A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 1 de 13 · parte 2/4

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A Montanha Mágica

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O pequeno levantava os olhos para a fina e comprida cabeça do ancião, que voltava a inclinar-se para a bacia, como fizera naquele momento já longínquo a que se referia. E se apoderava do menino uma sensação ia muitas vezes experimentada, a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era reiteração tanto como vertiginosa monotonia – impressão que ele conhecia de outras ocasiões, e cuja volta esperara e desejara. Era em parte pelo prazer de senti-la mais uma vez que pedia ao avô que lhe mostrasse a relíquia da família, na sua imutável progressão.

Quando, mais tarde, o jovem se examinava a si mesmo, verificava que a imagem do avô se lhe gravara na memória com muito maior nitidez, intensidade e significação do que a de seus próprios pais; isso talvez se devesse a alguma simpatia ou afinidade física particular, pois o neto se parecia com o avô, tanto quanto um fedelho de faces rosadas pode ter semelhança com um septuagenário encanecido e esclerótico. Mas, antes de tudo, esse fato falava em favor do ancião, que incontestavelmente fora a figura mais característica, a personalidade pitoresca da família. No que se refere aos assuntos públicos, o tempo, já muito antes do traspasse de Hans Lorenz Castorp, passara por cima da sua maneira de ser e pensar. Fora ele um homem profundamente cristão, membro da Igreja Reformista, e de opiniões rigorosamente tradicionalistas; empenhara-se em manter de pé a restrição aristocrática da única classe social capaz de produzir os futuros governantes, e o fizera com tamanha tenacidade como se vivesse no século XIV, quando o artesanato, vencendo a encarniçada resistência do patriciado livre, conquistara o direito de voto e assento no Conselho Municipal. O velho sentia grande dificuldade em adaptar-se a inovações.

Sua vida coincidia com uma época de rápido desenvolvimento e múltiplas revoluções, com decênios de progresso em marcha forçada, que haviam exigido muita audácia e grande abnegação nos negócios públicos. Mas Deus sabe que não era culpa do velho Castorp que o espírito moderno obtivesse seus conhecidos e brilhantes triunfos. Ligara ele maior importância às tradições ancestrais e às instituições antigas do que às arriscadas ampliações do porto e outros arremedos ímpios de cidades grandes; refreara e se opusera, sempre que lhe era possível, e se fosse por ele, a administração seria ainda hoje tão idílica e antiquada como o seu próprio escritório.

Era assim que o ancião, em tempos de vida e mesmo depois, se apresentava aos olhos de seus concidadãos, e posto que o pequeno Hans Castorp nada entendesse de assuntos públicos, os olhares silenciosos e contemplativos da criança faziam pouco mais ou menos as mesmas observações; observações mudas, despidas de crítica, porém cheias de vida, e que mais tarde,

como reminiscência consciente, conservavam o seu caráter de irrestrita aprovação, hostil a qualquer análise verbal. Como já dissemos, havia nisso um quê de simpatia, aquele laço íntimo, aquela afinidade de almas que não raras vezes salta uma geração. Os filhos e os netos olham para admirar, e admiram na intenção de aprender e aperfeiçoar, o que se acha preparado na sua massa hereditária.

O senador Castorp era alto e macilento. Os anos lhe haviam curvado os ombros e a nuca, mas ele fazia esforço intenso para compensar isso por uma postura muito ereta. Ao assumi-la, numa dignidade penosamente mantida, contraía-se-lhe a boca, cujos lábios já não se apoiavam em dentes, repousando sobre as gengivas vazias, uma vez que o ancião punha a dentadura postiça apenas para comer. E justamente esse esforço, aumentado talvez pelo empenho de esconder um incipiente tremor de cabeça, é que determinava aquela atitude austera e tesa, com o queixo escorado pelo nó da gravata, atitude que tanto agradava ao pequeno Hans Castorp.

O senador apreciava a caixinha de rapé – usava uma oblonga, de tartaruga, lavrada de ouro – e servia-se de lenços vermelhos, cujas pontas costumavam pender do bolso traseiro da sobrecasaca. Se bem que isso não deixasse de ser uma nota um tanto cômica da sua personalidade, parecia perfeitamente admissível em consideração à idade, como uma negligência que a velhice ora se pode permitir consciente e humoristicamente, ora acarreta sem que a vítima, numa ignorância respeitável, se dê conta dela. Seja como for, era esse o único sinal de fraqueza que o olhar arguto do pequeno Hans Castorp jamais observara na pessoa do avô. Mas, para o menino de sete anos tanto como para a recordação do adulto, a imagem cotidiana e familiar do ancião não constituía a genuína e verdadeira. Na sua realidade autêntica, o avô tinha aspecto diferente, muito mais belo e muito mais certo do que o de todos os dias: era assim como aparecia num retrato de tamanho natural, que antigamente estivera pendurado na sala de estar dos pais do menino, e depois emigrara com ele para a Rua da Esplanada, onde recebera o seu lugar por cima do sofá de seda vermelha, na sala de recepção.

O retrato mostrava Hans Lorenz Castorp vestido com os trajes oficiais de um vereador da cidade – trajes dos cidadãos austeros e até piedosos de uma era desaparecida, e que essa comunidade ao mesmo tempo conservadora e progressista levara consigo na sua marcha através das épocas, reservando-os ao uso festivo, a fim de confundir, dessa forma cerimoniosa, o passado com o presente, o presente com o passado, e de evidenciar a perpétua continuidade da sua história, como que confirmando a veneranda solidez da sua firma comercial. Sobre um chão coberto de lajes avermelhadas, diante de um fundo de pilares e arcos ogivais, o senador Castorp aparecia de pé, com o queixo inclinado e as comissuras da boca apontando para baixo, cravando nas lonjuras a mirada contemplativa dos olhos azuis, empapuçados. A veste talar, aberta na frente, exibia nas orlas um largo debrum de peles. De umas meias mangas amplas, estufadas e adornadas de galões, saíam outras mangas, mais justas, de pano liso. Punhos de renda cobriam as mãos até a metade. As pernas finas do ancião estavam revestidas de meias de seda preta, e os pés, calçados de sapatos com fivelas de prata. Rodeava-lhe o pescoço uma golilha larga como um prato, engomada e disposta em numerosas pregas, que o queixo aplanava na parte dianteira, e que se levantava de ambos os lados. Por baixo dela caía sobre o colete um folho pregueado de cambraia. Sob o braço levava o ancião o tradicional chapéu de aba larga, cuja copa terminava em ponta.

