A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 8 de 13 · parte 2/4

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A Montanha Mágica

Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

As terras do educandário eram tão extensas quanto os seus edifícios, que podiam abrigar aproximadamente quatrocentos alunos. O conjunto abrangia bosques e prados, meia dúzia de campos de jogo, celeiros, estábulos para centenas de vacas. O instituto era ao mesmo tempo um

pensionato, uma granja-modelo, uma academia de esportes, uma escola de sábios e um templo das musas; pois, sem cessar, havia representações teatrais e concertos. A vida era senhoril e claustral. A disciplina, a elegância, a alegria discreta, a espiritualidade, a cultura esmerada, a precisão do variadíssimo programa diário – tudo isso afagava os instintos mais profundos de Leo.

O moço transbordava de felicidade. Ministravam-lhe excelentes manjares num vasto refeitório, onde o silêncio era de regra, assim como nos corredores do estabelecimento, em cujo centro um jovem prefeito, sentado numa cátedra elevada, lia em voz alta para os alunos que tomavam a refeição. O zelo que Naphta desenvolvia nos estudos era ardente, e apesar da sua debilidade física fazia toda espécie de esforços para não se deixar superar, à tarde, nos jogos desportivos. A devoção com que todas as manhãs assistia à primeira missa e participava do ofício dominical devia causar prazer aos padres pedagogos. Seu comportamento e suas maneiras satisfaziam-nos da mesma forma. Nos dias de festa, pela tarde, depois de comer doces e beber vinho, ia passear, trajando o uniforme cinzento e verde, com o colarinho engomado, boné e barras nas calças.

Sentia-se deslumbrado de gratidão diante das considerações com que eram tratados a sua origem, o seu cristianismo recente e a sua situação particular em geral. Ninguém parecia saber que ele se beneficiava de uma bolsa. O regulamento da casa desviava a atenção dos companheiros do fato de ele não ter nem família nem pátria. Quanto à remessa de víveres ou guloseimas existia uma proibição geral. Encomendas que chegavam apesar disso eram repartidas entre todos, e também Leo recebia a sua parte. O cosmopolitismo da instituição impedia que a sua origem racial aparecesse de modo evidente. Existiam ali jovens provenientes de terras longínquas, sul-americanos de raça lusa, cujo aspecto era mais “judeu” do que o de Leo, e dessa forma o conceito deixou de subir à tona. O príncipe etíope que entrara ao mesmo tempo que Naphta era até um negro típico, com cabelos lanosos, e contudo sumamente distinto.

Na classe de retórica, Leo manifestou o desejo de estudar teologia, para que pudesse um dia pertencer à ordem, se é que fosse julgado digno. Isso teve por conseqüência que a sua bolsa foi transferida do segundo internato, onde o regime era mais modesto, para o primeiro. Agora era servido à mesa por criados, e seu cubículo no dormitório achava-se situado entre o de um nobre silesiano, o Conde von Harbuval e Chamaré, e o do Marquês di Rangoni-Santacroce, de Modena.

Passou brilhantemente pelos exames e, fiel aos seus propósitos, abandonou o educandário e mudou-se para o noviciado na vizinha aldeia de Tisis, onde passou a levar a vida de humildade obediente, de subordinação muda e de adaptação religiosa, vida que lhe proporcionava prazeres espirituais no sentido das concepções fanáticas de épocas distantes.

Nesse meio tempo, a sua saúde sofreu um abalo, menos por causa do rigor da vida de noviço, que não carecia de oportunidades para fortalecer o corpo, do que em virtude de processos que se desenvolviam no seu íntimo. A sutileza e a sagacidade dos processos pedagógicos de que ele era objeto iam ao encontro dos seus talentos particulares, e ao mesmo tempo provocavam-nos. Durante as operações espirituais às quais consagrava os seus dias e ainda parte das suas noites, no curso de todos esses exames de consciência, contemplações, ponderações e introspecções, enredava-se ele, devido a uma paixão maliciosa pela contenda, em milhares de dificuldades, contradições e dúvidas. Leo era o desespero, e também a grande esperança, do diretor dos seus exercícios, a quem cossava dia a dia com sua fúria dialética e sua falta de ingenuidade... “Ad haec quid tu?”, perguntava, com as lentes dos óculos cintilando. E o padre, posto contra a parede, não tinha outro recurso senão recomendar-lhe a prece, para que conseguisse a tranqüilidade do coração, ut in aliquem gradum quietis in anima perveniat. Mas, essa

“tranqüilidade” consistia, quando obtida, num completo embotamento da vida individual e na redução fatal a um mero instrumento, era a paz de um cemitério do espírito, cujos sinistros sinais exteriores Naphta podia muito bem estudar entre os seus companheiros em mais de uma fisionomia de olhar parado, e que ele mesmo nunca lograria alcançar por outro caminho que não o da ruína corporal.

Fala em favor do nível intelectual dos seus superiores que essas reservas e objeções não diminuíam a estima que Naphta gozava junto deles. O próprio padre provincial chamou-o pelo

fim dos dois anos de noviciado, conversou com ele e autorizou-lhe a admissão na ordem. O

jovem escolástico, que recebera quatro ordenações inferiores – as do porteiro, do acólito, do leitor e do exorcista – e também fizera os votos “simples”, ficou assim pertencendo definitivamente à Companhia. Partiu para o colégio de Falkenburgh, na Holanda, a fim de se dedicar aos estudos de teologia.

