A Entrega

Dennis Lehane · Capítulo 14 de 16

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A Entrega

14. Outros eus

 

FINAL DE CAMPEONATO, DOMINGO.

Mais apostas em dinheiro do que seriam feitas no resto do ano na liga de basquete, na Copa Stanley, no Derby de Kentucky, no campeonato de beisebol e no campeonato mundial ao mesmo tempo. Se as cédulas de papel ainda não tivessem sido inventadas, teriam de ser criadas só para suportar o volume das apostas daquele dia. Senhorinhas que não sabiam distinguir uma bola de pele de porco de pés de porco de verdade tinham seu palpite sobre os Seahawkes; guatemaltecos ilegais que carregavam os baldes da faxina achavam que Manning era a coisa mais próxima da segunda volta de Nosso Senhor e Salvador. Todos apostavam, todo mundo assistia.

Enquanto esperava que Eric Deeds aparecesse em sua casa, Bob se permitia uma segunda xícara de café, porque sabia que o dia mais longo daquele ano estava em curso. Rocco estava deitado no chão aos seus pés, mascando um brinquedo de corda. Bob tinha posto os dez mil dólares no meio da mesa e arrumara as cadeiras devidamente. Por via das dúvidas, colocou sua cadeira junto da gaveta do balcão de seu pai, onde estava a 32 que fora dele. Por via das dúvidas, abriu a gaveta e olhou para dentro dela. Abriu e fechou a gaveta pela vigésima vez, certificando-se que ela estava deslizando direito. Só por via das dúvidas. Sentou-se e tentou ler The Globe, depois The Herald. Pôs as mãos em cima da mesa.

Eric não apareceu.

Bob não sabia o que fazer diante daquilo, mas a coisa pesou em seu estômago, instalou-se ali feito um caranguejo, cavando um caminho de um lado para outro, instigado pelo medo.

Bob esperou um pouco mais, depois mais um pouco, mas finalmente ficou muito tarde para continuar esperando.

Ele deixou a arma no lugar onde estava. Pôs o dinheiro numa sacola de compras de plástico, colocou-a no bolso do casaco e pegou a trela.

No carro, colocara a casinha do cachorro, dobrada, no banco traseiro, junto com um lençol, alguns brinquedos para morder, uma tigela e comida de cachorro. Pôs uma toalha no banco do passageiro da frente, acomodou Rocco nela, e partiram para viver seu dia.

 

DIANTE DA CASA DE COUSIN MARV, Bob certificou-se de que o carro estava trancado e o alarme ligado, depois deixou Rocco dormitando lá dentro e bateu à porta do primo.

Dottie estava encolhida em seu casaco quando abriu a porta para ele entrar. Bob ficou no vestíbulo com ela, batendo o sal da sola de suas botas.

“Para onde você está indo?”, ele perguntou a Dottie.

“Trabalhar. Um período e meio nos fins de semana, Bobby.”

“Pensei que você tinha se aposentado precocemente.”

Dottie disse: “Para quê? Vou trabalhar mais um ano ou dois, esperar que a flebite não piore muito e ver como ficam as coisas. Faça com que o meu irmãozinho coma alguma coisa. Deixei um prato na geladeira”.

Bob disse: “Certo”.

Dottie respondeu: “Ele só precisa esquentá-lo por um minuto e meio no micro-ondas. Tenha um bom dia”.

“Você também, Dottie.”

Dottie voltou-se para dentro de casa e gritou na maior altura: “Estou indo trabalhar!”.

Cousin Marv disse: “Bom dia, Dot”.

Dottie gritou: “Você também. Coma alguma coisa!”.

Dottie e Bob beijaram-se no rosto, e então ela se foi.

Bob seguiu pelo corredor para a sala de Cousin Marv, encontrou-o sentado numa poltrona reclinável assistindo à TV. Estava passando um programa em que Dan Marino e Bill Cowher escreviam Xs e Os num quadro, vestidos com seus ternos de quatro mil dólares.

Bob disse: “Dottie disse que você precisa comer”.

Cousin Marvin respondeu: “Dottie diz um monte de coisas. E na maior altura”.

Bob disse: “Ela precisa fazer isso para que você ouça”.

Cousin Marvin disse: “E isso significa exatamente o quê? É porque eu sou devagar”.

Bob disse: “Hoje é o maior dia do ano, e eu não consigo falar com você pelo telefone”.

Cousin Marv disse: “Eu não vou. Arrume empregados temporários”.

“Arrumar empregados temporários. Já fiz isso. É o dia da final do campeonato de futebol americano.”