Era um excelente retrato, obra de um artista afamado, executada com ótimo gosto, no estilo dos mestres antigos, ao qual se prestava o tema. Trazia à lembrança de quem o contemplasse quadros espanhóis ou holandeses do fim da Idade Média. O pequeno Hans Castorp olhara-o freqüentemente, não como um perito de arte, é claro, mas com certa compreensão geral e até com muita perspicácia. Embora não tivesse visto o avô em pessoa tal como o representava a tela, senão uma única vez, – e assim mesmo durante um curto instante, por ocasião da chegada de um cortejo solene ao palácio da municipalidade – não deixava de considerar, como já dissemos, a aparência do retrato como a verdadeira e genuína, e de ver no avô de todos os dias apenas a forma interina, um substituto imperfeitamente adaptado ao seu papel. Pois, o que havia de diferente e esquisito no seu aspecto cotidiano tinha a sua origem, evidentemente, numa tal adaptação imperfeita e quiçá um tanto desajeitada; tratava-se de restos e vestígios da sua forma pura e autêntica, que não se tinham apagado por completo. Assim, estavam fora de moda o colarinho duro, pontudo, e o alto nó da gravata branca, mas era impossível aplicar o termo “fora de moda” àquela maravilhosa peça de vestuário, de que aqueles constituíam apenas alusão interina: a golilha espanhola. E o mesmo acontecia com a cartola de abas inusitadamente recurvas, que o avô usava na rua, e à qual, numa realidade superior, correspondia o feltro de aba larga, reproduzido no quadro; e ainda o mesmo se dava com a longa e ampla sobrecasaca, cujo modelo e essência era, aos olhos do pequeno Hans Castorp, a veste talar, agaloada e debruada de peles.

Assim o menino aprovara no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre. Era na sala de jantar, a mesma sala onde tantas vezes haviam feito as refeições, sentados um em frente do outro. No seu centro jazia agora Hans Lorenz Castorp, estendido no caixão enfeitado de prata, exposto numa essa rodeada de coroas. Lutara até o fim contra a pneumonia, lutara tenaz e demoradamente, se bem que antes tivesse dado a impressão de se acomodar à vida moderna apenas por meio de uma espécie de adaptação. E enquanto o ancião jazia ali, no seu leito de gala, não se sabia se era vencedor ou vencido. Em todo caso, exibia uma expressão severa e sossegada; a fisionomia, depois de todas essas lutas, aparecia mudada, e o nariz mais pontiagudo. A metade inferior do corpo estava escondida sob um cobertor, em cima do qual se achava um ramo de palmeira. A cabeça repousava erguida sobre um travesseiro de seda, de forma que o queixo se conchegava imponentemente à concavidade dianteira da golilha espanhola. Entre as mãos, meio ocultas pelos punhos de renda, e cujos dedos, embora imitando uma posição natural, não deixavam de revelar frieza e imobilidade, haviam introduzido um crucifixo de marfim, que o defunto, de sob as pálpebras abaixadas, parecia fitar incessantemente.

No princípio da enfermidade, Hans Castorp vira o avô algumas vezes; mas depois não tornara a vê-lo. Haviam evitado que ele assistisse ao espetáculo da luta, que na sua maior parte se desenrolara durante as horas noturnas. Só indiretamente sentira o menino as suas conseqüências, em virtude da atmosfera angustiada da casa, dos olhos avermelhados do velho Fiete, das idas e vindas dos médicos. O resultado final, porém, que agora presenciava na sala, resumia-se no fato de que o avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto. E esse resultado parecia ao pequeno Hans Castorp digno de aprovação, ainda que o velho Fiete vertesse lágrimas, meneando sem cessar a cabeça, e que ele mesmo chorasse, como o fizera quando da repentina morte da mãe, e pouco tempo depois em presença do pai, que também estivera estendido assim, não menos silencioso e estranho.

Não se esqueça que era a terceira vez, num curto lapso de tempo, e numa idade tão tenra, que a morte agia sobre o espírito e os sentidos – principalmente os sentidos – do menino. Esse quadro e essa impressão já não lhe eram novos, senão bastante familiares. Nas duas ocasiões anteriores já se mostrara comedido e dono de si, sem perder o domínio dos nervos, apesar da tristeza natural que sentia. E dessa vez aparentou ainda maior tranqüilidade do que das outras.

Como ignorasse a significação prática que aqueles acontecimentos tinham para a sua existência, ou talvez os considerasse com certa indiferença pueril, confiante em que o mundo, deste ou daquele modo, cuidaria de seu bem-estar, manifestou em frente dos ataúdes certa frieza igualmente infantil, bem como uma atenção objetiva, à qual o terceiro enterro acrescentou um matiz especial de superioridade precoce, baseada na plenitude da experiência anteriormente adquirida, que o imunizava contra os freqüentes acessos de choro e o contágio do pranto dos demais, fazendo com que tudo isso se lhe afigurasse como uma reação normal. No decorrer de três ou quatro meses, após o falecimento do pai, esquecera-se da morte; agora se recordou, e todas as impressões antigas reavivaram-se exatamente, simultâneas e intensas, na sua peculiaridade incomparável.

Analisadas e resumidas, essas impressões seriam pouco mais ou menos as seguintes: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza, quer dizer, um aspecto religioso, e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, sequer de triste. A natureza solene e religiosa expressava-se no suntuoso ataúde do defunto, na magnificência das flores e no ramo de palmeira, que, como se sabe, simbolizavam a paz celestial; expressava-se além disso, e ainda mais nitidamente, no crucifixo entre os dedos exangues de quem outrora era o avô, bem como no Cristo abençoador, de Thorwaldsen, que se achava à cabeceira do féretro, e nos dois candelabros que se erguiam de ambos os lados e nessa ocasião haviam assumido um caráter igualmente eclesiástico. Todas essas disposições encontravam evidentemente o seu sentido preciso e próprio na idéia de que o avô se unira para sempre com sua verdadeira e genuína figura. Mas, além dessa razão de ser, existia –

como o pequeno Hans Castorp bem notava, ainda que não se desse conta disso em palavras –

mais uma outra, uma finalidade mais profana, a manifestar-se em tudo isso, principalmente naquela multidão de flores, e entre elas em especial nas tuberosas espalhadas por toda parte: cabia-lhes disfarçar, fazer esquecer e não admitir ao limiar da consciência o segundo aspecto da morte, que não era nem belo nem realmente triste, mas, a bem dizer, quase indecente e de um caráter baixo e carnal.

