A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 1 de 13 · parte 3/4

Páginas do PDF

A Montanha Mágica

Start

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Havia na mesa tigelas com geléias e com mel, pratos com arroz-doce e com mingau de aveia, travessas com ovos mexidos e com carne fria; a manteiga figurava em abundancia; alguém estava a levantar a redoma de vidro para cortar um pedaço de queijo suíço, úmido de gordura; e no centro da mesa via-se ainda uma fruteira com frutas, frescas e secas Uma criada vestida de preto e branco perguntou a Hans Castorp o que ele desejava beber: chocolate, café ou chá. Era baixinha como uma criança, e tinha um rosto oblongo, de velha. Como Hans Castorp constatou com espanto, era uma anã. Ele lançou um olhar ao primo, mas este se limitou a dar de ombros, franzindo as sobrancelhas, como para dizer: “E daí?” Assim, Hans Castorp, conformando-se com o fato estranho, pediu chá, com especial cortesia, por se tratar de uma anã. Pôs-se, então, a comer arroz-doce com canela, enquanto seus olhos vagavam por sobre os demais pratos, que ainda desejava provar, e estudavam os hóspedes distribuídos nas sete mesas – os colegas de Joachim, seus companheiros de destino, todos enfermos interiormente, e que ali, conversando, tomavam o café da manhã.

A sala estava decorada com aquele gosto moderno que sabe dar um cunho fantástico à mais singela objetividade. Não era muito larga em proporção a seu comprimento. Rodeava-a uma espécie de passeio onde se viam aparadores, e que se abria em amplas arcadas para o interior cheio de mesas. Os pilares revestidos, até meia altura, de madeira cujo lustro imitava sândalo, e dali em diante caiados, da mesma forma como a parte superior das paredes e o teto, ostentavam faixas multicores com motivos simples e alegres, que se repetiam nos vastos arcos da abóbada

pouco acentuada. Guarneciam a sala alguns candelabros elétricos, de latão polido, compostos de três argolas superpostas, ligadas entre si por um entrelaçamento decorativo; em volta da argola inferior havia uma série de globos de vidro fosco, parecidos com pequenas luas. Existiam quatro portas envidraçadas, duas em frente de Hans Castorp, na largura da sala, que davam para um avarandado, uma terceira à esquerda, que conduzia diretamente ao vestíbulo de entrada, e finalmente aquela pela qual Hans Castorp entrara, vindo de um corredor, uma vez que Joachim o guiara por uma escada diferente da que haviam usado à noite passada.

À sua direita estava sentada uma criatura pouco vistosa, vestida de preto, de tez veludosa e faces levemente febris, que dava a Hans Castorp a impressão de ser costureira ou modista, sem dúvida porque ela tomava apenas café com pão e manteiga, e porque nele a idéia de uma costureirinha fazia tempo que se associara com esse tipo de refeição. O lugar à sua esquerda estava ocupado por uma senhorita inglesa, também já avançada em anos, muito feia, com dedos magros e enregelados; lia cartas da sua terra, escritas em letra redonda, enquanto bebia um chá cor de sangue. Depois vinha Joachim e, em seguida, a Srª. Stöhr, numa blusa de lã enxadrezada –

ao comer, mantinha a mão esquerda firmemente cerrada nas proximidades da face. Era visível o seu esforço de proferir as palavras com um ar de distinção e cultura, mostrando uns grandes e estreitos dentes de lebre, sob o lábio superior. Um jovem de fino bigode, e com a cara de quem tem na boca qualquer coisa de gosto repugnante, sentou-se ao lado dela e tomou a refeição em completo silêncio. Entrou quando Hans Castorp já se instalara na cadeira; saudou os comensais com um rápido gesto de queixo, enquanto ainda caminhava, e ocupou o seu assento, demonstrando claramente que não tencionava travar conhecimento com o novo pensionista.

Talvez estivesse demasiado enfermo para dar atenção a esse tipo de convenções e para se interessar pelo ambiente em geral. Durante um momento sentou-se à sua frente uma jovem extraordinariamente magra, de cabelos louro-claros, que esvaziou no prato uma garrafa de iogurte, tomou-o com a colher e sumiu imediatamente.

A conversação à mesa não era muito animada. Joachim palestra cerimoniosamente com a Srª. Stöhr, informando-se a respeito da sua saúde e inteirando-se com um pesar formal de que esta deixava muito a desejar. A Srª. Stöhr queixou-se de seu estado de “lassidão”.

– Sinto-me tão lassa! – disse, arrastando as sílabas com a afetação peculiar às pessoas pouco cultas. Já antes de se levantar tivera 37,3 e quanto não teria de tarde? A costureira, como comunicou, tinha a mesma temperatura, mas declarou sentir-se, pelo contrário muito agitada tomada de uma tensão íntima, desassossegada, como se se achasse às vésperas de um acontecimento singular e decisivo, o que em absoluto não era o caso, visto se tratar de uma excitação puramente física, sem motivos na alma. Já não parecia ser costureira, por quanto se expressava numa linguagem correta até erudita. A Hans Castorp, por sua vez, essa tal excitação ou pelo menos o fato de se falar dela, causou a impressão de uma coisa até certo ponto inconveniente e quase escandalosa, numa criatura tão insignificante e prosaica. Perguntou primeiro à costureira, e depois à Srª. Stöhr, há quanto tempo já se achavam no sanatório, e ficou sabendo que aquela vivia ali fazia cinco meses, e esta há sete. A seguir reuniu seus conhecimentos de inglês para interrogar a sua vizinha da direita acerca da qualidade de chá que ela tomava – era chá de roseira brava –, e se tinha um sabor agradável, o que a senhora confirmou quase impetuosamente. Feito isso, pôs-se a contemplar a sala, onde as pessoas iam e vinham, já que o café da manhã não constituía uma refeição que se fizesse rigorosamente em comum.

Receara um pouco receber impressões horrorosas, mas viu-se logrado; o ambiente nessa sala parecia bastante animado. Absolutamente não despertava a idéia de um lugar de sofrimentos.

Jovens de ambos os sexos, tostados pelo sol, entravam cantarolando, conversavam com as criadas e atacavam a comida com vigoroso apetite. Havia também pessoas mais idosas: casais, uma família inteira, com crianças, que falavam russo, e até uns adolescentes. As mulheres vestiam, quase todas, casaquinhos muito justos, de lã ou seda, suéteres, como os chamavam, ora brancos ora à fantasia, com golas voltadas para fora e bolsos laterais. Era bonito ver como andavam ou palestravam com as mãos enterradas nesses bolsos. Em algumas mesas, eram exibidas fotografias,

sem dúvida instantâneos recentes, tirados pelos próprios pensionistas. Numa outra mesa, trocavam selos. Falavam do tempo, de como haviam dormido, e da temperatura que tinham de manhã, tirada na boca. A maioria mostrava-se alegre, provavelmente sem motivo particular, apenas por não terem preocupações imediatas e estarem reunidos num grupo numeroso. Verdade é que alguns se achavam sentados à mesa, com a cabeça apoiada nas mãos e o olhar cravado à sua frente. Mas os outros deixavam-nos cismar, e ninguém lhes prestava atenção.

