A Montanha Mágica
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quanto ao Dr. Salzmann, este dizia à boca pequena que o Professor Kafka mantinha limpas as suas seringas de injeção, a ponto de infeccionar os enfermos. “Ele usa pneumáticos nas rodas de seu coche”, afirmava Salzmann, “para que seus mortos não o ouçam.” Ao que Kafka replicava que no sanatório de Salzmann obrigavam os pacientes a um consumo muito intenso do “fruto consolador da vinha” (igualmente na intenção de lhes arredondarem as contas), de maneira que ali a gente morria como moscas, não de tísica, mas de cirrose do fígado...
Enquanto Settembrini prosseguia no mesmo tom, Hans Castorp ria-se jovialmente e sem malícia, ao ouvir essa catadupa de eloqüência blasfema. A linguagem do italiano tinha um som particularmente agradável, na sua absoluta pureza e correção, livres de qualquer sotaque. Dos seus lábios volúveis, as palavras brotavam cheias, distintas e como que recém-feitas. O próprio Settembrini gozava com as locuções e formas cultas, vivas e sardônicas, de que se servia; até mesmo a flexão e conjugação gramatical dos vocábulos causavam-lhe evidente prazer, que era ao mesmo tempo expansivo e contagioso. Seu espírito parecia por demais claro e concentrado, para que lhe pudesse ocorrer, uma vez sequer, perder o fio.
– O senhor fala com tanta graça, Sr. Settembrini – disse Hans Castorp – e com tamanha vivacidade... Não sei como chamar esse seu jeito de falar...
– Plástico, não é? – respondeu o italiano, abanando-se com o lenço, apesar da temperatura bastante fresca. – Esta deve ser a palavra que o senhor procura. Quer dizer que eu falo de um modo plástico... Mas que é isto? – exclamou. – Que é que estou vendo? Ali deambulam os nossos juízes do inferno. Que visão!
Os três já haviam dobrado a curva do caminho. Seria em virtude dos discursos de Settembrini? Ou por causa do declive? Ou talvez se tivessem afastado do sanatório menos do que parecera a Hans Castorp? (Todo caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já o conhecemos.) Fosse como fosse, o regresso realizara-se com uma rapidez surpreendente... Settembrini tinha razão. Os que ali caminhavam pelo largo que se
estendia atrás do sanatório eram os dois médicos. O Dr. Behrens ia à frente – com o jaleco branco e a nuca saliente, agitando os braços como se fossem remos. O Dr. Krokowski seguia-lhe as pegadas, trajando o blusão preto e lançando em torno de si olhares tanto mais orgulhosos quanto mais a ética profissional o obrigava a manter-se atrás do chefe quando estava de serviço.
– Ah, Krokowski! – gritou Settembrini. – Lá vai ele conhece todos os segredos das nossas damas. Não deixem de reparar refinado simbolismo da sua vestimenta. Ele anda de preto para indicar que o seu peculiar campo de estudos são as trevas. Esse homem tem na cabeça um único pensamento, e esse pensamento é sórdido. Como é possível, prezado engenheiro, que ainda não tenhamos falado dele? O senhor já chegou a conhecê-lo?
Hans Castorp disse que sim.
– E agora? Estou disposto a acreditar que também ele lhe agrada.
– Francamente, Sr. Settembrini, não sei. Falei com ele apenas poucos instantes, e não tenho o hábito de formar uma opinião precipitada. Costumo olhar a gente e pensar: “Então és assim? Muito bem”.
– Isto é pura apatia – respondeu o italiano. – Por que não julga? É para esse fim que a natureza lhe deu os olhos e o cérebro. O senhor achou que eu era malicioso, mas quando eu falava assim talvez o fizesse com intenções pedagógicas. Nós, os humanistas temos todos uma veia pedagógica... Meus senhores, o laço histórico entre o humanismo e pedagogia é a prova do laço psicológico que existe entre ambos. Não convém privar os humanistas da sua função educadora... Não se lhes pode arrebatar essa função, porque só entre eles se encontra a tradição da dignidade e da beleza do Homem. Um dia, o humanista substituiu o sacerdote, que numa época sombria e misantrópica ousara arrogar-se a direção da juventude. Desde então, senhores não surgiu mais nenhum tipo novo de educador. O ginásio humanista – o senhor pode me chamar de reacionário, meu caro engenheiro, mas, por princípio, in abstracto, queira compreender-me bem, continuo seu adepto...
Ainda no elevador, o italiano prosseguiu no desenvolvimento do seu tema, e não se calou senão quando os primos, no segundo andar, se despediram dele. Settembrini ia até o terceiro, onde, como contou Joachim, habitava um quartinho situado na parte traseira do sanatório.
– Então não tem muito dinheiro? – perguntou Hans Castorp, que também entrara no quarto de Joachim, totalmente igual ao seu.
– Acho que não – respondeu o primo. – Ou pelo menos só o necessário para pagar a pensão. Seu pai já era escritor, sabe? e se não me engano, também o avô.
– Ora, nesse caso... – disse Hans Castorp. – E ele está seriamente doente?
– Ao que saiba, não é coisa perigosa. Mas é um mal persistente e volta uma e outra vez. Já sofre disso faz muitos anos. Uma vez partiu, mas teve que internar-se de novo.
– Coitado! Logo ele que tanto se entusiasma pelo trabalho... E com tudo isso é tão loquaz! Tem tanta facilidade em saltar de um assunto ao outro! Com aquela pequena mostrou-se bastante atrevido. Eu me senti até um pouco chocado. Mas o que disse depois sobre a dignidade humana foi mesmo notável. Tive a impressão de ouvir um discurso solene. Você se encontra freqüentemente com ele?
Sutileza do pensamento Mas Joachim já não podia responder senão com dificuldade e sem nitidez. Tirara um pequeno termômetro de um estojo de couro vermelho, forrado de veludo que se achava na mesa, e introduzira na boca a extremidade inferior cheia de mercúrio. Mantinha-o à esquerda, por baixo da língua, de maneira que o instrumento de vidro saía obliquamente da boca, apontando para cima. Depois, pôs-se à vontade, calçando sapatos e vestindo uma jaqueta agaloada; foi buscar na mesa uma tabela impressa e um lápis, bem como um livro uma gramática russa, já que estudava o russo, por esperar disso, segundo afirmava, certas vantagens no serviço. Assim equipado, saiu
para a sacada, instalou-se na espreguiçadeira e atirou por cima dos pés um cobertor de lã de camelo.