Era em virtude desse segundo aspecto que o avô defunto se afigurava tão estranho, que no fundo nem parecia o avô, senão um boneco de cera, de tamanho natural, que a morte pusera em seu lugar, e ao qual agora se dedicavam todas essas pompas piedosas e reverentes. Quem jazia ali, ou melhor, aquilo que ali se achava estendido, não era portanto o verdadeiro avô; não passava de um invólucro, que – Hans Castorp sabia-o muito bem – não constava de cera, mas de sua própria matéria; apenas de matéria, e precisamente nisso residia o indecente e a ausência de tristeza; aquilo era tão pouco triste como são as coisas que dizem respeito ao corpo e só a ele. O

pequeno Hans Castorp contemplava essa matéria lisa, cor de cera, de uma consistência caseosa, de que estava feita aquela figura morta de tamanho natural, com o rosto e as mãos do ex-avô.

Uma mosca acabava de pousar na testa imóvel e começava a mexer a probóscide. O velho Fiete espantou-a cautelosamente, evitando tocar a testa; ao fazê-lo, exibia uma fisionomia reservada e pudica, como se não devesse nem quisesse saber do ato que praticava; pudor que sem dúvida se devia ao fato de ser o avô, no atual estado, corpo e nada mais. Mas a mosca deu um vôo circular e aterrissou em seguida nos dedos do avô, perto da cruz de marfim. Enquanto isso sucedia, Hans Castorp percebeu, mais distintamente do que antes, aquela emanação leve apenas, mas de uma persistência singular, e que não lhe ficava estranha. Por vergonhoso que isso parecesse, lembrava-lhe ela um companheiro de escola, afetado de um mal desagradável e por isso evitado pelos colegas. E Hans Castorp compreendeu que o aroma das tuberosas tinha por objetivo abafar essa emanação, o que não conseguia, apesar da linda exuberância e austeridade.

Hans Castorp esteve diversas vezes diante do cadáver; uma vez a sós com o velho Fiete; outra, com seu tio-avô Tienappel, negociante de vinhos, e os dois tios James e Peter; depois uma terceira vez, quando um grupo de estivadores endomingados permaneceu durante alguns minutos perante o ataúde, para despedir-se do antigo chefe da casa Castorp & Filho. E chegou a hora do enterro. A sala estava cheia de gente e o pastor Bugenhagen, da igreja de São Miguel, o mesmo que batizara Hans Castorp, pronunciou, ornado de uma golilha espanhola, a oração fúnebre. No coche que seguia à frente de uma fila comprida, uma fila interminável, o pastor conversava muito amigavelmente com o pequeno. E assim terminou mais um capítulo da vida de Hans Castorp, que logo depois mudou de casa e de ambiente, pela segunda vez na sua curta existência.

Da casa dos Tienappel e do estado moral de Hans Castorp

Não lhe redundou isso em desvantagem, pois o menino passou a morar na casa do cônsul Tienappel, seu tutor nomeado pelo tribunal. Nada lhe faltava ali, nem com respeito à sua pessoa,

nem tampouco no referente à defesa dos seus interesses, dos quais ele ainda nada sabia. O cônsul Tienappel, tio da saudosa mãe de Hans, administrava os bens deixados pelos Castorps. Pôs à venda os imóveis, e também se encarregou de liquidar a firma Castorp & Filho, Importação e Exportação. O que conseguiu salvar eram uns quatrocentos mil marcos, que constituíam a herança de Hans Castorp. O cônsul Tienappel colocou-os em valores seguros, cobrando, não obstante os sentimentos de parente, trimestralmente, dois por cento de comissão legal sobre os juros vencidos.

A casa dos Tienappel, situada no fundo de um jardim, à Avenida de Harvestehude, dava para um gramado, no qual não se tolerava a mais mínima erva daninha. Atrás havia um roseiral público e o rio. Apesar de possuir uma bela carruagem, o cônsul caminhava todos os dias ao escritório, na cidade velha, a fim de fazer um pouco de exercício, pois às vezes sofria de ligeiras congestões cerebrais. Às cinco da tarde regressava da mesma maneira, e a seguir comia-se na casa dos Tienappel com todo o refinamento de gente culta. Era um homem cheio de corpo, que se vestia com os melhores tecidos ingleses. Tinha os olhos um tanto saltados, de um azul aquoso, que escondia atrás de óculos com aros de ouro; o nariz, de ordinário, estava coberto de espinhas.

O cônsul usava barba grisalha de marinheiro e um diamante esplendoroso no curto mindinho da mão esquerda. Sua mulher já falecera havia muito tempo. Tinha dois filhos, Peter e James. O primeiro servia na marinha e passava apenas pouco tempo em casa do pai, ao passo que o outro trabalhava na firma paterna, uma casa de vinhos, sendo considerado como o futuro sucessor do chefe. A casa era dirigida desde muitos anos por Schalleen, filha de um ourives de Altona, que andava com alvos punhos engomados em volta dos pulsos roliços; cumpria a ela cuidar que na mesa de almoço e de jantar houvesse fartura de frios, camarões, salmão, enguia, peito de ganso, e tomato ketchup para o rosbife. Observava com olhos vigilantes os garçons contratados por ocasião dos banquetes, que o cônsul Tienappel dava aos seus amigos, e era ela que, na medida do possível, servia de mãe ao pequeno Hans Castorp.

Este se criou num clima abominável, entre vento e bruma. Ia crescendo, se assim se pode dizer, dentro de um impermeável amarelo. Contudo sentia-se perfeitamente bem. Desde cedo era um pouco anêmico, conforme verificou o Dr. Heidekind, que lhe prescreveu, para antes do almoço, após a aula, um volumoso copo de porter, bebida substancial, como se sabe, e considerada pelo doutor como altamente sanguificativa. Em todo caso, o porter tranqüilizava apreciavelmente a vitalidade de Hans Castorp e aumentava nele de modo benéfico uma determinada tendência para a “basbaquice”, como dizia seu tio Tienappel, ou seja, aquela sua inclinação para sonhar, de boca aberta, sem pensar, e com o olhar cravado no espaço. De resto era sadio e normal, um tenista regular e um bom remador, se bem que preferisse ao manejo dos remos instalar-se numa noite de verão no terraço do clube náutico de Uhlenhorst, diante de um copo cheio, para apreciar a música e contemplar os barcos iluminados, por entre os quais os cisnes sulcavam o irisado espelho das águas. Bastava ouvi-lo falar, calma e ponderadamente, sem grande profundidade e com alguma monotonia, numa voz levemente influenciada pelo dialeto hamburguês; bastava até examinar-lhe de relance a correção loura, o perfil finamente recortado, de certo cunho antigo, e no qual uma arrogância hereditária e inconsciente se manifestava sob a forma de uma indolência um tanto árida, para verificar que, indubitavelmente, esse Hans Castorp era um produto puro e autêntico daquele solo e se enquadrava com absoluta perfeição no ambiente. Ele próprio, se se tivesse estudado sob esse aspecto, não teria experimentado a mínima dúvida quanto a isso.

