A Montanha Mágica
Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Regozijava-se com seus novos recursos, que lhe abriam zonas antes inviáveis e aniquilavam quase todos os obstáculos. Proporcionavam-lhe o manto da desejada solidão, a mais profunda solidão que se possa imaginar, a solidão que inspirava à alma a sensação do desconhecido e do perigo dessas paragens. Havia ali, por exemplo, um precipício coberto de pinheiros, que se perdia na cerração da neve, e do outro lado subia uma vertente rochosa com enormes massas de neve, ciclópicas, gibosas e arqueadas, que formavam cavernas e cúpulas.
Quando Hans Castorp parava, a fim de não ouvir a si próprio, o silêncio era absoluto e perfeito, com o menor traço de som como que abafado por meio de algodão, um silêncio ignoto, jamais sentido, que não existia em nenhum outro lugar. Nenhuma brisa, por mais leve que fosse, roçava as copas das árvores; não se ouvia nenhum sussurro, nenhum pio de pássaro. Era o silêncio primevo, aquele que Hans Castorp ouvia ao deter-se assim, apoiado no bastão, com a cabeça inclinada para um dos ombros e com a boca entreaberta. E suave, incessantemente, a neve continuava caindo, numa queda calma, sem ruído algum.
Não, esse mundo, no seu silêncio insondável, não tinha nada de hospitaleiro. Admitia o visitante por sua própria conta e risco. Em realidade não o recebia nem acolhia, mas apenas lhe tolerava a intrusão e a presença, sem se responsabilizar por nada. A impressão que despertava era a de uma ameaça muda e elementar, baseada não em hostilidade, senão antes numa indiferença mortal. O rebento da civilização, que pela sua origem fica alheio e distante da natureza selvagem, é muito mais acessível à sua grandiosidade do que o seu filho rude, que depende dela desde a infância e mantém com ela relações de prosaica familiaridade. Este mal conhece o temor religioso com que aquele, arregalando os olhos, a enfrenta. Esse temor forma o âmago de toda a relação sentimental entre os filhos da civilização e a natureza, fazendo constantemente vibrar na sua alma uma espécie de emoção piedosa e de desassossego tímido. Hans Castorp, com seu suéter de lã de camelo, de mangas compridas, com suas grevas e seus esquis de luxo, no fundo sentia-se audacioso ao contemplar a paz primeva, o ermo hibernal com aquela funesta ausência de sons; e
a sensação de alívio que se apresentava, quando, no caminho de volta, apontavam nas brumas as primeiras habitações humanas, tornava-o consciente do seu estado anterior e instruía-o sobre o terror secreto e sagrado que, durante horas, dominara o seu coração. Na ilha de Sylt, de calças brancas, seguro, elegante e reverente, detivera-se à beira da formidável rebentação como diante de uma jaula de leões, atrás de cujas grades as feras mostram a bocarra aberta com as terríveis presas. A seguir, banhara-se, enquanto um salva-vidas advertia, por meio de um toque de cometa, aqueles que temerariamente procuravam franquear a primeira onda, a fim de se aproximar da ressaca que se revolvia em sua direção. Ainda os derradeiros golpes daquela catarata lhe tinham ferido a nuca como uma patada. Naquela região, o jovem travara conhecimento com aquela entusiástica felicidade que propiciam os ligeiros contatos amorosos com as potências cujo abraço pleno seria fatal. Mas o que nunca chegara a conhecer era a veleidade de levar esse inebriante contato com a natureza mortífera ao ponto em que estivesse iminente o abraço pleno, e a fascinação de penetrar – débil criatura que era, apesar das armas e do equipamento sofrível que lhe fornecera a civilização – dentro do monstruoso mistério, ou, ao menos, evitar a fuga até o momento em que a aventura beirasse o perigo e seus limites se tornassem independentes da vontade humana, o momento em que já não se tratasse de espumas lançadas à praia e de leves pancadas com a pata, mas sim do vagalhão, da fauce do mar.
Numa palavra: Hans Castorp tinha coragem ali em cima – se se entende por coragem frente aos elementos não a objetividade obtusa nas relações com eles, mas o abandono consciente e o triunfo sobre o medo da morte, obtido por meio da simpatia. Simpatia? Com efeito, Hans Castorp simpatizava com os elementos, no íntimo do seu frágil peito civilizado, e existia certa ligação entre essa simpatia e a nova convicção da sua dignidade, que o invadira diante do aspecto daquela turba a brincar com seus trenós, e lhe apresentara como desejável e conveniente uma solidão mais profunda e mais grandiosa, menos provida de um conforto de hotel, do que aquela que se encontrava no seu compartimento de sacada. Fora dali que ele contemplara as cristas envoltas em brumas e a dança da nevada, envergonhando-se, no fundo da sua alma, desse divertimento de ser mero espectador por cima do parapeito da comodidade. Era por isso – e não por um capricho desportivo, nem tampouco devido a um prazer inato na educação física – que aprendera a usar os esquis. Se não se sentia seguro nessas alturas, com a grandiosidade e o silêncio mortal da neve que caía – e de fato esse filho da civilização estava longe de tal estado de sossego , era também inegável que seu espírito e sua alma, desde muito, iam saboreando alimentos pouco seguros. Um colóquio com Naphta e Settembrini não era precisamente o que existia de mais seguro; também ele levava a regiões ínvias e altamente perigosas. E se cabia dizer que Hans Castorp simpatizava com o vasto ermo hibernal, é porque este, apesar do terror piedoso que lhe inspirava, afigurava-se-lhe como a arena própria para as contendas que travavam os seus pensamentos complexos, e como o lugar indicado para uma pessoa que, sem saber por quê, estava incumbida de negócios de “rei”, relativos à situação e ao estado do Homo Dei.
