A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 4 de 13 · parte 5/5

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A Montanha Mágica

Trata-se. de saber se ele poderá partir na terça-feira.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Era, no fundo, muito gentil da parte do Sr. Settembrini aproximar-se, em tais circunstâncias, de Hans Castorp, para entabular uma conversa com ele e informar-se sobre o seu estado de saúde. Mas é duvidoso que seu interlocutor soubesse apreciar com a devida gratidão a atitude filantrópica e a liberdade de preconceitos que nisso se manifestavam. Assim se deu, certa vez, no vestíbulo, numa tarde de domingo. Em torno do porteiro comprimiam-se os pensionistas, estendendo as mãos para agarrar a correspondência. Também Joachim achava-se ali.

Seu primo ficara para trás, procurando obter, na referida postura, um olhar de Clávdia Chauchat, que se encontrava perto dele, com seus companheiros de mesa, esperando que se dispersasse a multidão que cercava a portaria. Era essa uma hora em que se misturavam os hóspedes, hora prenhe de oportunidades, e por isso querida e almejada pelo jovem Hans Castorp. Havia oito dias, ele roçara em Mme. Chauchat diante do guichê, de modo que ela até o empurrara levemente e dissera “Perdão!”, com uma ligeira inclinação da cabeça, ao que ele respondera, com uma presença de espírito febril, que agora lhe parecia uma bênção do Céu:

– Pas de quoi, madame!

“Que sorte”, pensava, “que nas tardes de domingo sempre se distribua a correspondência no vestíbulo!” Pode-se dizer que ele gastava a semana aguardando durante sete dias a volta de uma mesma hora – e aguardar significa adiantar-se, significa sentir o tempo e o presente não como uma dádiva, mas como mero obstáculo, significa negar e aniquilar o seu valor intrínseco e saltá-los espiritualmente. Dizem que é enfadonho esperar. Mas ao mesmo tempo, e mais propriamente, é divertido, porque assim devoramos quantidades de tempo sem as viver e explorar como tais. Poder-se-ia dizer que o homem que apenas espera se parece com um comilão cujo aparelho digestivo deixa passar as massas de comida sem lhes assimilar os valores nutritivos e proveitosos. Indo mais longe, diríamos: como os alimentos não digeridos não fortificam o homem, o tempo desperdiçado na espera não faz envelhecer. Verdade é que praticamente não existe a espera pura, não misturada.

Fora, pois, devorada uma semana, e novamente chegara a hora dominical do correio, exatamente como se fosse ainda a mesma de oito dias atrás. Continuava, de forma sumamente excitante, a criar oportunidades. Cada minuto encerrava e oferecia a possibilidade que apertava e acossava o coração de Hans Castorp, sem que este lhe permitisse realizar-se. A isso opunham-se inibições de natureza ora militar ora civil: em parte estavam ligadas à presença do honrado Joachim e ao próprio senso de honra e de dever de Hans Castorp; em parte, porém, baseava-se na sensação de que relações de cortesia com Clávdia Chauchat, relações cerimoniosas, que obrigassem a gente a dizer “senhora”, a fazer mesuras e, se possível, a falar francês, não eram nem necessárias nem desejáveis, nem adequadas... Ele deixava-se estar, observando o jeito com que ela falava e ria, exatamente como fizera Pribislav Hippe outrora, lá no pátio da escola. Os lábios de Clávdia Chauchat abriam-se largamente, e os olhos oblíquos e glaucos, por cima das maçãs do rosto, contraíam-se formando estreitas fendas. Isto não era precisamente “belo”. Era apenas como era, e em face da paixão amorosa, o raciocínio estético consegue impor-se tão pouco quanto o raciocínio moral.

– O senhor também espera cartas, engenheiro?

Havia uma única pessoa capaz de falar assim, um desmancha-prazeres. Hans Castorp, num sobressalto, voltou-se para o Sr. Settembrini, que, sorrindo, se achava à sua frente. Era o mesmo sorriso fino e humanístico com que saudara o recém-chegado por ocasião do primeiro encontro, perto do banco, à margem do curso de água. E, como então, Hans Castorp corou ao deparar com ele. Mas, embora nos seus sonhos freqüentemente lhe ocorresse empurrar o

“tocador de realejo”, porque “era demais ali”, evidenciou-se que o homem acordado é melhor do que o cismarento, e Hans Castorp avistou esse sorriso com sentimentos, não só de vergonha e de desembriagamento, senão também de gratidão e de necessidade.

– Cartas? Ora veja, Sr. Settembrini! – respondeu. – Eu não sou embaixador. Talvez haja um cartão-postal para um de nós dois. Meu primo já foi ver.

– A mim, aquele diabo coxo ali na frente já me entregou a minha pequena correspondência – disse Settembrini, levando a mão ao bolso do infalível paletó de fazenda espessa. – Coisas interessantes, coisas de grande envergadura literária e social, inegavelmente!

Trata-se de uma obra enciclopédica, para cuja colaboração um instituto humanitário me dá a honra de me convidar... Numa palavra, um belo trabalho... -settembrini interrompeu-se. – Mas e os seus próprios assuntos? – perguntou. – Como vão eles? Até que ponto progrediu, por exemplo, seu processo de aclimatação? Fazendo as contas, o senhor ainda não está entre nós há tanto tempo que essa pergunta venha fora de propósito.

– Obrigado, Sr. Settembrini. Por enquanto continuo tendo algumas dificuldades. Acho possível que isso vá assim até o último dia. Há quem nunca se habitue, como me disse meu primo logo que cheguei. Mas a gente se habitua ao fato de não se habituar.

