A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 4 de 13 · parte 3/5

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A Montanha Mágica

Trata-se. de saber se ele poderá partir na terça-feira.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

– Deus meu!

Pois, por trás da fronte havia pensamentos ou semi-pensamentos, aos quais as ditas imagens e visões deviam, na realidade, sua excessiva doçura, e que se referiam à negligência e à desconsideração de Mme. Chauchat, à sua situação de enferma, ao relevo e à acentuação que seu corpo recebia em virtude da doença, à corporificação de todo o seu ser, igualmente produzida pela enfermidade. E Hans Castorp, por decisão do médico, ia daí em diante participar desse efeito corporificador. Compreendia, por trás de sua fronte, a liberdade aventurosa com que Mme.

Chauchat, ao voltar-se e sorrir para ele, ignorava o fato de eles não terem sido apresentados um ao outro, segundo as conveniências sociais, como se ambos não fossem seres sociais e não sentissem necessidade de se falar... Era precisamente isso que o assustava, que o apavorava da mesma forma como naquele instante quando, no gabinete de consultas, tirara os olhos do torso de Joachim e buscara os do primo; mas então foram a compaixão e a solicitude que lhe haviam causado esse susto, ao passo que agora experimentava emoções muito diferentes.

Assim, a vida do Berghof, tão confortável e tão bem regulamentada, recobrara o seu curso monótono, em seus estreitos limites. Hans Castorp, à espera da radiografia, continuava compartilhando-a com o bom Joachim e fazendo, hora por hora, as mesmas coisas que o primo, cuja vizinhança poderia ser considerada favorável ao nosso herói. Pois, embora se tratasse apenas de uma afinidade de enfermos, havia nela uma boa parte de honradez militar; uma honradez, na verdade, que despercebidamente já estava a ponto de achar satisfação no serviço representado pelo tratamento, de modo que esse serviço se tornava, por assim dizer, um sucedâneo do cumprimento do dever lá de baixo, e uma profissão substituta. Hans Castorp não era tão estúpido que não notasse claramente essa evolução. Mas sentia muito bem o efeito refreador que ela exercia sobre sua mentalidade de civil. Talvez fosse até essa vizinhança – o exemplo que dava e o controle que exercia – o que o livrava de passos imprudentes e de empresas precipitadas. Não lhe escapava o quanto o correto Joachim sofria por causa de determinado perfume de flor de laranjeira que o envolvia diariamente, e cuja atmosfera abrangia um par de olhos castanhos, redondinhos, um pequeno rubi, muita alegria risonha, pouco justificada, e uns seios

exteriormente bem-formados. E a preocupação da honra e da razão, que fazia com que Joachim temesse e evitasse a influência dessa atmosfera, comovia Hans Castorp, impunha-lhe certa disciplina e certa ordem, e impedia-o, por assim dizer, de pedir à mulher de olhos estreitos que

“lhe emprestasse um lápis”. Sem o corretivo dessa vizinhança – assim o indica a experiência –

talvez se houvesse disposto a fazer o contrário.

Joachim nunca falava da risonha Marusja, e esse fato proibia a Hans Castorp falar de Clávdia Chauchat na presença dele. Achava compensação à mesa, trocando secretamente opiniões com a professora sentada à sua direita; esforçava-se por corar as faces da solteirona, mediante algumas piadas a respeito do seu fraco pela graciosa enferma, e ao fazê-lo imitava aquela atitude com que o velho Castorp apoiava dignamente o queixo no nó da gravata. Insistia também com ela para que o inteirasse de novos e interessantes pormenores relativos à situação particular de Mme. Chauchat, à sua origem, ao seu marido, à sua idade e ao caráter da sua doença.

Queria saber se ela tinha filhos. Não, senhor, não tinha. Que faria com filhos uma mulher como essa? Provavelmente estava proibida de tê-los, e por outro lado, que espécie de filhos teria? Hans Castorp teve que lhe dar razão. Opinou com uma objetividade forçada que agora já era um pouco tarde. Às vezes, o perfil de Mme. Chauchat lhe parecia um pouco rígido. Já teria ela passado dos trinta anos? A Srta. Engelhart protestou violentamente. Clávdia, trinta anos?

Quando muito, vinte e oito. E no que se referia a seu perfil, como podia o vizinho dizer uma coisa dessas? O perfil de Clávdia era de uma delicadeza e de uma suavidade puramente juvenis, se bem que fosse um perfil interessante e não o de qualquer pequena sadia. E para castigá-lo, a Srta. Engelhart acrescentou sem transição que Mme. Chauchat recebia freqüentemente visitas de senhores, em particular de um patrício dela que morava em Davos-Platz e entrava à tarde no quarto dela.

Essas palavras acertaram no alvo. O rosto de Hans Castorp crispou-se apesar de todo o seu esforço, e também era forçada a maneira como proferiu as frases “Imaginem” e “Vejam só”, para passar por cima da novidade. Incapaz de dar pouca importância à existência desse compatriota, como fingira no começo, voltou a falar dele sem cessar, de lábios trêmulos. Era um homem moço?

– Moço e bem-apessoado, segundo ouvi dizer – respondeu a professora. – Não tive ocasião de julgar com meus próprios olhos.

– Doente?

– Quando muito, ligeiramente.

– Tomara –disse Hans Castorp sarcasticamente – que ele mostre um pouco mais da roupa-branca do que os seus patrícios da mesa dos “russos ordinários”. – E a Srta. Engelhart, ainda para castigá-lo, respondeu que podia garantir o contrário. Hans Castorp, terminando por admitir que esse era um assunto que merecia exame cuidadoso, encarregou-a seriamente de se informar sobre aquele compatriota que com tanta freqüência visitava Mme. Chauchat. Mas, ao invés de trazer notícias a respeito desse ponto, ela comunicou-lhe alguns dias após um fato completamente diverso.