Tinha então vinte anos, e nos três anos seguintes, sob a influência de um clima prejudicial e de excessivos esforços intelectuais, o mal hereditário realizou tamanhos progressos, que sua permanência no colégio só teria sido possível com perigo de vida. Uma hemoptise que sofreu alarmou os seus superiores, e depois de ele se achar durante semanas inteiras entre a vida e a morte, enviaram o jovem precariamente restabelecido ao lugar donde viera. No mesmo estabelecimento onde fora educado, encontrou Leo uma colocação como prefeito, vigilante dos alunos e professor de humanidades e filosofia. Esse interlúdio fazia parte do regulamento, só que normalmente depois de poucos anos de serviço se voltava ao colégio, para prosseguir e concluir os sete anos de estudos teológicos. Isso não foi dado ao Irmão Naphta. Ele continuava enfermo.

O médico e os superiores julgaram que o serviço nesse lugar, com o seu ar saudável, a companhia dos alunos, e as ocupações agrícolas eram o que lhe convinha por enquanto. Naphta recebeu a primeira ordenação superior e obteve assim o direito de cantar a Epístola na missa solene dos domingos – direito que ele não exercia, em primeiro lugar porque lhe faltava por completo o talento musical, e em segundo, por causa da doença, que lhe tornava a voz esganiçada e fazia-a pouco apta para cantar. Não progrediu além do subdiaconato. Não alcançou o diaconato, tampouco a ordenação sacerdotal. Como a hemoptise se repetisse e a febre não desse mostras de ceder, teve que submeter-se, à custa da ordem, a um tratamento prolongado. Instalara-se em Davos, onde se encontrava fazia mais de cinco anos. Mal se podia falar de um tratamento, senão de uma condição fixa da sua existência, que exigia atmosfera rarefeita, e que alguma atividade como professor de latim no ginásio dos enfermos tornava menos penosa...

Essas coisas, além de outros pormenores, chegavam ao conhecimento de Hans Castorp pela boca do próprio Naphta, quando o visitava na sua cela forrada de seda, ora sozinho, ora acompanhado dos seus comensais Ferge e Wehsal, que apresentara ao seu anfitrião, ou quando o encontrava num passeio e regressava junto com ele até a “aldeia”. Ia conhecendo esses detalhes ao acaso, em fragmentos ou sob a forma de narrativas coesas, e não somente os achava extraordinariamente interessantes, mas também incitava Ferge e Wehsal a considerá-los sob o mesmo prisma, o que de fato acontecia. Verdade é que o primeiro nunca deixava de acrescentar a restrição de não entender de coisas sublimes (uma vez que unicamente a experiência do choque pleural o elevara acima das mais humildes entre as contingências humanas). Wehsal, porem, regozijava-se visivelmente com a carreira afortunada de um homem outrora opresso pelo destino, essa carreira que agora, como para abater qualquer soberba, se via interrompida e parecia encalhar no mal físico que eles tinham em comum.

Hans Castorp, por sua vez, lamentava essa estagnação e recordava com orgulho e desassossego o honrado Joachim, que num esforço heróico rasgara a rede resistente da retórica de Radamanto e desertara para a sua bandeira, a cuja haste – segundo imaginava o jovem – devia estar agarrado, erguendo três dedos da mão direita para prestar o juramento de fidelidade.

Também Naphta tinha uma bandeira à qual jurara, e sob cuja proteção se encontrava, como ele mesmo dizia, ao informar Hans Castorp acerca da organização da ordem; mas, manifestamente, em vista de todas as suas reservas e combinações, era-lhe menos fiel do que Joachim à sua. O

civil Hans Castorp, amigo da paz, sempre que escutava o antigo ou futuro jesuíta, sentia, contudo, consolidada a sua opinião de que cada um dos dois devia olhar com simpatia a profissão do outro e perceber o parentesco estreito que existia entre ela e a própria. Eram castas militares, tanto uma como a outra, e isso sob muitos aspectos, o do ascetismo e o da hierarquia, o da obediência e o do pundonor espanhol. Este último desempenhava um papel importantíssimo na ordem de Naphta, que tinha a sua origem na Espanha, e cuja regra de exercícios espirituais, espécie de precursora do regulamento que Frederico da Prússia deu à infantaria, era, na sua forma

original, redigida em espanhol. Por isso ocorria freqüentemente a Naphta empregar termos espanhóis nas suas narrativas e explicações. Falava então das dos banderas em torno das quais os exércitos se agrupavam para a grande batalha, o do Inferno e o da Igreja, um na região de Jerusalém, chefiado por Cristo, o capitán general de todos os justos, e o outro na planície da Babilônia, onde Lúcifer exercia o cargo de caudillo ou chefe de bando...

Não era o Instituto Stella Matutina uma verdadeira escola de cadetes, cujos alunos, distribuídos em “divisões”, iam sendo orientados no sentido honroso de uma bienséance militar e clerical, que representava, por assim dizer, uma combinação de “colarinho engomado” e “golilha espanhola”? As idéias da honra e da distinção, que na classe de Joachim desempenhavam tão brilhante papel, com quanta nitidez – assim pensava Hans Castorp – não apareciam naquela que Naphta desgraçadamente tivera de abandonar devido à doença! A crer nele, a ordem compunha-se exclusivamente de oficiais ambiciosos, cujo único pensamento era distinguir-se no serviço.

(Insignes esse, dizia-se em latim.) Segundo a doutrina e o regulamento do fundador e primeiro geral, o espanhol Loyola, tais homens prestavam serviços maiores, serviços mais grandiosos do que todos aqueles que agiam guiados pela mera razão. Realizavam a sua obra ex superrogatione, indo além do seu dever; não se limitavam a resistir à rebelião da carne (rebellioni carnis), o que não passava, em suma, daquilo que faz todo homem dotado de mediano bom senso, mas também combatiam as tendências para a sensualidade, o egoísmo e o amor às coisas mundanas, até em assuntos que geralmente eram considerados lícitos. Pois agir em detrimento do inimigo (agere contra), quer dizer, atacar, era mais honroso e mais importante do que apenas defender-se (resistere). “Debilitar e desbaratar o inimigo”, rezava o regulamento de campanha, e mais uma vez o seu autor, o espanhol Loyola, estava plenamente de acordo com o capitán general de Joachim, o prussiano Frederico e sua máxima estratégica: “Atacar, atacar! Não dar tréguas ao inimigo!