– Um processo meio complicado – zombou o italiano. – Um modo um tanto estranho de se assimilar. Naturalmente, a juventude é capaz de tudo. Não se habitua, mas se arraiga.

– E, afinal, isto aqui não é uma mina siberiana...

– Não, não é mesmo. Mas vejo que o senhor prefere comparações orientais. É

compreensível. A Ásia nos devora. Aonde quer que se olhe, só se vêem caras tártaras. – E o Sr.

Settembrini voltou discretamente a cabeça por cima do ombro. – Gengis Khan – acrescentou. –

Olhos de lobo de estepe, neve e aguardente, o cnute, o Schlüsselburg, e o cristianismo. Deveriam erguer, aqui no vestíbulo, um altar a Palas Atena, como medida de defesa. O senhor está vendo?

Lá na frente, um desses Ivan Ivánovitch, sem roupa-branca, começou a discutir com o promotor Paravant. Cada um diz que é a sua vez de receber a correspondência. Não sei quem tem razão, mas, a meu ver, o promotor acha-se sob a proteção da deusa. É um burro, sem dúvida, mas ao menos sabe latim.

Hans Castorp riu-se – o que o Sr. Settembrini nunca fazia. Era impossível imaginá-lo rindo à vontade. Não ia além da contração fina e seca de uma das comissuras da boca. Após ter contemplado o riso do jovem, perguntou:

– Já lhe entregaram a sua chapa?

– Entregaram, sim, senhor – confirmou Hans Castorp, dando-se ares de importância. – Já faz algum tempo. Aqui está.

– Ah, o senhor leva-a consigo na carteira? Como uma espécie de documento, um passaporte ou uma carteira de sócio. Ótimo! Deixe ver. – E erguendo a chapinha de vidro tarjada de preto, segurou-a contra a luz, entre o polegar e o indicador da mão esquerda, gesto muito comum, freqüentemente visto ali em cima. O rosto com os olhos negros, amendoados, torceu-se numa leve careta, enquanto examinava a fotografia fúnebre, sem deixar perceber claramente se isso era para ver melhor ou por outros motivos.

– Pois é – disse então. – Aqui tem o senhor o seu passaporte. Muito agradecido. – Com isso devolveu a chapa ao proprietário, passando-a por cima do próprio braço, e desviando o olhar.

– Viu os cordões? – perguntou Hans Castorp. – E os pequenos nós?

– O senhor já sabe – replicou o Sr. Settembrini devagar – o que penso a respeito da importância desses produtos. Sabe também que as manchas e as sombras aí dentro são, na maioria, de origem fisiológica. Vi centenas de radiografias que tinham, pouco mais ou menos, o aspecto da sua, e deixavam ao critério de quem as examinasse toda a liberdade de considerá-las ou não como “passaporte”. Eu falo aqui como leigo, mas ao menos como leigo veterano.

– E seu próprio passaporte é pior?

– Sim, um pouco pior... Por outro lado sei que os nossos mestres e superiores não fundam nenhum diagnóstico exclusivamente nesse brinquedo... E então, o senhor pretende passar o inverno conosco?

– Que vou fazer?... Começo a me familiarizar com a idéia de que só descerei em companhia do meu primo.

– Quer dizer que o senhor se habitua a não se... Formulou isso muito espirituosamente.

Espero que já tenha recebido a sua bagagem, roupas quentes, calçados resistentes?

– Recebi, sim, senhor. Está tudo em perfeita ordem. Informei os meus parentes, e a nossa governanta me enviou as coisas por expresso. Agora estou preparado.

– Isso me tranqüiliza. Mas, escute! O senhor vai precisar de um saco de peles. Agora é que me lembro! Esse veranico é traiçoeiro. De um momento para outro podemos estar em pleno inverno. O senhor passará aqui os meses mais frios...

– Pois é, o saco de repouso – disse Hans Castorp. – É indubitavelmente uma peça necessária. Também já ventilei vagamente o projeto de ir à aldeia, nos próximos dias, junto com meu primo, para comprar um. Lá embaixo nunca mais precisarei dele, mas para quatro ou seis meses já vale a pena.

– Vale, engenheiro, vale mesmo – disse o Sr. Settembrini baixinho, aproximando-se um pouco mais do jovem. – Sabe o senhor que é horroroso ouvir com que leviandade fala de meses?

É horroroso porque é antinatural e contrário ao seu caráter, e porque isso provém unicamente da docilidade dos seus anos. Ai dessa excessiva docilidade da juventude! A juventude é o desespero dos educadores, por estar disposta a aceitar sobretudo as coisas ruins. Não fale como se costuma falar aqui, meu rapaz, mas como convém à sua maneira européia de viver! Neste ar aqui há muita coisa da Ásia, principalmente. Não é sem motivo que esses tipos da Mongólia moscovita andam pululando por aí. Esse pessoal – e o Sr. Settembrini fez um movimento com o queixo, apontando por cima do ombro – não lhe deve servir de modelo. Não se deixe contagiar pelos conceitos deles. Pelo contrário, oponha-lhes a própria natureza, a sua natureza superior, e mantenha sagrado o que, pela sua índole e pela sua origem, deve ser sagrado ao senhor, filho do Ocidente, do divino Ocidente, filho da civilização; o tempo, por exemplo. Esse procedimento generoso, essa prodigalidade bárbara no emprego do tempo é de estilo asiático. Pode ser que esse seja o motivo por que os filhos do Oriente se dão bem aqui. O senhor nunca notou que, quando um russo fala em “quatro horas”, é como se nós disséssemos “uma hora”? É fácil chegar à conclusão de que o pouco-caso que essa gente faz do tempo está relacionado com a vastidão selvagem do seu país. Onde há muito espaço há muito tempo. Diz-se que eles são o povo que tem tempo e pode esperar. Nós, os europeus, não o podemos. O tempo que temos é tão exíguo quanto o espaço do nosso continente nobre e delicado nos seus contornos. É preciso que administremos economicamente o nosso tempo e o nosso espaço, que tiremos proveito deles, engenheiro, muito proveito! Tome como símbolo as nossas cidades grandes, esses centros, esses focos da civilização, esses cadinhos do pensamento! À medida que sobe ali o preço do solo e se torna impossível o desperdício de espaço, o tempo – repare bem nisso! – também chega a ter um valor cada vez mais elevado. Carpe diem! Quem cantava assim era um homem da metrópole. O tempo é um dom divino, outorgado ao homem para que o explore, sim, meu caro engenheiro, para que o explore a serviço do progresso da humanidade.