Havia a Srta. Engelhart descoberto que alguém pintava Cláudia Chauchat, que ela se deixava retratar, e perguntou a Hans Castorp se ele sabia. Podia estar certo de que a notícia procedia de fonte fidedigna. Desde algum tempo já, Mme. Chauchat posava no próprio Berghof, e quem era que lhe fazia o retrato? O conselheiro áulico! O Dr. Behrens recebia-a, para esse fim, quase diariamente no seu apartamento particular.

Essa novidade emocionou Hans Castorp ainda mais que as anteriores. Daí por diante passou a fazer a seu respeito uma porção de pilhérias forçadas. Ora, ninguém ignorava que o doutor pintava a óleo. Que queria a professora? Não era coisa proibida, e todo mundo podia fazê-lo. E isso se passava nos aposentos do viúvo? Era de esperar que, pelo menos, a Srta. von Mylendonk assistisse às sessões.

– Ela não tem tempo para isso.

– Mas o Behrens não deveria ter mais tempo que a Superiora – ponderou Hans Castorp com severidade. Essa observação soava definitiva, mas ele estava longe de abandonar o assunto.

Fez toda uma série de perguntas, para saber pormenores acerca do retrato. Quis saber-lhe as dimensões, se era de meio corpo ou de corpo inteiro. A que horas posava Mme. Chauchat?

Também nesse ponto a Srta. Engelhart mostrou-se incapaz de lhe oferecer outras particularidades e pediu-lhe que esperasse com paciência os resultados das investigações ulteriores.

Depois de se ter inteirado dessa notícia, Hans Castorp teve 37,7. Muito mais do que as visitas que Mme. Chauchat recebia, atormentavam-no e inquietavam-no as que ela fazia. A própria existência particular e pessoal de Mme. Chauchat, independentemente do seu conteúdo, já começara a causar-lhe sofrimento e desassossego, e quanto não se intensificariam essas sensações no momento em que ficasse sabendo de circunstâncias duvidosas relacionadas com esse conteúdo? Ainda que parecesse perfeitamente possível que as relações entre o visitante russo e a sua compatriota fossem de natureza banal e inocente, Hans Castorp sentia-se desde algum tempo inclinado a considerar a banalidade e a inocência como “lero-lero”. E tampouco podia decidir-se a formar uma opinião diferente quanto à pintura a óleo como base de relação entre um viúvo de vocabulário robusto e uma moça de olhos rasgados e andar felino. O gosto que o médico manifestara na escolha do seu modelo correspondia por demais ao seu próprio para que pudesse acreditar no caráter desinteressado da relação, e a recordação das faces azuladas e dos olhos proeminentes, estriados de vermelho, do conselheiro áulico, nada contribuía para diminuir o seu ceticismo.

Um fato que Hans Castorp observou nesses dias, casualmente e por conta própria, exerceu sobre ele um efeito diferente, posto que novamente se tratasse de uma confirmação do seu gosto. À mesa colocada transversalmente à da Srª. Salomon e do colegial voraz de óculos, à esquerda da mesa dos primos e nas proximidades da porta lateral, havia um enfermo natural de Mannheim, como Hans Castorp ouvira dizer. Era um moço de trinta anos mais ou menos, com cabelos ralos e dentadura cariada, e que falava acanhadamente, o mesmo que de vez em quando tocava piano durante a reunião noturna, e quase sempre a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão. Diziam que era muito devoto – espírito que, por motivos óbvios, se encontrava freqüentemente ali em cima. Hans Castorp soubera também que o moço assistia todos os domingos ao serviço religioso em Davos-Platz e lia durante o repouso livros edificantes, com um cálice ou um ramo de palmeira na capa. E esse rapaz – foi o que Hans Castorp notou um belo dia

– dirigia seus olhares ao mesmo ponto que ele próprio; cravava-os na pessoa flexível de Mme.

Chauchat, e isso de um modo entre tímido e indiscreto que tocava as raias do canino. Hans Castorp, após ter observado essa atitude pela primeira vez, não pôde deixar de verificá-la com muita freqüência. Via o moço pela noite, na sala de jogo, entre os pensionistas, melancólico e absorto pelo aspecto da mulher formosa, apesar de contaminada, que se achava sentada ali, no sofá do pequeno salão, a conversar com Tamara (assim se chamava a moça extravagante de cabelos lanosos), com o Dr. Blumenkohl e com os cavalheiros de peito para dentro e ombros caídos da sua mesa. Via-o voltar-se, ir à toa de cá para lá, e virar de novo a cabeça lentamente por cima do ombro, em direção a Mme. Chauchat, olhando-a de esguelha, com uma contração lamentável do lábio superior. Via-o empalidecer e baixar os olhos, que imediatamente depois levantava outra vez, sempre que se cerrava a porta envidraçada e Mme. Chauchat deslizava até seu lugar. E observou diversas vezes como o coitado se plantava, após a refeição, entre a saída e a mesa dos “russos distintos”, para deixar que Mme. Chauchat passasse bem perto dele e para devorar, com os olhos cheios de tristeza até o fundo da alma, a mulher que nem dava pela sua presença.

Também essa descoberta impressionou consideravelmente o jovem Hans Castorp, embora a mísera indiscrição do rapaz de Mannheim não o pudesse inquietar da mesma forma como as relações particulares entre Clávdia Chauchat e o Dr. Behrens, esse homem que lhe era tão claramente superior em anos, em personalidade e na posição que ocupava na vida. Clávdia absolutamente não se preocupava com o moço de Mannheim. Se fosse diferente, o fato não teria escapado à atenção aguçada de Hans Castorp. Não era, portanto, a pontada antipática do ciúme que ele sentia no coração. Mas o jovem experimentava todas as sensações que costuma

experimentar um homem ébrio e apaixonado quando descobre no mundo exterior sua própria imagem, sentimento que formam a estranha mescla de repugnância e solidariedade. É impossível analisar e estudar tudo isso, se é que desejamos levar avante a nossa narrativa. Seja como for, aquilo que a observação do moço de Mannheim dava a pensar ao pobre Hans Castorp era muito forte para o seu estado de alma.