Aqui não havia ninguém cujo toque de cometa avisasse o incauto do perigo iminente, a não ser que o Sr. Settembrini fosse esse homem, ao advertir, pelas mãos em concha, Hans Castorp, que sumia na cerração. Mas este, cheio de coragem e de simpatia, não prestava à advertência maior atenção do que dedicara àquela outra que ressoara atrás dele, na noite de carnaval, enquanto avançava em determinada direção: “Eh, ingegnere, un po’ di ragione, sa!” “Ai de ti, Satana pedagógico, com tua ragione e tua rebellione!”, pensou o jovem. “E, contudo, gosto de ti.
Embora sejas um doidivanas e um tocador de realejo, tens boas intenções, melhores e mais simpáticas a mim pessoalmente do que as do pequeno e penetrante jesuíta e terrorista, esse algoz e flagelador espanhol com seus óculos relampejantes, se bem que ele tenha quase sempre razão, quando vocês estão discutindo... quando brigam, pedagogicamente, pela minha pobre alma, como Deus e o Diabo lutavam pelo homem na Idade Média...”
Com as pernas salpicadas de neve, apoiando-se nos bastões, ia escalando descoradas vertentes, cujos lanços se elevavam em forma de terraço, cada vez mais alto, e não se sabia aonde
conduziam. Parecia que não levavam a parte alguma. A região superior confundia-se com o céu, o qual mostrava o mesmo branco nevoento que eles, de modo que era impossível dizer onde ele começava. Não se distinguia nenhum cume, nenhuma crista. Era o “nada” brumoso em cuja direção Hans Castorp avançava penosamente, e, como também atrás dele o mundo, aquele vale habitado por criaturas humanas não tardasse a fechar-se e a subtrair-se à vista, e como som algum chegasse dali até ele, a sua solidão, o seu isolamento tornou-se, antes que o jovem o percebesse, o mais profundo possível, tão profundo que chegou a dar-lhe aquele susto que é a condição prévia da coragem. “Praeterit figura hujus mundi”, disse de si para si, num latim de espírito nada humanístico. Aprendera essa locução de Naphta. Estacou e olhou a seu redor. Não se via nada em parte alguma, exceção feita a esparsos e minúsculos flocos de neve, que, vindos da brancura do céu, desciam até a brancura do solo. O silêncio em volta dele era impressionantemente vazio.
Enquanto o seu olhar se refrangia no vácuo alvo que o deslumbrava, Hans Castorp sentiu como o seu coração, agitado pela subida, começava a latejar – esse órgão musculado, cuja forma animalesca e cujo mecanismo ele espreitara, talvez nefandamente, por entre os crepitantes relâmpagos do gabinete de radioscopia. E uma espécie de comoção apoderou-se dele, uma singela e devota simpatia por esse seu coração, o coração palpitante do homem, que pulsava, nesse ermo glacial, tão sozinho com seus problemas e seus enigmas.
Prosseguiu no seu vagaroso avanço, sempre subindo, rumo ao céu. Às vezes mergulhava na neve a extremidade superior do bastão e observava como no fundo do buraco era lançada uma luz azul, que perseguia o bastão, cada vez que este se retirava. Isso divertia Hans Castorp, que se deixava ficar muito tempo parado a fim de reproduzir uma e outra vez o pequeno fenômeno óptico. Era uma luz singular e delicada, luz das montanhas e das profundidades, entre esverdeada e azul, clara como o gelo e entretanto sombria, uma luz que o atraía misteriosamente, recordando-lhe a luz e a cor de certos olhos oblíquos, prenhes de destino, que o Sr. Settembrini, do ponto de vista humanístico, qualificara desdenhosamente de “fendas tártaras” e de “olhos de lobo de estepe”, olhos que Hans Castorp contemplara em tempos remotos e reencontrara forçosamente, os olhos de Hippe e de Clávdia Chauchat. – Com muito prazer – disse a meia voz no silêncio. – Cuidado para não quebrá-lo! Il est à visser, tu sais. – E no seu íntimo ouviu, atrás de si, eloqüentes exortações no sentido de levá-lo à razão.
À sua direita, não muito distante, um bosque desenhou-se na bruma. Hans Castorp encaminhou-se até lá, para ter em mira um objetivo terrestre, em vez da alvura transcendente, e logo resvalou em brusca descida, sem ter previsto a menor depressão do solo. O
deslumbramento impedia-o de reconhecer a formação do terreno. Nada se enxergava, tudo se confundia diante dos olhos. Obstáculos completamente inesperados obrigaram-no a nova subida, antes que pudesse abandonar-se ao declive, e sem que os seus olhos fossem capazes de distinguir o grau de inclinação.
O bosque que o atraíra estava situado além do barranco onde Hans Castorp entrara inopinadamente. O fundo dessa garganta, coberto de neve fofa, pendia para o lado da montanha, como o jovem verificou após ter seguido alguns instantes nessa direção. O caminho descia, e as vertentes laterais tornavam-se cada vez mais altas; como um desfiladeiro, a dobra do terreno parecia conduzir ao seio da montanha. Depois, os esporões do seu veículo voltaram a apontar para cima. O terreno subia, e já havia parede lateral para escalar. Novamente, a carreira sem destino de Hans Castorp realizava-se sobre a encosta aberta da montanha, rumo ao céu.