Attaquez donc toujours!”

Mas o que os mundos de Naphta e de Joachim tinham em comum, antes de mais nada, era a relação com o sangue e o axioma de que não se devia impedir a mão de derramá-lo; nisso, sobretudo, concordavam estritamente, como mundos, como ordens e como classes, e a um amigo da paz parecia notável o que Naphta contava de tipos de monges-guerreiros da Idade Média, que, ascetas até o esgotamento e no entanto ávidos de poder espiritual, não haviam poupado sangue no seu esforço de estabelecer a Cidade de Deus e o reino do sobrenatural; falava dos belicosos templários que julgavam mais meritório morrer na luta contra os infiéis do que na cama, e para os quais matar ou ser morto por amor a Jesus não era crime, senão glória suprema.

Ainda bem que Settembrini não estava presente quando Naphta expôs essas idéias! Caso contrário, não teria deixado de fazer o papel de tocador de realejo desmancha-prazeres e de fazer soar a flauta pastoril da paz, não obstante o seu próprio projeto de guerra santa, nacional, civilizadora, contra Viena, que ele absolutamente não rejeitava, ao passo que o sarcasmo e a mordacidade de Naphta castigavam de preferência essa paixão e esse fraco do seu adversário.

Cada vez que o italiano se inflamava por esse gênero de sentimentos, o outro lhe opunha um cosmopolitismo cristão, chamando todos os países, e ao mesmo tempo nenhum, de sua pátria e repetindo em voz cortante a frase de um geral da sua ordem, de nome Nickel, segundo o qual o patriotismo era “uma peste e a morte certa do amor cristão”.

Lógico que era em nome do ascetismo que Naphta tratava de peste o amor à pátria –

pois, quanta coisa não encerrava esse termo, aos seus olhos, quanta coisa não contrariava, segundo a sua opinião, a ascética e o reino de Deus! Isso não somente se aplicava ao afeto à família e ao lar, mas também ao apego à saúde e à vida. Era precisamente por eles que Naphta censurava o humanista, quando este encomiava a paz e a felicidade; num tom rixoso, acusava-o de amor carnalis, de amor ao conforto do corpo, commodorum corporis, e declarava à queima-roupa que conceder a menor importância à vida e à saúde demonstrava a impiedade de pequenos burgueses.

Isso se deu durante a grande controvérsia sobre a saúde e a doença, que certo dia, já nas proximidades do Natal, surgiu dessas divergências, no curso de um passeio de ida e volta a Davos-Platz, através da neve. Todos eles participaram dela, Settembrini, Naphta, Hans Castorp, Ferge e Wehsal – todos ligeiramente febris, aturdidos e ao mesmo tempo excitados pela caminhada e pela discussão no frio glacial das alturas, e sem exceção sujeitos a calafrios. E fosse o seu papel preponderantemente ativo, como o de Naphta ou Settembrini, ou sobretudo receptivo, limitado a breves apartes, sentiam-se todos tomados de tão intenso zelo que, esquecidos de tudo, estacavam aqui e ali, formando um grupo absorto, gesticulante, de pessoas que falavam simultaneamente e obstruíam o caminho, sem se importar com os demais transeuntes, os quais tinham de contorná-los, a não ser que se detivessem também, aguçando o ouvido e escutando, pasmados, aquelas digressões extravagantes.

O ponto de partida da disputa era no fundo Karen Karstedt, a pobre Karen, com as pontas dos dedos corroídas, que acabava de falecer. Hans Castorp nada soubera da repentina piora e do exitus; do contrário não teria deixado de assistir, como bom camarada, ao seu enterro, tanto mais que gostava de funerais. Mas, devido à costumeira discrição, inteirara-se demasiado tarde do passamento de Karen, quando esta já se adaptara definitivamente à existência horizontal no jardim do anjinho de pedra, com o oblíquo boné de neve. Requiem aetemam... Hans Castorp dedicou à sua memória algumas palavras amistosas, o que induziu o Sr. Settembrini a zombar das atividades caritativas de Hans e das visitas que fizera a Leila Gerngross, ao comerciante Rotbein, à abarrotada Srª. Zimmermann, ao filho fanfarrão de Tous-les-deux e à torturada Natalie von Mallinckrodt. Retrospectivamente caçoou das flores caras com que o engenheiro homenageara essa ridícula e miserável cambada. Hans Castorp observou que os beneficiários das suas atenções, exceção feita, provavelmente, à Srª. von Mallinckrodt e ao adolescente Teddy, estavam efetivamente mortos, ao que Settembrini retrucou perguntando se esse fato, porventura, os fazia mais respeitáveis. – Mas existe uma coisa – tornou Hans Castorp – que se chama reverência cristã diante do infortúnio. – E antes que Settembrini tivesse ocasião de corrigi-lo, começou Naphta a falar de piedosos excessos de caridade que a Idade Média presenciara, de casos assombrosos de fanatismo e fervor, a que haviam conduzido os cuidados prestados aos doentes; filhas de reis tinham beijado as fedorentas chagas de lázaros, expondo-se voluntariamente ao contágio da lepra e chamando de rosas as úlceras assim contraídas; haviam bebido a água na qual acabavam de banhar enfermos purulentos, e declarado que nada no mundo lhes sabia melhor.

