A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 8 de 13 · parte 3/4

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A Montanha Mágica

Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Ora – sorriu o Sr. Settembrini, muito senhor de si —, o mundo passará por cima dessa revolução do retrocesso anti-humano. O Sr. Naphta prefere difamar a arte a admitir que ela confere a dignidade de homem até ao indivíduo mais depravado. Com um fanatismo desses não se pode conquistar a juventude ávida de luz. Acaba de ser fundada uma liga internacional com o objetivo da abolição da pena de morte em todos os países civilizados. Eu tenho a honra de fazer parte dela. Ainda não foi escolhido o lugar onde se realizará o seu primeiro congresso, mas a humanidade pode ter confiança em que os oradores que ali fizerem ouvir a sua voz hão de surgir munidos de argumentos. – E o humanista enumerou esses argumentos, entre eles sobretudo o da possibilidade sempre existente do erro judiciário, do “assassínio legal”, e o outro de que nunca se devia abandonar a esperança de ver o criminoso emendar-se. Citou até a sentença: “Minha é a vingança”, e também explicou que o Estado, desde que mais se empenhasse no aperfeiçoamento do homem do que na violência, não tinha direito de retribuir o mal pelo mal. Rejeitou a idéia da

“punição”, após ter combatido a da “culpa”, sobre a base de um determinismo científico.

A seguir, a “juventude ávida de luz” teve que presenciar como Naphta torcia o pescoço a cada um desses argumentos. Escarneceu da relutância de derramar sangue e do respeito à vida manifestados pelo filantropo. Afirmou que tal culto da vida individual provinha das épocas mais triviais da burguesia armada de guarda-chuva. Mas bastava que estivesse em jogo uma única idéia que ultrapassasse a da “segurança”, qualquer coisa superpessoal, superindividual – o que era o único estado digno do homem e portanto o estado normal, num sentido superior – e imediatamente a vida individual não só era sacrificada, sem titubear, à idéia superior, mas também oferecida espontaneamente pelo próprio indivíduo. A filantropia do senhor seu antagonista, acrescentou Naphta, esforçava-se por privar a vida de todos os seus acentos sombrios e mortalmente sérios; empenhava-se na castração da vida, inclusive por meio do determinismo da sua chamada ciência. Mas a verdade era que a idéia da culpa não podia ser abolida pelo determinismo, e, pelo contrário, tornava-se ainda mais grave e mais formidável graças a ele.

– Essa não é má! Será que o senhor exige que a desgraçada vítima da sociedade se sinta realmente culpada e se encaminhe ao cadafalso por convicção?

– Sim, senhor. O criminoso acha-se compenetrado da sua culpa como de si próprio. É tal como é e não quer ser diferente, e justamente nisso reside a culpa. – O Sr. Naphta transportou então a culpa e o mérito da esfera empírica para a esfera metafísica. Verdade era que no fazer e no agir reinava a determinação; ali não havia liberdade, mas esta existia onde se tratava do ser. O

homem era assim como queria ser e continuaria a querê-lo até o seu extermínio. Se assassinava, porque gostava disso “mais do que da vida”, não pagava um preço excessivo dando essa vida.

Que morresse, já que gozara a mais profunda volúpia.

– A mais profunda volúpia?

– Sim, senhor, a mais profunda de todas.

O outro crispou os lábios. Hans Castorp pigarreou de leve. Wehsal deixou cair o maxilar, enquanto o Sr. Ferge dava um suspiro. Settembrini observou com finura:

– Está se vendo que há uma maneira de generalizar que dá ao assunto um matiz pessoal.

O senhor teria vontade de matar?

– Isso não é da sua conta. Mas se o tivesse feito, garanto-lhe que me riria na cara dos ignorantes humanitários que se dispusessem a alimentar-me de lentilhas até o meu óbito natural.

Não há nenhum sentido no fato de o assassino sobreviver ao assassinado. Esses dois, sem a presença de mais ninguém, tão sozinhos como jamais o são duas criaturas a não ser numa

circunstância análoga, participam, um agindo e o outro sofrendo, de um segredo que os une para sempre. Seus destinos são inseparáveis.

Settembrini confessou displicentemente que carecia do órgão capaz de compreender tal misticismo da morte e do homicídio, e que não lamentava essa falta. Não tinha nada que objetar aos talentos religiosos do Sr. Naphta – indiscutivelmente superiores aos seus próprios —, mas fazia questão de declarar que não lhos invejava. Uma invencível necessidade de asseio mantinha-o distante de uma esfera onde aquela reverência diante do infortúnio, havia pouco mencionada pela juventude cúpida de experiências, reinava evidentemente não apenas no sentido físico, mas também no sentido espiritual; numa palavra: uma esfera onde a virtude, a razão e a saúde de nada valiam, ao passo que o vício e a enfermidade desfrutavam da mais alta estima.

Naphta confirmou que de fato a virtude e a saúde não constituíam estados religiosos. – É

de grande importância – acrescentou – deixar perfeitamente claro que a religião nada tem que ver com a razão e com a ética, uma vez que nada tem que ver com a vida. Esta se alicerça em condições e bases que pertencem em parte à teoria do conhecimento, em parte ao domínio da moral. As primeiras chamam-se tempo, espaço, causalidade; as segundas, moralidade e razão.

Todas essas coisas não são apenas estranhas e indiferentes à religião, mas até mesmo lhe são hostilmente antagônicas; pois precisamente elas é que formam a vida, a pretensa saúde, isto é, a maneira de ser inteiramente filistéia e o espírito cem por cento burguês, cuja antítese absoluta e genial é justamente o mundo religioso. Aliás, não quero negar que a esfera da vida possa produzir o gênio. Existe um modo de viver burguês de inegável probidade monumental, uma majestade de filisteu, que se pode julgar digna de reverência, desde que não se esqueça que ela, assim como se planta diante de nós, na sua dignidade quadrada, com as mãos nas costas e o peito saliente, representa a irreligiosidade personificada.

