Linha Vermelha para a cidade e de volta para East Buckingham. Ele esperou até começar a andar da estação para sua casa para comer a barra Baby Ruth. Foi a melhor comida, antes e dali por diante, que ele comeu. Não era apenas o chocolate, ligeiramente derretido, mas o forte e untuoso sabor de autocomplacência que lhe estimulava o paladar e afagava o coração. Sentir-se com plena razão enfurecido e tragicamente vitimizado era, ao mesmo tempo – e Marv raras vezes o admitia para si mesmo –, melhor que qualquer orgasmo na história da trepada.
A felicidade fazia Marv sentir-se ansioso porque ele sabia que não iria durar muito. Mas a felicidade destruída merecia ser aceita, porque isso sempre recompensava.
Sua voz declinou aos nove anos, como o desgraçado do Ted Bing previra. Marv não cantaria mais em coros. Pelo resto de sua vida, Marv, sempre que podia, evitava ir ao centro da cidade. Aqueles velhos edifícios, outrora seus deuses, haviam se transformado em espelhos implacáveis. Marv via, refletidas neles, todas as versões de si mesmo que nunca haveriam de se concretizar.
Depois que Chovka fez a visita com sua Câmara de Torturas sobre Rodas e com seus olhos e atitudes pungentes, Marv removeu a neve do resto da calçada, apesar do joelho e tudo mais, enquanto o porra do Bob se deixou ficar olhando o tempo todo, provavelmente devaneando sobre o cachorro com o qual ficara tão obcecado que agora mal se podia falar com ele. Eles tinham entrado e, o que não era nada de estranhar, Bob recomeçou a tagarelar sobre o cachorro. Marv não deixou transparecer o quanto aquilo era chato, mas, verdade seja dita, era bom ver Bob animado com alguma coisa.
O pouco amor pela vida que Bob mostrava não era apenas por ter sido criado por dois velhos pais, com poucos amigos e nenhuma conexão. O motivo disso era que os pais o tinham mimado, o tinham asfixiado com um amor desesperado (relacionado, presumia Marv, com seu iminente abandono do mundo dos vivos), de tal modo que Bob nunca aprendeu direito a sobreviver num mundo de homens. Bob – o que iria surpreender muitos que agora o conheciam – era capaz de ser muito temível, se você mexesse no interruptor errado daquele seu cérebro lento, mas havia outra parte dele tão carente de afagos que isso solapava a parte dele que poderia foder com uma pessoa, caso ele fosse colocado contra a parede.
Agora ele estava sob a mira da multidão de chechenos por ter sido estúpido o bastante para dar informação de graça a um policial. E não apenas um policial, como depois ficou claro. Um policial conhecido dele. Da igreja.
A multidão de chechenos. Vejam só. Porque Bob era fraco.
Naquela noite Marv chegou em casa cedo. Não foi muito ao bar. Não tinha motivos para ficar por lá, pois estava pagando a Bob para fazer isso, sabe como é, era a porra do trabalho dele. Ele parou no vestíbulo para tirar as luvas, o casaco e o cachecol, sendo que o inverno era um puta dum pretexto para usar mais merdas de roupas do que alguém no Havaí sabia que existiam.
Dottie chamou da cozinha. “É você?”
“Quem mais poderia ser?”, retrucou ele, ainda que no Ano Novo tivesse feito votos de ser mais delicado com a irmã.
“Poderia ser um desses garotos que dizem vender assinaturas de revistas para sair do gueto.”
Ele procurou um cabide para o chapéu. “Esses meninos não tocam a campainha?”
“Eles poderiam cortar sua garganta.”
“Quem?”
“Esses garotos.”
“Com revistas? Como é isso? Eles pegam um daqueles, como é que eles chamam?, encartes, e sangram você com papel?”
“Seu bife já está pronto.”
Ele o ouvia fritando. “Já estou indo.”
Ele tirou a bota direita com a esquerda, mas então teve de tirar a esquerda com a mão. O bico da bota estava escuro. A princípio pensou que era da neve.
Mas não, era sangue.
Um pouco de sangue do pé do cara tinha vazado pelo buraco no piso da van e caído na rua.
E foi parar na bota de Marv.
Cara, aqueles chechenos... Aqueles putos daqueles chechenos.
Faziam um sujeito bobo vacilar. Despertavam ambição num homem esperto.
Quando ele chegou à cozinha, Dottie, com sua roupa de ficar em casa e chinelos felpudos de pele de alce, olhos na frigideira, disse: “Você parece cansado”.
“Você nem olhou para mim.”
“Eu olhei ontem”, disse ela com um sorriso cansado. “Agora estou olhando.”
Marv pegou uma cerveja na geladeira, tentando sacudir a imagem do cara de sua cabeça, daquele diabo de checheno demente ao lado dele apertando o mandril com a chave.
“E então?”, perguntou ele a Dottie.
“Você parece cansado”, disse ela animadamente.
DEPOIS DO JANTAR, DOTTIE foi para seu cantinho assistir aos seus programas, e Marv foi para a academia de ginástica em Dunboy. Ele já bebera cerveja demais para malhar, mas sempre podia pegar uma sauna.
Naquela hora da noite, não havia ninguém na sauna – quase não havia ninguém na academia –, e quando Marv saiu estava se sentindo muito melhor. Era quase como se tivesse malhado, o que, pensando bem, era o que acontecia normalmente quando ele ia à academia.
Tomou uma ducha, uma parte dele lamentando não ter levado disfarçadamente uma cerveja consigo, porque não existia nada como uma cerveja gelada numa ducha quente depois da malhação. Quando saiu, vestiu-se junto de seu armário. Ed Fitzgerald estava próximo do armário vizinho, mexendo ociosamente na fechadura.
“Ouvi dizer que eles estão irritados”, disse Fitz.
Marv amarrou o cordão da calça. “Não era de esperar que estivessem satisfeitos. Eles foram roubados.”
“Aquele puto checheno de dar medo, irritado”, disse Fitz, depois fungou, e Marv tinha certeza de que não era por causa do frio.
“Não, eles são legais. Você é. Só tenha o cuidado de manter a cabeça baixa. Seu irmão também.” Ele olhou para Fitz enquanto este amarrava os cadarços dos sapatos. “O que há com o relógio dele?”
“Por quê?”
“Notei que não está funcionando.”
Fitz pareceu embaraçado. “Ele nunca funcionou. Nosso velho lhe deu de presente quando ele completou dez anos. Ele parou... digamos, no dia seguinte. O velho não podia devolvê-lo porque ele o tinha roubado. Ele disse a Bri: ‘Não se aborreça. Ele marca a hora certa duas vezes por dia’. Bri não vai a lugar nenhum sem ele.”
Marv abotoou a camisa sobre sua camiseta colante. “Bem, ele devia arrumar um novo.”
“Quando vamos atacar o lugar onde fica guardada a mufa de verdade? Não gosto de arriscar minha vida, a porra da minha liberdade, minha, entende, tudo isso por uma merreca de cinco mil dólares.”
Com o casaco no braço, Marv fechou o próprio armário. “Vamos partir do princípio que não sou um babaca sem um plano. Quando um avião sofre um desastre, qual é a linha mais segura na qual se pode voar no dia seguinte?”
“Aquela em que houve o acidente.”
Marv lhe deu um grande sorriso de triunfo. “É isso aí.”
Fitz o acompanhou quando o outro saiu da sala dos armários. “Não entendo uma palavra do que você está dizendo. É como se você estivesse falando em brasileiro.”
“Os brasileiros falam português.”
“É mesmo?”, disse Fritz. “Bom, que se danem.”