Essa última precaução quase não era necessária. Havia um quarto de hora, a camada de nuvens tornara-se cada vez mais transparente, e o sol irrompeu com tamanho calor e brilho estival, que Joachim protegeu a cabeça com uma espécie de toldo de linho branco, que por meio de um pequeno mecanismo engenhoso, podia ser fixado no braço da cadeira e inclinado segundo a posição do sol. Hans Castorp elogiou esse invento. Ficou à espera do resultado da tomada de temperatura. Nesse ínterim, pôs-se a observar tudo quanto se fazia; também contemplou o saco de pele que se achava apoiado num canto loggia – Joachim servia-se dele nos dias frios –, e com os cotovelos fincados no parapeito olhou para o jardim, onde o alpendre comum estava a essa hora povoado de pacientes deitados, que liam, escreviam ou conversavam. Não se lograva ver, aliás, senão uma parte do interior, com talvez umas cinco espreguiçadeiras.
– Quanto tempo vai durar isto? – perguntou Hans Castorp voltando a cabeça.
Joachim levantou sete dedos.
– Mas já devem ter passado esses sete minutos.
Joachim fez que não. Depois de alguns instantes tirou o termômetro da boca, olhou-o e disse:
– Pois é, quando se presta atenção ao tempo, ele passa muito devagar. Eu realmente gosto de tomar a temperatura quatro vezes dia, porque assim se nota o que representa, propriamente, um minuto, ou até uns sete minutos, para gente que, como nós aqui, esbanja tão pavorosamente os sete dias da semana.
– Você diz: “propriamente”. Assim não se pode dizer – objetou Hans Castorp, que se sentara com uma coxa no parapeito. O branco dos seus olhos estava estriado de vermelho. – O
tempo absolutamente não tem natureza própria. Quando nos parece longo, é longo e quando nos parece curto, é curto, mas ninguém sabe em realidade sua verdadeira extensão. – Não tinha o hábito de filosofar, mas nesse momento sentia-se impelido a fazê-lo.
Joachim replicou:
– Como não? Afinal de contas medimos o tempo. Temos relógios e calendários, e quando um mês se escoa, termina para mim, para você e para todos os outros.
– Espere um pouco – disse Hans Castorp, levantando o índice à altura dos olhos turvos.
– Você acha então que um minuto é tão longo como lhe parece, quando toma a temperatura.
– Um minuto é tão longo... dura tanto tempo quanto necessita o ponteiro dos segundos para dar uma volta completa.
– Mas esse tempo é muito diferente, conforme a sensação que experimentamos. E na realidade... eu digo: na realidade – repetiu Hans Castorp, apertando o índice contra o nariz com tanta força que chegou a torcer a ponta – trata-se aí de um movimento no espaço, não é? Espere, não me interrompa. Medimos, portanto, o tempo por meio do espaço. Mas isto é a mesma coisa que medir o espaço com o auxílio do tempo... O que fazem somente pessoas sem espírito científico. De Hamburgo a Davo são vinte horas; sim senhor, de trem. Mas a pé, quantas horas são? E o meu cérebro? Nem um segundo!
– Escute – disse Joachim. – Que é que você tem? Parece que o ar, aqui em cima, lhe ataca o cérebro.
– Cale a boca, que estou pensando com grande sutileza. Que é o tempo, afinal? –
perguntou Hans Castorp comprimindo o nariz com tamanha violência, que a ponta se tornou branca e exangue. – Quer me dizer isto? Percebemos o espaço com nossos sentidos, por meio da vista e do tato. Muito bem! Mas que órgão possuímos para perceber o tempo? Pode me responder a essa pergunta? Bem vê que não pode. Como é possível medir uma coisa da qual, no fundo, não sabemos nada, nada, nem sequer uma única das suas características? Dizemos que o tempo passa. Está bem, deixe-o passar. Mas para que possamos medi-lo... Espere um pouco! Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e quem lhe
garante que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e as nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções...
– Bem – disse Joachim. – Nesse caso é também uma mera convenção o fato de eu ter, neste termômetro, cinco décimos a mais. Mas é por causa desses cinco décimos que preciso cruzar os braços em vez de seguir a carreira militar. Que coisa nojenta!
– Você tem 37,5?
– A temperatura está baixando outra vez – respondeu Joachim, completando a curva na papeleta. – Ontem à noite, eu tinha quase 38. Foi por causa da sua chegada. Aqui, quem recebe visitas costuma sofrer uma elevação de temperatura. Mas, mesmo assim, é um alívio.
– Agora vou deixá-lo sozinho – disse Hans Castorp. – Minha cabeça está ainda cheia de idéias sobre o tempo... É um vasto complexo, posso lhe afirmar. Mas não quero excitar você, que já tem alguns décimos a mais. Vou ver se guardo tudo na cabeça, e mais tarde voltaremos a falar nisso, mas talvez depois do almoço. Quando for hora de almoçar, você me chama, não é? Eu também vou fazer uma sessão de repouso. Isso não dói, graças a Deus. – Com essas palavras contornou a vidraça de separação e entrou no seu próprio compartimento, onde a espreguiçadeira e a mesinha se achavam também preparadas. Foi buscar, no quarto cuidadosamente arrumado, o Ocean Steamships, bem como o belo e macio cobertor, enxadrezado de verde e carmesim. A seguir, estirou-se na cadeira.
Depois de pouco tempo, também ele viu-se obrigado a baixar o toldo. Para quem se encontrava assim deitado, o calor do sol fazia-se insuportável. Mas Hans Castorp verificou imediatamente e com satisfação que a sua posição era muito cômoda; não se recordava de ter visto, jamais, uma espreguiçadeira tão confortável. A armação, de linhas um tanto antiquadas – o que, evidentemente, era apenas um capricho estético, visto a cadeira estar novinha –, era feita de madeira lustrosa, entre marrom e vermelho. Um colchão forrado de chitão macio era, em realidade, composto de três almofadões altos e estendia-se desde os pés até a cabeceira. Havia ainda uma almofada em forma de rolo, nem muito dura nem muito mole, presa à altura da nuca por meio de um cordão, revestida de uma capa bordada, e que produzia um efeito sumamente agradável. Hans Castorp apoiou o cotovelo sobre a larga superfície do braço da cadeira e com as pálpebras semicerradas entregou-se ao repouso, sem recorrer ao Ocean Steamships para a sua distração. Vista através dos arcos da loggia, a paisagem áspera e pobre, mas iluminada pelo sol, assemelhava-se a um quadro dentro de uma moldura. Hans Castorp contemplou-a, pensativo. De repente lembrou-se de um outro assunto e interrompeu o silêncio, dizendo em voz alta:
– A moça que nos serviu o café é uma anã; não é?
– Psiu! – fez Joachim. – Fale baixinho. Sim, é uma anã. E daí?
– Nada. Ainda não tínhamos comentado esse fato.
E com isso tornou a devanear. Já passava das dez horas, quando se deitou. Decorreu uma hora. Uma hora comum, nem longa, nem curta. Quando ela chegou ao fim, ressoou um gongo através da casa e do jardim, primeiro à distância, depois pertinho, e por fim cada vez mais longe.
– O segundo café da manhã – disse Joachim. Ouviu-se que ele se levantava.
Também Hans Castorp terminou o repouso e entrou no quarto, para se arrumar. Os primos encontraram-se no corredor e desceram juntos.