A úmida atmosfera da grande cidade marítima, mescla de vida farta e mercantilismo de envergadura mundial, esse ar que enchera de prazer a vida dos seus antepassados, Hans Castorp respirava-o com profunda aprovação, saboreando-o como uma coisa natural. Com o olfato penetrado pelas emanações da água, da hulha e do alcatrão e pelos acres odores de montões de produtos coloniais, via como no cais do porto os enormes guindastes a vapor imitavam a calma, a inteligência e a gigantesca força de elefantes a serviço do homem, transportando toneladas de sacos, fardos, caixas, barris e tambores, do bojo de transatlânticos ancorados até os armazéns das docas ou os vagões da via férrea. Via os comerciantes, com impermeáveis amarelos, tal qual o

dele próprio, afluírem à Bolsa, por volta do meio-dia, onde, como ele sabia, se jogava alto, e facilmente acontecia que alguém se visse obrigado a distribuir convites apressados para um grande banquete, destinado a salvar-lhe o crédito. Via – e era este o campo em que mais tarde se concentraram os seus interesses – a multidão que fervilhava nos estaleiros; via os corpos de mamute, de vapores regressados da Ásia ou da África, do dique seco, altos como torres, com as quilhas e as hélices no ar, escorados em pontaletes grossos como árvores, monstruosos na sua paralisia, invadidos por exércitos de operários que pareciam pigmeus, ocupados em raspar, martelar e pintar; via nos picadeiros cobertos erguerem-se, envoltos numa cerração fumosa, os esqueletos de navios em construção, enquanto engenheiros, com os planos de construção e as tabelas de zonchadura na mão, davam ordens aos capatazes. Todas essas coisas eram familiares a Hans Castorp, desde a sua infância, e despertavam nele apenas a sensação confortável e habitual de fazer parte de tudo isso; impressão que culminava, quando, numa manhã de domingo, em companhia de James Tienappel ou de seu primo Ziemssen – Joachim Ziemssen – comia no Pavilhão do Alster pãezinhos quentes com carne defumada, regados por um copo de vinho velho do Porto, após o que se reclinava na poltrona, para aspirar com volúpia a fumaça de seu charuto.

Pois era justamente neste ponto que Hans Castorp representava um produto genuíno da sua terra: gostava de viver bem, e apesar da sua aparência anêmica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, qual um lactente deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia.

Levava sobre os ombros, comodamente e com certa dignidade, a elevada civilização que a alta sociedade dessa democracia municipal de comerciantes transmite aos seus filhos. Ia lavadinho como um nenê e fazia-se vestir pelo alfaiate que gozava da confiança dos jovens da sua esfera social. O pequeno tesouro de roupa de dentro cuidadosamente marcada, que abrigavam as gavetas inglesas de seu armário, era lealmente administrado por Shalleen. Ainda quando Hans Castorp passou a estudar fora, continuava mandando regularmente a roupa branca para casa, a fim de que ali a lavassem e consertassem – afirmava ele que fora de Hamburgo ninguém sabia engomar. Um pedacinho puído no punho de uma das suas bonitas camisas de cor seria capaz de enchê-lo de violento mal-estar. Suas mãos, posto não fossem tipicamente aristocráticas, tinham a pele bem cuidada e macia, e eram adornadas pelo anel-sinete, herança do avô, e por outro anel de platina, em forma de corrente. Seus dentes, de consistência mole, haviam sofrido algumas avarias, reparadas por trabalhos de ouro.

Ao caminhar ou estar de pé, avançava um pouco o ventre, o que não dava propriamente uma impressão de energia marcial. Em compensação era impecável a sua postura à mesa. Voltava cortesmente o tronco muito teso para o vizinho com quem falava, pausadamente e com leve acento hamburguês. Os cotovelos achegavam-se ligeiramente do corpo, enquanto dissecava um pedaço de frango ou habilmente extraía, mediante o instrumento especial, a carne rosada de uma pinça de lavagante. Terminada a refeição, era sua primeira necessidade a tigelinha de água perfumada para lavar os dedos, e a segunda, o cigarro russo, sonegado ao imposto alfandegário, uma vez que Hans Castorp tinha uma fonte conveniente onde comprá-lo a contrabando. Ao cigarro seguia-se um charuto, de uma saborosa marca bremense, de nome Maria Mancini, do qual se falará mais adiante, e cujos tóxicos picantes se combinavam deliciosamente com os do café.

Hans Castorp punha as suas provisões de fumo a salvo das influências prejudiciais da calefação a vapor, guardando-as no porão, aonde descia todas as manhãs, para abastecer a charuteira com a dose diária. Só com relutância teria comido manteiga que lhe servissem num bloco e não em forma de bolinhas estriadas.

Como se vê, empenhamo-nos em anotar tudo quanto possa prevenir o espírito do leitor a favor de Hans Castorp. Mas julgamo-lo sem exagero, e não o apresentamos nem melhor nem pior do que era. Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo “medíocre”, reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com a sua singela personalidade; fazemo-lo devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultra-

individual. Seu cérebro satisfazia as exigências do curso científico do colégio, sem que tivesse de recorrer a excessivos esforços que decerto não teria realizado em nenhuma ocasião e por nenhum objetivo; menos por medo de se prejudicar do que por não ver nenhum motivo para empreendê-los; ou melhor: por não ver nenhum motivo absoluto. É precisamente por isso que não o chamamos de medíocre, já que ele percebia, desta ou daquela forma, a ausência de tais motivos.

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da vida de sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultra-pessoais da sua existência, e que da idéia de criticá-las permaneça tão distante quanto o bom Hans Castorp – até uma pessoa assim pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultra-pessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforço – então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta “Para quê?”, é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente decoroso.

Tudo isso se refere à mentalidade do nosso jovem, não só durante a sua vida escolar, senão também durante os anos posteriores a ela, quando já escolhera a sua profissão civil.

Quanto à sua carreira através do ginásio, cabe dizer que se viu obrigado a repetir um que outro ano. Mas, finalmente, a sua origem, a urbanidade de suas maneiras e também um belo talento, embora pouco apaixonado, pelas matemáticas, ajudaram-no a atravessar essas etapas. E concluído o curso ginasial, Hans Castorp decidiu cursar também o colégio por bem dizer, sobretudo a fim de prolongar uma situação habitual, provisória e indecisa e de ganhar tempo para refletir sobre o que desejava vir a ser; pois a princípio não o sabia com certeza, nem sequer no último ano do colégio chegou a formar uma opinião firme a esse respeito, e quando a coisa se decidiu -seria exagerado dizer que ele mesmo tomou essa decisão –, sentia o jovem muito bem que poderia ter escolhido, da mesma forma, um outro caminho.