Assim se passaram os oito dias até o da radioscopia de Hans Castorp. Ele não soubera que este seria o prazo, mas quando, certa manhã, na hora do café, a Superiora – ela outra vez tinha um terçol, que não podia ser o mesmo; parecia que esse mal inofensivo, mas desfigurador, tinha origem na sua constituição – deu-lhe ordem de se apresentar à tarde no laboratório, haviam decorrido precisamente oito dias. Hans Castorp devia comparecer em companhia do primo, meia hora antes do chá, pois ao mesmo tempo se tiraria um novo retrato do interior de Joachim, visto a última radiografia dele ter sido tirada havia muito tempo.

Cortaram, pois, nesse dia, uns trinta minutos do repouso principal e desceram às três e meia em ponto pela escadaria de pedra até o porão fictício. Lado a lado, estavam sentados na pequena sala de espera que separava o gabinete de consultas do laboratório de radioscopia.

Joachim, para quem essas coisas não representavam nada de novo, parecia completamente calmo; Hans Castorp, porém, achava-se numa expectativa um tanto febril, já que, até esse momento, nunca haviam lançado olhares à vida interior do seu organismo. Não estavam sós. Quando entraram, já se encontravam na peça alguns pensionistas, com revistas surradas sobre os joelhos, e que esperavam como eles; havia lá um jovem gigante sueco, que na sala de refeições tinha o seu lugar à mesa de Settembrini, e do qual se dizia que, na época da sua chegada, em abril, estivera tão doente que haviam hesitado em admiti-lo; desde então, porém, engordara trinta e seis quilos e estava a ponto de receber alta como totalmente curado; além dele, estava lá uma senhora da mesa dos “russos ordinários”, uma mãe de mísero aspecto, com seu filho ainda mais mísero, um garoto feio e narigudo de nome Sacha. Essas pessoas esperavam havia mais tempo do que os primos.

Evidentemente, entrariam antes deles. Decerto se produzira algum atraso no gabinete de radioscopia, e disso resultaria chá frio para os primos.

No gabinete estavam ocupados. Ouvia-se a voz do Dr. Behrens, que dava ordens. Já haviam passado as três e meia, quando a porta foi aberta – quem a abriu foi um assistente técnico que trabalhava nessa seção. Mandaram entrar o gigante sueco, aquele felizardo. Sem dúvida, seu antecessor fora-se por outra porta. Desse momento em diante, as coisas desenrolaram-se mais depressa. Ao cabo de dez minutos já se ouviam os vigorosos passos do escandinavo completamente curado, essa publicidade ambulante do lugar e do sanatório, que se afastava pelo corredor. Foi, então, recebida a mãe russa com Sacha. Mais uma vez, como por ocasião da entrada do sueco, notou Hans Castorp que na sala de radioscopia reinava penumbra, isto é, uma meia-luz artificial, exatamente como do outro lado, no gabinete analítico do Dr. Krokowski. As janelas estavam cobertas de cortinas; a luz do dia estava excluída, e luziam apenas algumas lâmpadas elétricas. Enquanto eram introduzidos Sacha e sua mãe e Hans Castorp os acompanhava com os olhos, descerrou-se, nesse preciso momento, a porta do corredor, e o enfermo seguinte entrou na sala de espera. Chegava muito cedo, em vista do atraso dos exames.

Era Mme. Chauchat.

Era mesmo Clávdia Chauchat que, de repente, se achava na exígua peça. Hans Castorp, de olhos arregalados, reconheceu-a, e sentiu perfeitamente como o sangue lhe fugia do rosto e o maxilar inferior se lhe afrouxava, a ponto de forçá-lo a abrir a boca. A entrada de Clávdia efetuara-se de modo despercebido, inopinado, e de chofre compartilhava ela com os primos aquele recinto, onde um segundo antes não estivera ainda. Joachim lançou um olhar rápido para Hans Castorp, e logo após não somente baixou os olhos, mas tornou a tirar da mesa a revista ilustrada que depusera ali pouco antes, e escondeu o rosto atrás das folhas desdobradas. Hans Castorp não teve bastante energia para fazer o mesmo. Depois de empalidecer, corou violentamente, e o coração pulsava-lhe descompassado.

Mme. Chauchat sentou-se junto à porta do laboratório, numa poltronazinha redonda, de braços um tanto estropiados, como que rudimentares. Recostando-se, cruzou ligeiramente as pernas e olhou para o vazio, enquanto seus olhos de quirguiz, nervosamente desviados pela sensação de ser observada, pareciam quase vesgos. Usava suéter branco e saia azul e tinha sobre os joelhos um livro da biblioteca do estabelecimento. Batia levemente no chão com os pés.

Já depois de um minuto e meio mudou de atitude. Olhou em redor de si. Levantou-se com a expressão de quem está indeciso e não sabe aonde dirigir-se. E começou a falar. Perguntou alguma coisa. Dirigiu a palavra a Joachim, muito embora este parecesse absorto na leitura da revista, ao passo que Hans Castorp ali se achava sem nada fazer. Formava palavras na boca, emprestando-lhes a voz que saía da garganta branca. Era aquela voz pouco grave, um tanto áspera, agradavelmente velada, que Hans Castorp conhecia – conhecia desde muito tempo e já ouvira uma vez, a seu lado, no dia em que lhe dissera: “Com muito prazer. Mas você deve devolvê-lo sem falta depois da aula”. Mas aquelas frases haviam sido proferidas com mais fluência e com maior decisão. Desta vez, porém, chegavam as palavras um pouco arrastadas e trôpegas. A que falava não tinha um direito natural de usá-las; tomava-as apenas de empréstimo, como Hans Castorp já diversas vezes a ouvira fazer, experimentando um certo sentimento de superioridade, envolvido em humilíssimo deleite. Com uma das mãos no bolso do casaquinho de lã e a outra na nuca, perguntou Mme. Chauchat:

– Por favor, qual é a hora que marcaram para o senhor?

E Joachim, após ter relanceado os olhos para o primo, respondeu, juntando os calcanhares, mas permanecendo sentado:

– Três e meia.

Ela voltou a falar:

– A minha hora é três e quarenta e cinco. Que é que há? São quase quatro horas. Alguém entrou agora, não é?