– Sabe que o repouso estava ótimo? – disse Hans Castorp. – Que cadeiras são essas? Se houver uma delas à venda, vou levá-la para Hamburgo. Deitado assim, sinto-me como no céu.
Que acha você: será que o Behrens mandou fazê-las especialmente, segundo as suas indicações?
Joachim não sabia. Após terem deixado os sobretudos no vestiário entraram pela segunda vez na sala de refeições, onde o segundo café da manhã já estava sendo servido.
A sala cintilava de tanto leite. Em cada lugar via-se um copo grande, de meio litro pelo menos.
– Não é comigo! – disse Hans Castorp, voltando a sentar na extremidade da mesa, entre a costureira e a inglesa, e desdobrou resignadamente o guardanapo, embora ainda se sentisse abarrotado do café da manhã. – Não senhor, não é comigo – repetiu. – Deus me livre! Nunca
tomo leite, e ainda menos a esta hora. Não poderia arranjar alguma porter? – dirigiu-se à anã, com toda a amabilidade e delicadeza. Infelizmente não havia. Mas a criada prometeu trazer-lhe cerveja de Kulmbach, e de fato voltou ela pouco depois. Era uma cerveja preta, espessa, com uma espuma parda, e substituía perfeitamente a porter. Hans Castorp bebeu com avidez, de um alto de meio litro. Acompanhou a bebida de presunto com pão torrado. Novamente foi servido mingau de aveia, e novamente muita manteiga e fruta. Ele limitou-se a contemplar tudo isso, já que não se sentia capaz de comer mais. Pôs-se a estudar os pensionistas, e aos poucos a multidão começou a subdividir-se em grupos, salientando-se até algumas individualidades.
A sua própria mesa estava completa, com exceção do lugar que se achava à sua frente, na extremidade oposta. Segundo ficou sabendo, era o “lugar do doutor”. Pois os médicos participavam das refeições comuns, quando as suas ocupações lhes deixavam o tempo necessário, e costumavam comer numa e noutra mesa, alternadamente. Por isso se reservava à extremidade de todas elas um “lugar do doutor”. No momento, nenhum dos dois se encontrava presente.
Dizia-se que estavam operando. De novo entrou o jovem bigodudo, abaixou uma só vez o queixo na direção do peito e sentou-se com uma fisionomia desassossegada e hermética.
Também a magrinha de cabelos louros estava no seu lugar, engolindo colheradas de iogurte, como se fosse o seu único alimento. A seu lado, instalara-se desta vez uma senhora de idade, baixinha e alegre, a qual dirigia uma torrente de palavras russas ao jovem taciturno, que a olhava com uma expressão preocupada, limitando-se a sacudir a cabeça, ostentando a expressão de quem tem na boca qualquer coisa de gosto repugnante. À sua frente, do outro lado da senhora de idade, achava-se mais uma mocinha, aliás muito bonita, com uma tez rosada e seios rijos; tinha cabelos castanhos agradavelmente ondulados, olhos redondos e pueris, da mesma cor, e um pequeno rubi na mão bem-formada. Ria muito, e também falava russo, só russo. Chamava-se Marusja, segundo Hans Castorp pôde ouvir. Além disso, observou ele de passagem que Joachim baixava os olhos com ar severo cada vez que a moça ria ou falava.
Settembrini apareceu na porta lateral e, cofiando o bigode, encaminhou-se para o seu lugar, na extremidade da mesa colocada obliquamente diante de Hans Castorp. Apenas sentou-se, os comensais desataram a rir. Sem dúvida, acabava de dizer alguma coisa maliciosa. Hans Castorp também conseguiu identificar os membros da “Sociedade Meio-Pulmão”. Hermine Kleefeld, com seus olhos estúpidos, foi arrastando o passo, até a mesa mais próxima da porta do avarandado, e cumprimentou o jovem beiçudo que, no passeio da manhã, levantara o paletó daquele jeito inconveniente. A Srta. Levi, com a cútis de marfim, estava sentada junto da Srª. Iltis, gorda e salpicada de lunares, à mesa transversal, à direita de Hans Castorp, onde, além delas, só se encontravam pessoas desconhecidas.
– Lá vêm os seus vizinhos – murmurou Joachim ao primo, inclinando-se para a frente. O
casal passou perto de Hans Castorp, rumo à mesa dos “russos ordinários”, a última à direita, onde já se achava uma família com um menino de cara feia, a devorarem enormes montões de porridge. O homem era de constituição débil e tinha as faces cavas e cinzentas. Trajava uma jaqueta de couro marrom e calçava toscas botinas de feltro, fechadas a fivela. Sua esposa, também baixinha e delgada, exibia um chapéu enfeitado de penas, que a cada passo se balouçavam, um boá pouco limpo, igualmente de penas, e minúsculos sapatos de couro da Rússia, cujos tacões excessivamente altos a obrigavam a um passo saltitante. Hans Castorp examinou os dois com uma falta de consideração que não lhe era habitual e cuja brutalidade ele mesmo sentiu; mas foi justamente o caráter brutal da sua conduta o que, de repente, lhe causou certo prazer. A expressão de seus olhos era ao mesmo tempo obtusa e indiscreta. Quando, nesse momento a porta envidraçada da esquerda se fechou, tinindo estrepitosamente, como acontecera na hora do café, Hans Castorp não tornou a sobressaltar-se, mas limitou-se a uma careta fleumática.
Empenhou-se então em voltar a cabeça para aquele lado; no entanto, verificou que esforço era excessivo e não valia a pena. Aconteceu que mais uma vez não logrou averiguar quem manejava a porta daquela maneira relaxada.
Essa indiferença provinha do fato de o ter atordoado e paralisado completamente a cerveja matinal, que em outras ocasiões exercia sobre ele apenas um efeito levemente inebriante.
Dessa vez, porém produziu em Hans Castorp as mesmas conseqüências de um golpe na testa. As pálpebras pesavam-lhe como chumbo. A língua já não obedecia aos mais simples pensamentos, quando por cortesia procurou palestrar com a inglesa. Até a tentativa de mudar a direção do olhar lhe custava um imenso esforço. E a isso acrescia aquele horroroso ardor no rosto que reaparecera com a mesma intensidade da véspera; sentia as faces como que túmidas de calor. Respirava com dificuldade e o coração batia qual um martelo envolto num pano. Se todas sensações não o incomodavam grandemente, era porque sua cabeça encontrava no estado de quem fez duas ou três inalações de clorofórmio. Que o Dr. Krokowski finalmente surgira na sala e se sentara no lugar à sua frente, Hans Castorp notou-o apenas como num sonho, não obstante o médico o fixar diversas vezes, ao conversar em com as senhoras à sua direita, enquanto as mocinhas – a exuberante Marusja e a macilenta comedora de iogurte – baixavam humilde e pudicamente os olhos. Hans Castorp, aliás, não deixou de se comportar convenientemente – é escusado dizê-lo; visto a sua língua mostrar recalcitrante, preferiu permanecer calado, mas conseguiu manejar com uma correção toda especial a faca e o garfo. Quando primo lhe deu um sinal com a cabeça e se levantou, pôs-se também pé, inclinou-se vagamente em direção aos companheiros de mesa e seguiu com passo firme atrás de Joachim.
