A mulher do viajante no tempo
Comer ou Ser Comido
Sábado, 30 de novembro de 1991 (Henry tem 28 anos, Clare, 20)
HENRY: Clare me convidou para jantar em seu apartamento. Charisse, que mora com Clare, e Gomez, o namorado de Charisse, também vão jantar. Às 18h59, estou na portaria de Clare, vestido com minha melhor roupa, com o dedo no interfone, um buquê de frésias amarelas e um Cabernet australiano no outro braço, e o coração na boca. Nunca estive na casa de Clare, nem conheço os amigos dela. Não tenho ideia do que esperar.
O interfone faz um barulho horrível e abro a porta.
— Pode subir até o fim! — berra uma voz grave de homem. Subo quatro lances de escada. O dono da voz é um sujeito alto e louro, com o topete mais impecável do mundo. Usa uma camiseta do Solidariedade e fuma cigarro. Ele parece familiar, mas não consigo me lembrar de onde o conheço. Para uma pessoa chamada Gomez, ele tem um aspecto muito... polonês. Descubro depois que seu nome verdadeiro é Jan Gomolinski.
— Seja bem-vindo, Bibliotecário — diz Gomez em alto e bom som.
— Camarada! — retruco, e entrego as flores e o vinho para ele. A gente se encara até chegar a uma détente, e, com um gesto, Gomez me deixa entrar no apartamento.
É um daqueles maravilhosos apartamentos intermináveis dos anos 20 — um corredor comprido que dá para vários cômodos construídos aparentemente ao acaso. Duas estéticas convivem aqui: a moderninha e a vitoriana. Dá para ver pelo desfile de cadeiras de assentos bordados com pernas entalhadas ao lado de quadros de veludo do Elvis. Ouço I Got It Bad and That Ain’t Good, de Duke Ellington, tocando no fim do corredor, e Gomez me conduz naquela direção.
Clare e Charisse estão na cozinha.
— Minhas gatinhas, trouxe um brinquedo novo para vocês — entoa Gomez. — Ele atende pelo nome de Henry, mas podem chamá-lo de Bibliotecário. — Meus olhos encontram os de Clare. Ela dá de ombros e oferece o rosto para ser beijada; atendo com um estalinho comportado e me viro para apertar a mão de Charisse, que é baixinha e rechonchuda de uma forma muito simpática, toda curvas e cabeleira preta comprida. Sua cara é tão boa que me dá vontade de contar um segredo só para ver sua reação. Ela é uma pequena madona filipina. Num tom doce de quem diz Não Se Meta Comigo, ela fala:
— Ah, Gomez, cale a boca. Oi, Henry. Sou Charisse Bonavant. Por favor, não dê bola para ele. Só mantenho o Gomez por perto para carregar peso.
— E para sexo. Não esqueça do sexo — lembra Gomez. Ele olha para mim. — Cerveja?
— Claro. — Ele procura na geladeira e me entrega uma Blatz. Abro a garrafa e dou um longo gole. Pela cara da cozinha, é como se uma padaria tivesse explodido lá dentro. Clare vê a direção do meu olhar. De repente me lembro de que ela não sabe cozinhar.
— É uma obra em andamento — diz Clare.
— É uma instalação — diz Charisse.
— É de comer? — pergunta Gomez.
Olho para cada um dos três, e todos caímos na gargalhada.
— Algum de vocês sabe cozinhar?
— Não.
— Gomez sabe fazer arroz.
— Só instantâneo.
— Clare sabe pedir pizza.
— E comida tailandesa... eu também sei pedir comida tailandesa.
— Charisse sabe comer.
— Cala a boca, Gomez — falam Charisse e Clare em uníssono.
— Bom... isso aí era para ser o quê? — pergunto, indicando com a cabeça o desastre na bancada. Clare me entrega um recorte de revista. É uma receita de Frango com Risoto de Shiitake com Abóbora de Inverno e Molho de Pinhão. É da revista Gourmand e leva uns vinte ingredientes. — Vocês têm isso tudo?
Clare faz que sim com a cabeça.
— A parte das compras, eu sei fazer. É a montagem que complica.
Examino mais de perto o caos.
— Dá para fazer algo disso aqui.
— Você sabe cozinhar?
Faço que sim com a cabeça.
— O brinquedo sabe cozinhar! O jantar está salvo! Tome mais uma cerveja! — Exclama Gomez. Charisse parece aliviada e me dá um sorriso efusivo. Clare, que estava recuada, quase numa atitude de medo, chega de mansinho até mim e murmura:
— Você não está chateado? — Dou um beijo em Clare, um beijo um pouquinho mais demorado do que é de bom-tom na frente dos outros. Ajeito as costas, tiro o paletó e arregaço as mangas.
— Me dê um avental — exijo. — Você, Gomez, abra aquele vinho. Clare, limpe essa sujeira toda, está virando cimento. Charisse, quer pôr a mesa?
Uma hora e 43 minutos depois, estamos sentados ao redor da mesa da sala de jantar comendo Frango Cozido com Risoto e Purê de Abóbora. Tudo tem manteiga à beça. Estamos caindo de bêbados.
CLARE: Enquanto Henry prepara o jantar, Gomez está o tempo todo na cozinha fazendo piadas, fumando e bebendo cerveja. Sempre que não tem ninguém olhando, faz caretas para mim. Finalmente, ele para ao ser flagrado por Charisse, que passa o dedo pela garganta. Ficamos conversando sobre as coisas mais banais: nosso trabalho, o estudo, onde fomos criados, e todos os assuntos normais de um papo entre pessoas que se conhecem pela primeira vez. Gomez conta a Henry sobre seu trabalho como advogado, representando crianças molestadas e abandonadas, que estão sob a tutela do Estado. Charisse nos diverte com seus feitos na Lusus Naturae, uma minúscula companhia de software que está tentando fazer o computador entender comandos de voz, e fala sobre sua arte, que é fazer quadros para serem vistos no computador. Henry conta histórias da Biblioteca Newberry e das pessoas estranhas que vêm estudar os livros.
— A Newberry tem mesmo um livro feito de pele humana? — pergunta Charisse a Henry.
— Tem. As Crônicas de Nawat Wuzeer Hyderabed. Foi encontrado no palácio do rei de Déli em 1857. Passe lá uma hora qualquer e eu retiro esse livro para você.
Charisse sente um calafrio e dá um riso forçado. Henry está mexendo o frango cozido. Quando diz “Hora do rango”, vamos todos para a mesa. Esse tempo todo, Gomez e Henry ficaram bebendo cerveja, enquanto Charisse e eu tomávamos vinho. Ninguém estava comendo muito. Gomez não parava de encher nossos copos, mas só percebi o nosso nível de embriaguez quando eu quase sento fora da cadeira que o Henry puxou para mim, e Gomez quase põe fogo no próprio cabelo ao acender as velas.
Gomez ergue o copo.
— À Revolução!
Charisse e eu erguemos nossos copos e Henry faz o mesmo.
— À Revolução!
Começamos a comer com entusiasmo. O risoto desce bem e tem um sabor agradável, a abóbora está doce, o frango nada em manteiga. Está de chorar de tão bom.
Henry come um bocado, então aponta o garfo para Gomez.
— Que revolução?
— Como?
— A que revolução estamos brindando? — Charisse e eu nos entreolhamos preocupadas, mas é tarde demais.
Gomez sorri e eu desanimo.
— À próxima.
— Aquela em que o proletariado se revolta, os ricos são comidos e o capitalismo é derrotado em favor de uma sociedade sem classes?
— Essa mesma.
Henry pisca para mim.
— Parece que a coisa vai ficar difícil para a Clare. E o que você está planejando fazer com a intelligentsia?
— Ah — diz Gomez —, provavelmente vai virar comida, também. Mas vamos manter você por perto, como cozinheiro. Essa boia está incrível.
Charisse toca o braço de Henry, falando em tom de segredo.
— Não vamos comer ninguém de verdade — diz. — Só vamos redistribuir os bens das pessoas.