– Sim, duas pessoas – explicou Joachim. – As que estavam à nossa frente. O serviço está atrasado. Parece que o atraso é de meia hora.

– Isto é desagradável – disse ela, apalpando o penteado num gesto nervoso.

– Bastante – tornou Joachim. – Nós também já esperamos há quase meia hora.

Assim conversaram, e Hans Castorp escutava-os como que num sonho. Que Joachim falasse com Mme. Chauchat era quase como se ele mesmo o fizesse -se bem que, por outro lado, fosse muito diferente. Aquele “bastante” chocara Hans Castorp; a resposta parecia-lhe petulante ou pelo menos estranhamente fria, em vista das circunstâncias. Mas, afinal, Joachim podia falar assim – podia, em geral, falar com ela, e talvez até se gabasse desse atrevido “bastante”, com o mesmo ar de importância que assumira Hans Castorp perante Joachim e Settembrini, quando, ao lhe perguntarem quanto tempo pretendia permanecer em Davos, respondera: “Três semanas”.

Dirigira ela a palavra a Joachim, ainda que este escondesse o rosto atrás do jornal. Sem dúvida fizera-o por ser o primo o pensionista mais antigo, a quem conhecia de vista havia mais tempo.

Mas também por outra razão: entre ela e Joachim tinham cabimento relações civilizadas e uma troca de palavras articuladas; nada de selvagem, profundo, terrível e misterioso existia entre eles.

Se uma certa pessoa de olhos castanhos, com um anel de rubi e com um perfume de flor de laranjeira houvesse esperado ali, perto deles, teria cabido a Hans Castorp tomar as rédeas da conversa e dizer “bastante”, independente e puro como se sentia em relação a ela. “Com efeito, bastante desagradável, senhorita”, teria dito e talvez, com um gesto desenvolto, tivesse tirado o lenço do bolso do paletó a fim de se assoar. “Tenha paciência, por favor. Estamos todos no mesmo barco.” E Joachim teria admirado sua leviandade – provavelmente sem experimentar o desejo sério de substituí-lo. Não, dada a situação, Hans Castorp tampouco tinha ciúmes de Joachim, não obstante ser o primo quem teve oportunidade de falar com Mme. Chauchat. Estava de acordo com o fato de ela se ter dirigido a Joachim. Assim fazendo, ela levara em conta as circunstâncias e demonstrara ter consciência delas... E o coração do jovem martelava.

Após o tratamento displicente que Mme. Chauchat recebera da parte de Joachim, e no qual Hans Castorp até notara certa hostilidade contra a companheira de enfermidade, hostilidade que o fez sorrir apesar de toda a sua emoção, “Clávdia” tentou dar um passeio pela peça. Mas como faltasse espaço para isso, aproximou-se também da mesa, tirou dela uma revista ilustrada e voltou à poltrona dos braços rudimentares. Hans Castorp permanecia sentado, a contemplá-la, imitando o jeito do avô de apoiar o queixo na gravata, a ponto de se parecer ridiculamente com o velho. Mme. Chauchat tornara a cruzar as pernas, de maneira que a esbeltez das linhas, do joelho para baixo, tornava-se nítida sob a saia de tecido azul. Era de estatura apenas mediana, uma estatura agradável e harmoniosa aos olhos de Hans Castorp, mas tinha as pernas relativamente compridas e as cadeiras pouco largas. Já não se recostava na poltrona, mas, fincando na coxa mais elevada os antebraços cruzados, inclinava-se para a frente, com as costas convexas e os ombros tão avançados, que se salientavam as vértebras da nuca e quase se delineava, sob o suéter muito justo, a espinha dorsal, ficando comprimidos, de ambos os lados, os seios, que não eram opulentos e altos como os de Marusja, mas pequenos como os de uma menina. De súbito Hans Castorp lembrou-se de que também ela se achava à espera da radioscopia. O conselheiro áulico pintava-a, reproduzia sobre uma tela, por meio de óleo e corantes, sua aparência exterior. Dentro em breve, porém, dirigiria na penumbra sobre ela os raios que lhe revelariam o interior do corpo.

E ao pensar nisso Hans Castorp voltou a cabeça com um ensombramento pudico da sua fisionomia e com aquele ar de discrição e reserva que lhe parecia adequado a essa visão.

Não permaneceram os três reunidos por muito tempo na salinha de espera. Lá dentro, evidentemente, não haviam feito grandes cerimônias para liquidar os casos de Sacha e de sua mãe. Apressavam-se para recuperar o tempo perdido. Novamente a porta foi aberta pelo técnico de jaleco branco. Levantando-se, Joachim atirou a revista sobre a mesa, e Hans Castorp seguiu-o em direção à porta, não sem uma hesitação íntima. Despertaram nele escrúpulos cavalheirescos, bem como a tentação de dirigir, apesar de tudo, uma palavra convencional a Mme. Chauchat e de lhe oferecer a precedência, talvez até em francês, se isso fosse realizável. Apressadamente procurou os vocábulos e ponderou a sintaxe. Mas ignorava se esse tipo de galanteria estava em uso ali. Era possível que a ordem estabelecida ficasse acima de todo cavalheirismo. Joachim devia sabê-lo, e como não fizesse menção de ceder o seu lugar à senhora presente, apesar dos olhares comovidos e insistentes de Hans Castorp, este seguiu os passos do primo e atravessou a porta do laboratório, depois de ter passado por Mme. Chauchat, que continuava na sua posição inclinada e mal levantara os olhos. Estava ele por demais atordoado pelo que deixava atrás de si e pelas aventuras dos dez últimos minutos, para que a transferência do seu corpo ao gabinete de radioscopia pudesse produzir também uma modificação imediata do seu estado de alma. Não via nada ou apenas tinha percepções muito vagas nessa meia-luz artificial. Ouvia ainda a voz agradavelmente velada de Mme. Chauchat, quando dissera: “Que é que há?... Alguém entrou agora, não é?... Isto é desagradável...” E o som dessa voz lhe descia docemente pelas costas, fazendo-o estremecer. Via o joelho delineado sob o pano da saia; via as vértebras do pescoço salientarem-se na nuca curvada, por baixo dos curtos cabelos arruivados que nesse lugar pendiam frouxos, sem terem sido presos na trança, e um novo tremor passou-lhe pelo corpo. Deparou com o Dr. Behrens, de costas para os recém-entrados, de pé diante de um armário ou de uma estante saliente, ocupado em examinar uma chapa escura que mantinha, com o braço estendido, nas proximidades da fosca lâmpada do teto. Passando ao lado dele, chegaram ao fundo da sala, precedidos pelo técnico que fazia os preparativos para o exame. Pairava ali um cheiro esquisito.