A seu lado, atrás e abaixo de si, viu o bosque de coníferas. Tomando essa direção, alcançou em rápida descida os pinheiros carregados de neve, que, dispostos em forma de cunha, representavam, nessa zona despida de vegetação, uma espécie de vanguarda da encosta arborizada, cujos contornos se perdiam nas brumas. Sob a ramagem, Hans Castorp descansou, fumando um cigarro. Sua alma não deixava de experimentar uma sensação de angústia, tensão, ansiedade, que tinha a sua origem no silêncio por demais profundo, na solidão cheia de aventuras.
Ao mesmo tempo, o jovem sentia-se orgulhoso da sua conquista e soberbo na plenitude dos direitos que sua dignidade lhe conferia sobre essa região.
Era por volta das três da tarde. Logo depois da refeição, Hans Castorp pusera-se a caminho, na intenção de gazear parte do repouso principal e a merenda, e estar de volta antes do escurecer. Encheu-se de alegria ao pensar que tinha ainda à sua frente algumas horas que poderia passar vagando ao ar livre, através da natureza grandiosa. Na algibeira de sua calça de golfe levava um pouco de chocolate, e no bolso do casaco um pequeno frasco de vinho do Porto.
Mal se podia divisar a posição do sol, tão densa era a cerração que o escondia. Mais atrás, na outra extremidade do vale, onde a montanha formava um ângulo que não se via, as nuvens e as brumas iam escurecendo e davam a impressão de avançar. Era um sinal de neve, de mais neve, como se ainda houvesse falta dela. Parecia iminente uma nevada em regra, e realmente os pequenos e silenciosos flocos já estavam caindo mais copiosamente sobre a encosta.
Hans Castorp deu um passo à frente a fim de recolher alguns sobre a manga e examiná-los com os olhos peritos de um naturalista amador. Assemelhavam-se a farrapinhos informes, mas já tivera outros sob a sua magnífica lente e sabia muito bem de que jóia minúsculas, delicadas e precisas se compunham: alfaias, insígnias, broches de diamantes, como o mais hábil joalheiro não poderia fazer mais ricos e mais minuciosos. Aquele pó branco, tão leve e tão fofo, cujas massas oprimiam o bosque e cobriam as áreas abertas, aquele pó por cima do qual o carregavam seus esquis, muito diferia, em realidade, da areia do seu país, na qual fazia pensar. Era coisa sabida que não constava de grãos de pedra, mas de miríades de partículas de água, que, ao congelar-se, haviam-se associado como cristais numa harmoniosa multiplicidade; tratava-se de parcelas da mesma substância inorgânica que intumescia o plasma vital, o corpo das plantas e do homem. E
entre as miríades de estrelinhas mágicas, no seu esplendor secreto, invisível, miúdo e não destinado aos olhos humanos, não havia duas que fossem iguais. Um infinito capricho de inventor empenhava-se na modificação e no mais refinado desenvolvimento de um mesmo esquema fundamental, que era o hexágono de lados e ângulos iguais. Mas cada qual desses artefatos frios, em si, mostrava a mais absoluta simetria e uma regularidade glacial, e justamente nisso estava o inquietante, o antiorgânico, o hostil à vida; eram eles regulares em excesso, num grau jamais alcançado pela substância organizada para a vida. A esta repugnava uma precisão tão exata, que se lhe afigurava mortal, como o mistério da própria morte. Hans Castorp julgava compreender por que os construtores de templos, na Antigüidade, costumavam introduzir propositada e clandestinamente pequenas alterações de simetria na disposição das suas colunas.
Pôs-se em movimento por meio dos bastões; resvalando sobre os esquis, ao longo da beira do bosque, desceu cerração adentro, pela vertente oculta por espessa camada de neve.
Subindo ou deslizando, sem objetivo nem pressa, continuou a vagar através da região morta.
Com as suas extensões vazias e onduladas, com a vegetação árida de esparsos e definhados arbustos, que ressaltavam como manchas escuras, e com o horizonte limitado por elevações suaves, o ambiente parecia-se estranhamente com uma paisagem de dunas. Hans Castorp sacudia a cabeça em sinal de aprovação, enquanto se detinha para admirar essa semelhança. Suportava mesmo com simpatia o calor do rosto, o tremor dos membros, a singular e perturbadora mescla de excitação e fadiga que experimentava. Pois tudo isso lhe chamava à memória impressões familiares de efeitos parecidos que produzira o ar das praias do mar, igualmente estimulante e ao mesmo tempo saturado de substâncias soporíferas. Sentia satisfação ao perceber a sua independência alada, a liberdade das suas andanças. Não tinha à sua frente nenhum caminho que se visse obrigado a seguir; tampouco atrás dele havia um que o levasse ao ponto de partida. A princípio, Hans Castorp encontrara sinais, paus cravados no solo, sinais da neve, mas de propósito libertara-se da sua influência, que lhe recordava o homem da corneta e lhe parecia em desacordo com a relação íntima que existia entre ele e o grande ermo hibernal.