Settembrini fez menção de vomitar. Alegou que o estômago se lhe revolvia, menos por causa do asco físico que provocavam essas imagens e visões do que devido à loucura monstruosa que se documentava em tal concepção de filantropia ativa. Aprumando-se, voltou à sua antiga dignidade alegre, ao falar das formas modernas e progressistas da caridade humanitária e da repressão triunfal das epidemias. Aquelas atrocidades opôs a higiene, a reforma social e os grandes feitos da ciência médica.

– Esses produtos da probidade burguesa – replicou Naphta – teriam sido de pouca utilidade para os séculos a que o senhor se refere. Nenhuma das partes interessadas poderia ter lucrado com eles, nem os enfermos e os míseros, nem tampouco os felizes que se mostravam caridosos, não por compaixão, mas em prol da salvação da própria alma. Ora, uma reforma social coroada de êxito teria privado os afortunados do meio mais importante de que dispunham para justificar-se, e os outros, do seu estado sagrado. A manutenção constante da pobreza e da enfermidade realizou-se portanto no interesse de ambos os partidos, e esse conceito continuará sustentável enquanto for possível defender o ponto de vista puramente religioso.

– Um ponto de vista sórdido – declarou Settembrini e um conceito cuja imbecilidade quase não vale a pena combater. Pois a idéia do “estado sagrado”, bem como aquilo que o engenheiro, sem pensar independentemente, disse a respeito da “reverência cristã diante do infortúnio”, são mentiras, baseadas numa ilusão, numa simpatia errônea, num engano psicológico. A compaixão que uma pessoa sadia manifesta a um enfermo, levando-a até a veneração simplesmente por ser incapaz de imaginar como ela mesma suportaria tais sofrimentos

– essa compaixão é exagerada. O enfermo não tem direito a ela, que surge de um erro de raciocínio ou de imaginação, uma vez que o homem são atribui ao doente a sua própria maneira

de experimentar emoções, ideando que este seja, de certo modo, uma pessoa sadia que tenha de suportar os tormentos de um enfermo – o que é um equívoco crasso. O enfermo é justamente um enfermo, com a natureza particular e o modo de sentir modificado que a doença acarreta.

Esta prepara a sua vítima com o fim de adaptá-la a si própria. Há diminuições de sensibilidade, desfalecimentos, narcoses providenciais, medidas da natureza, no sentido do ajustamento e alívio morais e espirituais, fenômenos que o homem são, na sua ingenuidade, se esquece de levar em conta. O melhor exemplo, oferece-o toda essa súcia de tuberculosos aqui de cima, com a sua luxúria, sua estupidez, sua leviandade e sua falta de vontade de curar-se. Numa palavra, basta o compassivo e reverente homem sadio adoecer, para que note que a enfermidade o põe realmente num estado à parte, mas não num estado honroso, e que ele costuma levá-la excessivamente a sério.

A essa altura da controvérsia, Anton Karlowitch Ferge indignou-se, tomando a defesa do choque pleural contra aquela difamação e falta de respeito. Mas como? Seu choque pleural era levado excessivamente a sério? Impossível! O enorme pomo-de-adão e o jovial bigode subiam e desciam, enquanto ele se revoltava contra qualquer menosprezo dos sofrimentos por que passara naquela ocasião. Declarou ser apenas um homem simples, viajante de uma companhia de seguros, alheio a todas as coisas sublimes. A própria conversa de que estava participando ultrapassava de muito o seu horizonte. Mas, se Settembrini tencionava incluir o choque pleural no que acabava de dizer – esse inferno de cócegas, com o fedor de enxofre e as três síncopes de cores diferentes –, via-se na obrigação de protestar com toda a cortesia e humildade. Pois nesse caso não cabia falar de diminuições de sensibilidade, de narcoses providenciais e de erros de imaginação. Tratava-se, sim, da maior e mais horrível infâmia que existia sob o sol, e sem a ter experimentado não se podia imaginar a atrocidade que...

– Ora, ora, ora! – disse Settembrini. O colapso do Sr. Ferge ia ficando cada vez mais grandioso à proporção que o tempo passava. Chegava aos poucos a ser usado em torno da cabeça como uma auréola. Quanto a ele, Settembrini, fazia pouco-caso de enfermos que exigiam ser admirados. Ele próprio estava doente, e bastante; mas, sem a menor afetação, sentia-se antes inclinado a envergonhar-se disso. De resto, falava de um modo impessoal, filosófico, e o que acabava de observar sobre as diferenças entre o homem sadio e o enfermo, no que se referia à sua natureza e sua maneira de sentir, não era coisa sem pé nem cabeça. Que eles se lembrassem das doenças mentais, das alucinações, por exemplo. Se um dos seus interlocutores – o engenheiro ou o Sr. Wehsal – descobrisse essa noite, à hora do crepúsculo, num canto do quarto o seu falecido pai, que o olhasse e lhe dirigisse a palavra, seria isso, para a pessoa em apreço, uma experiência muitíssimo emocionante e perturbadora, que a faria duvidar dos seus sentidos e da sua razão e a induziria a sair imediatamente do quarto e a consultar um psiquiatra. Não era verdade? Mas o engraçado consistia precisamente no fato de essas coisas não poderem acontecer a nenhum deles, porque tinham o espírito são. Se, porventura, lhes ocorresse, já não estariam sãos, mas doentes, e não reagiriam como um homem sadio, quer dizer, espantando-se e fugindo, senão que aceitariam o fenômeno como se fosse perfeitamente normal, entabulando uma conversa com o espectro, como os alucinados costumavam fazer. E acreditar que a alucinação constituía para estes um motivo de espanto saudável era justamente o erro de imaginação que cometiam aqueles que não estavam enfermos.

O Sr. Settembrini falava de forma cômica e plástica do pai defunto no canto do aposento.