Uma espécie de ozônio deteriorado enchia a atmosfera. Entre as janelas vendadas de preto, a estante dividia o gabinete em duas partes desiguais. Distinguiam-se aparelhos de física, lentes côncavas, quadros de distribuição, instrumentos para medir, mas também uma caixa parecida com uma máquina fotográfica sobre uma armação de rodas, e dispositivos de vidro, embutidos em fileiras na parede. Não se sabia onde se estava, se no ateliê de um fotógrafo, se numa câmara escura, se na oficina de um inventor ou na cozinha de um bruxo tecnológico.

Sem perder tempo, Joachim começou a desnudar-se até a cintura. O técnico, um jovem suíço atarracado, de faces rosadas, pediu a Hans Castorp que fizesse o mesmo. Acrescentou que os exames eram feitos rapidamente e que logo a seguir seria a vez dele... Enquanto Hans Castorp despia o colete, Behrens saiu da parte menor do recinto e foi ter com eles, na outra, mais espaçosa.

– Olá! – disse. – Vejam só os nossos Dióscuros! Castor e Pólux!... Rogo-lhes a fineza de suprimirem quaisquer gritos lancinantes! Esperem um pouco, num instante vamos passar luz através dos dois. Parece, Castorp, que o senhor tem medo de nos revelar o seu interior. Fique tranqüilo, que tudo se passará segundo as regras da estética. Olhe aí, já viu a minha galeria particular? – E tomando Hans Castorp pelo braço, conduziu-o àquelas fileiras de vidros escuros, e dando volta a um comutador, acendeu a luz atrás delas. Eis que os vidros, iluminando-se, mostraram as suas imagens. Hans Castorp viu membros – mãos, pés, rótulas, pernas, coxas, braços e partes de bacias. Mas a forma viva, arredondada, daqueles fragmentos do corpo humano era fantasmagórica e de contornos vagos; circundava, como uma névoa ou uma aura pálida, o núcleo que ressaltava clara, minuciosa e decididamente: o esqueleto.

– Muito interessante – disse Hans Castorp.

– É de fato interessante – retrucou o conselheiro áulico. – Uma lição prática sumamente útil para a rapaziada. Anatomia de raios X, compreende? Um triunfo dos tempos modernos. Isto aqui é um braço de mulher, como o senhor pode perceber pela sua delicadeza. É com isso quê nos cingem nas horas de amor, sabe? – E pôs-se a rir, o que fazia levantar-se de um lado o lábio superior com o bigodinho aparado. Em seguida apagaram-se as chapas. Hans Castorp dirigiu-se para onde estavam preparando a radiografia de Joachim.

Isso se dava à frente daquela saliência a cujo outro lado se achara momentos antes o Dr.

Behrens. Joachim sentara-se numa espécie de tamborete de carpinteiro, diante de uma tábua contra a qual apertava o peito, e que ao mesmo tempo abraçava. O técnico corrigiu-lhe a posição com movimentos moldadores, avançando ainda mais as espáduas de Joachim e fazendo-lhe massagem nas costas. Depois, encaminhou-se para trás da máquina fotográfica, para focalizar, encurvado e de pernas separadas, como um fotógrafo qualquer, a vista a tirar; expressou então a sua satisfação e, afastando-se, recomendou a Joachim que inalasse o ar profundamente e prendesse a respiração até que a chapa fosse batida. Dilataram-se e a seguir imobilizaram-se as costas arredondadas de Joachim. Nesse momento, o técnico fez a manobra adequada no quadro de distribuição. Durante dois segundos operaram energias terríveis cujo esforço era necessário para atravessar a matéria, correntes de milhares de volts, de cem mil, como Hans Castorp julgava lembrar-se. Apenas dominadas, em prol do seu objetivo, as forças procuraram escapar por um desvio. Descargas estouravam como disparos. Chispas azuis dançavam num aparelho de medição.

Relâmpagos compridos passavam, crepitando, pela parede. Em qualquer parte, uma luz vermelha, semelhante a um olho, mirava o recinto, impassível e ameaçadora. Um frasco, nas costas de Joachim, enchia-se de qualquer substância verde. Depois, tudo sossegou. Desapareceram os fenômenos luminosos, e com um suspiro Joachim soltou o ar retido nos seus pulmões. Estava tudo terminado.

– O próximo réu! – chamou Behrens, dando uma cotovelada em Hans Castorp. – Não faça cera! O senhor vai ganhar uma cópia gratuita, Castorp. Assim poderá projetar os segredos do seu peito na parede, para divertir seus filhos e netos.

Joachim retirara-se, e o técnico já estava mudando a chapa. O conselheiro instruiu pessoalmente o novato acerca do modo de se sentar e se agarrar. – Abraçar! – disse. – Dê um abraço à tábua! Quanto a mim pode imaginar qualquer coisa diferente. E aperte o peito firmemente contra ela, como se experimentasse sensações voluptuosas! Muito bem! Respire! Não se mexa! – ordenou. – E agora sorria! – Hans Castorp esperava de olhos piscos, com os pulmões repletos de ar. Atrás dele irrompeu a tempestade, estourando, pipocando, crepitando e amainando. A objetiva contemplara o seu interior.

