A mulher do viajante no tempo

Audrey Niffenegger · Capítulo 4 de 51

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A mulher do viajante no tempo

Uma Primeira Vez para Tudo

 

Domingo, 16 de junho de 1968

HENRY: A primeira vez foi mágica. Como eu podia saber o que significava? Fomos ao Museu Field de História Natural por conta do meu quinto aniversário. Acho que eu nunca tinha ido ao Museu Field. Meus pais passaram a semana inteira me falando das maravilhas que havia para ver ali, os elefantes empalhados no grande salão, os esqueletos de dinossauro, os dioramas do homem das cavernas. Mamãe acabara de voltar de Sydney e tinha me trazido uma linda borboleta azul, uma Papilio ulysses, montada num quadro cheio de algodão. Eu a segurava junto do rosto, tão junto que não conseguia ver mais nada senão aquele azul. Isso me dava uma sensação que mais tarde tentei repetir com álcool e finalmente encontrei de novo com Clare; uma sensação de união, esquecimento e despreocupação no melhor sentido da palavra. Meus pais descreviam vitrines e mais vitrines de borboletas, beija-flores, abelhas. Eu estava tão animado que acordei antes do alvorecer. Coloquei meu tênis de ginástica, peguei minha Papilio ulysses, fui para o quintal e desci para o rio de pijama. Sentei no cais e fiquei vendo o dia raiar. Uma família de patos passou nadando, e um guaxinim apareceu do outro lado do rio. Ele me olhou com curiosidade antes de lavar o seu café da manhã e comer. Devo ter adormecido. Ouvi mamãe chamando e subi correndo a escadaria, que estava escorregadia de orvalho, com cuidado para não deixar a borboleta cair. Mamãe estava aborrecida comigo porque resolvi descer sozinho até o cais, mas não fez um bicho de sete cabeças por causa disso, sendo meu aniversário e tal.

Como nenhum deles trabalhava naquela noite, não tiveram pressa para se arrumar ou sair. Eu fiquei pronto muito antes dos meus pais. Sentei na cama deles fingindo ler uma partitura. Isso foi mais ou menos na época em que meus pais músicos reconheceram que seu filho único não tinha talento musical. Não foi por falta de tentativa; só não conseguia ouvir o que quer que eles ouviam numa música. Eu gostava de música, mas mal conseguia cantar sem desafinar. E embora eu soubesse ler jornal com quatro anos, partituras eram apenas rabiscos pretos bonitinhos. Mas meus pais continuavam esperando que eu talvez tivesse alguma aptidão musical oculta. Por conta disso, quando peguei a partitura, mamãe sentou-se ao meu lado e tentou me ajudar. Logo mamãe estava cantando enquanto eu fazia coro com guinchos horríveis e estalava os dedos. Começamos a rir e ela me fazia cócegas. Papai saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura e entrou na farra. Ele me pegou no colo e, por alguns minutos gloriosos, meus pais cantaram juntos, dançando pelo quarto comigo espremido entre os dois. Então o telefone tocou e a cena se dissolveu. Mamãe foi atender, e papai me pôs na cama para então se vestir.

Finalmente, ficaram prontos. Minha mãe estava com um vestido vermelho sem manga e sandálias; pintara as unhas do pé e da mão para combinar com o vestido. Papai estava deslumbrante com calça azul-escura e uma camisa branca de mangas curtas, formando um contraste discreto com a extravagância de mamãe. Entramos todos no carro. Como sempre, eu tinha o banco traseiro só para mim, então me deitei e fiquei vendo os prédios altos da Long Shore Drive passando a toda pela janela.

— Senta, Henry — mamãe disse. — Chegamos.

Sentei e olhei para o museu. Como eu passara minha infância até então circulando pelas capitais da Europa, a fachada do Museu Field não me pareceu nada demais, correspondendo à minha noção de “museu”. Por ser domingo, tivemos alguma dificuldade de encontrar uma vaga para o carro. Enfim, conseguimos estacionar e viemos pela beira do lago, passando por barcos, estátuas e outras crianças agitadas. Entramos ao passar pelas pesadas colunas do museu.

