A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 4 de 16

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A Entrega

4. Segunda cidade

 

NO DOMINGO DE MANHÃ, NADIA levou o filhote para o carro dele, quando ele estava parado na frente da casa dela. Ela passou o cãozinho pela janela e fez um pequeno aceno aos dois.

Ele olhou para o cão acomodado ao seu lado no banco e sentiu uma onda de medo. O que será que ele come? Quando ele come? Arrombamento, assalto. Como se faz isso? Quanto tempo se leva? Ele tivera dias para refletir sobre aqueles problemas – por que só agora eles lhe vinham à mente?

Ele apertou os freios e recuou o carro cerca de um metro. Nadia, a poucos centímetros do degrau mais baixo de sua entrada, voltou-se. Ele abaixou a janela do passageiro, inclinou o corpo no banco até poder olhar para ela.

“Eu não sei o que fazer. Eu não sei nada.”

 

NUM SUPERMERCADO PARA ANIMAIS, Nadia pegou vários brinquedos para mordiscar e disse a Bob que ele iria precisar deles se quisesse preservar seu sofá. Sapatos, ela lhe disse, de agora em diante esconda dele, na prateleira mais alta. Eles compraram vitaminas – para um cachorro! – e um saco de comida de filhotes que ela sugeriu, dizendo-lhe que o mais importante era manter aquela marca dali por diante. Se você mudar a dieta de um cão, ela o advertiu, vai ter um bocado de diarreia no chão de sua casa.

Eles compraram uma casinha para cães para acomodar o filhote enquanto Bob estivesse no trabalho. Compraram uma garrafa de água para pôr na casinha e um livro sobre como treinar cães, escrito por monges que apareciam na capa dando a impressão de durões, sem a menor aparência de monges, com sorrisos largos. Quando o caixa somou tudo, Bob sentiu um estremeção no corpo, um momentâneo dilaceramento enquanto levava a mão à carteira. Sua garganta afogueou-se de calor. Sua cabeça parecia ferver. E só quando o abalo passou, a garganta esfriou, a cabeça se desanuviou e ele passou o cartão de crédito para o caixa, percebeu, no súbito desaparecimento da sensação, que sensação era aquela.

Por um instante – talvez até uma sucessão de instantes, e nenhum destacado o suficiente para ser considerado como a causa – ele se sentiu feliz.

 

“BEM, ENTÃO OBRIGADA”, ela disse quando ele parou na frente da sua casa.

“O quê? Eu é que agradeço, ora. Pode acreditar. Bem... obrigado.”

Ela disse: “Esse carinha aí é muito bom. Você vai sentir orgulho dele, Bob”.

Bob olhou para o filhote, que agora dormia no colo dela, ressonando. “Eles fazem isso? Dormem o tempo todo?”

“Um bocado. Então eles saem correndo por aí feito malucos durante uns vinte minutos. Aí eles dormem um pouco mais. E fazem cocô. Bob, cara, você tem de se lembrar disso – eles fazem cocô e xixi feito loucos. Não perca a cabeça. É só o que sabem fazer. Leia os livros. Leva certo tempo, mas chega uma hora em eles percebem que não devem fazer isso dentro de casa.”

“E quanto é esse ‘certo’ tempo?”

“Uns dois meses?” Ela inclinou a cabeça. “Talvez três. Tenha paciência, Bob.”

“Tenha paciência”, ele repetiu.

“E você também”, disse ela dirigindo-se ao filhote enquanto o levantava de seu colo. Ele acordou fungando, bufando. Não queria que ela fosse embora. “Vocês dois cuidem um do outro”, disse ela, e saiu, fez um aceno para Bob enquanto subia os degraus da entrada de sua casa e entrou.

O filhote estava sobre as coxas de Bob, olhando para a janela como se Nadia fosse reaparecer ali. Ele voltou a cabeça e olhou para Bob. Bob sentia a sensação de desamparo do filhote e também a sua. Tinha certeza de que iria aprontar a maior confusão com aquilo, ele e seu cão abandonado. Ele estava convicto de que o mundo era forte demais.

“Como é seu nome?”, perguntou ele ao cãozinho. “Como vamos chamá-lo?”

O cãozinho voltou a cabeça como que dizendo: “Traga a garota de volta”.

 

A PRIMEIRA COISA QUE FEZ foi defecar na sala de jantar.