Ergueu-se, perturbado e aturdido pelo que acabava de lhe acontecer, ainda que a penetração nem de leve se lhe tivesse tornado sensível. – Ótimo! – elogiou o conselheiro áulico. –

Agora vamos ver com os nossos próprios olhos. – E Joachim, como homem experimentado, já se encaminhara mais ao fundo da sala, para se colocar nas proximidades da porta de saída, junto a uma armação. Tinha às costas o volumoso aparelho, em cuja parte traseira se notava uma ampola de vidro, semicheia de água, com um tubo de evaporação. Diante dela, à altura do peito, achava-se um anteparo emoldurado, suspenso em roldanas. À sua esquerda, no meio de um quadro de distribuição e de outro instrumental, elevava-se um globo vermelho com uma lâmpada, que foi acesa pelo Dr. Behrens, a cavaleiro sobre o tamborete à frente do anteparo. Apagou-se a luz do teto, e somente a vermelha iluminava a cena. Com um rápido gesto, o mestre fez desaparecer também esta, e profundas trevas envolveram as pessoas presentes.

– Antes de tudo os olhos têm de se adaptar – ouviu-se a voz do conselheiro áulico através da escuridão. – É preciso que nossas pupilas se alarguem imensamente, como as dos gatos, para que possamos enxergar o que queremos descobrir. Os senhores compreendem que não poderíamos ver bem nitidamente com os nossos olhos ordinários, habituados à luz. Antes de começarmos, devemos esquecer o dia claro com suas imagens alegres.

– Lógico – disse Hans Castorp, que se achava de pé atrás do médico. Fechou os olhos, pois tanto fazia tê-los abertos ou cerrados, tão negra era a noite. – É necessário que os olhos tomem um banho de escuridão, para que possam enxergar uma coisa dessas. Entende-se. Acho até conveniente e indicado que a gente aproveite esse tempo para se concentrar um pouco, por assim dizer, numa prece silenciosa. Estou aqui de olhos fechados e sinto uma sonolência agradável. Mas que cheiro é esse?

– Oxigênio – explicou o conselheiro; – é o oxigênio que o senhor sente no ar. O produto atmosférico da nossa tempestade particular, compreende?... E agora abra os olhos! – acrescentou.

– Já vai começar a evocação. – Hans Castorp obedeceu depressa.

Ouviu-se a mudança de uma alavanca de lingüeta. Um motor sobressaltou-se, pôs-se a cantar furiosos agudos, mas foi logo regulado por uma segunda manobra. O chão vibrava ritmicamente. A luzinha vermelha, oblonga e vertical, encarava-os, como uma ameaça muda. Em qualquer parte crepitou um relâmpago. E lentamente, com um brilho leitoso, qual uma janela que se iluminasse, ressaltou das trevas o pálido retângulo do anteparo luminoso, diante do qual o Dr.

Behrens cavalgava o seu tamborete de sapateiro, com as coxas escancaradas, e com os punhos fincados nelas, apertando o nariz achatado contra a vidraça que lhe permitia a visão interior de um organismo humano.

– Está vendo, rapaz? – perguntou... Hans Castorp inclinou-se por cima do ombro dele, mas tornou a levantar a cabeça para olhar na direção onde supunha estarem, no meio da escuridão, os olhos de Joachim, que provavelmente tinham aquela mesma expressão meiga e triste do último exame. E perguntou ao primo:

– Você permite?

– Pois não – respondeu Joachim generosamente de dentro das trevas. O chão continuava vibrando, e as energias em ação estalavam e rumorejavam, enquanto Hans Castorp, curvado, espiava pela lívida janela, espiava através da ossatura vazia de Joachim Ziemssen. O esterno confundia-se com a espinha dorsal numa espécie de coluna escura, cartilaginosa. A fileira anterior das costelas estava entremeada pela das costas, que parecia mais pálida. As clavículas, em elegante curva, bifurcavam-se mais acima, para ambos os lados, e na suave auréola dos contornos da carne exibia-se, seco e nítido, o esqueleto dos ombros, a juntura dos úmeros de Joachim. Era muito clara a cavidade do peito, mas distinguia-se um sistema de veias, manchas escuras, uma negrejante aspereza.

– Imagem clara – disse o conselheiro áulico. – É a magreza decente da mocidade militar.

Já tive aqui panças impenetráveis. Não havia meio de distinguir a menor coisa que fosse. Seria preciso descobrir antes os raios capazes de atravessar tal camada de banha... Este aqui, sim, é um trabalho limpo. Pode ver o diafragma? – perguntou, apontando com o dedo para o arco escuro

que subia e descia na parte inferior da janela... – Está vendo, à esquerda, essas bossas, essas protuberâncias? É a pleurisia que ele teve faz quinze anos... Respire profundamente! – ordenou. –

Mais! Eu disse: “Profundamente!” – E o diafragma de Joachim erguia-se, trêmulo, o mais alto que podia. Notava-se um clareamento nas regiões superiores do pulmão, mas o conselheiro não estava satisfeito. – Insuficiente – observou. – O senhor vê os hilos? Veja as aderências! Está vendo as cavernas? É daí que vêm os tóxicos que o: embriagam. – Mas a atenção de Hans Castorp achava-se toda absorvida por alguma coisa parecida com um saco, qualquer massa estranha, como que animalesca, que aparecia, escura, atrás da coluna central, na sua maior parte à direita do espectador – massa que regularmente se dilatava e se contraía, um pouco à maneira de uma medusa a nadar.

– O senhor vê o coração? – perguntou o conselheiro, desprendendo novamente a manzorra da coxa e designando com o indicador aquele saco palpitante... Grande Deus! Era o coração o que Hans Castorp contemplava, o orgulhoso coração de Joachim.

– Estou vendo o seu coração – disse com voz estrangulada.