– Qual é a hora do próximo repouso? – perguntou, ao saírem da casa. – A meu ver, é a melhor coisa que existe por aqui. Quem me dera estar deitado na minha magnífica espreguiçadeira! Vamos muito longe?
Uma palavra indevida
– Não – respondeu Joachim. – Nem posso ir longe. A esta hora costumo descer à aldeia e dar um passeio até Davos-Platz, quando tenho bastante tempo. A gente olha as lojas e o movimento na rua, e compra o que precisa. Antes do almoço há mais uma hora de repouso, e depois fica-se outra vez deitado até as quatro. Não se preocupe.
Desceram em pleno sol pela rampa da estrada. Atravessaram o curso d'água e as trilhas estreitas, tendo diante de si os vultos das montanhas que ladeavam o vale à direita: a Kleine Schiahorn, as Grüne Türme e o Dorfberg, conforme Joachim foi explicando. Lá, mais adiante, a certa altura, via-se o cemitério de Davos-Dorf, cercado de um muro; também para ele apontou Joachim com a bengala. E chegaram à estrada principal, que, um pouco acima do fundo do vale, se estendia ao longo da vertente composta de terraços.
Não se podia falar, propriamente, de aldeia, da qual apenas sobrava o nome “Dorf”.
Devorara-a a estação climatológica, ao prolongar-se mais e mais em direção à entrada do vale, de modo que a parte do conjunto que se chamava “Dorf” se confundia, insensivelmente, e sem solução de continuidade, com a outra, chamada “Davos-Platz”. Hotéis e pensões, todos eles abundantemente providos de avarandados cobertos, sacadas e alpendres de repouso, achavam-se dispersos por ambos os lados bem como casinhas particulares nas quais se alugavam cômodos; de vez em quando viam-se casas em construção; havia também alguns terrenos baldios, onde a estrada permitia ver os prados abertos do vale...
Hans Castorp, tomado pelo desejo de se proporcionar o costumeiro e querido estímulo, acendera novamente o charuto. Provavelmente foi graças à cerveja que acabava de beber que redescobriu, com indizível satisfação, alguns vestígios do almejado aroma, se bem que este aparecesse apenas em raros momentos e sem grande intensidade. Custou-lhe um certo esforço nervoso alcançar uma idéia daquele antigo prazer, e o repugnante sabor de couro continuava predominando. Incapaz de conformar-se, lutou algum tempo pela obtenção do gozo que ora se lhe esquivava, ora assomava a muita distância, como que zombando dele. Finalmente, fatigado e aborrecido, jogou fora o charuto. Apesar do seu atordoamento, sentiu que a cortesia o obrigava a entabular uma conversa. Para esse fim, procurou lembrar-se das coisas interessantes que, havia
pouco, tencionara dizer acerca do tempo. Mas constatou que se esquecera por completo de todo esse “vasto complexo”, a ponto de não abrigar na sua cabeça o mínimo pensamento a esse respeito. Em compensação, meteu-se a falar de assuntos referentes ao corpo, e isso de maneira bastante esquisita.
– Quando é que você vai tirar novamente a temperatura? – perguntou. – Depois da refeição? Assim está bem. A essa hora acha-se o organismo em pleno funcionamento; aí deve aparecer a verdade. Mas diga, você não acha que o Behrens brincou comigo, quando sugeriu que eu também tomasse a temperatura? Settembrini riu-se gargalhadas, quando ouviu a história. E
realmente seria absurdo. Além disso, nem termômetro tenho.
– Ora – disse Joachim. – Isso é o de menos. Basta comprar um. Aqui se encontram termômetros em toda parte. Qualquer loja tem.
– Para quê? Não senhor o repouso, vá lá; mas tomar a temperatura, isso seria exigir muito de um visitante. É uma ocupação e que deixo para vocês. Se eu ao menos soubesse – continuou Hans Castorp, pondo as mãos sobre o coração, como um jovem apaixonado – que tenho a toda hora estas palpitações! Elas me inquietam, e já faz tempo que estou refletindo sobre isso. Olhe, a gente sofre de palpitações quando se acha em vésperas de uma alegria extraordinária, ou quando está com medo; em poucas palavras, quando experimenta uma emoção, não é? Mas, sentir que o coração bate gratuitamente, sem motivo nem sentido, por assim dizer por conta própria – acho isso misterioso, compreende? É como se o corpo seguisse o seu próprio caminho e se tivesse desligado da alma. De certo modo é semelhante a um cadáver que também, na realidade, não está completamente morto... Isto não existe... Mas ainda leva uma vida bastante ativa e independente: os cabelos e as unhas continuam crescendo, e como me explicaram, reina nele, sob todos os aspectos, físicos e químicos, a mais franca animação.
– Que maneira de falar é essa? – disse Joachim num tom de ponderada censura. – Franca animação! – Talvez quisesse, dessa forma, vingar-se um pouco da observação que o primo fizera, de manhã, sobre a banda do regimento.
– Mas é mesmo! Reina a mais franca animação. Por que é que você se escandaliza? –
perguntou Hans Castorp. – De resto, mencionei isso apenas de passagem. Eu queria somente dizer que é uma coisa sinistra e penosa ver o corpo levar uma existência própria, independente da alma, e dar-se ares de importância, como no caso dessas palpitações sem motivo. E a gente se esforça por encontrar um sentido nessa coisa; procura-se a emoção indispensável, um sentimento de alegria ou de medo, que as justifique de certo modo – pelo menos eu faço isso, pois só posso falar de mim.
– Sim senhor – disse Joachim, suspirando. – É mais ou menos a mesma coisa que estar com febre. Nesse caso também reina no corpo “a mais franca animação”, para empregar a sua expressão. Então acontece facilmente que, sem querer, a gente ande à cata de uma emoção, como você diz, para que essa animação receba um sentido mais ou menos plausível... Mas estamos falando de coisas tão desagradáveis! – acrescentou em voz trêmula, e cortou a conversa. Hans Castorp limitou-se a dar de ombros, da mesma forma como vira Joachim fazer na véspera.
Durante algum tempo caminharam em silêncio. Depois Joachim perguntou:
– E que tal acha você acha as pessoas aqui em cima? Quero dizer, os nossos companheiros de mesa.
Hans Castorp assumiu um ar indiferente, pensativo.
-meu Deus! – disse. – Não me parecem grande coisa. Tenho a impressão de que em outras mesas há pessoas mais interessantes, pode ser que me engane. A Srª. Stöhr deveria lavar os cabelos, estão muito ensebados. E aquela Mazurca, ou como se chama?, parece-me um pouco fútil. A toda hora bota o lenço na boca, de tanto rir.