A princípio Bob nem ao menos percebeu o que o filhote estava fazendo lá. Ele começou a fungar, o nariz roçando o tapete, e levantou os olhos para Bob com uma expressão de embaraço. E então Bob disse: “O que é?”, e o cão despejou a coisa toda no canto do tapete.

Bob avançou aos tropeções, como se pudesse impedir aquilo, fazer com que a coisa voltasse, e o cãozinho escapuliu, deixando bolotinhas na madeira de lei enquanto fugia para a cozinha.

Bob disse: “Não, não. Tudo bem”. Embora não fosse verdade. A maior parte de tudo quanto havia na casa fora de sua mãe, e boa parte daquilo não sofrera nenhuma alteração desde que ela a comprara na década de 1950. Aquilo era merda. Excremento. Na casa de sua mãe. Em seu tapete, em seu piso.

Nos segundos que se passaram antes que ele chegasse à cozinha, o cãozinho estava encostado na geladeira, tendo deixado uma poça de urina no linóleo. Bob por pouco não escorregou na urina. O cão estava encostado na geladeira, olhando para ele, temendo um golpe, esforçando-se para não se deixar abalar.

E aquilo fez Bob parar. Fê-lo parar, ainda que ele soubesse que quanto mais o cocô ficasse no tapete, mais difícil seria tirá-lo de lá.

Bob se pôs de quatro no chão. Sentiu a súbita volta do que sentira quando tirou o cão do latão de lixo, algo que ele supunha ter deixado com Nadia. Relacionamento. Desconfiou que eles tinham sido unidos por algo mais que o acaso.

Ele disse “Ei” numa altura que mal passava de um sussurro. “Ei, está tudo bem.” Então, bem devagar, estendeu a mão, e o cãozinho pressionou o corpo ainda mais contra a geladeira. Mas Bob continuou avançando a mão e encostou delicadamente a palma num dos lados da cara do animal, emitindo sons suaves e doces. Ele sorriu àquilo. E disse repetidas vezes: “Está tudo bem”.

 

NAQUELA ÉPOCA O DETETIVE EVANDRO TORRES trabalhava na Divisão de Furtos, mas antes disso ele fora alguém de certa importância. Durante um ano e três meses de glória, fora detetive da Divisão de Homicídios. Então, como sempre acontecia com as boas coisas de sua vida, ele fodera com tudo e fora rebaixado para a Divisão de Furtos.

Ao final de seu turno, a Divisão de Furtos bebia no JJ’s, a de Homicídios, no bar The Last Drop, mas se se quisesse encontrar alguém da Divisão de Crimes Graves, o pessoal estaria mantendo a tradição, já consagrada, de beber em seus carros junto ao Pen Channel.

Foi lá que Torres encontrou Lisa Romsey e seu parceiro, Eddie Dexter. Eddie era um homem magro e pálido, sem amigos nem família que alguém conhecesse. Tinha a personalidade de uma caixa de areia úmida e nunca falava, a menos que falassem com ele, mas era uma verdadeira enciclopédia no que dizia respeito à fauna humana da Nova Inglaterra.

Lisa Romsey era totalmente diferente – a latina mais fogosa e irritadiça a empunhar uma arma. O nome Romsey foi o que sobrou de seu casamento desastroso, que durou dois anos, com o promotor de justiça, e ela o mantinha porque, nessa cidade, ele ainda abria mais portas do que fechava. Ela se tornou parceira de Torres havia alguns anos, numa força-tarefa. Depois que esta se desfez, foi enviada para a Divisão de Crimes Graves, onde permaneceu, e Torres foi para a de Homicídios, onde não ficou.

Evandro encontrou os dois sentados em seu carro sem o distintivo da polícia no canto sul do estacionamento, bebendo em xícaras de papelão da Dunkin’Donuts, de onde não saía vapor. Sua unidade dava de frente para o canal, por isso Evandro parou o carro na vaga vizinha, apontando para a direção oposta, e abaixou o vidro de seu carro.

Romsey abaixou o dela depois de lançar um olhar que dava a entender que pensara em deixá-lo fechado.

“Qual é a bebidinha da noitinha de hoje?”, perguntou Torres. “Uísque ou vodca?”

“Vodca”, disse Romsey. “Você trouxe sua xícara?”

“Estou com cara de quem caiu das nuvens?”, disse Torres passando-lhe uma xícara de café de cerâmica em que se lia O MELHOR PAI DO MUNDO. Romsey ergueu uma sobrancelha ao ler aquelas palavras, mas pôs vodca na xícara e devolveu-a.

Todos tomaram um gole, e Eddie Dexter olhava atentamente através do para-brisa como se estivesse tentando enxergar o sol num céu tão cinzento que poderia ser o muro de uma prisão.

Romsey disse: “E aí, o que está havendo, Evandro?”.

“Você ainda se lembra de Marvin Stipler?”

Romsey negou com um gesto de cabeça.

“Cousin Marv?”, disse Torres. “Ele foi excluído do próprio bando – quando teria sido isso? – há nove, dez anos, pelos chechenos.”

Romsey agora assentia com a cabeça. “Certo, certo, certo. Eles vieram e lhe disseram que ele não era muito eficiente. Marv passou a década seguinte provando que eles tinham razão.”

Torres disse: “É esse cara mesmo. O bar dele foi assaltado na noite passada. O bar pertence a uma das empresas de fachada de Papa Umarov”.

Romsey e Eddie Dexter trocaram olhares surpresos, e então ela disse: “Algum retardado assaltou aquele bar?”.

“Isso mesmo. A Divisão de Crimes Graves está na cola dos Umarovs?”

Romsey se serviu de mais bebida e negou com um gesto de cabeça. “Nós mal conseguimos sobreviver aos últimos cortes de verbas, não estamos nos empenhando em ir atrás de um russo que John Quincy mal sabe que existe.”

“Checheno.”

“O quê?”

“Eles são chechenos, não russos.”

“Não enche.”

Torres apontou para sua aliança.

Romsey fez uma careta. “Oh, como se isso algum dia tivesse tido importância.”

“Quer dizer então que Cousin Marv não é um cão em quem alguém esteja interessado?”

Romsey negou com a cabeça. “Se você o quer, Evandro, ele é todo seu.”

“Obrigado. Foi bom revê-la, Lisa. Você está com um ótimo aspecto.”

Ela piscou os cílios para ele, mostrou-lhe o dedo médio e fechou o vidro da janela.

 

A CIDADE ACORDOU na manhã seguinte e se deparou com cerca de dez centímetros de neve. O inverno começara havia apenas um mês, e eles já tinham tido três grandes nevascas e várias pequenas nevadas. Se a coisa continuasse nesse ritmo, em fevereiro não haveria lugar para tanta neve.

Bob e Cousin Marv levaram cada um uma pá para a frente do bar, embora Marv na maior parte do tempo apenas se apoiasse na sua, com a desculpa de uma velha contusão no joelho de que só ele se lembrava.

Bob contou-lhe seu dia com o cachorro, o custo de tudo o que comprara para ele e que o cachorro fizera a sala de estar de privada.

Marv disse: “Você tirou a mancha do tapete?”.

“Quase”, disse Bob. “Mas é um tapete escuro.”

Marv olhou para ele por cima do cabo da pá. “É um tapete escuro... É o tapete de sua mãe. Uma vez eu pisei naquilo com meu sapato – ele nem estava sujo – e você tentou cortar meu pé fora.”

Bob disse: “Olha o melodramático”, o que surpreendeu a ele próprio e a Marv. Bob não era dado a tratar mal as pessoas, principalmente no que se referia a Marv. Mas, Bob tinha de admitir, aquilo fez com que ele se sentisse bem.

Marv se recompôs o bastante para agarrar a virilha e fazer um ruidoso som de beijo; em seguida, empurrou a pá na neve por um minuto, sem fazer grande coisa, apenas levantando-a do asfalto o suficiente para que a brisa a atingisse, piorando ainda mais as coisas.

Dois Cadillacs Escalade e uma van branca pararam junto ao meio-fio. O resto da rua estava vazio àquela hora do dia, e Bob nem precisou olhar para saber quem estava ali, a manhã nevoenta já avançada, nos dois utilitários recém-lavados e encerados.

Chovka Umarov.