Hans Castorp levantou o dedo indicador como um escolar. Disse que não queria melindrar nenhum dos dois partidos. Mas uma vez que indubitavelmente estavam falando de progresso, do progresso da humanidade, e por conseguinte de política, da república da eloqüência e da civilização do Ocidente culto, gostaria de expressar a opinião de que a diferença, ou, se o Sr.

Naphta insistia nesse ponto, o antagonismo entre a vida e a religião tinha a sua origem no que existia entre o tempo e a eternidade. Pois o progresso realizava-se exclusivamente no tempo e não tinha lugar na eternidade, dando-se o mesmo com a política e a eloqüência. Ali, as pessoas apoiavam, por assim dizer, a cabeça no regaço de Deus e fechavam os olhos. E esta era, numa formação confusa, a diferença entre religião e moralidade.

Settembrini replicou que a sua maneira ingênua de exprimir-se era menos inquietante do que seu medo de ferir sentimentos alheios e sua tendência para fazer concessões ao Diabo.

Ora, no que tocava ao Diabo, o Sr. Settembrini, e ele, Hans Castorp, já haviam discutido fazia muito tempo. “O Satana, o ribellione!” Restava saber a que diabo acabava de fazer concessões.

Àquele da rebelião, da crítica e do trabalho, ou ao outro? Que impasse perigosíssimo: um diabo à direita, um diabo à esquerda. Como, em nome do Diabo, era possível escapar a ambos?

– Dessa forma – objetou Naphta – não se apresentava de maneira própria a situação, tal como o Sr. Settembrini desejava vê-la. O essencial, na sua concepção do universo, era que fazia de Deus e de Satã duas pessoas ou dois princípios diversos, colocando a vida entre eles, como objeto de disputa, aliás em conformidade completa com as idéias da Idade Média. Em realidade, porém, Deus e o Diabo eram uma e a mesma coisa, e ambos se opunham à vida, ao modo de viver burguês, à ética, à razão, à virtude, devido ao princípio religioso que juntos representavam.

– Que embrulhada asquerosa! Che guazzabuglio próprio stomachevole! – explodiu Settembrini.

– O bem e o mal, a santidade e a malvadez, tudo misturado! Sem discernimento, sem vontade!

Sem a capacidade de reprovar o que era reprovável! – Sabia o Sr. Naphta o que estava negando, ao confundir, em presença da juventude, Deus e Satã, e ao rejeitar o princípio ético em nome dessa execranda dualidade? Negava o valor, negava toda escala de valores – era espantoso dizê-lo!

Bem, nesse caso não existiam o bem e o mal, mas apenas o universo sem ordem moral.

Tampouco existia o indivíduo com a sua dignidade crítica, mas somente a coletividade absorvente e niveladora de tudo, e o ocaso místico no seu seio. O indivíduo...

Que coisa deliciosa ver o Sr. Settembrini tornar a considerar-se um individualista! Mas para sê-lo. era preciso conhecer a diferença entre a moralidade e a bem-aventurança, que esse cavalheiro iluminista e monista ignorava redondamente. Numa esfera onde se concebia a vida, de um modo estúpido, como tendo a sua finalidade em si própria, e não se procurava um fim e um objetivo que a ultrapassassem, reinava uma ética social, uma ética de espécie, uma moralidade de vertebrado, mas nada de individualismo. Este prosperava exclusivamente no terreno do religioso e do místico, no pretenso “universo sem ordem moral”. Que era, afinal, e que se propunha fazer a tal moralidade do Sr. Settembrini? Achava-se ligada à vida e por isso não ia além do útil. Era, portanto, despida de heroísmo num grau deveras lamentável. Servia para se chegar a ser velho, feliz, rico, sadio e nada mais. E essa mentalidade filistéia, baseada na razão e no trabalho, era para o Sr. Settembrini uma ética! Quanto a ele, Naphta, tomava a liberdade de qualificá-la de mísero modo de viver burguês. Settembrini exigiu do seu interlocutor que se moderasse. Mas a sua própria voz vibrava de paixão quando declarou ser insuportável que o Sr. Naphta falasse sem cessar do modo de viver burguês, Deus sabia por quê, num tom de aristocracia desdenhoso, como se o contrário – e ninguém ignorava o que era o contrário de viver – fosse qualquer coisa mais distinta.

Novos chavões, novas deixas! Dessa vez tinham chegado ao problema da distinção e à questão da aristocracia. Hans Castorp, rubro e exausto pelo frio e pela multiplicidade de assuntos, além disso inseguro quanto à inteligibilidade ou ao atrevimento febril da sua própria linguagem, confessou com os lábios quase inertes que sempre visionara a morte trajando uma golilha engomada à moda espanhola, ou pelo menos um uniforme um tanto menos solene que incluía um colarinho alto, ao passo que a vida usava um simples colarinho moderno... Mas ele mesmo, assustando-se diante dos devaneios ébrios e da inconveniência das suas palavras, apressou-se a afirmar que não era precisamente isso o que tencionava dizer. Queria, no entanto, saber se não existiam pessoas, certas criaturas humanas, que era impossível imaginar como mortas, justamente por serem por demais ordinárias. Isso significava que pareciam a tal ponto feitas para a vida que davam a impressão de ser incapazes de morrer e indignas de receber a consagração da morte.

O Sr. Settembrini expressou a esperança de que Hans Castorp dissesse essas coisas somente para encontrar oposição. O jovem sempre o acharia disposto a socorrê-lo quando se tratasse da defesa espiritual contra tais tentações. “Feito para a vida”, dissera ele, empregando essas palavras num sentido pejorativo. “Digno da vida!” Eis o termo de que convinha servir-se em seu lugar, e os conceitos logo se encadeariam em verdadeira e perfeita ordem. “Digno de viver” essa idéia conduzia imediatamente, por meio de uma associação fácil e natural, à outra,

“digno de amor”, idéia tão intimamente ligada à primeira, que se podia dizer que só era digno de verdadeiro amor o que era verdadeiramente digno de viver. O conjunto dessas duas qualidades –

digno de viver e digno de amor – exprimia o que se chamava distinção.