Joachim achou graça nessa deformação do nome.
– Mazurca? É boa! – exclamou. – Ela se chama Marusja, sabe? É o mesmo que Maria.
Pois é – acrescentou – ela é mesmo estouvada, e contudo teria motivos de sobra para ficar mais quieta. Está bastante doente.
– Ninguém pensaria isso – disse Hans Castorp. – Tem uma aparência tão sadia! Uma doença do peito é a última coisa que eu atribuiria. – Tentou trocar com o primo um olhar atrevido, mas verificou que o rosto de Joachim, apesar de tostado pelo sol, mostrava uma cor terrosa, como a adquire a pele queimada, quando o sangue retira, e que sua boca se crispara de um modo particularmente doloroso, adotando uma expressão que despertou no jovem Hans Castorp um vago pavor e fez com que ele, mudando imediatamente de assunto, fosse informar-se sobre outras pessoas, na intenção de esquecer o mais depressa possível Marusja e a expressão de Joachim, o que, aliás, conseguiu sem dificuldade.
A inglesa do chá de roseira-brava chamava-se Miss Robinson. A costureira não era costureira, mas uma professora do Liceu Estadual Königsberg, e por isso se expressava com tanta correção. Seu nome era Engelhart. Quanto à velhota jovial, nem o próprio Joachim sabia como se chamava, apesar de viver há muito tempo ali em cima. Em todo caso era a tia-avó da comedora de iogurte, com a qual morava constantemente no sanatório. Mas quem estava mais doente, dentre todos os que comiam à mesa, era o Dr. Blumenkohl, Leo Blumenkohl, de Odessa, aquele moço bigodudo de cara fechada. Já havia anos que se achava internado...
Estavam passando por uma verdadeira rua de cidade, a rua principal de um centro internacional, como logo se via. Vinham-lhes ao encontro veranistas que flanavam por ali, jovens na maioria, os homens em traje esporte e sem chapéu, as senhoras também sem chapéu e com saias brancas. Ouvia-se falar russo e inglês. À direita e à esquerda havia lojas com elegantes vitrines, e Hans Castorp, cuja curiosidade travava uma luta violenta com a ardente fadiga, obrigou os olhos a verem, detendo-se durante muito tempo diante da loja de um camiseiro, para constatar que a vitrine estava mesmo “à altura”.
Depois surgiu uma rotunda, com uma galeria coberta, onde uma orquestra dava um concerto. Era o cassino. Em algumas quadras de tênis jogavam-se partidas. Jovens escanhoados, de pernas compridas, trajando calças de flanela cuidadosamente passadas, exibiam os antebraços desnudos e os sapatos com solas de borracha. À sua frente jogavam mocinhas tostadas, vestidas de branco, que em plena corrida se estiravam alto no ar iluminado pelo sol, a fim de rebaterem, no vôlei, a bola alvacenta. Um como que um pó de farinha pairava sobre as quadras bem cuidadas. Os primos sentaram-se num banco vazio, para olhar e criticar o jogo.
– Você não joga aqui? – perguntou Hans Castorp.
– Não me deixam – respondeu Joachim. – Nós temos de ficar deitados, sempre deitados... Settembrini costuma dizer que vivemos uma vida horizontal, que somos uns horizontais. É uma das suas piadas sarcásticas... Aquela gente que ali joga não está doente, ou então joga apesar da proibição. De resto, eles não jogam muito seriamente; é mais para mostrar os trajes... E quanto às proibições, existem por aqui outras coisas proibidas que se jogam, como o pôquer, sabe? e neste ou naquele hotel, também os petits chevaux. Entre nós, isto se pune com expulsão, porque o jogo de azar é considerado a infração mais prejudicial. Contudo, há quem saia ainda depois da revista noturna, para entrar na jogatina. O príncipe que deu o título ao Behrens também costumava escapulir de noite.
Hans Castorp mal o ouvia. Andava com a boca entreaberta; embora não estivesse resfriado, tinha dificuldade em respirar pelo nariz. Seu coração martelava num ritmo contrário à música, o que lhe causava impressão vagamente penosa. Tomado dessa sensação de desordem e contrariedade, estava a ponto de cochilar, quando Joachim o avisou de que eram horas de voltar.
Percorreram o caminho em silêncio. Hans Castorp até chego tropeçar diversas vezes na estrada plana, e, ao dar-se conta disso, esboçou um sorriso melancólico, sacudindo a cabeça. O
porteiro coxo conduziu-os no elevador até o seu pavimento. Separaram-se em frente do número 34, com um breve “Até logo”. Hans Castorp rumou, através do quarto e saiu para a sacada, onde, sem mais nem menos, se deixou cair na espreguiçadeira. Nem sequer mudou de posição, mergulhou numa pesada modorra, que as rápidas pulsações do coração animavam desagradavelmente.
Uma fêmea, naturalmente!
Não se deu conta do tempo que passou nesse estado. Chegada a hora ressoou o gongo.
Mas, como Hans Castorp sabia, isso não representava o chamado imediato à refeição. Era, apenas, o sinal para os hóspedes se aprontarem. Assim, permaneceu deitado até que o estrondo metálico se intensificasse e depois se afastasse pela segunda vez. Quando Joachim atravessou o quarto, para buscá-lo, Hans Castorp quis mudar de roupa. Joachim, entretanto, não permitiu.
Detestava e desdenhava a falta de pontualidade. Como era possível progredir na vida e recuperar a saúde, para voltar ao serviço – perguntou –, aquele que se mostrava por demais relaxado até para observar o horário das refeições? Nesse ponto, indiscutivelmente, tinha razão, e Hans Castorp limitou-se a observar que não estava doente, rias apenas se sentia sumamente sonolento.
A toda pressa lavou as mãos, e em seguida desceram ao salão, pela terceira vez nesse dia.
Os hóspedes vinham afluindo por ambas as entradas. Entravam também pelas portas do avarandado, que estavam abertas. Dentro de pouco tempo, todos se encontravam sentados em torno das sete mesas, como se nunca se tivessem levantado. Tal era, pelo menos, a impressão de Hans Castorp – impressão puramente fantástica e irracional, mas que seu cérebro enevoado não logrou rechaçar por alguns instantes, e na qual encontrou mesmo algum prazer; pois, no decorrer da refeição, tentou repetidamente evocá-la, obtendo cada vez uma ilusão perfeita. A velhota jovial estava novamente a dirigir uma torrente de palavras, no seu linguajar indistinto, ao Dr.