De repente, Hans Castorp sobressaltou-se, irritado e como que ferido. Uma porta acabava de bater violentamente, a porta da esquerda, que dava para o vestíbulo. Escapara às mãos de alguém, ou foi mesmo fechada com estrondo. Era esse um ruído que Castorp abominava, e que sempre o enfurecia. Talvez se baseasse essa animosidade na sua educação, talvez proviesse de uma idiossincrasia inata; em todo caso ele detestava as portas cerradas com estrondo e tinha vontade de esbofetear a quem cometesse esse crime na sua presença. No caso particular, tratava-se, além do mais, de uma porta envidraçada, o que, pelo tinir estridente, aumentava o choque.

“Barbaridade!”, disse Hans Castorp de si para si, todo revoltado, “que falta de educação!” Mas, como no mesmo instante a costureira lhe dirigisse a palavra, não teve tempo para descobrir o culpado. Contudo, assomaram-lhe algumas rugas entre as sobrancelhas louras, enquanto respondia à interlocutora.

Joachim perguntou se os médicos já haviam passado. – Sim, fizeram a primeira ronda –

respondeu alguém. Acabavam de sair precisamente no momento em que os primos tinham entrado. Nesse caso era melhor irem-se embora, sem esperar, opinou Joachim. Sem dúvida encontrariam, no decorrer do dia, outra oportunidade para apresentar Hans Castorp. Mas na porta quase esbarraram com o Dr. Behrens, que entrava a passo rapidíssimo, acompanhado do Dr. Krokowski.

– Epa! Cuidado cavalheiros! – exclamou Behrens – Este encontro poderia ter acabado num desastre para os nossos calos. – Falava com a pronúncia arrastada do noroeste da Alemanha e mastigava as palavras. – Então o senhor é o tal? – disse a Hans Castorp quando Joachim o apresentou, batendo os calcanhares – Muito prazer. – E estendeu ao jovem uma mão do tamanho de uma pá. Era um homem ossudo, muito mais alto do que o Dr. Krokowski, de cabelos completamente brancos, com a nuca saliente, grandes olhos azuis, proeminentes, injetados e lacrimosos, nariz arrebitado e um bigodinho curto, um tanto torto, em virtude de um franzimento unilateral do lábio superior. O que Joachim dissera das bochechas do médico era pura verdade: eram azuis, de maneira que a cabeça formava um berrante contraste com o jaleco branco de cirurgião que ele usava; jaleco cintado, que descia abaixo dos joelhos, deixando ver as calças listadas e uns pés colossais, calçados de botinas amarelas, bastante surradas. O Dr.

Krokowski também andava de trajes profissionais, mas o seu jaleco era de lustrina preta com elásticos nos punhos, e que lhe realçava ainda mais a palidez. Limitando-se a um mero papel de assistente, não tomou parte na cena de apresentação, mas uma certa tensão crítica da sua boca demonstrou que ele julgava um tanto esquisita a sua posição de subalterno.

– Primos, hem? – perguntou o Dr. Behrens, apontando para os dois jovens. Fixava neles os olhos azuis, injetados de sangue. – E o outro também está apaixonado pelo rufar dos tambores? – indagou de Joachim, avançando a cabeça na direção de Hans Castorp. – Nunca na vida; não é? Eu vi logo – agora se dirigia a Hans Castorp – que o senhor tem qualquer coisa de paisano, de comodista. Não é marcial como esse guerreiro aí. Aposto como seria melhor paciente do que ele. Nota-se imediatamente se alguém tem ou não tem vocação para ser um paciente que preste. Para isso precisa-se talento, como, aliás, é necessário para tudo, e esse ajudante de cozinha aí não mostra nem a menor sombra disso. Pode ser até que sirva para o campo de manobras, mas não tem jeito para doente. A todo momento quer ir embora, imagine! Sempre quer ir embora, e não pára de insistir comigo e de me suplicar; simplesmente não pode esperar o dia em que comecem a judiar com ele, lá embaixo. Que excesso de entusiasmo! Não nos quer sacrificar nem meio ano. E contudo leva uma vida bonita aqui. Diga o senhor mesmo, Ziemssen, é ou não é uma vida bonita? Bem, o senhor seu primo saberá nos apreciar melhor; ele vai se divertir, tenho

certeza. Mulheres não faltam aqui, e por sinal são encantadoras. Pelo menos, quando vistas de fora, há algumas muito pitorescas. Mas o senhor deveria era melhorar um pouco as suas cores, para não fazer um papel feio diante do belo sexo. Dizem que a árvore da vida é verde, muito bem, mas para a cútis, o verde não me parece indicado. Totalmente anêmico, claro constatou, aproximando-se sem mais aquela de Hans Castorp e baixando-lhe uma das pálpebras com o índice e o dedo médio. – Eu disse logo que o senhor está totalmente anêmico. Quer saber uma coisa? Não era má idéia abandonar por algum tempo a sua querida Hamburgo. Não nego que seja uma cidade à qual nós aqui devemos ficar muito gratos. Sempre nos manda um bom contingente, graças à sua meteorologia úmida. Mas permita-me que eu aproveite a ocasião para dar-lhe o meu despretensioso conselho, sine pecúnia, sabe? Enquanto estiver aqui, faça a mesma coisa que seu primo. Nada melhor, no seu caso, do que viver por algum tempo, como se tivesse uma ligeira tuberculosis pulmonum, e acumular algumas proteínas. É uma coisa curiosa, no nosso meio, esse metabolismo protéico... Embora fique aumentada a combustão geral, o corpo chega a fixar proteínas... Mas então, Ziemssen, dormiu bem? Lindo, não é? E agora um passeio, vamos! Mas só meia hora, e nada mais! E depois ponha na boca o charuto de mercúrio. Convém sempre tomar nota, Ziemssen minuciosamente! Sábado quero ver a sua curva. E seu primo pode também tomar a temperatura. Controlar não faz mal a ninguém. Passar bem, senhores. Divirtam-se. Adeusinho Adeusinho...

E o Dr. Krokowski acompanhou o chefe, que continuava cruzando a sala, balançando os braços, com as palmas das mãos voltadas para trás, e perguntando à direita e à esquerda se haviam dormido bem, que todos afirmavam.

Brincadeira de mau gosto. Viático. Hilaridade interrompida

– Homem muito simpático – disse Hans Castorp, enquanto atravessavam o portal, após terem cumprimentado amavelmente o porteiro coxo, que se achava na sua guarita classificando cartas. Saíram a ar livre. O portal encontrava-se na parte sudeste do edifício caiado de branco, cujo corpo central tinha um andar a mais que as duas alas e era encimado por uma pequena torre coberta de zinco e guarnecida de um relógio. Quem saia por esse portal, não entrava no jardim cercado, mas penetrava logo na natureza livre, com vista sobre prados que se estendiam pelas encostas das montanhas e estavam semeados de isolados abetos de pouca altura e de pinheiros tortos, agachados no chão. O caminho pelo qual trilhavam era na realidade o único que existia, com exceção da estrada que descia ao vale. Passava em ligeiro declive atrás do sanatório, rumo à esquerda, ladeando a cozinha e a despensa, onde se viam grandes recipientes de lixo ao longo das grades da escada que conduzia ao porão. O caminho seguia ainda alguns instantes a mesma direção, para, após uma volta brusca à direita, elevar-se numa subida íngreme ao longo da encosta escassamente arborizada. Era uma vereda de chão duro, avermelhado, ainda um tanto úmido, a cuja beira jaziam de quando em quando uns blocos de pedra. Os primos não eram os únicos a passear. Alguns hóspedes, que haviam terminado a refeição quase ao mesmo tempo que eles, seguiam-nos a curta distância, e outros grupos, já de regresso, vinham-lhes ao encontro, com o passo ruidoso de pessoas que descem.