Por maiores que fossem os obstáculos que essas últimas palavras, na sua forma alemã, oferecessem à língua mediterrânea do Sr. Settembrini, ele conseguiu proferi-las de um modo agradável, claro, sonoro e – inegavelmente – plástico. Hans Castorp limitou a sua resposta àquele tipo de reverência breve, rígida e acanhada com que um aluno recebe uma lição que encerra uma censura. Que mais poderia replicar? Essa preleção altamente pessoal que o Sr. Settembrini acabava de lhe fazer, secretamente, quase cochichando, e com as costas voltadas aos outros pensionistas, tinha caráter muito objetivo, era muito pouco social, e afastava-se por demais de uma simples conversa, para que o tato permitisse uma manifestação de aplauso. Não se responde a um professor: “Como o senhor falou bem!” Em outras ocasiões, Hans Castorp, às vezes, fizera-o, por assim dizer, para se manter num plano de igualdade social com o humanista. Mas este nunca lhe dirigira palavras tão insistentemente pedagógicas, que não deixavam lugar para outra atitude senão a de engolir a reprimenda, aturdido qual um escolar em face de tanta moral.

Via-se, de resto, na expressão do Sr. Settembrini, que, apesar do seu silêncio, continuava a atividade do seu espírito. Ainda se encontrava bem perto de Hans Castorp, tanto que este até se

viu forçado a reclinar o corpo um pouquinho para trás. Os olhos negros do italiano fitavam o rosto do jovem com a fixidez cega de um homem absorto pelas suas idéias.

– O senhor sofre, engenheiro – prosseguiu. – Sofre como quem anda desnorteado. É o que se pode ler na sua fisionomia. Mas também a sua conduta em face do sofrimento deveria ser uma conduta européia, e não a do Oriente, que povoa tão abundantemente esta região, justamente por ser efeminado e ter uma inclinação para a enfermidade... A compaixão e a paciência infinita – eis a maneira oriental de enfrentar o sofrimento. Não pode, não deve ser a nossa, não convém ao senhor!... Acabamos de falar da minha correspondência... Veja, aqui... Ou melhor, venha comigo! Aqui não se pode conversar... Vamos retirar-nos e entrar nesta salinha.

Quero fazer-lhe algumas confidencias que... Venha! – E dando meia-volta arrastou Hans Castorp para fora do vestíbulo até a primeira saleta, a mais próxima do portão, mobiliada como sala de leitura, e onde a essa hora não havia pensionistas. Sob a abóbada branca, nas paredes revestidas de painéis claros, viam-se estantes de livros, uma mesa central, rodeada de cadeiras e coberta de jornais fixos em pregadores, e escrivaninhas sob as arcadas das janelas. O Sr. Settembrini avançou até uma dessas janelas, seguido de Hans Castorp. A porta permanecia aberta.

– Estes papéis – disse o italiano, tirando com mão pressurosa do bolso do paletó espesso um fascículo contendo um envelope volumoso com diversos folhetos e uma carta, que fez resvalar entre os dedos, para que Hans Castorp os pudesse ver –, estes papéis têm o cabeçalho em francês: “Liga Internacional para a Organização do Progresso”. Recebo-os de Lugano, onde existe uma seção filiada à liga. O senhor quer conhecer os seus princípios, os seus objetivos? Vou indicá-los em duas palavras. A Liga para a Organização do Progresso deriva da doutrina evolucionista de Darwin, concepção filosófica segundo a qual a vocação natural mais profunda da humanidade é o seu próprio aperfeiçoamento. Por conseguinte, constitui dever de cada indivíduo desejoso de corresponder a essa vocação natural colaborar ativamente para o progresso da humanidade. Muitos acudiram ao chamado da liga. É considerável o número dos seus sócios na França, Itália, Espanha, Turquia e até na Alemanha. Também eu tenho a honra de figurar como tal nas listas da liga. Foi esboçado um amplo programa de reformas, baseado em princípios científicos, um programa que abrange todas as possibilidades atuais de aperfeiçoamento do organismo humano. Estuda-se o problema da saúde da nossa raça; são examinados todos os métodos para combater a degenerescência, que é, sem dúvida, uma conseqüência inquietante da progressiva industrialização. Além disso, promove a liga a fundação de universidades populares, empenha-se na supressão da luta de classes, por meio de todos os melhoramentos sociais que possam contribuir para esse fim, e preocupa-se com a abolição das lutas entre os povos e da guerra, mediante o desenvolvimento do direito internacional. Como o senhor vê, os esforços da liga são generosos e vastíssimos. Diversas revistas internacionais testemunham as suas atividades, revistas mensais, redigidas em três ou quatro idiomas importantes e que relatam de forma vívida a evolução progressista da humanidade civilizada. Foram fundados numerosos grupos locais nos diferentes países, que devem realizar discussões noturnas e solenidades dominicais, com a finalidade de esclarecer e de edificar o público no sentido do ideal do progresso humano. Mas antes de tudo dedica-se a liga a ajudar, por meio da sua documentação, os partidos políticos progressistas de todos os países... O senhor está seguindo as minhas palavras, engenheiro?

