A mulher do viajante no tempo
Segredo
Quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005 (Clare tem 33, Henry, 41)
CLARE: É quinta-feira à tarde e estou no ateliê fazendo papel de kozo amarelo-claro. Henry já está sumido há 24 horas, e, como sempre, me divido entre ficar encucada pensando em que tempo e em que lugar ele se meteu e estar uma fera com ele por ter sumido e querendo saber quando voltará. Isso atrapalha a minha concentração e estrago um monte de folhas; passo todas novamente da peneira para a tina. Finalmente, dou um tempo e me sirvo de uma xícara de café. Está frio no ateliê, e a água na tina deveria estar fria, mas eu aqueci um pouco para evitar que minhas mãos rachassem. Envolvo a caneca de cerâmica com as mãos. A fumaça sobe. Ponho o rosto ali em cima, respiro a umidade e o cheiro de café. Então, ah, obrigada, meu Deus, ouço Henry vir pelo jardim e entrar no ateliê assoviando. Ele bate a neve das botas e tira o casaco. Está com uma cara maravilhosa, feliz para valer. Meu coração dispara e arrisco:
— 24 de maio de 1989.
— Sim, ah, sim!
Henry me pega no colo, de avental molhado, galochas e tudo, e fica rodando comigo. Agora estou rindo, estamos ambos rindo. Henry transborda de alegria.
— Por que não me contou? Passei esses anos todos imaginando coisas sem necessidade. Megera! Atrevida! — Ele morde meu pescoço e faz cócegas.
— Mas você não sabia, portanto eu não podia te contar.
— Ah. Certo. Meu Deus, você é incrível. — Sentamos no sofá surrado e velho do ateliê. — Dá para ligar a calefação aqui?
— Claro. — Henry se levanta de um pulo e aumenta o termostato. A caldeira entra em ação. — Quanto tempo fiquei sumido?
— Quase um dia inteiro.
Henry suspira.
— Valeu a pena? Um dia de ansiedade em troca de algumas horas realmente lindas?
— Sim. Foi um dos melhores dias da minha vida.
Estou calada, lembrando. Muitas vezes invoco a lembrança do rosto de Henry em cima de mim, rodeado de céu azul, e a sensação de ser penetrada por ele. Penso nisso quando ele some e tenho dificuldade de dormir.
— Me conte...
— Humm?
Estamos agarradinhos para trocar calor e segurança.
— O que aconteceu depois que fui embora?
— Peguei tudo e me arrumei para ficar mais ou menos apresentável e voltei para a casa. Subi sem encontrar com ninguém e tomei um banho. Algum tempo depois, Etta começou a bater na porta querendo saber por que eu estava na banheira no meio do dia e tive que fingir que estava doente. E estava, de certa forma... passei o verão na maior preguiça, dormindo muito. Lendo. Simplesmente fiquei na minha. Passei algum tempo no Campo, mais ou menos esperando que você aparecesse. Escrevi cartas para você, que depois queimei. Parei de comer por uns tempos e mamãe me arrastou para o terapeuta dela e recomecei a comer. E no fim de agosto, meus pais me informaram que, se meu ânimo não melhorasse, eu não iria para a faculdade naquele outono, então eu imediatamente me animei porque o meu único objetivo na vida era sair de casa e ir para Chicago. E a faculdade era uma coisa boa; era nova, eu tinha um apartamento, eu adorava a cidade. Eu tinha alguma coisa para pensar além do fato de que eu não tinha ideia de onde você estava nem de como te encontrar. Quando afinal te encontrei, eu estava bastante bem; trabalhava, tinha amigos, era bastante convidada para sair...
— Ah?
— Claro.
— Você aceitava? Sair?
— Aceitava, sim. Com o espírito de pesquisa... e porque de vez em quando eu ficava danada pensando que em algum lugar, sem consciência do que fazia, você saía com outras. Mas era tudo uma espécie de comédia de humor negro. Eu saía com garotos muito bonzinhos ligados à arte e passava a noite inteira vendo a chatice e a inutilidade daquilo tudo e olhando para o relógio. Depois do quinto, parei, porque vi que estava mesmo aporrinhando esses caras. Alguém espalhou na faculdade que eu era sapatão e aí eu tive uma leva de garotas me convidando para sair.
— Imagino você de lésbica.
— É; comporte-se, senão eu me converto.
— Eu sempre quis ser lésbica. — Henry está com uma cara sonhadora e com os olhos pesados; não é justo quando eu estou com a corda toda e pronta para pular em cima dele. Ele boceja. — Quer dizer, não nessa encarnação. Muita operação.