– Homem muito simpático – repetiu Hans Castorp. – Tem um jeito tão desembaraçado de falar! Dá gosto ouvi-lo. Essa do charuto de mercúrio, para designar o termômetro, é mesmo muito boa. Compreendi logo... Mas agora vou acender um charuto de verdade – disse, estacando.

– Já não agüento mais sem ele. Desde o meio-dia de ontem que não fumo nada que preste. Com licença! – Tirou da charuteira de couro de verniz, enfeitada com as suas iniciais em prata, um Maria Mancini, belo exemplar da camada superior da caixa, achatado de uma face, como ele gostava especialmente. Cortou a ponta com uma pequena guilhotina de corte angular, que trazia na corrente do relógio. Acendeu o isqueiro, pôs fogo ao charuto bastante comprido, de ponta vertical, e tirou algumas baforadas gostosas. – Muito bem – disse então – quanto a mim, podemos continuar o passeio. Você não fuma, claro, devido àquele excesso de entusiasmo.

– Nunca fumei – respondeu Joachim. – Para que fumaria justamente aqui?

– Não compreendo você – disse Hans Castorp. – Simplesmente não compreendo como alguém possa viver sem fumar. Priva-se, por assim dizer, do que há de melhor na vida. Em todo caso lhe escapa um prazer magnífico. Quando acordo pela manhã, já me alegro com a idéia de poder fumar durante o dia, e quando tomo uma refeição, já penso em fumar depois. Sim senhor, posso dizer, com um pouco de exagero, que como apenas para ter uma oportunidade de fumar.

Um dia sem tabaco seria para mim o cúmulo da insipidez, um dia totalmente vazio, sem o mínimo atrativo, e se eu qualquer dia despertasse sabendo que não poderia fumar, acho que não teria coragem nem para me levantar. Francamente, eu ficaria na cama. Olhe, quando a gente fuma um charuto que puxa bem... claro que não deve estar furado, o que constitui um defeito muito desagradável... quero dizer, quando a gente fuma um charuto bom, sente-se garantido e nada lhe pode acontecer. É a mesma coisa como deixar-se ficar deitado numa praia de mar; fica-se deitado, não é? Não se tem a necessidade de nada, nem de trabalho nem de distrações... E fuma-se no mundo inteiro, graças a Deus! Ao que me parece, não existe nenhum lugar onde esse prazer seja desconhecido, por mais longe que arraste o destino Até os exploradores das regiões polares levam fumo em abundância, para que possam agüentar os esforços das suas viagens. Isto sempre me pareceu simpático. Pode acontecer que uma pessoa ande muito mal... Suponhamos, por exemplo, que eu me encontre num estado lamentável... mas, enquanto tiver o meu charuto agüentarei firme, disso tenho certeza. O charuto me faria vencer qualquer obstáculo.

– Contudo, é um sinal de fraqueza – objetou Joachim – depender do fumo até esse ponto. Behrens tem toda a razão: você um paisano Ele disse isto em sentido elogioso, mas você é mesmo um paisano incorrigível. Mas, afinal de contas, anda bem de saúde e pode fazer o que quiser – acrescentou, e seus olhos assumiram uma expressão cansada.

– Sim, com exceção desta anemia – disse Hans Castorp. – E não usou luvas de pelica para me falar à queima-roupa da minha cor verde. Mas é verdade, eu mesmo notei que em comparação com o pessoal daqui, meu rosto é quase verde. Lá em casa não tinha reparado nisso.

E achei muito gentil da parte dele dar-me assim, sem mais aquela, uns conselhos desinteressados, sine pecunia, como disse. Tenho a intenção de fazer o que ele me recomendou, e de adaptar o meu estilo de vida ao seu... Que mais poderia fazer aqui em cima? E não me fará mal nenhum acumular algumas proteínas, embora essa expressão me soe meio repugnante Não acha também?

Enquanto caminhava, Joachim tossiu algumas vezes. Ao que parecia, cansava-o a subida.

Quando pela terceira vez teve um acesso de tosse, estacou, franzindo a testa, e disse: “Toque para a frente!” Hans Castorp apressou-se em prosseguir no caminho, sem olhar para trás. Depois diminuiu o passo, até quase parar, porque tinha a impressão de se ter adiantado muito ao primo.

Mas não voltou a cabeça.

Um grupo de pensionistas de ambos os sexos vinha se aproximando dele. Hans Castorp já os vira trilhar o caminho plano a meia altura da encosta. Agora se achavam na descida, indo a seu encontro, a passo barulhento, numa confusão de vozes. Eram seis ou sete pessoas de diferentes idades, umas muito jovens, outras um tanto avançadas em anos. Hans Castorp contemplou-as, com a cabeça inclinada para o lado, enquanto seus pensamentos se ocupavam com Joachim. Andavam sem chapéu, tostados pelo sol. As senhoras vestiam pulôveres de cor, ao passo que os homens, na sua maioria, iam sem sobretudo e mesmo sem bengala, como quem sai sem cerimônias, com as mãos nos bolsos, para dar uma voltinha. Achavam-se na descida, que não exige grande esforço muscular, mas apenas um ligeiro refreamento pelas pernas fincadas no chão, para evitar o excesso de velocidade e o conseqüente tropeção. Assim, seu modo de andar tinha algo de alado e leve, que se comunicava às suas fisionomias e à sua atitude em geral e inspirava a quem os via o desejo de fazer parte do grupo.

E já se encontravam próximos de Hans Castorp, que se pôs a examinar-lhes os rostos.

Nem todos estavam queimados pelo sol. Duas senhoras destacavam-se até pela palidez, uma magrinha como um caniço, com uma tez de marfim, e a outra, mais baixa, gorducha, com a cara salpicada de lunares. Todos o fitaram com o mesmo sorriso petulante. Uma mocinha alta, de

suéter verde, com cabelos desgrenhados e uns estúpidos olhos semicerrados, passou tão perto de Hans Castorp que quase lhe roçou o braço. E ao mesmo tempo assobiava... Mas, que coisa louca!

Assobiava, porém não o fazia com a boca. Nem sequer contraía os lábios; pelo contrário, mantinha-os firmemente cerrados. Havia qualquer coisa que assobiava no seu interior, enquanto ela encarava Hans Castorp, com uma mirada tola dos olhos entreabertos. Era um assobio sumamente desagradável, agudo, penetrante e todavia oco, prolongado e que pelo fim baixava de tom, assim como fazem aqueles porquinhos de borracha que se compram nas feiras, e que deixam escapar, com um som gemebundo, o ar insuflado. Tal era o ruído que partia inexplicavelmente do peito da jovem, enquanto ela se afastava com o resto do grupo.

