A mulher do viajante no tempo

Audrey Niffenegger · Capítulo 19 de 51

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A mulher do viajante no tempo

Ficção Científica de Biblioteca

 

Quarta-feira, 8 de março de 1995 (Henry tem 31 anos)

HENRY: Matt e eu estamos brincando de esconde-esconde no depósito das Coleções Especiais. Ele está me procurando porque devemos dar uma aula de caligrafia para uma integrante do conselho da Newberry e seu Clube Feminino de Tipografia. Estou me escondendo dele porque estou tentando me vestir todo antes que me ache.

— Vamos, Henry, elas estão esperando — grita Matt de algum lugar das Primeiras Propagandas Americanas. Estou vestindo as calças no livre d’artistes franceses do século XX.

— Um segundinho, só quero encontrar uma coisa — grito. Guardo na cabeça que devo aprender ventriloquia para momentos como esse. A voz de Matt se aproxima mais quando ele diz:

— Você sabe que a sra. Connely vai ter um treco, deixa isso pra lá, vamos sair daqui... — Ele mete a cabeça pela minha fileira quando estou abotoando a camisa. — O que está fazendo?

— Como?

— Você andou correndo pelado de novo pelo depósito, não?

— Hum, talvez. — Tento aparentar indiferença.

— Meu Deus, Henry. Me dê o carrinho.

Matt pega o carrinho carregado de livros e começa a levá-lo em direção à Sala de Leitura. A pesada porta de metal abre e fecha. Calço as meias e os sapatos, dou o laço na gravata, espano e visto o paletó. Entro na Sala de Leitura e encaro Matt do outro lado da comprida mesa de sala de aula rodeada de senhoras ricas de meia-idade. Aí começo a discorrer sobre os vários estilos de caligrafia do gênio tipográfico Rudolf Koch. Matt estende feltros, abre pastas e dá apartes inteligentes sobre Koch, e com o passar da hora parece que não vai me matar dessa vez. As alegres senhoras saem para almoçar. Matt e eu damos a volta na mesa, guardando os livros nas respectivas caixas e colocando tudo no carrinho.

— Desculpe o atraso.

— Se você não fosse brilhante — retruca Matt —, a essa altura a gente já teria curtido você e usado o seu couro para encadernar novamente Das Manifest der Nacktkultur.

— Não existe esse livro.

— Quer apostar?

— Não.

Levamos o carrinho de volta para o depósito e começamos a repor os livros e as pastas nas prateleiras. Pago o almoço de Matt no Beau Thai, e tudo fica perdoado, se não esquecido.

Terça-feira, 11 de abril de 1995 (Henry tem 31 anos)

HENRY: Há uma escada na Biblioteca Newberry que me assusta. Fica na ponta leste da galeria comprida que há em cada um dos quatro andares, dividindo as Salas de Leitura dos depósitos. Não é imponente como a escada principal com seus degraus de mármore e seus corrimãos entalhados. Não tem janelas. Tem luzes fluorescentes, paredes de tijolos de concreto com faixas de segurança amarelas. Há portas de metal sem janelas em cada andar. Mas não são estas coisas que me metem medo. O que eu não gosto nessa escada nem um pouco é da Gaiola.

A Gaiola tem quatro andares e ocupa o centro do vão da escada. À primeira vista, parece uma gaiola de elevador, mas não há nem nunca houve elevador algum. Parece que ninguém na Newberry sabe para que serve a Gaiola, nem por que foi instalada. Presumo que esteja lá para impedir que as pessoas se joguem da escada e se esborrachem lá embaixo. A Gaiola é pintada de bege e feita de aço.

Quando vim trabalhar na Newberry, Catherine me acompanhou para mostrar todos os cantos e recantos. Exibiu com orgulho os depósitos, a sala dos objetos, a sala desocupada no corredor leste onde Matt estuda canto, o gabinete incrivelmente desarrumado de McAllister, as mesas de estudo dos pesquisadores, o refeitório dos funcionários. Quando subíamos para a sala de conservação e Catherine abriu a porta da escada, tive um momento de pânico. Olhei para o gradeado da Gaiola e empaquei como um cavalo arisco.

— O que é isso? — perguntei a Catherine.

— Ah, é a Gaiola — respondeu ela, de forma casual.

— É um elevador?

— Não, é só uma gaiola. Acho que não faz nada.

— Ah. — Fui até lá, olhei para dentro. — Tem alguma porta lá embaixo?

— Não. Não dá para entrar nela.

— Ah.

Subimos as escadas e continuamos com a nossa excursão.