Uma coisa, entretanto, era verdade: os navios sempre lhe haviam despertado grande interesse. Na meninice enchera as páginas das suas agendas com desenhos a lápis, de cúteres de pesca, chatas carregadas de legumes e veleiros de cinco mastros. Aos quinze anos, gozou do privilégio de assistir, de um lugar reservado, nos estaleiros de Blohm & Voss, ao lançamento de um novo paquete postal de duas hélices, o Hansa. Pintou então uma aquarela bem-feita e exata em todos os pormenores da esbelta nave. O cônsul Tienappel pendurou no seu escritório particular esse quadro, no qual o verde-garrafa transparente do mar revolto estava pintado com tanto amor e tamanha habilidade, que alguém disse ao cônsul Tienappel que nisso se revelava talento e que Hans Castorp poderia tornar-se um bom pintor de marinhas apreciação que o cônsul não se arrependeu de ter repetido ao pupilo, já que Hans Castorp a recebeu com uma boa risada, sem se preocupar um instante sequer com esse tipo de idéias excêntricas e perspectivas de vida boêmia.

– Você não tem muito dinheiro – dizia-lhe às vezes o tio Tienappel. – A parte principal de meus bens caberá um dia a James e Peter, quer dizer, fica na firma, e Peter vai receber os juros da sua quota. O que pertence a você está bem colocado e produz uma renda segura. Mas, hoje

em dia, não tem graça viver de juros, a não ser que a gente possua cinco vezes mais que você.

Para ser alguém nesta cidade e viver como você está acostumado, é preciso ganhar muito dinheiro. Tome nota disso, meu filho.

Hans Castorp tomou nota. Começou a procurar uma profissão que lhe permitisse sair-se airosamente perante si mesmo e aos olhos do mundo. E quando, finalmente, escolheu – obedecendo a uma sugestão do velho Wilms, da casa Tunder & Wilms, que numa noite de sábado, à mesa do uíste semanal, disse ao cônsul Tienappel: “Hans Castorp deveria estudar engenharia naval. É uma boa idéia. Então poderia entrar na minha firma, e eu cuidaria do rapaz”

–, quando finalmente se decidiu, tinha a sua profissão em alto apreço e verificou que ela era complicada e trabalhosa como o diabo, mas também possuía seu aspecto nobre, importante e grandioso. Em todo caso achava-a infinitamente preferível, para o seu caráter pacífico, à do primo Ziemssen, filho duma meia-irmã de sua saudosa mãe, que queria a todo o transe tornar-se oficial. E todavia não tinha esse Joachim Ziemssen o peito muito sadio; podia ser que justamente por isso uma profissão exercida ao ar livre, e que não exigisse quase nenhuma atividade mental, fosse indicada para ele – assim pensava com leve desprezo Hans Castorp, que considerava o trabalho com o máximo respeito, ainda que a ele próprio o esforço fatigasse facilmente.

Nesse ponto insistimos sobre as reflexões que fizemos acima, sobre a questão de saber se um prejuízo que a época causa à vida individual do homem lhe pode diretamente influenciar o organismo físico. Hans Castorp respeitava o trabalho. Como poderia deixar de fazê-lo? Isto seria contrário à sua natureza. Tudo contribuía para que o trabalho se lhe apresentasse como digno do mais irrestrito respeito; no fundo não existia nada fora dele que merecesse tal respeito; o trabalho era o princípio em face do qual uma pessoa se saía bem ou malograva, era o que havia de absoluto na época, e trazia em si a sua justificativa. O respeito que Hans Castorp lhe devotava era portanto de caráter religioso e, conforme lhe parecia, indiscutível. Isso não quer, no entanto, dizer que ele amava o trabalho; disso não era capaz, por mais que o respeitasse, simplesmente pela razão de não se dar bem com ele. Um esforço intenso irritava-lhe os nervos e esgotava-o rapidamente. Com toda a franqueza Hans Castorp confessava que no seu íntimo gostava muito mais das horas de lazer, livres do lastro de chumbo das tarefas penosas, as horas que abertamente se estendiam diante dele, e não crivadas de obstáculos a serem vencidos a duras penas. Essa contradição na sua atitude perante o trabalho deveria, a bem dizer, ser resolvida. Talvez assim é que o seu corpo tanto como o seu espírito – em primeiro lugar o espírito e sob a sua influência também o corpo -se teriam dedicado ao trabalho com maior prazer e intensidade, se Hans Castorp, no âmago da sua alma, naquelas profundezas que ele mesmo ignorava, tivesse sido capaz de crer no trabalho como valor absoluto e princípio que se justificasse a si próprio, e de achar sossego nesse pensamento. Com isso chegaríamos mais uma vez à questão da sua mediocridade ou mais-do-que-mediocridade, à qual não tencionamos dar uma resposta precisa. Não nos consideramos, de forma alguma, encomiastas de Hans Castorp, e por isso não eliminamos a hipótese de que o trabalho, na sua vida, apenas estorvava um pouco o gozo perfeito do Maria Mancini.

Não foi convocado para o serviço militar. Aliás, no fundo do seu coração antipatizava com ele, e assim conseguiu evitar a convocação. Possivelmente, o médico militar, Dr. Eberding, que freqüentava a vila na Avenida de Harvestehude, tivesse ouvido do cônsul Tienappel, assim de passagem, que o jovem Castorp considerava a obrigação de vestir a farda como uma interrupção sensível dos seus estudos, havia pouco encetados numa universidade do Reich.

Trabalhando com vagar e calma – até fora de Hamburgo, Hans Castorp conservava o hábito tranqüilizador de tomar já de manhã uma dose de porter – o seu cérebro ia se enchendo de geometria analítica, cálculo diferencial, mecânica, projetiva e grafostática; calculava o deslocamento de navios carregados e vazios, a estabilidade, a equilibragem e o metacentro, ainda que isso às vezes lhe fosse custoso. Seus desenhos técnicos – esses contornos no meio do navio, traçados de linhas de flutuação, e seções longitudinais – não alcançavam o nível da sua representação pictórica do Hansa em alto-mar; mas, quando se tratava de explicar uma idéia abstrata por meio de uma apresentação mais acessível aos sentidos, intensificando as sombras com tinta nanquim ou colorindo os cortes transversais com tintas alegres que indicassem os materiais, então Hans Castorp superava em habilidade a maioria dos seus colegas.