E aí eu me encantei.

Aqui, a natureza era capturada, rotulada e arrumada segundo uma lógica divina, como se Deus tivesse pedido ajuda à equipe do Museu Field para catalogar a papelada perdida da Criação. Para o meu eu de 5 anos, que ficava encantado por uma única borboleta, andar pelo Museu Field era caminhar pelo Éden e ver tudo o que se passava lá.

Vimos muito naquele dia: as borboletas, com certeza, vitrines e mais vitrines delas, do Brasil, de Madagascar, até uma irmã australiana da minha borboleta azul. O museu era escuro, frio e velho, o que intensificava a sensação de suspensão, de tempo e morte interrompidos dentro de suas paredes. Vimos cristais e pumas, ratos almiscarados e múmias, fósseis e mais fósseis. Fizemos o nosso piquenique no gramado do museu e voltamos para dentro, para ver pássaros, jacarés e neandertais. No fim, eu estava tão cansado que mal me aguentava em pé, mas não suportava a ideia de ir embora. Os guardas chegaram e delicadamente nos acompanharam até as portas; eu me esforçava para não chorar, mas assim mesmo chorei, de exaustão e vontade de ficar. Papai me pegou no colo, e voltamos para o carro. Adormeci no banco de trás. Quando acordei, estávamos em casa, na hora do jantar.

Comemos lá embaixo, no apartamento do casal Kim. Eles eram os nossos senhorios coreanos. O sr. Kim era um homem grosseiro e atarracado que parecia gostar de mim, mas nunca falava muito. A sra. Kim (Kimy, meu apelido para ela) era minha amiga, minha babá maluca que jogava cartas. Eu passava a maior parte do tempo em que estava acordado com Kimy. Minha mãe nunca foi muito boa cozinheira, e Kimy era capaz de produzir com estilo qualquer coisa, de suflê a bi bim bop. Hoje, para o meu aniversário, ela havia feito pizza e bolo de chocolate.

Comemos. Todo mundo cantou “Parabéns pra você” e eu soprei as velas. Não me lembro qual foi o pedido que fiz. Fui autorizado a ficar acordado até mais tarde do que o normal, porque ainda estava empolgado com todas as coisas que tínhamos visto, e porque tinha dormido muito no carro. Sentei na varanda dos fundos de pijama com meus pais e o sr. e a sra. Kim. Fiquei bebendo limonada e vendo o azul do céu do anoitecer, escutando as cigarras e os ruídos de tevê dos outros apartamentos. Finalmente, papai disse:

— Hora de ir para a cama, Henry. — Escovei os dentes, rezei e fui para a cama. Eu estava exausto, mas sem sono nenhum. Papai leu um pouco para mim, e então, vendo que eu ainda não conseguia dormir, ele e mamãe apagaram as luzes, deixaram a porta semiaberta e foram para a sala. O trato era: eles tocavam para mim o tempo que eu quisesse, mas eu tinha de ficar na cama ouvindo. Então mamãe sentou ao piano, papai tirou o violino da caixa, e eles tocaram e cantaram por muito tempo. Canções de ninar, lieder, noturnos, músicas sonolentas para acalmar o menino selvagem no quarto. Finalmente, mamãe veio ver se eu estava dormindo. Eu devia parecer pequeno e alerta na minha caminha, um animal noturno de pijama.

— Ah, neném. Ainda acordado?

Fiz que sim com a cabeça.

— Papai e eu vamos para a cama. Você está bem?

Respondi que sim e ela me deu um abraço.

— Foi bem emocionante hoje no museu, hein?

— A gente pode voltar amanhã?

— Amanhã, não, mas vamos voltar logo, de verdade, está bem?

— Está.

— Boa-noite. — Ela deixou a porta aberta e apagou a luz do corredor. — Durma bem. Cuidado com o bicho-papão.

