A Montanha Mágica
Trata-se. de saber se ele poderá partir na terça-feira.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
reduzidos à tarefa de vencer o tempo. Duas e quinze equivalem então a duas e meia; equivalem até mesmo a três horas, pelo fato de estarem bem encaminhadas. Os trinta minutos, considerados como um prelúdio à hora que vai das três às quatro, são descontados intimamente, como se costuma fazer nessas circunstâncias. E dessa forma a duração do grande repouso reduzia-se, afinal de contas e em definitivo, a uma hora apenas, que, além do mais, se via diminuída, aparada e, por assim dizer, apostrofada pouco antes do seu fim. O apóstrofo era o Dr. Krokowski.
Sim; durante a ronda que o Dr. Krokowski fazia sozinho à tarde, já não contornava o quarto de Hans Castorp. O jovem figurava agora no balanço; deixara de ser intervalo e hiato; fazia parte dos pacientes; era preciso interrogá-lo, em vez de negligenciá-lo, como lhe acontecera durante tanto tempo, para o seu descontentamento ligeiro e secreto, mas quotidiano e sensível.
Fora na segunda-feira que o Dr. Krokowski aparecera pela primeira vez no quarto do nosso herói. Usamos o termo “aparecer” como adequado, dada a impressão estranha e mesmo um tanto horrível que Hans Castorp não pôde evitar naquela ocasião. Abandonara-se ele a um cochilo, ou meio cochilo, quando, num sobressalto, deu pela presença do assistente, que se achava no quarto sem ter entrado pela porta, e se aproximava dele, vindo de fora. Pois o médico tomara o caminho, não pelo corredor, mas sim pela sacada, entrando pela porta aberta, de maneira que dava a idéia de ter chegado pelos ares. Em todo caso, surgira de repente ao pé da cama de Hans Castorp, pálido, vestido de preto, espadaúdo e atarracado, o apóstrofo da hora, e por entre a barba bipartida haviam-se exibido, num sorriso enérgico, os dentes amarelados.
– O senhor parece surpreendido em me ver aqui, Sr. Castorp – dissera o Dr. Krokowski com uma brandura de barítono, arrastando as palavras e falando, inegavelmente, de modo um tanto afetado, com um erre exótico, palatal, no qual não carregava, mas que emitia com um simples golpe de língua logo atrás dos incisivos superiores. – Limito-me a cumprir um dever agradável, verificando se tudo vai bem por aqui. Suas relações conosco entraram numa nova fase.
Da noite para o dia, o visitante transformou-se num camarada. – A palavra “camarada” causara em Hans Castorp uma leve inquietação. – Quem teria pensado... – gracejou o Dr. Krokowski jovialmente – quem teria pensado nisso, da primeira vez que tive a honra de saudá-lo e o senhor corrigiu minha opinião errônea – era, então, errônea –, dizendo que gozava a mais perfeita saúde!
Acho que, naquela ocasião, manifestei qualquer coisa parecida com uma dúvida, mas asseguro-lhe que não quis aludir a uma coisa dessas. Não desejo fazer-me mais clarividente do que sou. Não tinha em mente nenhum lugar úmido; falava num sentido diferente, mais geral, mais filosófico.
Expressei as minhas dúvidas quanto à possibilidade de serem compatíveis os conceitos “homem”
e “saúde perfeita”. E ainda hoje, mesmo após o resultado do seu exame, não posso, segundo as minhas opiniões, e discordando do meu prezado chefe, conceder a esse lugar úmido aí – e tocou com a ponta do dedo levemente o ombro de Hans Castorp – o primeiro plano do nosso interesse. Para mim, ele não passa de um fenômeno secundário... O que é orgânico é sempre secundário...
Hans Castorp estremecera.
– ...e por isso é a sua gripe, aos meus olhos, um fenômeno de terceira ordem –
acrescentou o Dr. Krokowski com muita displicência. – Como vai ela? O descanso na cama terá, certamente, um efeito rápido e benéfico. Quais são as suas temperaturas de hoje? – E dali em diante, a visita do Dr. Krokowski assumira o caráter de uma simples e inofensiva formalidade, caráter que guardaram todas as demais visitas, nos dias e nas semanas que a seguiram. O Dr.
Krokowski chegava faltando quinze para as quatro ou um pouquinho mais cedo, entrava pela sacada, cumprimentava à sua maneira enérgica e jovial o paciente acamado, fazia as mais rudimentares perguntas profissionais, entabulava, às vezes, uma breve conversa de natureza mais pessoal, largava algumas pilhérias cheias de camaradagem – e embora tudo isso não deixasse de encerrar uma certa dose de algo problemático, terminamos por nos acostumar, quando se mantém nos limites convenientes. Assim, Hans Castorp dentro em breve não encontrava mais nada a objetar às aparições periódicas do Dr. Krokowski, uma vez que faziam parte do dia normal e apostrofavam a hora do grande repouso.
Eram, pois, quatro horas, quando o assistente se retirava pela sacada; quatro horas, isto é, plena tarde. De súbito, achava-se Hans Castorp em plena tarde, que, por sua vez, não se demorava em avizinhar-se da quase noite: quando acabavam de tomar o chá, na sala de refeições e no quarto 34, já eram perto de cinco horas, e até que Joachim voltasse do seu terceiro passeio obrigatório, e fosse novamente ter com o primo, já seria tão próximo das seis, que, numa conta redonda, o repouso até o jantar se limitaria, mais uma vez, a uma hora apenas, de forma que o tempo constituía um adversário facílimo de vencer, para quem tivesse a cabeça repleta de pensamento e dispusesse, além disso, de todo um Orbis pictus na mesinha-de-cabeceira.
Joachim despedia-se para ir comer. Traziam o jantar. O vale, havia muito, enchera-se de sombras, e enquanto Hans Castorp comia, espalhava-se a olhos vistos a escuridão pelo quarto branco. Terminada a refeição, permanecia ele recostado no travesseiro, diante da mesinha de conto de fadas, então vazia, e contemplava o crepúsculo que se acentuava rapidamente, o crepúsculo desse dia que dificilmente se deixava distinguir do da véspera e do de oito dias atrás.
