A Entrega
13. Lembre-se de mim
13. Lembre-se
de mim
NUMA RUA ELEVADA, acabava um jogo do Bruins. Cousin Marv teve de parar no meio-fio, com os policiais gritando a todos que seguissem em frente; as multidões acotovelavam-se e balançavam o chassi do Honda, os táxis tocavam as buzinas, a chuva deslizava aos borbotões pelo para-brisa feito bouillabaisse. Marv estava prestes a partir, sair do quarteirão – o que, com aquele trânsito, não demoraria menos de uma porra de uma meia hora –, quando Fitz surgiu do meio da multidão e parou bem perto da porta, olhando para Marv com um rosto chupado sob um capuz preto de vinil.
Marv abaixou o vidro da janela do lado do passageiro do surrado Honda de um amarelo desbotado. “Entre.”
Fitz ficou onde estava.
“O que é?”, disse Marv. “Você acha que forrei o porta-malas com plástico?” Ele abriu o porta-malas. “Veja você mesmo.”
Fitz olhou na direção do porta-malas, mas não se mexeu do lugar. “Não quero entrar aí.”
“É mesmo? Temos de conversar.”
“Eles pegaram meu irmão”, gritou Fitz em meio ao barulho da chuva.
Marv balançou a cabeça, compreensivo. “Não sei se o policial do cruzamento ouviu isso. Ou esse que está logo atrás de você, Fitzy.”
Fitz olhou para o jovem policial que controlava a multidão alguns metros atrás dele. Por enquanto estava distraído. Mas isso podia mudar.
Marv disse: “A gente está demorando muito. Umas duas mil pessoas, inclusive policiais, nos viram conversando junto deste carro. Está um frio do diabo. Entre”.
Fitz avançou um passo em direção ao carro e parou. Depois chamou: “Policial! Policial!”.
O jovem policial se voltou e olhou para ele.
Fitz apontou para o próprio peito e depois para o Honda. “Você se lembra de mim, não é?”
O policial apontou. “Tire esse carro daí!”
Fitz levantou o polegar.
“Meu nome é Fitz.”
O policial gritou: “Tire esse carro daí!”.
Fitz abriu a porta, mas Marv o impediu. “Feche o porta-malas, tá?”
Fitz correu sob a chuva, fechou o porta-malas e entrou no carro. Cousin Marv levantou o vidro da janela, e eles se afastaram do meio-fio.
Logo depois, Fitz levantou o casaco, pegou o 38 enfiado na cintura. “Não foda comigo. Não ouse fazer isso, porra. Está ouvindo? Está ouvindo?”
Cousin Marv disse: “Sua mamãe pôs essa arma na sua lancheira para você? Meu Deus, portando uma arma como se estivesse numa porra dum estado que vota nos republicanos, temendo que os porto-riquenhos venham tomar o seu emprego e os negros venham pegar sua mulher. É isso?”.
Fitz disse: “Da última vez que meu irmão foi visto vivo, ele entrou num carro com um cara”.
Cousin Marv disse: “Seu irmão provavelmente também estava armado”.
“Foda-se, Marv.”
“Escute, sinto muito, Fitz, sinto mesmo. Mas você me conhece... não sou homem de sair por aí atirando nas pessoas. Sou apenas um gerente de bar no maior cagaço. Quero encontrar uma porra duma maneira de dar um jeito na merda deste ano.” Marv olhou pela janela enquanto eles avançavam no trânsito congestionado rumo à Storrow Drive. Ele olhou para a arma novamente. “Seu pau fica maior se você ficar me apontando essa arma de forma enviesada no estilo dos gângsteres?”
Fitz disse: “Você é um babaca, Marv”.
Marv deu uma risadinha. “Diga-me alguma coisa que eu não sei.”
O trânsito ficou um pouco mais leve em Storrow e desviava para oeste.
“Nós vamos morrer”, disse Fitz. “Você consegue pôr isso na cabeça?”
Cousin Marv disse: “É um risco que corremos para conseguir uma recompensa em troca, Fitzy. Já assumimos o risco e, sim, parece que as coisas não estão dando muito certo”.
Fitz acendeu um cigarro. “Mas?”
“Mas eu sei onde a dinheirama vai ficar guardada amanhã. Uma bolada. Você quer vingar o seu irmão? A coisa chega a um milhão.”
Fitz disse: “Um puta suicídio”.