Atrás de outeiros rochosos, cobertos de neve, por entre os quais o jovem se infiltrava, dirigindo-se alternadamente para a direita ou a esquerda, estendia-se um plano inclinado, seguido por outro, horizontal, e em seguida surgiram vastos montes, cujos barrancos e desfiladeiros, estofados de almofadas macias, pareciam transitáveis e atraentes. Sim, a sedução das alturas e das distâncias, das sempre novas solidões que se ofereciam, dominava fortemente a alma de Hans
Castorp, e ele, arriscando-se a voltar tarde, procurou penetrar mais a fundo o silêncio selvagem, a zona do perigo, a ameaça. Nem se preocupava com o fato de que a tensão e a ansiedade reinantes no seu interior se iam transformando em autêntico medo, diante da escuridão prematura e crescente do céu, que se abaixava, qual um véu cinzento, sobre a região. Esse medo fe-lo notar que até agora se empenhara secretamente em perder o rumo e em esquecer a direção onde se achavam situados o vale e a aldeia, empresa na qual, aliás, tivera pleno êxito. Sabia, no entanto, que, se voltasse imediatamente e prosseguisse sempre descendo, alcançaria depressa o vale, mesmo que fosse num lugar distante do Berghof. Depressa demais, porque nesse caso chegaria muito cedo e não aproveitaria todo o tempo de que dispunha. Se, porém, fosse surpreendido pela tempestade de neve, talvez não conseguisse encontrar o caminho de volta. Nem por isso resolveu-se a fugir antes da hora, por mais que o acossasse o medo, o pavor sincero que lhe inspiravam os elementos. Isso não era proceder à maneira de um desportista; pois este não entraria em luta com os elementos sem ter certeza de poder dominá-los; agiria com prudência e seria bastante sensato para ceder. Mas o que se passava na alma de Hans Castorp só pode ser designado por uma única palavra: desafio. Pode ser que essa palavra encerre sentimentos censuráveis, mesmo – ou sobretudo – nos casos em que a mentalidade petulante que lhe corresponde ande acompanhada de muito medo sincero. Bastam, contudo, algumas reflexões humanas para compreender vagamente que no âmago da alma de um jovem e de uma pessoa que durante anos viveu como o nosso herói se deposita ou, segundo diria o engenheiro Hans Castorp, “se acumula” muita coisa que um belo dia deve explodir em forma de um elementar
“Ora bolas!” ou de um “Custe o que custar!”, cheio de impaciência exasperada. Numa palavra, achamo-nos à frente de um desafio, de uma atitude negativa oposta à prudência razoável. E assim Hans Castorp continuou avançando sobre os seus compridos tamancos. Deslizou por mais uma encosta e escalou outra vertente, onde, a alguma distância, se via um chalezinho – um galpão talvez ou a choupana de um pastor – com o teto carregado de pedras. Tomou a direção da montanha seguinte, com a encosta hirsuta de pinheiros, atrás dos quais altos picos assomavam como torres no meio da bruma. À sua frente, o paredão salpicado de raros grupos de árvores elevava-se muito íngreme. Mais para a direita, porém, era possível contorná-lo a meio sobre um declive moderado, e passar para trás dele, a fim de ver o que viria depois. Hans Castorp tomou a si essa tarefa de explorador, depois de ter descido, perto da plataforma do chalé, por uma garganta bastante profunda, que se inclinava da direita para a esquerda.
Mal retomara a subida, quando o esperado se tornou realidade: bruscamente estalaram a nevada e a ventania. Tinha chegado a tempestade de neve que por tanto tempo o ameaçara, se é que se pode falar de “ameaça” com relação a elementos cegos e ignorantes que não pretendem de modo algum aniquilar-nos – o que seria relativamente reconfortante –, mas mostram a mais absoluta indiferença quanto a essa conseqüência eventual da sua ação. “Opa!”, pensou Hans Castorp e estacou, quando a primeira rajada, revolvendo o denso torvelinho, lhe feriu o corpo.
“Esse tipo de sopro vai até a medula.” E de fato, o vento era de uma espécie bastante enjoada. O
frio espantoso que reinava – uns vinte graus abaixo de zero – não se tornava sensível e parecia moderado, enquanto o ar desprovido de umidade se conservava tão calmo e tão imóvel como de costume; mas, logo que se agitava sob o efeito do vento, cortava a carne como uma navalha, e quando isso acontecia com tamanha intensidade como nesse instante (pois o primeiro pé-de-vento a varrer a região não passara de um precursor), nem sete casacos teriam bastado para resguardar os ossos do terror glacial da morte. Hans Castorp, por sua vez, não trajava sete casacos, senão apenas um suéter de lã, que em circunstâncias normais teria sido suficiente e até já se manifestara incômodo, quando brilhava o sol. A borrasca fustigava-o pelo lado e por parte das costas, de maneira que não era recomendável voltar-se e recebê-la em pleno rosto; como esse raciocínio se aliasse à sua teimosia e àquela atitude de “Ora bolas!” que ele adotara no seu íntimo, o audacioso jovem prosseguiu no seu avanço por entre os pinheiros isolados, na intenção de chegar ao outro lado da montanha que acabava de escalar.
Nisso, porém, não havia nenhum prazer, pois nada se enxergava além da dança dos flocos, que, aparentemente sem cair, enchiam o espaço com sua abundância turbilhonante. As lufadas glaciais que os remexiam faziam arder as orelhas numa dor aguda, tolhiam os membros e entorpeciam os dedos, de modo que Hans Castorp já não sabia se ainda segurava o bastão ou se não tinha nada nas mãos. Por detrás a neve lhe entrava no colarinho e, derretendo, descia pelas costas. Também se amontoava nas suas espáduas e lhe cobria o flanco direito. Parecia-lhe que ia transformar-se num homem de neve, com o bastão na mão enrijecida. E todos esses inconvenientes eram as conseqüências de uma situação relativamente favorável. Se ele desse meia-volta a coisa pioraria, e não obstante convinha empreender sem demora aquela tarefa laboriosa que constituía o caminho de volta.