– Pois não – tornou Joachim, e sem dúvida sorria, resignado, ali na escuridão. Mas o médico mandou-os calar-se e deixar de trocar sentimentalismos. Estudou as manchas e as linhas, aspereza preta na cavidade interior do peito, e enquanto isso, Hans Castorp tampouco se cansava de olhar a forma sepulcral de Joachim, o seu esqueleto, essa armação descarnada, esse escanifrado memento. Sentia-se cheio de devoção e de terror. – Sim, sim, eu vejo – disse diversas vezes. –

Deus meu! Eu vejo! – Ouvira falar de uma mulher, uma parenta, havia muito falecida, da família Tienappel, distinguida pelo dom, ou talvez pela desgraça, de uma visão sinistra, que suportara com toda a humildade: as pessoas que morreriam em breve apareciam-lhe sob a forma de esqueletos. Deste modo é que Hans Castorp via o bom Joachim, embora com a ajuda e por meio da aparelhagem da ciência física e óptica, de maneira que isso não queria dizer grande coisa e nada havia de sobrenatural, tratando-se ainda de um espetáculo que o primo lhe permitira expressamente. Sem embargo, sentiu-se de repente tomado de uma profunda compreensão do destino melancólico daquela tia visionária. Violentamente emocionado pelo que via, ou, no fundo, pelo fato de o ver, tinha a alma acossada por secretas dúvidas, a ponto de se perguntar se tudo aquilo se passava de forma lícita, se sua visão, naquelas trevas vibrantes e chispantes, era de fato inocente; e no seu peito mesclava-se o angustiante prazer da indiscrição com os sentimentos de comoção e de piedade.

Mas, poucos minutos após, ele mesmo se achava no pelourinho, em plena tempestade, enquanto Joachim vestia o seu corpo que tornara a ser opaco. De novo olhava o conselheiro áulico através da vidraça leitosa; dessa vez esquadrinhava o interior de Hans Castorp, e das suas observações feitas à meia voz, de certos resmungos abruptos e de algumas expressões vagas, parecia deduzir-se que o resultado correspondia às suas expectativas. Terminada a radioscopia, teve ainda a amabilidade de permitir que o paciente, a seus rogos insistentes, contemplasse a própria mão através do anteparo luminoso. E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, no meio da qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular pairava, preto e frouxo, o anel-sinete que o avô lhe legara, um objeto duro desta terra, com o qual os homens adornam o seu corpo destinado a desfazer-se por baixo dele, para que fique novamente livre e se possa enfiar em outra mão que o use durante algum tempo. Com os olhos daquela parenta da família Tienappel, contemplou uma parte familiar do seu corpo, estudou-a com olhos videntes e penetrantes, e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer. Enquanto isso, sua fisionomia tomou aquela expressão que costumava assumir quando ouvia música – expressão bastante tola, sonolenta e piedosa, com a boca entreaberta e a cabeça inclinada para um ombro. O conselheiro disse:

– Fantasmagórico, hein? Sim, senhor, inegavelmente há nisso qualquer coisa de fantasmagoria.

E mandou sustar a energia. O chão serenou; esvaíram-se os fenômenos luminosos; a janela mágica voltou a envolver-se em trevas. A luz do teto foi acesa. E enquanto também Hans Castorp se vestia, Behrens dava aos jovens alguns esclarecimentos a respeito das suas observações, levando em conta os reduzidos conhecimentos de leigos dos dois. No que se referia a Hans Castorp, o resultado óptico confirmou o acústico com toda a precisão que a honra da ciência podia exigir. Haviam sido visíveis os lugares antigos tanto como outros, recentes, e partindo dos brônquios estendiam-se cordões muito adentro do órgão – cordões com nozinhos.

Hans Castorp poderia verificá-los com seus próprios olhos no pequeno diapositivo que lhe seria entregue em breve. – Por conseguinte, calma, paciência, disciplina de homem! Comer, tirar a temperatura, repousar, esperar, não ter pressa. – Com isso voltou-lhes as costas. Foram-se os primos. Hans Castorp, ao sair atrás de Joachim, olhou por cima do ombro. Introduzida pelo técnico, Mme. Chauchat entrou no laboratório.

Liberdade

Quais eram, afinal, as impressões do jovem Hans Castorp? Parecia-lhe que as sete semanas que ele, comprovada e indubitavelmente, acabava de passar ali em cima não eram mais que sete dias? Ou parecia-lhe, pelo contrário, que já vivia nesse lugar havia muito, mas muito mais tempo do que em realidade se passara? Ele mesmo ventilava esse problema, tanto de si para si, como também interpelando Joachim, sem, no entanto, chegar a resolver a questão. Uma coisa e outra, provavelmente, eram verdade: ao seu olhar retrospectivo, o tempo ali passado afigurava-se tanto excessivamente longo como excessivamente breve. Um único aspecto desse tempo, entretanto, escapava-lhe sempre: sua duração real – admitindo-se ser o tempo um fenômeno natural e ser lícito relacionar com ele o conceito da realidade.

Fosse como fosse, o mês de outubro estava prestes a começar; podia chegar a qualquer instante. Era fácil para Hans Castorp fazer as contas; além do mais, as conversas dos seus companheiros de enfermidade, que escutava por acaso, chamavam-lhe a atenção sobre esse fato.

– Vocês sabem que daqui a cinco dias será novamente o fim do mês? – ouviu Hermine Kleefeld dizer, dirigindo-se a dois rapazes da sua turma, o estudante Rasmussen e aquele indivíduo beiçudo, de nome Gänser. Estavam tagarelando depois da refeição principal, entre as mesas, por cima das quais pairava um cheiro de comida. Ainda hesitavam em se recolher e em começar o repouso. – Primeiro de outubro – continuou a moça. – Eu mesma vi na folhinha do escritório. É

o segundo da mesma espécie que passo neste oásis de prazer. Bem, acabou-se o verão, se é que tivemos verão. A gente sente-se roubada, como nos roubaram a vida, sob todos os pontos de vista. – E soltou um suspiro do seu meio pulmão, sacudindo a cabeça e fitando o teto com os olhos velados pela estupidez. – Ânimo, Rasmussen! – acrescentou, dando uma palmada no ombro caído do companheiro. – Conte-nos algumas anedotas!

-sei muito poucas – replicou Rasmussen, com as mãos pendentes como barbatanas, à altura do peito. – E não consigo contá-las bem, estou sempre muito cansado.

– Nem um cachorro – murmurou Gänser entre dentes – gostaria de viver assim, ou de um modo semelhante, por muito tempo. – E todos riram, dando de ombros.