Hans Castorp quedou-se imóvel, olhando para longe. Então se virou bruscamente, percebendo que esse assobio atroz fora um trote, uma brincadeira de antemão preparada, pois viu pelos movimentos de ombro que aquela gente se ria dele. Um rapaz atarracado e beiçudo que, para andar com as mãos nos bolsos da calça, levantava o paletó de uma forma bastante inconveniente, virou-se descaradamente para ele e riu... Nesse meio tempo, Joachim se aproximara. Passou pelo grupo, cumprimentando-o na sua maneira militar, fazendo uma quase continência, e inclinando-se, de tacões unidos. Em seguida, voltou-se para o primo com um olhar interrogador.

– Que é que há com você? – perguntou.

– Ela assobiou! – respondeu Hans Castorp. – Assobiou com a barriga, ao passar junto de mim. Tenha a bondade de me explicar como isso se faz.

– Ora! – exclamou Joachim, com uma risada desdenhosa. – Não foi com a barriga.

Bobagem! É a Kleefeld, Hermine Kleefeld. Assobia com o pneumotórax.

– Com quê? – gritou Hans Castorp, sumamente excitado, sem no entanto, saber em que sentido: vacilava entre o riso e o choro quando acrescentou: – Afinal de contas não se pode esperar de mim que eu compreenda a gíria de vocês.

– Vamos adiante – disse Joachim. – Posso lhe explicar tudo isso, enquanto a gente passeia. Parece mesmo que você criou raízes. Trata-se de um negócio de cirurgia, compreende? É

uma intervenção que freqüentemente executam aqui. O Behrens tem grande prática nisso...

Quando um pulmão está muito atacado, e o outro está bom, ou pelo menos relativamente bom, dispensa-se o lado enfermo por algum tempo de qualquer atividade, a fim de poupá-lo. Quer dizer, dão um talho nesta região, no flanco, não sei precisamente onde, mas o Behrens é um mestre nessas coisas. E depois enchem a gente de gás, de nitrogênio; sabe? E assim o pulmão carcomido é posto fora de ação. É claro que o gás introduzido no corpo não se conserva indefinidamente. Precisa ser renovado de quinze em quinze dias, mais ou menos. É a mesma coisa que reencher um balão; compreende? Ao cabo de um ano ou mais, se tudo for bem, pode o pulmão curar-se graças a esse completo descanso. Mas, nem sempre termina assim, e parece até que a intervenção é bastante arriscada. Contudo, dizem que já foram obtidos muitos bons resultados com esse pneumotórax. Toda aquela turma, que você acaba de encontrar, anda com ele. Havia lá a Srª. Iltis, aquela que tem os lunares, sabe? E a Srta. Levi, uma magrinha, se você se lembra; ela ficou de cama por muitíssimo tempo. Eles formaram um grupo, pois essa coisa do pneumotórax estabelece uma relação natural entre as pessoas. Chamam-se entre si a “Sociedade Meio-Pulmão”; são conhecidos por esse nome. Mas o orgulho da sociedade é a Hermine Kleefeld, porque sabe assobiar com o pneumotórax. É um talento especial que muito poucos têm. Como ela consegue fazê-lo, não lhe posso explicar; nem ela mesma sabe explicá-lo claramente. Depois de ter andado depressa, é capaz de assobiar interiormente, e disso se aproveita para dar um susto à gente, sobretudo aos doentes recém-chegados. Acho, aliás, que com isso perde nitrogênio, pois precisa reabastecer-se de oito em oito dias.

Agora, Hans Castorp desatou a rir. No decorrer das explicações de Joachim, a sua excitação tomara decididamente o rumo da hilaridade. Enquanto prosseguia no caminho, cobrindo os olhos com a mão e inclinando-se para a frente, sentiu os ombros sacudidos por uma rápida sucessão de risinhos silenciosos.

– É uma sociedade registrada? – perguntou, numa voz embargada, que, à força de conter o riso, soava chorona e levemente queixosa. – Tem estatutos? Que pena você não ser sócio.

Olhe, nesse caso poderiam admitir-me como sócio honorário ou como... visitante. Você deveria pedir ao Behrens que lhe ponha parte dos pulmões fora de ação. Quem sabe se você não conseguiria também assobiar, se se esforçasse um pouco? Afinal de contas, isto se aprende... Em todo caso é a coisa mais engraçada que já vi – acrescentou, com um profundo suspiro. – Escute, não me leve a mal que eu fale desse jeito, mas eles mesmos andam tão bem-humorados, esses seus amigos pneumáticos. Quem vê como caminham assim, alegremente... E quando se pensa que essa era a “Sociedade Meio-Pulmão!” “Fiu-u”, sibilou ela... Que pequena! Mas isso é pura traquinice. Por que estão tão alegres, pode me explicar?

Joachim esforçou-se por encontrar uma resposta.

-meu Deus – disse enfim – eles estão tão livres... quero diz é gente moça, e o tempo não significa nada para eles. E quem sabe se não vão morrer! Para que então ficar com a cara triste?

Às vezes vem a idéia de que essa coisa da doença e da morte no fundo não séria; é antes uma espécie de relaxamento. A seriedade existe somente na vida lá de baixo. Creio que você também compreenderá isso, quando estiver mais tempo aqui em cima.

-sem dúvida – confirmou Hans Castorp. – Tenho até certeza disso. Desde que estou aqui, comecei logo a me interessar pela vida de vocês, e quando a gente tem interesse por alguma coisa, não tarda compreendê-la, não é?... Mas, que se passa comigo? Não me agrada! – disse abruptamente, olhando o charuto. –Já faz tempo que pergunto o que é que me incomoda, e agora vejo que é o Maria que não tem sabor nenhum. Tem um gosto de papel mascado. Eu garanto que me sinto como se tivesse o estômago desarranjado. É mistério para mim. Não nego que hoje comi muita coisa, mas isso não pode ser o motivo, pois quanto mais se come, mais aroma tem charuto. Que acha você? Será porque tive uma noite muito agitada? Talvez seja isto... Não! Não há jeito! Vou jogá-lo fora – concluiu, após uma nova tentativa. – Cada tragada a mais aumenta a decepção. Não adianta forçar. – Depois de hesitar um momento, atirou o charuto encosta abaixo, por entre a brenha úmida. – Quer saber coisa? – perguntou então. – Estou convencido de que isso tem alguma relação com aquele maldito ardor no rosto, que está me incomodando outra vez, desde que me levantei. O diabo sabe por quê, mas tenho a impressão de estar todo corado...

Você também sentiu isso, quando chegou aqui?

-senti, sim – disse Joachim. – No começo estranhei também muita coisa. Mas não se preocupe. Eu já lhe disse que não é tão fácil aclimatar-se aqui em cima. Tudo isso se arranja. Olhe esse banco aí tem uma vista bonita. Vamos sentar-nos um pouquinho e depois voltar. Está quase na hora do repouso.

O caminho tomara-se plano. Corria agora na direção de Davos-Platz, e oferecia, por entre altos e delgados pinheiros, dobrados pelo vento, o panorama do povoado que se estendia branco sob a luz clara. O banco de feitio tosco, em que se sentaram, encostava-se à vertente íngreme. A seu lado, um curso d'água corria rumo ao vale, gorgolejando e cachoando através de uma calha de madeira.