Hans Castorp achou essas deduções encantadoras e sobremodo interessantes. Disse que o Sr. Settembrini o conquistara por completo pela sua teoria plástica. Que se argumentasse como se quisesse – e havia certos argumentos, como, por exemplo, aquele que afirmava ser a doença uma forma de existência superior e ter por isso algo de solene –, mas uma coisa era certa, a saber: que a enfermidade acentuava em excesso o elemento corporal, que reduzia e restringia o homem inteiramente ao corpo e prejudicava dessa forma a sua dignidade a ponto de aniquilá-la, pelo fato de nos rebaixar ao estado de mera carne. A doença era portanto inumana.

– Pelo contrário, a doença é sumamente humana – retrucou Naphta em seguida. – E ser homem é ser doente. Em realidade, o homem é essencialmente um enfermo. O fato de ele estar doente é o que o torna homem, e aqueles que desejam curá-lo e induzi-lo a fazer as pazes com a natureza, a “voltar à natureza”, embora nunca tivesse sido natural, toda essa corja de regeneradores, de paladinos da alimentação crua, de vegetarianos, naturistas e helioterapeutas que se exibem hoje em dia à guisa de profetas, enfim, todos os adeptos de Rousseau não almejam

outra coisa a não ser desumanizar e embrutecer o homem... Estão falando de humanidade e de distinção. O homem é um ser nitidamente desprendido da natureza e sente-se no mais alto grau oposto a ela. O que o distingue de qualquer outra forma de vida orgânica é precisamente o espírito. Nele, isto é, na doença, baseia-se a dignidade do homem e a sua distinção. Numa palavra: ele é tanto mais homem quanto mais enfermo, e o gênio da enfermidade é mais humano do que o da saúde. É estranho ver como alguém que se finge de filantropo fecha os olhos diante destas verdades fundamentais da humanidade. O Sr. Settembrini preconiza o progresso. Como se o progresso, se é que existe uma coisa assim, não fosse devido exclusivamente à enfermidade, isto é, ao gênio, que, por sua vez, nada é senão doença! Como se os homens sadios não tivessem vivido, em todos os tempos, das conquistas feitas pelos doentes! Houve quem se abismasse consciente e voluntariamente nas regiões da doença e da loucura, a fim de adquirir para a humanidade conhecimentos suscetíveis de transformar-se em saúde, depois de serem ganhos pela insânia, e cuja posse e exploração, depois do sacrifício heróico, já não dependessem da enfermidade e da demência. Esta era a genuína morte na cruz...

“Ah!”, pensou Hans Castorp. “Vem à tona o jesuíta de idéias próprias, com suas combinações e sua maneira de interpretar a morte na cruz! Já se vê por que não chegou a ser padre, joli jésuite à la petite tache humide!” E dirigindo-se, intimamente, a Settembrini, acrescentou:

“Agora, leão, é a sua vez de rugir”. E este se pôs a “rugir”, declarando que tudo quanto Naphta acabava de sustentar não passava de miragens, rabularias e confusão feita para enganar o mundo.

– Diga! – lançou na cara do seu antagonista. – Diga-o sob a sua responsabilidade de educador, sustente sem rodeios, na presença dessa juventude em formação, que o espírito é enfermidade!

Sim, senhor, é com tais argumentos que os conduzirá ao espírito e lhes inspirará fé nele! E

declare ainda que a doença e a morte são nobres, ao passo que a saúde e a vida são vis, porque este é o método mais garantido para levar o educando a servir a humanidade! Davvero, è criminoso!

– E qual um cruzado saiu em defesa da distinção inerente à saúde e à vida, essa distinção que a natureza conferia, e que não precisava preocupar-se quanto ao espírito. Proclamou “a forma”, à qual Naphta, com altivez, opôs “o logos”. No entanto, aquele que nada queria saber do logos professava “a razão”, enquanto o paladino do logos defendia “a paixão”. Tudo isso era confuso. “O objeto”, dizia um, e o outro respondia: “O eu”. Por fim se puseram a falar, um de

“arte” e o outro de “crítica”. Mas sempre voltavam à “natureza” e ao “espírito”, discutindo qual dos dois era mais nobre e ventilando o “problema aristocrático”. Dessa contenda, entretanto, não resultou nem clareza nem ordem, nem sequer de caráter dualista e militante. Pois as posições não somente eram opostas, como também se confundiam. Os adversários, ao invés de se limitarem a combater-se reciprocamente, amiúde se contradiziam a si próprios. Settembrini muitas vezes dera vivas retóricos à crítica, e sem embargo punha-se agora a reivindicar as honras

do princípio nobre para o contrário dela, que, segundo ele, era a arte. Em outras ocasiões, Naphta surgira mais de uma vez como defensor do “instinto natural”, perante Settembrini, que tratara a natureza de “potência estúpida”, de mero “fato e fado”, diante dos quais a razão e o orgulho do homem não tinham direito de abdicar. A essa altura dos debates, porém, Naphta colocou-se ao lado do espírito e da “doença”, porque somente nesse campo se encontravam a distinção e a humanidade, ao passo que o italiano se arvorou em advogado da natureza e da sua nobreza sadia, sem pensar em emancipar-se dela. Não menor era a embrulhada no que dizia respeito ao objeto e ao eu. Nesse ponto, a confusão – que aliás para eles era sempre a mesma – parecia mais irremediável do que nunca, chegando a um ponto em que absolutamente não se sabia mais qual dos dois antagonistas era o homem piedoso e qual o livre-pensador. Naphta proibia a Settembrini, em termos severos, qualificar-se de “individualista”, já que negava a oposição entre Deus e a natureza, estabelecia como o problema do homem, como o seu conflito interior, unicamente a contenda entre os interesses individuais e coletivos, e portanto se aferrava a uma ética burguesa, ligada à vida considerada como, finalidade em si, uma ética desprovida de heroísmo, que visava ao útil e via a lei moral nos objetivos do Estado; ele, Naphta, por sua vez, sabia muito bem que o problema interno do homem tinha a sua raiz no antagonismo entre o real e o transcendental; por isso representava o verdadeiro individualismo, o individualismo místico, e era em realidade o campeão da liberdade e do “sujeito”. Mas, se era assim – pensou Hans Castorp