— Que alívio — responde Henry. — Eu não estava a fim de cozinhar a Clare.
— Mas é uma pena — Gomez diz. — Tenho certeza de que a Clare é muito gostosa.
— Imagino como é a culinária canibal — digo. — Existe livro de receitas canibais?
— O Cru e o Cozido — diz Charisse.
Henry protesta.
— Esse não é propriamente um manual de cozinha. Acho que Lévi-Strauss não dá nenhuma receita.
— A gente podia simplesmente adaptar uma — diz Gomez, pegando mais uma porção de frango. — Sabe, Clare com Funghi Porcini e Molho Marinara com Linguini. Ou Peito de Clare à l’Orange. Ou...
— Ei — digo. — E se eu não quiser ser comida?
— Sinto muito, Clare — diz Gomez num tom sério. — Receio que você tenha que ser comida pelo bem maior.
Henry capta o meu olhar e sorri.
— Não se preocupe, Clare. Eu escondo você na Newberry quando a Revolução chegar. Pode morar na sala das estantes e eu alimento você de Snickers e Doritos do Refeitório dos Funcionários. Nunca vão te encontrar.
Balanço a cabeça.
— Que tal “Primeiro, matamos todos os advogados?”.
— Não — diz Gomez. — Não se pode fazer nada sem advogado. A Revolução meteria os pés pelas mãos em dez minutos sem os advogados para mantê-la na linha.
— Mas meu pai é advogado — digo para Gomez —, então vocês não podem comer a gente afinal de contas.
— Ele é o tipo errado de advogado — diz Gomez. — Constrói fortunas para gente rica. Eu, por outro lado, represento as crianças pobres e oprimidas...
— Ah, cale a boca, Gomez — diz Charisse. — Está ferindo os sentimentos da Clare.
— Não estou! Clare quer ser comida para a Revolução, não, Clare?
— Não!
— Ah.
— E o Imperativo Categórico? — pergunta Henry.
— O que é que tem?
— Você sabe, a Lei de Ouro. Não coma o outro a menos que esteja disposto a aceitar ser comido.
Gomez limpa as unhas com os dentes do garfo.
— Não acha que o que realmente faz o mundo girar é Comer ou Ser Comido?
— Sim, de um modo geral. Mas você mesmo não é um exemplo claro de altruísmo? — pergunta Henry.
— Claro, mas sou conhecido por ser um louco perigoso. — Gomez diz isso com falsa indiferença, mas vejo que está intrigado com Henry. — Clare — diz —, e a sobremesa?
— Meu Deus, quase esqueci — digo, levantando depressa e agarrando a mesa para me apoiar. — Vou pegar.
— Vou te ajudar — diz Gomez, indo atrás de mim para a cozinha. Estou de salto alto, e ao entrar na cozinha, tropeço na soleira da porta. Quase caio, mas Gomez me segura. Por um momento, ficamos encostados um no outro com as mãos dele em minha cintura, mas ele me larga. — Você está bêbada, Clare — Gomez me diz.
— Eu sei. Você também. — Aperto o botão da cafeteira elétrica e o café começa a pingar no bule. Fico encostada na bancada, tirando com cuidado o celofane da bandeja de brownies. Gomez está bem atrás de mim e diz muito baixinho, tão perto que sua respiração faz cócegas em minha orelha: — Ele é o mesmo cara.
— Como?
— Aquele cara sobre quem eu te avisei. Henry, ele é o cara...
Charisse entra na cozinha, e Gomez se afasta de mim dando um pulo e abrindo a geladeira.
— Ei — ela diz. — Posso ajudar?
— Aqui, pegue as xícaras de café... — Fazendo malabarismos com xícaras, pires, pratos e brownies, conseguimos chegar a salvo de volta à mesa. Henry aguarda como se estivesse no dentista, com uma cara paciente e apavorada. Eu rio, pois é a mesma expressão que tinha quando eu levava comida para ele no Campo... mas ele não se lembra porque ainda não esteve lá. — Relaxe — digo. — São só uns brownies. Até eu sei fazer brownie. — Todo mundo ri e se senta. Acaba que os brownies não estão bem assados.
— Tartare de brownie — diz Charisse.
— Caramelo de salmonela — fala Gomez.
— Sempre gostei de massa — Henry diz e lambe os dedos. Gomez enrola um cigarro, acende e dá uma longa tragada.
HENRY: Gomez acende um cigarro e recosta na cadeira. Esse cara tem alguma coisa que me irrita. Talvez seja o ar casual de posse em relação a Clare, ou quem sabe o marxismo de botequim? Tenho certeza de que já o vi antes. No passado ou no futuro? Vamos descobrir.
— Sua fisionomia não me é estranha — digo para Gomez.
— Mmm? É, acho que a gente já se viu por aí.
Já sei.
— Iggy Pop, no Teatro Riviera.
Ele fica espantado.
— É. Você estava com aquela loura, Ingrid Carmichel, com quem eu sempre via você. — Gomez e eu olhamos para Clare. Ela encara Gomez seriamente, e ele sorri para ela. Clare olha para o outro lado, mas não para mim.
Charisse vem salvar a situação.
— Você viu o Iggy sem mim?
— Você não estava na cidade — Gomez diz.
Charisse faz cara de chateada.
— Eu perco tudo — me diz. — Perdi a Patti Smith e agora ela se aposentou. Perdi os Talking Heads na última turnê que fizeram.
— A Patti Smith vai fazer outra turnê — digo.
— Vai? Como sabe? — pergunta Charisse. Clare e eu nos entreolhamos.
— Só estou adivinhando — digo para Charisse. Começamos a explorar os gostos musicais uns dos outros e descubro que somos todos fiéis ao punk. Gomez conta que viu o New York Dolls na Flórida logo antes do Johnny Thunders deixar a banda. Descrevo um show da Lene Lovich que consegui ver em uma das minhas viagens no tempo. Charisse e Clare estão empolgadas porque o Violent Femmes vai tocar no Aragon Ballroom daqui a umas semanas e Charisse conseguiu ingressos de graça. A noite chega ao fim sem maiores problemas. Clare me acompanha até lá embaixo. Ficamos parados no hall entre a porta externa e a interna.
— Sinto muito — diz.
— Ah, que bobagem. Foi divertido, não me importei de cozinhar.
— Não — diz Clare, olhando para baixo —, sinto muito pelo Gomez.
Está frio no hall. Abraço Clare e ela se encosta em mim.
— O que tem o Gomez? — pergunto. Ela está pensando em alguma coisa. Mas aí dá de ombros.
— Vai dar certo — diz, e aceito a sua palavra. A gente se beija. Abro a porta externa, e Clare abre a interna; caminho pela calçada e olho para trás. Clare ainda está ali parada na porta entreaberta me olhando. Fico parado, querendo voltar, dar um abraço e subir com ela. Ela vira e começa a subir, e fico olhando até ela sumir de vista.
Sábado, 14 de dezembro de 1991/Terça-feira, 9 de maio de 2000
(Henry tem 36 anos)
HENRY: Estou caindo de porrada em cima de um mauricinho grande e bêbado que teve o desplante de me chamar de bicha e depois tentou me bater para provar seu ponto de vista. Estamos no beco ao lado do Teatro Vic. Ouço o baixo dos Smoking Popes através das saídas laterais do teatro enquanto amasso o nariz do idiota e parto para suas costelas. Estou tendo uma noite horrível, e esse imbecil virou meu bode expiatório.
— Ei, Bibliotecário. — Deixo meu yuppie homofóbico gemendo para ver Gomez encostado numa caçamba de lixo, com uma expressão amarga.
— Camarada — me afasto do sujeito que estou espancando. Muito agradecido, ele desliza até a calçada, dobrado em dois. — Como vão as coisas? — Fico muito aliviado de ver Gomez: satisfeito, na verdade. Mas parece que ele não compartilha da minha alegria.
— Nossa, ah, não quero perturbar você nem nada, mas esse é um amigo meu que você está esquartejando, aí.