Já era noite, e mal passara a manhã. O dia subdividido, artificialmente abreviado, desagregara-se, desvanecera-se à vista dele, conforme verificava, cheio de agradável surpresa, ou talvez um tanto pensativo; pois ainda não se achava na idade em que a gente se horroriza ante essa descoberta.
Para ele era apenas como se nunca tivesse deixado de contemplar esse mesmo crepúsculo.
Um dia – podia ser o décimo ou o décimo segundo, desde que Hans Castorp se deitara na cama –, a essa hora, isto é, antes que Joachim tivesse voltado do jantar e da reunião, bateram à porta do quarto. À ordem de “Entre!”, que Hans Castorp deu em voz curiosa, surgiu no limiar Lodovico Settembrini, e de golpe se fez no quarto uma claridade deslumbrante. Pois o primeiro movimento do visitante, ainda antes de fechar a porta, fora acender a luz do teto, que, refletida pelo branco das paredes e dos móveis, envolvia imediatamente o aposento numa luminosidade trêmula.
Dentre todos os pensionistas, o italiano era o único de quem Hans Castorp, nesses dias, pedira especial e expressamente notícias a Joachim. Este não deixava de lhe relatar as pequenas ocorrências e modificações da vida quotidiana do estabelecimento, cada vez que se sentava, por dez minutos, na beira da cama, o que se dava dez vezes por dia. As perguntas que Hans Castorp lhe fizera haviam sido de caráter geral e impessoal. A curiosidade de jovem solitário levava-o a perguntar se, porventura, tinham chegado novos hóspedes, ou se partira uma das fisionomias conhecidas; parecia satisfazê-lo a resposta de que só aquilo sucedera. Chegara um “novo”, um moço de rosto esverdeado e cavo, que recebera um lugar à mesa da Srª. Iltis e da Srta. Levi, aquela da tez de marfim, logo à direita da mesa dos primos. Ora, Hans Castorp esperaria pacientemente a oportunidade para vê-lo. Então, não se fora ninguém? Joachim disse que não, baixando os olhos. Mas teve que responder a essa pergunta repetidas vezes, de dois em dois dias, pouco mais ou menos, e isso apesar de ter acabado por constatar, de uma vez por todas, e com alguma impaciência na voz, que segundo estava informado ninguém tencionava partir, e que não era costume ali partir assim sem mais nem menos.
No que tocava a Settembrini, porém, Hans Castorp solicitara informações especiais.
Desejara saber o que ele “dissera disso”. Disso o quê? “De eu estar deitado aqui e ser tratado como doente, ora essa!” Com efeito, Settembrini manifestara uma opinião, ainda que laconicamente. Logo no dia do desaparecimento de Hans Castorp, aproximara-se de Joachim, a fim de saber onde se achava o visitante; parecera disposto a receber a notícia da sua partida. Ao ouvir as explicações de Joachim, proferira apenas duas palavras italianas; dissera primeiro “Ecco!”
e depois “Poveretto!”, o que significava “Está vendo?”e “Coitadinho!” (não eram precisos maiores conhecimentos de italiano do que possuíam os dois jovens para compreender o sentido dessas exclamações). “Por que poveretto?”, perguntara Hans Castorp. “Afinal, ele também se acha amarrado aqui em cima, com a sua literatura que consta de humanismo e de política, e pouca coisa pode fazer em prol dos interesses da vida terrena. Que ele deixe de se compadecer de mim do alto da sua importância. Voltarei à planície ainda antes dele.”
E agora achava-se o Sr. Settembrini no quarto bruscamente iluminado. Hans Castorp, que se apoiara sobre um cotovelo e se virará em direção à porta, reconheceu-o, piscando os olhos, e corou ao fazê-lo. Como sempre, Settembrini usava o seu espesso paletó com as grandes lapelas, um colarinho meio puído, e as calças de tecido xadrez. Tendo apenas terminado a refeição, trazia, conforme o seu hábito, um palito entre os dentes. As comissuras da boca, por baixo da bela curva do bigode, entesaram-se, exibindo o conhecido sorriso fino, seco e crítico.
– Boa noite, engenheiro! O senhor me dá licença para visitá-lo? Sim? Nesse caso é indispensável a luz... Desculpe a minha arbitrariedade! – disse apontando para a lâmpada do teto com um gesto elegante da mãozinha. – O senhor estava meditando? Absolutamente não lhe quero perturbar os pensamentos. Acho mesmo uma tendência para a reflexão plenamente justificada no seu caso, e para conversar o senhor dispõe, afinal de contas, do seu primo. Bem vê que tenho perfeita consciência da minha superfluidade. Contudo, estamos convivendo aqui num espaço exíguo, e assim se cria uma simpatia de homem para homem, uma simpatia espiritual, uma simpatia do coração... Já faz uma semana inteira que não o vejo. Realmente, eu já pensava que o senhor tivesse partido, quando vi o seu lugar vazio, lá embaixo, no refeitório. O tenente me informou melhor – ou devo dizer pior, sem pecar pela falta de cortesia... Numa palavra, como vai o senhor? Que anda fazendo? Como se sente? Espero que não esteja muito abatido.
– Ah! Sr. Settembrini, é o senhor? É muito amável da sua parte. “No refeitório”? Ah, ah!
Já está gracejando outra vez. Sente-se, por favor. Absolutamente não me incomoda. Eu estava deitado assim e me deixara levar pelos pensamentos – talvez seja até exagerado falar de pensamentos. Era simples preguiça o que me impedia de acender a luz. Muito obrigado, subjetivamente sinto-me mais ou menos bem. O repouso na cama curou-me quase completamente aquele resfriado, mas, conforme todos me dizem, isso era apenas um fenômeno secundário. A temperatura, por sua vez, ainda não é normal, às vezes 37,5, outras 37,7. Nesse ponto, nada se modificou nos últimos dias.
– O senhor mede regularmente a temperatura?