–, que seria feito então do “anonimato” e da “coletividade”, para salientar, a título de exemplo, uma única incoerência? Que acontecera com aquelas opiniões precisas que Naphta exteriorizara, durante o colóquio com o Padre Unterpertinger, quanto à “catolicidade” do filósofo oficial, Hegel, ao laço íntimo que ligava os conceitos “político” e “católico”, e à categoria do “objetivo”

que formavam juntos? A estadística e a educação – não tinham elas sempre formado o campo particular das atividades da ordem de Naphta? E que tipo de educação! O Sr. Settembrini, indiscutivelmente, era um pedagogo diligente, zeloso até as raias do importuno e do maçante; mas, com respeito à objetividade ascética, desprezadora do eu, os seus princípios nem de longe podiam arriscar-se a competir com os de Naphta. Mando absoluto! Disciplina de ferro! Coação!

Obediência! O terror! Tudo isso talvez tivesse o seu aspecto honroso, porém levava em pouquíssima consideração a dignidade crítica do indivíduo. Era o regulamento militar do prussiano Frederico e do espanhol Loyola, pio e austero até o sangue. Restava apenas uma única pergunta, a saber, como Naphta chegara a esse sanguinário absoluto, embora confessadamente não acreditasse em nenhum conhecimento puro e em nenhuma ciência incondicional; numa palavra: embora não acreditasse na verdade, naquela verdade objetiva, científica, cuja busca representava para Lodovico Settembrini a lei suprema de toda a moral humana. Nesse ponto, a piedade e a austeridade estavam ao lado do Sr. Settembrini, ao passo que parecia relaxado e licencioso o procedimento de Naphta, que subordinava a verdade ao homem e declarava que verdade era aquilo que mais convinha a este. Não se parecia essa maneira de fazer a verdade depender dos interesses do homem, com o modo de viver burguês e com a mentalidade utilitarista dos filisteus? Nisso não se manifestava propriamente aquela objetividade de ferro.

Havia nessas idéias muito mais liberdade e individualismo do que Leo Naphta estaria disposto a admitir – posto que elas tivessem um sentido “político” semelhante àquele de certa máxima de Settembrini, segundo a qual a liberdade era a lei do amor ao próximo. Saltava aos olhos que assim se ligava a liberdade ao homem, da mesma forma como Naphta o fazia com a verdade. Tal procedimento era decididamente mais ortodoxo do que liberal, mas também essa diferença ameaçava apagar-se no curso das definições. Ah, esse Sr. Settembrini! Havia boas razões para que ele fosse literato, sendo neto de um político e filho de um humanista. Magnanimamente preocupava-se com a crítica e com a beleza da emancipação e dirigia-se cantarolando às mocinhas que encontrava na rua. Enquanto isso, o pequeno e penetrante Naphta achava-se coibido por votos severos. E, não obstante, este era quase um devasso, tamanha a sua liberdade de pensamento, e aquele um puritano, sob certos aspectos. O Sr. Settembrini temia o “espírito absoluto” e queria a todo o transe identificar o espírito com o progresso democrático. Espantava-

se diante da libertinagem religiosa do militar Naphta, que misturava Deus e o Diabo, a santidade e a malvadez, o gênio e a doença, não reconhecendo nenhuma espécie de escala de valores, de julgamento racional e de vontade. Quem era, afinal de contas, o livre-pensador e quem o homem pio? Onde se achava a verdadeira posição, o genuíno estado do homem? Devia ele desfazer-se, de modo tão libertino quanto ascético, no seio da coletividade absorvente e niveladora de tudo, ou cumpria-lhe tomar o partido do “indivíduo crítico”, em cujo interior se debatia o conflito entre a estroinice e a austeridade virtuosa do burguês? Infelizmente, os princípios e os aspectos colidiam uma e outra vez; havia abundância de contradições íntimas, e era extremamente difícil para a responsabilidade de um civil não somente chegar a uma decisão em meio às divergências, como simplesmente manter os elementos da discussão separados numa forma clara e pura. A dificuldade era tamanha, que parecia tentadora a idéia de atirar-se de cabeça de encontro ao

“universo sem ordem moral” de que falara Naphta. Era a encruzilhada geral, o emaranhamento completo, a grande confusão, e Hans Castorp acreditava perceber que os adversários se teriam mostrado menos encarniçados se durante a sua querela essa confusão não lhes houvesse pesado sobre a alma.

Tinham subido juntos até o Berghof. A seguir, os três pensionistas haviam acompanhado os externos de volta, até defronte de sua casinha, e ali permaneceram ainda muito tempo de pé sobre a neve, enquanto Naphta e Settembrini se digladiavam – pedagogicamente, como Hans Castorp bem sabia, e no intuito de influenciar a formação da juventude ávida de luz. Para o Sr.

Ferge, todos esses assuntos eram por demais elevados, como repetidas vezes deu a entender, e Wehsal demonstrou pouco interesse desde que haviam deixado de falar de flagelações e torturas.

Hans Castorp, com a cabeça baixa, sulcava a neve com a ponta da bengala e refletia sobre a grande confusão.