Parou; furiosamente encolheu os ombros e dirigiu os esquis para o lado oposto. O vento contrário logo lhe impediu a respiração, de maneira que mais uma vez se submeteu à penosa manobra da meia-volta, a fim de retomar fôlego e de enfrentar o inimigo impassível numa disposição melhor. Com a cabeça abaixada, respirando econômica e cautelosamente, conseguiu, com efeito, pôr-se em movimento na direção desejada. Embora esperasse o pior, mostrou-se surpreendido pelas dificuldades da marcha, que tinham a sua origem antes de mais nada no ofuscamento e na falta de fôlego. A cada instante via-se obrigado a deter-se, em primeiro lugar para respirar ao abrigo da tempestade, e ainda porque, olhando para cima com a cabeça baixa, nada enxergava naquelas trevas brancas e devia andar com cautela, para evitar choques com árvores ou quedas causadas por obstáculos. Flocos em massa fustigavam-lhe o rosto e nele se derretiam, de modo que a pele gelava. Entravam-lhe na boca, onde se fundiam com sabor insípido e aquoso; voavam contra as pálpebras, que se cerravam convulsivamente; inundavam os olhos, estorvando a visão, que, por outro lado, teria sido inútil, uma vez que o campo visual estava velado por uma cortina espessa e o sentido da vista achava-se obstruído pelo deslumbramento resultante de toda essa brancura. Quando Hans Castorp fazia um esforço para ver, deparava com o nada, o remoinho branco do nada. E só de tempos em tempos assomavam fantasmagóricas sombras do mundo real, um arbusto definhado, um grupo de pinheiros, e também a pálida silhueta do galpão pelo qual passara havia pouco.
Hans Castorp deixou-o para trás e procurou encontrar o caminho de volta, atravessando a vertente, a cuja beira se erguia o chalé. Ora, não existia caminho. Conservar um rumo, a direção aproximada do sanatório, era uma questão de sorte antes que de raciocínio, já que a vista, que talvez conseguisse enxergar a mão diante dos olhos, nem sequer alcançava as pontas dos esquis, e mesmo que se divisasse mais, existiam ainda numerosos óbices que se opunham ao avanço: o rosto estava coberto de neve; a tempestade lutava contra ele, impedindo, tolhendo a respiração, tornando quase impossíveis tanto o ato de aspirar como o de expelir o ar, e forçando o jovem a cada instante a virar-lhe as costas para resfolegar. Quem poderia progredir desse modo? Nem Hans Castorp, nem outro mais forte do que ele. Era preciso parar, tomar alento, apertar as pálpebras para fazer a água sair dos olhos piscos, sacudir a couraça de neve que se formara sobre a parte anterior do corpo. Não deixava de ser insensata a pretensão de avançar em tais condições.
Apesar de tudo, Hans Castorp avançou, isto é: continuou marchando. Mas restava saber se se tratava de uma marcha profícua, de um avanço na direção certa, e se não seria mais indicado para ele permanecer no lugar onde se encontrava – o que, no entanto, tampouco parecia útil. A probabilidade teórica inclinava-se para o contrário, e do ponto de vista prático, Hans Castorp, dentro em breve, teve a impressão de que alguma coisa não andava bem no solo em que pisava, que não era mais aquela encosta pouco inclinada que ele realcançara a muito custo, subindo do barranco, e que urgia transpor antes de mais nada. O trecho plano fora muito curto, e logo recomeçou a subida. Evidentemente, a tempestade, que vinha do sudoeste, da região da extremidade oposta do vale, desviara-o da sua rota, pela furiosa pressão contrária. Já fazia algum tempo que o jovem se esfalfava num avanço errado. Às cegas, envolto na turbilhonante noite branca, apenas se esforçara por penetrar mais fundo no elemento indiferente, ameaçador.
– Vejam só! – murmurou entre dentes, enquanto estacava. Não se serviu de uma expressão mais enfática, se bem que, por um momento, tivesse a sensação de que uma mão gélida lhe agarrava o coração, fazendo-o sobressaltar-se e bater de encontro às costelas num ritmo acelerado, como naquele dia em que Radamanto lhe descobrira o lugar úmido no peito. Hans Castorp compreendia que não lhe cabia pronunciar palavras altissonantes, pois ele mesmo lançara o desafio e era responsável por tudo quanto a situação tivesse de inquietante. – Essa é boa! – disse de si para si, e sentiu que suas feições, os músculos faciais, já não obedeciam à alma e nada sabiam reproduzir, nem medo, nem raiva, nem desdém, por estarem enregelados. – Que fazer agora? Descer obliquamente por aí, direto para a frente, sempre contra o vento. Na verdade, é mais fácil dizer do que fazer – continuou, ofegante, proferindo palavras entrecortadas, a meia voz, enquanto voltava a pôr-se em movimento. – Mas é preciso que aconteça alguma coisa. Não posso sentar-me e esperar. Nesse caso ficaria coberto por toda essa simetria hexagonal, e Settembrini, se me procurasse com a corneta na mão, haveria de me achar acocorado aqui, com os olhos vidrados e com um boné de neve de través na cabeça... – Hans Castorp percebeu que estava falando sozinho, e de um jeito um tanto esquisito. Proibiu-se, pois, de falar assim, mas fez também isso à meia voz e em palavras expressas, embora seus lábios estivessem tão atordoados que renunciou a utilizá-los e falou sem pronunciar aquelas consoantes que são formadas com o auxílio deles, o que lhe chamou à memória uma situação anterior na qual ocorrera o mesmo. –
Cala-te e trata de livrar-te! – prosseguiu e acrescentou: – Parece-me que estás desvairando e já não tens o cérebro muito claro. Isso é triste, sob certos aspectos.