– Perfeitamente! – respondeu Hans Castorp com uma veemência precipitada. Ao proferir essa palavra tinha a sensação de quem escorrega, mas ainda consegue, mal e mal, manter-se de pé.

O Sr. Settembrini pareceu satisfeito.

– Creio que lhe abri perspectivas novas e surpreendentes.

– Sim, senhor, confesso que é a primeira vez que ouço falar dessas... dessas atividades.

– Que pena! – exclamou Settembrini em voz abafada. – Que pena que ninguém lhe tenha falado delas antes. Mas talvez ainda não seja tarde. Olhe estes folhetos... O senhor deseja saber do que eles tratam? Pois então escute! Esta primavera foi convocada em Barcelona uma solene assembléia geral da liga. Como sabe, essa cidade ufana-se de manter relações particulares com a idéia progressista. O congresso realizou-se durante uma semana, com banquetes e solenidades de

toda espécie. Meu Deus! Eu tencionava seguir para lá, tinha o mais ardente desejo de participar das deliberações. Mas esse patife do conselheiro proibiu a viagem, ameaçando-me de morte. Que quer o senhor? Eu receei a morte e não fui. Estava desesperado, como pode imaginar, por causa da peça que me pregou a minha saúde precária. Não há nada mais doloroso do que ver como a nossa parte orgânica, a parte animal do nosso ser, nos impede de servir à razão. Tanto mais viva é a satisfação que me causa esta carta que recebi da secretaria da liga em Lugano. O senhor está curioso de saber o seu conteúdo? Não duvido. Vou lhe dar algumas informações rápidas... A Liga para a Organização do Progresso, consciente do fato de que a sua tarefa consiste em promover a felicidade dos homens, ou, em outros termos, em lutar contra o sofrimento humano por meio de um adequado trabalho social, e com o fim de exterminá-lo por completo; considerando, ademais, que essa tarefa suprema só pode ser executada com o auxílio da ciência sociológica, cujo objetivo final é o Estado perfeito – a liga, pois, resolveu, em Barcelona, a publicação de uma obra em numerosos volumes que levará o título Sociologia dos males, e na qual serão estudados, de uma forma sistemática e completa, os males humanos, segundo as suas categorias e espécies. O senhor vai objetar: que adiantam categorias, espécies e sistemas? Respondo-lhe: a ordem e a classificação formam o começo do domínio, e o inimigo mais perigoso é o inimigo desconhecido. É

necessário arrancar o gênero humano dos estados primitivos do medo e da apatia passiva e conduzi-lo rumo à fase da atividade consciente do seu objetivo. É mister ensinar-lhe que desaparecem os efeitos cujas causas primeiro reconhecemos e depois abolimos, e que quase todos os males do indivíduo são enfermidades do organismo social. Muito bem! É esta a intenção da “patologia sociológica”. Em aproximadamente vinte volumes de tipo enciclopédico, serão enumerados e tratados todos os males imagináveis dos homens, desde os males mais pessoais e mais íntimos até os grandes conflitos coletivos, os males que têm a sua origem nas inimizades de classes e nos entrechoques internacionais; numa palavra, a obra mostrará os elementos químicos que, em múltipla mistura e combinação, compõem todos os sofrimentos humanos, e, tomando por diretriz a dignidade e a felicidade dos homens, indicará para cada caso os remédios e as medidas que lhe parecem apropriados para eliminar a causa do mal. Destacados especialistas dentre os sábios europeus, médicos, economistas e psicólogos, repartirão entre si a redação dessa enciclopédia dos sofrimentos, e a secretaria central em Lugano será o estuário para onde confluirão os rios de artigos. Vejo que seus olhos me perguntam qual será o papel que desempenharei em tudo isso. Deixe que eu termine! Nesta grande obra também não devem ser omitidas as belas-letras, na medida em que estas tiverem por assunto o sofrimento humano. Por isso foi previsto um volume especial que, para consolo e instrução dos que sofrem, deve conter uma compilação e uma breve análise de todas as obras-primas da literatura universal que se refiram ao respectivo conflito. E precisamente essa é a tarefa da qual foi incumbido, na carta que o senhor vê aqui, este seu humilde criado.

– Não diga, Sr. Settembrini! Permita que o felicite de todo o coração! É uma incumbência formidável e que, como creio, vem a talho de foice para o senhor. Não me surpreende nem um pouquinho que a liga tenha pensado no senhor. Como não deve estar satisfeito, agora que pode contribuir para o extermínio do sofrimento humano!

– É um trabalho enorme – disse o Sr. Settembrini, pensativo –, que requer muito tino e muita leitura. Tanto mais – acrescentou, enquanto o seu olhar parecia perder-se na multiplicidade de suas tarefas –, tanto mais que as belas-letras quase sempre têm por assunto o sofrimento, e até obras-primas de segunda ou terceira categoria se preocupam de alguma forma com ele. Não faz mal ou, antes, tanto melhor! Por vasta que seja a tarefa, em todo caso é das que é possível executar neste lugar maldito, ainda que eu espere não ser obrigado a terminá-la aqui. O mesmo não se pode dizer – continuou, aproximando-se novamente de Hans Castorp e baixando a voz até quase cochichar –, o mesmo não se pode dizer dos deveres que a natureza impõe ao senhor, engenheiro. Eis o ponto a que eu tencionava chegar, e nesse sentido desejava exortá-lo. O senhor sabe quanto admiro a sua profissão; mas, como é uma profissão prática e não uma profissão literária, o senhor não pode exercê-la aqui, bem ao contrário da minha. Só na planície pode ser

europeu, só ali pode combater o sofrimento ativamente, à sua maneira, só ali pode promover o progresso e aproveitar o tempo. Falei-lhe da tarefa que me coube, apenas para lhe recordar isso, para chamá-lo à razão, para corrigir os seus conceitos que, aparentemente, começam a perturbar-se sob a influência da atmosfera. Insisto com o senhor: vele pela sua dignidade! Seja orgulhoso e não se perca no ambiente estranho! Evite este atoleiro, esta ilha de Circe. O senhor não é bastante Ulisses para habitá-la impunemente. Acabará andando de quatro patas. Já está a ponto de se apoiar nas extremidades dianteiras. Daqui a pouco começará a grunhir. Cuidado!