Cousin Marv disse: “Então por que você precisa de mim?”.

Bob sentou na outra poltrona reclinável. Quando criança, ele gostava daquela sala, mas à medida que os anos foram passando e ela continuava exatamente a mesma, exceto por uma TV nova a cada cinco anos, aquilo lhe doía muito. Como a página de um calendário que ninguém se dava mais ao trabalho de virar.

Bob disse: “Eu não preciso de você. Mas você está matando o trabalho no maior dia do ano?”.

“Oh, agora eu trabalho a troco de gorjetas.” Cousin Marv olhou para a tela, vestido numa ridícula camisa vermelha, branca e azul dos Patriots, com calças combinando. “Você já viu o nome do bar? É o meu. Sabe por quê? Porque já foi meu.”

Bob disse: “Você acalenta essa perda como se fosse o seu pulmão saudável”.

Cousin Marv voltou a cabeça depressa e lhe lançou um olhar duro: “Você tem estado atrevido feito o diabo depois que arrumou esse cachorro que confunde com uma criança”.

Bob disse: “Não posso remediar isso. Eles pressionaram, você vacilou. Acabou. A coisa acabou”.

Cousin Marv estendeu a mão para a alavanca do lado da cadeira. “Não fui eu quem passou a vida inteira esperando que isso começasse.”

Bob disse: “Foi isso que eu fiz?”.

Cousin Marv puxou a alavanca, deixou que os pés descessem até o chão. “Sim. Por isso, foda-se você e a porra dos seus sonhozinhos babacas. Houve um tempo em que eu tinha medo. Sabe aquela porra daquele banco onde você deixou aquela velha tagarela se sentar? Aquele era meu banco no bar. E ninguém se sentava nele porque era o banco do Cousin Marv. Isso tinha lá sua importância.”

“Não, Marv”, disse Bob. “Era só um assento.”

Os olhos de Cousin Marv voltaram-se para a TV. Agora Boomer e JB estavam lá, rindo desbragadamente.

Bob inclinou-se para a frente, falou de forma bem suave, mas bastante clara. “Você está agindo de forma desesperada novamente? Marv, ouça o que lhe digo. Você está fazendo alguma coisa em que poderemos dar um jeito desta vez?”

Cousin Marv recostou-se em sua poltrona até o descanso ficar novamente sob suas pernas. Ele não queria olhar para Bob. Acendeu um cigarro. “Suma daqui, porra. Estou falando sério.”

 

NO FUNDO DO BAR, Bob colocou a casinha de Rocco, ajeitou a manta nele, jogou os brinquedos para morder, mas deixou Rocco rondando ali perto por algum tempo. O pior que podia acontecer era o cãozinho fazer cocô em algum lugar, e eles tinham material de limpeza e uma mangueira para resolver o problema.

Ele foi para o fundo do bar, tirou a sacola com os dez mil dólares do casaco e colocou-a na prateleira ao lado da mesma 9 milímetros semiautomática que Cousin Marv tivera a sabedoria de não usar na ocasião do assalto. Recolocou o dinheiro e a arma na prateleira, escondendo-os com um jogo de descansos de copo envolvidos em plástico. E pôs mais um jogo na frente do primeiro.

Ficou olhando Rocco correndo por ali, farejando todos os lugares – por um bom tempo –, e sem Marv lá, como deveria estar, ainda mais naquele dia especial, Bob via cada polegada do mundo como areia movediça. Não havia nenhum ponto de apoio seguro. Não havia lugar onde ele pudesse firmar os pés.

Como a coisa tinha chegado àquele ponto?

Você deixou o mundo entrar, Bobby, disse uma voz que parecia tremendamente com a de sua mãe. Você deixou o mundo gotejante de pecados entrar. E a única coisa que ele encerra é escuridão.

Mas, Mãe?

Sim, Bobby.

Era tempo. Eu não podia simplesmente viver para o outro mundo. Agora eu preciso viver neste.

Assim falam os caídos. Assim eles têm falado desde o começo dos tempos.

 

ELES TROUXERAM UM TIM BRENNAN magro para a sala de visitas da Concord Prison e o sentaram diante de Torres.

Torres disse: “Sr. Brennan, obrigado por me receber”.

Tim Brennan disse: “O jogo já vai começar. Não quero perder meu lugar”.

“Nada de preocupações. Vou ficar aqui só um instantinho”, respondeu Torres. “O que você pode me contar sobre Richie Whelan? Alguma coisa?”