Que isso fosse triste, do ponto de vista da sua salvação, constituía, entretanto, uma simples verificação do juízo controlador, feita, por assim dizer, por uma pessoa estranha, desinteressada, ainda que invadida de preocupações. Quanto à sua inclinação natural, Hans Castorp sentia-se muito disposto a abandonar-se àquela confusão que se queria apoderar dele com o aumento do cansaço. Todavia, deu-se conta dessa tendência e refletiu sobre ela. – É a modificação que se produz no modo de sentir de um homem que nas montanhas foi surpreendido por uma tempestade de neve e não encontra o caminho para casa – raciocinou penosamente, pronunciando, em voz trêmula, partes dos seus pensamentos, e evitando, por discrição, expressões mais claras. – Quem ouve falar disso imagina que é horroroso, mas esquece que a enfermidade – e a minha situação é de certo modo uma enfermidade – prepara a sua vítima com o fim de adaptá-la a si própria. Há diminuições de sensibilidade, narcoses providenciais, medidas da natureza para dar-nos alívio; sim, senhor!... No entanto, devemos lutar contra elas, uma vez que têm duas caras e são sumamente equívocas. A sua apreciação depende inteiramente do ponto de vista. São bem-intencionadas e benéficas para quem não está destinado a regressar; mas são prejudiciais e devem ser combatidas, enquanto ainda se pode ter esperança de regresso, como no meu caso. Eu não penso em... No meu coração, que palpita tumultuosamente, não tenho a mínima intenção de me deixar enterrar aqui por essa cristalometria estupidamente regular.
De fato, já se sentia bastante esgotado e, de modo confuso e febril, ia debelando a incipiente perturbação dos seus sentidos. Não se assustou, assim, como o teria feito se tivesse estado em seu juízo, quando notou que novamente se afastara da pista plana; dessa vez, provavelmente, na direção oposta, para onde o declive era mais forte. Pois tornara a descer, tendo o vento oblíquo contra si. Embora isso fosse errado, parecia-lhe mais cômodo agir assim, pelo menos por enquanto. – Não faz mal – opinou. – Um pouco mais abaixo voltarei a tomar o rumo certo. – E foi o que fez, ou acreditou fazer, ou talvez nem sequer o acreditasse, ou – o que era ainda mais inquietante – já não ligava importância à diferença entre fazer ou não fazer. Tal era o efeito daquelas equívocas diminuições da sensibilidade, contra as quais Hans Castorp se debatia apenas debilmente. A mescla de excitação e fadiga que formava o estado familiar e constante de um pensionista cuja aclimatação consistia no hábito de não se habituar intensificara-se nos seus dois componentes de tal maneira que já não se podia falar de uma reação sensata contra os desfalecimentos do espírito. Tonto e cambaleante, estremecia de ebriedade e de emoção
semelhantes àquelas que experimentava depois de um colóquio com Naphta e Settembrini, porém num grau muito mais forte. Daí lhe sucedia justificar a sua preguiça na luta contra os desfalecimentos narcóticos por meio de desordenadas reminiscências daquelas discussões. Apesar da sua desdenhosa revolta contra a idéia de se ver soterrado pela simetria hexagonal, balbuciava de si para si qualquer coisa cujo sentido ou não-sentido era o seguinte: o senso do dever que procurava induzi-lo a combater as diminuições de consciência suspeitas não era pura ética, mas sim o mísero modo de viver burguês e a mentalidade de filisteus irreligiosos. O desejo e a tentação de deitar-se e descansar insinuavam-se na sua alma e faziam com que raciocinasse que a sua situação era semelhante a uma tempestade de areia no deserto, e nesse caso os árabes costumavam estender-se com o rosto para baixo, puxando o albornoz por cima da cabeça.
Unicamente o fato de não possuir albornoz e de ser impossível envolver a cabeça numa blusa de lã constituía para ele uma objeção incisiva contra tal modo de agir, se bem que já não fosse criança e estivesse inteirado, por muitas narrativas, da maneira como se processava a morte por congelamento.
Depois de uma descida moderadamente rápida e de um trecho plano, reiniciou-se a subida, desta vez bastante íngreme. Isso não implicava necessariamente que ele se achasse num caminho errado, pois o que conduzia para o vale forçosamente incluía trechos que subiam, e quanto ao vento, era provável que tivesse mudado, obedecendo a um capricho, já que Hans Castorp o recebia, desde havia pouco, pelas costas, e esse fato, encarado isoladamente, parecia-lhe simpático. Era a tempestade que o dobrava, ou o declive macio, branco e velado pelo torvelinho crepuscular, que exercia uma atração sobre o seu corpo, fazendo-o inclinar-se para a frente? Bastaria ceder, abandonando-se a essa tendência, e a sedução era grande, tão grande como os livros a descrevem, qualificando-a como perigosa e típica. Mas essa noção não diminuía em nada a força viva e atual da atração. Reivindicava ela direitos individuais, não queria deixar-se classificar entre as coisas conhecidas, não admitia confronto, insistia em ser única e incomparável na sua urgência, sem que, no entanto, pudesse negar a sua origem numa sugestão emanada de certa pessoa, criatura vestida de preto, à espanhola, com uma alvíssima golilha pregueada, e cuja imagem ou concepção fundamental evocava toda sorte de conceitos sombrios, penetrantemente jesuíticos, hostis à humanidade, visões de escravidão torturada e flagelada, coisas de que o Sr.