Ao proferir em voz abafada as suas exortações, o humanista sacudira a cabeça com insistência. A seguir, permaneceu calado, com os olhos baixos e o cenho carregado. Era impossível responder-lhe com brincadeiras ou evasivas, como era costume de Hans Castorp, e como, por um instante, pensou fazer novamente. Também ele baixara as pálpebras. Por fim, encolhendo os ombros, disse, também em voz baixa:

– Que devo fazer?

– O que eu lhe disse.

– Isso significa: partir?

O Sr. Settembrini ficou calado.

– Quer o senhor dizer que eu devo regressar para casa?

– É o que lhe aconselhei logo na primeira noite, engenheiro.

– Sim, senhor, e naquela ocasião eu tinha plena liberdade de fazê-lo, embora achasse pouco razoável fugir daqui, só porque o ar das alturas me incomodava um pouco. Mas, desde então, a situação mudou bastante. Nesse ínterim houve o exame médico, depois do qual o Dr.

Behrens me disse claramente que não valia a pena regressar, pois dentro de pouco tempo me veria obrigado a voltar para cá e, se continuasse a viver daquele jeito na planície, me arriscaria a que dentro de pouco tempo todo o lóbulo do pulmão fosse por água abaixo.

– Eu sei. Agora o senhor tem seu passaporte no bolso.

– Sim. O senhor diz isso ironicamente... com aquela ironia justa, perfeitamente compreensível, que é um meio clássico e correto de eloqüência... Está vendo como gravei na memória as suas próprias palavras? Mas pode o senhor assumir a responsabilidade de me dar o conselho de regressar, apesar dessa fotografia e do resultado da radioscopia e do diagnóstico do Dr. Behrens?

Settembrini hesitou um momento. Depois, endireitou-se, abriu os olhos, fixou-os em Hans Castorp, firmes e negros, e replicou com uma ênfase que não deixava de encerrar um quê de teatral e de exagerado:

– Sim, engenheiro, assumo esta responsabilidade.

Mas também Hans Castorp entesara a sua postura. Mantinha os tacões juntos e encarava o Sr. Settembrini. Desta vez tratava-se de um duelo. Hans Castorp não arredava pé. Existiam influências próximas a fortificá-lo. De um lado havia um pedagogo, e do outro, lá fora, uma mulher de olhos rasgados. Hans Castorp nem sequer se desculpou pelo que diria; não acrescentou: “Não leve a mal as minhas palavras!” Limitou-se a retrucar:

– Nesse caso, o senhor é mais prudente quando se trata de si próprio do que em relação a outros. O senhor não viajou para o congresso da liga em Barcelona, contra a proibição do médico. Tinha medo da morte e ficou aqui.

Até certo ponto estava desfeita, indubitavelmente, a pose do Sr. Settembrini. Esboçando um sorriso um tanto forçado, respondeu ele:

–

Sei apreciar uma resposta incisiva, mesmo que a sua lógica não se distancie muito do sofisma. Repugna-me entrar naquela odiosa competição que está na moda aqui; do contrário lhe responderia que ando muito mais doente do que o senhor. Desgraçadamente estou, sem exagero, tão enfermo que mantenho apenas artificialmente, na intenção de me iludir a mim mesmo, a esperança de abandonar este lugar e voltar ao mundo lá de baixo. No momento em que se tornar evidente a indecência dessa atitude, virarei as costas a este estabelecimento e ocuparei, para o resto dos meus dias, um quarto numa casa particular em qualquer lugar do vale. Será triste,

mas, como a esfera do meu trabalho é a mais livre e a mais espiritual de todas, isso não me impedirá de servir até o meu último suspiro a causa da humanidade e de fazer frente ao espírito da doença. Já chamei a atenção do senhor para a diferença que nesse ponto existe entre nós. Meu caro engenheiro, o senhor não é um homem capaz de defender aqui o que há de melhor na sua natureza. Verifico isso desde o nosso primeiro encontro. O senhor me objeta que não fui a Barcelona. Submeti-me à proibição do médico para não me destruir antes do tempo. Mas fiz isso com as mais enérgicas reservas, sob o mais altivo e doloroso protesto do meu espírito contra a pressão do meu corpo miserável. Será que esse protesto está vivo também no senhor, quando se sujeita aos preceitos das potências daqui? Não serão apenas o corpo e a sua tendência nefasta aquilo que o faz obedecer com demasiada espontaneidade?...

– Que tem o senhor contra o corpo? – interrompeu-o rapidamente Hans Castorp, fixando no italiano os olhos arregalados, cuja esclerótica estava estriada de veias vermelhas. Sua audácia entontecia-o visivelmente. “De que falo?”, pensou. “É incrível como isso vai longe. Mas, uma vez que me pus em pé de guerra contra ele, vou fazer o possível para não lhe deixar a última palavra. Naturalmente ele acabará triunfando; não faz mal, porque sempre tirarei disso algum proveito. Vou provocá-lo.” E completou a sua objeção, dizendo:

– O senhor não é humanista? Como pode falar mal do corpo?