Com a ponta de seu bastão alpino, Joachim pôs-se a designar ao primo os nomes dos cumes envoltos em nuvens, que pareciam fechar o vale pelo lado sul. Mas Hans Castorp limitou-se a olhá-los de relance. Inclinado para a frente, desenhava na areia com a bengala fina guarnecida de prata. O que lhe interessava não era aquilo.

– Há uma coisa que eu queria lhe perguntar... – começou. – Aquela doente que ocupava o meu quarto acabava de “esticar as canelas”, quando cheguei. Já houve muitos outros óbitos, desde que você está aqui?

– Deve ter havido alguns – respondeu Joachim. – Mas são tratados com muita discrição, sabe? A gente não nota nada, ou apenas casualmente mais tarde. Quando alguém morre, passa-se tudo no mais estrito sigilo, em consideração aos outros pacientes, sobretudo às senhoras, que, sem isso, talvez teriam crises de nervos. Você nem percebe, quando alguém morre no quarto

pegado ao seu. Trazem o caixão de madrugada, enquanto todos estão dormindo, e vão buscar a pessoa em questão somente em horas determinadas, por exemplo durante as refeições.

– Hum! – disse Hans Castorp, continuando a desenhar. – As coisas se passam então atrás dos bastidores.

– Sim, isto não é exagero. Mas recentemente... faz... espere um pouco, faz talvez umas oito semanas...

– Nesse caso não se pode dizer “recentemente” – objetou Hans Castorp, vigilante e crítico.

– Como? Ah, sim, então não foi recentemente. Como você é meticuloso! Eu disse o número apenas por dizer. Bem, faz pouco tem tive ocasião de lançar um olhar atrás dos bastidores, por mero acaso. Lembro-me daquele momento como se fosse hoje. Foi quando levaram o viático, o sacramento da extrema-unção, sabe? Os Santos Óleos, à pequena Hujus, Barbara Hujus, que era católica. Quando cheguei aqui, ela ainda não estava de cama, e fazia travessuras que nem uma colegial de quinze anos. Mas depois foi enfraquecendo rapidamente.

Não se levantou mais. Seu quarto achava-se a três portas do meu. Por fim chegaram seus pais, e um dia, também o padre. Veio quando todo mundo estava tomando o chá da tarde e não havia ninguém nos corredores. Mas, imagine o que me aconteceu: adormeci durante o repouso geral, não ouvi o sinal do gongo e me atrasei uns quinze minutos. Assim se deu que no momento crítico, em vez de me achar entre os outros, me perdi atrás dos bastidores para usar a sua expressão. Eu estava a ponto de atravessar o corredor, quando apareceram e foram ao meu encontro, com camisas de renda e uma cruz à sua frente, uma cruz de ouro, com lanternas, como se fosse o estandarte da banda do regimento.

– É uma comparação pouco adequada – disse Hans Castorp com certa severidade.

– Ora, eu tive essa impressão. Foi sem querer que me lembrei disso. Mas ouça o que aconteceu então. Vinham em minha direção, passo apressado. Eram uns três, se não me engano; à frente o homem da cruz, depois o sacerdote, com óculos no nariz, e por fim um menino com o turíbulo. O padre levava à altura do peito o viático recoberto e mantinha a cabeça humildemente inclinada. Você compreende: era o Santo Sacramento.

– Justamente – disse Hans Castorp. – Por isso estranhei quando você falou da banda do regimento.

– Pois é. Mas espere um pouco. Se você tivesse assistido à cena, também não saberia o que pensar dessa recordação. Era uma coisa capaz de lhe causar um pesadelo...

– Por quê?...

– Bem, eu não sabia como me comportar numa circunstância dessas. Não andava de chapéu, para que o pudesse tirar...

– Está vendo? – interrompeu-o Hans Castorp mais uma vez. – Está vendo como é necessário levar chapéu? Notei naturalmente que aqui todos andam sem. Contudo, se deve usar um chapéu, para poder tirá-lo nas ocasiões oportunas... E que aconteceu então?

– Postei-me junto da parede – disse Joachim – numa atitude conveniente. Quando se aproximaram de mim, fiz uma leve mesura. Era precisamente em frente do quarto da pequena Hujus, número vinte e oito. Acho que o padre ficou satisfeito ao ver a minha reverência; agradeceu muito amavelmente, tirando o barrete. E no mesmo instante pararam. O menino com o turíbulo bateu à porta, abriu então e deu passagem ao superior. E agora imagine o meu espanto e veja se compreende o que senti! No momento em que o sacerdote atravessa o limiar do quarto, começa lá dentro um barulhão, uns berros como você nunca ouviu, umas três ou quatro vezes seguidas, e depois uma gritaria ininterrupta, contínua, gritos que pareciam sair de uma boca vastamente aberta, assim: aaaaah! Expressava-se nisso tanta desolação, tanto horror, tanto protesto, que é indescritível, e havia no meio umas súplicas tão pungentes!... E de repente tudo se torna cavo e surdo, como se a voz se tivesse sumido debaixo da terra e viesse das profundezas do porão.

Hans Castorp voltou-se bruscamente para o primo:

– Era a Hujus? – gritou, nervoso. – E por que parecia a voz vir do porão?

– Ela se tinha escondido sob os cobertores – explicou Joachim. – Imagine a impressão que eu tive! O sacerdote permanecia perto da entrada, pronunciando algumas palavras tranqüilizadoras. Parece-me que o vejo ainda. Ao falar, avançava um pouco a cabeça, e depois a retraía novamente. O homem com a cruz e o coroinha achavam-se ainda no limiar do quarto, sem poderem entrar. E por entre os dois, eu podia ver o interior do quarto. É igual aos nossos, com a cama à esquerda da porta, contra a parede. À cabeceira havia algumas pessoas, os pais naturalmente, que também se inclinavam para a cama, proferindo palavras de consolo, e na cama só se via uma massa informe, que suplicava, esperneava e protestava atrozmente.

– Esperneava mesmo?

– Com todas as forças. Mas de nada lhe adiantou. Era inevitável que ela recebesse a extrema-unção. O padre aproximou-se dela, os dois outros entraram também, e a porta fechou-se. Mas antes pude ainda enxergar a cabeça de Hujus, que apareceu por um segundo, com os cabelos louros totalmente revoltos. Ela cravou no sacerdote os olhos arregalados, uns olhos como que pálidos, completamente descorados e logo lançou uns gritos e voltou a esconder-se debaixo da colcha.

– E você me conta essa história só agora? – disse Hans Castorp depois de um silêncio. –

Não compreendo por que deixou de fazê-lo ontem à noite... Mas, meu Deus, ela devia estar muito forte ainda para se defender desse jeito. Para isso precisa-se muita força. Só deveriam buscar o padre quando uma pessoa estivesse muito fraca.

– Estava fraca, sim – replicou Joachim. – Ora, não me faltam histórias para contar. O

difícil é fazer a primeira seleção... Bem, e estava mesmo muito fraca. O que lhe dava tanta força era unicamente o medo. Sentia um pavor horrível, porque percebia que estava às portas da morte.

Era uma mocinha, afinal, e isto justifica até certo ponto a sua conduta. Mas há também homens que se comportam assim, o que revela uma covardia imperdoável. O Behrens sabe, aliás, como lidar com esses tipos. Ele encontra o tom adequado.

– Que tom? – perguntou Hans Castorp, franzindo as sobrancelhas.