Ninguém pôde evitar o riso, nem sequer Ferge, apesar de sentir-se melindrado pelo desdém com que o humanista encarara a sua aventura infernal. Este, por sua vez, aproveitou-se da animação reinante para expor e defender pormenorizadamente a não-respeitabilidade dos alucinados e dos pazzi em geral. Essa gente disse – permitia-se, sem motivo justificável, muita coisa, e freqüentemente seria bem capaz de refrear a sua demência, como ele mesmo pudera verificar por ocasião de visitas que fizera a asilos de lunáticos. Quando um médico ou uma pessoa estranha aparecia no limiar da cela, o alucinado, na maioria das vezes, reprimia as suas caretas, seu falatório e sua gesticulação, e conduzia-se decentemente, durante todo o tempo que se sentia observado,

para logo depois relaxar de novo. Pois, em muitos casos, a loucura representava um relaxamento, uma vez que servia de refúgio a naturezas débeis e de medida de proteção contra golpes excessivamente graves do destino, que tais pessoas não se atreviam a suportar com lucidez. Mas todo mundo poderia alegar o mesmo, e ele, Settembrini, guiara à razão, pelo menos passageiramente, numerosos loucos, pela simples força do seu olhar, opondo a suas divagações uma atitude de lógica inexorável...

Naphta deu uma risada sardônica, ao passo que Hans Castorp afirmou crer literalmente em tudo quanto o Sr. Settembrini acabava de dizer. Imaginava como este, esboçando um sorriso sob o bigode, fitara o débil mental com intransigente lógica, e compreendia então perfeitamente por que o pobre-diabo se via forçado a conter-se e a fazer honra à lucidez, embora, provavelmente, considerasse a chegada do Sr. Settembrini uma importunação sobremodo desagradável... Mas também Naphta visitara hospícios de alienados. Recordava-se de ter passado pelo pavilhão dos “furiosos”, onde havia deparado com cenas e quadros perante os quais – Deus Nosso Senhor! – o olhar razoável e a influência corretiva do Sr. Settembrini dificilmente teriam logrado êxito. Cenas dantescas, quadros grotescos, cheios de horror e de tormento: os loucos desnudos, acocorados no banho contínuo, em todas as posições do terror de espírito e do estupor apavorado, alguns gritando de tanta desolação, outros com os braços erguidos e as bocas escancaradas, soltando gargalhadas nas quais se misturavam todos os ingredientes do inferno...

– Pois é! – disse o Sr. Ferge, tomando a liberdade de relembrar-lhes aquela risada que lhe escapara antes do colapso.

Numa palavra, a pedagogia inexorável do Sr. Settembrini teria falhado por completo em face das visões do pavilhão dos “furiosos”. O espanto brotado da reverência religiosa seria nesse caso uma reação mais humana do que aqueles raciocínios arrogantes e moralistas que o nosso iluminadíssimo cavaleiro rosacruz e vigário de Salomão se comprazia em opor à insânia.

Hans Castorp não teve tempo de refletir sobre os títulos que Naphta acabava de conferir a Settembrini. Apressadamente decidiu informar-se a esse respeito na primeira ocasião que se oferecesse. No momento, porém, o curso da conversa monopolizava-lhe a atenção, porque Naphta estava examinando com acrimônia as tendências gerais que determinavam o humanista a tributar, por princípio, todas as honras à saúde e a fazer o possível para aviltar e menosprezar a doença – ponto de vista que, na verdade, manifestava extraordinária e quase admirável renegação de si mesmo, uma vez que o próprio Sr. Settembrini estava enfermo. Mas a sua atitude que, apesar da dignidade impressionante, não deixava de ser redondamente errada, resultava de uma estima e de uma deferência em face do corpo que não se podiam justificar senão quando este ainda se encontrava no seu estado primordial, próximo de Deus, e não no da degradação, in statu degradationis. Criado imortal, tornara-se ele presa da perversidade e da corrupção, devido à depravação da natureza e por causa do pecado original; era mortal e putrescível e só podia ser considerado um cárcere ou calabouço, útil, quando muito, para despertar o senso do pudor e da confusão, pudoris et confusionis sensum, como dizia Santo Inácio.

Hans Castorp intrometeu-se dizendo que também o humanista Plotino dera expressão a esse mesmo senso. Mas o Sr. Settembrini, levantando a mão por cima da cabeça, pediu-lhe que não confundisse os conceitos e se limitasse a um papel receptivo.

Continuando nas suas deduções, Naphta derivou o respeito que a Idade Média cristã devotava à miséria do corpo da aprovação religiosa que demonstrava ante o aspecto do sofrimento da carne. Pois as chagas do corpo não somente tornavam manifesta a queda que lhe acontecera, mas também correspondiam, de modo edificante e religiosamente satisfatório, à perversidade venenosa da alma, enquanto a formosura do corpo era um fenômeno falaz, ofensivo à consciência, que era conveniente rejeitar mediante a mais profunda humilhação diante da enfermidade. Quis me liberabit de corpore mortis hujus? Quem me libertará do corpo desta morte?

Nessas palavras expressava-se a voz do espírito, que era para todos os tempos, a voz da verdadeira humanidade.

Nunca! Era uma voz das trevas, segundo a opinião que o Sr. Settembrini adiantou em palavras emocionadas; a voz de um mundo para o qual ainda não nascera o sol da razão e da humanidade. Sim, embora a sua própria pessoa física se achasse cheia de tóxicos, mantivera o seu espírito bastante sadio e livre de pestilência para enfrentar garbosamente o papista Naphta em matéria de corpo, e para expor a alma ao ridículo. Chegou até a glorificar o corpo humano como autêntico templo de Deus. A isso Naphta retrucou que esse tecido não era outra coisa senão o véu estendido entre nós e a eternidade; o que teve por conseqüência que Settembrini lhe proibiu de uma vez por todas servir-se da palavra “humanidade”; e assim por diante...