Settembrini sorriu, dessa vez sem esforço, seguro de si.

– “Que tem o senhor contra a análise?” – citou, com a cabeça inclinada em direção do ombro. – “Não gosta da análise?” O senhor sempre me encontrará disposto a responder às suas perguntas, engenheiro – continuou com uma reverência, esboçando com a mão um gesto de saudação que descia até o soalho –, sobretudo quando os seus argumentos dão prova de espírito.

O senhor riposta com elegância... Humanista? Claro que o sou. O senhor nunca me apanhará manifestando tendências ascéticas. Digo “sim” ao corpo, honro-o e sinto amor por ele, assim como faço em face da forma, da beleza, da liberdade, da alegria e do gozo, assim como tomo o partido das coisas mundanas, dos interesses da vida, contra a aversão sentimental ao mundo; represento o Classicismo contra o Romantismo. Acho que a minha posição é inequívoca. Mas existe um poder, um princípio ao qual dedico a minha mais fervorosa aprovação, meu supremo respeito e amor, e esse poder, esse princípio é o espírito. Por mais que eu abomine ver como alguns procuram opor ao corpo qualquer fantasmagoria suspeita que chamam de “alma”, não ignoro que, dentro da antítese de corpo e espírito, o primeiro representa o princípio mau e diabólico; pois o corpo é natureza, e a natureza – repito que se trata da sua oposição ao espírito, à razão – é má; mística e má! “O senhor é humanista!” Indiscutivelmente sou humanista, por ser amigo do homem, como o era Prometeu, um enamorado da humanidade e da sua nobreza. Mas essa nobreza acha-se encerrada no espírito, na razão, e por isso será inútil o senhor me acusar de obscurantismo cristão...

Hans Castorp defendeu-se com um gesto.

– ... será absolutamente inútil o senhor me acusar disso – insistiu Settembrini – só porque um belo dia o humanismo no seu nobre orgulho chegou a se dar conta da humilhação, da ignomínia que reside no fato de o espírito estar ligado ao corpo, à natureza. Sabe o senhor que nos foi transmitido um dito do grande Plotino, segundo o qual “ele sentia vergonha de ter um corpo”? – perguntou Settembrini, de uma forma que tão seriamente exigia uma resposta, que Hans Castorp se viu obrigado a confessar que ouvia isso pela primeira vez. – Quem nos transmitiu essas palavras foi Porfírio. É uma sentença absurda, se assim quiser. Mas o absurdo é a honestidade espiritual, e no fundo não há nada mais nobre do que a objeção do absurdo, nos casos em que o espírito procura manter a sua dignidade em face da natureza e recusa abdicar em favor dela... O senhor ouviu falar do terremoto de Lisboa?

– Não, houve um terremoto? Aqui não leio jornais.

– O senhor me entendeu mal. Seja dito de passagem que é lastimável – e característico deste lugar – que o senhor se descuide aqui da leitura da imprensa. Mas o senhor não me

compreendeu bem. O fenômeno natural a que aludi não é recente; passou-se faz aproximadamente cento e cinqüenta anos...

– Ah, sim! Espere um pouco. É verdade. Li que Goethe recebeu a notícia em Weimar, no seu quarto, à noite, e disse ao criado...

– Ora, não era disso que queria falar – interrompeu-o Settembrini, fechando os olhos e agitando no ar a mãozinha trigueira. – O senhor aliás confunde as catástrofes. Pensa no terremoto de Messina. Eu me refiro ao abalo sísmico que sofreu Lisboa em 1755.

– Perdão.

– Bem, Voltaire revoltou-se contra ele.

– Quer dizer... Mas como? Ele se revoltou?

– Pois é, rebelou-se. Não admitiu aquele fado ou fato brutal. Negou-se a abdicar perante ele. Protestou em nome do espírito e da razão contra esse escandaloso excesso da natureza que vitimou três quartas partes de uma florescente cidade e milhares de vidas humanas... O senhor fica pasmado? Sorri? Que pasme, mas, quanto ao sorriso, tomo a liberdade de censurá-lo. A atitude de Voltaire era a de um autêntico descendente daqueles antigos gauleses que atiravam as suas flechas contra o céu. Olhe, engenheiro, aí vê o senhor a hostilidade do espírito em face da natureza, a orgulhosa desconfiança com que a encara, a maneira nobre pela qual se obstina no direito de criticar a ela e a seu poder maligno e insensato. Pois a natureza é o poder, e aceitar o poder, conformar-se com ele – repare bem: conformar-se intimamente com ele, é servil! E com isso o senhor chega àquele humanismo que absolutamente não se deixa cair em nenhuma contradição e que não se torna culpado de nenhuma recaída na hipocrisia cristã, ao decidir-se a ver no corpo o princípio mau e antagônico. A contradição que o senhor pensa encontrar é, no fundo, sempre a mesma. “Que tem o senhor contra a análise?” Nada... quando ela se empenha em instruir, em libertar, em promover o progresso; Tudo... quando traz consigo o asqueroso olor faisandé do túmulo. E o mesmo se dá com o corpo. É preciso honrá-lo e defendê-lo onde se trata da sua emancipação e da sua beleza, da liberdade dos sentidos, da felicidade, do prazer. É mister desprezá-lo, cada vez que se opuser, como princípio da gravidade e da inércia, ao movimento rumo à luz. Convém detestá-lo quando chega a representar o princípio da doença e da morte, quando o seu espírito específico se torna o espírito da perversidade, o espírito da decomposição, da volúpia e da vergonha...