Ah, com certeza não.
— Bom, ele pediu isso. Simplesmente chegou para mim e disse: “Meu senhor, preciso urgentemente ser surrado com firmeza.”
— Ah, bom. Ei, bem feito. Ficou bonito pra cacete, na verdade.
— Obrigado.
— Se importa se eu apanhar o velho Nick aqui para levar ao hospital?
— À vontade. — Droga. Eu planejava me apossar da roupa de Nick, especialmente de seus sapatos Doc Martens novinhos em folha, cor de vinho, quase sem uso. — Gomez.
— Sim? — Ele se abaixa para levantar o amigo, que cospe um dente no próprio colo.
— Que dia é hoje?
— 14 de dezembro.
— De que ano?
Ele olha para mim como um sujeito que tem mais o que fazer do que dar trela para malucos. Gomez carrega Nick segundo o método usado pelos bombeiros, que deve ser extremamente doloroso. Nick começa a choramingar.
— 1991. Você deve estar mais bêbado do que parece.
Ele sobe o beco e desaparece na direção da entrada do teatro. Calculo depressa. Hoje não faz tanto tempo que Clare e eu começamos a sair; portanto, Gomez e eu mal nos conhecemos. Não admira que ele estivesse me olhando de cara feia.
Ele torna a aparecer livre do fardo.
— Fiz o Trent tratar do caso. O Nick é irmão dele. Não gostou muito. — Vamos caminhando para leste, descendo o beco. — Me desculpe perguntar, caro Bibliotecário, mas por que cargas d’água você está vestido assim?
Estou de calça jeans clara, suéter azul-bebê todo cheio de patinhos amarelos, e jaqueta vermelho-néon com tênis cor-de-rosa. De fato, não surpreende que alguém sentisse vontade de me bater.
— Foi o melhor que pude arranjar na hora. — Tomara que o cara de quem tirei isso esteja perto de casa. Está uns seis abaixo de zero aqui. — Por que você anda com esses playboys?
— Ah, estudamos Direito juntos. — Estamos passando pelos fundos da loja de material da Marinha e do Exército e me dá uma vontade enorme de estar vestido com uma roupa normal. Decido correr o risco de escandalizar Gomez; sei que ele vai superar isso. Paro. — Camarada. Vai ser só um instantinho. Só preciso tratar de uma coisa. Dá para você esperar no fim do beco?
— O que está fazendo?
— Nada. Invasão de propriedade. Não preste atenção no homem atrás da cortina.
— Se importa se eu for junto?
— Me importo. — Ele fica desanimado. — Tudo bem. Já que insiste. — Entro no vão que protege a porta dos fundos. Esta é a terceira vez que arrombo essa loja, embora as duas outras ocasiões só vão ocorrer no futuro. Já estou craque. Primeiro abro o insignificante cadeado de segredo que defende a grade de segurança. Depois, torno a fechar a grade e arrombo o cadeado Yale. Uso uma carga de caneta velha e um alfinete de segurança que achei há pouco na Belmont Avenue. Levanto o trinco interno com uma chapinha de alumínio entre as portas duplas. Voilà. Ao todo, levo uns três minutos. Gomez me olha com uma admiração quase religiosa.
— Onde aprendeu a fazer isso?
— É jeito — respondo, sendo modesto. A gente entra. Há um painel com luzes vermelhas piscando que tenta parecer um sistema de alarme contra ladrões, mas não caio nessa. Está muito escuro aqui. Tento lembrar do interior da loja e da mercadoria. — Não toque em nada, Gomez. — Quero ficar agasalhado sem chamar atenção. Ando com cuidado pelos corredores, e meus olhos se adaptam à escuridão. Começo com calças: Levi’s pretas. Escolho uma camisa de flanela azul-escura, um sobretudo pesado de lã preta com forro super-resistente, meias de lã, cuecas, luvas pesadas de alpinismo e um chapéu com protetores de orelha. Na seção de sapatos, encontro, para minha alegria, uns Docs idênticos aos que meu amigo Nick estava usando. Estou pronto para a guerra.
Gomez, enquanto isso, está fuçando atrás do balcão.
— Não perca seu tempo — digo. — Aqui não deixam dinheiro no caixa à noite. Vamos. — Saímos por onde entramos. Fecho a porta suavemente e puxo a grade. As roupas que estava usando antes estão numa sacola de compras. Depois, vou tentar achar a caixa coletora do Exército da Salvação. Gomez me olha ansioso, como um cachorro grande que espera ganhar mais sobras do almoço.
Isso me lembra da fome.
— Estou faminto. Vamos à Ann Sather’s.
— Ann Sather’s? Imaginei que você fosse sugerir um assalto a banco, ou homicídio, no mínimo. Você está no embalo, cara, não pare agora!
— Preciso parar os trabalhos e me reabastecer. Vamos. — Atravessamos o beco até o estacionamento do restaurante sueco Ann Sather’s. Sem falar nada, o funcionário olha quando cruzamos seus domínios. Entramos na Belmont. São só nove horas, e a rua ferve com sua mistura habitual de adolescentes, malucos sem-teto, clubbers e mauricinhos a fim de curtir a noite. O Ann Sather’s se destaca como uma ilha de normalidade em meio aos estúdios de tatuagem e sex shops. Entramos e esperamos junto ao balcão de tortas por um lugar sentado. Minha barriga ronca. A decoração sueca é reconfortante, toda em painéis de madeira e mármores vermelhos. Somos colocados na seção de fumantes, bem em frente à lareira. As coisas estão melhorando. Tiramos os casacos, nos instalamos e lemos os cardápios, apesar de saber o conteúdo de cor e salteado, como bons moradores de Chicago que somos. Gomez coloca toda a sua parafernália de fumar ao lado dos talheres.
— Você se incomoda?
— Sim. Mas vá em frente. — O preço da companhia de Gomez é ser defumado pela fumaceira que não para de sair de suas narinas. Seus dedos têm um tom marrom-amarelado. Eles mexem no papel de seda que Gomez usa para enrolar o fumo Drum em um cigarro grosso. Ele lambe o papel para fechar, torce as pontas, coloca entre os lábios e acende. — Ahh. — Para Gomez, meia hora sem fumar é uma aberração. Sempre gostei de ver gente satisfazendo seus gostos, mesmo que eu não compartilhe deles.
— Você não fuma? Nada?
— Eu corro.
— Ah, tá. Cacete, você está em ótima forma. Pensei que quase tivesse matado o Nick, e você não ficou nem ofegante.
— Ele estava bêbado demais para brigar. Um mero saco de pancada.
— Por que caiu em cima dele assim?
— Foi besteira. — O garçom chega, diz que se chama Lance e que os pratos do dia são salmão e creme de ervilhas. Anota nossos pedidos de bebida e sai depressa. Brinco com a cremeira. — Ele viu como eu estava vestido e concluiu que eu era alvo fácil. Ficou me ofendendo e quis me bater. Não aceitou um não como resposta e teve uma surpresa. Eu estava na minha, estava mesmo.
Gomez está pensativo.
— E o que estava fazendo, exatamente?
— Como?
— Henry, posso ter cara de bocó, mas, na verdade, seu velho tio Gomez não está completamente por fora. Ando prestando atenção em você há algum tempo: antes que nossa Clarinha te levasse lá em casa, para dizer a verdade. Quer dizer, não sei se sabe, mas você tem uma certa fama em algumas rodas. Conheço um monte de gente que te conhece. Gente, não: mulheres. Mulheres que te conhecem. — Ele olha para mim com os olhos apertados através da névoa da sua fumaça. — Dizem coisas bem estranhas.
Lance chega com o meu café e o leite de Gomez. Pedimos: um cheeseburguer com fritas para Gomez, sopa de ervilha, o salmão, batatas doces e salada de frutas para mim. Tenho a sensação de que vou cair agora mesmo se não ingerir logo um monte de calorias. Lance sai prontamente. Mal consigo me importar com as sacanagens feitas por meu eu do passado, quanto mais ficar justificando para o Gomez. Não é da conta dele, afinal. Mas ele espera minha resposta. Misturo creme no meu café, vendo a espuma branca na superfície se desmanchando. Mando a cautela às favas. Não importa, afinal.