Lembro da voz do padre Compton atrás da grade do confessionário, perguntando baixinho se há mais alguma coisa que eu quisesse confessar. Não, digo com firmeza. Não, não há. Aquilo foi um erro. Eu estava bêbada, e não conta. O bom padre suspira e abre as cortinas. Fim da confissão. Minha penitência é mentir a Henry, por omissão, até que a morte nos separe. Olho para ele, com a cara de satisfação de quem acabou de comer, saciado com os encantos de minha versão mais jovem, e a imagem de Gomez dormindo e do quarto dele com a luz da manhã me passa pela cabeça. Foi um erro, Henry, digo em silêncio. Eu estava esperando e cometi um deslize uma vez só. Conte a ele, diz o padre Compton, ou alguém em minha cabeça. Eu não posso, retruco. Ele vai me odiar.
— Ei — diz Henry com delicadeza. — Cadê você?
— Estou pensando.
— Está com uma cara muito triste.
— Você às vezes fica preocupado achando que todas as coisas muito boas já aconteceram?
— Não. Bom, mais ou menos. Não do jeito que você está falando. Continuo me deslocando no tempo que você está recordando, então ele não passou realmente para mim. Me preocupo achando que não estamos prestando muita atenção ao aqui e agora. Isto é, a viagem no tempo é uma espécie de estado alterado, então estou mais... consciente quando estou lá. De alguma forma, o lá parece mais importante, e às vezes penso que as coisas seriam perfeitas se eu tivesse esse mesmo grau de consciência no aqui e agora. Mas tem havido grandes coisas, ultimamente. — Ele sorri aquele sorriso de lado lindo e radiante, todo inocência, e permito que minha culpa se cale, voltando para a caixinha onde eu a mantenho socada como um para-quedas.
— Alba.
— Alba é perfeita. E você é perfeita. Por mais que eu goste de você, lá, é a vida compartilhada, o fato de a gente se conhecer...
— Na alegria e na tristeza...
— O fato de haver maus momentos torna isso mais real. É a realidade que eu quero.
Conte a ele, conte.
— Até a realidade pode ser bastante irreal... — Se algum dia eu for dizer, agora é a hora. Ele espera. Eu não consigo.
— Clare? — Olho para ele na maior infelicidade, como uma criança pega numa mentira complicada, aí falo, num tom quase inaudível.
— Dormi com uma pessoa.
A cara de Henry congela, sem acreditar.
— Quem? — pergunta ele, sem me olhar.
— Gomez.
— Por quê? — Henry está imóvel, aguardando o tranco.
— Eu estava bêbada. A gente estava numa festa, e a Charisse estava em Boston...
— Espere aí. Quando foi isso?
— 1990.
Ele começa a rir.
— Ai, caramba. Clare, não faz isso comigo, merda. 1990. Puxa. Achei que você estivesse me contando uma coisa que tivesse acontecido, tipo, semana passada. — Sorrio, timidamente. Ele diz: — Não é que tenha adorado saber disso, mas já que eu acabei de te dizer para ir experimentar, não posso mesmo... sei lá. — Ele está ficando agitado. Fica de pé e começa a andar para lá e para cá no ateliê. Estou incrédula. Passei 15 anos paralisada de medo, medo de que Gomez, com aquele seu jeito frio e grosseiro, falasse ou fizesse alguma coisa, e Henry não liga. Ou liga?
— Como foi? — pergunta, assim, bem de passagem, de costas para mim enquanto mexe na cafeteira.
Escolho as palavras com cuidado.
— Diferente. Quer dizer, sem querer criticar demais o Gomez...
— Ah, vá em frente.
— Era mais ou menos como se eu fosse uma loja de porcelana e ele fosse um touro solto lá dentro.
— Ele é maior do que eu — diz Henry em tom de afirmativa.
— Agora, eu não sei, mas na época ele não tinha delicadeza nenhuma. Até mesmo fumou um cigarro enquanto me comia. — Henry recua. Fico de pé e chego perto dele. — Sinto muito, foi um erro. — Ele me puxa para junto de si e eu digo, baixinho, em seu colarinho: — Eu estava esperando com muita paciência... — mas aí, não consigo continuar. Henry está afagando meu cabelo.
— Tudo bem, Clare — diz ele. — Não é tão ruim assim. — Me pergunto se ele está comparando a Clare que ele acabou de ver, em 1989, com a minha pessoa falsa em seus braços, e, como se lendo meus pensamentos, ele diz: — Mais alguma surpresa?
— Foi isso.
— Nossa, você sabe mesmo guardar segredo.
Olho para Henry, e ele me devolve o olhar, e sei que mudei de alguma forma, aos seus olhos.
— Isso me fez entender melhor... me fez apreciar...
— Você está tentando me dizer que eu não sofri por comparação?
— É.
Dou um beijo tímido nele, e após um instante de hesitação, Henry começa a me beijar de volta, e logo estamos a caminho de ficar numa boa. Melhor do que numa boa. Eu contei para ele, e tudo bem, e ele ainda me ama. Meu corpo inteiro parece mais leve, e suspiro com o alívio de finalmente ter confessado, e nem sequer receber uma penitência, nem uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso. Me sinto como se tivesse saído ilesa de um carro dado como perda total. Lá, em algum lugar, Henry e eu estamos fazendo amor num lençol verde num campo, e Gomez está me olhando sonolento e me pegando com suas mãos enormes. Tudo, tudo está acontecendo agora, mas é tarde demais, como sempre, para mudar qualquer coisa. Henry e eu desembrulhamos um ao outro no sofá do ateliê como caixas de chocolate novinhas em folha, e não é tarde demais, ainda não, afinal de contas.
Sábado, 14 de abril de 1990 (Clare tem 18 anos)
(6h43)
CLARE: Abro os olhos e não sei onde estou. Cheiro de cigarro, sombra de venezianas na parede amarela cheia de rachaduras. Viro a cabeça e, ao meu lado, dormindo na cama dele, está Gomez. De repente, me lembro e entro em pânico.
Henry. Henry vai me matar. Charisse vai me odiar. Fico sentada. O quarto de Gomez é uma zona de cinzeiros abarrotados, roupas, manuais de direito, jornais, pratos sujos. Minhas roupas estão num montinho acusador no chão ao meu lado.
Gomez dorme que é uma beleza. Está sereno e nem parece o sujeito que acaba de trair a namorada com a melhor amiga dela. Seu cabelo louro está revolto, e não arrumado, como sempre. Ele parece um menino grande, exausto do excesso de brincadeiras de garoto.
Minha cabeça lateja. Tenho a sensação de que levei uma surra nas entranhas. Fico de pé, trêmula, e vou até o banheiro no corredor. O banheiro é úmido e infestado de mofo, cheio de apetrechos de barba e toalhas molhadas. Ao chegar ao banheiro, já não sei mais o que quero; faço pipi e lavo o rosto com o sabonete, e me olho no espelho para ver se estou diferente, para ver se Henry será capaz de dizer só de olhar para mim... Estou com uma certa cara de enjoo, mas, fora isso, é a mesma cara que tenho sempre às sete da manhã.
A casa está quieta. Há um relógio tiquetaqueando ali por perto. Gomez divide esta casa com mais dois caras, amigos que também estão na Northwestern’s Law School. Não quero esbarrar com ninguém. Volto ao quarto de Gomez e sento na cama.
— Bom dia. — Gomez sorri para mim e tenta me tocar. Recuo e caio em prantos. — Uau, gatinha! Clare, gata, ei, ei... — Ele se levanta e logo estou chorando em seus braços. Penso em todas as vezes que chorei no ombro de Henry. Cadê você?, me pergunto desesperada. Preciso de você, aqui e agora. Gomez repete meu nome, sem parar. O que estou fazendo aqui, despida, chorando nos braços de um Gomez igualmente pelado? Ele me dá uma caixa de lenços de papel para eu assoar o nariz e enxugar os olhos. Aí olho para ele com uma cara de desespero total, e ele olha para mim confuso.
— Tudo bem agora?
Não. Como posso estar bem?
— Tudo.
— O que foi?
Dou de ombros. Gomez passa a me interrogar como se eu fosse uma vítima frágil no tribunal.
— Clare, você já tinha feito sexo? — Faço que sim com a cabeça. — É a Charisse? Você se sente mal por causa da Charisse? — Faço que sim com a cabeça. — Fiz alguma coisa errada? — Faço que não com a cabeça. — Clare, quem é Henry? — Olho para ele boquiaberta, incrédula.
— Como você sabe?...
Agora já fiz. Merda. Filho da puta.