– “Não faça tanta fita!”, costuma dizer ele – respondeu Joachim. – Foi pelo menos o que disse recentemente numa ocasião dessas. Quem nos contou a história foi a enfermeira-chefe, que estava lá para segurar o agonizante. Era um daqueles que no leito de morte ainda fazem uma cena pavorosa e absolutamente não querem morrer. Então o Behrens ralhou com ele. “Deixe de fazer tanta fita!”, disse, e o paciente logo ficou quietinho e morreu com toda a calma.

Hans Castorp deu uma palmada na coxa, e reclinando-se no encosto do banco, dirigiu os olhos para o céu:

– Escute, essa é muito forte! – exclamou. – Ralhar com o doente e dizer-lhe simplesmente: “Não faça tanta fita!” A um moribundo! É demais. Afinal de contas, um moribundo merece algum respeito. Não se pode dizer-lhe sem mais aquela... Parece-me que um moribundo é, de certo modo, sagrado.

– Não digo o contrário – concedeu Joachim. – Mas quando alguém se comporta covardemente...

– Não senhor! – insistiu Hans Castorp, com uma violência que não estava proporcional à oposição que se lhe fazia. – Ninguém me tirará da cabeça que um moribundo é mais nobre do que um indivíduo qualquer que passeia e ri e ganha dinheiro e enche a pança. Não é possível... –

Sua voz vacilou estranhamente. – Não é possível que se trate assim... – E de súbito suas palavras se afogaram numa gargalhada que se apoderou dele e o dominou; o mesmo riso da véspera, um riso que lhe brotava das entranhas, lhe sacudia todo o corpo e não tinha fim, que lhe cerrou os olhos e extraiu lágrimas por entre as pálpebras comprimidas.

– Psiu! – fez Joachim de repente. – Cale-se! – cochichou, dando uma cotovelada ao primo que ainda se ria a bandeiras despregadas. Hans Castorp ergueu os olhos, através das lágrimas.

Vindo da esquerda, aproximava-se um forasteiro, um senhor baixinho, moreno, com bigode preto elegantemente torcido, e com calças de xadrez claro. Trocou com Joachim um

“Bom dia!” – sua saudação era nítida e sonora e deteve-se à frente dos dois jovens, numa atitude graciosa, cruzando os pés e apoiando-se na bengala.

Satã

Seria difícil avaliar-lhe a idade. Devia ter entre trinta e quarenta anos, visto seus cabelos, nas fontes, se acharem entremeados de fios de prata e mais acima se tornarem bastante ralos, se bem que a aparência geral da sua pessoa desse a impressão de juventude. Duas entradas profundas ressaltavam ao lado da fina risca que repartia os escassos cabelos, e davam a impressão de aumentar a altura da fronte. Os trajes do forasteiro – amplas calças de xadrez amarelado e paletó muito comprido, de uma fazenda parecida com burel, com duas fileiras botões e lapelas largas –, esses trajes estavam longe de pretender elegância. O colarinho duro, de pontas arredondadas e viradas para baixo, já estava um tanto puído nas bordas, por ter sido lavado freqüentemente; a gravata preta estava gasta pelo uso. Além disso, notou Hans Castorp, pelo jeito frouxo como as mangas caíam sobre pulsos, que o desconhecido não usava punhos. Contudo, era visível tratar-se de um cavalheiro; a esse respeito não deixavam dúvidas cunho de cultura, que marcava o rosto do forasteiro, nem tampouco a sua atitude natural e quase nobre. Tal mescla de desalinho e graça, combinada com uns olhos negros e o bigode suavemente ondulado, fez Hans Castorp pensar em certos músicos estrangeiros que na época do Natal tocavam nos pátios de Hamburgo, e com os olhos aveludados dirigidos para cima estendiam os chapéus de aba larga, para que, das janelas, lhes lançassem moedas de dez Pfennige. “Um tocador de realejo”, pensou Hans Castorp, e assim não se admirou nem um pouquinho do nome que ouviu, quando Joachim se levantou do banco e, com algum acanhamento, fez a apresentação.

-meu primo Castorp... o Sr. Settembrini.

Também Hans Castorp se pusera de pé, para cumprimentar o cavalheiro. Seu rosto revelava ainda os traços daquele excesso de hilaridade. Mas o italiano, cortesmente, fez questão de que não se incomodassem, e obrigou-os a sentarem-se de novo, ao passo que ele mesmo permanecia em frente aos dois, na sua postura agradável. Esboçava um sorriso, ao manter-se assim, contemplando os primos, e principalmente a Hans Castorp; e essa expressão fina, um tanto zombeteira, que lhe aprofundava e encrespava uma das comissuras da boca, sob o espesso bigode, produzia um efeito singular, convidando, em certo sentido, à lucidez do espírito e à vigilância. Hans Castorp, de pronto sentindo-se como que desembriagado, envergonhou-se do seu anterior desenfreamento.

– Os senhores estão de bom humor. Têm motivo, têm toda a razão. Uma esplêndida manha! O azul do céu, o sol a sorrir... – E com um gesto rápido, e elegante do braço, ergueu para o céu a mãozinha amarela, enquanto enviava na mesma direção um relance alegre. – Realmente, falta pouco para esquecermos onde estamos.

Falava sem sotaque exótico, e somente a precisão da pronúncia poderia fazer adivinhar que se tratava de um estrangeiro. Seus lábios formavam as palavras com certa volúpia. Dava prazer ouvi-lo.

– E o senhor teve uma viagem agradável? – perguntou a Hans Castorp. – Já lhe comunicaram a sentença? Quero dizer: já se realizou a sinistra cerimônia do primeiro exame médico? – Aqui deveria ter calado e aguardado, se realmente desejasse obter uma resposta; pois fizera a pergunta, e Hans Castorp estava a ponto de responder. Mas o forasteiro continuou imediatamente: – Tudo decorreu bem? Da sua hilaridade... – Silenciou por um instante, enquanto se acentuava o encrespamento dos seus lábios – ...pode-se tirar conclusões muito diferentes.

Quantos meses lhe pespegaram os nossos Minos e Radamanto? – A palavra “pespegaram” soava particularmente engraçada em sua boca. – Deixe-me adivinhar. Seis? Ou logo nove? Ora, aqui não há parcimônia...

Hans Castorp riu-se, cheio de surpresa, e ao mesmo tempo procurou recordar quem eram Minos e Radamanto. Respondeu então: – Desculpe, mas o senhor está enganado, Sr. Septem...

-settembrini – corrigiu o italiano, com nitidez e presteza, acrescentando uma reverência humorística.

– Sr. Settembrini, perdão! Mas, como já disse, há um equívoco da sua parte. Não estou doente. Faço apenas uma visita de algumas semanas ao meu primo Joachim e quero aproveitar esta ocasião para descansar um pouquinho...

– Vejam só! Então não é dos nossos. Goza boa saúde, está aqui apenas de passagem, como Ulisses no reino das sombras? Que audácia descer até estas profundezas, onde os mortos levam uma existência irreal, desprovida de sentido...

– Até estas profundezas, Sr. Settembrini? Não diga isso, que subi uns cinco mil pés para chegar aqui...