— O que gostaria de saber, camarada?
— Tudo. Quero saber por que um bibliotecário aparentemente pacato está vestido como professor de jardim de infância enquanto espanca um cara a troco de nada. Quero saber por que Ingrid Carmichel tentou se matar há oito dias. Quero saber por que hoje você parece dez anos mais velho do que da última vez em que te vi. Seu cabelo está ficando grisalho. Quero saber por que você sabe arrombar um cadeado Yale. Quero saber por que Clare tinha uma fotografia sua antes de te conhecer para valer.
Clare tinha uma foto minha antes de 1991? Eu não sabia disso. Epa.
— Como era a foto?
Gomez me olha.
— Mais como você é agora, não como era duas semanas atrás quando foi jantar lá em casa. — Aquilo foi há duas semanas? Meu Deus, essa é apenas a segunda vez que eu encontro o Gomez. — Foi tirada ao ar livre. Você está sorrindo. A data no verso é junho de 1988. — Paramos para arrumar a comida em nossa mesinha quando ela chega. Começo a comer como se não houvesse amanhã.
Gomez fica parado, olhando para mim enquanto como, sem tocar em sua comida. Já vi Gomez usar essa técnica no tribunal com testemunhas que não querem colaborar. Ele simplesmente impõe sua vontade até que elas revelem o que sabem. Não me importo de contar tudo, só quero comer primeiro. É só que eu preciso que Gomez saiba a verdade, porque ele vai me tirar de enrascadas muitas vezes no futuro.
Estou na metade do salmão e ele continua parado.
— Coma, coma — digo em minha melhor imitação da sra. Kim. Ele come uma batata frita depois de passar no ketchup. — Não se preocupe, vou confessar. Só me deixe fazer minha última refeição em paz.
Ele cede e começa a comer o cheeseburguer. Nenhum de nós diz uma palavra até eu acabar com minhas frutas. Lance me traz mais café. Ponho açúcar e mexo. Gomez me olha como se quisesse me sacudir. Resolvo me divertir à custa dele.
— Tudo bem. É o seguinte: viagem no tempo.
Gomez revira os olhos e faz uma careta, mas não diz nada.
— Sou um viajante do tempo. No momento, tenho 36 anos. Hoje à tarde era 9 de maio de 2000, uma terça-feira. Eu estava trabalhando. Tinha acabado de dar uma aula prática para um grupo de sócios do Caxton Club e estava repondo os livros nas estantes quando de repente fui parar na School Street em 1991. Estava com o problema de sempre de arranjar algo para vestir. Fiquei algum tempo escondido embaixo de uma varanda. Eu estava com frio e não passava ninguém. Finalmente veio um rapaz vestido do jeito que, bem, você me viu vestido. Assaltei o cara, peguei seu dinheiro e tudo o que ele estava usando, menos a roupa de baixo. Ele tomou um bruta susto; acho que pensou que ia ser estuprado ou algo assim. De qualquer forma, eu tinha roupas. Tudo bem. Mas nesse bairro a gente não pode se vestir assim sem causar mal-entendidos. Então, andei o dia inteiro sendo esculhambado por várias pessoas, e seu amigo, por acaso, foi a gota d’água. Sinto se ele se machucou muito. Eu queria demais as roupas dele, especialmente os sapatos. — Gomez dá uma olhada nos meus pés embaixo da mesa. — Passo por situações assim o tempo todo. Sem brincadeira. Há alguma coisa errada comigo. Me desloco no tempo sem motivo. Não dá para controlar. Nunca sei quando vai acontecer, nem onde vou parar. Então, para me safar, arrombo fechaduras, roubo lojas, bato carteiras, assalto gente, peço esmola, invado casas, roubo carros, minto; enfim, faço tudo o que mandam não fazer. É só dizer, eu já fiz.
— Assassinato.
— Isso, não que eu saiba. Também nunca estuprei ninguém. — Olho para ele enquanto falo. Sua cara é neutra. — Ingrid. Conhece mesmo a Ingrid?
— Conheço Celia Attley.
— Nossa. Você anda mesmo com gente estranha. Como a Ingrid tentou se matar?
— Com uma overdose de Valium.
— 1991? É, tudo bem. Esta seria a quarta tentativa de suicídio da Ingrid.
— O quê?
— Ah, não sabia? A Celia conta apenas o que interessa a ela. A Ingrid efetivamente conseguiu acabar com a própria vida em 2 de janeiro de 1994. Deu um tiro no peito.
— Henry...
— Sabe, isso foi há seis anos, e continuo zangado com ela. Que desperdício. Mas ela teve uma depressão séria durante muito tempo e simplesmente se afundou nela. Não pude fazer nada por ela. Era um dos motivos de briga entre a gente.
— Essa é uma brincadeira bem mórbida, Bibliotecário.
— Quer uma prova?
Ele apenas sorri.
— E aquela foto? A que você disse que Clare tem?
O sorriso desaparece.
— Tudo bem. Admito que estou um tiquinho confuso com isso.
— Conheci Clare pela primeira vez em outubro de 1991. Ela me conheceu pela primeira vez em setembro de 1977; Clare tinha 6 anos, eu tinha os 38 que ainda vou fazer. Ela me conhece a vida inteira. Em 1991, acabo de conhecer Clare. Aliás, você devia perguntar isso tudo a Clare. Ela te conta.
— Já perguntei. Ela me contou.
— Ora bolas, Gomez. Você está aqui me tomando um tempo valioso, me fazendo te contar tudo de novo. Não acreditou nela?
— Não. Você acreditaria?
— Claro. Clare não mente. É consequência daquela educação católica dela. — Lance chega com mais café. Já estou cheio de cafeína nas ideias, porém mais um pouco não vai fazer mal. — Então? Que tipo de prova você procura?
— Clare disse que você desaparece.
— É, esse é um dos meus mais dramáticos truques de salão. Fique grudado em mim, e cedo ou tarde, eu sumo. Pode levar dez minutos, horas, ou dias, mas pode confiar.
— Nós nos conhecemos em 2000?
— Sim. — Rio para ele. — Somos muito amigos.
— Me conte o meu futuro.
Ah, não. Má ideia.
— Não.
— Por que não?
— Gomez, as coisas acontecem. Saber de antemão torna tudo... esquisito. Não se pode mudar nada, afinal de contas.
— Por quê?
— Causa e efeito só andam para a frente. As coisas só acontecem uma vez. Se a gente sabe o que vai acontecer... eu me sinto preso, quase o tempo todo. Se a gente está no tempo, sem saber... é livre. Confie em mim. — Ele parece frustrado. — Você vai ser nosso padrinho de casamento. Eu vou ser o seu. Você tem uma vida ótima, Gomez. Mas não vou te contar os detalhes.
— Dicas de ações?
É, por que não? Em 2000, o mercado está uma loucura, mas há oportunidade de fazer fortunas incríveis, e Gomez será um dos felizardos.
— Já ouviu falar da Internet?
— Não.
— É uma coisa de computador. Uma vasta rede mundial com as pessoas todas ligadas, se comunicando com computadores através de linhas telefônicas. O que você quer é comprar ações de tecnologia. Netscape, America Online, Sun Microsystems, Yahoo!, Microsoft, Amazon.com. — Ele está anotando.
— Pontocom?
— Não se preocupe com isso. Simplesmente compre no lançamento. — Sorrio. — Bata palmas se acreditar em fadas.
— Pensei que você espancasse qualquer pessoa que insinuasse qualquer coisa sobre “fadas”.
— Isso é de Peter Pan, seu analfabeto. — De repente me sinto enjoado. Não quero fazer uma cena aqui, agora. Levanto dando um pulo. — Vem comigo — digo, correndo para o banheiro masculino, Gomez logo atrás de mim. Entro correndo no banheiro, por milagre, vazio. O suor escorre pelo meu rosto. Vomito na pia.