Settembrini tinha horror, embora na sua guerra contra elas só se tornasse ridículo, com seu realejo e sua ragione...
Não obstante, Hans Castorp comportou-se valentemente e resistiu à tentação de se deixar cair. Não enxergava nada, mas continuava lutando e ganhando terreno; com ou sem proveito, cumpria o seu dever e trabalhava, desprezando os grilhões cada vez mais pesados, com os quais a tempestade glacial lhe prendia os membros. Como a subida se mostrasse extraordinariamente escarpada, enveredou para o lado, sem se dar conta disso, e seguiu algum tempo ao longo da vertente. Abrir as pálpebras convulsas e espreitar em torno de si exigia um esforço cuja inutilidade comprovada pouco o animava a repeti-lo. Mesmo assim deparava com alguma coisa, de vez em quando: uns pinheiros aglomerados, um arroio ou riacho, cuja negrura ressaltava na paisagem, entre os rebordos cobertos de neve. E quando, para variar, se encontrou novamente num trecho de descida, dessa vez contra a ventania, descobriu, a alguma distância, flutuando livremente na confusão de véus varridos, a sombra de uma habitação.
Que vista simpática, reconfortante! Pela sua energia, em que pese a todos os obstáculos, Hans Castorp conseguira avançar até onde assomavam moradas humanas, indicando a proximidade do vale habitado. Talvez houvesse homens ali; talvez lhe permitissem entrar, para aguardar, sob a proteção do teto, o fim da tormenta; talvez fosse possível arranjar um companheiro ou um guia, o que se tornaria necessário no caso de a escuridão natural sobrevir nesse meio tempo. O jovem encaminhou-se para aquela coisa quimérica, que a todo instante desaparecia nas trevas borrascosas. Teve ainda que realizar uma exaustiva ascensão contra o vento, antes de alcançá-la. Uma vez chegado, verificou, com um misto de revolta, pasmo, susto e vertigem, que era aquela cabana que conhecia, o galpão com o teto carregado de pedras, que, por inúmeros rodeios e à custa dos mais intensos esforços, acabava de reconquistar.
Que diabo! Violentas pragas saíram, com omissão dos sons labiais, da boca enregelada de Hans Castorp. Para orientar-se, deu volta à choça, apoiando-se nos bastões, e constatou que dessa vez chegara até ela por trás, e que, por conseguinte, durante mais de uma hora – segundo as suas avaliações – cometera tolices das mais perfeitas e das mais infrutuosas. Mas isso costumava acontecer, conforme se podia ler nos livros. A gente movimentava-se em círculo, labutava, com o coração cheio da quimera de um esforço útil, e em realidade descrevia vastas e estúpidas curvas que reconduziam ao ponto de partida, tal e qual a órbita falaz do ano. Destarte, as pessoas extraviavam-se e não encontravam o caminho de volta. Hans Castorp reconheceu o fenômeno tradicional com certa satisfação, embora também com algum terror. Deu na coxa uma palmada de raiva e espanto, ao ver que a experiência geral se reproduzira tão pontualmente no seu caso particular e presente.
O galpão solitário era inacessível; a porta estava chaveada; não se podia entrar em parte alguma. Contudo, Hans Castorp resolveu permanecer, por enquanto, onde estava, porque o telhado saliente dava a ilusão de um certo abrigo. Realmente, a própria choça, no lado dirigido para a montanha, lá onde o jovem buscou refúgio, oferecia boa proteção contra a tempestade a quem se apoiasse com o ombro à parede construída de tábuas, uma vez que não era possível encostar-se, devido ao comprimento dos esquis. Aconchegando-se obliquamente à construção, deixou-se ficar ali, depois de haver cravado o bastão na neve, a seu lado; afundou as mãos nos bolsos, levantou a gola da blusa de lã e escorou-se na perna de fora. A cabeça estonteada repousava, de olhos fechados, nas tábuas do galpão. Só de quando em quando Hans Castorp lançava olhares piscos por cima do barranco, em direção à vertente oposta que às vezes assomava vagamente por entre os véus da neve.
A sua situação era relativamente cômoda. “Desse jeito poderei agüentar de pé a noite toda, se for necessário”, pensou. “Basta mudar, de tempos em tempos, de pé, e virar-me, por assim dizer para o outro lado. É apenas indispensável que me mexa um pouco nos intervalos.
Sinto-me transido exteriormente, mas acumulei bastante calor graças a caminhada que dei, e assim o desvio não foi completamente inútil, embora eu tenha andado perdido, dando voltas em torno da cabana... Perdido? De que expressão acabo de servir-me? Não é necessária nem cabe como referência àquilo que me aconteceu. Servi-me dela arbitrariamente, porque não tenho a cabeça muito clara. E todavia, em certo sentido, parece-me que é uma palavra apropriada... Ainda bem que tenho resistência, pois o torvelinho, a nevada, o caos, podem perfeitamente prolongar-se até amanhã de manhã, e mesmo que se estendam apenas até o escurecer, já seria bem grave, porque de noite o perigo de a gente perder-se e dar voltas à toa é tão grande como no meio de uma tempestade de neve... Agora já deve ser de tardezinha, seis horas, pouco mais ou menos.