– Sim, senhor. Seis vezes por dia, como todos aqui em cima. Ah, ah! O senhor me desculpe, mas eu me rio ainda da denominação de “refeitório” que deu à nossa sala de refeições.
Assim a chamam nos conventos, não é? Com efeito, isto aqui tem qualquer coisa de um convento. Nunca estive num convento, mas creio que deve ser bastante parecido. Também já sei as “regras” de cor e observo-as minuciosamente...
– Como um frade piedoso. Pode-se dizer que o senhor terminou o noviciado e acaba de professar. Meus mais solenes votos de felicidade! O senhor já fala de “nossa sala de refeições”!
Aliás, não quero ferir sua dignidade de homem, mas o senhor me lembra antes uma freirazinha do que um monge, uma pequena noiva de Cristo, recém-tonsurada, inocentinha, com os grandes olhos de uma vítima imolada. Em outros tempos já vi esse tipo de ovelhinhas, e nunca... nunca sem me entregar a um certo sentimentalismo. Ah, sim, sim! O senhor seu primo me contou. O
senhor se fez examinar no último instante.
– Porque me sentia febril... Veja, Sr. Settembrini, com um catarro destes, eu teria chamado o nosso médico, lá na planície. E aqui, onde a gente se acha por assim dizer na fonte, onde há dois especialistas na casa... teria sido ridículo...
– Claro, claro! E o senhor já tinha tomado a temperatura antes que recebesse ordem de fazê-lo. De resto já lhe haviam dado um conselho nesse sentido logo depois da sua chegada. Foi a Mylendonk quem lhe impingiu o termômetro?
– Impingiu, como? Já que eu tinha necessidade de termômetro, comprei um.
– Compreendo. Um negócio absolutamente correto. E quantos meses lhe pespegou o chefe?... Grande Deus, esta pergunta já lhe fiz uma vez! O senhor se lembra? Acabava de chegar.
Respondeu-me com tanta segurança...
– Claro que me lembro, Sr. Settembrini. Depois, passei por muitas experiências novas, mas ainda me lembro como se fosse hoje. O senhor estava tão divertido... Nomeou o Dr.
Behrens juiz do inferno... Radamés... Não, espere! o nome era diferente...
– Radamanto? Pode ser que, de passagem, o tenha chamado assim. Não me lembro de tudo o que em determinada ocasião brota da minha cabeça.
– Radamanto, isso mesmo! Minos e Radamanto! Aquela vez também nos falou em Carducci...
– Perdão, meu caro amigo, deixemos este nome de lado. No momento, ele soa muito estranho na sua boca.
– Como quiser – riu-se Hans Castorp. – Em todo caso foi por seu intermédio que aprendi muita coisa a respeito dele. Sim, então eu não suspeitava ainda de nada, e respondi ao senhor que tencionava passar três semanas aqui; não tinha nenhuma idéia do resto. A Kleefeld acabava de me assobiar com o pneumotórax, e eu estava boquiaberto. E logo naquele primeiro dia já tinha a impressão de estar com febre, pois o ar daqui é bom não somente contra a doença, mas também para ela. Às vezes precipita a sua irrupção, e quem sabe se isso não é necessário para que se realize a cura.
– Uma hipótese fascinante! Será que o Dr. Behrens também lhe falou daquela teuto-russa que tivemos aqui durante cinco meses no ano passado... não, no ano retrasado? Não? É o que deveria ter feito. Uma senhora simpática, de origem teuto-russa, casada, jovem mãe. Vinha do leste, linfática, anêmica, e parece que havia também qualquer coisa mais grave. Bem, ela passa aqui um mês e logo começa a lamentar-se de que se sente mal. Paciência, paciência! Decorre outro mês, e ela continua afirmando que, longe de estar melhor, anda cada vez pior. Explicaram-lhe que unicamente o médico era capaz de julgar como o paciente anda; ela só podia dizer como se sentia, e isso tinha pouca importância. E quanto ao seu pulmão, os doutores disseram estar satisfeitos. Ora, ela se cala, prossegue com o tratamento, e perde peso, semana após semana. No quarto mês desmaia durante os exames. “Não faz mal”, declara Behrens. “Estou muito contente com o estado do pulmão.” Mas, no quinto mês, ela se sente incapaz de caminhar, e escreve uma carta ao marido, lá longe no leste, e Behrens recebe uma carta dele, com as palavras “pessoal” e
“urgente” no envelope, numa letra enérgica. Eu mesmo vi. “Pois é”, diz o Behrens então, dando de ombros, “parece que ela não suporta o nosso clima.” A mulher ficou fora de si. “O senhor deveria ter-me dito isso antes”, gritou. “Sempre tive essa impressão. Eu me arruinei aqui!”
Esperemos que em companhia do marido, lá no leste, ela tenha recobrado as forças.
– Que maravilha! O senhor narra admiravelmente bem, Sr. Settembrini. Cada palavra é mesmo plástica. Também ri muitas vezes a sós da história que nos contou sobre aquela mocinha que tomou um banho no lago, e à qual tinham que dar a “irmã muda”. Sim, senhor, acontece muita coisa neste mundo! A gente nunca pára de aprender. Quanto ao meu próprio caso, não existe ainda nenhuma certeza. O conselheiro diz que encontrou uma coisinha no meu pulmão.
Eu mesmo ouvi, quando me percutiu, os lugares antigos onde estive enfermo sem saber. E agora parece que descobriu outro foco fresco, não sei onde... Acho, aliás, que a palavra “fresco” soa meio esquisita com relação a essas coisas. Mas, por enquanto, só se trata de observações acústicas, e não chegaremos a um diagnóstico seguro antes que eu volte a levantar-me e se proceda à radioscopia e à radiografia. Então, sim, teremos um resultado definitivo.
– Acha mesmo? O senhor sabe que a chapa fotográfica apresenta, freqüentemente, manchas que são interpretadas como cavernas, embora sejam apenas sombras, e que em lugares onde há alguma coisa às vezes não mostra mancha nenhuma? Madonna, a chapa fotográfica!