Durante as férias, costumava regressar muito asseado, muito bem vestido, com um bigodinho ruivo no sonolento rosto de jovem patrício, e evidentemente a caminho de uma posição respeitável. E as pessoas que se ocupavam de questões municipais e também eram entendidas em assuntos de família e de vida social – como é o caso de quase todos, numa cidade livre e autônoma –, esses seus concidadãos, examinando-o criticamente, perguntavam-se que papel oficial o jovem Hans Castorp chegaria a desempenhar no futuro. Havia uma tradição a seu favor; seu nome era antigo e de boa reputação; e mais cedo ou mais tarde – isto parecia quase certo-seria preciso contar com a sua pessoa como fator Político. Então teria um lugar na Assembléia ou no Conselho Municipal e influiria na legislação; no exercício de um cargo honorífico, participaria das preocupações que acarreta a soberania; pertenceria a alguma repartição administrativa, à comissão de finanças talvez ou à de obras públicas, e sua voz não deixaria de ser ouvida e levada em conta. Até seria interessante saber a que partido se filiaria, mais tarde, esse jovem Castorp. As aparências podiam enganar, mas ele não tinha, propriamente, a cara duma pessoa com a qual os democratas podem contar. Era evidente a semelhança com o avô.

Quem sabe se não puxaria a este, tornando-se um travão, um elemento conservador? Era muito possível, como também era possível o contrário. Afinal de contas, tratava-se de um engenheiro, futuro construtor de navios, de um homem da técnica e do tráfego universal. Assim se ventilava a outra alternativa de Hans Castorp unir-se aos radicais, chegando a ser um homem de ação, destrutor profano de edifícios antigos e belas paisagens, sem raízes no solo pátrio, qual um judeu, e sem laços de tradição, qual um ianque; talvez preferisse romper desconsideradamente com aquilo que uma veneranda história nos transmitiu, e arrastar o Estado por um caminho de audaciosas experiências, em vez de promover o desenvolvimento circunspecto das condições naturais de vida. Também isso era admissível. Estaria no seu sangue a convicção de que Suas Excelências, prudentes e sábias, às quais a dupla sentinela da Municipalidade apresentava armas, administravam tudo da melhor maneira possível, ou se inclinaria a apoiar a oposição na Assembléia? Naqueles olhos azuis sob as sobrancelhas ruivas não se podia ler nenhuma resposta a essas perguntas que a curiosidade dos seus concidadãos fazia, e parece provável que nem o próprio Hans Castorp, uma folha em branco, teria sabido satisfazê-la.

Quando empreendeu a viagem, durante a qual travamos conhecimento com ele, ainda não completara vinte e três anos. Tinha atrás de si quatro semestres de estudos na Escola Politécnica de Dantzig, e outros quatro nas escolas congêneres de Brunswick e de Karlsruhe. Recentemente passara nos exames teóricos, sem distinção nem grandes aplausos, mas com dignidade, e a essa época dispunha-se a trabalhar como engenheiro voluntário, na casa Tunder & Wilms, a fim de conseguir nos estaleiros a necessária formação prática. No entanto, ao chegar a esse ponto, o seu caminho tomou outro rumo.

Para preparar-se para os exames, Hans Castorp tivera que estudar com intensidade e perseverança. Ao regressar para casa, parecia muito mais fatigado do que usualmente. O Dr.

Heidekind ralhava com ele cada vez que o encontrava, e exigia uma mudança de ar, mas que fosse radical. Dessa vez, disse ele, não bastava Nordyrney, nem Werk, na ilha de Föhr. A seu ver, Hans Castorp deveria, antes de entrar nos estaleiros, passar algumas semanas nas altas montanhas.

– Muito bem – disse o cônsul Tienappel ao sobrinho-pupilo. Mas nesse caso, seria preciso veranearem em lugares diferentes, pois que nem quatro cavalos arrastariam a ele, cônsul, até às altas montanhas. Aquele ar da serra não lhe convinha; o que ele necessitava era uma pressão atmosférica razoável, para não sofrer algum ataque. Que Hans Castorp, por conseguinte, viajasse sozinho para as montanhas. Por que não visitar Joachim Ziemssen?

Era uma idéia natural. Joachim Ziemssen estava doente – não doente como Hans Castorp, mas de outro modo, realmente sério, que causara, mesmo, um grande susto a toda a família. Já antes sofria de catarros e acessos de febre, e um dia se pusera a escarrar sangue. Então

partira a toda pressa para Davos, sumamente contrariado e abatido, já que acabava de atingir a meta dos seus desejos. Durante alguns semestres, a instâncias da família, estudara jurisprudência; mas, obedecendo a um impulso irresistível, mudara de profissão e se apresentara como aspirante a oficial. Já fora até admitido. E agora fazia cinco meses que se internara no Sanatório Internacional Berghof (médico diretor: Dr. Behrens, conselheiro áulico). Aborrecia-se mortalmente, conforme diziam seus cartões-postais. Se Hans Castorp, antes de assumir o seu cargo na casa Tunder & Wilms, quisesse fazer alguma coisa pela sua saúde, nada mais plausível do que ir a Davos, para visitar o coitado do primo, o que seria agradável para ambas as partes.

Era pleno verão quando Hans Castorp se decidiu a viajar. Já haviam chegado os últimos dias de julho.

Tencionava passar três semanas lá em cima.

CAPÍTULO III

Ensombramento pudico

Estando muito cansado, Hans Castorp receara dormir além da hora. Mas levantou-se muito mais cedo do que era necessário, de maneira que teve tempo de sobra para observar com minúcia os seus hábitos matinais – hábitos sumamente civilizados, no meio dos quais desempenhavam papéis importantes uma baciazinha de borracha, um sabonete verde de alfazema, num receptáculo de madeira, e o indispensável pincel de palha – e também para combinar os cuidados de limpeza e de higiene com o trabalho de desemalar e arrumar os seus objetos. Ao passar o aparelho prateado pelas faces cobertas de perfumada espuma, lembrou-se dos seus sonhos confusos e maneou a cabeça, esboçando um sorriso indulgente ante tamanho desvario, com a sensação de superioridade que experimenta quem se barbeia à luz clara da razão.

Não se sentia precisamente descansado, mas o dia incipiente dava-lhe boa disposição.

Com o rosto empoado, em ceroulas de fio de Escócia e chinelos de marroquim vermelho, e ainda enxugando as mãos, saiu à sacada, que corria ao longo do edifício, subdividida apenas por paredes de vidro fosco, que, embora sem avançarem até a balaustrada, formavam compartimentos correspondentes aos diversos quartos. A manhã estava fresca e nublada. Vastas massas de neblina jaziam imóveis diante das elevações laterais, enquanto volumosas nuvens brancas e cinzentas repousavam sobre a cordilheira mais distante. Pedaços e tiras de céu azul apareciam aqui e ali, e quando um raio de sol caía sobre o fundo do vale, a aldeia cintilava muito alva, contrastando com os sombrios pinheirais que cobriam as encostas. Em algum lugar se dava um concerto matinal, provavelmente no mesmo hotel donde viera, na noite anterior, o som de uma orquestra. Ouviam-se em surdina os acordes de um hino religioso; depois de uma pausa, seguiu-se uma marcha. Hans Castorp gostava da música, de todo o coração, porque ela produzia nele um efeito semelhante ao do porter matutino, efeito altamente calmante, entorpecente, que o induzia à “basbaquice”. Assim escutou-a satisfeito, com a cabeça levemente inclinada para o lado, com a boca aberta e os olhos um pouco avermelhados.