– É o que o senhor pensa. Palavra de honra, trata-se apenas uma ilusão – disse o italiano, com um gesto enérgico da mão. – Somos umas criaturas que caíram muito baixo; não é mesmo, tenente? – E com isso se voltou para Joachim, que se regozijou bastante ao ouvir o título, mas, esforçando-se por dissimular a sua satisfação, respondeu circunspectamente:

– Pode ser que a gente se tenha apatetado aqui. Mas, afinal de contas, há meios de se regenerar...

– Pois é, acho também que o senhor tem capacidade para isso; é um homem decente –

disse Settembrini. – Sim, sim, sim! – acrescentou sibilando três vezes o “s” e fazendo estalar a língua outras tantas vezes contra o céu da boca. Depois, dirigindo-se a Hans Castorp exclamou: –

Vejam só, vejam só, vejam só! – com a mesma pronúncia do “s” enquanto encarava o novato com tamanha intensidade, que seus olhos assumiam expressão fixa e cega. Por fim, reavivando o olhar prosseguiu:

– De modo que o senhor veio voluntariamente a estas alturas, para visitar esta nossa gente decaída! Quer nos conceder por algum tempo o prazer da sua companhia... Ora, é muito gentil da sua parte. E quanto tempo tenciona ficar aqui? Sou indiscreto. Mas eu gostaria de conhecer o prazo que uma pessoa se fixa a si própria, quando se decide livremente, sem depender da vontade de Radamanto.

– Três semanas – respondeu Hans Castorp, com um orgulho um tanto fátuo, ao notar que despertava inveja.

– O Dio! Três semanas! Ouviu, tenente? Não lhe parece mesmo um tanto atrevida essa maneira de dizer: “Vou passar aqui três semanas e depois partirei”? Fique sabendo, meu senhor, que nós aqui ignoramos uma medida de tempo que se chama semana. Para nós, a menor unidade é o mês. Fazemos as nossas contas em grande estilo, corno é o privilégio das sombras. Temos ainda outros privilégios, e todos eles são desse tipo. Posso perguntar que profissão o senhor exerce na vida lá de baixo, ou melhor, para que profissão se prepara? Como está vendo, não costumamos refrear a nossa curiosidade. Ela também faz parte dos nossos privilégios.

– Com o maior prazer – disse Hans Castorp, e deu a explicação desejada.

– Engenheiro naval? Magnífico! – gritou Settembrini. – Asseguro-lhe que essa profissão me parece magnífica, embora os meus próprios talentos sejam orientados num sentido diferente.

– O Sr. Settembrini é escritor – explicou Joachim com certo acanhamento. – Escreveu o necrológio de Carducci para algumas revistas alemãs. Você sabe, Carducci?... – E tornou-se ainda mais acanhado, quando o primo o olhou pasmado, como se quisesse dizer: “Que sabe você de Carducci? Não mais do que eu, se não me engano muito.”

– Exatamente – confirmou o italiano, sacudindo a cabeça. – Tive a honra de falar aos seus compatriotas da vida desse grande poeta e livre-pensador, quando essa vida tinha chegado ao fim.

Conheci-o; posso chamar-me seu discípulo; em Bolonha, estive sentado aos seus pés. A ele devo o que possuo de cultura e de alegria de espírito... Mas estávamos falando do senhor. Engenheiro naval! Sabe o senhor que está subindo no meu conceito? De repente se me afigura como o representante de todo um universo de trabalho e de gênio prático.

– Ora, ora, Sr. Settembrini, por enquanto sou apenas um estudante e me acho bem no início.

– Pois é, e o primeiro passo custa. Como aliás é difícil todo trabalho que merece este nome, não é?

– Difícil como o diabo – disse Hans Castorp, e essas palavras lhe saíram do fundo do coração.

Rapidamente Settembrini franziu as sobrancelhas.

– O senhor invoca o próprio diabo para confirmar isso? – perguntou. – Satã em pessoa?

Sabe talvez que meu grande mestre lhe dedicou um hino?

– Como? – admirou-se Hans Castorp. – Ao diabo?

– Em carne e osso. De vez em quando cantam esse hino na minha pátria, por ocasião de certas solenidades: O salute, o Satana, o Ribellione, o foza vindice della Ragione... Uma maravilha esse cântico! Contudo, me parece pouco provável que o senhor tenha pensado justamente nesse Diabo, que está em ótimas relações com o trabalho. O diabo ao qual se referiu o senhor, e que abomina o trabalho, porque tem motivos para temê-lo, deve ser aquele outro do qual dizem que com ele não se brinca...

Tudo isso causou uma impressão estranha ao bom Hans Castorp. Não compreendia o italiano, e o resto do que dizia Settembrini tampouco lhe inspirava muita confiança. Essas coisas cheiravam a sermão dominical, ainda que proferidas num tom de palestra leve e jocosa. Hans Castorp olhou o primo, que baixou os olhos, e depois disse:

– O senhor toma as minhas palavras muito ao pé da letra, Sr. Settembrini. O que eu disse do Diabo era apenas uma maneira de falar e nada mais.

– Deve haver uma pessoa com espírito – disse Settembrini, mirando o ar com uma expressão melancólica. Porém, reanimando-se imediatamente, e dando à conversa um caráter jovial, gracioso e conciliador continuou:

-seja como for, posso deduzir, com razão, das suas palavras que o senhor escolheu uma profissão tão cansativa quanto honrosa. Meu Deus, eu sou humanista, sou um homo humanus, e nada entendo dessas coisas engenhosas, por mais sincero que seja o respeito que lhes voto. Mas imagino que a teoria da sua disciplina deve requerer um cérebro claro, penetrante; e a sua prática, um homem na genuína acepção da palavra. Não é assim?

– Exatamente, é assim mesmo. Não posso deixar de concordar com o senhor –

respondeu Hans Castorp, empenhando-se, mau grado seu, em falar com alguma eloqüência. – É

enorme o que hoje em dia se exige de nós. Nem é bom pensar na extensão dessas exigências, pois do contrário arriscaríamos perder a coragem. Sim senhor, não é brinquedo. E quando uma pessoa não tem uma constituição muito robusta... Olhe, eu estou aqui apenas de visita, mas também não sou dos mais resistentes. Seria mentira se dissesse que me dou perfeitamente bem com o trabalho. Pelo contrário, devo confessar que o esforço me esgota bastante. No fundo, só me sinto à vontade quando nada faço...

– Como, por exemplo, neste momento?

– Neste momento? Ora, acabo de chegar aqui, e ando ainda meio tonto, como o senhor pode imaginar...

-meio tonto? Ah!...

– Pois é. Não dormi muito bem e, depois, o café da manhã foi muito reforçado... Estou acostumado a uma primeira refeição abundante, mas a de hoje parece que foi completa demais para mim, too rich, como dizem os ingleses. Numa palavra, eu me sinto um pouco angustiado. E

ainda houve o charuto que, esta manhã, não me deu prazer nenhum. Imagine! Coisa que quase nunca me acontece, a não ser quando estou seriamente doente. E hoje o charuto estava com gosto de couro! Tive de jogá-lo fora, não adiantava forçar. O senhor fuma, se me posso permitir a pergunta? Não? Então não pode ter idéia do aborrecimento e da decepção que um caso desses provoca numa pessoa que desde a juventude gosta tanto de fumar, como eu...