Brennan teve um súbito e violento acesso de tosse. Era como se ele estivesse se afogando em catarro e navalhas. Quando finalmente conseguiu se controlar, passou mais um minuto apertando o peito e ofegando. Quando tornou a olhar para Torres por cima da mesa, fez isso com os olhos de um homem que já vislumbrara o outro lado.

Tim Brennan disse: “Eu disse aos meus filhos que tinha um vírus no estômago. Eu e minha mulher não sabemos como lhes contar. Eu tenho aids. Assim a gente continua com essa história até eles estarem preparados para a verdade. O que você quer?”.

“Como?”, perguntou Torres.

“Você quer que eu fale sobre a noite em que Richie Whelan morreu ou quer a verdade?”

O couro cabeludo de Torres coçou como sempre fazia quando um caso estava para ser resolvido, mas ele manteve o rosto inexpressivo, o olhar cordial e receptivo. “O que você quiser dizer hoje, Tim.”

 

ERIC DEEDS INVADIU a casa de Nadia com um cartão de crédito e aquele tipo de chave de fenda minúscula que se usa em hastes de óculos. Foram necessárias catorze tentativas, mas não havia ninguém na rua, por isso ninguém o viu na varanda. Todos já tinham feito suas compras – cerveja e batatas fritas, patê de alcachofra e de cebola, salsa, asas de frango e costelas, pipoca – e agora estavam recolhidos esperando o início da partida, para o qual ainda faltavam três horas, mas ora... quem dá bola para o tempo quando se começou a beber ao meio-dia?

Uma vez dentro da casa, ele parou e ficou à escuta enquanto punha no bolso a chave de fenda e o cartão de crédito, que ficara bem danificado no processo. Mas foda-se. De qualquer forma, ele fora cancelado já havia alguns meses.

Eric avançou pelo corredor, abriu as portas da sala de estar, da de jantar, do banheiro e da cozinha.

Então subiu ao quarto de Nadia.

Foi direto ao closet. Examinou as roupas dela. Farejou um pouco. As roupas tinham o mesmo cheiro dela – uma leve mistura de laranja, morango e chocolate. Esse era o cheiro de Nadia.

Eric sentou-se na cama.

Diante do espelho, ajeitou os cabelos com os dedos.

Eric puxou os cobertores da cama dela. Tirou os sapatos. Encolheu-se em posição fetal, sorriu. Sentiu o sorriso penetrar-lhe o sangue, espalhar-se por todo seu corpo. Sentiu-se seguro. Como se tivesse voltado para o útero. Como se pudesse viver num meio líquido novamente.

 

DEPOIS QUE O BABACA DO SEU PRIMO FOI EMBORA, Marv foi trabalhar na mesa da cozinha. Colocou vários sacos plásticos de lixo verdes na mesa e, com todo o cuidado, colou-os uns aos outros com fita isolante. Pegou uma cerveja na geladeira e bebeu, olhando para os sacos na mesa. Como se alguma fita estivesse se dobrando.

Mas não havia nada disso. Nunca havia acontecido.

Um tanto aborrecido porque percebera, lá em sua cozinha nojenta, o quanto iria sentir falta daquilo. De sua irmã, daquela casa e até do bar e de seu primo Bob.

Mas não era possível dar um jeito naquilo. Afinal de contas, a vida era sofrimento. E alguns sofrimentos – aqueles aos quais você se entregava numa praia na Tailândia, por exemplo, além daqueles que você padecia num cemitério da Nova Inglaterra – eram mais fáceis de engolir que outros.

Para a Tailândia. Ele levantou a cerveja brindando a cozinha vazia e a bebeu.

ERIC SENTOU-SE NO SOFÁ na sala de estar de Nadia. Tomou uma Coca que tinha pegado na geladeira dela – bem, na geladeira deles, ela logo haveria de ser deles – e olhou para o papel de parede desbotado que já devia estar ali desde que ela nasceu. Aquela era a primeira coisa que teria de ir embora, aquele velho papel de parede da década de 1970. Aquela década já estava longe, e mesmo o século XX. Agora era uma nova época.

Quando ele terminou a Coca, levou a lata para a cozinha e fez um sanduíche com alguns petiscos que encontrou na geladeira.

Ouviu um barulho, olhou para o vão da porta e lá estava ela. Nadia. Olhando para ele. Curiosa, claro, mas não assustada. Olhando-o bondosamente. Com uma expressão calorosa.

Eric disse: “Oh, ei. Como vai você? Fique aqui um pouco. Venha, sente-se”.