Ouvi pequenos ruídos, água correndo, a descarga do vaso. Então tudo ficou quieto. Saí da cama e me ajoelhei à frente da janela. Eu via luzes na casa ao lado, e, em algum lugar, passou um carro com o rádio aos berros. Fiquei ali um pouco, tentando me sentir sonolento. Quando me levantei, tudo mudou.

Sábado, 2 de janeiro de 1988, 4h03/domingo, 16 de junho de 1968, 22h46

(Henry tem 24 e 5 anos)

HENRY: São 4h03 de uma manhã de janeiro extremamente gelada e acabo de chegar em casa. Saí para dançar e estou só meio embriagado, mas absolutamente exausto. Quando me enrolo com as chaves no corredor iluminado, caio de joelhos, tonto e nauseado, e aí estou no escuro, vomitando num chão de ladrilhos. Levanto a cabeça e vejo um sinal de saída aceso em vermelho. Quando meus olhos se acostumam, vejo tigres, homens das cavernas com lanças compridas, mulheres das cavernas usando peles recatadas, cachorros com jeito de lobo. Meu coração dispara, e por um bom tempo de confusão por conta do álcool, penso: Puta merda, voltei à Idade da Pedra, até me dar conta de que placas de saída costumam ser sinais do século XX. Levanto, tremendo, e me aventuro para a porta, o ladrilho gelado embaixo dos meus pés descalços, arrepiado e com todos os cabelos em pé. O silêncio é absoluto. O ar é frio e úmido por causa da refrigeração. Chego à entrada e olho para dentro da sala seguinte, cheia de vitrines. O clarão da luz da rua através das janelas altas me mostra milhares de besouros. Estou no Museu Field, Deus seja louvado. Fico imóvel e respiro fundo, tentando clarear as ideias. Alguma coisa aí desperta uma lembrança em minha mente confusa. Eu tento puxar essa memória à força. Deveria fazer alguma coisa. Sim. Quando fiz 5 anos... havia alguém lá, e estou prestes a ser esse alguém... Preciso de roupas. Sim. De fato.

Saio correndo pela sala dos besouros, entro no corredor comprido que divide o segundo andar e desço a escada oeste para o primeiro, agradecido por estar na era anterior aos detectores de movimento. Os grandes elefantes surgem ameaçadores, iluminados pelo luar. Aceno para eles a caminho da lojinha de presentes à direita da entrada principal. Rondo as mercadorias e encontro alguns artigos promissores: um abridor de cartas de enfeite, um marcador de livro com o emblema do Field e duas camisetas com imagem de dinossauros. As fechaduras nas vitrines são uma brincadeira; abro com um grampo que acho ao lado da caixa registradora e me sirvo. Tudo bem. Tornar a subir para o terceiro andar. Este andar é o “sótão” do Field, onde ficam os laboratórios; os funcionários têm suas salas aí. Leio os nomes nas portas, mas nenhum deles me sugere coisa alguma; finalmente, escolho ao acaso e deslizo meu marcador de livros ao longo da fechadura até a lingueta ser empurrada para trás. Estou dentro.

O ocupante desta sala, um tal V. M. Williamson, é um cara muito desordeiro. A sala está atulhada de papéis, copos de café e cigarros transbordando de cinzeiros; há um esqueleto de cobra parcialmente articulado em sua mesa. Examino rapidamente a baderna à procura de roupas e não encontro nada. A sala seguinte pertence a uma mulher, J. F. Bettley. Na terceira tentativa, dou sorte. D. W. Fitch tem um terno completo pendurado com cuidado no cabideiro. A roupa até que me serve, embora fique um pouco curta nos braços e nas pernas e larga no peito. Visto uma das camisetas de dinossauro por baixo do paletó. Estou descalço, mas decente. D. W. também mantém um pacote fechado de biscoito Oreo na mesa, bendito seja. Tomo posse dele e saio, fechando a porta cuidadosamente ao passar.