Lá de baixo subia, sinuoso, o caminho que conduzia ao sanatório, e pelo qual haviam chegado na véspera. Gencianas estreladas, de talo curto, cresciam na grama úmida da encosta.

Parte do terraço estava cercada por uma sebe, para formar um jardim, onde havia veredas ensaibradas, canteiros de flores e uma gruta artificial de rochedos, junto a um esplêndido abeto.

Para o sul abria-se um alpendre com telhado de zinco, onde se viam algumas espreguiçadeiras. Ao lado se erguia um mastro pintado de marrom avermelhado, em que às vezes tremulava uma bandeira; bandeira de fantasia, verde e branca, com o emblema da medicina, um caduceu, no centro.

Uma mulher passeava pelo jardim, uma senhora já de idade, de aspecto sombrio, quase trágico. Vestida completamente de preto, com um negro véu envolvendo os desgrenhados cabelos grisalhos, ia e vinha sem descanso pelas veredas, num passo monótono e rápido, de

joelhos um tanto dobrados e de braços rígidos, caídos para a frente. Tinha a testa sulcada de rugas horizontais, e dirigia fixamente ao alto os olhos muito negros, sob os quais pendiam bolsas flácidas. Seu semblante envelhecido, de uma lividez meridional, com a grande e melancólica boca contraída para um lado, relembrou a Hans Castorp o retrato de uma famosa atriz trágica, que ele vira em alguma parte. Era sinistro observar como essa mulher enlutada, pálida, acertava, aparentemente sem sabê-lo, os passos longos, tristonhos, ao ritmo da marcha que ressoava de longe.

Pensativo, com uma simpatia compassiva, Hans Castorp contemplou-a do alto da sacada.

Era-lhe como se aquela visão triste obscurecesse o sol da manhã. Mas, ao mesmo tempo, percebeu mais uma coisa, algo audível, ruídos que partiam do quarto dos vizinhos da esquerda –

o casal russo, segundo as informações de Joachim. E esses ruídos igualmente não condiziam com aquela manhã clara e fresca; pelo contrário, pareciam poluí-la de certa forma viscosa. Hans Castorp recordou-se de que, já na noite anterior, ouvira qualquer coisa parecida, mas o cansaço impedira-o de prestar atenção. Era uma luta acompanhada de risinhos e arfadas, cuja natureza escabrosa não podia passar despercebida ao jovem, se bem que ele, por bondade, se esforçasse a princípio por interpretá-la de uma maneira inocente. Também poderíamos ter dado outras denominações a essa tal bondade, por exemplo, o nome um tanto insípido de pureza da alma, ou talvez o belo e austero nome de pudicícia, ou ainda os nomes depreciativos de temor à verdade ou de tartufice, ou até mesmo o de resguardo místico ou de piedade. Havia um pouco de tudo isso na atitude que Hans Castorp adotava em face dos rumores que vinham do quarto vizinho, e que se refletia na sua fisionomia através de um ensombramento pudico, como se não devesse nem quisesse saber nada daquilo que ouvia – expressão de inocência que não era precisamente original, mas que, em certas ocasiões, tinha o hábito de adotar.

Com a dita fisionomia retirou-se, pois, da sacada, para o quarto, na intenção de não assistir por mais tempo a acontecimentos que se lhe afiguravam graves e mesmo perturbadores, apesar de se manifestarem sob o acompanhamento de risinhos. Porém, no interior do quarto, fizeram-se ouvir ainda mais distintamente os atos praticados do outro lado da parede. Parecia uma perseguição em torno dos móveis; uma cadeira caiu estrondosamente uma pessoa apanhou a outra; davam-se palmadas e beijos, e a todos esses sons juntavam-se agora os acordes de uma valsa, as frases batidas e melodiosas de uma canção popular, acompanhando de longe a cena invisível. Hans Castorp, com a toalha na mão, sem querer, deteve-se a escutar. E de repente corou baixo da camada de pó-de-arroz: o que ele já previra claramente acabava de suceder: o brinquedo, sem dúvida alguma, tomara um rumo animalesco. “Grande Deus!”, pensou, virando as costas para terminar sua toilette com movimentos propositadamente ruidosos. “Ora, são marido e mulher, está bem, não há mal nenhum nisso. Mas, já de manhã, em pleno dia... É meio forte. E

me parece que ontem à noite também quebraram a trégua. Afinal de contas, são enfermos, ou pelo menos um dos dois está doente, uma vez que estão aqui; seria indicada alguma moderação.

Mas o mais escandaloso”, continuava raciocinando com grande irritação, são essas paredes tão finas que a gente ouve tudo. É insuportável! Construção barata, claro; é uma vergonha como economizaram nisso! Será que, mais tarde, verei esse casal e lhes serei apresentado? Seria bem penoso para mim.” Nesse momento Hans Castorp notou com admiração que o rubor que lhe subira às faces recém-barbeadas não queria absolutamente ceder. Pelo menos persistia a sensação de calor que o acompanhava e não era outra coisa senão aquele ardor seco de que padecera na noite anterior, e que, depois d se ter sumido durante o sono, reaparecera agora, reanimado por essas circunstâncias. Isso não o predispôs mais favoravelmente para com o casal vizinho. Pelo contrário, avançando os lábios, murmurou a seu respeito uma palavra altamente desrespeitosa. A seguir cometeu o erro de refrescar, uma vez mais, o rosto com água, o que agravou o mal consideravelmente. Assim sucedeu que sua voz vacilasse, mal-humorada, ao responder ao primo que batera para chamá-lo. E ainda quando Joachim entrou, Hans Castorp não dava a impressão de um homem refrescado, que com boa disposição encara a manhã.

O café da manha

– ’dia – disse Joachim. – Que tal a sua primeira noite aqui em cima? Está satisfeito?

Já estava pronto para sair, num traje esporte e com botas de feitio sólido. Por cima do braço tinha o sobretudo, com o frasco chato a destacar-se à altura do bolso lateral. Como no dia anterior, não levava chapéu.

– Obrigado – respondeu Hans Castorp; – mais ou menos. Não quero formar uma opinião precipitada. Tive sonhos meio confusos, e além disso a casa possui um grande defeito: as paredes têm ouvidos, e isto e um pouco desagradável. Quem é aquela mulher de preto, lá no jardim?