— Meu Deus! — diz Gomez. — Caramba, Biblioteca... — Mas perco o restante do que ele ia dizer, porque estou deitado de lado, nu, sobre um chão de linóleo, num breu total. Fico algum tempo ali deitado porque estou tonto. Estico a mão e toco lombadas de livros. Estou no depósito, na Newberry. Levanto e vou cambaleando até o fim do corredor. Acendo a luz, que preenche a ala onde estou e me deixa cego. Minhas roupas e o carrinho de livros que eu estava guardando estão no corredor do lado. Coloco as roupas, guardo os livros e, com todo o cuidado, abro a porta do depósito. Não sei que horas são; os alarmes podem estar ligados. Mas, não, está tudo como antes. Isabelle dá instruções a um novo sócio sobre o funcionamento da Sala de Leitura; Matt passa e acena. O sol entra pelas janelas, e os ponteiros do relógio da Sala de Leitura marcam 16h15. Fiquei menos de 15 minutos desaparecido. Amelia me vê e aponta para a porta.
— Vou até o Starbucks. Quer um café?
— Hmm, não. Acho que não. Mas obrigado.
Estou com uma dor de cabeça horrível. Meto a cara na sala do Roberto e digo que não estou bem. Ele balança a cabeça mostrando solidariedade, faz um gesto para o telefone, que cospe italiano na velocidade da luz em seu ouvido. Pego minhas coisas e saio.
Só outro dia normal de trabalho para o Bibliotecário.
Domingo, 15 de dezembro de 1991 (Clare tem 20 anos)
CLARE: É uma bela manhã ensolarada de domingo, e estou indo da casa de Henry para a minha. As ruas estão cobertas de gelo e há uns 5 centímetros de neve fresca. Tudo é de uma brancura e limpeza que ofuscam a vista. Canto junto com Aretha Franklin “R-E-S-P-E-C-T!” quando viro da Addison para a Hoyne e, olhe só, há uma vaga bem em frente. É meu dia de sorte. Estaciono, atravesso a calçada escorregadia e entro no vestíbulo ainda cantarolando. Estou com aquela maravilhosa sensação de pernas bambas que começo a associar a sexo, acordar na cama de Henry, chegar em casa já de manhã. Flutuo escada acima. Charisse deve estar na igreja. Estou ansiosa por um banho demorado e o New York Times. Assim que abro a porta, sei que não estou só. Gomez está sentado na sala dentro de uma nuvem de fumaça com as persianas fechadas. E com o papel de parede vermelho, a mobília de veludo da mesma cor e toda a fumaça, ele parece o diabo vestido de Elvis louro. Está ali apenas sentado, então vou me encaminhando para o meu quarto, sem falar. Continuo furiosa com ele.
— Clare.
Viro em sua direção.
— O quê?
— Desculpe. Eu estava errado.
Nunca vi Gomez admitir algo assim. Ele se acha mais infalível que o papa. A voz dele é um resmungo profundo.
Entro na sala e abro as persianas. O sol tem dificuldade de atravessar a fumaça, então abro uma fresta da janela.
— Não sei como você pode fumar tanto sem disparar o detector de fumaça.
Gomez mostra uma bateria de 9 volts.
— Boto de volta antes de sair.
Sento na poltrona. Espero Gomez me dizer por que mudou de ideia. Ele enrola outro cigarro e olha para mim após acender.
— Passei a noite de ontem com seu amigo Henry.
— Eu também.
— É. O que vocês fizeram?
— Fomos ao Facets, vimos um filme do Peter Greenaway, comemos comida marroquina, fomos para a casa dele.
— E você acabou de sair de lá.
— Exatamente.
— Bom. Minha noite foi menos cultural, porém mais agitada. Topei com seu garoto no beco ao lado do Vic, metendo a porrada no Nick. O Trent me contou hoje de manhã que o Nick quebrou o nariz, três costelas, cinco ossos da mão, teve perda de tecido conjuntivo e levou 46 pontos. E vai precisar de um novo dente da frente. — Não me abalo. Nick é um grande valentão. — Você devia ter visto, Clare. Seu namorado lidou com Nick como se ele fosse um objeto inanimado. Como se Nick fosse uma escultura que ele estivesse entalhando. De forma científica mesmo. Só batia onde ia causar mais dano, pimba. Teria tido a minha maior admiração, se não fosse pelo Nick.
— Por que o Henry estava batendo no Nick?
Gomez parece desconfortável.
— Pelo que ele disse, talvez tenha sido culpa do Nick. Ele gosta de implicar com... gays, e Henry estava vestido de Luluzinha.
Posso imaginar. Coitado do Henry.
— E aí?
— Aí a gente assaltou a loja de material da Marinha e do Exército. — Por enquanto, tudo bem.
— E?
— Aí fomos ao Ann Sather’s jantar.
Caio na gargalhada. Gomez sorri.
— E ele me contou a mesma história maluca que você me contou.
— Então por que acreditou nele?
— Bom, ele é sossegado pra cacete. Dava para dizer que me conhecia perfeitamente, de cabo a rabo. Ele já tinha sacado qual era a minha e não ligava. E aí ele... sumiu, e eu estava ali parado, e simplesmente... fui obrigado... a acreditar.
Balanço a cabeça, compreensiva.
— O desaparecimento é bem impressionante. Lembro disso da primeira vez que vi o Henry, quando era pequena. Ele estava apertando a minha mão e, puf!, sumiu. Ei, de quando ele vinha?
— De 2000. Parecia muito mais velho.
— Ele passa por muita coisa. — É bom estar aqui sentada e conversar sobre Henry com alguém que sabe. Sinto uma onda de gratidão a Gomez que evapora quando ele se inclina à frente e diz, de forma bastante séria:
— Não se case com ele, Clare.
— Ele ainda não me pediu.
— Você sabe o que quero dizer.
Fico paradinha, olhando para as mãos tranquilamente fechadas em meu colo. Estou furiosa e com frio. Gomez me olha ansioso.
— Eu amo o Henry. Ele é a minha vida. Passei a vida inteira esperando por ele, e agora ele está aqui. — Não sei como explicar. — Com Henry, vejo tudo ordenado, como um mapa, passado e futuro, tudo de uma vez, feito um anjo... — Balanço a cabeça. Não sei dizer com palavras. — Posso chegar nele e tocar no tempo... ele me ama. A gente se casou porque... somos parte um do outro... — Hesito. — Já aconteceu. Tudo de uma vez. — Olho para Gomez para ver se o que eu disse fez algum sentido.
— Clare. Eu gosto dele, muito. Ele é fascinante. Mas é perigoso. Todas as mulheres com quem andou ficaram arrasadas. Só não quero que você caia alegremente nos braços desse charmoso sociopata...
— Não vê que você chegou atrasado? Fala de alguém que conheço desde que tinha 6 anos. Eu conheço o Henry. Você viu ele duas vezes e está tentando me dizer para saltar fora. Bom, não posso. Já vi o meu futuro; não dá para mudar, nem mudaria se pudesse.
Gomez fica pensativo.
— Ele não quis me dizer nada sobre meu futuro.
— Henry gosta de você; não faria isso com você.
— Fez com você.
— Não deu para evitar; nossas vidas estão entrelaçadas. Minha infância toda foi diferente por causa dele, e não havia nada que ele pudesse fazer. Ele fez o melhor que pôde. — Escuto a chave de Charisse girando na fechadura.
— Clare, não fique brava... só estou tentando te ajudar.
Sorrio para ele.
— Você pode ajudar a gente. Vai ver.
Charisse entra tossindo.
— Ah, amor. Você está esperando há um tempão.
— Andei conversando com Clare. Sobre Henry.
— Tenho certeza de que andou contando o quanto você adora o Henry — diz Charisse num tom de alerta.