Essas últimas palavras, Settembrini as proferira muito perto de Hans Castorp, falando quase sem voz e com muita velocidade, como para terminar depressa. Chegou socorro a Hans Castorp: Joachim, com dois cartões-postais na mão, entrou na sala de leitura. Ficou interrompido o discurso do literato, e a habilidade com que a sua fisionomia passou a assumir uma expressão leve e mundana não deixou de impressionar o seu aluno -se é que podemos chamar assim a Hans Castorp.

– Olá, tenente! O senhor deve ter andado à procura do seu primo. Desculpe!

Entabulamos uma conversa – e se não me engano, tivemos até uma pequena discussão. Ele não é nada mau como argumentador, o senhor seu primo, um adversário bastante perigoso num debate, quando dá importância ao assunto.

Humaniora

Hans Castorp e Joachim Ziemssen, trajando calças brancas e jaquetas azuis, estavam sentados no jardim, depois do almoço. Era mais um desses tão elogiados dias de outubro, um dia quente sem ser pesado, de um brilho festivo, e ao mesmo tempo de certo sabor amargo. Um azul de intensidade meridional pairava por cima do vale, em cujo fundo ainda verdejavam alegremente as pradarias sulcadas de veredas e salpicadas de habitações, e de cujas encostas cobertas de matagal selvagem vinham os sons dos cincerros das vacas – esse tilintar metálico, música pacífica e singela, que flutuava, clara e tranqüila, através dos ares calmos, vazios e rarefeitos, aprofundando a atmosfera de solenidade que predomina em regiões altas.

Os primos haviam se instalado num banco numa das extremidades do jardim, diante de um largo circular, plantado de abetos novos. O lugar estava situado na parte noroeste da plataforma cercada, que se elevava uns cinqüenta metros acima do vale e formava o pedestal do Berghof. Permaneciam calados. Hans Castorp fumava. Intimamente experimentava algum rancor contra Joachim, porque este, depois do almoço, não quisera tomar parte na reunião do terraço e, contra o seu desejo, forçara-o a desfrutar a calma do jardim, antes de se entregar ao repouso regulamentar. Era uma atitude tirânica da parte de Joachim. Afinal de contas, não eram eles gêmeos siameses. Podiam separar-se quando as suas inclinações não coincidiam. Ora, Hans Castorp não se achava ali para fazer companhia a Joachim; ele mesmo era paciente. Pensando nisso, amuava-se, e não lhe era difícil suportar o amuo, já que dispunha do recurso do Maria Mancini. Com as mãos nos bolsos da jaqueta, estendendo diante de si os pés calçados de sapatos marrons, deixava pender entre os lábios o comprido charuto acinzentado, que se encontrava na primeira fase da combustão, o que quer dizer que não fora ainda removida a cinza da ponta obtusa. Depois da refeição farta, gozava aquele aroma que voltara a saborear plenamente. Bem podia ser que a sua aclimatação ali em cima consistisse apenas em habituar-se à idéia de não se habituar, e contudo era evidente que, no que se referia às reações químicas do seu estômago e aos nervos das suas mucosas secas e propensas a sangrar, a adaptação se realizara enfim; insensivelmente e sem que ele fosse capaz de observar o progresso, ressuscitara, no decorrer desses sessenta e cinco ou setenta dias, todo o prazer orgânico que tinha a sua origem naquele bem-preparado estimulante ou tóxico vegetal. Hans Castorp regozijava-se de lhe ter reencontrado o sabor. A satisfação moral intensificava o prazer físico. Durante o tempo que passara na cama, fizera economias nos duzentos charutos que trouxera como provisão de viagem, e dos quais ainda sobravam alguns. Mas, junto com a roupa-branca e os trajes de inverno, mandara que lhe enviassem por Schalleen outros quinhentos exemplares do produto bremense, a fim de se ver munido para qualquer eventualidade. Eram bonitas caixinhas envernizadas, ostentando um globo terrestre, muitas medalhas e um edifício de exposição rodeado de bandeiras tremulando ao vento, tudo isso impresso em ouro.

Enquanto estavam assim sentados, eis que o Dr. Behrens atravessou o jardim. Naquele dia tomara parte no almoço, à mesa da Srª. Salomon. Haviam-no visto juntar diante do prato as enormes manzorras. Depois, provavelmente se detivera no terraço, dirigindo a cada enfermo algumas palavras pessoais e exibindo, talvez, o truque dos cordões de sapato, para quem ainda não o tivesse visto. Agora aproximava-se, flanando pelo caminho ensaibrado, sem o jaleco de médico, num fraque de quadradinhos, com o chapéu-coco para trás, e tendo, também ele, na boca um charuto muito preto, do qual tirava grandes baforadas de fumaça esbranquiçada. A cabeça e o rosto com as faces azuladas, que pareciam quentes, com o nariz arrebitado, os olhos azuis, lacrimosos, e o bigodinho torto, eram pequenos em proporção à silhueta comprida, levemente encurvada, e às dimensões das mãos e dos pés. O médico andava nervoso e sobressaltou-se visivelmente ao deparar com os primos. Até deu a impressão de estar um tanto confuso, vendo-se obrigado a ir cumprimentá-los. Fê-lo na sua maneira habitual, jovialmente, citando um verso apropriado de Schiller e pedindo, ao mesmo tempo, a bênção do céu para a digestão dos pacientes. Fez questão de que permanecessem sentados, quando quiseram levantar-se em sua homenagem.

– Não se incomodem! Fiquem à vontade! Nada de cerimônias com um homem humilde como eu! É uma honra que não mereço, tanto mais que ambos os senhores estão enfermos. Não precisam observar essas formalidades. Vamos conservar o status quo.

E manteve-se de pé à frente dos primos, com o charuto entre os dedos indicador e médio da manzorra.