Desperdicei muito tempo errando pela região. Que horas são, afinal?” Procurou o relógio, se bem que não fosse fácil tirá-lo do bolso com os dedos gelados, insensíveis. Olhou o relógio de ouro, com tampa de mola e monograma, que, nessa solidão desolada, continuava a tiquetaquear, viva e lentamente, semelhante ao seu coração, o comovente coração humano a pulsar no calor orgânico do tórax...
Eram quatro e meia. Puxa! não passara muito tempo desde que começara a tempestade.
Podia-se acreditar que suas andanças houvessem durado apenas um quarto de hora? “O tempo me pareceu longo”, pensou. “Ao que parece, essa coisa de andar perdido é meio fastidiosa. Mas é indiscutível que às cinco ou às cinco e meia entra a noite. Terminará a tempestade bastante depressa para evitar que me perca outra vez? Que tal um gole de porto para me fortificar?”
Trouxera essa bebida de diletantes pelo único motivo de haver no Berghof um estoque de garrafas chatas, que eram vendidas aos excursionistas, embora, naturalmente, não se pensasse em pessoas que ilicitamente se desgarrariam na neve e no frio glacial das montanhas e aguardariam a noite em tais condições. Se as suas faculdades mentais estivessem menos esgotadas, deveria ter dito a si próprio que, sob o ponto de vista das probabilidades de regresso, o vinho do Porto era
aproximadamente a pior coisa que se podia beber. Foi o que notou após ter engolido alguns tragos que lhe produziram um efeito semelhante àquele que tivera a cerveja de Kulmbach, na noite do primeiro dia após a sua chegada, quando seu palavrório desordenado e incontido sobre molhos para peixe e outras coisas do mesmo quilate havia chocado o Sr. Lodovico Settembrini, o pedagogo cujo olhar reconduzia à razão até mesmo os loucos mais varridos. Precisamente nesse instante Hans Castorp ouvia através dos ares o harmonioso som da corneta do italiano, sinal de que o eloqüente educador se aproximava em marcha forçada, a fim de libertar dessa situação maluca e de guiar pelo caminho de volta o discípulo que tantas preocupações lhe causava, o filho enfermiço da vida... Tudo isso, naturalmente, era absurdo e tinha a sua origem na cerveja de Kulmbach, que Hans Castorp bebera por distração. Em primeiro lugar, o Sr. Settembrini não dispunha de corneta, mas apenas de um realejo com uma perna de pau, plantado no calçamento da rua, e cujas melodias animadas acompanhava de olhares humanísticos na direção das fachadas; e em segundo, nada sabia nem notara do que estava acontecendo, visto que deixara de morar no Sanatório Berghof e se achava na casa de Lukacek, costureiro de senhoras, naquele cubículo com a garrafa de água, acima da cela forrada de sedas do Sr. Naphta. Além disso, tinha tão pouco direito e oportunidade de intervir quanto tivera em certa noite de carnaval, quando Hans Castorp se encontrara numa posição igualmente maluca e arriscada, ao devolver à enferma Clávdia Chauchat son crayon, seu lápis, o lápis de Pribislav Hippe... Que posição era essa, afinal de contas?
A posição adequada à sua existência devia ser horizontal e não vertical, no sentido genuíno, próprio e não apenas metafórico da palavra. Horizontal, como convinha a um membro veterano da sociedade aqui de cima. Não estava ele acostumado a ficar estendido ao ar livre, num ambiente de neve e de frio, tanto de dia como de noite? E já se ia deixando cair ao chão, quando o penetrou uma percepção, agarrando-o pela gola e mantendo-o de pé, a percepção que toda essa lengalenga íntima sobre a “posição” devia ser atribuída à cerveja de Kulmbach e provinha exclusivamente do seu desejo de deitar-se e dormir, desejo impessoal, tipicamente perigoso, que procurava seduzi-lo por meio de sofismas e de trocadilhos.
“Acaba-se de cometer um erro”, reconheceu. “O vinho do Porto não era recomendável; esses poucos goles me puseram chumbo na cabeça, de modo que ela me cai sobre o peito. Os meus pensamentos não passam de coisas confusas e de gracejos insípidos. Não devo fiar-me neles, nem nos primeiros que me ocorrem, nem tampouco nas observações críticas que faço a seu respeito. Aí é que está o mal. ‘Son crayon’... Quer dizer, o crayon dela e não dele; ‘son’ se diz, somente porque ‘crayon’ é masculino. Todo o resto é apenas um jogo de palavras. Nem vale a pena perder tempo com isso. No momento acho muito mais urgente a circunstância de a minha perna esquerda, na qual me apoio, recordar-me, de modo surpreendente, a perna de pau do realejo de Settembrini, que ele empurra à frente com o joelho, sobre a calçada, cada vez que se aproxima da janela e estende o chapéu de veludo, na esperança de que a moça lá de cima lhe atire alguma moeda. E ao mesmo tempo sinto qualquer coisa assim como mãos a me atrair impessoalmente para a neve. O único remédio contra isso é o movimento. Preciso movimentar-me, como castigo por ter bebido a cerveja de Kulmbach, e para desentorpecer a perna de pau.”
Afastou-se da parede, tomando impulso com o ombro. Mas apenas se distanciou do galpão, dando um único passo para a frente, o vento feriu-o com verdadeiros golpes de foice e rechaçou-o até o abrigo. Indiscutivelmente era esse o lugar mais indicado para ele.