Onde eu estava, quando me vi? Fecho os olhos e a fadiga me toma por completo, me acariciando com seus dedos relaxantes. Estou quase dormindo em pé, mas me controlo. Eis que me dou conta: o vulto de um homem vindo em minha direção, iluminado pelas portas da frente do museu. Preciso voltar à Grande Galeria.

Quando chego lá, está tudo calmo e sossegado. Caminho pelo centro da galeria, tentando lembrar a visão das portas. Sento perto da chapelaria, pronto para entrar em cena. Ouço o sangue correndo dentro da cabeça, o sistema de ar condicionado zumbindo, carros passando na Lake Shore Drive. Como dez Oreos, devagar, separando delicadamente cada um, raspando o recheio com os dentes da frente, mordiscando as metades de chocolate para fazê-las render. Não tenho ideia de que horas sejam, nem de quanto tempo tenho de esperar. Estou quase totalmente sóbrio agora, e razoavelmente alerta. O tempo passa, nada acontece. Afinal: ouço um baque suave, uma arfada. Silêncio. Eu espero. Levanto, sem fazer barulho, e entro na galeria, caminhando devagar pela luz oblíqua que corta o piso de mármore. Fico parado no centro das portas e chamo, sem gritar:

— Henry.

Nada. Bom garoto, desconfiado e calado. Tento de novo.

— Tudo bem, Henry. Sou seu guia, estou aqui para mostrar o museu para você. É uma visita especial. Não tenha medo, Henry.

Ouço um ruído bem fraquinho.

— Trouxe uma camiseta para você, Henry. Para você não sentir frio enquanto vemos os objetos expostos. — Consigo perceber onde ele está, parado onde começa a penumbra. — Aqui. Pega. — Jogo a camiseta para ele e ela desaparece. Ele chega à área iluminada, com a camiseta batendo nos joelhos. Eu com 5 anos, cabelo preto espetado, muito branquelo, com olhos castanhos quase eslávicos, magro, esperto. Aos cinco anos, sou feliz, protegido por uma vida normal e pelos braços de meus pais. Tudo mudou, começando a partir de agora.

Avanço devagar, inclino meu corpo em sua direção e falo baixinho:

— Oi. Prazer em ver você, Henry. Obrigado por vir hoje.

— Onde estou? Quem é você? — A voz dele é suave e aguda, e ecoa um pouco na pedra fria.

— Você está no Museu Field. Fui enviado aqui para te mostrar algumas coisas que não dá para ver de dia. Meu nome também é Henry. Não é engraçado?

Ele faz que sim com a cabeça.

— Quer um biscoito? Eu sempre gosto de comer biscoito quando estou visitando um museu. Estimula os outros sentidos. — Ofereço o pacote de Oreos. Ele hesita, sem saber se pode; com fome, mas sem saber quantos pode pegar sem ser mal-educado. — Pegue quantos quiser. Já comi dez, então você tem que correr atrás do prejuízo. — Ele pega três. — Tem alguma coisa que você gostaria de ver primeiro? — Ele faz que não com a cabeça. — Então pronto. Vamos subir ao terceiro andar; é lá que eles guardam tudo que não está exposto. Tudo bem?

— Tudo.

Subimos a escada no escuro. Ele não anda muito depressa, então subo devagar ao lado dele.

— Cadê mamãe?

— Está em casa, dormindo. Esta é uma visita especial, só para você, porque é seu aniversário. Além do mais, os adultos não fazem esse tipo de coisa.

— Você não é adulto?

— Sou um adulto extremamente fora do comum. Meu trabalho é ter aventuras. Então, naturalmente, quando soube que você queria voltar logo ao Museu Field, na mesma hora aproveitei a oportunidade de mostrá-lo a você.

— Mas como cheguei aqui?

Ele para no alto da escada e olha para mim totalmente confuso.

— Bom, é segredo. Se eu te contar, você vai ter que jurar não dizer nada a ninguém.

— Por quê?

— Porque ninguém iria acreditar em você. Você pode contar a mamãe ou a Kimy se quiser, mas só. Está bem?

— Está...

Fico de joelhos em frente a ele, meu eu inocente, e olho em seus olhos.