– Que tal esse repolho enrolado, Castorp? Deixe ver, sou perito e amador. A cinza é boa.

Que bela morena é essa?

– Maria Mancini, Postre de Banquete, de Bremen, senhor conselheiro. Custa pouco ou nada, uns dezenove Pfennige nas cores selecionadas, mas tem um bouquet que normalmente não se

encontra por esse preço. Sumatra-Havana, com capa cor de areia, como o senhor pode ver. É

uma mistura meio pesada e muito saborosa, mas que parece bem leve à língua. Esse charuto gosta que se lhe deixe a cinza o maior tempo possível. Em geral não a sacudo mais de duas vezes. Claro que ele tem os seus caprichos, mas o controle da fabricação deve ser muito rigoroso, porque o Maria é de absoluta confiança quanto às suas qualidades e puxa com uma regularidade perfeita. O

senhor permite que eu lhe ofereça um?

– Obrigado. Podemos fazer uma troca. – E ambos tiraram as charuteiras.

– Este é de raça – disse o conselheiro áulico, mostrando a Hans Castorp a marca que fumava. – Tem temperamento, sabe? E está cheio de força e de seiva. São Félix, Brasil; sempre preferi este tipo. Um autêntico remédio para qualquer preocupação. Arde que nem aguardente, e sobretudo no fim produz um efeito fulminante. Recomenda-se certa reserva nas relações com ele.

Não se pode acender um após outro; isso ultrapassa as forças de um homem. Mas acho melhor um bom trago de vez em quando do que vapor de água durante o dia todo...

Fizeram girar entre os dedos os presentes que acabavam de permutar; examinavam com a objetividade de peritos os corpos esbeltos, que tinham qualquer coisa de vida orgânica, com as costelas oblíquas e paralelas, formadas pelas beiras elevadas e, aqui ou ali, um tanto despegadas, da capa, com as veias expostas que pareciam pulsar, com as pequenas asperezas da pele, e com o jogo da luz sobre as suas superfícies e as suas arestas. Hans Castorp formulou esta impressão:

– Um charuto desses tem vida. Respira, literalmente. Lá em casa me deu na veneta guardar o Maria numa caixa de folha, hermeticamente fechada, para protegê-lo da umidade. O

senhor me acredita que ele morreu? Dentro de uma semana pereceram todos, e o que sobrou foram cadáveres com cheiro de couro.

E ambos trocaram as suas experiências acerca da melhor maneira de conservar charutos, sobretudo os importados. O conselheiro apreciava muito esse último tipo, e de preferência fumaria Havanas pesados, mas infelizmente não os podia suportar. Dois pequenos Henry Clay, cujos encantos fruíra durante certo sarau, quase o haviam mandado à outra vida. – Fumei-os com o café – contou –, um após outro, sem prestar atenção. Mas quando terminei, comecei a me perguntar o que se estava passando comigo. Eu me sentia diferente; era uma sensação totalmente estranha, que eu nunca antes experimentara. Já não foi fácil chegar até em casa, e depois não acreditei nos meus próprios olhos. Tinha as pernas geladas, sabe? Um suor frio por todo o corpo; o rosto branco como um lençol; o coração com toda espécie de crises; o pulso ora fininho que nem um fio e mal perceptível, ora galopando a rédea solta; compreende? E o cérebro numa agitação louca... Eu tinha certeza de que dançava a minha última dança. Falo em dança, porque é o termo que então me ocorreu, e que empreguei, falando com meus botões, para caracterizar o meu estado. Pois, no fundo, achei a coisa formidável; pareceu-me uma verdadeira festa, embora eu tivesse um medo terrível. Mais exatamente, eu era todo medo, dos pés à cabeça. Olhe, o medo e a alegria não se excluem, como todo mundo sabe. Um rapaz que está a ponto de possuir pela primeira vez uma garota também treme de medo, e ela, não menos. E todavia se desmancham de prazer. Bem, eu quase me teria desmanchado igualmente. Com o peito arfando, comecei a dançar aquela última dança. Mas a Mylendonk, com as suas aplicações, conseguiu desembriagar-me. Compressas geladas, fricções a escova, uma injeção de cânfora, e assim me salvaram para a humanidade.

Hans Castorp, sentado, na sua qualidade de paciente, contemplava o médico com uma expressão que demonstrava a atividade do seu cérebro. Notou que os olhos azuis, proeminentes, de Behrens, durante a narrativa se haviam enchido de lágrimas.

– O senhor pinta às vezes, não é verdade, senhor conselheiro? – perguntou de repente.

O médico fingiu-se sumamente surpreso.

– Como? Por quem me toma, moço?

– Desculpe. Assim ouvi dizer em qualquer parte, e por acaso me lembrei disso agora.

– Hum, nesse caso não vou negá-lo. Todos nós temos as nossas pequenas fraquezas. Pois é, confesso que essas coisas me acontecem. Anch'io sono pittore, como costumava dizer aquele espanhol.

– Paisagens? – perguntou Hans Castorp lacônica e condescendentemente, num tom que as circunstâncias o faziam adotar.

– Tudo o que o senhor quiser! – respondeu o conselheiro entre acanhado e jactancioso. –

Paisagens, naturezas-mortas, animais... Quando se é homem, não se tem medo de nada.

– E retratos?

– Ora, já me sucedeu pintar um retrato. O senhor quer encomendar o seu?

– Ah, ah! Não, mas seria muito gentil da sua parte, senhor conselheiro, se qualquer dia nos mostrasse os seus quadros.

Após ter lançado ao primo um olhar cheio de surpresa, Joachim, por sua vez, apressou-se a afirmar que ele também achava isso muito gentil.