Blumenkohl, sentado do lado oposto da mesa, e que a ouvia com um ar preocupado. Sua sobrinha macilenta comia, finalmente, outra coisa que não o iogurte: o espesso crême d'orge, que as criadas serviam em pratos; mas ela não foi além de umas poucas colheradas. A bela Marusja, para abafar o riso, apertava contra a boca o lencinho, que exalava perfume de flor de laranjeira. Miss Robinson lia as mesmas cartas escritas em letra redonda que já lera de manhã. Evidentemente não sabia nem uma única palavra de alemão e fazia até questão de não saber. Joachim, em atitude diferente, proferiu algumas frases inglesas sobre o tempo, às quais ela respondeu mastigando uns monossílabos, para logo recair no silêncio. Quanto à Srª. Stöhr, com a sua blusa de padrão escocês – submetera-se ela, essa manhã, ao exame médico, cujos pormenores relatou com afetação vulgar, descortinando os seus dentes de lebre. Lamentou-se de que em cima, à direita, houvesse ainda ruídos; além disso, tinha uma diminuição do murmúrio abaixo da axila esquerda; era preciso ficar mais cinco meses, conforme lhe dissera “o Velho”. Em sua linguagem ordinária, chamava o Dr. Behrens de “o Velho”. Mostrou-se, de resto, muito indignada pelo fato de não estar “o Velho” presente à mesa. Segundo a “toumée” queria dizer: segundo o turno era hoje a vez da sua mesa, ao passo que “o Velho” novamente se sentara à mesa próxima da esquerda (onde, com efeito, se via o Dr. Behrens juntando as manzorras diante do prato). Mas, claro continuou a Srª. Stöhr –, ali tinha o lugar a gorda Srª. Salomon, de Amsterdã, que todo santo dia se apresentava às refeições num vestido muito decotado, e tal aspecto parecia que era do agrado do
“Velho”, se bem que ela, a Srª. Stöhr, não soubesse explicar por que razão, uma vez que nos exames médicos ele tinha ensejo para ver o quanto queria dessa dama. Mais tarde contou, cochichando exaltadamente, que à noite anterior, no avarandado de repouso localizado no sótão, alguém apagara a luz, e isso para fins que a Srª. Stöhr qualificava de “manifestos”. “O Velho”
notara o incidente e praguejara de tal maneira, que todo o sanatório o ouvira. Mas naturalmente, mais uma vez não conseguira descobrir o culpado, e entanto não era preciso ter estudado na universidade para adivinhar que fora aquele capitão Miklosich, de Bucareste para quem nunca havia escuridão suficiente em companhia de senhoras; um homem sem a mínima cultura, embora usasse espartilho, e por natureza uma fera, sim, uma fera, repetiu a Srª. Stöhr numa voz afogada, enquanto o suor lhe perlava a testa e o lábio superior. Todo o mundo em Davos sabia das relações que existiam entre ele e a esposa do Cônsul-Geral Wurmbrand, de Viena, e não podiam se chamar de “secretas”. Não somente entrava o capitão, às vezes já de manhã cedo no quarto da mulher do cônsul–geral, quando esta se encontrava ainda deitada, e assistia então a sua toilette; mas, na terça-feira passada, saíra do quarto Wurmbrand às quatro da madrugada... A enfermeira
do jovem Franz do número 19, aquele que tivera recentemente o pneumotórax fracassado... essa enfermeira, pois, apanhara o capitão em flagrante delito, de tanta vergonha enganara-se na porta, de modo que se vira, de repente, no quarto do Sr. Paravant, promotor público de Dortmund...
Por fim, a Srª. Stöhr entregou-se a considerações pormenorizadas sobre um instituto “cósmico”
da aldeia, onde ela costumava comprar seu dentifrício. Joachim cravava os olhos no prato.
A comida era tão boa quanto abundante. Incluindo a sopa, constava de nada menos que seis pratos. Depois do peixe vinha uma sólida iguaria de carne com verduras; a seguir, ainda outro prato de legumes; fritura de aves, uma sobremesa austríaca, em nada inferior à da véspera, por fim queijo e frutas. Cada prato era servido duas vezes, e não inutilmente. Em toda parte, nas sete mesas, viam-se pratos cheios; reinava naquela sala um apetite voraz, uma fome de lobo, que seria um prazer observar, se ela não produzisse, ao mesmo tempo, uma impressão de certo modo sinistra e até repulsiva. Não somente as pessoas bem-humoradas manifestavam esse apetite, aquelas que tagarelavam e se atiravam bolinhas de pão, mas também as taciturnas e sombrias, que, nos intervalos entre os diferentes pratos, apoiavam a cabeça nas mãos e fitavam o ar. Um adolescente, na mesa vizinha da esquerda, um colegial, segundo parecia, com mangas muito curtas e óculos redondos de grossas lentes, cortava em pedacinhos tudo quanto se amontoava no seu prato, transformando-o numa papa informe; depois se inclinava para a frente e devorava a comida, passando, de vez em vez, o guardanapo por baixo dos óculos, para enxugar não se sabia o quê, lágrimas ou gotas de suor.
Dois incidentes ocorreram durante o almoço, despertando a atenção de Hans Castorp, na medida em que seu estado permitia. Primeiramente, a porta envidraçada tornou a fechar-se com estrondo; foi quando comiam o peixe. Hans Castorp sobressaltou-se, irritado, e na sua cólera veemente disse de si para si que desta vez era necessário descobrir o culpado. Não se limitou a pensar nisso intimamente, mas também formou as palavras com os lábios, por tomar muito a sério o incidente. – É preciso encontrá-lo! – murmurou com uma indignação de tal modo exagerada, que tanto Miss Robinson como a professora o olharam, pasmadas. Com essas palavras voltou-se para a esquerda e arregalou os olhos injetados.
Era uma senhora que atravessava a sala, ou melhor, uma moça, de estatura média vestida de pulôver branco e saia a fantasia, com cabelos ruivos, que ela usava numa trança enrolada em volta da cabeça. Hans Castorp mal pôde entrever-lhe uma parte do perfil. Andava sem fazer ruído, o que formava um contraste estranho com a sua entrada barulhenta; caminhando de um modo singularmente furtivo, cabeça levemente avançada, dirigiu-se à mesa situada na extrema direita da sala, perpendicular ao avarandado, a mesa dos “russos distintos”. Uma das mãos achava-se enterrada no bolso do pulôver justo, ao passo que a outra, levantada à altura da nuca, segurava e arranjava o penteado. Hans Castorp olhou essa mão – entendia de mãos e lhes devotava atenção muito crítica, tendo o hábito de examinar, antes de mais nada, essa parte do corpo das pessoas com quem travava conhecimento. Aquela mão que ali arrumava os cabelos era propriamente a mão de uma senhora distinta; não oferecia aquele aspecto cuidado e refinado que costumavam ter as mãos das esfera social de Hans Castorp. Bastante larga, de dedos curtos, tinha algo de primitivo, de infantil, que lembrava a mão de uma colegial. As unhas, evidentemente, ignoravam a manicura; estavam aparadas de maneira tosca, também de colegial, e a pele, nas bordas, parecia tanto áspera, como a de quem tivesse o vício de roer as unhas. Hans Castorp notou tudo isso mais por adivinhação do que pelos olhos, pois a distância era demasiadamente grande. A moça retardatária cumprimentou com um aceno de cabeça os companheiros de mesa e sentou-se, dando as costas à sala, ao lado do Dr. Krokowski, que presidia àquela mesa. Depois, ainda segurando os cabelos com a mão, lançou por sobre o ombro um olhar ao público, o que permiti Hans Castorp vislumbrar-lhe as maçãs salientes e os olhos rasgados... Uma recordação vaga, ele não sabia de que nem de quem, assaltou-o leve e passageiramente ao ver esse rosto.