Esteve aqui um jovem numismata que tinha febre, e como tivesse febre, foram vistas, nitidamente, umas cavernas na chapa fotográfica. Pretenderam até tê-las ouvido. Trataram-no como se tivesse tísica, e no decorrer do tratamento, morreu. A autópsia demonstrou que seu pulmão estava intacto, e que falecera não sei de quê.
– Ora veja, Sr. Settembrini, o senhor fala logo de autópsia. Espero que eu ainda não tenha chegado a esse ponto.
-meu caro engenheiro, o senhor é um pândego!
– E o senhor é muito crítico e muito cético, isto não se discute! Não acredita nem sequer na ciência exata. E a sua própria chapa mostra manchas?
– Mostra, sim.
– E o senhor está realmente um pouco enfermo?
– Sim, infelizmente ando bastante enfermo – tornou o Sr. Settembrini, baixando a cabeça.
Fez-se uma pausa, durante a qual tossiu levemente. Hans Castorp, da sua posição de repouso, contemplou o visitante reduzido ao silêncio. Era como se, com aquelas perguntas muito simples, tivesse refutado e silenciado muita coisa, inclusive a República e o belo estilo. Da sua parte, não fez nada para reavivar a conversa.
Depois de algum tempo, o Sr. Settembrini ergueu-se de novo, sorrindo.
– Diga-me, engenheiro – perguntou –, como é que a sua família recebeu a notícia?
– Que notícia? A do adiamento do meu regresso? Ora, minha família, sabe?, minha família, lá em casa, consta de três tios, um tio-avô e seus dois filhos, cujas relações comigo são, antes, de primos. Outra família não tenho. Sou órfão de pai e mãe desde muito cedo. Como receberam a notícia? Bem, ainda não sabem muita coisa, não sabem mais do que eu mesmo. Logo no começo, quando tive de me meter na cama, escrevi-lhes uma carta, dizendo que estava fortemente resfriado e não podia viajar. E ontem, como já tivesse passado um certo tempo, escrevi outra vez, avisando que a minha gripe despertou a atenção do Dr. Behrens a respeito do meu pulmão, e que ele insistia em que eu prolongasse a minha estadia até que se esclarecesse o caso. Acho que eles se inteiraram de tudo isso com a mais completa calma.
– E o seu emprego? O senhor me falou de um campo de atividades práticas ao qual tencionava dedicar-se em breve.
– Sim, como voluntário. Pedi que por enquanto me desculpassem lá nos estaleiros. O
senhor compreende que ninguém vai se desesperar por causa disso. Eles podem muito bem arranjar-se sem um voluntário.
– Ótimo! Sob esse ponto de vista, tudo está em perfeita ordem. Fleuma em toda a linha!
Em geral são muito fleumáticos, lá no seu país, não é? Mas também enérgicos.
– Ah, sim, enérgicos também, muito enérgicos – confirmou Hans Castorp. Examinou, à distância, a mentalidade da sua terra e verificou que o seu interlocutor a qualificara com acerto. –
Fleumáticos e enérgicos, isso mesmo.
– Bem! – continuou Settembrini. – No caso de o senhor permanecer aqui por mais tempo, não nos faltará uma oportunidade para conhecer o senhor seu tio, quer dizer, o tio-avô.
Sem dúvida ele virá certificar-se do seu estado.
– Nem pense nisso! – exclamou Hans Castorp. – Nunca na vida! Nem dez cavalos conseguiriam arrastá-lo até aqui em cima. Meu tio é de constituição muito apoplética e quase não tem pescoço. Não, senhor! Ele precisa de uma pressão atmosférica razoável. Aqui se sentiria ainda muito pior do que aquela sua senhora teuto-russa; teria toda espécie de chiliques.
– Isso me decepciona. Apoplético, foi o que disse o senhor? Que adiantam então a fleuma e a energia?... Seu tio é rico, não é? O senhor é rico também? Todos são ricos na sua terra.
Hans Castorp sorriu diante dessa generalização do Sr. Settembrini. A seguir tornou a contemplar, da sua posição de repouso, aquele mundo distante, a esfera familiar à qual fora arrebatado. Recordava, esforçava-se por formar uma opinião imparcial, e a isso a distância animava-o e o tornava capaz. Por fim respondeu:
– Ou se é rico, ou não se é. Tanto pior para os que não o são. Eu? Não sou milionário, mas o que possuo está garantido. Sou independente e tenho de que viver. Mas deixemos de falar de mim. Se o senhor tivesse dito: “É preciso ser rico, lá embaixo”, eu estaria de acordo. Pois quando alguém não é rico ou deixa de sê-lo... ai dele! “Aquele sujeito? Será que ainda tem dinheiro?”, perguntam então, textualmente e com essa mesma cara. Ouvi essas palavras umas quantas vezes, e vejo que se gravaram na minha memória. Agora vejo que as estranhei, embora me fossem familiares, pois do contrário não as recordaria. Que acha o senhor? Não, não creio que, por exemplo, o senhor, um homo humanus, se sentisse bem entre nós. Até eu, que, afinal de contas, me criei ali, fiquei às vezes chocado, como percebo agora, apesar de pessoalmente não ter sofrido com isso. Quem não faz servir nos seus banquetes os mais seletos e os mais caros vinhos
não vê a sua casa freqüentada e não consegue casar suas filhas. Aquele pessoal é assim. Deitado aqui como estou, e observando as coisas de certa distância, fico mesmo chocado. Que palavras usou o senhor? Fleumáticos e...? Enérgicos. Sim, senhor, mas que significa isso? Isso significa duro, frio. E que significa duro e frio? Significa cruel. A atmosfera, lá embaixo, é cruel, é inexorável. Quando alguém está deitado como eu, e olha as coisas de longe, sente-se horrorizado.