— Jura por tudo o que é mais sagrado?

— A-hã.

— Tudo bem. O negócio é o seguinte: você viajou no tempo. Estava no seu quarto e, de repente, pumba! Você está aqui, e como não é muito tarde da noite, temos bastante tempo para ver tudo antes de você ter que ir para casa. — Ele está calado e com olhar de dúvida. — Isso faz sentido?

— Mas... por quê?

— Bom, ainda não descobri. Te conto quando souber. Enquanto isso, temos que ir andando. Biscoito?

Ele pega um e caminhamos devagar pelo corredor. Decido experimentar.

— Vamos tentar esta. — Abro uma porta marcada 306 com o marcador de livro. Quando acendo a luz, há pedras do tamanho de abóboras pelo chão todo, inteiras e cortadas ao meio, irregulares por fora e cheias de veios de metal por dentro. — Ih, olhe, Henry. Meteoritos.

— O que são meteritos?

— Pedras que caem do espaço. — Ele me olha como se eu fosse do espaço. — Vamos tentar outra porta? — Ele faz que sim com a cabeça. Fecho a sala dos meteoritos e tento a porta em frente. Esta sala está cheia de pássaros. Pássaros em voo simulado, pássaros eternamente empoleirados em galhos, cabeças de pássaros, peles de pássaros. Abro uma das centenas de gavetas. Ela contém 12 tubos de vidro, cada um com um passarinho dourado e preto com o nome enrolado no pé. Os olhos de Henry estão arregalados. — Quer tocar num?

— A-hã.

Tiro o chumaço de algodão da boca do tubo e balanço até um pintassilgo cair na palma da minha mão. Ele permanece com o formato do tubo. Henry acaricia sua cabecinha, com carinho.

— Ele está dormindo?

— Mais ou menos.

Ele me olha irritado, desconfiando da minha resposta ambígua. Enfio o pintassilgo de volta no tubo com delicadeza, reponho o algodão, reponho o tubo e fecho a gaveta. Estou muito cansado. Até mesmo a palavra dormir é uma isca, uma sedução. Vou à frente até o corredor e, de repente, me lembro do que eu gostava nessa noite quando eu era pequeno.

— Ei, Henry. Vamos para a biblioteca.

Ele dá de ombros. Agora ando depressa, e ele corre para acompanhar. A biblioteca fica no terceiro andar, na ponta leste do prédio. Quando chegamos lá, fico parado um minuto, encarando as fechaduras. Henry me olha, como se fosse dizer: “bem, é isso aí”. Apalpo meus bolsos e acho o abridor de cartas. Arranco o cabo de madeira, e pronto! Tenho ali um bom pino de metal comprido e fino. Enfio metade dele na fechadura e giro para sentir. Ouço as linguetas se mexendo, e, depois de girar ao contrário, voltando à posição inicial, enfio a outra metade. Uso meu marcador de livro na outra fechadura e pronto, Abre-te Sésamo!

Finalmente, meu companheiro está bastante impressionado.

— Como fez isso?

— Não é difícil. Vou te ensinar outra hora. Entrez! — Seguro a porta e ele entra. Acendo a luz e a Sala de Leitura de repente ganha vida com suas pesadas mesas e cadeiras de madeira, seu carpete marrom e a Seção de Referência ameaçadora e enorme. A biblioteca do Museu Field não é projetada para seduzir crianças de cinco anos. É uma biblioteca fechada, usada por cientistas e estudiosos. Há fileiras de estantes na sala, mas elas guardam principalmente revistas vitorianas encadernadas em couro. O livro que procuro está numa enorme vitrine de vidro e carvalho sozinha no meio da sala. Forço a fechadura com meu grampo de cabelo e abro a porta de vidro. Realmente, o Field devia levar a segurança mais a sério. Não me sinto muito mal em fazer isso; afinal de contas, sou um bibliotecário de boa-fé, dou aulas na Newberry o tempo todo. Vou para trás da Seção de Referência, encontro um pedaço de feltro e algumas almofadas de apoio, e disponho essas coisas na mesa mais próxima. Então fecho o livro, tiro cuidadosamente da estante e ponho em cima do feltro. Puxo uma cadeira.