Finalmente separaram-se. Era impossível conservarem-se eternamente de pé, e o colóquio não tinha limites. Os três pensionistas do Berghof tomaram novamente o rumo do seu domicílio, e os dois pedagogos rivais tiveram de entrar juntos na sua casinha, um para alcançar a sua cela forrada de sedas, e o outro para subir ao seu cubículo de humanista, com a papeleira e a garrafa de água. Hans Castorp, porém, encaminhou-se ao seu compartimento da sacada, com os ouvidos cheios do tumulto e do estrépito das armas dos dois exércitos que, avançando de Jerusalém e da Babilônia, sob as dos banderas, haviam-se entrechocado no alvoroço de uma batalha confusa.

Neve

Cinco vezes por dia manifestava-se em torno das sete mesas o descontentamento unânime com o tempo que o inverno ia oferecendo esse ano. Julgavam que ele não se desempenhava senão insuficientemente dos deveres de um inverno alpino, que estava longe de proporcionar os recursos meteorológicos aos quais a região devia a sua fama, na medida garantida pelo prospecto e na intensidade a que os veteranos estavam acostumados, e que os novatos haviam imaginado encontrar. Registrava-se um grave déficit de sol, de radiação solar, esse importante fator do tratamento, e sem o concurso do qual a cura indubitavelmente seria retardada... Pensasse o que pensasse o Sr. Settembrini quanto à sinceridade com que os hóspedes da montanha se empenhavam em recuperar a saúde e em regressar da “pátria” à planície – em todo caso reclamavam eles os seus direitos, reivindicavam o que se lhes devia pelo seu bom dinheiro ou por aquele com que seus pais ou seus maridos pagavam a sua estadia, e não cessavam de resmungar nas suas conversas à mesa, no elevador e no vestíbulo. Também a direção geral demonstrou estar plenamente inteirada da sua obrigação de remediar a falta e de indenizar os pensionistas. Foi adquirido um novo aparelho de “sol artificial”, porque os dois que o sanatório já possuía não bastavam para corresponder às necessidades dos pensionistas desejosos de bronzear a pele pelos raios ultravioleta, o que favorecia muito as garotas e as mulheres moças e dava ao mundo masculino, apesar da sua vida horizontal, a aparência de magníficos desportistas e conquistadores. E essa aparência trazia frutos reais: as mulheres, embora estivessem

perfeitamente a par da origem técnica e cosmética dessa virilidade, eram bastante tolas ou matreiras, bastante ávidas de miragens sensuais, para deixar-se embriagar por essa ilusão. – Meu Deus! – disse a Srª. Schönfeld, uma enferma ruiva, de olhos avermelhados, procedente de Berlim, quando, certa noite, encontrou no vestíbulo um cavalheiro de pernas compridas e peito encovado, que no seu cartão de visitas se apresentava como “aviateur diplomé et enseigne de la marine allemande”, fora submetido ao pneumotórax, vestia o smoking para o almoço e tirava-o para o jantar, afirmando que o regulamento da marinha o prescrevia assim. – Meu Deus! – repetiu ela, enquanto contemplava o enseigne com os olhos cúpidos. – Como ele está tostado pelos raios ultravioleta! Que maravilha! Parece um caçador de águias esse diabo!

– Cuidado, ondina! – murmurou ele ao seu ouvido, no elevador, e ela arrepiou-se toda. –

Você me pagará seus olhares sedutores! – E pelas sacadas, contornando as divisões de vidro, o diabo caçador de águias foi unir-se à ondina...

Contudo, faltava muito para que o sol artificial fosse considerado compensação satisfatória do saldo devedor de genuína luz solar que exibia o balanço desse ano. Dois ou três dias de sol puro por mês – dias que brilhavam, na verdade, sobremodo esplêndidos, com um profundíssimo azul de veludo atrás dos cumes alvos, com uma cintilação de diamantes, e com uma deliciosa ardência na nuca e na face dos homens, dias livres do confuso cinzento das brumas e dos véus espessos – dois ou três dias assim, no curso de semanas inteiras, eram muito pouco para a alma de pessoas cujo destino justificava exigências excepcionais em matéria de consolo, e que intimamente insistiam no cumprimento de um pacto que lhes assegurava, em troca da renúncia aos prazeres e às atribuições da humanidade dos países planos, uma existência inerte, sem dúvida, mas sumamente fácil e divertida, despreocupada até a abolição do tempo e favorecida sob todos os aspectos. Pouco adiantava que o conselheiro lhes chamasse à memória que, mesmo sob essas circunstâncias, a vida no Berghof estava longe de se parecer com um calabouço ou uma mina siberiana, e elogiasse o ar da região, tão leve e tão fino, semelhante ao éter vazio do universo, pobre em acréscimos terrestres, em elementos bons ou maus, esse ar que até na ausência do sol levava enormes vantagens sobre a fumaceira e as emanações da planície.

Apesar disso, generalizavam-se o mau humor e os protestos. Ameaças de partidas “em falso”

tornavam-se comuns, e acontecia mesmo que se realizassem, apesar de haver exemplos como o bem recente da melancólica volta da Srª. Salomon, cujo caso a princípio não era grave, embora demorado, mas que em conseqüência da estadia não autorizada na úmida e ventosa Amsterdam transformara-se em incurável...