Settembrini ouviu-o, meneando a cabeça. Continuou assim, até que Hans Castorp chegasse a um término provisório da sua crítica e cessasse de falar. Depois disse com um suspiro:
– Não quero disfarçar as formas particulares que a crueldade natural da vida assume no seio da sociedade do seu país. Seja como for, a acusação de crueldade é uma acusação bastante sentimental. Lá embaixo, o senhor dificilmente a teria empregado, por receio de parecer ridículo perante si mesmo. Com toda a razão abandonou o seu uso aos covardes da vida. Que o senhor se sirva dela agora revela esta desambientação que eu não gostaria de ver intensificar-se, pois quem se habitua ao emprego de tais qualificativos pode facilmente acabar ficando perdido para a vida e para a forma de existência que lhe é inata. Sabe o senhor, meu caro engenheiro, o que quer dizer
“estar perdido para a vida”? Eu, sim, sei. Vejo isso todos os dias aqui. Ao cabo de seis meses, o mais tardar, o jovem que chega aqui (e são quase sempre jovens os que chegam) já não tem outra coisa na cabeça que não o flerte e a temperatura. E depois de um ano, quando muito, nunca mais será capaz de pensar em outra coisa e julgará “cruel”, ou melhor, defeituoso e ignorante qualquer outro pensamento. O senhor gosta de histórias. Eu poderia contar-lhe algumas. Poderia falar-lhe de certo filho e marido que passou onze meses aqui, e a quem conheci. Era um pouco mais velho que o senhor, acho eu, talvez até bastante mais velho. Como ele melhorasse aqui, deram-lhe alta, a título de experiência, e o homem voltou aos braços dos seus. Não eram tios; eram a mãe e a esposa. Durante todo santo dia ficava deitado com o termômetro na boca, e não sabia falar de outra coisa. “Vocês não compreendem isso”, dizia. “É preciso ter vivido lá em cima para saber como as coisas devem ser. Aqui embaixo não existem os conceitos básicos.” Essas queixas só terminaram quando a mãe decidiu o caso. “Volte lá para cima”, disse ela. “Você não presta para mais nada.” E ele voltou mesmo, regressou à “sua terra”. Pois o senhor deve saber que chamam isso aqui de “nossa terra”, os que viveram algum tempo aqui. O homem alienara-se completamente da esposa. Ela não tinha os “conceitos básicos” e preferiu renunciar. Entendeu que ele encontraria na “sua terra” uma companheira com os mesmos “conceitos básicos” e lá ficaria.
Hans Castorp escutara distraidamente. Tinha ainda o olhar cravado na lâmpada cintilante no quarto branco, como em busca da distância. Riu-se um tanto atrasado e disse:
– Ele falou da “sua terra”? Realmente, isso é mesmo um pouco sentimental, como o senhor o qualificou. Pois é, o senhor conhece inúmeras historietas. Eu continuava pensando naquilo que dizíamos, pouco atrás, sobre a dureza e a crueldade. São coisas que, nesses últimos dias, me passaram pela cabeça diversas vezes. Veja, a gente precisa ter uma pele bastante grossa para concordar completamente com a mentalidade do pessoal lá de baixo, na planície, e com perguntas como “Será que ele ainda tem dinheiro?” e com a cara que as acompanha. Quanto a mim, nunca deixei de achar isso pouco natural, embora não seja, propriamente, um homo humanus.
Percebo agora que sempre impliquei com esse comportamento. Talvez haja uma relação entre essa minha atitude e a minha tendência inconsciente para a doença. Eu mesmo ouvi como o Behrens percutiu os lugares antigos, e agora afirma ele ter encontrado um pequeno foco recente.
Essa descoberta surpreendeu-me um pouco, não há como negá-lo, e todavia não posso dizer que me espantei muito. Nunca me senti firme como um rochedo, e como meus pais morreram tão cedo... Sou órfão de pai e mãe, desde criança, sabe?
A cabeça, os ombros e as mãos do Sr. Settembrini esboçaram um gesto contínuo, que, de uma forma jovial e polida, devia representar a pergunta: “Pois então? E daí?”
– O senhor é escritor – prosseguiu Hans Castorp –, é literato. Deve, portanto, ter experiência disso e compreender que, sob essas circunstâncias, não se pode ter um espírito muito
bruto e achar perfeitamente natural a crueldade da gente – das pessoas comuns, sabe?, que passeiam e riem e ganham dinheiro e enchem a pança... Não sei se me expressei...
Settembrini fez uma reverência.
– O senhor quer dizer – explanou – que o contato prematuro e repetido com a morte produz uma disposição fundamental da alma que nos torna sensíveis e melindrosos no que se refere às durezas e às crueldades da indiferente vida coletiva, ou, digamos, ao seu cinismo.
– Exatamente! – gritou Hans Castorp com sincero entusiasmo. – Uma formulação admirável! O senhor pôs os pontos nos ii, Sr. Settembrini. “Com a morte...” Eu sabia que o senhor, como literato...
Settembrini estendeu o braço, inclinando a cabeça para um lado e fechando os olhos, num gesto belo e suave, destinado a interromper o jovem e a pedir-lhe mais uns instantes de atenção. Manteve-se durante vários segundos assim, mesmo depois de Hans Castorp já se ter calado. Este aguardava com certo acanhamento o que aconteceria. Finalmente reabriu os olhos negros, os olhos de tocador de realejo, e disse:
–
Permita-me. Permita-me, engenheiro, que lhe diga e inculque que a única maneira sadia e nobre, aliás, também, como acrescento expressamente, a única maneira religiosa de encarar a morte é compreendê-la e senti-la como uma parte, como um complemento, como uma condição inviolável da vida, ao invés de – o que seria o contrário de sadio, nobre, sensato e religioso -separá-la espiritualmente da vida, de pô-la em oposição a ela e de usá-la como argumento contra ela. Os antigos adornavam os seus sarcófagos de símbolos da vida e da procriação, e até de símbolos obscenos. Para religiosidade antiga freqüentemente coincidiam o sagrado e o obsceno. Esses homens sabiam honrar a morte. A morte é venerável como berço da vida, como regaço da renovação. Mas, separada da vida, torna-se um fantasma, um bicho-papão, e coisa pior ainda. Pois a morte como potência espiritual independente é sumamente devassa, seu atrativo perverso é, sem dúvida, muito forte, e seria, também sem a mínima dúvida, a mais horrorosa aberração do espírito humano querer simpatizar com ela.