Gomez se estica, pega os cigarros na mesa de cabeceira e acende um. Risca o fósforo e dá uma tragada profunda. Com um cigarro na mão, Gomez parece mais... vestido, de certa forma, embora não esteja. Em silêncio, ele me oferece um cigarro, que aceito embora não fume. Acho que é certo aceitar, e me dá tempo de pensar no que dizer. Ele acende o cigarro para mim, fica de pé, procura no armário, acha um roupão azul que não parece dos mais limpos e me entrega. O roupão fica enorme em mim. Sento na cama, fumando e olhando Gomez vestir uma calça jeans. Mesmo no meu estado lamentável, vejo que Gomez é bonito, alto e largo e... grande, um tipo de beleza totalmente diferente da selvageria felina de Henry. Na mesma hora me sinto horrível por comparar. Gomez põe um cinzeiro ao meu lado, senta na cama e olha para mim.
— Você falou dormindo em uma pessoa chamada Henry.
Droga. Droga.
— O que eu disse?
— Só falava “Henry” sem parar, como se estivesse chamando alguém para ir até você. E “sinto muito”. E uma vez, disse “Bom, você não estava aqui”, como se estivesse com muita raiva. Quem é Henry?
— Henry é meu amante.
— Clare, você não tem amante. A Charisse e eu vemos você todo dia há seis meses, e você nunca saiu com ninguém, e ninguém jamais te telefona.
— Henry é meu amante. Ele foi embora por algum tempo e vai voltar no outono de 1991.
— Onde ele está?
Por aí.
— Não sei. — Gomez acha que estou inventando isso. Não sei por que, estou decidida a fazê-lo acreditar em mim. Pego a bolsa, abro a carteira e mostro a Gomez a foto de Henry. Ele a examina com cuidado.
— Já vi esse cara. Quer dizer, não ele, e sim alguém muito parecido com ele. Esse cara é muito velho para ser a mesma pessoa. Mas o nome daquele cara era Henry.
Meu coração está batendo feito louco. Tento ser natural quando pergunto:
— Onde você o viu?
— Em boates. Em geral no Exit e também no Smart Bar. Mas não dá para acreditar que ele seja o seu cara; ele é um louco. Espalha o caos por onde anda. É alcoólatra, e é... sei lá, muito bruto com as mulheres. Pelo que ouço dizer.
— Violento? — Não consigo imaginar Henry batendo numa mulher.
— Não, eu não sei.
— Como é o sobrenome dele?
— Não sei. Olhe, gatinha, esse cara vai te usar e depois jogar fora... ele não é nada do que você precisa.
Sorrio. Ele é exatamente o que preciso, mas sei que é inútil percorrer o circuito das boates atrás dele.
— Eu preciso de quê?
— De mim. Só que parece que você não acha isso.
— Você tem a Charisse. Você me quer para quê?
— Eu só quero você. Não sei por quê.
— Você é mórmon ou coisa assim?
Gomez diz muito sério.
— Clare, eu... olhe, Clare...
— Não fale.
— Realmente, eu...
— Não. Não quero saber. — Eu me levanto, apago o cigarro e começo a me vestir. Gomez está sentado imóvel, vendo eu me vestir. Me sinto cansada, suja e repugnante ao vestir a roupa da festa de ontem na frente de Gomez, mas tento não deixar isso transparecer. Não consigo puxar o zíper comprido nas costas do vestido e Gomez me ajuda, todo sério.
— Clare, não fique danada.
— Eu não estou danada com você. Estou danada comigo.
— Esse cara deve ser mesmo uma peça se é capaz de deixar uma garota como você e esperar que esteja disponível dois anos depois.
Sorrio para Gomez.
— Ele é incrível. — Vejo que feri os sentimentos de Gomez. — Gomez, sinto muito. Se eu estivesse livre e você estivesse livre... — Gomez balança a cabeça, e, quando me dou conta, ele está me beijando. Retribuo o beijo, e por um instante apenas imagino... — Agora tenho que ir, Gomez.
Ele faz que sim com a cabeça.
Saio.