– Uma fêmea, naturalmente! – pensou Hans Castorp, e, mais uma vez lhe aconteceu articular as palavras, de modo que a professora, Srta. Engelhart, pôde ouvir o que dizia. A insignificante solteirona deu um sorriso indulgente.
– É Mme... Chauchat – disse. – Ela é tão relaxada! Uma mulher encantadora! – Ao mesmo tempo intensificou-se o rubor aveludado das faces da Srta. Engelhart, coisa que sempre se dava quando ela abria a boca.
– Francesa? – perguntou Hans Castorp com severidade.
– Não, russa – respondeu a Srta. Engelhart. – Pode ser que o marido seja francês ou de origem francesa. Não tenho certeza.
– É aquele? – indagou Hans Castorp, ainda irritado, apontando para um senhor de ombros caídos, que se achava à mesa dos “russos distintos”.
– Não, senhor – tornou a professora. – Ele nunca esteve aqui. Ninguém o conhece.
– Ela deveria fechar a porta com mais cuidado – disse Hans Castorp. -sempre bate com a porta. É uma falta de educação.
A professora aceitou a censura com um sorriso humilde, como se ela própria fosse a culpada, e assim deixaram de falar em Mme... Chauchat. O segundo incidente consistia na temporária ausência do Dr. Blumenkohl. Era só isso e nada mais. De repente, acentuou-se a expressão levemente enojada do seu rosto, enquanto mais preocupadamente do que em geral cravava o olhar no vazio. Depois, com um movimento discreto, afastou a cadeira e saiu. Foi quando a imensa vulgaridade da Srª. Stöhr se manifestou em toda a sua crueza. Provavelmente, a baixa satisfação que lhe causava o fato de estar menos enferma do que Blumenkohl, fez com que lhe acompanhasse a saída com comentários mesclados de compaixão e desdém.
– Coitado! – disse ela. – Está com os pés na cova. Outra vez precisa conversar com o Joãozinho Azul. – Arvorando uma fisionomia de obstinada tolice, proferiu, sem o menor asco, a denominação burlesca “Joãozinho Azul”. Ao ouvi-la, Hans Castorp experimentou ao mesmo tempo horror e vontade de rir. Pouco tempo depois, voltou o Dr. Blumenkohl, do mesmo modo discreto. Sentou-se novamente e prosseguiu na refeição. Também ele comia muito; servia-se duas vezes de cada prato, taciturno, com expressão tristonha e fechada.
Finalmente, o almoço chegou ao fim. Graças ao serviço atencioso – a anã movimentava-se de maneira particularmente rápida –, durara apenas uma hora. Ofegante, sem saber como subira, Hans Castorp jazia mais uma vez na magnífica espreguiçadeira da sua sacada. O repouso após o almoço prolongava-se até a hora do chá, sendo considerado como o mais importante e por isso observado com todo o rigor. Entre as divisões de vidro opaco que o separavam, de um lado, de Joachim, e do casal russo, do outro, permanecia Hans Castorp estendido, modorrando, a respirar pela boca, enquanto o seu coração martelava. Quando fez uso do lenço, notou nele manchas de sangue, mas não teve forças para refletir a esse respeito, apesar de ser muito impressionável e se inclinar, por natureza, para preocupações hipocondríacas. Tornara a acender um Maria Mancini, e dessa vez fumou o charuto até o fim, fosse qual fosse o seu sabor.
Entretanto, angustiado e cismarento, analisava as coisas estranhas que lhe aconteciam ali. Duas ou três vezes, seu peito foi sacudido por uma risada interior, ao relembrar a expressão abominável que empregara, na sua vulgaridade a Srª. Stöhr.
O Sr. Albin No jardim, lá embaixo, a brisa levantava de vez em quando a bandeira adornada de um caduceu. O céu voltara a nublar-se em toda parte. Desapareceu o sol, e quase imediatamente surgiu um frio pouco hospitaleiro. O alpendre de repouso parecia estar cheio; ouviam-se conversas e risos abafados.
– Por amor de Deus, Sr. Albin, guarde essa faca. Pode acontecer uma desgraça! –
lamentava-se uma voz aguda, suplicante, de mulher.
-meu caro Sr. Albin, por favor, tenha consideração pelos nos nervos e afaste essa arma homicida – interveio outra. E um jovem louro, que com um cigarro na boca estava sentado na borda da primeira espreguiçadeira, retrucou num tom insolente:
– Nem penso nisso! Será que as senhoras não me permitem brincar com a minha faca?
Não nego que é uma faca muito bem afiada. Comprei-a em Calcutá, de um faquir cego. O
homem era capaz de a engolir, e logo depois o seu menino ia desenterrá-la a uns cinqüenta passos de distância... Querem ver? Corta melhor que uma navalha. Baste tocar no gume, e a carne se abre que nem manteiga. Esperem, vou mostrá-la de perto... – O Sr. Albin levantou-se. Houve gritos estridentes. – Não? Nesse caso vou buscar meu revólver – continuou ele. – Talvez seja mais interessante para as senhoras. É formidável. Tem uma força de percussão que nem imaginam... Vou buscá-lo no meu quarto.
– Sr. Albin, Sr. Albin, não faça isso! – imploravam várias vozes. Mas o Sr. Albin já saíra do alpendre para subir ao quarto. Era muito jovem, com movimentos desengonçados, e tinha uma cara rosada, de criança, ornada de pequenas suíças.
– Sr. Albin! – gritou uma senhora atrás dele. -seria melhor buscar um sobretudo. Ponha um sobretudo, faça o favor! O senhor passou seis semanas na cama, com pneumonia, e agora fica sentado aqui, sem se agasalhar, e ainda fuma cigarros! Palavra de honra, Sr. Albin, isso é tentar a Deus.
Mas ele se limitou a um riso sarcástico e foi-se embora. Poucos minutos após, já estava de volta com o revólver na mão, para desenfrear uma gritaria ainda mais idiota que a anterior.
Ouviu-se perfeitamente como algumas dentre as senhoras, levantando-se de um pulo, tropeçavam no cobertor e caíam no chão.
– Vejam só como ele é pequeno e lustroso – disse o Sr. Albin. – Mas ele morde, quando aperto aqui... – Nova gritaria. – Claro que está carregado – acrescentou o Sr. Albin. – Há seis balas no cilindro, que gira a cada disparo... Aliás, não comprei este negócio para brincadeira –
concluiu, ao notar que o efeito das suas palavras diminuía. Enfiou o revólver no bolso do paletó, tornou a sentar-se, cruzando as pernas, e acendeu novo cigarro. – Absolutamente não é para brincadeira – repetiu, cerrando os lábios.