Cousin Marv disse: “De todo jeito, a esta altura, nós dois estamos esperando morrer mesmo. Prefiro fugir com uma boa bolada a meter o pé na estrada a zero”.
Fitz refletiu um pouco sobre isso, batendo o joelho direito repetidas vezes sob o porta-luvas. “Não quero entrar numa dessas novamente, cara.”
Cousin Marv disse: “Você é quem sabe. Não vou lhe pedir ajuda para ganhar um milhão de dólares de uma só vez”.
“Nunca vi minha parte dos cinco mil que pegamos da primeira vez.”
Cousin Marv disse: “Mas você ficou com ela”.
Fitz disse: “Quem ficou foi Bri”.
O trânsito tinha diminuído consideravelmente quando eles estavam passando pelo Estádio Harvard, o primeiro estádio de futebol do país: mais um edifício onde parecia que ririam dele se algum dia tentasse entrar lá. Era isso o que aquela cidade fazia – esfregava sua história em sua cara o tempo todo, de forma que você pudesse se sentir menor à sombra dela.
Cousin Marv dobrou a oeste, acompanhando o rio, e agora quase não havia ninguém na estrada. “Eu vou saldar isso com você.”
Fitz disse: “O quê?”.
“Estou falando sério. Mas vou querer algo em troca: primeiro, não diga porra nenhuma do que eu lhe disse. Segundo, você sabe de algum lugar onde eu possa ficar escondido por alguns dias?”
Fitz disse: “Você está sem ter onde ficar?”.
Então eles ouviram um forte som metálico. Marv olhou pelo retrovisor e viu a tampa do porta-malas trepidando na chuva.
“Diabo de porta-malas. Você não o fechou.”
“Eu o fechei”, disse Fitz.
“Não fechou direito.”
A tampa do porta-malas continuou a balançar pra cima e pra baixo.
Cousin Marv disse: “E... não, não estou sem ter onde ficar, mas todo mundo sabe onde moro. Quanto a você, eu não sei nem onde você vive”.
A tampa do porta-malas bateu contra o carro novamente.
Fitz disse: “Eu fechei aquele troço”.
“É o que você diz.”
“Foda-se, pare. Deixe-me fechar.”
Marv parou num dos estacionamentos, ao longo do Charles, que se dizia ser lugar de encontros de homossexuais casados com mulheres em sua vida normal. O único carro em todo o estacionamento era um velho trambolho esculhambado americano que parecia estar ali havia uma semana, neve antiga na grade travando uma batalha perdida contra a chuva. Era sábado, Marv se lembrava, o que significava que os homossexuais provavelmente estavam em casa com suas mulheres e filhos, fingindo não gostar de um pau e dos filmes de Kate Hudson. O lugar estava deserto.
Marv disse a Fitz: “Posso ficar na sua casa ou não? Só hoje à noite e, talvez, amanhã à noite também”.
Ele parou o carro.
Fitz disse: “Na minha casa não, mas sei de um lugar”.
Cousin Marv disse: “Tem TV a cabo?”.
Fitz disse enquanto saía do carro: “Que porra você quer?”.
Ele correu até a traseira do carro, fechou o porta-malas com uma mão, voltou à porta do passageiro e sacudiu a cabeça quando a tampa do porta-malas tornou a se abrir.
Marv viu o rosto de Fitz crispar-se de raiva. Ele correu para a traseira do carro novamente, segurou a tampa do porta-malas com as duas mãos e bateu-a com tanta força que o carro inteiro estremeceu, inclusive Marv e tudo o mais.
Então as luzes do freio que banhavam seu rosto de vermelho se apagaram. Seu olhar cruzou com o de Marv no retrovisor, e na última hora percebeu qual era a jogada. O ódio que refulgiu em seus olhos parecia dirigido menos contra Marv e mais contra sua própria estupidez.
O Honda se sacudiu todo quando Marv deu uma ré e lançou-se sobre Fitz. Ele ouviu um grito, só um, e mesmo este foi longínquo, e era fácil imaginar que o que estava se arrastando sob o carro era um saco de batatas ou um grande peru de Natal.
“Foda-se, cara”, Marv ouviu a própria voz na chuva. “Foda-se, foda-se, foda-se.”
E então ele meteu o carro em cima de Fitz. Pisou no freio. Deu ré e fez tudo novamente.