— Eu disse para ela sair correndo o mais rápido possível na direção oposta.
— Ah, Gomez. Clare, não dê ouvidos a ele. Ele tem um gosto péssimo em matéria de homem.
Charisse senta muito comportada a dois palmos de Gomez e ele puxa a namorada para seu colo. Ela faz uma careta para ele.
— Ela é sempre assim quando vem da igreja.
— Quero o café da manhã.
— Claro, minha gracinha.
Eles se levantam e saem correndo pelo corredor a caminho da cozinha. Logo Charisse está dando risadinhas esganiçadas enquanto Gomez tenta bater nela com a revista Time. Suspiro e vou para o meu quarto. Ainda há sol. No banheiro, ponho água para correr na velha banheira enorme e tiro as roupas da noite passada. Ao entrar, me vejo no espelho. Estou menos magra. Isso me deixa mais animada, e afundo na água me sentindo como uma odalisca dos quadros de Ingres. Henry me ama. Henry está aqui, finalmente, agora, finalmente. E eu amo o Henry. Passo a mão nos seios e sinto um resto de saliva ser lavado pela água. Por que tudo tem que ser complicado? Já não deixamos para trás a parte complicada? Vejo meu cabelo boiar em volta de mim ao mergulhar, escuro e embaraçado. Nunca escolhi Henry, e ele nunca me escolheu. Então como poderia ser um erro? Mais uma vez encaro o fato de que não podemos saber. Deito na banheira, olhando os azulejos acima dos meus pés, até a água estar quase fria. Charisse bate na porta, perguntando se morri aqui dentro e se ela não podia escovar os dentes. Ao enrolar o cabelo numa toalha, vejo no espelho meu reflexo embaçado pelo vapor. Parece que o tempo se dobra sobre si mesmo. Vejo que sou feita de camadas representando meus dias passados e futuros. De repente, tenho a sensação de ter ficado invisível, uma sensação que passa tão depressa quanto veio. Fico um minuto parada e então visto o roupão, abro a porta e vou em frente.
Sábado, 22 de dezembro de 1991
(Henry tem 28 e 33 anos)
HENRY: Às 5h25, a campainha toca, sempre um mau sinal. Vou trôpego até o interfone e aperto o botão.
— Sim?
— Ei. Me deixa entrar. — Torno a apertar o botão e o horrível zumbido que significa Seja Bem-vindo ao Meu Lar é transmitido através da linha. Quarenta e cinco segundos depois, o elevador faz barulho e começa a subir. Visto o roupão, saio e fico parado no corredor vendo os cabos do elevador se movendo pelo vidro de segurança. A cabine aparece e para, e, claro, vejo que sou eu.
Ele abre a porta do elevador e sai para o corredor. Está nu, com barba por fazer e um cabelo muito curto. Atravessamos depressa o corredor deserto e fugimos para o apartamento. Fecho a porta e ficamos parados um instante nos olhando.
— Bom — digo, só para falar alguma coisa. — Como vão as coisas?
— Mais ou menos. Que dia é hoje?
— 22 de dezembro de 1991. Sábado.
— Ah... o Violent Femmes no Aragon hoje à noite?
— É.
Ele ri.
— Merda. Que noite horrível foi aquela. — Ele vai até minha cama (minha cama) e se deita, puxando as cobertas para cobrir a cabeça. Deito ao lado dele.
— Ei. — Nada de resposta. — De quando está vindo?
— 13 de novembro de 1996. Eu estava indo para a cama. Então me deixe dormir um pouco, senão vai se arrepender muito daqui a cinco anos.
Isso parece bastante razoável. Tiro o roupão e volto a me deitar. Agora estou do lado errado da cama, o de Clare, como o considero atualmente, porque meu duplo se apossou do meu lado. Tudo é sutilmente diferente deste lado da cama. É como quando a gente fecha um olho e olha de perto para alguma coisa por algum tempo, depois olha com o outro. Fico ali deitado fazendo isso, olhando para a poltrona com minhas roupas espalhadas por cima, para um caroço de pêssego no fundo de um copo de vinho no peitoril da janela, para as costas da minha mão direita. Minhas unhas precisam ser cortadas e o apartamento provavelmente deveria ser interditado pela Defesa Civil. Talvez meu eu extra esteja disposto a colaborar, ajudar um pouco, trabalhar para ganhar casa e comida. Lembro do que tenho na geladeira e na despensa e chego à conclusão de que estamos bem abastecidos. Estou planejando trazer Clare para casa hoje à noite e não sei bem o que fazer com meu corpo excedente. Pode ser que Clare prefira estar com essa minha versão mais velha, uma vez que afinal elas se conhecem melhor. Por alguma razão, isso me deixa nervoso. Fico lembrando de que qualquer coisa subtraída agora será somada depois, mas mesmo assim fico aflito e torço para que um de nós simplesmente vá embora.
Observo o meu duplo. Ele está encolhido, tipo porco-espinho, virado para o outro lado, obviamente dormindo. Sinto inveja dele. Ele é eu, mas eu ainda não sou ele. Ele teve cinco anos de uma vida que ainda é um mistério para mim. Uma vida que parece uma cobra ainda enrolada, esperando dar o bote e morder. Claro, ele já teve o que de bom vem aí pela frente; para mim, o futuro é como uma caixa de chocolates fechada.
Tento ver meu duplo com os olhos de Clare. Por que o cabelo curto? Sempre gostei do meu cabelo preto ondulado batendo nos ombros; ele é assim desde o ensino médio. Mas cedo ou tarde, vou encarar a tesoura. Percebo que o cabelo é uma das muitas coisas que fazem Clare lembrar de que não sou exatamente o homem que ela conhece desde pequena. Sou como um esboço que Clare está aprimorando inspirada pela imagem que ela tem de mim em sua mente. O que seria de mim sem ela?
Não seria o homem que respira fundo, devagar, do outro lado da cama. Seu pescoço e suas costas mexem com o movimento das vértebras e costelas. Sua pele é macia, quase sem pelos, esticada sobre músculos e ossos. Ele está exausto, mas dorme como se a qualquer momento pudesse pular da cama e sair correndo.
Será que passo tanta tensão assim? Acho que sim. Clare reclama que não relaxo até estar morto de cansaço, mas, na verdade, geralmente fico relaxado quando estou com ela. Esse eu mais velho parece mais magro e mais cansado, mais confiante e mais seguro. Porém comigo ele pode se dar ao luxo de se mostrar: me saca tão completamente que só posso fazer o que ele quer, para o meu próprio bem.
São 7h14, e é óbvio que não vou dormir de novo. Levanto da cama e ligo a cafeteira. Visto cueca e calças de moletom e me alongo. Ponho joelheiras porque ultimamente ando com dor nos joelhos. Calço as meias, amarro meus tênis de correr surrados (provavelmente a causa dos joelhos ferrados) e juro que vou comprar uns novos amanhã. Eu devia ter perguntado ao meu hóspede como estava o tempo lá fora. Ah, bem, dezembro em Chicago: tempo horrível é de lei. Visto minha camiseta jurássica do Chicago Film Festival e um casaco de moletom preto. Coloco por cima um casaco laranja, mais pesado e com um capuz, que tem uns X grandes na frente e atrás feitos de fita adesiva refletora. Pego minhas luvas e chaves, e saio para o dia.
Até que não está ruim para um dia de início de inverno. Há pouca neve no chão, e o vento brinca com ela, empurrando para lá e para cá. O tráfego está interrompido na Dearborn, criando um concerto de barulhos de motor, e o céu cinzento vai ficando lentamente menos fechado.