Sexta-feira, 27 de abril de 1990 (Henry tem 26 anos)
HENRY: Ingrid e eu estamos no Teatro Riviera, sacudindo nossos parcos miolos de tanto dançar ao som do Iggy Pop. Ingrid e eu sempre passamos pelos momentos mais felizes quando estamos dançando ou trepando ou fazendo qualquer outra coisa que envolva atividade física e nenhuma conversa. Neste momento, estamos no céu. Estamos bem na frente e o sr. Pop sacode todo mundo, criando um bolo de gente e de energia alucinada. Uma vez, eu disse a Ing que ela dançava feito uma alemã e ela não gostou, mas é verdade: ela dança séria, como se houvesse vidas em jogo, como se dançar com precisão pudesse salvar as crianças famintas da Índia. É ótimo. O Iggster está cantando “Calling Sister Midnight: well, I’m an idiot for you...” e sei exatamente como ele se sente. É em momentos assim que vejo sentido em ficar com Ingrid. A gente se acaba dançando Lust for Life, China Girl, Funtime. Ingrid e eu atingimos uma velocidade suficiente para lançar uma missão a Plutão. Tenho plena convicção de que posso ficar aqui para o resto da vida e estar absolutamente satisfeito. Ingrid sua. Sua camiseta branca grudou no corpo de uma forma interessante e esteticamente agradável, e chego a pensar em tirá-la, mas me seguro porque ela não está de sutiã e ia reclamar sem parar. Dançamos, Iggy Pop canta, e infelizmente, inevitavelmente, após três bis, o show finalmente termina. Me sinto ótimo. Quando saímos em fila com nossos irriquietos e animados colegas de show, me pergunto o que devíamos fazer em seguida. Ingrid vai para a porta do banheiro das mulheres, onde fica parada na longa fila. Espero por ela lá fora na Broadway. Observo um yuppie numa BMW discutir com um manobrista a respeito de vaga ilegal quando um louro enorme vem falar comigo.
— Henry? — ele indaga. Me pergunto se estou prestes a receber uma intimação judicial ou algo assim.
— Pois não?
— Clare manda lembranças. — Quem diabos é Clare?
— Desculpe, é engano. — Ingrid chega, de novo parecendo como sempre uma Bond girl. Ela avalia esse cara, que é um belo exemplar de macho. Passo o braço em volta dela.
O cara sorri.
— Desculpe. Você deve ter um sósia por aí.
Sinto um aperto no coração; está acontecendo alguma coisa que eu não entendo, um pouco do meu futuro vazando para o presente, mas agora não é o momento de investigar. Ele parece satisfeito com alguma coisa, pede licença e vai embora.
— O que ele queria? — diz Ingrid.
— Acho que me confundiu com outra pessoa. — Dou de ombros. Ingrid está preocupada. Parece que praticamente tudo sobre mim deixa Ingrid preocupada, então não dou bola. — Ei, Ing, o que vamos fazer agora? — Me sinto capaz de saltar sobre os prédios mais altos com um simples pulo.
— Lá em casa?
— Genial.
Paramos na Margie’s Candies para comprar sorvete e logo estamos no carro cantando “I scream, you scream, we all scream for ice cream” e rimos como crianças malucas. Mais tarde, na cama com Ingrid, me pergunto quem é Clare, mas aí imagino que não deve haver resposta para isso, e esqueço o assunto.
Sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005 (Henry tem 41 anos, Clare, 33)
HENRY: Levo Charisse à ópera. É Tristão e Isolda. A razão de eu estar aqui com Charisse e não com Clare tem a ver com a extrema aversão de Clare a Wagner. Eu também não sou um grande apreciador de Wagner, mas temos ingressos para a temporada inteira e prefiro ir a não ir. Estávamos discutindo isso uma noite na casa de Charisse e Gomez, e Charisse disse melancolicamente que nunca tinha ido à ópera. O resultado disso tudo é que Charisse e eu estamos saltando de um táxi em frente à Lyric Opera House, e Clare está em casa cuidando de Alba e jogando Palavras Cruzadas com Alicia, que passa a semana lá em casa.
Não estou muito a fim disso. Quando parei na casa deles para pegar Charisse, Gomez piscou para mim e disse: “Não fique com ela até muito tarde, filho!”, em sua imitação de pai ignorante. Não me lembro quando foi a última vez em que Charisse e eu fizemos alguma coisa sozinhos. Gosto muito de Charisse, mas não tenho quase nada para dizer a ela.
Acompanho Charisse em meio à multidão. Ela anda devagar, absorvendo o esplêndido saguão, o mármore e as galerias altas cheias de ricaços elegantemente discretos e estudantes com peles falsas e piercing no nariz. Charisse sorri para os vendedores de libretto, dois cavalheiros de smoking que estão parados na entrada do saguão cantando “Libretto! Libretto! Compre um libretto!”, em duas vozes. Não vejo ninguém conhecido. Os amantes de Wagner são os boinas-verdes dos fãs de ópera; são gente de fibra, e todos se conhecem. Há muita troca de beijos pelo ar enquanto Charisse e eu subimos para o mezanino.