Nesse ponto calou-se o Sr. Settembrini. Parou ao chegar a essa generalização e terminou num tom decidido. Levava o assunto a sério, e não falara só para manter a conversação. Evitara dar ao interlocutor uma oportunidade para apanhar o fio e replicar, e, baixando a voz ao fim das suas afirmações, fizera um ponto final. Permanecia sentado, a boca fechada, as mãos postas no colo, mantendo cruzadas as pernas revestidas com a calça de tecido xadrez, e limitando-se a fazer bambolear o pé de cima, que fitava com um olhar severo.
Diante disso, Hans Castorp ficou calado também. Recostando-se no travesseiro de plumas, voltou a cabeça para a parede e tamborilou levemente as pontas dos dedos sobre o acolchoado. Era como se tivesse recebido uma lição, como se o houvessem chamado à ordem e mesmo repreendido. No seu silêncio havia qualquer coisa de obstinação pueril. A interrupção da conversa estendeu-se por bastante tempo.
Finalmente, o Sr. Settembrini reergueu a cabeça e disse com um sorriso:
– O senhor se lembra, engenheiro, de que já tivemos uma discussão semelhante, ou até a mesma? Naquela ocasião – acho que foi durante um passeio – falávamos sobre a doença e a estupidez, cuja combinação o senhor considerava paradoxal, e isso devido ao respeito que devotava à doença. Eu qualifiquei esse respeito de desatino sinistro, com o qual se desonra o pensamento humano, e para grande prazer meu, o senhor não me pareceria totalmente avesso a levar em conta as minhas objeções. Tratamos também da neutralidade e da incerteza intelectual da mocidade, da sua liberdade de escolha, da sua tendência para fazer experiências com todo tipo de pontos de vista, e constatamos que não era nem lícito nem necessário considerar tais experiências opções definitivas, válidas para o resto da vida. Quer o senhor... – e o Sr.
Settembrini, com um sorriso, inclinou-se para a frente, na cadeira, com os pés juntos no chão e com as mãos comprimidas entre os joelhos, avançando levemente a cabeça, numa posição oblíqua... – quer o senhor permitir-me também no futuro... – prosseguiu, e na sua voz vibrava
uma ligeira emoção – que o auxilie um pouco nas suas tentativas e experiências e que exerça uma função de corretivo, quando porventura houver o perigo de determinações funestas?
– Mas como não, Sr. Settembrini! – respondeu Hans Castorp, apressando-se a abandonar a sua atitude tímida e um tanto recalcitrante. Cessou de tamborilar sobre o acolchoado e dirigiu-se ao visitante com amabilidade um tanto perplexa: – Acho sumamente gentil da sua parte...
Pergunto-me, de fato, se eu... Quer dizer, se no meu caso...
– Sine pecunia, sabe? – citou o Sr. Settembrini, levantando-se. – Não quero ser menos generoso do que os outros. – Riram-se ambos. Ouviu-se abrir a porta de fora, e um momento após girou a maçaneta da porta interior. Era Joachim que voltava da reunião da noite. Ao ver o italiano, corou, como acontecera a Hans Castorp pouco antes, e a pele tostada do seu rosto adquiriu um matiz mais escuro.
– Ah, tem visita – disse. – Que bom para você! Fiquei retido lá embaixo. Obrigaram-me a jogar uma partida de bridge. É o que chamam de bridge, oficialmente – acrescentou, dando de ombros. – Em realidade era outra coisa. Ganhei cinco marcos...
– Tomara que você não pegue esse vício! – disse Hans Castorp. – Hum, hum... O Sr.
Settembrini fez-me passar o tempo agradavelmente, enquanto eu esperava pela sua volta.
“Agradavelmente” é aliás uma expressão pouco própria que, a rigor, se pode aplicar ao seu falso bridge. Não, o Sr. Settembrini ocupou-me o tempo de um modo muito mais elevado... Uma criatura decente deveria fazer todos os esforços para sair daqui o mais depressa possível, mesmo porque vocês já começaram a entregar-se à jogatina... Mas, a fim de ter oportunidade de ouvir o Sr. Settembrini com mais freqüência, e para deixar-me ajudar pela sua conversa, quase desejaria ter febre por um tempo indefinido e ficar preso aqui... Qualquer dia acabarão por dar-me uma irmã muda, para que eu não possa enganá-los.
– Eu repito, engenheiro, que o senhor é um pândego – disse o italiano. Despediu-se do modo mais cortês. Ficando a sós com o primo, Hans Castorp deu um suspiro.
– Que mestre-escola! –- exclamou... – Um mestre-escola humanista, não há como negar.
A cada instante me corrige, ora por meio de historietas, ora de forma abstrata. E a conversa com ele leva a tantos assuntos diferentes! Eu nunca teria pensado que se pudesse falar sobre eles ou mesmo compreendê-los. E se o tivesse encontrado lá embaixo, na planície, tenho certeza de que não os compreenderia – acrescentou.
Àquela hora, Joachim costumava permanecer algum tempo em companhia do primo.
Sacrificava para isso dois ou três quartos de hora do seu repouso noturno. Às vezes jogavam xadrez na mesinha de Hans Castorp; Joachim trouxera um jogo e um tabuleiro. Depois, ia buscar seus apetrechos e, com o termômetro na boca, instalava-se na sacada, enquanto também Hans Castorp tomava a temperatura pela última vez, ao acompanhamento de música ligeira, cujos sons subiam de longe ou de perto através do vale perdido na noite. Às dez horas terminava o repouso.
Ouvia-se Joachim; ouvia-se também o casal da mesa dos “russos ordinários”... E Hans Castorp deitava-se de lado, à espera do sono.