Em lugar do sol, porém, veio a neve, enormes quantidades de neve, uma abundância tamanha como Hans Castorp nunca vira em toda a sua vida. O inverno anterior não deixara realmente nada a desejar a esse respeito; mas a sua produção fora exígua em comparação com a do ano em curso. O que este oferecia era monstruoso, desmesurado, e fazia a alma consciente da natureza excêntrica e aventureira dessa região. Nevava dia e noite, ora neve fininha, ora torvelinhos densos; caía neve sem cessar. Os poucos caminhos que estavam sendo mantidos em estado praticável pareciam desfiladeiros, com muralhas de neve mais altas do que um homem de ambos os lados. Exibiam superfícies lisas de alabastro, agradáveis à vista no seu esplendor granuloso e cristalino, e que serviam aos hóspedes da montanha para rabiscos, desenhos, e para transmissão de toda espécie de recados, brincadeiras e motejos. No entanto, mesmo entre essas muralhas caminhava-se sobre uma camada de neve bastante elevada, por profundas que fossem as escavações. Isso se notava nas partes fofas do solo e nos buracos em que o pé subitamente afundava, às vezes até o joelho. Era preciso andar com muito cuidado, para não quebrar, de repente, uma perna. Os bancos haviam desaparecido, submersos. Algum pedaço do espaldar emergia aqui ou ali da sepultura branca. Lá embaixo, na aldeia, o nível das ruas modificara-se tão estranhamente que as lojas tinham baixado do rés-do-chão ao subsolo, que se alcançava descendo da calçada, por degraus talhados na neve.

E continuava nevando sobre as massas já amontoadas, todos os dias, com a neve caindo mansinha e com um frio moderado de dez a quinze graus abaixo de zero, que não chegava a

congelar a medula da gente. Sentia-se pouco esse frio. Era como se não se registrassem mais dois ou cinco graus, uma vez que a calmaria e a secura do ar não permitiam que o frio cortasse. Pela manhã reinava muita obscuridade. Tomava-se o café sob o luar artificial dos lustres que pendiam do teto da sala com os arcos alegremente coloridos das abóbadas. Lá fora estendia-se o vácuo sombrio. O mundo estava embrulhado num algodão alvacento, que se comprimia de encontro às vidraças, e totalmente oculto pela neve e pela cerração. Desaparecera a cordilheira. O máximo que se divisava, de tempos em tempos, eram algumas das coníferas mais próximas; erguiam-se carregadas de neve e rapidamente se perdiam na bruma. De vez em quando um abeto, agitando-se, desembaraçava-se do excesso de carga e despejava uma poeira branca no ambiente gris. Pelas dez horas, o sol surgia por cima da montanha, qual uma fumarada vagamente luzente; era como se tencionasse dar uma vida débil e fantasmagórica, um tênue reflexo de realidade, à paisagem anulada e irreconhecível. Mas tudo permanecia diluído numa espectral delicadeza e palidez, sem contornos que os olhos pudessem traçar com segurança. As linhas dos picos confundiam-se, dissolviam-se na névoa, desapareciam na bruma. Os lençóis de neve, iluminados por uma luz lívida, estendendo-se uns ao lado e acima dos outros, guiavam o olhar ao nada. Às vezes, uma nuvem irradiada, fumacenta, pairava por muito tempo diante de um paredão rochoso, sem modificar a sua forma.

Por volta do meio-dia, o sol, penetrando parcialmente a neblina, costumava fazer um esforço de converter a bruma em azul. A tentativa, entretanto, ficava longe de se transformar em realidade. Mas havia momentos em que se vislumbravam traços do azul celeste, e a luz escassa bastava para fazer cintilar ao longe com reflexos diamantinos a paisagem estranhamente desfigurada pela aventura da neve. A essa hora, geralmente, cessava a nevada, como para permitir uma visão de conjunto dos resultados obtidos. Os raros e esparsos dias de sol pareciam servir à mesma finalidade. Descansavam então os torvelinhos, e o repentino calor celestial procurava derreter a superfície deliciosamente pura das massas de neve recém-caída. O aspecto do mundo era feérico, infantil e burlesco. Os espessos e macios almofadões que jaziam, como que afofados, sobre os galhos das árvores; as corcovas do solo, sob as quais se escondiam arbustos rasteiros ou rochas salientes; a aparência agachada, submersa, grotescamente mascarada, da paisagem – tudo isso originava um “ridículo” mundo de gnomos, que parecia ter saído de um livro de contos de fadas. Mas, ao passo que o cenário imediato, através do qual as pessoas se movimentavam laboriosamente, despertava idéias fantásticas e picarescas, eram de magnificência e de santidade as sensações que inspirava o fundo longínquo, com a alterosa estatuária dos Alpes envoltos em neve.

De tarde, das duas às quatro, Hans Castorp achava-se estendido no seu compartimento da sacada, e muito bem agasalhado, com a cabeça apoiada no espaldar nem baixo demais nem excessivamente alto da excelente espreguiçadeira, deixava os olhos vagar, por sobre o parapeito almofadado, em direção aos bosques e às montanhas. A plantação de pinheiros, verde-negra e carregada de neve, escalava as encostas, e entre as árvores o solo estava em toda parte coberto de neve, que se apresentava fofa como um coxim. Mais para cima levantava-se a serra rochosa, de um cinza esbranquiçado, com imensas áreas de neve, interrompidas aqui e ali por proeminentes penedos de cor mais escura, e com as cristas delicadamente veladas. Nevava silenciosamente. O

quadro ia-se tornando mais e mais borrado. O olhar, perdendo-se num vazio suave, passava facilmente para o cochilo. Um estremecimento acompanhava o instante da transição, mas depois não podia haver sono mais puro do que esse em meio ao frio glacial, sono sem sonhos, não afetado por qualquer reminiscência do peso da vida orgânica, uma vez que a respiração do ar rarefeito, inconsistente e inodoro, não era mais difícil para o corpo vivo do que a não-respiração para o morto. Na hora do despertar, a cordilheira sumira por completo atrás da bruma nevosa, e só por alguns momentos apontavam certos fragmentos dela, um pico aqui, uma rocha saliente ali, que logo tornavam a ocultar-se. Esse jogo silencioso de espectros era sumamente divertido.

Precisava-se muita atenção para acompanhar todas as fases dessa fantasmagoria de véus. Bravio e grandioso, desprendendo-se da cerração, exibia-se um grupo de penhascos, cujos cumes e bases

permaneciam invisíveis; mas o olhar que os abandonasse por um minuto apenas já não os tornaria a encontrar.