Amarro as chaves no tênis e decido correr na beira do lago. Vou pela Delaware na direção da Michigan Avenue, atravesso o viaduto e vou beirando a ciclovia, seguindo no sentido norte pela Oak Street Beach. Só corredores e ciclistas radicais saíram hoje. O lago Michigan está azul-acinzentado e de maré baixa, revelando uma faixa de areia marrom-escura. Gaivotas dão voltas em cima de mim e no alto do lago, mais ao longe. Vou correndo meio duro; o frio não faz bem às juntas, e lentamente vou percebendo que está bem frio aqui na beira do lago, provavelmente na faixa de uns cinco abaixo de zero. Então corro um pouco mais devagar que de hábito, fazendo aquecimento, lembrando a meus pobres joelhos e tornozelos que o trabalho deles é me levar longe e rápido quando exigidos. Sinto o ar frio em meus pulmões, sinto meu coração batendo serenamente, e, ao chegar à North Avenue, me sinto bem e começo a acelerar. Correr é muitas coisas para mim: sobrevivência, calma, euforia, solidão. É prova de que existo, da minha habilidade de controlar meu movimento no espaço, se não no tempo, e da obediência, por mais breve que seja, do meu corpo à minha vontade. Ao correr, desloco ar, e as coisas vão e vêm à minha volta. A trilha passa embaixo dos meus pés como uma tira de filme. Quando era criança, antes dos videogames e da internet, eu apertava o botão mixuruca do projetor da biblioteca da escola para ver filmes passando quadro a quadro, ao som de um bipe. Não me lembro mais como eram ou sobre o que eram os filmes, mas lembro do cheiro da biblioteca, e de como aquele bipe me assustava todas as vezes. Agora estou voando, aquela sensação de ouro, como se eu pudesse disparar e voar, e sou invencível, nada pode me deter, nada pode me deter, nada, nada, nada, nada...
Noite do mesmo dia (Henry tem 28 e 33 anos, Clare, 20)
CLARE: Estamos indo para o show do Violent Femmes no Aragon Ballroom. Após alguma relutância da parte de Henry (que não entendi, porque ele adora les Femmes), estamos rodando a zona norte de Chicago procurando vaga. Dou voltas e mais voltas, passo o Green Mill, os bares, os prédios mal iluminados e as lavanderias que parecem cenários de teatro. Finalmente estaciono na Argyle e caminhamos tremendo de frio pelas calçadas congeladas e cheias de buracos. Henry tem um passo rápido e sempre fico meio ofegante quando andamos juntos. Notei que ele se esforça para acompanhar meu passo, agora. Tiro a luva e ponho a mão no bolso do casaco dele, e ele passa o braço em volta do meu ombro. Estou vibrando porque Henry e eu nunca saímos para dançar, e porque adoro o Aragon, em toda a decadência de seu falso esplendor espanhol. Minha avó Meagram me contava dos bailes das big bands aqui nos anos 30, quando tudo era novo e lindo e não havia gente se drogando nos balcões nem poças de mijo no banheiro masculino. Mas c’est la vie, os tempos mudam, e cá estamos nós.
Ficamos alguns minutos na fila. Henry parece tenso e vigilante. Segura a minha mão, mas de olho na multidão. Aproveito a oportunidade para olhar para ele. Henry é lindo. Seu cabelo é preto e tem brilho. Bate nos ombros, penteado para trás. Ele parece um gato, é magro e passa agitação e sensualidade. Tem cara de que pode morder. Henry está usando um casacão preto e uma camisa de algodão branca com punhos desabotoados abaixo das mangas do casaco, uma linda gravata de seda de um verde forte que ele afrouxou para eu poder ver os músculos de seu pescoço, calça jeans preta e tênis de cano alto preto. Henry segura o meu cabelo e enrola no pulso. Por um momento, sou sua prisioneira, e aí a fila anda e ele me solta.
Compramos o ingresso e seguimos na maré de gente para dentro do prédio. O Aragon tem muitos corredores longos, e baias e balcões que circundam a pista e são ideais para a pessoa se perder e se esconder. Henry e eu subimos a um camarote perto do palco e sentamos numa mesa minúscula. Tiramos os casacos. Henry está me encarando.
— Você está linda. Esse vestido é maravilhoso. Não posso acreditar que você possa dançar com ele.
Meu vestido é colante, de seda lilás-azulado, mas estica o suficiente para eu me mexer. Provei hoje à tarde na frente de um espelho e ficou bom. O que me preocupa é meu cabelo; por causa do tempo seco do inverno, ele parece ter dobrado de volume. Começo a fazer uma trança e Henry me detém.
— Não, por favor... quero olhar para você de cabelo solto.
A banda de abertura começa. Ouvimos pacientemente. Todo mundo está circulando, conversando, fumando. Não há cadeiras na pista. O barulho é fenomenal.
Henry se inclina e berra em meu ouvido.
— Quer beber alguma coisa?
— Só uma Coca.
Ele sai para ir até o bar. Descanso os braços na grade do balcão e observo a multidão. Garotas com vestidos de brechó, garotas de roupa militar, garotos com penteado moicano, garotos de camisa de flanela. Gente de ambos os sexos de jeans e camiseta. Universitários e gente de vinte e poucos anos, com alguns coroas aqui e ali.
Henry já foi há um bom tempo. A banda de abertura termina, recebendo aplausos esparsos, e os técnicos começam a remover seu equipamento e a trazer um conjunto de instrumentos mais ou menos idêntico. Acabo me cansando de esperar e, largando nossa mesa e nossos casacos, vou abrindo caminho à força em meio à massa de gente desde o balcão até o bar que fica na comprida galeria mal iluminada, no térreo. Henry não está lá. Vou andando pelos corredores e baias, procurando mas tentando não dar a impressão de estar procurando.
Vejo Henry no fim de um corredor. Ele está tão junto da mulher que, a princípio, penso que os dois estão se abraçando; a mulher está encostada na parede e Henry se inclina sobre ela, apoiando a mão na parede acima do ombro dela. A intimidade da pose dos dois me deixa sem ar. Ela é loura e linda, uma beleza bem alemã, alta e intensa.
Quando me aproximo, vejo que eles não estão se beijando; estão brigando. Henry usa a mão livre para enfatizar o que quer que esteja gritando para aquela mulher. De repente, a face impassível dela irrompe em raiva, quase chorando. Ela responde alguma coisa aos gritos para ele. Henry recua e joga as mãos para o alto. Ouço o fim do que ele diz ao se afastar.
— Não posso, Ingrid, simplesmente não posso! Me desculpe...
— Henry! — Ela corre atrás dele quando os dois me veem, parada no meio do corredor. Henry está amargurado quando pega meu braço e vamos andando depressa para a escada. Depois de subir três degraus, vejo a mulher parada, nos olhando, braços caídos, frágil e sensível. Henry olha para trás, viramos e continuamos a subir.
Achamos nossa mesa, que por milagre continua livre e com os nossos casacos. A luz está apagando e Henry levanta a voz para se sobrepor ao barulho da multidão.
— Sinto muito. Não consegui chegar até o bar, e dei de cara com a Ingrid...
Quem é Ingrid? Lembro da cena no banheiro de Henry, eu parada com um batom na mão. Preciso saber, mas as luzes se apagam e os Violent Femmes chegam ao palco.
Gordon Gano está ao microfone olhando furioso para todos nós. Ao som de acordes ameaçadores, ele se inclina à frente e recita a abertura de Blister in the Sun; foi dada a partida.
Henry e eu ficamos sentados ouvindo, então ele se inclina para mim e grita:
— Quer ir embora?
A pista de dança é uma massa turbulenta de pessoas se jogando umas contra as outras.
— Quero dançar!
Henry parece aliviado.
— Ótimo! Sim! Vamos!
Ele tira a gravata e enfia no bolso do casacão. Seguimos para baixo e entramos na pista. Vejo Charisse e Gomez dançando mais ou menos juntos. Charisse está na dela, possuída; Gomez mal se mexe, com um cigarro reto nos lábios. Ele me vê e me dá um adeusinho. Entrar naquele bolo de gente é como caminhar no lago Michigan; somos levados pela onda, boiando em direção ao palco. O público pede Add it up! e os Femmes reagem atacando seus instrumentos com um vigor insano.