Clare e eu temos um camarote; é um de nossos luxos. Abro a cortina e Charisse entra e diz:
— Uau! — Pego o casaco dela e penduro numa cadeira, e faço o mesmo com o meu. Ocupamos nossos lugares. Charisse cruza os tornozelos e põe as mãozinhas no colo. Seu cabelo preto brilha naquela meia-luz, e, com aqueles olhos dramáticos e batom escuro, Charisse parece uma criança refinada e má, toda arrumada e autorizada a ficar acordada até tarde com os adultos. Ela absorve a beleza do Lyric, a tela dourada e verde decorada que protege o palco, os entalhes de gesso de cada arco e abóbada, o burburinho animado do público. As luzes diminuem e Charisse sorri rapidamente para mim. A tela sobe, e estamos a bordo de um barco, com Isolda cantando. Recosto na cadeira e me deixo levar pela voz dela.
Quatro horas, uma poção de amor e aplausos de pé depois, me viro para Charisse.
— E aí, o que você achou?
Ela sorri.
— Foi bobo, não? Mas o canto fez com que não ficasse bobo.
Seguro o casaco, e ela tateia à procura da manga até encontrar; aí consegue colocar o casaco.
— Bobo? De repente. Mas estou disposto a fingir que Jane Egland é jovem e bonita em vez de uma vaca de 140 quilos porque tem a voz de Euterpe.
— Euterpe?
— A musa da música.
Entramos no rio de ouvintes empolgados e satisfeitos. Lá embaixo, saímos para o frio. Caminhamos na multidão pela Wacker Drive e consigo chamar um táxi depois de só uns minutinhos. Quando vou dar o endereço de Charisse ao motorista, ela diz:
— Henry, vamos tomar um café. Não quero ir já para casa. — Digo ao taxista para nos levar ao Don’s Coffee Club, que fica na Jarvis, no norte da cidade. Charisse conversa sobre o canto, que foi sublime; sobre os cenários, que, estamos de acordo, não eram inspirados; sobre as dificuldades morais de gostar de Wagner quando se sabe que ele era um babaca antissemita cujo maior fã era Hitler. Quando chegamos ao Don’s, a casa está bombando; Don está recebendo vestido com uma camisa havaiana laranja, e aceno para ele. Encontramos uma mesinha no fundo. Charisse pede torta de cereja à la mode e café, e eu peço meu sanduíche de geleia e manteiga de amendoim e café de sempre. Perry Como canta dos alto-falantes e uma névoa de fumaça de cigarro desliza pelas mesinhas e pelas pinturas à venda. Charisse apoia a cabeça na mão e suspira.
— Que ótimo. Acho que às vezes me esqueço como era ser adulto.
— Vocês não saem muito?
Charisse amolece o sorvete com o garfo e ri.
— Joe faz isso. Ele diz que fica mais gostoso quando está mole. Nossa, estou pegando os maus hábitos deles em vez de eles aprenderem os meus bons. — Ela come um pedaço de torta. — Respondendo à sua pergunta, a gente sai, mas é quase sempre para alguma coisa ligada à política. O Gomez pensa em se candidatar a vereador.
Engasgo com o café e começo a tossir. Quando consigo falar de novo, digo:
— Você está brincando. Isso não é passar para o lado negro da força? O Gomez vive falando mal da administração da cidade.
Charisse me lança um olhar irônico.
— Ele está decidido a mudar o sistema de dentro para fora. Ele se cansou de casos horríveis de abuso infantil. Acho que se convenceu de que podia melhorar as coisas se tivesse alguma influência.
— Talvez ele tenha razão.
Charisse faz que não com a cabeça.
— Eu gostava mais quando a gente era jovem, anarquista e revolucionário. Prefiro explodir as coisas do que puxar saco.
Sorrio.
— Eu nunca tinha percebido que você era mais radical que o Gomez.
— Ah, sim. Na verdade, é só que eu não sou tão paciente quanto o Gomez. Quero ação.
— O Gomez é paciente?
— Ah, claro. Olha essa coisa toda com a Clare... — Charisse para bruscamente, olha para mim.
— Que coisa toda? — Enquanto faço a pergunta, vejo que é por isso que estamos aqui, que Charisse estava esperando para falar sobre isso. Me pergunto o que ela sabe que eu não sei. Me pergunto se quero saber o que Charisse sabe. Acho que não quero saber nada.
Charisse olha para o outro lado, depois torna a olhar para mim. Olha para o café, põe as mãos em volta da xícara.
— Bom, achei que você soubesse, mas, tipo... O Gomez é apaixonado pela Clare.
— Sim. — Isso não facilita as coisas para ela.
Charisse acompanha o veio do compensado com o dedo.
— Então... A Clare anda mandando o Gomez passear, e ele acha que se esperar o suficiente, alguma coisa vai acontecer, e ele vai ficar com ela.
— Alguma coisa vai acontecer...?
— Com você. — Charisse encontra o meu olhar.
Me sinto mal.
— Desculpe — digo a ela. Levanto e vou até o minúsculo banheiro com papel de parede de Marilyn Monroes. Jogo água fria no rosto. Encosto na parede de olhos fechados. Quando fica óbvio que não vou a lugar nenhum, volto ao café e me sento. — Desculpe. Você estava falando...
Charisse parece assustada e pequena.
— Henry — diz ela baixinho. — Me conte.
— O que, Charisse?
— Diga que não vai a lugar nenhum. Diga que a Clare não quer o Gomez. Diga que tudo vai dar certo. Ou que tudo é mentira, sei lá... Só me conte o que acontece!
A voz dela treme. Ela põe a mão no meu braço, e eu me forço a não me afastar.
— Você vai ficar bem, Charisse. Vai ficar tudo bem. — Ela me olha, sem acreditar e querendo acreditar. Recosto na cadeira. — Ele não vai te deixar.
Ela suspira.
— E você?
Fico calado. Charisse me olha, depois abaixa a cabeça.
— Vamos para casa — diz afinal, e vamos.
Domingo, 12 de junho de 2005 (Clare tem 34 anos, Henry, 41)
CLARE: É uma tarde de domingo ensolarada. Entro na cozinha e encontro Henry ao lado da janela, contemplando o jardim. Ele faz sinal me chamando, fico ao lado dele e olho. Alba está brincando no jardim com uma menina mais velha. A menina tem uns 7 anos. Tem cabelo comprido e está descalça. Veste uma camiseta suja com o logo dos Cubs. As duas estão sentadas no chão, de frente uma para a outra. A menina está de costas para nós. Alba sorri para ela e gesticula com as mãos como se estivesse voando. A menina balança a cabeça e ri.
Olho para Henry.
— Quem é essa?
— É a Alba.
— Sim, mas quem está com ela?
Henry sorri, mas de cenho franzido, de modo que seu sorriso parece preocupado.
— Clare, aquela é a Alba já mais velha. Ela está viajando no tempo.
— Meu deus. — Olho para a menina. Ela gira o corpo, aponta para a casa, e eu vejo um perfil rápido, mas aí ela torna a virar para o outro lado. — Devemos ir lá?
— Não, ela está bem. Se elas quiserem, elas vêm aqui.
— Eu adoraria conhecê-la...
— É melhor não... — começa Henry, mas assim que fala, as duas Albas dão um pulo e saem correndo em direção à porta dos fundos, de mãos dadas. Elas entram na cozinha rindo.
— Mamãe, mamãe — diz minha Alba, a Alba de 3 anos, apontando —, olha! Uma Alba grande!
A outra Alba dá um sorriso sem jeito e diz “Oi, mamãe”. Quando sorrio e digo “Alô Alba”, ela se vira, vê Henry e grita “Papai!”. Ela corre em sua direção, joga os braços em volta dele e começa a chorar. Henry olha para mim, abaixa o corpo para embalar Alba e sussurra alguma coisa em seu ouvido.
HENRY: Clare ficou branca. Está olhando para nós, segurando a mão da Alba pequena, que está vendo boquiaberta sua versão mais velha agarrada a mim e chorando. Abaixo o corpo e sussurro no ouvido de Alba:
— Não conte à mamãe que morri, sim? — Ela olha para mim, lágrimas pingando dos cílios compridos, lábios trêmulos, e faz que sim com a cabeça. Clare segura um lenço de papel, diz a Alba para assoar o nariz e dá um abraço nela. Alba se deixa levar para lavar o rosto. A pequena Alba, a Alba do presente, enrosca-se em minha perna.
— Por que, papai? Por que ela está triste? — Felizmente, não preciso responder porque Clare e Alba voltaram; Alba usa uma das camisetas de Clare e uma das minhas calças cortadas. Clare diz:
— Ei, gente. Por que não vamos tomar um sorvete? — As duas Albas sorriem; a Alba pequena dança em volta de nós, gritando:
— I scream, you scream, I scream, you scream... — Lotamos o carro com Clare dirigindo, a Alba de 3 anos no banco da frente e a de 7 no banco traseiro comigo. Ela se encosta em mim; passo o braço em volta dela. Ninguém diz uma palavra, a não ser a pequena Alba.