— Aqui, suba nesta cadeira para poder ver melhor.

Ele sobe e eu abro o livro.

É o Birds of America de Audubon, a edição de luxo que é quase do tamanho do meu eu jovem. Este exemplar é o melhor que existe. Já passei muitas tardes chuvosas a admirá-lo. Abro na primeira gravura, e Henry sorri, olhando para mim.

— “Mergulhão-do-norte” — lê. — Parece um pato.

— É, parece. Aposto que posso adivinhar qual é seu pássaro preferido.

Ele balança a cabeça e ri.

— O que você aposta?

Ele se olha com a camiseta do Tyrannosaurus rex e encolhe os ombros. Sei como é.

— Que tal assim: se eu adivinhar, você come um biscoito, e se eu não conseguir adivinhar, você come um biscoito?

Ele reflete e decide que não tem nada a perder. Abro o livro no Flamingo. Henry ri.

— Estou certo?

— Sim!

É fácil ser onisciente quando já se passou por tudo aquilo antes.

— Tudo bem, cá está o seu biscoito. E eu ganho um por ter acertado. Mas temos que economizar até a gente terminar de ver o livro; não queremos encher os azulões de migalhas, certo?

— Certo! — Ele coloca o Oreo no braço da cadeira. Começamos novamente do início, passando devagar as páginas dos pássaros, tão mais vivos que os de verdade em tubos de ensaio na galeria.

— Essa aqui é uma garça azul gigante. É grande mesmo, maior que um flamingo. Você já viu um beija-flor?

— Vi uns hoje!

— Aqui no museu?

— A-hã.

— Espere até ver um lá fora. Parecem pequenos helicópteros, batem as asas tão depressa que a gente só vê um borrão... — Virar cada página é como fazer uma cama, uma extensão enorme de papel sobe lentamente e passa para o outro lado. Henry fica parado, atento, aguardando cada nova surpresa. Ele solta pequenos sons de alegria para cada grou canadense, cada frango-d’água americano, cada pinguim gigante, cada pica-pau-de-cabeça-vermelha. Quando chegamos à última gravura, trigueirão da neve, ele se debruça e toca a página, afagando o desenho com delicadeza. Olho para ele, olho para o livro e me lembro desse momento, do primeiro livro que amei. Lembro de querer entrar dentro dele e dormir.

— Está cansado?

— A-hã.

— Vamos embora?

— Tudo bem.

Fecho Birds of America e devolvo o livro à sua casa de vidro. Abro na página do flamingo e fecho a vitrine ao passar a tranca. Henry pula da cadeira e come seu Oreo. Devolvo o feltro à Seção de Referência e empurro a cadeira para o lugar. Henry apaga a luz, e saímos da biblioteca.

Andamos para lá e para cá, batendo um papo agradável sobre coisas que voam e rastejam enquanto comemos nossos Oreos. Henry me conta que está aprendendo a fazer lasanha com a sra. Kim. Fala sobre mamãe e papai e Brenda, que eu tinha esquecido. Ela era minha melhor amiga de infância até a família dela se mudar para Tampa, Flórida, daqui a uns três meses. Paramos à frente do Bushman, o lendário gorila empalhado que nos encara do pequeno pedestal de mármore numa galeria do primeiro andar. Henry dá um grito e tropeça em minha direção, tentando me pegar. Eu o agarro, mas ele some. A camiseta é um pano quente e vazio em minhas mãos. Suspiro e subo a escada para refletir sozinho, na companhia das múmias. Meu eu jovem agora estará em casa, indo para a cama. Eu me lembro, eu me lembro. Acordei de manhã e foi tudo um sonho maravilhoso. Mamãe riu, dizendo que viagem no tempo parecia ser uma coisa divertida e que queria tentar também.

Essa foi a primeira vez.

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