Com os rostos transidos de frio, sem chapéus, os pés protegidos por galochas, pisavam a superfície endurecida, rangente, polvilhada de cinzas, da camada de neve que aumentava a altura da calçada, ou abriam caminho através das massas porosas que enchiam a sarjeta; Settembrini estava abrigado num jaquetão de inverno, cuja gola e punhos de castor, puídos devido ao uso, pareciam como que sarnentos, mais que vestia com elegância; Naphta trajava um sobretudo preto, completamente fechado, que lhe ia até os pés e estava forrado de peles, das quais, porém, nada se via na parte exterior. Assim caminhavam, discutindo com apaixonado ardor todos aqueles princípios. Acontecia freqüentemente que, em vez de se dirigirem um ao outro, interpelavam Hans Castorp; cada qual lhe expunha e submetia o seu ponto de vista, limitando-se a designar o adversário com a cabeça ou o polegar. O jovem ia entre eles e voltava a cabeça para o respectivo interlocutor, aprovando ora este, ora aquele; às vezes estacava, com o corpo inclinado para trás, gesticulando com a mão agasalhada por uma luva de pelica forrada, e proferia uma opinião particular, naturalmente pouco valiosa. Enquanto isso, Ferge e Wehsal giravam em torno dos três, quer se mantendo à sua frente, quer ficando atrás, ou também avançando na mesma fila, até o tráfego interromper o alinhamento.

Sob a influência de apartes destes últimos, a conversa começou a ocupar-se de assuntos mais concretos. Em rápida seqüência, e sob crescente interesse de todos, foram tratados os problemas da incineração dos mortos, do castigo corporal, da tortura e da pena de morte. Foi Wehsal quem trouxe à baila o açoitamento e Hans Castorp achou que esse tema condizia com a índole do rapaz de Mannheim. Ninguém se surpreendeu quando o Sr. Settembrini, em palavras esmeradas, invocando a dignidade humana, investiu contra o emprego desse método brutal na pedagogia e além disso no direito penal. Tampouco causou surpresa o fato de Naphta falar a favor das bastonadas, e apenas a sinistra audácia com que o fazia provocou um leve espanto.

Segundo ele, era absurdo proferir, nesse caso, disparates acerca da dignidade humana, já que a nossa verdadeira dignidade se baseava no espírito e não na carne; e como a alma humana estivesse por demais inclinada a tirar do corpo toda a sua alegria de viver, os sofrimentos infligidos a este representavam um meio altamente recomendável para estragar o prazer que na alma despertavam as coisas sensuais; para separá-la da carne e reconduzi-la ao espírito, que dessa forma voltaria a dominar. Era pura tolice considerar o castigo corporal como particularmente humilhante. Santa Isabel foi fustigada, até sangrar, pelo seu confessor, Conrado de Marburgo, e como conta a lenda, isso “arrebatou-lhe a alma até o terceiro coro”; ela mesma vergastou uma pobre velha que estava muito sonolenta para se confessar. Era possível que alguém seriamente se atrevesse a qualificar de inumanas e bárbaras as flagelações a que se sujeitavam os membros de certas ordens ou seitas, e de um modo geral as pessoas de sentimentos mais profundos, a fim de fortalecer dentro de si o princípio do espírito? Ver um progresso real na abolição do açoitamento pelos países que se julgavam adiantados era uma opinião que apenas se tornava mais cômica pela inabalável firmeza com que costumava ser defendida.

– Bem, em todo caso deve-se admitir – opinou Hans Castorp – que, no antagonismo entre a carne e o espírito, é sem dúvida alguma a carne quem encarna (a carne encarna; ah, ah, essa é boa!) o princípio mau e diabólico. Pois o corpo pertence naturalmente à natureza (Que acham desta?), e a natureza, em oposição ao espírito e à razão, é intrinsecamente má, misticamente má, como eu poderia dizer, se quisesse ostentar minha cultura e meus conhecimentos. Partindo desse ponto de vista, é apenas lógico tratar o corpo de acordo com ele,

quer dizer, aplicar-lhe meios de castigo que também merecem ser designados como, misticamente maus. Se o Sr. Settembrini tivesse tido a seu lado Santa Isabel, quando a fraqueza do corpo o impediu de participar do congresso progressista em Barcelona, quem sabe...

Todos se riram, e como o humanista fizesse menção de protestar, Hans Castorp apressou-se a contar das sovas que ele mesmo levava em outros tempos.

– Nos primeiros anos do ginásio ainda existia o costume de ministrar esse castigo; havia palmatória, e embora os professores, por certas considerações sociais, se abstivessem de me pôr as mãos, apanhei certa vez uma surra de um condiscípulo mais forte, um rapagão robusto, que me bateu com uma vara flexível nas nádegas e nas barrigas das pernas, que estavam cobertas somente pelas meias. Aquilo doeu de maneira infame, pavorosa, inesquecível, realmente mística.

Entre soluços convulsivos, cheios de vergonha íntima, brotaram-me lágrimas de raiva, de humilhação e de desespero. – E Hans Castorp acrescentou ter lido que nas prisões os mais rudes assassinos choramingavam que nem criancinhas quando eram açoitados.

Enquanto o Sr. Settembrini escondia o rosto nas mãos revestidas de luvas de couro muito gasto, Naphta, com o sangue-frio de um estadista, perguntou como poderiam ser iluminados criminosos renitentes a não ser por meio do cavalete e do bastão, que eram perfeitamente adequados ao ambiente de uma casa de correção. Um cárcere humano era um meio-termo estético, um compromisso, e o Sr. Settembrini, apesar da sua bela eloqüência, no fundo nada entendia de beleza. No que dizia respeito à pedagogia, o conceito da dignidade humana defendido por aqueles que queriam excluir os castigos corporais tinha, segundo Naphta, a sua raiz no individualismo liberal da época burguesa e humanitária, no absolutismo esclarecido do Eu, que estava a ponto de extinguir-se e de dar lugar a idéias sociais menos efeminadas, que já se achavam iminentes, idéias de disciplina e de docilidade, de coação e de obediência, às quais era inerente uma sagrada crueldade, e que modificariam novamente a concepção da escarnação do nosso cadáver.