Ela permaneceu onde estava.

Eric disse: “Isso mesmo, sente-se. Sente-se. Quero lhe dizer algumas coisas. Tenho alguns planos. Sim. Planos. Certo? Toda uma nova vida esperando lá fora, para aqueles, para aqueles, para aqueles que têm audácia.”

Eric balançou a cabeça. Ele não estava gostando daquela sua maneira de se expressar. Abaixou a cabeça, olhou para o vão da porta novamente. Estava vazio. Ficou olhando para a porta até ela aparecer, e ela não estava mais de jeans e roupa de trabalho xadrez. Estava com um vestido preto com bolinhas minúsculas, e sua pele... sua pele brilhava.

“Oh, ei”, disse Eric alegremente. “O que está havendo, garota? Venha, pegue uma cadei...”

Ele parou ao som de uma chave girando na fechadura da porta da frente. A porta se abriu, se fechou. Ele ouviu uma bolsa sendo pendurada num gancho. Chaves caíram numa mesa. Barulho de botas sendo jogadas no chão.

Ele se acomodou numa cadeira para dar a impressão de se sentir à vontade, despreocupado. Sacudiu delicadamente as migalhas de pão das mãos e tocou os cabelos para se certificar de que estavam no lugar.

Nadia entrou. A verdadeira Nadia. Blusão com capuz e calça estilo militar. Erick teria preferido um aspecto um pouco menos andrógino, mas não disse isso a ela.

Ela o viu e abriu a boca.

“Não grite”, disse ele.

 

AS COISAS COMEÇARAM A ESQUENTAR de verdade quatro horas antes do jogo. O que era um bom momento, porque foi quando a equipe de trabalho temporário apareceu. Eles já estavam entrando em ação, colocando os aventais, arrumando os copos quando Bob encontrou-se com o supervisor deles, um homem ruivo com uma daquelas caras de lua que não envelhecem nunca. Ele disse a Bob: “Eles estão contratados até a meia-noite. O que passar disso vai ser cobrado à parte. Eu trouxe dois auxiliares de serviços gerais. Eles fazem todo o serviço de recolha de lixo, fornecimento de gelo. Se você pedir a um dos bartenders que faça isso, ele vai começar a recitar as leis sindicais como o Livro de Ezequiel”.

Ele passou a prancheta a Bob, que a assinou.

Quando ele voltou para dentro do bar, o primeiro homem do dinheiro estava entrando pela porta. Ele jogou um jornal no balcão, um envelope de papel manilha apontando dentre as dobras; Bob empurrou-o para fora do balcão e largou-o em qualquer lugar atrás deste. Quando ele se voltou, o homem tinha ido embora. Era o tipo de noite em que o negócio era só trabalho, nada de firulas.

 

COUSIN MARV SAIU de sua casa, foi até o carro, abriu o porta-malas, pegou os sacos de lixo colados e os colocou de viés dentro do porta-malas vazio. Ele usou mais fita isolante para lacrar as bordas.

Voltou para casa, pegou a colcha no vestíbulo, onde ele colocava as roupas e calçados úmidos, e estendeu-a sobre o plástico. Examinou o trabalho que fizera por uns poucos segundos. Então fechou o porta-malas, colocou a valise atrás do banco do motorista e fechou a porta.

E voltou para casa para imprimir as passagens de avião.

 

DAQUELA VEZ, QUANDO TORRES parou ao lado do carro (sem o distintivo da polícia) de Lisa Romsey no Pen’ Park, ela estava sozinha. Aquilo o fez se perguntar se eles podiam fazer como antigamente no banco de trás, fingir estar num drive-in que havia ali, fingir ser crianças bobas e que toda uma vida – para os dois – os esperava, ainda intocada pelas marcas de varicela de decisões equivocadas e pelas escoriações das falhas costumeiras, grandes e pequenas.

Ele e Romsey tornaram a incorrer em um erro na semana anterior. Naturalmente, uma das causas foi o álcool. Depois ela disse: “É só isso que sou?”.

“Para mim? Não, chica, você é...”

“Para mim”, disse ela. “É só isso o que eu sou para mim?”

Ele não sabia que diabos ela queria dizer com aquilo, mas sabia que não era nada bom, então ficou na dele até que ela o chamou naquela manhã e lhe disse que se mandasse para o Pen’ Park.

A caminho, ele ensaiara uma fala, para o caso de ela lhe lançar aquele olhar que lhe lançara depois de transarem, aquele olhar desesperado de quem está se odiando, como se estivesse olhando a toca do coelho de Alice no meio de si mesma.