– Não tenho nenhuma experiência nesse campo – replicou Settembrini –, e com essa inexperiência não me acho em má companhia. Grande número de espíritos nobres e esclarecidos

detestaram o tabaco. O próprio Carducci antipatizava com ele. Mas nesse ponto o senhor encontrará plena compreensão por parte do nosso Radamanto, que é um partidário do seu vício.

-meu vício? Não diga isso, Sr. Settembrini.

– Por que não? É preciso chamar as coisas pelos seus nomes verdadeiros, e fazê-lo energicamente. Isto fortifica e eleva a vida. Também eu tenho vícios.

– O Dr. Behrens é, então, um apreciador de charutos? Que homem simpático!

– O senhor acha? De modo que já travou conhecimento com ele...

– Já. Faz pouco tempo, antes de sairmos. Foi quase uma consulta, mas sine pecunia, sabe?

Ele notou imediatamente que estou bastante anêmico, e me deu o conselho de seguir, aqui, o mesmo regime que meu primo: passar muito tempo estendido na sacada e também tomar a minha temperatura. Assim me disse.

– Realmente? – gritou Settembrini. – Que maravilha! – exclamou então, rindo-se às gargalhadas, com o rosto levantado para céu. – Como se diz na ópera de seu mestre: “Sou caçador de pássaros, sempre risonho, sempre alegre!” Escute, essa é mesmo divertida. E o senhor seguirá o conselho? Claro! Por que deixaria de fazê-lo? É esperto como o diabo, esse Radamanto!

Com efeito, “sempre alegre”, se bem que às vezes de uma alegria meio forçada. Tem tendência para a melancolia. Seu vício não lhe faz bem (se fizesse não seria um vício), e o tabaco torna-o merencório. É por isso que nossa reverenda superiora se encarregou da administração das suas provisões de fumo e lhe concede somente pequenas rações diárias. Dizem que de vez em quando ele sucumbe à tentação de lhe roubar uns charutos a mais, e nesse caso cai em melancolia. Numa palavra: uma alma atarantada. O senhor já conhece a nossa enfermeira-chefe? Não? Que lástima!

Seria imperdoável da sua parte, se não solicitasse honra de lhe ser apresentado. Ela pertence à estirpe dos Von Mylendonk, prezado senhor! Da Vênus de Médicis distingue-se num único ponto: no lugar onde a deusa mostra os seios, costuma a enfermeira-chefe usar um crucifixo.

– Ah, ah, essa é boa! – riu-se Hans Castorp.

– E seu prenome é Adriática.

– Ainda isso? – exclamou Hans Castorp. – Francamente, extraordinário. Von Mylendonk e Adriática. É como se fosse uma pessoa morta há muito tempo. Parece até medieval.

-meu caro senhor – retrucou Settembrini –, aqui existe muita coisa que “parece medieval”, para usar a sua expressão. Tenho para mim que foi exclusivamente o seu senso de estilo que fez o nosso Radamanto nomear esse fóssil diretora do seu Museu de Horrores. Pois ele é artista. Não sabia disso? Pinta a óleo. Que quer? Não é proibido, não é? Cada um tem plena liberdade de fazê-lo... Dona Adriática diz a todos quantos querem ouvi-la, e também aos que não querem, que em meados do século XIII houve uma Mylendonk que era abadessa de um convento em Bonn, às margens do Reno. Ela mesma não pode ter nascido muito tempo depois dessa época...

– Ah, ah, ah! Acho que o senhor é muito irônico, Sr. Settembrini.

– Irônico? Quer dizer: malicioso. Sim, sou um pouco malicioso – disse Settembrini. –

Lamento apenas que me tenham condenado a desperdiçar a minha malícia com assuntos tão miseráveis. Espero que o senhor não se oponha à malícia, meu caro engenheiro. A meu ver, é ela a mais esplêndida arma da razão na luta contra as potências das trevas e da fealdade. A malícia, senhor, é o espírito da crítica, e a crítica representa a origem do progresso e do esclarecimento. –

E de súbito pôs-se a discorrer sobre Petrarca, a quem chamou de “pai dos tempos modernos”.

– Mas acho que está na hora do repouso – disse Joachim, ponderadamente.

O escritor acompanhara suas palavras de expressivos gestos da mão. Nesse momento concluiu a mímica, apontando para Joachim e dizendo:

– O nosso tenente dá o sinal do serviço. Vamo-nos, então! Temos o mesmo caminho, “à direita, aquele que busca os muros de Dis, o Poderoso”. Ah, Virgílio, Virgílio! Ninguém o superou, meus senhores! Acredito no progresso, certamente, mas Virgílio dispõe de adjetivos que nenhum moderno encontraria... – Enquanto regressavam, começou a recitar versos latinos com pronúncia italiana. Interrompeu-se, porém, quando se encontraram com uma mocinha qualquer,

aparentemente uma aldeã, e de modo algum notável pela sua beleza. Abriu então um sorriso donjuanesco e meteu-se a cantarolar. – Ts, ts, ts – estalou a língua. – Ai, ai, ai! Oh la la!

Moscazinha bonitinha, quer ser minha? Vejam só, “seus olhos brilham à luz furtiva” – citou sabe Deus que autor, e enviou um beijo em direção à jovem, que lá se ia, toda confusa.

“Que grande doidivanas!”, pensou Hans Castorp, e não mudou a sua opinião, quando Settembrini, após esse acesso de galantaria, voltou a dizer mal. Tinha uma birra especial contra o Dr. Behrens. Criticou-lhe o tamanho dos pés e ironizou o título de conselheiro áulico que recebera de um príncipe que sofria de tuberculose cerebral. A região inteira falava ainda da vida escandalosa que levara esse príncipe, Radamanto fizera vista grossa, à maneira mais perfeita de um cortesão. A propósito, sabiam os senhores que Behrens foi o inventor da temporada de verão? Ele e mais ninguém! Honra ao mérito! Antigam apenas os fiéis entre os mais fiéis passavam o estio nesse vale. Porém, “o nosso humorista”, na sua clarividência incorruptível, verificou que esse inconveniente era somente o resultado de um preconceito, e estabeleceu a teoria segundo a qual, pelo menos no que tocava ao sanatório, a cura de verão era não só recomendável, mas até sumamente eficaz e mesmo imprescindível. Soube lançar essa teoria, divulgou-a por meio de artigos de jornal e interessou a imprensa por ela. De então, os negócios marcharam igualmente bem no verão como inverno. – É um gênio – disse Settembrini. – In-tu-ição! – exclamou, e a seguir se pôs a achincalhar os demais estabelecimentos do lugar, elogiando, num tom cáustico, o espírito negocista dos seus donos. Havia lá o Professor Kafka... Todos os anos, na época crítica do degelo, quando grande número de pensionistas queria partir, o Professor Kafka via-se forçado a fazer uma viagem de oito dias, mas prometia outorgar as autorizações de alta logo após o seu regresso. Entretanto, permanecia ausente durante seis semanas, e os desgraçados a esperar, enquanto cresciam -seja dito entre parênteses – as suas contas. Certa vez, Kafka foi chamado a Fiume, para examinar um doente, mas não se pôs a caminho antes que lhe garantissem uns bons cinco mil francos suíços, e entre uma coisa e outra passaram-se quinze dias. E no seguinte ao da chegada do insigne mestre, faleceu o paciente.

Continuar: parte 4 de 4