Joachim percebeu imediatamente de quem se tratava.

– Ah, essa? É “Tous–les–deux” – disse. – Ela é chamada assim por todo o mundo, porque essas palavras são as únicas que se ouvem dela. É mexicana, sabe? Não fala alemão, e de francês só umas poucas frases estropiadas. Faz cinco semanas que está aqui, para visitar o filho mais velho, um caso totalmente desesperador, que em breve esticará as canelas. Já tem o mal em toda parte; todo o corpo está envenenado, pode-se dizer. Segundo Behrens, esse estado final se parece com o tifo. Em todo caso é horrível de se ver. E há uns quinze dias, chegou o caçula, para ver o irmão pela última vez. Aliás, um belo tipo, tal qual o outro. Ambos são bonitões, de olhos ardentes; as mulheres estavam entusiasmadas. Bem, o caçula já tinha tossido um pouco, antes de vir para cá, mas fora disso parecia completamente bom. E mal chega aqui, imagine, tem um acesso de febre, e logo 39,5! Febre muito alta, sabe? Puseram-no na cama, e se ainda chegar a levantar-se, terá uma bruta sorte, disse o Behrens. Há muito que já deveria estar internado aqui, acham os médicos... Pois é, desde então a mãe anda desse jeito, quando não se acha à cabeceira das duas camas, e cada vez que alguém lhe dirige a palavra, responde apenas: “Tous les deux”, pois não sabe dizer outra coisa, e no momento não há ninguém aqui que compreenda espanhol.

– Ah, então é por isso – disse Hans Castorp. – E você acha que ela me dirá a mesma coisa, quando lhe for apresentado? Seria esquisito, quero dizer que seria ao mesmo tempo cômico e sinistro – acrescentou, e seus olhos estavam como na véspera: davam-lhe a impressão de estarem quentes e pesados, como se tivesse chorado por muito tempo; e novamente havia neles aquele brilho que ali acendera a estranha tosse do aristocrata austríaco. De um modo geral parecia a Hans Castorp que só nesse instante acabava de estabelecer contato entre o presente e o dia de ontem, voltando a entender o nexo das coisas, o que não conseguira logo depois de despertar.

Enquanto umedecia o lenço com algumas gotas de água de alfazema, para esfregar a testa e a região abaixo dos olhos, avisou ao primo que ele também estava pronto. -se você não tiver outros planos, podemos tomar café tous les deux – gracejou com uma sensação de descomedida leviandade. Joachim lançou-lhe um olhar indulgente, acompanhada de um sorriso estranho, entre melancólico e zombeteiro, conforme pareceu a Hans Castorp. Por quê? Isto era com ele...

Após ter verificado que levava consigo a necessária provisão de tabaco, Hans Castorp tomou a bengala, o sobretudo e o chapéu – sim, também o chapéu, como uma espécie de desafio, pois estava por demais seguro dos seus hábitos e de seu modo de viver, para sujeitar-se, tão rapidamente e por apenas três semanas, a costumes novos e estranhos. Assim saíram do quarto e desceram a escada. Nos corredores, Joachim apontava para uma que outra porta, mencionando os nomes dos ocupantes, nomes alemães e outros que revelavam toda espécie de origens estrangeiras, e acrescentando breves comentários quanto ao caráter e à gravidade do respectivo caso.

Encontraram, também, pessoas que já regressavam da sala de refeições, e cada vez que Joachim cumprimentava alguém, Hans Castorp, cortesmente, tirava o chapéu. Sentia-se curioso e impaciente como um jovem a ponto de ser apresentado a uma multidão de pessoas estranhas, e que ao mesmo tempo anda acossado pela sensação nítida de ter os olhos turvos e o rosto avermelhado – o que, aliás, só parcialmente era o seu caso; pois que, em realidade, estava pálido.

– Antes que me esqueça! – exclamou de repente, com certa ênfase incontida. – Você pode, tranqüilamente, apresentar-me àquela senhora do jardim, se por acaso houver uma

oportunidade. Não tenho nada contra ela. Que ela me diga “tous les deux”; não faz mal, já estou preparado. Sei o que ela quer dizer, e farei uma fisionomia adequada. Mas não desejo absolutamente travar conhecimento com aquele casal russo; ouviu? Não tenho a mínima vontade.

É gente de péssimas maneiras, e se devo morar durante três semanas lado a lado com eles e não for possível evitar essa vizinhança, pelo menos não quero conhecê-los. Tenho motivos de sobra para pedir isso do modo mais formal...

– Está bem! – disse Joachim. – Então incomodaram muito a você? Pois é, são uns bárbaros, gente sem civilização, numa palavra. Eu mesmo já lhe disse. Ele costuma sentar-se à mesa, numa jaqueta de couro, puída que só ela. Sempre me admira que Behrens tolere isso. E ela também não anda muito asseada, apesar do chapéu de plumas... Em todo caso, não se preocupe: eles têm seus lugares muito longe de nós, à mesa dos russos ordinários; pois, além desta, existe ainda uma mesa dos russos distintos. Há pouca probabilidade de você entrar em contato com eles, mesmo que o deseje. Em geral não é muito fácil travar conhecimento, já que há tantos estrangeiros entre os hóspedes. Eu mesmo só conheço pessoalmente umas poucas pessoas, apesar de estar aqui há tanto tempo.

– Qual dos dois está doente, ele ou ela? – perguntou Hans Castorp.

– Acho que é ele. Sim, é só ele – respondeu Joachim, visivelmente distraído, enquanto dependuravam os sobretudos nos cabides, à entrada da sala de refeições. Feito isso, entraram no recinto bem iluminado, de teto levemente abobadado, onde burburinhavam vozes, tiniam talheres e corriam criadas com bules fumegantes.

Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas transversalmente. Eram mesas bastante grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas. Alguns passos em diagonal através da sala bastaram para que Hans Castorp alcançasse o lugar que se encontrava preparado para ele no lado estreito da mesa central entre as duas transversais. De pé, atrás da sua cadeira, Hans Castorp inclinou-se numa mesura reservada e polida para os companheiros de mesa, a quais Joachim, cerimoniosamente, o apresentou. Mal os encarou, ainda menos chegou a gravar na memória os seus nomes. Unicamente o nome e a pessoa da Srª. Stöhr lhe chamaram a atenção, e também o fato de ela ter um rosto vermelho e cabelos gordurentos de um louro acinzentado. Sua fisionomia revelava tão obstinada ignorância, que facilmente se podiam esperar dela crassos disparates. A seguir, Hans Castorp sentou-se e notou com satisfação que o café da manhã era considerado ali como uma refeição importante.

Continuar: parte 3 de 4