De quando em quando desencadeavam-se tempestades de neve que impossibilitavam absolutamente a permanência na sacada, porque o torvelinho branco, invadindo o compartimento em grandes quantidades, cobria tudo, tanto o chão como os móveis, com uma camada espessa. Sim, havia até tempestades nesse vale alto, cercado de montanhas. Tumultuava então a atmosfera inconsistente; os flocos pululavam nela com tamanha abundância que nada se enxergava a um passo de distância. Rajadas de um vigor sufocante imprimiam à neve um movimento selvagem, flutuante, oblíquo, arrastando-a de baixo para cima e fazendo-a remoinhar numa dança louca. Isso já não era nevada, era um caos de trevas alvas, uma monstruosidade, a extravagância fenomenal de uma região distante da zona temperada, onde somente os tentilhões brancos que de repente apareciam em enormes bandos eram capazes de sentir-se em casa e de orientar-se.

Não obstante, Hans Castorp amava aquela vida na neve. Achava-a, sob diversos aspectos, muito parecida com a vida à beira-mar. A monotonia primitiva da natureza era comum aos dois ambientes. A neve, aquele pó de neve, profundo, fofo, imaculado, desempenhava ali o mesmo papel que lá embaixo cabia à areia de brancura amarelada. O conluio com uma e outra era igualmente limpo. O pó seco e frio era sacudido dos sapatos e das roupas, como na planície os pulverizados detritos de conchas e pedras, oriundos do fundo do mar, sem que deixasse nenhum vestígio. Caminhar pela neve era laborioso, tal e qual um passeio pelas dunas, a não ser que as superfícies derretidas de dia pelo ardor do sol tivessem endurecido em virtude do frio da noite.

Então se andava ali mais ligeiro e mais agradavelmente do que sobre um assoalho, com a mesma facilidade e o mesmo prazer que sente quem passeia sobre a areia lisa, firme, úmida e elástica à beira-mar.

Esse ano, porém, trouxera consigo nevadas e quantidades de neve depositada que restringiam fortemente as possibilidades de exercícios ao ar livre, para todos, exceção feita nos esquiadores. Mourejavam os arados limpa-neves, mas só a muito custo conseguiam manter as veredas mais freqüentadas e a rua principal de Davos num estado de precária praticabilidade. Os poucos caminhos que continuavam abertos, e rapidamente acabavam em zonas intransitáveis, estavam abarrotados de pessoas sadias ou enfermas, nativas ou pertencentes à sociedade internacional dos hotéis. As pernas dos pedestres eram atropeladas pelos trenós que, gingando e jogando, precipitavam-se encosta abaixo, guiados por homens e mulheres que lançavam gritos de advertência, cujo tom patenteava o quanto essa gente, no seu veículo infantil, estava compenetrada da importância das suas atividades. Chegados embaixo, logo voltavam a subir, arrastando atrás de si, numa corda, o seu brinquedo da moda.

Hans Castorp estava mais do que farto desse tipo de passeio. Tinha dois desejos, entre os quais o mais forte era ficar a sós com seus pensamentos e sonhos. Para esse fim, o seu compartimento de sacada poderia bastar-lhe, embora de um modo superficial. O outro desejo, porém, que acompanhava o primeiro, fazia-o anelar vivamente um contato mais íntimo e mais livre com as montanhas assoladas pela neve, a qual o jovem começara a querer bem. Mas esse desejo era irrealizável, enquanto o peito que o abrigava pertencesse a um pedestre desprovido de asas e de instrumentos. Pois imediatamente mergulharia até o pescoço no elemento branco, se tentasse avançar além dos caminhos habituais, abertos com a pá, e cujo fim se alcançava depressa em toda parte.

Assim, aconteceu, um belo dia desse segundo inverno que Hans Castorp passava ali em cima, que o jovem decidiu comprar um par de esquis e aprender a servir-se deles, na medida que o exigiam as suas necessidades reais. Não era desportista; nunca o fora, por falta de uma mentalidade preocupada com a educação física, e tampouco fingia sê-lo, à maneira de certos pensionistas do Berghof que, para corresponder à moda e ao espírito do lugar, fantasiavam-se excentricamente. Sobretudo as mulheres faziam isso; Hermine Kleefeld, por exemplo, que, embora a respiração insuficiente lhe tingisse de um constante azul a ponta do nariz e os lábios,

gostava de aparecer, à hora do lanche, trajando calças de lã, e depois da refeição costumava refestelar-se assim numa das poltronas de vime do vestíbulo, abrindo as pernas de modo bastante inconveniente. Se Hans Castorp tivesse solicitado a autorização do conselheiro para o seu extravagante intento, decerto teria recebido uma resposta negativa. Atividades desportivas estavam rigorosamente proibidas à comunidade de enfermos, tanto no Berghof como em outros lugares, nos estabelecimentos do mesmo gênero. Pois aquela mesma atmosfera que aparentemente era aspirada com muita facilidade exigia dos músculos cardíacos esforços violentos, e no que dizia respeito à pessoa de Hans Castorp, continuava em pleno vigor a sua atilada frase sobre “o hábito de não se habituar”. A tendência febril que Radamanto atribuía a uma mancha úmida persistia obstinadamente. Não fosse ela, que é que Hans Castorp ia fazer ali em cima? Seu desejo e seu projeto eram, portanto, incoerentes e ilícitos. Mas convém procurar compreendê-lo. Hans Castorp não estava aguilhoado pela ambição de igualar-se aos almofadinhas do ar livre e aos pseudodesportistas que, se a moda o mandasse assim, jogariam cartas numa sala abafada com o mesmo zelo ardoroso. Sentia-se estreitamente ligado a uma outra comunidade, menos livre do que a pequena comunidade dos turistas. Sob um ponto de vista mais amplo e mais novo, devido a certo senso de dignidade, que o distanciava dos demais, e a consciência das suas obrigações, que lhe restringia os planos, tinha a impressão de que não lhe cabia brincar nas alturas como aquela gente e rolar pela neve feito um louco. Não tencionava realizar escapadas; propunha-se proceder com moderação, e Radamanto bem poderia permitir-lhe o que desejava fazer. Mas Hans Castorp previa que o médico, em nome do regulamento do sanatório, não deixaria de vetar a realização do intento, e por isso decidiu agir à revelia dele. Numa oportunidade, comunicou o seu projeto ao Sr. Settembrini. Este quase o abraçou de tanta alegria.