A noite representava a metade mais difícil da jornada, pois Hans Castorp despertava freqüentemente e não raras vezes permanecia acordado durante longas horas, fosse porque o calor anormal de seu sangue o impedia de dormir, fosse porque sua disposição e sua capacidade para o adormecimento eram diminuídas devido à sua existência constantemente horizontal. Em compensação, as horas de sono vinham animadas por sonhos variados e cheios de vida, sonhos nos quais podia continuar devaneando depois de desperto. Se o dia se tornava breve pela múltipla subdivisão, à noite era a monotonia amorfa do progresso das horas o que produzia o mesmo efeito. Quando chegava a manhã, constituía uma distração observar como o quarto pouco a pouco se tornava cinzento e se revelava, como os objetos se salientavam e depunham o véu que os envolvera, e como a luz lá fora se acendia com um esplendor ora alegre ora avermelhado e turvo. E assim, inopinadamente, vinha outra vez o momento em que o massagista, batendo à porta com seu enérgico punho, anunciava o reinicio do programa do dia.
Hans Castorp não levara um calendário na viagem, e por isso nem sempre tinha noção exata das respectivas datas. De tempos em tempos pedia ao primo informações a esse respeito, mas Joachim tampouco andava bem orientado nesse sentido. Os domingos, principalmente o do concerto bimensal, o segundo que Hans Castorp passava ali em cima, constituíam, todavia, pontos de referência. Uma coisa era certa: que nesse ínterim o mês de setembro avançara consideravelmente e estava próximo do meio. Desde que Hans Castorp se achava na cama, o tempo frio e nublado dera lugar, lá fora no vale, a uns belos dias de fim de verão, inúmeros dias desses, uma série inteira, de modo que Joachim entrava todas as manhãs de calças brancas no quarto do primo, que não podia reprimir uma sensação de sincera contrariedade, uma contrariedade de sua alma e de seus jovens músculos, diante do fato de se ver impedido de desfrutar um tempo maravilhoso assim. A meia voz dizia até que era uma vergonha deixá-lo inaproveitado. Mas, para acalmar-se, raciocinava então que, mesmo que se levantasse, não poderia passar esse tempo de modo mais prazenteiro, visto a experiência lhe proibir excesso de movimento. E a ampla e escancarada porta da sacada oferecia-lhe, pelo menos, um sabor do brilho quente do ar livre.
No entanto, ao final do prazo que lhe fora imposto, o tempo mudou novamente. Do dia para a noite tornou-se brumoso e frio. O vale desapareceu numa nevada úmida, e o hálito seco da calefação a vapor encheu o quarto. Assim estava o dia em que Hans Castorp, à visita matinal dos médicos, lembrou o conselheiro áulico de que fazia três semanas desde que se acamara, e pediu licença para levantar-se.
– Puxa! Já terminou? – disse Behrens. – Deixe ver! Realmente é exato. Meu Deus, como a gente envelhece! Bem, durante todo esse tempo o senhor não fez grandes progressos. Como?
Ontem esteve normal? Sim, com exceção da temperatura das seis da tarde. Pois então, Castorp, não quero ser cruel. Vou devolvê-lo à sociedade humana. Levante-se e passeie, meu amigo.
Dentro dos limites indicados, naturalmente! Dentro em breve faremos um retrato do seu interior.
Tome nota! – acrescentou ao sair, dirigindo-se ao Dr. Krokowski, enquanto com o polegar enorme apontava por cima do ombro para Hans Castorp e fitava o assistente pálido, com os olhos azuis, injetados e lacrimosos... E Hans Castorp abandonou o “estábulo”. Com a gola do sobretudo levantada e com galochas nos pés, voltou a acompanhar o primo até o banco ao lado do curso de água, e no regresso, não sem ventilar o problema de saber por quanto tempo o Dr. Behrens o teria deixado na cama, se ele mesmo não o tivesse avisado do fim do prazo. E Joachim, com olhar melancólico, abriu a boca como para proferir um lamento desesperado, e fez no ar um gesto indefinido.
“Deus meu, eu vejo!”
Passou-se uma semana antes que Hans Castorp fosse convidado, por intermédio da Superiora, a Srta. von Mylendonk, a apresentar-se no gabinete de radiologia. Não quisera apressar o curso das coisas. Reinava grande azáfama no Berghof. Os médicos e o pessoal tinham, evidentemente, muito que fazer. Nos últimos dias haviam chegado novos pensionistas: dois estudantes russos com bastas cabeleiras e com camisas negras, fechadas, que não deixavam a descoberto a menor parte da roupa-branca; um casal holandês, que recebera lugares à mesa de Settembrini; um mexicano corcunda, que assustava os comensais com seus espantosos ataques de dispnéia, durante os quais se agarrava, com mãos de ferro, aos vizinhos, homem ou mulher, forçando-os, apesar de toda a resistência horripilada que lhe opusessem, e dos gritos de socorro que lançassem, a participarem da sua própria angústia. Numa palavra, a sala de refeições estava quase repleta, se bem que a temporada de inverno não começasse antes de outubro. E a pouca gravidade do caso de Hans Castorp, seu grau de enfermidade, mal lhe davam o direito de exigir atenção especial. A Srª. Stöhr, por exemplo, por mais estúpida e inculta que fosse, estava indubitavelmente muito mais enferma do que ele, e nem era bom falar do Dr. Blumenkohl. Seria faltar a todo senso de hierarquia e de distância não observar, no caso de Hans Castorp, uma
reserva modesta, tendo-se ainda em conta que tal mentalidade estava de acordo com o espírito da casa. Os doentes leves não gozavam de muita consideração, como Hans Castorp deduzira de conversas que ouvira. Falava-se deles com desdém, conforme a escala de valores ali usada; eram olhados de través, não só por parte dos doentes graves e gravíssimos, senão também por aqueles que eram igualmente “leves”. Agindo assim, menosprezavam na verdade a si próprios, mas ao mesmo tempo salvaguardavam sua dignidade, por se submeterem à referida escala de valores.