– Vem daí a célebre frase “Perinde ac cadaver” – chacoteou Settembrini. A isso, Naphta objetou que não era um crime de lesa-majestade administrar uma sova ao mesmo corpo que Deus destinara à horrorosa ignomínia da putrefação, para punir o nosso pecado. E assim começaram a falar da incineração dos mortos.

Settembrini fez o elogio desse processo: – Essa ignomínia pode ser remediada – disse alegremente. Considerações práticas e motivos idealistas determinavam a humanidade a acabar com ela. E o italiano declarou ter participado dos preparos de um congresso internacional para a cremação, que se reuniria provavelmente na Suécia. Projetava-se expor um crematório modelo, junto com um columbário, ambos construídos em conformidade com as experiências feitas até essa época. Era de prever que tal apresentação originaria sugestões e estímulos de vasto alcance.

Que método mais antiquado e obsoleto, esse de enterrar os mortos, dadas as condições da vida moderna! A extensão das cidades! A transferência dos chamados campos-santos para a periferia, em vista do espaço que exigiam! Os preços dos terrenos! O caráter prosaico que assumiam os funerais, devido à necessidade de se usarem os meios modernos de transporte! Sobre todas essas coisas, o Sr. Settembrini conseguiu fazer observações sensatas e incisivas. Motejou da figura do viúvo inconsolável que realizava todos os dias uma peregrinação à sepultura da saudosa defunta, para palestrar com ela no próprio local. Era necessário que um homem com essa mentalidade idílica dispusesse em abundância inexplicável do mais precioso bem da nossa vida, a saber: do tempo. Além disso, o intenso movimento que reinava nos cemitérios centrais das cidades modernas decerto o curaria desse sentimentalismo atávico. A destruição do cadáver pelo fogo –

quanto mais limpa, mais higiênica, mais digna e mesmo mais heróica não era essa visão, em confronto com o costume de abandoná-lo à lamentável decomposição e à assimilação executada por organismos inferiores! O próprio sentimento se conformava mais facilmente com esse processo novo que correspondia à necessidade de permanência, peculiar aos homens. O que sucumbia à ação do fogo eram as partes inconstantes do corpo, que já em vida estavam sujeitas ao metabolismo, ao passo que as outras, que menos participavam desse fenômeno e

acompanhavam o homem quase sem modificação, através da sua existência de adulto, eram também as que resistiam ao fogo e formavam as cinzas, com as quais os sobreviventes recolhiam aquilo que o falecido possuíra de imperecível.

– Que maravilha! – disse Naphta. Ah, essa era muito, mas muito boa! As cinzas como a parte imperecível do homem!

– Claro! – retorquiu o italiano. Naphta pretendia manter a humanidade na sua atitude irracional diante dos fatos biológicos. Persistia naquela fase de religião primitiva, para a qual a morte representava um bicho-papão, rodeado de tão misterioso terror que era impossível dirigir sobre ele o claro olhar da razão. Que barbárie! O espanto em face da morte remontava a épocas de um nível cultural extremamente baixo, nas quais a morte violenta fora a regra, e o cunho horripilante que a revestia por muito tempo se associara, no sentimento do homem, à idéia da morte em geral. Graças ao desenvolvimento da higiene e da consolidação da segurança pessoal, porém, a morte natural tornava-se comum, e ao trabalhador moderno a visão do repouso eterno, após o esgotamento normal das suas forças, absolutamente não se afigurava medonha, senão esperada e desejável. Não, a morte nada tinha de fantasma nem de mistério; era, sim, fenômeno inequívoco, racional, fisiologicamente necessário e simpático. Perder um tempo excessivo com a sua contemplação seria roubar à vida o que lhe cabe. Por isso tencionava-se combinar com aquele crematório modelo e o columbário, que era o “recinto da morte”, um “recinto da vida”, no qual se aliariam a arquitetura, a pintura, a escultura, a música e a poesia, no sentido de afastar o espírito dos sobreviventes do espetáculo da morte, do luto obtuso e da lamentação inativa, e de encaminhá-lo para os bens que a vida oferecia...

– O mais depressa possível – zombou Naphta. – Para que não se exceda no culto da morte e não vá demasiado longe na reverência tributada a um fato tão simples. Verdade é que sem esse fato não haveria arquitetura, nem pintura, nem escultura, nem música, nem poesia.

– Ele foge para as fileiras do exército – murmurou Hans Castorp, como que num sonho.

– A obscuridade da sua observação, meu caro engenheiro – respondeu-lhe Settembrini –, deixa transparecer o seu caráter censurável. É preciso que a experiência da morte seja, em última análise, a experiência da vida; do contrário, não passa de um espantalho.

– Serão empregados símbolos obscenos no “recinto da vida”, assim como se encontram em alguns sarcófagos antigos? – perguntou Hans Castorp seriamente.

– Em todo caso haverá alimentos fartos para os sentidos – declarou Naphta. – Esculpido em mármore e pintado a óleo, o corpo será exibido pelo gosto clássico; esse corpo pecaminoso que subtraem à podridão. Isso não pode surpreender, uma vez que, de tanto carinho, nem sequer se permite que o castiguem...

A essa altura da conversa, Wehsal interveio mencionando a tortura. Esse tema parecia exercer sobre ele uma atração particular. Que pensavam os amigos da confissão arrancada por meio de tormentos? Ele, Ferdinand, sempre gostara de aproveitar, por ocasião das suas viagens comerciais, as oportunidades para visitar, nos centros de cultura antiga, aqueles recantos quietos onde outrora se realizara esse tipo de exploração da consciência. Conhecia as câmaras de tortura de Nuremberg e de Ratisbona, que estudara de perto no interesse da sua formação intelectual.