– Mas, para quê? Para que, então? – perguntaram algumas vozes trêmulas de pressentimento. – Que horror! – exclamou de repente uma das senhoras, e o Sr. Albin sacudiu a cabeça afirmativamente.
– Vejo que as senhoras começam a compreender – disse – Com efeito, é para isso que ando com ele – continuou num tom displicente, depois de ter tirado uma longa tragada do cigarro, não obstante a pneumonia recém-vencida. – Conservo-o preparado para o dia em que esta coisa aqui começar a me aborrecer muito, e terei a honra de me despedir respeitosamente. É
muito simples. Gastei algum tempo em estudar o assunto e sei como melhor se liquida. A palavra “liquida” provocou um grito de susto. – O coração interessa. E um alvo incômodo... Além disso prefiro extinguir a consciência no seu próprio centro, enxertando um corpo estranho engraçadinho neste órgão interessante... – E o Sr. Albin mostrou com o indicador o crânio coberto de cabelos louros, aparados rente – Deve-se apontar aqui – com essas palavras, o Sr.
Albin voltou a tirar do bolso o revólver niquelado e bateu com o cano na fronte – aqui, em cima da artéria... É um processo facílimo, até sem espelho...
Ouviram-se muitas vozes de insistente protesto, às quais se misturou ainda um violento soluço.
– Sr. Albin, Sr. Albin, tire esse revólver da fronte, guarde o revólver! Não posso ver uma coisa dessas! Sr. Albin, o senhor é moço, vai recuperar a saúde, voltará à vida e terá uma grande carreira pela frente; garanto-lhe! Bote o sobretudo, deite-se na espreguiçadeira, agasalhe-se bem e continue com o seu tratamento! Não mande o massagista embora, como fez da outra vez, quando ele veio esfregá-lo com álcool. E por amor à sua vida, sua jovem e preciosa vida, Sr.
Albin atenda ao nosso conselho: abandone os cigarros!
Mas o Sr. Albin mostrava-se inexorável:
– Não e não! – disse ele. – Não insistam comigo. Está bem. Agradeço-lhes a sua bondade.
Nunca neguei nada a uma senhora, mas deve-se compreender que é inútil procurar deter a roda do destino. Faz mais de dois anos que vivo aqui... Estou farto e vou sair do jogo. Que mal há
nisso? Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável. O próprio Behrens já não disfarça essa sua opinião, nem para guardar as aparências.
Então me concedam a pequena liberdade que para mim resulta desse fato! É como no ginásio, quando se decidia que alguém levava bomba e tinha que repetir o ano. Deixavam então de examiná-lo, e ele não precisava mais trabalhar. Eu cheguei definitivamente a essa situação feliz.
Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo... Querem chocolate?
Sirvam-se. Não, minhas senhoras, não me privem de nada. Tenho montões de chocolate no meu quarto; oito caixas de bombons, cinco barras de Gala-Peter e quatro libras de chocolate Lindt.
Tudo isto me mandaram as senhoras do sanatório durante a minha pneumonia...
Em algum lugar, uma voz de contrabaixo reclamou silêncio. O Sr. Albin deu uma rápida risada; era um riso trêmulo, abrupto... Depois se fez silêncio no alpendre de repouso, um silêncio tão completo, como se se tivesse sumido uma miragem ou uma fantasmagoria. De um modo estranho pareciam ecoar as palavras que haviam sido pronunciadas. Hans Castorp ficou a escutar, até que o último ruído houvesse cessado, e conquanto tivesse a impressão de que o Sr. Albin era um fantoche, não pôde deixar de sentir uma certa inveja. Principalmente aquela comparação tirada da vida escolar causara-lhe viva impressão, já que ele mesmo tivera que repetir o quinto ano do ginásio e ainda se lembrava muito bem daquela situação decerto um pouco ignominiosa, mas também cômica e agradavelmente desembaraçada, que desfrutara durante o último trimestre, quando deixara de se esforçar e pudera “rir-se de tudo”. Não é fácil precisar seus pensamentos, visto serem obscuros e confusos, mas parecia-lhe, em suma, que a honra oferecia consideráveis vantagens, mas que a vergonha não as tinha menores, e que as vantagens desta última eram quase ilimitadas. Enquanto, a título de experiência, representava no seu espírito o papel do Sr. Albin e imaginava o que significaria ver-se definitivamente livre da pressão da honra e gozar para sempre as imensas vantagens da vergonha, assustou-se o jovem diante de uma sensação de gozo dissoluto, que lhe imprimiu às batidas do coração, por alguns instantes, um ritmo ainda mais acelerado.
Satã faz propostas desonrosas
Depois perdeu a consciência. De acordo com o seu relógio de bolso eram três e meia quando o despertou uma conversa atrás da divisão de vidro do lado esquerdo. O Dr. Krokowski, que a essa hora fazia a ronda sem o acompanhamento do conselheiro áulico, falava em russo com o casal mal-educado. Informava-se, como parecia, a respeito do estado do marido e pediu que lhe mostrassem a papeleta da temperatura. Depois prosseguiu na ronda, sem, no entanto, tomar o caminho ao longo da sacada, evitando o compartimento de Hans Castorp e dando uma volta pelo corredor, a fim de entrar pela porta no quarto de Joachim. Hans Castorp sentiu-se um tanto melindrado pelo fato se ver contornado dessa maneira, se bem que não desejasse de modo algum uma entrevista a sós com o Dr. Krokowski. Sem dúvida, estava bem de saúde e não entrava em conta; pois, aqui em cima – pensou ele – estabelecera-se o princípio de não se ver considerado nem despertar interesse quem tivesse a honra de estar são; isso não deixou de agastar o jovem Castorp.
Após ter passado uns dois ou três minutos no quarto de Joachim, o Dr. Krokowski continuou seu caminho, ao longo da sacada. H Castorp ouviu o primo dizer-lhe que estava na hora de se levantar e de preparar-se para o chá da tarde. – Está bem – respondeu e ergueu-se.
Mas sentiu-se tonto, por ter permanecido deitado durante tanto tempo. Ao invés de refrescá-lo, a modorra de novo lhe provocara aquele ardor penoso das faces, ao passo que o resto do corpo estava arrepiado, talvez porque não se agasalhara suficientemente.
Lavou os olhos e as mãos; pôs em ordem os cabelos e as roupas, foi encontrar-se com Joachim, no corredor.
– Você ouviu esse Sr. Albin? – perguntou, enquanto desciam pela escada.
– Claro! – replicou Joachim. – Deveriam ensinar disciplina a esse sujeito. Perturbou o repouso da tarde com o seu palavrório e excitou as senhoras de tal maneira, que lhes retardou a cura por semanas inteiras. É caso muito grave de insubordinação. Mas quem vai denunciá-lo?