Isso é apenas humano. “Bah, esse sujeito!”, diziam um do outro. “Ele não sofre de nada, no fundo. Mal tem o direito de achar-se aqui. Não tem sequer uma caverna...” Tal era o espírito que reinava no sanatório; era, em certo sentido, aristocrático, e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza. Cada terra com seu uso, reza o provérbio. Manifestam pouca cultura os viajantes que zombam dos costumes e dos conceitos dos povos que os acolhem; há muitos tipos de qualidades suscetíveis de conferir honra a quem as possui. Mesmo em relação a Joachim, Hans Castorp observava um certo respeito e um quê de cerimônia, não só por ser o primo paciente mais antigo e seu guia e cicerone nesse mundo novo, mas antes de tudo por se tratar, sem a menor dúvida, do caso mais grave. Assim sendo, era compreensível a tendência de todos de tirar o maior efeito possível das particularidades do seu caso, até mesmo exagerando sua gravidade, na intenção de pertencer à aristocracia ou de se avizinhar dela. O próprio Hans Castorp, quando interrogado à mesa, acrescentava alguns décimos à temperatura verificada”, e não deixava de se sentir lisonjeado quando o advertiam com o dedo, como a um grande espertalhão. Mas, não obstante essa pequena gabolice, ainda continuava sendo personagem secundária, de maneira que paciência e discrição constituíam a atitude que lhe convinha.
Reassumira, ao lado de Joachim, o estilo de vida das três primeiras semanas, aquele estilo já familiar, monótono e estritamente regulamentado; e tudo corria à maravilha desde o primeiro dia, como se jamais tivesse sofrido uma interrupção. Com efeito, esta fora insignificante, como Hans Castorp notou logo por ocasião do seu reaparecimento à mesa. Verdade é que Joachim, ligando deliberadamente uma importância especial a esse tipo de fatos marcantes, empenhara-se em adornar com algumas flores a mesa do primo ressuscitado. Mas a recepção por parte dos comensais foi pouco festiva e não se distinguiu quase em nada de outras, anteriores, precedidas de uma separação de três horas e não de outras tantas semanas. Não porque sentissem indiferença para com a sua pessoa singela e simpática, nem porque estivessem por demais ocupados consigo próprios, isto é, com seus tão interessantes corpos, mas somente pelo fato de não terem consciência do intervalo. E Hans Castorp podia segui-los sem esforço por esse caminho, já que se encontrava no seu lugar à extremidade da mesa, entre a professora e Miss Robinson, da mesma forma como se aí tivesse comido pela última vez na véspera.
Se em sua própria mesa não se fazia grande caso do fim do seu retiro, como poderia preocupar-se com ele o resto da sala? Ali absolutamente ninguém o percebera, com a única exceção de Settembrini, que ao final da refeição se aproximara para uma saudação amistosa e brincalhona. Hans Castorp sentia-se, na verdade, inclinado a ver ainda uma exceção, a cujo respeito não nos arriscamos a opinar. Afirmava de si para si que Clávdia Chauchat dera pelo seu reaparecimento, logo quando entrara, atrasada como sempre, após ter batido a porta envidraçada; tinha certeza de que os olhos estreitos da russa o haviam fitado com um olhar ao qual ele respondera com outro; apenas se sentara, Mme. Chauchat voltara-se de novo para o lado dele, sorrindo por cima do ombro, como fizera três semanas atrás, antes de ele ter ido ao exame médico. E esse gesto fora tão pouco dissimulado, tão desprovido de consideração – tanto de consideração para com ele quanto para com os demais pensionistas –, que Hans Castorp vacilava sobre se devia sentir-se deliciado ou tomar essa atitude por um sinal de desprezo e irritar-se por causa dela. Fosse como fosse, seu coração contraíra-se convulsivamente sob a influência desses olhares, que de um modo fantástico e inebriante tinham negado e desmentido as conveniências segundo as quais se ignoravam mutuamente; contraíra-se quase que dolorosamente, já no momento em que se fechara com estrondo a porta envidraçada, momento esse que Hans Castorp aguardara com respiração ofegante.
Para completarmos o nosso relato, convém acrescentar que as relações interiores entre Hans Castorp e a enferma da mesa dos “russos distintos”, a parte que seus sentidos e seu espírito modesto tomavam nessa pessoa de estatura média, de andar felino e de olhos de quirguiz, numa palavra, sua paixão -seja permitido o emprego dessa palavra, embora ela constitua um termo lá de baixo, da planície, e possa despertar a idéia de ser aplicável ao nosso caso aquela cançãozinha
“No fundo de minha alma ecoa...” –, convém acrescentar, pois, que as referidas relações haviam feito grandes progressos durante o seu retiro. A imagem de Mme. Chauchat pairara diante dos olhos do jovem, quando, acordado de madrugada, contemplara o quarto que lentamente se delineava, ou quando, de tardezinha, fixara o olhar no crepúsculo cada vez mais denso – no próprio momento em que Settembrini entrara ali, acendendo subitamente a luz, flutuara essa imagem à sua frente com a mais absoluta nitidez, e fora por isso que Hans Castorp corara ao ver o humanista. Durante as diversas horas do dia subdividido, os pensamentos do enfermo haviam girado em torno da boca de Mme. Chauchat, das maçãs de seu rosto, de seus olhos, cuja cor, forma e posição lhe laceravam a alma, de suas costas lânguidas, da vértebra da nuca, que ressaltava no decote da blusa, dos braços aureolados pela finíssima gaze – e se silenciamos sobre o fato de ele se ter servido desse meio para fazer as horas passar tão depressa, foi porque participamos, simpaticamente, do desassossego de consciência que assomava em meio à assustadora felicidade causada por essas imagens e visões. Sim, existiam mesclados com ela o susto, o abalo psíquico, a esperança que se perdia no infinito, no vago, na mera aventura, existiam alegria e medo, um medo indefinível, mas que, às vezes, comprimia o coração do jovem – o coração no sentido próprio e fisiológico –, fazendo com que ele levasse uma das mãos à altura desse órgão e a outra à testa, qual,uma viseira por cima dos olhos, e murmurasse: