A mulher do viajante no tempo
Lições de Sobrevivência
Quinta-feira, 7 de junho de 1973 (Henry tem 27 e 9 anos)
HENRY: Estou parado em frente ao Art Institute de Chicago num dia ensolarado de junho em 1973 com meu eu de 9 anos. Ele vem da próxima quarta-feira; eu venho de 1990. Temos uma tarde e uma noite para fazer as bobagens que quisermos, então viemos a um dos grandes museus de arte do mundo para uma aulinha de bater carteiras.
— Não dá para a gente ficar só vendo arte? — implora Henry. Ele está nervoso. Nunca fez isso antes.
— Não. Você precisa aprender a técnica. Como vai sobreviver sem saber roubar nada?
— Pedindo esmola.
— Pedir esmola é um saco, e você é levado pela polícia a toda hora. Agora, olhe: quando a gente entrar lá, quero que você fique longe de mim e finja que não me conhece. Mas fique perto o suficiente para ver o que estou fazendo. Se eu te entregar alguma coisa, não deixa cair e põe no bolso o mais depressa possível. Certo?
— Acho que sim. Podemos ver o São Jorge?
— Claro.
Atravessamos a Michigan Avenue e caminhamos entre estudantes e donas de casa tomando sol na escadaria do museu. Henry toca num dos leões de bronze na passagem.
Me sinto um pouco mal em relação a isso tudo. De um lado, estou me ensinando habilidades de sobrevivência que preciso com urgência. Outras aulas nesta série incluem Roubar Lojas, Dar Porrada, Arrombar Fechaduras, Escalar Árvores, Dirigir, Invadir Domícilios, Pular em Caçambas de Lixo, e Como Usar Coisas Esquisitas Tipo Venezianas e Tampas de Lixeira Como Armas. De outro, estou corrompendo meu pobre pequeno eu inocente. Suspiro. É um trabalho sujo, mas alguém precisa fazer isso.
É dia de entrada grátis, então o museu está infestado de gente. Ficamos na fila, passamos a entrada e subimos lentamente a grandiosa escadaria central. Entramos nas Galerias Europeias e recuamos da Holanda do século XVII à Espanha do século XV. O São Jorge está a postos, como sempre, pronto para transpassar o dragão com sua lança delicada enquanto a princesa vestida de rosa e verde espera recatadamente em segundo plano. O meu eu e eu gostamos sinceramente do dragão de papo amarelo, e sempre é um alívio para a gente ver que ainda não chegou sua hora final.
Henry e eu ficamos cinco minutos parados na frente do quadro de Bernardo Martorell, depois ele se vira para mim. A galeria é só nossa nesse momento.
— Não é tão difícil — digo. — Preste atenção. Procure alguém que esteja distraído. Imagine onde está a carteira. Quase todos os homens usam ou no bolso traseiro ou no bolso interno do paletó. Com as mulheres, você quer a bolsa atrás das costas delas. Se estiver na rua, você pode simplesmente pegar a bolsa toda, mas aí tem que ter certeza de que pode correr mais do que qualquer um que decida correr atrás de você. É muito mais tranquilo se conseguir bater a carteira sem ninguém notar.
— Vi um filme onde eles treinavam com uma roupa com sininhos pendurados e se o cara mexesse a roupa enquanto pegava a carteira, os sininhos tocavam.
— É, eu me lembro desse filme. Você pode tentar isso em casa. Agora me siga.
Conduzo Henry do século XV ao XIX; chegamos de repente no meio do Impressionismo francês. O Art Institute é famoso por sua coleção impressionista. É pegar ou largar, mas, como de hábito, essas salas estão cheias de gente espichando o pescoço para ver de relance o La Grande Jatte ou um Monte de Feno de Monet. Henry perde a vista dos quadros por não conseguir ver por cima das cabeças dos adultos. De qualquer forma, está nervoso demais para olhá-los. Examino a sala. Há uma mulher inclinada sobre seu bebê enquanto ele grita e se contorce. Deve ser hora da soneca. Faço um sinal positivo de cabeça para Henry e me dirijo para ela. Sua bolsa tem um fecho simples e está a tiracolo. A mãe está totalmente concentrada em fazer o filho parar de berrar. Está em frente ao No Moulin Rouge de Toulouse Lautrec. Finjo olhar o quadro enquanto ando e esbarro nela. Eu pego seu braço quando ela cai para frente.
— Perdão, sinto muito, eu não vi, a senhora está bem? Está tão cheio aqui... — Minha mão está em sua bolsa. Ela está perturbada, tem olhos escuros e cabelo comprido, busto grande e ainda tenta perder o peso que ganhou na gravidez. Ainda me desculpando, olho nos olhos dela quando encontro sua carteira, que sobe pela manga do meu casaco. Encaro a mulher de cima a baixo, recuo, me viro e caminho. Dou uma olhada para trás e vejo que ela pegou o menino no colo e ainda me olha, meio desesperada. Sorrio e vou andando. Henry me segue quando desço a escada para o Junior Museum. Nós nos encontramos perto do banheiro masculino.
— Foi estranho — disse Henry. — Por que ela olhou para você assim?
— Ela se sente sozinha — suavizo. — Talvez o marido não esteja muito presente.
Entramos em um reservado e abro a carteira. O nome dela é Denise Radke. Ela mora em Villa Park, Illinois. É sócia do museu e antiga aluna da Roosevelt University. Leva 22 dólares em espécie, mais moedas. Mostro tudo isso a Henry, em silêncio, fecho a carteira e entrego para ele. Saímos do banheiro masculino e nos dirigimos à entrada do museu.
— Dê isso à segurança. Diga que achou no chão.
— Por quê?
— A gente não precisa; eu só estava fazendo uma demonstração. — Henry corre para a segurança, uma negra idosa que sorri e dá uma espécie de meio abraço em Henry. Ele volta devagar, e vamos andando mantendo uma distância de 3 metros entre nós. Eu vou à frente, pelo comprido corredor escuro cheio de cartazes que algum dia abrigará as Artes Decorativas e dará acesso à Ala Rice. Procuro alvos fáceis, e bem à minha frente está o sonho de qualquer batedor de carteiras. Baixo, gordo e queimado de sol, ele parece que errou o caminho do Wrigley Field com aquele boné de beisebol e aquelas calças de poliéster com camisa esporte de manga curta. Está dando uma aula de Vincent Van Gogh para a namorada tímida.
— Então ele corta a orelha e dá para a namorada... ei, o que você ia achar de um presente desses, hein? Uma orelha! Bom, então botam ele no hospício...
Não tenho escrúpulos em relação a esse. Ele continua andando, falando alto e completamente aéreo, com a carteira no bolso traseiro esquerdo. Tem uma pança grande e quase bunda nenhuma. A carteira está pedindo para que eu a pegue. Vou andando devagar atrás deles. Henry tem uma visão clara quando eu enfio com destreza o polegar e o indicador no bolso do alvo para soltar a carteira. Eles continuam andando enquanto fico para trás. Passo a carteira a Henry, que mete nas calças enquanto sigo em frente.
Mostro a Henry algumas outras técnicas: como tirar uma carteira do bolso interno de um paletó; como evitar que sua mão seja vista enquanto está dentro de uma bolsa de mulher; seis maneiras de distrair a pessoa que você está roubando; como tirar uma carteira de dentro de uma mochila; e como fazer alguém lhe mostrar inadvertidamente onde está seu dinheiro. Ele está mais relaxado agora, até começa a gostar da coisa. Finalmente, digo:
— Tudo bem, agora você tenta.
Ele fica instantaneamente paralisado de medo.
— Não posso.
— Claro que pode. Olhe em volta. Encontre alguém. — Estamos na Sala das Estampas Japonesas. Está cheio de velhinhas.
— Aqui não.
— Tudo bem, onde?
Ele pensa um instante.
— No restaurante?
Caminhamos em silêncio para o restaurante. Lembro de tudo isso como se fosse hoje. Eu estava completamente apavorado. Olho para meu eu e, claro, a cara dele está branca de medo. Estou rindo, porque sei o que vem depois. Estamos no fim da fila do restaurante do jardim. Henry olha em volta, pensando.
Na nossa frente, na fila, há um homem de meia-idade muito alto com um terno marrom leve de belo corte; é impossível ver onde está a carteira. Henry aproxima-se dele, levando na mão uma das carteiras que bati antes.
— Senhor? É sua? — diz Henry baixinho. — Estava no chão.
— Hein? Ah, hmm, não. — O homem confere o bolso traseiro direito das calças e vê que a carteira está segura. Inclina-se para Henry a fim de ouvi-lo melhor e pega a carteira de Henry para abrir.
— Nossa, você devia levar isso para os seguranças. Hum, tem um bom dinheiro aí, sim. — O homem usa óculos grossos e espia Henry através deles enquanto fala. Henry mete a mão embaixo do paletó do homem e rouba a carteira. Já que Henry está com uma camiseta de manga curta, vou andando atrás dele para que me passe a carteira. O homem alto de terno marrom aponta para a escada, explicando a Henry como devolver a carteira. Henry segue na direção indicada, e eu acompanho até ultrapassá-lo. Faço Henry sair atrás de mim pela porta da Michigan Avenue, passando pelos seguranças, e virar para sul. Rindo feito o diabo, acabamos no Artists Café, onde tomamos milk-shakes com batatas fritas bancados com parte de nossos ganhos ilícitos. Depois, jogamos todas as carteiras numa caixa de correio, sem o dinheiro, e arranjo um quarto para nós na Palmer House.
— E aí? — pergunto, sentado na borda da banheira vendo Henry escovar os dentes.
— Ú-ê? — responde Henry com a boca cheia de pasta.
— O que acha?
Ele cospe.
— De quê?
— Bater carteira.
Ele me olha no espelho.
— É legal. — Ele se vira e olha diretamente para mim. — Eu consegui! — Dá um sorriso largo.
— Você foi sensacional!
— É! — o sorriso murcha. — Henry, eu não gosto de viajar no tempo sozinho. É melhor com você. Não dá para você sempre vir comigo?
Ele está de costas para mim, e nos olhamos no espelho. Pobre pequeno eu: nessa idade minhas costas são magras e minhas omoplatas se projetam como asas que não nasceram. Ele se vira, esperando uma resposta, e sei o que tenho que dizer a ele — a mim. Estendo a mão e viro Henry com delicadeza até ficar junto de mim, de modo que estamos lado a lado, as cabeças no mesmo nível, viradas para o espelho.
— Olhe.
Estudamos nossos reflexos, lado a lado no banheiro decorado de dourado da Palmer House. Nosso cabelo tem o mesmo castanho-escuro, nossos olhos oblíquos são idênticos, escuros e com olheiras de cansaço, temos réplicas exatas das orelhas um do outro. Sou mais alto, mais musculoso e faço barba. Ele é mais magro e desajeitado. É todo joelhos e cotovelos. Afasto o cabelo do rosto, mostro para ele a cicatriz do acidente. Inconscientemente, ele imita meu gesto, toca a mesma cicatriz em sua testa.
— É igualzinha à minha — diz meu eu, espantado. — Como você arranjou?
— Do mesmo jeito que você. É a mesma. Somos o mesmo.
Um momento de clareza. Não entendi, e aí, de repente, entendi. Vejo a coisa acontecer. Quero ser nós dois ao mesmo tempo, tenho de novo a sensação de perder os limites do meu eu, de ver a mistura do futuro e do presente pela primeira vez. Mas estou muito acostumado com isso, então fico de fora, lembrando a maravilha de ter nove anos e de repente ver e saber que meu amigo, meu guia, meu irmão era eu. Eu, só eu. A solidão da situação.
— Você sou eu.
— Quando for mais velho.
— Mas... e os outros?
— Outros viajantes do tempo?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Acho que não tem nenhum. Quer dizer, nunca conheci.
Uma lágrima cresce no seu olho esquerdo. Quando era pequeno, eu imaginava uma sociedade inteira de viajantes do tempo, dos quais meu professor Henry era um emissário, enviado para me treinar para posterior inclusão em sua grande irmandade. Ainda me sinto um excluído, o último membro de uma espécie antes numerosa. Era como se Robinson Crusoé descobrisse que a pegada reveladora na praia era a sua. Meu eu, pequeno e frágil como uma folha, começa a chorar. Abraço meu eu, me abraço, por um bom tempo.
Mais tarde, pedimos chocolate quente ao serviço de quarto e assistimos a Johnny Carson. Henry adormece com a luz acesa. Quando o programa termina, olho para ele, mas ele sumiu. Henry está de volta ao meu velho quarto no apartamento de meu pai, caindo de sono em minha antiga cama, agradecido. Desligo a tevê e a lâmpada da mesa de cabeceira. Barulhos de rua de 1973 entram pela janela aberta. Quero ir para casa. Estou deitado na cama de hotel dura, abandonado e sozinho. Ainda não entendo.
Domingo, 10 de dezembro de 1978 (Henry tem 15 e 15 anos)
HENRY: Estou no meu quarto com meu eu. Ele chegou do próximo mês de março. Estamos fazendo o que fazemos muito quando temos um pouco de privacidade, quando faz frio lá fora, quando nós dois já passamos a puberdade e ainda não conseguimos bem arranjar garotas de verdade. Acho que quase todo mundo faria isso, se tivesse o tipo de oportunidades que tenho. E não que eu seja gay nem nada.
É domingo quase meio-dia. Ouço os sinos tocando na St. Joe. Papai chegou tarde em casa ontem. Acho que deve ter parado no Exchequer depois do concerto. Estava tão bêbado que caiu na escada e tive de arrastá-lo para casa e botá-lo na cama. Ele tosse e escuto seus passos pela cozinha.
Meu outro eu parece distraído; fica olhando para a porta.
— O quê? — pergunto para ele.
— Nada — diz ele. Levanto e verifico a fechadura.
— Não — diz ele. Parece estar fazendo um esforço enorme para falar.
— Entre — digo.
Ouço o passo pesado de papai em frente à minha porta.
— Henry? — diz ele. A maçaneta gira devagar e de repente me dou conta de que, por distração, destranquei a porta. Henry pula para trancá-la, mas é tarde demais: papai mete a cabeça dentro do quarto e lá estamos nós, in flagrante delicto.
— Ah — diz. Seus olhos estão arregalados e ele parece completamente enojado. — Meu Deus, Henry. — Ele fecha a porta e ouço seus passos voltando para o quarto dele. Dou um olhar de reprovação para meu eu ao vestir um jeans e uma camiseta. Vou ao quarto de papai no fim do corredor. Sua porta está fechada. Bato. Nada de resposta. Espero.
— Papai? — Silêncio. Abro a porta, fico parado no portal. — Papai? — Ele está sentado de costas para mim, na cama dele. Continua sentado e fico parado ali um pouco, mas não consigo me fazer entrar no quarto. Finalmente, fecho a porta e volto para o meu quarto.
— A culpa foi só sua — digo severamente ao meu eu. Ele está de jeans, sentado na cadeira com as mãos na cabeça. — Você sabia, você sabia o que ia acontecer e não disse uma palavra. Onde está seu instinto de sobrevivência? Que diabo há de errado com você? O que adianta conhecer o futuro se você não consegue pelo menos nos proteger de ceninhas humilhantes...
— Cala a boca — diz Henry com uma voz rouca. — Cala a boca.
— Não calo — digo, levantando a voz. — Quer dizer, você só tinha que falar...
— Escuta. — Ele olha para mim com resignação. — Foi como... foi como aquele dia no ringue de patinação.
— Ai. Merda. — Há uns dois anos, vi uma garotinha levar com um taco de hóquei na cabeça no Indian Head Park. Foi horrível. Depois descobri que ela morreu no hospital. E aí comecei a viajar no tempo voltando àquele dia, muitas vezes, e queria avisar à mãe dela, e não conseguia. Era como estar na plateia assistindo a um filme. Era como ser um fantasma. Eu berrava: Não, leve-a para casa, não a deixe perto do gelo, leve-a embora, ela vai se machucar, ela vai morrer, e via que as palavras estavam só na minha cabeça, e tudo seguiria como antes.
Henry diz:
— Você fala em mudar o futuro, mas para mim, isso é o passado, e até onde posso dizer, não há nada que eu possa fazer a respeito. Quer dizer, eu tentei, e foi a tentativa que fez aquilo acontecer. Se eu não tivesse dito alguma coisa, você não teria se levantado...
— Então por que você disse?
— Porque sim. Você vai dizer, espere só. — Ele dá de ombros. — É igual ao que houve com mamãe. O acidente. Immer wieder. — Sempre de novo, sempre a mesma coisa.
— Livre-arbítrio?
Ele se levanta, vai até a janela, fica olhando por cima do quintal dos Tatingers.
— Eu estava falando nisso agora mesmo com um eu de 1992. Ele disse uma coisa interessante: disse que acha que só existe livre-arbítrio quando se está no tempo presente. Diz que, no passado, só podemos fazer o que fizemos, e só podemos estar lá se tivermos estado lá.
— Mas seja qual for o tempo em que eu esteja, ele é o meu presente. Eu não devia ser capaz de decidir...?
— Não. Aparentemente, não.
— O que ele disse em relação ao futuro?
— Bom, pense. Você vai para o futuro, faz alguma coisa e volta ao presente. Aí, o que você fez é parte do seu passado. Então, provavelmente também é inevitável.
Sinto uma combinação sinistra de liberdade e desespero. Estou suando; ele abre a janela e o ar frio preenche o quarto.
— Mas então não sou responsável por nada que faço enquanto não estou no presente.
Ele sorri.
— Graças a Deus.
— E tudo já aconteceu.
— Parece que sim. — Ele passa a mão no rosto, e vejo que está precisando se barbear. — Mas ele disse que você tem que se comportar como se tivesse livre-arbítrio, como se fosse responsável pelo que faz.
— Por quê? Por que isso é importante?
— Aparentemente, se não se comportar assim, a situação fica ruim. Deprimente.
— Ele sabia disso pessoalmente?
— Sabia.
— Então o que acontece em seguida?
— Papai passa três semanas fingindo que você não existe. E isso — ele faz um gesto indicando a cama — a gente tem que parar de se encontrar assim. — Suspiro.
— Certo, não tem problema. Mais alguma coisa?
— Vivian Teska.
Vivian é uma garota da aula de geometria que eu sou a fim. Nunca falei com ela.
— Amanhã depois da aula, chama a Vivian para sair.
— Eu nem a conheço.
— Confie em mim. — Ele está rindo para mim de um jeito que me faz considerar por que cargas d’água eu confiaria nele, mas quero acreditar.
— Tudo bem.
— Tenho que ir andando. Dinheiro por favor. — Descolo vinte dólares para ele. — Mais. — Ofereço mais vinte.
— É tudo que tenho.
— Tudo bem. — Ele está se vestindo, tirando roupas de uma pilha de coisas que não me importo de não ver nunca mais. — Que tal um casaco? — Ofereço um suéter de esqui peruano que sempre odiei. Ele veste após fazer uma cara feia. Caminhamos para a porta dos fundos do apartamento. Os sinos da igreja anunciam o meio-dia.
— Tchau — diz meu eu.
— Boa sorte — digo, sentindo uma emoção estranha ao ver meu eu saindo para o desconhecido, para uma fria manhã de domingo em Chicago que não é o lugar dele. Ele desce a escada de madeira com passos pesados, e eu volto ao apartamento silencioso.
Quarta-feira, 17 de novembro/terça-feira, 28 de setembro de 1982
(Henry tem 19 anos)
HENRY: Estou no banco traseiro de um carro de polícia em Zion, Illinois. Estou de algemas e mais nada. O interior dessa viatura cheira a cigarro, couro, suor e alguma outra coisa que é típica de carros de polícia. Cheiro de muita doideira, talvez. Meu olho esquerdo fechou de tão inchado. A frente do corpo está toda machucada e suja porque fui derrubado pelo maior dos dois policiais num terreno baldio cheio de cacos de vidro. Os policiais estão fora do carro falando com os vizinhos. Um deles com certeza me viu tentando entrar na casa vitoriana branca onde estou parado em frente. Não sei em que ponto do tempo me encontro. Estou aqui há mais ou menos uma hora. Fiz uma cagada completa. Estou com muita fome. Muito cansado. Eu devia estar no seminário de Shakespeare do dr. Quarrie, mas tenho certeza de que consegui perder. Pena. Estamos fazendo Sonho de Uma Noite de Verão.
As únicas coisas boas deste carro de polícia são: está quente e não estou em Chicago. Os policiais de Chicago me odeiam porque não conseguem entender como desapareço enquanto estou preso. Eles não sabem quem sou, nem onde moro, já que também me nego a falar. Estou ferrado quando descobrirem, pois há vários mandados de prisão impressionantes contra mim: arrombamento de residências, roubo de lojas, resistência à prisão, fuga, invasão de propriedade, atentado ao pudor, roubo, und so weiter. Dá para pensar que eu sou um criminoso incompetente, mas o problema é que é muito difícil ser discreto quando se está nu. Mesmo sendo rápido e furtivo, às vezes não dá certo assaltar residências pelado em plena luz do dia. Já fui preso sete vezes, e até agora sempre sumi antes que pudessem tirar minhas digitais ou uma foto.
Os vizinhos ficam me olhando pela janela do carro da polícia. Não ligo. Não ligo. Isso está demorando muito. Porra, odeio isso. Me recosto e fecho os olhos.
A porta de um carro abre. O ar frio me faz abrir os olhos de repente. Vejo a grade de metal que divide o carro, os bancos de vinil rachados, minhas mãos nas algemas, minhas pernas arrepiadas, o céu chapado através do para-brisa, o quepe no painel, a prancheta na mão do guarda, a cara vermelha dele, com sobrancelhas grisalhas e papada cheia de dobras. Tudo brilha com vários tons de cor como asas de borboleta. O guarda diz “Ei, ele está tendo um ataque” quando me vê batendo queixo sem parar. O carro de polícia some diante dos meus olhos. Estou deitado de costas no meu quintal. Sim. Sim! Encho os pulmões com o doce ar da noite de setembro. Sento e esfrego os pulsos ainda com as marcas das algemas.
Não paro de rir. Escapei de novo! Olhem, Houdini e Próspero! Também sou mágico.
A náusea é mais forte do que eu e vomito nos crisântemos de Kimy.
Sábado, 14 de maio de 1983 (Clare tem quase 12 anos)
CLARE: É aniversário de Mary Christina Heppworth e todas as garotas da quinta série da St. Basil vieram dormir na casa dela. Tem pizza, Coca-Cola e salada de frutas de jantar. A Sra. Heppworth fez um bolo grande em forma de cabeça de unicórnio com Parabéns Mary Christina! em glacê vermelho. A gente canta e Mary Christina sopra as 12 velas de uma vez. Acho que sei qual foi o pedido que ela fez; acho que pediu para não crescer mais. É o que eu pediria se fosse ela, de qualquer forma. Mary Christina é a pessoa mais alta da nossa turma. Tem 1,80m. A mãe dela é mais baixa que ela, mas o pai é muito, muito alto. Helen perguntou a Mary Christina uma vez, e ela disse que ele tem dois metros. Ela é a única menina da família, e os irmãos já têm idade para fazer a barba e são bem altos, também. Eles fazem questão de fingir que a gente não existe e comem bolo à beça. Patty e Ruth dão risinhos quando eles chegam onde estamos. É muito constrangedor. Mary Christina abre os presentes. Dei para ela um suéter verde igualzinho ao meu azul de que ela gostava, com a gola de crochê da Laura Ashley. Depois do jantar, assistimos a O Grande Amor de Nossas Vidas no vídeo e a família Heppworth meio que fica em volta nos olhando até a gente se revezar para trocar o pijama no banheiro do segundo andar e ir todo mundo para o quarto da Mary Christina. Ele é todo cor-de-rosa, até o carpete. A gente tem a sensação de que os pais da Mary Christina ficaram muito felizes de finalmente terem uma menina depois daqueles irmãos todos. Todo mundo trouxe saco de dormir, mas a gente empilha num canto e senta na cama da Mary Christina ou no chão. Nancy tem uma garrafa de licor de menta, e a gente bebe um pouco. Tem um gosto horrível, e parece Vick VapoRub no meu peito. Brincamos de Verdade ou Desafio. Ruth desafia Wendy a correr pelo corredor sem blusa. Wendy pergunta para a Francie qual o tamanho de sutiã da Lexi, a irmã de 17 anos da Francie. (Resposta: 44.) Francie pergunta para a Gayle o que estava fazendo com Michael Plattner na Dairy Queen sábado passado. (Resposta: tomando sorvete. Dãã.) Depois de algum tempo, a brincadeira fica chata porque os desafios acabam logo e a gente sabe muito uma da outra, afinal somos colegas de turma desde o jardim de infância. Mary Christina diz “Vamos jogar o jogo do copo”. Todas concordamos, porque é a festa dela e o jogo é legal. Ela tira o tabuleiro do armário. A caixa está toda amassada. Henry me disse uma vez que foi a uma sessão espírita em que o apêndice da médium estourou no meio do trabalho e tiveram que chamar a ambulância. O tabuleiro só dá mesmo para duas pessoas de uma vez, então Mary Christina e Helen vão primeiro. A regra é que a pessoa tem de perguntar em voz alta o que quer saber, senão não funciona. Cada uma bota o dedo no copo. Helen olha para Mary Christina, que fica indecisa. Nancy diz:
— Pergunta sobre o Bobby. — Então Mary Christina pergunta:
— O Bobby Duxler gosta de mim? — Todo mundo dá risinho. A resposta é não, mas o copo diz sim, com um empurrãozinho da Helen. Mary Christina abre um sorriso tão grande que vejo o aparelho dela todo, em cima e embaixo. Helen pergunta se algum garoto gosta dela. O copo fica rodando um pouco, e aí para em D, A, V.
— David Hanley? — diz Patty, e todo mundo ri. Dave é o único negro na nossa turma. É muito tímido, baixinho e bom em matemática.
— Talvez ele ajude você com divisões grandes — diz Laura, que também é muito tímida. Helen ri. Ela é péssima em matemática.
— Aqui, Clare. É a sua vez e da Ruth. — Tomamos os lugares de Helen e Mary Christina. Ruth me olha e eu dou de ombros.
— Não sei o que perguntar — digo. Todo mundo abafa o riso. Quantas perguntas dá para fazer? Mas há tantas coisas que quero saber. Mamãe vai ficar boa? Por que papai estava gritando com Etta hoje de manhã? Henry é gente de verdade? Onde Mark escondeu o meu dever de francês? Ruth diz:
— Que garotos gostam da Clare? — Olho de cara feia para ela, mas ela apenas sorri. — Não quer saber?
— Não — eu digo, mas de qualquer maneira boto os dedos no copo. Ruth também bota os dedos dela e nada se mexe. Estamos as duas tocando muito de leve, tentando fazer direito e não empurrar. Aí o copo começa a andar, devagar. Fica rodando, depois para no H. Aí vai mais rápido. E, N, R, Y.
— Henry — diz Mary Christina. — Quem é Henry?
— Eu não sei, mas você está vermelha, Clare. Quem é Henry? — Helen pergunta. Eu me limito a balançar a cabeça, como se fosse um mistério para mim, também.
— Você pergunta, Ruth. — Ela pergunta (grande surpresa) quem gosta dela; o copo escreve R, I, C, K. Dá para sentir que ela empurra. Rick é o sr. Malone, nosso professor de ciências, que é gamado na srta. Engle, a professora de inglês. Todo mundo menos Patty ri; Patty é gamada no sr. Malone, também. Ruth e eu ficamos de pé, e Laura e Nancy sentam. Como Nancy está de costas para mim, não vejo a cara dela quando ela pergunta.
— Quem é Henry? — Todo mundo olha para mim e fica no maior silêncio. Observo o tabuleiro. Nada. Quando penso que estou salva, o copo começa a andar. H, diz. Penso que talvez vá escrever Henry de novo; afinal de contas, Nancy e Laura não sabem nada sobre Henry. Nem eu sei tanto
assim sobre Henry. Aí continua: U, S, B, A, N, D. 4 Elas todas me olham.
— Bom, eu não sou casada; só tenho 11 anos.
— Mas quem é Henry? — Laura fica se perguntando.
— Não sei. Talvez seja alguém que ainda não conheci. — Ela faz que sim com a cabeça. Todo mundo está abismado. Estou muito abismada. Marido? Marido?
Quinta-feira, 12 de abril de 1984 (Henry tem 36 anos, Clare, 12)
HENRY: Clare e eu estamos jogando xadrez na área de fazer fogueira no bosque. É um lindo dia de primavera, e o bosque está animado com pássaros namorando e fazendo ninho. A gente está se escondendo da família de Clare, que saiu para passear hoje à tarde. Clare está há algum tempo empacada em sua jogada. Comi a dama dela há três jogadas e agora ela está condenada, mas determinada a lutar até o fim. Ela ergue os olhos.
— Henry, quem é seu Beatle preferido?
— O John, claro.
— Claro por quê?
— Bom, o Ringo é legal, mas meio patético, sabe? E o George é um pouco New Age demais para o meu gosto.
— O que é New Age?
— Religiões excêntricas. Música piegas e chata. Tentativa patética de convencer alguém da superioridade das coisas que vêm da Índia. Medicina não ocidental.
— Mas você não gosta da medicina tradicional.
— É porque os médicos vivem tentando me dizer que sou maluco. Se meu problema fosse um braço quebrado, eu seria um grande fã da medicina ocidental.
— E o Paul?
— O Paul é para mulher.
Clare sorri, timidamente.
— Gosto mais do Paul.
— Bom, você é mulher.
— Por que Paul é para mulher?
Vá com cuidado, digo a mim mesmo.
— Ah, nossa. O Paul é, tipo, o Beatle Bonzinho, sabe?
— Isso é ruim?
— De jeito nenhum. Mas homem se interessa mais em ser bacana, e o John é o Beatle Bacana.
— Ah. Mas ele morreu.
Rio.
— A pessoa pode ter morrido e continuar sendo bacana. Aliás, é muito mais fácil, porque não fica velha nem gorda, nem perde cabelo.
Clare cantarola o início de “When I’m 64”. Anda com a torre cinco casas à frente. Agora posso dar xeque-mate. Quando digo isso para ela, Clare rapidamente desfaz o movimento.
— Então por que gosta do Paul? — pergunto. Olho a tempo de ver Clare ficar muito vermelha.
— Ele é tão... lindo — diz Clare. Alguma coisa no jeito como ela falou isso faz com que eu me sinta estranho. Estudo o tabuleiro e me ocorre que Clare podia me dar xeque-mate se comesse meu bispo com o cavalo. Me pergunto se devo lhe dizer isso. Se ela fosse um pouco menor, eu diria. Doze anos já é idade suficiente para a pessoa se defender sozinha. Clare olha para o tabuleiro com um ar sonhador. De repente percebo que estou com ciúmes. Caramba. Não acredito que eu esteja com ciúmes de um tiozão do rock com idade suficiente para ser pai de Clare.
— Pfff — digo.
Clare ergue os olhos, com um sorriso travesso.
— De quem você gosta?
De você, penso, mas não digo.
— Quer dizer quando eu tinha a sua idade?
— Ééé, sim. Quando você tinha a minha idade?
Considero a importância dessa informação antes de contar para ela.
— Eu tinha sua idade em 1975. Hoje sou oito anos mais velho que você.
— Então tem 20 anos?
— Bom, não, tenho 36. — Idade para ser seu pai.
Clare franze a testa. Matemática não é sua melhor matéria.
— Mas se você tinha 12 anos em 1975...
— Ah, desculpe. Tem razão. Quer dizer, eu mesmo tenho 36, mas em algum lugar desse mundo — faço um gesto indicando o sul — tenho vinte. No tempo real.
Clare se esforça para digerir isso.
— Então tem dois de você?
— Mais ou menos. Tem sempre só um eu, mas quando estou viajando no tempo, às vezes vou a algum lugar onde já estou. Aí sim, dá para dizer que tem dois. Ou mais.
— Como eu nunca vi mais de um?
— Vai ver. Quando a gente se conhecer no meu presente, isso vai acontecer muito. — Mais do que eu gostaria, Clare.
— Então de quem você gostava em 1975?
— De ninguém, de verdade. Aos 12 anos, eu tinha outras coisas para pensar. Mas aos 13, eu era muito a fim da Patty Hearst.
Clare parece irritada.
— Uma garota que conheceu na escola?
Eu rio.
— Não. Era uma universitária californiana rica que foi sequestrada por uns terroristas políticos de esquerda. Ela virou assaltante de bancos pressionada por eles. Passou meses aparecendo diariamente no noticiário da noite.
— O que aconteceu com ela? Por que você gostava dela?
— Ela acabou sendo solta por eles, se casou, teve filhos e agora é uma senhora rica na Califórnia. Por que eu gostava dela? Ah, sei lá. É irracional, sabe? Acho que sei um pouco como ela se sentia, sendo raptada e forçada a fazer coisas que não queria, até parecer que gostava daquilo.
— Você faz coisas que não quer fazer?
— Sim. A toda hora. — Minha perna ficou dormente. Levanto e sacudo a perna até ela formigar. — Nem sempre eu acabo são e salvo com você, Clare. Muitas vezes, vou para lugares onde tenho que roubar para conseguir roupa e comida.
— Ah. — O rosto dela fica sério. Ela vê a jogada, mexe a peça e me olha triunfante. — Xeque-mate!
— Ei! Parabéns! — Faço um gesto de saudação. — Você é a rainha do xadrez du jour.
— Sou, sim — diz Clare, vermelha de orgulho. Começa a colocar as peças novamente na posição inicial. — Outra?
Finjo consultar meu relógio imaginário.
— Claro. — Sento de novo. — Está com fome? — Estamos ali há horas e as provisões estão terminando; tudo o que sobrou são as migalhas de um saco de Doritos.
— Mmmm. — Clare segura os peões atrás das costas. Toco em seu cotovelo direito e ela me mostra o peão branco. Faço minha jogada inicial clássica, peão da dama para 4D. Ele dá sua resposta clássica à minha jogada inicial clássica, peão da dama para 4D. Fazemos as dez jogadas seguintes bem depressa, com uma carnificina apenas moderada, e aí Clare demora um pouco, analisando o tabuleiro. Ela está sempre experimentando, sempre tentando o coup d’éclat. — De quem você gosta agora? — pergunta sem olhar.
— Você quer dizer com vinte anos? Ou 36?
— Os dois.
Tento me lembrar dos meus vinte anos. É só uma vaga lembrança de mulheres, peitos, pernas, pele, cabelo. Todas as histórias delas se embaralharam, e os rostos já não se ligam aos nomes. Eu não parava quieto, mas era infeliz aos vinte anos.
— Vinte anos não era nada especial. Ninguém me vem à mente.
— E 36?
Examino Clare. Doze anos é muito criança? Tenho certeza de que 12 anos é criança demais. Melhor fantasiar sobre o lindo, inatingível e inofensivo Paul McCartney do que ter de encarar Henry o Tiozão Viajante do Tempo. Por que ela me pergunta isso afinal de contas?
— Henry?
— Sim?
— Você é casado?
— Sou — admito com relutância.
— Com quem?
— Uma mulher muito bonita, paciente, talentosa e inteligente.
Ela faz uma cara desapontada.
— Ah. — Ela gira um dos meus bispos brancos, que capturou duas jogadas atrás, como um pião. — Bom, que legal. — Parece ofendida com essa notícia.
— Qual é o problema?
— Nenhum. — Clare move a rainha de D2 para CR5. — Xeque.
Movo meu cavalo para proteger meu rei.
— Sou casada? — pergunta Clare.
Encontro os olhos dela.
— Você está forçando a barra hoje.
— Por que não? Você nunca me conta nada mesmo. Vamos, Henry, me diga se vou ficar solteirona.
— Você é uma freira — implico com ela.
Clare dá de ombros.
— Puxa, espero que não. — Ela toma um dos meus peões com a torre. — Como conheceu sua mulher?
— Sinto muito. Informação confidencial. — Tomo a torre dela com a dama.
Clare faz uma careta.
— Ai. Você estava viajando no tempo? Quando conheceu sua mulher?
— Eu estava cuidando da minha vida.
Clare suspira. Toma outro peão com a outra torre. Estou começando a ficar sem peões. Movo o bispo da dama para BR4.
— Não é justo você saber tudo sobre mim e nunca me contar coisa alguma sobre você.
— Verdade, não é justo. — Tento parecer arrependido e amável.
— A Ruth, a Helen, a Megan e a Laura me contam tudo e eu conto tudo para elas.
— Tudo?
— É. Bom, eu não conto para elas sobre você.
— Ah? Por quê?
Clare parece meio na defensiva.
— Você é segredo. Elas não iam acreditar em mim, de qualquer maneira. — Ela captura o meu bispo com o cavalo dela, dando um sorriso irônico. Contemplo o tabuleiro, tentando achar um jeito de tomar o cavalo dela ou mover o meu bispo. As coisas estão ficando pretas para as brancas.
— Henry, você é gente mesmo?
Sou pego meio desprevenido.
— Sou, o que mais poderia ser?
— Sei lá. Um espírito.
— Sou gente mesmo, Clare.
— Prova.
— Como?
— Não sei.
— Acho que não dá para você provar que é gente, Clare.
— Claro que posso.
— Como?
— Tenho tudo o que gente tem.
— Bom, eu também tenho tudo o que gente tem. — É engraçado Clare puxar esse assunto; em 1999, o dr. Kendrick e eu começamos uma guerra filosófica sobre esse assunto mesmo. Kendrick está convencido de que eu sou um precursor de uma nova espécie de ser humano, tão diferente das pessoas de hoje quanto o Homem de Cro-Magnon era de seus vizinhos neandertais. Contesto que tenho apenas um código genético defeituoso, e nossa dificuldade para ter filhos prova que não vou ser o Elo Perdido. Chegamos ao ponto de citar Kierkegaard e Heidegger um para o outro furiosamente. Enquanto isso, Clare me olha intrigada.
— Gente não aparece e desaparece do jeito que você faz. Você é igual ao Gato da Alice.
— Está sugerindo que sou um personagem de ficção? — Finalmente vejo minha jogada: torre do rei para TD3. Agora ela pode tomar meu bispo, mas vai perder a dama no processo. Clare demora um instante para notar isso e mostra a língua quando percebe. Sua língua está tão amarela por causa dos Doritos que é de deixar qualquer um preocupado.
— Isso me faz pensar nos contos de fada. Sabe, se você é real, por que os contos de fada não podem ser reais, também? — Clare se levanta, ainda analisando o tabuleiro, e faz uma dancinha, pulando como se suas calças estivessem pegando fogo. — Acho que o chão está endurecendo. Estou com a bunda dormente.
— Talvez sejam reais. Ou alguma coisinha neles seja real e as pessoas foram exagerando o resto, sabe?
— Tipo talvez a Branca de Neve estivesse em coma!
— E a Bela Adormecida também.
— E João, o cara do pé de feijão, era simplesmente um tremendo jardineiro.
— E Noé era um velho esquisito com uma casa flutuante e um monte de gatos.
Clare me encara.
— Noé está na Bíblia. Não é um conto de fadas.
— Ah. Certo. Desculpe.
Estou ficando com muita fome. Agora, a qualquer momento, Nell vai tocar o sino do jantar e Clare terá de entrar. Ela torna a se sentar de seu lado do tabuleiro. Vejo que se desinteressou do jogo quando começa a fazer uma pequena pirâmide com todas as peças conquistadas.
— Você ainda não provou que é real — diz Clare.
— Nem você.
— Você algum dia já se perguntou se sou real? — ela me pergunta, surpresa.
— Talvez eu esteja sonhando com você. Talvez você esteja sonhando comigo. Talvez a gente só exista nos sonhos um do outro, e todo dia quando acorda de manhã se esqueça um do outro.
Clare franze a testa, e faz um gesto como se afastasse essa ideia esquisita.
— Me belisque — pede. Dou um beliscão de leve no braço. — Com mais força! — Repito com força suficiente para deixar uma marca branca e vermelha que demora uns segundos para sumir. — Não acha que eu teria acordado se estivesse dormindo? De qualquer maneira, não estou com sono.
— Bom, eu não me sinto um espírito. Nem personagem de ficção.
— Como é que você sabe? Quer dizer, se eu inventei você, é só não te contar que você não vai saber, certo?
Levanto as sobrancelhas em tom de provocação para ela.
— Vai ver que Deus nos inventou e não conta para a gente.
— Você não devia dizer uma coisa dessas — exclama Clare. — Além do mais, você nem acredita em Deus. Acredita?
Dou de ombros e mudo de assunto.
— Eu sou mais real que o Paul McCartney.
Clare parece preocupada. Começa a guardar todas as peças na caixa, separando cuidadosamente as pretas e as brancas.
— Muita gente conhece o Paul McCartney; só eu conheço você.
— Mas você já esteve comigo de fato, e nunca esteve com ele.
— Minha mãe foi a um show dos Beatles. — Ela tampa a caixa do jogo de xadrez e se estica no chão, olhando as folhas novas no topo das árvores. — Foi no Comiskey Park, em Chicago, dia 8 de agosto de 1965. — Cutuco a barriga dela e Clare se encolhe como um porco-espinho, rindo. Após um intervalo de cócegas e contorções, ficamos deitados no chão com as mãos cruzadas no peito e Clare pergunta: — Sua mulher também viaja no tempo?
— Não. Graças a Deus.
— Graças a Deus por quê? Acho que seria divertido. Vocês poderiam ir a lugares juntos.
— Um viajante do tempo por família é mais do que suficiente. É perigoso, Clare.
— Ela fica preocupada com você?
— Sim — digo baixinho. — Fica. — Me pergunto o que Clare está fazendo agora, em 1999. Talvez ainda esteja dormindo. Talvez não saiba que eu saí de casa.
— Você ama ela?
— Muito — sussurro. Ficamos deitados lado a lado, vendo as árvores balançando, os pássaros, o céu. Ouço um som abafado de nariz fungando. Ao olhar para Clare, me surpreendo ao ver lágrimas descendo por seu rosto até as orelhas. Sento e me debruço em sua direção. — O que foi, Clare? — Ela se limita a sacudir a cabeça para trás e para a frente e apertar os lábios. Passo a mão em seu cabelo, coloco Clare sentada e dou um abraço. Ela é uma criança, e, ao mesmo tempo, não é. — O que foi?
Ela fala tão baixinho que preciso pedir que repita:
— É só que pensei que talvez você fosse casado comigo.
Quarta-feira, 27 de junho de 1984 (Clare tem 13 anos)
CLARE: Estou parada no Campo. É fim de junho, à tardinha; daqui a pouco vai estar na hora de lavar as mãos para jantar. A temperatura cai. Há dez minutos, o céu estava azul e fazia um calor forte no Campo. Tudo parecia disforme, como se estivesse embaixo de um grande domo de vidro, todos os barulhos próximos abafados pelo calor enquanto um coro de insetos zumbia. Estou sentada há algum tempo na passarela vendo baratas-d’água no laguinho parado, pensando no Henry. Hoje não é dia de Henry; faltam 22 dias para o próximo. Agora está muito mais fresco. Henry é um mistério para mim, apesar de até hoje eu não achar que seja nada demais. Embora ele seja um segredo, o que o torna fascinante, Henry também é meio que um milagre. Só agora comecei a perceber que a maioria das garotas não tem um Henry ou, se tem, nenhuma fala nada. Começa a ventar; o capim alto ondula, e fecho os olhos para imaginar que é o barulho do mar (que eu nunca vi a não ser na tevê). Quando abro os olhos, o céu está amarelo, depois verde. Henry diz que vem do futuro. Quando eu era pequena, eu não via problema nisso; não tinha a menor ideia do que isso significava. Agora me pergunto se o futuro é um lugar aonde eu possa ir; isto é, ir de alguma outra forma sem ser ficar velha. Me pergunto se Henry poderia me levar para o futuro. O bosque está escuro e as árvores se dobram, se agitando para os lados até se curvar. O zumbido dos insetos parou. O vento deita o capim, enquanto as árvores estalam e gemem. Estou com medo do futuro; parece ser uma grande caixa me esperando. Henry diz que me conhece no futuro. Nuvens negras imensas vêm de trás das árvores, parecendo marionetes, e chegam tão de repente que eu rio. Tudo gira em minha direção. Há um demorado estrondo de um trovão. De repente percebo que estou de pé no Campo e me deito, esperando passar despercebida pela tempestade que chega. Fico deitada de costas olhando para cima quando desaba uma chuva torrencial, que deixa minhas roupas ensopadas num instante. Sinto que Henry está ali. Sinto uma necessidade incrível de que Henry esteja ali e me toque. Parece que Henry é a chuva e eu estou sozinha, sentindo desejo por ele.
Domingo, 23 de setembro de 1984 (Henry tem 35 anos, Clare, 13)
HENRY: Estou na clareira, no Campo. É de madrugada, logo antes da aurora. É fim de verão, todas as flores e o capim estão batendo no meu peito. Faz muito frio. Estou sozinho. Caminho no meio das plantas e localizo a caixa de roupas. Ao abrir, encontro uma calça jeans e uma camisa branca de oxford e sandálias. Nunca vi essas roupas, então não sei em que tempo estou. Clare também me deixou um lanche: tem um pão com manteiga de amendoim e geleia cuidadosamente embrulhado em papel-alumínio, com uma maçã e um saco de batatas fritas Jay’s. Talvez esta seja uma das merendas que Clare leva para a escola. Minhas previsões tendem para o fim dos anos 70. Sento na pedra e como a comida, o que me faz sentir muito melhor. O sol nasce. O Campo fica todo azul, e depois laranja e cor-de-rosa. As sombras se alongam até chegar o dia. Não há sinal de Clare. Vou me arrastando um pouco para dentro do mato. Fico encolhido sem ligar para o chão molhado do orvalho e durmo. Quando acordo, o sol está mais alto e Clare está sentada ao meu lado lendo um livro. Ela sorri para mim e diz:
— Bom dia, flor do dia!
Gemo e esfrego os olhos.
— Oi, Clare. Que dia é hoje?
— Domingo, 23 de setembro de 1984.
Clare tem 13 anos. Uma idade estranha e difícil, mas não tão difícil quanto o nosso presente. Sento e bocejo.
— Clare, se eu pedir com muito jeito, você vai a sua casa e traz uma xícara de café escondido para mim?
— Café? — Clare diz isso como se nunca tivesse ouvido falar na substância. Na idade adulta, ela é tão viciada quanto eu. Ela fica pensando na logística da coisa.
— Por favorzinho?
— Tudo bem, vou tentar. — Ela se levanta, devagar. Este é o ano em que Clare cresceu depressa. No último ano ela cresceu quase 13 centímetros e ainda não se acostumou com o novo corpo. Busto, pernas e quadris, tudo novo. Tento não pensar nisso quando a vejo subir a trilha da casa. Dou uma olhada no livro que ela estava lendo. É um Dorothy Sayers, um que não li. Estou na página 33 quando ela volta. Ela trouxe uma garrafa térmica, xícaras, uma toalha de piquenique e umas rosquinhas. Um verão de sol deixou sardas no nariz de Clare. Tenho que resistir ao impulso de passar as mãos por seus cabelos descoloridos que caem sobre seus braços quando ela estende a toalha.
— Deus te abençoe. — Recebo a garrafa térmica como se fosse uma hóstia. A gente fica à vontade na toalha. Tiro as sandálias, sirvo uma xícara de café e dou um gole. Está bem forte e amargo. — Caramba! Isso é combustível de foguete, Clare.
— Muito forte? — Ela faz uma cara meio deprimida, e me apresso em elogiar.
— Bom, café forte nunca é demais, mas está bastante forte. No entanto, eu gosto. Foi você que fez?
— A-hã. Eu nunca tinha feito café antes. Talvez eu tenha feito errado porque o Mark entrou e ficou me enchendo a paciência.
— Não, está ótimo. — Sopro o café e tomo de um gole só. Na mesma hora, me sinto melhor. Sirvo outra xícara.
Clare pega a garrafa térmica de mim. Ela se serve de um dedo de café e dá um gole cauteloso.
— Eca — diz. — É horrível. É para ter esse gosto mesmo?
— Bom, geralmente é bem menos agressivo. Você gosta do seu com muito creme e açúcar.
Clare entorna o resto do seu café no Campo e pega uma rosquinha. Então diz:
— Você está me transformando numa maluca.
Não tenho uma resposta pronta para isso, já que a ideia nunca me ocorreu.
— Não estou, não.
— Está.
— Não estou. — Paro um instante. — O que você está querendo dizer com isso de que estou te transformando numa maluca? Não estou transformando você em nada.
— Ora, está me dizendo, por exemplo, que gosto de café com creme e açúcar antes que eu mal tenha chegado a provar. Como vou descobrir se é desse jeito que gosto mesmo ou se só gosto assim porque você me diz que eu gosto?
— Mas, Clare, isso é só gosto pessoal. Você deve descobrir como gosta de café independentemente de eu dizer alguma coisa. Além do mais, você é que vive me enchendo para lhe contar sobre o futuro.
— Conhecer o futuro é diferente de ser informada do que eu gosto — diz Clare.
— Por quê? Tudo tem a ver com o livre-arbítrio.
Clare tira os sapatos e as meias. Enfia as meias dentro dos sapatos e coloca o par arrumadinho na beira da toalha. Então pega as sandálias que atirei longe para colocar ao lado dos sapatos, como se a toalha fosse um tatame.
— Pensei que livre-arbítrio tivesse a ver com pecado.
Penso sobre isso.