“As cidades”, disse certa vez seu pai a Bob, “não são governadas do edifício do Capitólio. Elas são governadas do porão. Sabe qual a Primeira Cidade? Aquela que você vê? São as roupas que eles põem por cima do corpo para lhe dar uma aparência melhor. Mas a Segunda Cidade é o corpo. É onde eles fazem as apostas, vendem mulheres, drogas e coisas, tipo TVs, sofás, que os trabalhadores podem comprar. O trabalhador só ouve falar da Primeira Cidade quando ela está fodendo com ele. Mas a segunda cidade está à sua volta em todos os dias de sua vida.”

Chovka Umarov era o príncipe da Segunda Cidade.

O pai de Chovka, Papa Pytor Umarov, dava as cartas naquela época, partilhando o poder com as velhas facções italianas e irlandesas, subcontratando os serviços dos negros e dos porto-riquenhos, mas era dado como certo nas ruas que se Papa Pytor resolvesse engrossar e forçar ou pisotear algum ou todos os seus associados, não se podia fazer porra nenhuma para evitar isso.

Anwar saiu do banco do motorista do utilitário da dianteira, olhos frios como gim enquanto amaldiçoava o tempo, como se Bob e Marv fossem a causa daquele inconveniente.

Chovka saiu do banco traseiro do mesmo Escalade, calçando as luvas e examinando o chão para ver se tinha gelo. O cabelo e a barba bem-arrumados tinham a mesma cor negra das luvas. Ele não era nem alto nem baixo, mas mesmo de costas irradiava uma energia que dava uma comichão na base do crânio de Bob. “Quanto mais perto se chega de César”, costumava dizer um dos professores de história do curso colegial de Bob, “mais medo se sente.”

Chovka parou na calçada ao lado de Bob e Marv, postando-se numa área que Bob já tinha limpado com a pá.

Chovka disse para a rua: “Quem precisa de um limpa-neve, quando se tem Bob?”. Em seguida falou a Bob: “Quem sabe você vem à minha casa mais tarde”.

Bob disse: “Ah, claro”, porque não conseguiu pensar em outra coisa para dizer.

A van branca balançava lentamente de um lado para o outro. Bob não tinha dúvidas quanto a isso. O lado mais próximo do meio-fio afundava, e fosse qual fosse o peso que causava o afundamento, terminava por estabilizar-se no meio da van, e esta junto com ele.

Chovka deu um tapinha no ombro de Bob. “Estou brincando. Esse cara...” Ele sorriu para Anwar, depois para Bob, mas, quando olhou para Marv, seus olhinhos pretos ficaram ainda menores e mais pretos. “Você está recebendo auxílio do governo?”

Um ruído surdo veio da van. Podia ser qualquer coisa. A van tornou a se sacudir.

“Como?”, perguntou Marv.

“Como?”, perguntou Chovka, inclinando-se para trás para olhar para Marv.

“Quis dizer, lamento...”

“Lamenta o quê?”

“Não entendi sua pergunta.”

“Perguntei se você está recebendo auxílio do governo.”

“Não, não.”

“Eu não lhe perguntei?”

“Não, não estou recebendo auxílio do governo.”

Chovka apontou para a calçada e depois para as pás deles. “Bob faz todo o trabalho, e você fica olhando.”

“Não”, disse Marv, depois pegou um pouco de neve com a pá e a jogou na pilha. “Estou removendo a neve.”

“Certo, você está removendo a neve.” Chovka acendeu um cigarro. “Venha cá.”

Marv pôs a mão no peito com um olhar interrogativo.

“Vocês dois”, disse Chovka.

Ele os conduziu pela calçada, o gelo derretido e o sal usado para derreter o gelo rangendo sob seus pés como cacos de vidro. Eles desceram do meio-fio atrás da van, e Bob viu o que poderia ser fluido de transmissão vazando de sob a van. Exceto que a consistência e a cor não tinham nada a ver.

Chovka abriu as duas portas da van imediatamente.

Dois chechenos corpulentos feito geladeiras dotadas de pés humanos, de ambos os lados de um sujeito suado e magro. O magro estava vestido como um operário da construção civil – camisa xadrez por cima de calça térmica acastanhada. Eles o tinham amordaçado com uma tira de algodão e enfiado um pino de metal de umas seis polegadas em seu pé direito, descalço, a bota caída ao seu lado, a meia apontando da bota. A cabeça do cara tombou, mas um dos chechenos puxou-lhe os cabelos e encostou um frasquinho cor de âmbar sob seu nariz. O cara inspirou um bocado, seus olhos se abriram, e ele ficou totalmente desperto enquanto o outro checheno usava uma chave de mandril para apertar melhor a broca numa furadeira.