Depois de mais algumas vezes, deixou o corpo onde estava. Não precisou passar um pano no Honda – a melhor coisa do inverno é que todos usavam luvas. A gente podia dormir com elas à noite, e ninguém desconfiava de nada, apenas se perguntava onde podia comprar um par também.
Quando ele saiu do Honda, olhou para o estacionamento onde jazia o corpo de Fitz. Dali mal se podia vê-lo. Daquela distância, aquilo poderia ser um monte de folhas molhadas ou neve antiga derretendo-se sob uma chuva constante. Diabos, daquela distância o que ele achava era que o corpo de Fitz podia ser uma ilusão de ótica, um jogo de luz e sombra.
Eu sou, Marv pensou naquele momento, tão perigoso quanto qualquer sujeito perigoso que existe. Eu tirei uma vida.
Não era uma ideia desagradável.
Marv pegou o carro e foi embora. Pela segunda vez naquela semana ele se lembrou de que precisava de novos limpadores de para-brisa.
BOB DESCEU OS DEGRAUS DO PORÃO com Rocco nos braços. A sala principal estava vazia e limpa, o piso de pedra e as paredes também de pedra eram pintados de branco. Contra a parede oposta ao pé da escada havia um tanque preto de óleo. Bob passou por ele, como sempre fazia – rapidamente e de cabeça baixa – e levou Rocco para um canto do porão onde seu pai havia instalado uma pia muitos anos atrás. Ao lado da pia havia algumas prateleiras com diversas ferramentas velhas, botas e latas de tinta. Acima dela havia um armário. Bob pôs Rocco na pia.
Ele abriu o armário. Estava cheio de vasilhames com pregos e parafusos e com latas de removedor de tinta. Pegou uma lata de café o’Nuts e a colocou ao lado da pia. Sob o olhar de Rocco, retirou um saco plástico cheio de pequenos pinos. Então tirou um maço de notas de cem dólares. Havia outros maços de dólares. Mais cinco. Bob sempre imaginou que algum dia, quando morresse, alguém daria com aquela lata quando estivesse limpando a casa e embolsaria o dinheiro, prometendo-se manter segredo. Mas, naturalmente, a coisa não se daria assim, e a história vazaria e se tornaria uma lenda urbana – o cara que encontrou cinquenta mil dólares numa lata de café no porão da casa de um velho solteirão. A ideia sempre o agradara, não sabia bem por quê. Ele pôs o maço no bolso, o plástico de parafusos em cima, fechou a lata de café. Colocou-a no armário, depois o fechou e o trancou.
Bob contou o dinheiro com a velocidade que só bartenders e funcionários de cassino são capazes. Estava todo lá. Dez mil. Ele sacudiu o maço na frente de Rocco, abanando o rosto com ele.
Bob disse: “Você vale isso?”.
Cabeça inclinada, o cãozinho olhou para ele.
“Eu não sei”, disse Bob. “É um monte de dinheiro.”
Rocco pôs as patas dianteiras na beira da pia e mordiscou os pulsos de Bob com seus dentinhos afiados de filhote.
Bob puxou-o para si com a mão livre e apertou o rosto contra a cara do animal. “Eu estou brincando. Você vale isso, sim.”
Ele e Rocco saíram da sala dos fundos. Dessa vez, quando chegou ao tanque de óleo, ele parou. Ficou diante dele de cabeça baixa e então levantou a vista. Pela primeira vez em anos olhou diretamente para ele. Os tubos que tinham sido conectados a eles – um tubo receptor para captar óleo através da parede de fora e um tubo aquecedor para aquecer a casa – há muito haviam sido retirados, e os buracos, tapados.
Dentro, em vez de óleo, havia lixívia, sal-gema e, àquela altura, ossos. Apenas ossos.
Em seus dias mais negros, quando ele quase perdeu a fé e a esperança, quando dançara desesperado e a prendera à noite em seus lençóis, sentiu partes de seu cérebro soltarem-se, como se os protetores contra calor de uma nave espacial tivessem se chocado com um asteroide. Imaginou aquelas partes de seu corpo girando no espaço, para jamais voltarem.
Mas elas voltaram. E muito dele também voltou.
Ele subiu a escada com Rocco, voltou-se, olhou para o tanque de óleo uma última vez.
Pai, abençoa-me...
Ele apagou a luz; ouvia a respiração de seu cão no escuro.
... porque eu pequei.