Também Settembrini, com seu palito entre os lábios, andava por perto, e ao saírem disse a Hans Castorp:

– Não lhes dê crédito, engenheiro. Nunca lhes dê crédito quando resmungam. Todos o fazem, sem exceção, se bem que se sintam aqui como em casa, mais do que em casa, mais do que lhes convém. Levam uma vida de vadios e ainda exigem compaixão. Julgam-se com o direito de serem amargos, irônicos, cínicos. “Neste oásis de prazer!” Acaso não é isto um oásis de prazer? A mim, parece-me que é, e isso no sentido mais equívoco da palavra. “Roubada”, disse essa fêmea,

“roubaram-me a vida neste oásis de prazer!” Mas dê-lhe alta e mande-a para a planície, e a vida

que ela levará lá embaixo manifestará apenas uma única coisa: seu ardente desejo de voltar para cá o mais depressa possível. Sim, senhor, a ironia! Acautele-se com o tipo de ironia que cultivam aqui, meu caro engenheiro! Acautele-se, em geral, com essa atitude de espírito! Onde ela não é um meio correto e clássico da eloqüência, perfeitamente compreensível a qualquer intelecto sadio, chega a ser licenciosidade, torna-se um obstáculo à civilização, um namorico escabroso com a estagnação, com o vício, com o oposto do espírito. Uma vez que a atmosfera em que vivemos favorece altamente o desenvolvimento dessa flor dos pântanos, posso esperar ou devo até temer que o senhor me compreenda.

Com efeito, as palavras do italiano eram de tal gênero que, se Hans Castorp as tivesse ouvido seis semanas antes na “planície”, teriam representado para ele sons vazios de significado.

Mas a permanência ali em cima fizera-lhe o espírito mais receptivo; receptivo no sentido de uma compreensão intelectual, sem implicar ao mesmo tempo o da simpatia, o que talvez seja ainda mais significativo. Sentia-se intimamente satisfeito, porque Settembrini, depois de tudo o que acontecera, ainda continuava falando com ele à sua maneira, continuava dando-lhe instruções e advertências e procurava influenciá-lo; e todavia a sua receptividade intelectual se refinara de tal modo, que era capaz de formar uma opinião acerca das palavras do italiano e negar-lhes, pelo menos até certo ponto, a sua aprovação. “Imaginem”, disse de si para si, “ele fala da ironia quase da mesma forma como da música. Só falta que a chame de ‘politicamente suspeita’, a partir do momento em que ela deixe de ser ‘um meio de ensino correto e clássico’. Mas uma ironia que em nenhum instante desse lugar e equívocos – que ironia seria essa? – pergunto eu, uma vez que se trata de dar a minha opinião. Seria árida e cheiraria a mestre-escola!” Eis a ingratidão da juventude em formação! Aceita presentes, para logo criticar-lhes os defeitos.

No entanto, achava muito arriscado expressar essas suas idéias recalcitrantes. Limitou suas objeções ao juízo que o Sr. Settembrini fizera de Hermine Kleefeld, juízo que lhe parecia injusto ou que, por certos motivos, queria que fosse tal.

– Mas essa moça está enferma – disse –, está, realmente e fora de dúvida, muito doente e tem toda a razão de se desesperar. Que quer o senhor que ela faça?

– A doença e o desespero – retrucou Settembrini – são muitas vezes apenas formas da licenciosidade.

“E Leopardi?”, pensou Hans Castorp. “Ele desesperou abertamente da ciência e do progresso. E o nosso próprio mestre-escola? Não está também enfermo e volta para cá uma e outra vez? Carducci gostaria muito pouco da vida que ele leva.” Em voz alta, porém, disse:

– Essa é boa! Qualquer dia destes aquela moça pode bater as botas, e o senhor fala de licenciosidade! Precisa me explicar isso um pouco mais claramente! Se o senhor afirmasse que a doença é às vezes uma conseqüência da licenciosidade, seria plausível...

– Muito plausível – aparteou Settembrini. – Ora bolas! Será que o senhor se daria por satisfeito se eu não fosse além dessa afirmação?

– ...ou se dissesse que a doença muitas vezes serve de pretexto à licenciosidade, eu aceitaria também isso.

– Grazie tanto!

– Mas a doença como forma da licenciosidade? Quer dizer que ela não é um produto da licenciosidade, mas é, ela própria, licenciosidade? Isso me parece paradoxal

– Por favor, engenheiro, nada de imputações levianas! Desprezo os paradoxos, detesto-os! Tome nota de que tudo quanto lhe disse sobre a ironia se aplica também ao paradoxo, e ainda outras coisas mais! O paradoxo é a erva venenosa do quietismo, a irisação do espírito apodrecido, a maior licenciosidade de todas! Verifico, aliás, que o senhor volta a defender a enfermidade...

– Não, o que o senhor diz me interessa muito. Está me trazendo à memória certas idéias que o Dr. Krokowski explana nas suas conferências de segunda-feira. Ele também considera a doença orgânica um fenômeno secundário.

– Um idealista pouco limpo.

– Que tem o senhor contra ele?

– Justamente isto.

– O senhor não gosta da análise?

– Depende. Gosto dela muito ou pouco, alternadamente, meu caro engenheiro.

– Como devo compreender o que o senhor disse agora?

– A análise é boa como instrumento do esclarecimento e da civilização; é boa, quando abala convicções estúpidas, dissipa preconceitos naturais e solapa a autoridade; é boa, em outros termos, enquanto liberta, refina, humaniza e prepara os escravos para a liberdade. É má, muito má mesmo, quando estorva a ação, quando prejudica as raízes da vida e se mostra incapaz de lhe dar forma. A análise pode ser uma coisa pouco apetitosa, repugnante como a morte, à qual talvez pertença, afinal de contas, sendo afim do túmulo e da sua anatomia mal-afamada...

“Bem urrado, Leão!”, não pôde Hans Castorp deixar de pensar, como sempre quando o Sr. Settembrini explanava um assunto pedagógico. Mas limitou-se a dizer:

Continuar: parte 4 de 5