— Não — digo —, por que o livre-arbítrio deve se limitar ao certo e errado? Assim: você simplesmente decidiu, por vontade própria, tirar os sapatos. Isso não tem importância, ninguém quer saber se você está calçada ou não; não há pecado nem virtude nisso; não é uma coisa que afete o futuro. Mas você exerceu seu livre-arbítrio.
Clare dá de ombros.
— Mas às vezes você me diz uma coisa e eu tenho a sensação de que o futuro já chegou, sabe? Como se meu futuro tivesse acontecido no passado e eu não pudesse fazer nada a respeito.
— Isso se chama determinismo — digo. — Me dá pesadelos.
Clare fica intrigada.
— Por quê?
— Bom, se você está se sentindo tolhida por achar que seu futuro é inalterável, imagine como eu me sinto. É dureza encarar o fato de que não posso mudar nada, embora esteja ali, observando o que acontece.
— Mas, Henry, você muda as coisas, sim! Pô, você escreveu aquilo que eu devo te dar em 1991 sobre o bebê com síndrome de Down. E a Lista. Sem a Lista, eu nunca saberia quando vir te encontrar. Toda hora você muda as coisas.
Sorrio.
— Só posso fazer coisas que contribuam para o que já aconteceu. Não posso, por exemplo, desfazer o fato de que você acabou de tirar os sapatos.
Clare ri.
— Por que você ligaria se eu tirei ou não?
— Eu não ligo. Mas, mesmo que sim, isso agora é uma parte inalterável da história do universo e não posso fazer nada a respeito.
Pego uma rosquinha. É uma Bismarck, minha favorita. O glacê está derretendo um pouco no sol e gruda nos meus dedos.
Clare termina a rosquinha dela, enrola a barra da calça jeans e senta de pernas cruzadas. Coça o pescoço e me olha irritada.
— Agora você está me deixando inibida. Tenho a sensação de que é sempre um acontecimento histórico quando vou assoar o nariz.
— Bom, é por aí mesmo.
Ela revira os olhos.
— Qual é o contrário de determinismo?
— Caos.
— Ah. Acho que não gosto disso. Você gosta?
Dou uma dentada grande na Bismarck e reflito sobre o caos.
— Bom, gosto e não gosto. O caos é mais liberdade; na verdade, é a liberdade total, mas sem sentido. Quero ser livre para agir e também quero que meus atos tenham algum sentido.
— Mas, Henry, você está se esquecendo de Deus. Por que não pode haver um Deus que dê algum sentido a isso?
Clare franze a testa e fala olhando seriamente para o outro lado do Campo.
Ponho o que sobrou do Bismarck na boca e mastigo devagar para ganhar tempo. Toda vez que Clare menciona Deus, começo a ficar com as mãos suadas e tenho vontade de me esconder, fugir ou sumir.
— Não sei, Clare. É que as coisas me parecem muito aleatórias e sem sentido para que haja um Deus.
Clare abraça seus joelhos.
— Mas você acabou de dizer que tudo parece ter sido planejado antes.
— Pff — digo. Agarro os tornozelos de Clare, puxo seus pés para meu colo e seguro. Clare ri, apoiada nos cotovelos. Os pés de Clare estão frios em minhas mãos; são muito rosados e limpos. — Tudo bem — digo. — Vamos ver. As escolhas que temos aqui são: um universo fechado, onde passado, presente e futuro coexistem e tudo já aconteceu; o caos, onde tudo pode acontecer e nada pode ser previsto porque não dá para saber todas as variáveis; e um universo cristão em que Deus fez tudo segundo um propósito, mas, de qualquer forma, temos livre-arbítrio. Certo?
Clare mexe os dedos do pé para mim.
— Acho que sim.
— E o que você escolhe?
Clare está calada. Seu pragmatismo e sua visão romântica de Jesus e Maria têm quase que o mesmo peso, aos 13 anos. Um ano atrás, ela teria dito Deus sem hesitação. Em dez anos, vai escolher o determinismo. Dez anos depois disso, Clare vai acreditar que o universo é arbitrário; que Deus não ouve nossas preces, mesmo que exista; e que causa e efeito são inescapáveis e sem sentido. E depois disso? Não sei. Mas agora Clare está à beira da adolescência com sua fé de um lado e seu ceticismo crescente do outro. Sua única saída é tentar equilibrar ou misturar bem as duas coisas. Ela faz que não com a cabeça.
— Não sei. Eu quero Deus. Pode ser?
Me sinto um babaca.
— Claro que pode ser. É nisso que você acredita.
— Mas não quero só acreditar nisso. Quero que seja verdade.
Passo os polegares pelas solas dos pés de Clare, e ela fecha os olhos.
— Você e São Tomás de Aquino — digo.
— Já ouvi falar nele — diz Clare, como se estivesse falando de um tio predileto que perdeu, ou de um apresentador de tevê da sua infância.
— Ele queria ordem e razão, e Deus, também. Ele viveu no século XIII e deu aula na Universidade de Paris. Tomás de Aquino acreditava em Aristóteles e em anjos.
— Adoro anjos — disse Clare. — São muito bonitos. Quem me dera ter asas para voar por aí e sentar nas nuvens.
— Ein jeder Engel ist schrecklich.
Clare dá um suspiro, um suspiro baixinho que significa não falo alemão, lembra?
— Hein?
— “Todo anjo é assustador.” Isso faz parte de uma série de poemas chamada As Elegias de Duíno, de um poeta chamado Rilke. Ele é um dos nossos poetas preferidos.
Clare ri.
— Você está fazendo isso de novo!
— O quê?
— Me dizendo do que eu gosto.
Clare afunda os pés no meu colo. Ponho os pés dela nos ombros sem pensar. Como isso me parece muito sexual, prendo os pés de Clare com uma mão no ar enquanto ela está deitada de costas. Clare está inocente e angelical com o cabelo espalhado na toalha como uma auréola à sua volta. Faço cócegas em seus pés. Clare ri e se solta de mim como um peixe se contorcendo. Levanta dando um pulo e dá uma estrela na clareira, sorrindo para mim como se me desafiando a ir atrás dela. Apenas sorrio de volta. Ela retorna para a manta e senta ao meu lado.
— Henry?
— Sim?
— Você está me deixando diferente.
— Eu sei.
Viro para olhar para Clare e só por um momento me esqueço de que ela é jovem, e que isso ocorreu há muito tempo; vejo Clare, minha mulher, superposta na cara dessa garota. Não sei o que dizer a essa Clare que é velha e moça, que é diferente das outras garotas e sabe que diferente pode ser difícil. Mas Clare não parece esperar uma resposta. Encosta no meu braço, que eu passo em volta de seus ombros.
— Clare! — O pai de Clare grita o nome dela do outro lado do Campo Silencioso. Clare levanta dando um pulo e agarra os sapatos e as meias.
— Está na hora da igreja — diz ela, subitamente nervosa.
— Tudo bem — digo. — Ééé... tchau.
Aceno para ela. Ela sorri, resmunga até logo e vai subindo a trilha correndo até sumir. Fico um pouco deitado ao sol, me perguntando sobre Deus, lendo Dorothy Sayers. Mais ou menos uma hora depois, eu também desapareço. Só há uma toalha e um livro, xícaras de café e roupas como pistas de que a gente sequer esteve lá.
4 Marido, em inglês. (N. da T.)
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