– Sim, senhor! Claro! Faça isso, engenheiro, por amor de Deus! Não consulte ninguém e faça-o.

Foi o anjo da guarda quem lhe deu essa idéia. Faça-o imediatamente, antes de perder a vontade saudável! Irei com o senhor, vou acompanhá-lo até a loja, e juntos adquiriremos sem demora esses abençoados utensílios! Gostaria até de acompanhá-lo através das montanhas, de correr a seu lado, com os esquis alados nos pés, como Mercúrio, mas não me é permitido... Ora, permitido! Se apenas se tratasse da “permissão”, pouco me importaria, mas não posso, porque sou um homem perdido. Mas o senhor... Isso não lhe fará mal nenhum, absolutamente, desde que se mostre prudente e não abuse. Tolice, mesmo que lhe fizesse um pouquinho de mal, seria ainda o seu anjo da guarda quem... Não quero dizer mais nada. Que plano excelente! Encontra-se aqui faz dois anos e ainda é capaz de ter idéias assim! Sim, senhor, sua natureza íntima é boa. Não temos motivos para desespero. Bravos, bravos! O senhor pregará uma peça ao príncipe das trevas. Compre os esquis e mande-os para minha casa, ou para Lukacek, ou para o merceeiro que mora embaixo. Ali pode buscá-los, quando quiser exercitar-se e deslizar sobre a neve...

E assim foi feito. Sob os olhos do Sr. Settembrini, que se fingia de crítico perito, embora nada entendesse de esportes, Hans Castorp adquiriu, numa loja especializada da rua principal, um par de bonitos esquis, de boa madeira de freixo, lustrados com verniz castanho-claro e providos de magníficas correias e de pontas levantadas. Também comprou os necessários bastões de pontas de ferro e munidos de pequenas rodas, e fez questão de levar tudo isso nos seus próprios ombros até o domicílio de Settembrini, onde não teve dificuldade em combinar com o merceeiro as condições do depósito dos utensílios. Pela observação freqüente de outros esquiadores inteirara-se do modo de usar os esquis, o bastante para que, longe das multidões reunidas nos campos de exercício, começasse sozinho a dar os primeiros e malsucedidos passos numa encosta quase despida de árvores e situada nas proximidades do Sanatório Berghof. De vez em quando, o Sr. Settembrini ia assistir às suas tentativas, de alguma distância, apoiando-se na bengala, com as pernas graciosamente cruzadas, e premiando com brados de elogio a progressiva habilidade do jovem. Tudo se passou sem incidentes, mesmo aquele momento em que Hans Castorp, ao descer pela curva da estrada aberta a pá, na intenção de encaminhar-se à “aldeia” e de deixar os esquis na casa do merceeiro, encontrou-se com o conselheiro. Behrens não o reconheceu, embora isso se

desse em pleno meio-dia e o principiante quase se chocasse com ele; passou pelo jovem, envolvendo-se numa nuvem de fumaça de charuto.

Hans Castorp verificou que depressa adquire uma técnica quem a necessita intimamente.

Não tinha pretensões de perícia. O que precisava, podia aprendê-lo em poucos dias, sem se esfalfar nem perder o fôlego. Tratava de manter os pés juntos e de traçar sulcos paralelos; experimentava dirigir-se por meio dos bastões, durante as descidas; aprendia a franquear obstáculos e pequenos acidentes do terreno, num só arranco, com os braços abertos, elevando-se e mergulhando como um navio no mar agitado. Após a vigésima tentativa já não caía, quando, em plena corrida, freava com o auxílio do telemark, avançando uma das pernas e curvando o joelho da outra. Aos poucos foi ampliando os seus exercícios. Um belo dia, o Sr. Settembrini viu-o desaparecer nas brumas alvacentas. Com as mãos em concha à guisa de alto-falante, enviou-lhe algumas palavras de advertência, depois do quê foi para casa, pedagogicamente satisfeito.

Era linda a paisagem da montanha hibernal – linda não de um modo suave e agradável, senão assim como o é o ermo do mar do Norte nos dias de um forte vento oeste. Não havia na verdade estrondo de trovões; pelo contrário, reinava um silêncio de morte, que no entanto despertava os mesmos sentimentos de reverência. As solas compridas, elásticas, de Hans Castorp levavam-no em muitas direções, ao longo da encosta esquerda, rumo a Clavadel, ou à direita, passando por Frauenkirch e Glaris, por trás das quais os sombrios contornos do maciço de Amselfluh surgiam nas brumas, qual um fantasma. Entrou também no vale de Dischma e, subindo pelos fundos do Berghof, tomou a direção do arborizado monte Seehorn, do qual apenas o cume envolto em neve ultrapassava o limite da vegetação, e da floresta de Drusatscha, por trás da qual se enxergava a pálida silhueta da cordilheira Rética, revestida de espessa camada de neve. Por meio do teleférico, transportou-se com seus esquis até Schatzalp, onde, erguido a dois mil metros de altura, pôs-se a vaguear calmamente através da neve poeirenta, por sobre faiscantes planos inclinados, que em dias claros ofereciam uma vista grandiosa do campo das suas aventuras.

Continuar: parte 4 de 4