Henry se move, acompanhando a vibração do baixo. Estamos perto do gargarejo, onde de um lado o povo dança dando encontrões a toda velocidade e, do outro, a galera rebola, agita os braços e bate o pé no ritmo da música.
Dançamos. A música me percorre, ondas de som que me agarram pela espinha, mexem meus pés, meus quadris e meus ombros sem consultar meu cérebro. (Beautiful girl, love your dress, high school smile, oh yes, where she is now, I can only guess.) Abro os olhos e vejo Henry me olhando enquanto dança. Quando levanto os braços, ele me pega pela cintura e dou um pulo. Por uma breve eternidade, tenho uma visão panorâmica da pista de dança. Alguém acena para mim, mas Henry me põe de novo no chão antes que eu consiga ver quem é. Dançamos colados, dançamos separados. (How can I explain personal pain?) Estou suando em bicas. Henry sacode a cabeça. Seu cabelo preto vira um borrão e seu suor me cobre toda. A música é provocante e debochada (I ain’t had much to live for I ain’t had much to live for I ain’t had much to live for). A gente se deixa levar por ela. Meu corpo é elástico, sinto as pernas dormentes e um tesão que sobe da minha virilha para a cabeça. Meu cabelo é uma corda molhada que gruda nos braços, no pescoço, no rosto e nas costas. A música bate numa parede e para. Meu coração bate forte. Ponho a mão no peito de Henry e fico surpresa com o fato de o coração dele só parecer ligeiramente acelerado.
Pouco depois, entro no banheiro feminino e vejo Ingrid sentada numa pia, chorando. Uma negra miudinha com um lindo rastafári comprido está na frente dela falando baixinho e afagando seu cabelo. Os soluços de Ingrid ecoam nos azulejos amarelos. Vou saindo de costas dali, mas meus movimentos chamam a atenção das duas. Elas me olham. Ingrid está um lixo. Toda sua aura germânica desapareceu. Sua cara está vermelha e inchada, suja pela maquiagem escorrida. Ela me encara, desolada e esgotada. A negra vem falar comigo. Ela é bonita e delicada, sombria e triste. Chega perto e fala baixinho.
— Irmã — diz —, como é seu nome?
Hesito.
— Clare — digo, afinal.
Ela volta a olhar para Ingrid.
— Clare. Um conselho de amiga: você está se metendo onde não deve. Henry é uma fria, mas é a fria da Ingrid, e você seria uma idiota se se metesse com ele. Está me ouvindo?
Não quero saber, mas não consigo me conter.
— Do que você está falando?
— Eles iam se casar. Aí o Henry desmancha o noivado, diz a Ingrid que sente muito, deixa para lá, pode esquecer. Eu digo que ela está melhor sem ele, mas ela não ouve. Ele trata mal a Ingrid, bebe como se a bebida no mundo fosse acabar, passa dias sumido e aí aparece como se nada tivesse acontecido, transa com qualquer coisa que mije sentada. Isso é o Henry. Quando ele fizer você se lamentar e chorar, não diga que não foi avisada.
Ela vira as costas bruscamente e volta para junto de Ingrid, que continua me encarando, que me olha com absoluto desespero.
Devo estar olhando boquiaberta para elas.
— Sinto muito — digo e me mando.
Vago pelos corredores e afinal encontro uma baia que está vazia exceto por uma gótica desmaiada num sofá de vinil com um cigarro aceso na mão. Tiro o cigarro dela e apago no ladrilho sujo. Sento no braço do sofá e sinto a música vibrando do cóccix até espinha acima. Sinto nos dentes. Ainda preciso fazer pipi e minha cabeça dói. Quero chorar. Não entendo o que acabou de acontecer. Isto é, entendo, mas não sei o que devo fazer a respeito. Não sei se devo simplesmente esquecer, ou ficar furiosa com Henry e tomar satisfação, ou o quê. O que eu esperava? Quem me dera poder mandar um postal para o passado, para o cafajeste desse Henry que eu não conheço: Não faça nada. Me espere. Queria que estivesse aqui.
Henry mete a cabeça ali dentro.
— Você está aí. Achei que tivesse te perdido.
Cabelo curto. Ou Henry cortou o cabelo na última meia hora ou estou olhando para o meu viajante do tempo favorito. Levanto dando um pulo e me atiro nos braços dele.
— Ufa... ei, que bom ver você, também.
— Eu estava com saudades... — agora estou chorando.
— Você está há semanas quase direto comigo.
— Eu sei, mas... você não é você, ainda... quer dizer, você está diferente. Droga. — Encosto na parede e Henry encosta em mim. A gente se beija, e aí Henry começa a lamber meu rosto como uma mãe gata. Tento ronronar e começo a rir. — Seu babaca. Está tentando me distrair do seu comportamento infame...
— Que comportamento? Eu não sabia que você existia. Eu estava infeliz namorando a Ingrid. Conheci você. Terminei com a Ingrid menos de 24 horas depois. Quer dizer, a infidelidade não é retroativa, sabe?
— Ela disse...
— Ela quem?
— A negra. — Imito seus cabelos compridos com as mãos. — Baixa, olhos grandes, rastafári...
— Ai, meu Deus. É Celia Attley. Ela me despreza. Está apaixonada pela Ingrid.
— Ela disse que você ia se casar com a Ingrid. Que você vive bebendo, pegando todas, e no fundo é uma pessoa que não presta e eu devia fugir. Foi o que ela disse.
Henry está dividido entre rir e não acreditar no que está ouvindo.
— Bom, alguma coisa disso é mesmo verdade. De fato, eu pegava geral, e certamente sou conhecido por beber horrores. Mas não, a gente não era noivo. Eu não seria louco a ponto de me casar com a Ingrid. A gente era muito infeliz juntos.
— Mas então por quê...
— Clare, são poucas as pessoas que encontram sua alma gêmea aos seis anos. Então você tem que passar o tempo de alguma maneira. E a Ingrid era muito... paciente. Paciente demais. Disposta a aturar meu comportamento estranho, na esperança de que um dia eu entrasse na linha e casasse com ela, pobrezinha. E quando uma pessoa é tão paciente assim, a gente se sente agradecido, e depois dá vontade de magoar. Faz algum sentido?
— Acho que sim. Quer dizer, não, não para mim, mas eu não penso dessa maneira.
Henry suspira.
— Eu acho fofinho que você ignore a lógica bizarra da maioria dos relacionamentos. Acredite em mim. Quando nos conhecemos, eu estava arrasado, e estou lentamente me recompondo porque vejo que você é uma boa pessoa, e eu gostaria de ser assim, também. E ando tentando fazer isso sem você notar, porque ainda não entendi que qualquer mentira é inútil entre nós. Mas há uma distância muito grande entre o eu com quem você está lidando em 1991 e o eu que está falando com você agora de 1996. Você tem que investir em mim; não posso chegar lá sozinho.
— Sim. Mas é difícil. Não estou acostumada a ser a professora.
— Bom, sempre que estiver desanimada, pense em todas as horas que passei, que estou passando, com você pequenininha. Novas lições de matemática, botânica, ortografia e história da América. Quer dizer, você pode me dizer coisas indecentes em francês porque eu fiquei ali exercitando com você.
— É a maior verdade. Il a les défauts de ses qualités. Mas aposto que é mais fácil ensinar tudo isso do que ensinar alguém a ser... feliz.
— Mas você me faz feliz. É estar à altura da felicidade que é a parte difícil. — Henry brinca com meu cabelo, dá nozinhos nele. — Olhe, Clare, vou devolver você ao pobre imbécile com quem você chegou. Estou sentado lá em cima deprimido e me perguntando onde você está.
Sinto vergonha ao notar que esqueci o meu Henry atual na alegria de ver o meu antigo e futuro Henry. Sinto um desejo quase maternal de ir consolar o estranho menino que está virando o homem à minha frente, esse que me beija e me deixa com uma advertência para ser boazinha. Ao subir a escada, vejo o Henry do meu futuro indo se jogar no meio da galera. Sigo como num sonho para encontrar o Henry que é meu aqui e agora.
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