“Você conhece esse cara?”, perguntou Chovka.

Bob negou com um gesto de cabeça.

“Não”, respondeu Marv.

Chovka disse: “Mas eu conheço esse cara. Eu o conheço. Tentei explicar-lhe, quando me procurou para fazer um negócio, que ele devia ter um princípio moral. Hein, Bob? Você entende?”.

“Um princípio moral”, disse Bob. “Claro, sr. Umarov.”

“Um homem que tem um princípio moral sabe o que sabe e sabe o que tem de ser feito. Sabe como manter seus negócios em ordem. Um homem sem um princípio moral, porém, não sabe o que não sabe, e a gente nunca pode explicar para ele. Porque se ele soubesse a coisa que ele não sabe, então teria um princípio moral.” Ele olhou para Marv. “Está entendendo?”

“Estou”, disse Marv. “Muitíssimo bem.”

Chovka fez uma careta e fumou um pouco.

Na van, o operário da construção choramingou, e o checheno à sua esquerda bateu na parte de trás de sua cabeça até ele parar.

“Alguém roubou meu bar?”, perguntou Chovka a Bob.

“Sim, sr. Umarov.”

Chovka disse: “Chame meu pai de ‘sr. Umarov’, Bob. A mim você pode chamar de Chovka, tá?”

“Chovka. Sim senhor.”

“Quem roubou nosso bar?”

“Não sabemos”, disse Cousin Marv. “Eles estavam com máscaras.”

Chovka disse: “O relatório da polícia diz que um usava um relógio de pulso quebrado. Vocês disseram isso à polícia?”.

Marv olhou para sua pá.

Bob disse: “Respondi sem pensar. Sinto muito”.

Chovka tornou a olhar para o operário da construção por um instante, fumou, e ninguém disse nada.

Então Chovka perguntou a Marv: “O que vocês fizeram para recuperar o dinheiro de meu pai?”.

“Nós espalhamos a notícia pelo bairro.”

Chovka olhou para Anwar. “A notícia está por aí. Nosso dinheiro também.”

O cara da van se cagou. Todos ouviram, mas agiram como se não tivessem ouvido.

Chovka fechou as portas da van. Ele bateu na porta com o punho duas vezes, a van afastou-se do meio-fio e partiu.

Ele se voltou para Bob e Marv. “Achem a porra de nosso dinheiro.”

Chovka voltou para o Escalade. Anwar parou na porta, olhou para Bob e apontou para um montinho de neve que Bob não tinha removido. Ele entrou no utilitário depois do chefe, e os dois Escalades se foram.

Cousin Marv os saudou quando eles chegaram ao semáforo e dobraram à direita. “Uma Porra de um feliz Ano Novo para vocês também, cavalheiros.”

Bob ficou removendo neve por um instante sem dizer nada. Marv apoiou-se em sua pá e olhou para a rua.

“Sabe o cara da van?”, disse Marv. “Não quero nunca falar sobre ele nem ouvir falar dele. Estamos de acordo quanto a isso?”

Bob também não queria falar sobre ele. Ele fez que sim.

Passado um tempinho, Marv disse: “Como ele acha que a gente deve encontrar o dinheiro deles? Se soubéssemos onde está o dinheiro deles, isso queria dizer que sabíamos quem nos roubou, o que poderia significar que estávamos na tramoia e que eles meteriam um balaço na porra de nossas caras. Então, como poderíamos achar o dinheiro deles?”.

Bob continuou removendo a neve porque não havia resposta para aquele tipo de pergunta.

Marv acendeu um Camel. “Desgraçados de chechenianos, cara.”

Bob parou de manejar a pá. “Chechenos.”

“O quê?”

“Eles são chechenos, não ‘chechenianos’”, disse Bob.

Marv não acreditou no que ouviu. “Mas eles são da Chechênia.”

Bob deu de ombros. “Sim, mas a gente não chama o povo da Irlanda de ‘irlandianos’.”

Eles se apoiaram em suas pás e ficaram olhando para a rua por alguns instantes até que Marv sugeriu que voltassem para dentro. Estava frio, disse ele, e seu joelho o estava matando.