Com efeito, por amor à alma o corpo fora ali submetido a um tratamento pouco delicado, empregando-se nisso processos muito engenhosos. E nem sequer houvera gritarias. A pêra, a famosa “pêra”, que não era nenhuma guloseima, costumava ser fincada na boca aberta, e logo reinava um silêncio absoluto, apesar da mais intensa atividade...

– Porcheria! – resmungou Settembrini.

Ferge observou que, sem menosprezar a pêra e a atividade silenciosa, não se inventara ainda nenhuma tortura mais infame do que a apalpação da pleura. Nem naqueles tempos poderiam ter imaginado coisa pior.

– Bem, fizeram isso para curá-lo – objetou Settembrini.

– A alma obstinada e a justiça ofendida – argumentou Naphta – justificam igualmente uma supressão passageira da misericórdia. Além disso, era a tortura um produto do progresso nacional.

O italiano duvidou de que Naphta estivesse em seu juízo perfeito.

Ah, sim, não divagava. O Sr. Settembrini era apenas um beletrista e, evidentemente, não estava familiarizado com a história do processo na Idade Média. Esta era de fato progressivamente racionalista, no sentido de ser Deus, aos poucos, eliminado da jurisprudência, em prol de ponderações baseadas na razão. Foi abolido o ordálio, porque haviam notado que o mais forte vencia, ainda que a justiça não se achasse a seu lado. Pessoas da mentalidade do Sr.

Settembrini, céticas e críticas, tinham feito essa observação e conseguido a substituição do antigo e ingênuo processo penal pela Inquisição, que já não se fiava na intervenção de Deus, senão que se empenhava em arrancar ao réu a confissão da verdade. Nenhuma condenação sem confissão!

Que consultassem a gente do povo: esse instinto estava profundamente arraigado. Por completa que fosse a cadeia das provas – a condenação era considerada injusta enquanto faltasse a confissão. Como obtê-la? Como descobrir a verdade, além dos meros indícios, além da simples suspeita? Como saber o que escondiam o coração e o cérebro de quem dissimulava a verdade, de quem se recusava a revelá-la? Quando o espírito se mostrava recalcitrante, não existia outro recurso senão o de apelar ao corpo, que era mais acessível. A tortura, como veículo da confissão indispensável, era imposta pela razão. Mas quem reclamara e introduzira o processo baseado na confissão era o Sr. Settembrini, e por conseg u i n t e cabia-lhe também a responsabilidade pela tortura.

O humanista pediu aos demais que não acreditassem em nada disso. Tratava-se de gracejos diabólicos. Se a teoria do Sr. Naphta fosse certa, se realmente a razão tivesse inventado aquela atrocidade, isso demonstraria, quando muito, o quanto necessitava ser escorada e esclarecida, e quão poucos motivos tinham os adoradores do instinto natural para recear que um dia as coisas se passassem na terra de um modo excessivamente razoável. No entanto, não havia dúvida de que o seu interlocutor se equivocara. Aquela monstruosidade jurídica não podia ser derivada da razão, porquanto os seus alicerces jaziam na crença no inferno. Que eles lançassem um olhar aos museus e às câmaras de tortura. Isso bastava para perceber que aqueles métodos de beliscar, esticar, tostar e apertar com parafusos manifestamente haviam brotado de uma imaginação pueril e obcecada, do desejo de imitar piedosamente o que acontecia nos lugares do castigo eterno, lá no além. Ainda se tencionara fazer, dessa forma, o bem do malfeitor. Supusera-se que a sua própria alma sofredora lutava pela confissão, e que só a carne, como princípio do mal, se opunha a essa boa vontade. De maneira que se pensara prestar um serviço caridoso ao subjugar a carne por meio de tormentos. Loucura de ascetas!...

Naphta quis saber se os antigos romanos tinham sofrido da mesma loucura.

– Os romanos? Ma che!

No entanto, também eles costumavam empregar a tortura como elemento processual.

Um impasse lógico... Hans Castorp procurou encontrar uma saída, trazendo à baila o problema da pena de morte, por sua própria iniciativa, como se lhe competisse imprimir outro rumo a uma discussão dessas. A tortura estava abolida, se bem que os juizes de instrução ainda usassem uma técnica parecida para amolecer os acusados. Mas a pena de morte parecia imortal, era indispensável. Os povos mais civilizados conservavam-na. Os franceses tinham feito péssimas experiências com o seu sistema de deportações. Simplesmente não havia o que fazer, na prática, com certas criaturas antropóides, a não ser cortar-lhes a cabeça.

Não se tratava aí de “criaturas antropóides” – corrigiu-o o italiano –, mas de homens como o engenheiro e como o próprio Settembrini. Apenas eram fracos de vontade, vítimas de uma sociedade mal organizada. E falou de um grande criminoso, várias vezes assassino, pertencente àquela espécie que os promotores públicos, nas suas acusações, costumam qualificar de “bestial”, ou de “feras com cara de homem”. Esse homem cobrira de versos as paredes da sua

cela, e os seus versos absolutamente não eram maus, eram mesmo muito melhores do que os que os promotores fabricam de vez em quando.

Isso lançava uma luz singular sobre a arte, segundo observou Naphta. Mas fora disso não havia nada de curioso nesse fato.

Hans Castorp havia esperado que Naphta advogasse a conservação do suplício. Opinou que este talvez fosse tão revolucionário quanto o Sr. Settembrini, mas o era no sentido conservador, como revolucionário do conservantismo.

Continuar: parte 3 de 4