“Baby”, ele lhe diria, “somos como cópias um do outro. É por isso que não conseguimos nos deixar. Nós olhamos um para o outro e não julgamos. Não condenamos. Simplesmente aceitamos.”

Aquilo lhe soara melhor quando ele bolou na outra noite no bar, sentado sozinho, rabiscando. Mas ele sabia que, se estivesse olhando nos olhos dela, bebendo neles, iria acreditar naquilo naquele momento, acreditar em cada palavra. E iria convencê-la.

Quando ele abriu a porta e deslizou para o lado do passageiro, notou que ela estava muito bem vestida – um vestido de seda verde-escuro, sapatilhas pretas, casaco preto que parecia ser de caxemira.

Torres disse: “Você está uma gostosura. Caramba”.

Romsey revirou os olhos, estendeu a mão entre os bancos, pegou uma pasta e jogou-a no colo dele. “A vida psíquica de Eric Deeds. Você tem três minutos para ler, e é melhor que seus dedos não estejam engordurados.”

Torres levantou as mãos, sacudiu os dedos. Romsey pegou um estojo em sua bolsa e começou a aplicar blush no rosto, olhando-se no retrovisor.

“É melhor começar a ler”, disse ela.

Torres abriu a pasta e viu o nome estampado no alto – DEEDS, ERIC – e se pôs a ler rapidamente.

Romsey pegou um batom e começou a usar.

Torres, olhos na pasta, disse a ela: “Não faça isso, chica, você tem lábios mais vermelhos que um pôr do sol jamaicano e mais carnudos que uma serpente da Birmânia. Não foda com o que é impecável”.

Ela olhou para ele. Parecia tocada. Mas ainda assim aplicou o batom. Torres suspirou.

Ele disse: “É como usar tinta para casa numa Ferrari. Afinal de contas, com quem você vai sair?”.

“Com um cara.”

Ele virou uma página. “Um cara. Que cara?”

“Um cara especial”, disse ela, e alguma coisa em seu tom de voz fez com que ele levantasse a vista. Pela primeira vez ele notou que, além de parecer fogosa, ela parecia saudável. Como se estivesse acesa por dentro. Era uma luz que banhava o carro tão completamente que ele não conseguiu entender como não percebera antes.

“Onde você conheceu esse cara especial?”

Ela apontou para a pasta: “Continue lendo. O relógio não para”.

Ele continuou a leitura.

“Estou falando sério”, disse ele. “Esse cara especial. Ele...”

A voz dele fraquejou. Ele tornou a examinar a página com a lista das prisões e internamentos em instituições diversas. Teve a impressão de ter lido uma data errada, virou uma página, depois outra.

Comentou: “Bem, vou me foder”.

“Como se você já não estivesse fodido.” Ela apontou para a página. “Isso aí ajuda alguma coisa?”

“Não sei”, ele respondeu. “Com certeza este troço esclareceu uma puta duma questão.”

“O que é bom, não é?”

Ele deu de ombros. “Respondeu a uma questão, sim, mas abriu um porrilhão de outras.” Torres fechou a pasta, seu sangue frio como o Atlântico. “Preciso tomar um drinque. Pego um pra você também?”

Romsey lhe lançou um olhar de incredulidade. Ela fez um gesto indicando suas roupas, seus cabelos, sua maquiagem. “Tenho outros planos, Evandro.”

“Fica para outra, então”, disse Torres.

E a detetive Lisa Romsey balançou a cabeça para ele devagar, com uma expressão triste. “Sabe esse cara especial? Eu o conheço por quase toda a minha vida. Faz um bom tempo. Ele ficou longe durante anos, mas a gente mantinha contato. O casamento dele também não deu certo, então ele voltou. Um dia, algumas semanas atrás, sabe? Eu estava tomando café com ele e percebi que quando ele olha para mim, ele me vê.”

“Eu vejo você.”

Ela balançou a cabeça. “Você só vê a parte de mim que se parece com você. E que não é a melhor parte, Evandro. Desculpe. Mas meu amigo... meu amigo, sabe? Ele me olha e vê o que tenho de melhor.” Ela estalou os lábios. “E sabe o que isso significa?” Ela deu de ombros. “Amor.”

Ele ficou observando-a por um instante. Lá estava então, sem aviso prévio, o fim deles. Fosse lá o que fosse “eles”. Já era. Ele lhe passou a pasta.

Ele saiu do carro dela, que foi embora antes mesmo de ele chegar ao próprio carro.