— Olhe, Alba, um cachorrinho! Olhe, Alba, olhe, Alba... — até sua versão mais velha dizer:
— Sim, Alba, estou vendo. — Clare nos leva ao Zephyr; ocupamos um reservado de vinil azul brilhante e pedimos duas bananas split, um leite maltado de chocolate e uma casquinha de baunilha com confeitos. As meninas sorvem as bananas split como aspiradores de pó; Clare e eu brincamos com nossos sorvetes, sem nos olharmos. Clare diz:
— Alba, o que está acontecendo no seu presente?
Alba dispara um olhar para mim.
— Nada de mais — diz ela. — Vovô está me ensinando o segundo concerto de violino de Saint-Saens.
— Você está fazendo uma peça na escola — sugiro.
— Estou? — diz ela. — Ainda não, eu acho.
— Ah, desculpe — digo. — Acho que isso é só no ano que vem. — A coisa segue assim. Fazemos uma conversa aos trancos, desviando daquilo que sabemos e do que precisamos evitar que Clare e a Alba pequena saibam. Algum tempo depois, a Alba mais velha deita a cabeça nos braços sobre a mesa.
— Cansada? — Clare pergunta para ela, que concorda com a cabeça.
— É melhor a gente ir — digo a Clare. Pagamos, e pego Alba no colo; ela está inerte, quase dormindo em meus braços. Clare pega a Alba pequena, que está com todo o gás depois daquele açúcar todo. No carro, quando estamos subindo a Lincoln Avenue, Alba some. — Ela voltou — digo a Clare. Ela me encara no retrovisor por um instante.
— Para onde, papai? — pergunta Alba. — Para onde?
Mais tarde:
CLARE: Finalmente consegui fazer Alba tirar uma soneca. Henry está sentado em nossa cama, tomando uísque e olhando pela janela para uns esquilos se perseguindo em volta da parreira. Vou até lá e sento ao lado dele.
— Ei — digo. Henry me olha, passa o braço em volta de mim e me puxa para ele.
— Ei — diz.
— Você vai me dizer o que foi aquilo? — pergunto.
Henry pousa a bebida e começa a desabotoar minha blusa.
— Posso deixar de te contar impunemente?
— Não. — Solto seu cinto e desabotoo seu jeans.
— Tem certeza? — Ele beija o meu pescoço.
— Sim. — Puxo o seu zíper, meto a mão por baixo de sua camisa e passo por sua barriga.
— Porque você não quer mesmo saber. — Henry respira na minha orelha e passa a língua em volta dela. Estremeço. Ele tira minha blusa, desabotoa meu sutiã. Meus seios caem soltos e deito de costas, vendo Henry tirar as calças, a cueca e a camisa. Ele sobe na cama e eu digo: — As meias.
— Ah, sim. — Ele tira as meias. Ficamos nos olhando.
— Você só está tentando me distrair — digo.
Henry acaricia minha barriga.
— Estou tentando me distrair. Se conseguir distrair você também, melhor ainda.
— Você tem que me contar.
— Não, não tenho. — Ele segura meus seios com as mãos em concha, passa os polegares nos meus mamilos.
— Vou imaginar o pior.
— Vá em frente. — Levanto o quadril e Henry tira meu jeans e minha calcinha. Ele monta em mim e se dobra para me beijar. Ai, nossa, penso, o que pode ser? O que é o pior? Fecho os olhos. Uma lembrança: o Campo, um dia frio em minha infância, correndo na relva morta, ouviu-se um barulho, ele chamou meu nome...
— Clare? — Henry está mordendo meus lábios, delicadamente. — Onde você está?
— 1984.
Henry faz uma pausa e diz:
— Por quê?
— Acho que é onde acontece.
— Onde acontece o quê?
— O que quer que você esteja com medo de me contar.
Henry sai de cima de mim, e estamos deitados lado a lado.
— Conte para mim — ele diz.
— Era cedo. Um dia de outono. Papai e Mark estavam caçando veados. Acordei; achei que tinha ouvido você me chamando e corri para o campo. Você estava lá, e você, papai e Mark estavam todos olhando para uma coisa, mas papai me fez voltar para casa. Eu nunca vi para o que você olhava.
— Ah?
— Voltei lá mais tarde naquele dia. Tinha uma poça de sangue na grama.
Henry não diz nada. Comprime os lábios. Enrosco meus braços nele, dando um abraço com força. Digo:
— O pior...
— Shh, Clare.
— Mas...
— Shh. — Lá fora, ainda está uma tarde dourada. Dentro, estamos com frio e ficamos agarrados para nos aquecer. Alba, em sua cama, dorme e sonha com sorvete, sonha os pequenos sonhos satisfeitos de três anos, enquanto outra Alba, no futuro, sonha que abraça o pai e acorda encontrando... o quê?
OceanofPDF.com