Desde então, evito usar essa escada. Tento não pensar na Gaiola; não quero fazer disso um bicho de sete cabeças. Mas se algum dia eu for parar lá dentro, não vou conseguir sair.

Sexta-feira, 9 de junho de 1995 (Henry tem 31 anos)

HENRY: Apareço no chão do banheiro masculino dos funcionários no quarto andar da Newberry. Passei dias sumido, perdido em 1973 na zona rural de Indiana, e estou cansado, faminto e com a barba por fazer; pior ainda, tenho um olho roxo e não acho as minhas roupas. Fico em pé e me tranco num reservado, onde sento e fico pensando. Nesse meio-tempo, alguém entra, abre a braguilha e fica parado mijando no mictório. Quando termina, fecha a calça e espera um instante — e exatamente aí, eu espirro.

— Quem está aí? — pergunta Roberto. Fico sentado em silêncio. Pela fresta entre a porta e o batente, vejo Roberto se abaixar devagar e olhar por baixo da porta para meus pés.

— Henry? — ele diz. — Vou mandar Matt trazer suas roupas. Se vista por favor e venha à minha sala.

Entro de fininho na sala de Roberto e me sento à sua frente. Ele está ao telefone, então dou uma espiada em sua agenda. É sexta-feira. O relógio acima da mesa marca 14h17. Estou desaparecido há pouco mais de 22 horas. Roberto põe o fone delicadamente no gancho e se vira para olhar para mim.

— Feche a porta — diz.

Isso é uma mera formalidade porque as portas de nossas salas não vão realmente até o teto, mas faço o que ele diz.

Roberto Calle é um eminente especialista em renascença italiana e o chefe das Coleções Especiais. Ele normalmente é o mais otimista dos homens, e um motivador. Usa barba e é bronzeado. Agora me olha com tristeza por cima dos óculos bifocais e diz:

— Realmente isso é inadmissível, você sabe.

— Sim — digo. — Eu sei.

— Posso perguntar onde você arranjou esse impressionante olho roxo? — A voz de Roberto é amarga.

— Acho que bati numa árvore.

— Claro. Que bobagem minha não pensar nisso. — Ficamos parados olhando um para o outro. Roberto diz: — Por acaso, ontem vi o Matt entrando na sua sala levando um monte de roupas. Como não era a primeira vez que vi o Matt andando por aí carregando roupas, perguntei onde ele tinha arranjado aquelas ali, e ele disse que tinha encontrado no banheiro masculino. Então, perguntei por que ele sentiu vontade de levar as roupas para a sua sala e ele respondeu que eram parecidas com as que você estava usando, e eram mesmo. E já que ninguém achava você, simplesmente deixamos as roupas na sua mesa.

Ele faz uma pausa como se eu devesse dizer algo, mas não consigo pensar em nada apropriado. Ele prossegue:

— Hoje de manhã, Clare ligou e disse a Isabelle que você estava gripado e não viria. — Apoio a cabeça na mão. Meu olho lateja. — Explique-se — exige Roberto.

É tentador dizer: Roberto, fiquei preso em 1973 e não deu para sair. Passei dias morando num celeiro em Muncie, Indiana, e levei um murro do dono do celeiro porque ele achou que eu estava de sacanagem com as ovelhas dele. Mas obviamente não posso dizer isso. Digo:

— Não estou bem lembrado, Roberto, desculpe.

— Ah. Bom, acho que o Matt ganha o bolão.

— Que bolão?

Roberto dá um sorriso, e acho que talvez ele não vá me pôr na rua.

— O Matt apostou que você nem tentaria explicar. A Amélia bateu dinheiro na versão abdução por extraterrestres. A Isabelle apostou que você estava envolvido num cartel internacional de drogas e tinha sido sequestrado e morto pela Máfia.

— E a Catherine?

— Ah, a Catherine e eu estamos convencidos de que isso tudo se deve a uma bizarra tara sexual que envolve nudez e livros.

Respiro fundo.

— É mais como epilepsia — digo.

Roberto parece cético.

— Epilepsia? Você desapareceu ontem à tarde. Está com um olho roxo e a cara e as mãos todas arranhadas. Mandei o pessoal da segurança revistar o prédio de cima a baixo à sua procura ontem; eles me disseram que você tem o hábito de tirar a roupa no depósito.

Fico olhando para as minhas unhas. Quando levanto os olhos, Roberto está olhando pela janela.

— Não sei o que fazer com você, Henry. Eu odiaria te perder; quando está aqui todo vestido, você consegue ser bastante... competente. Mas, simplesmente, assim não dá.

Ficamos nos olhando alguns minutos. Afinal, Roberto fala:

— Me diga que não vai tornar a acontecer.

— Não posso. Quem me dera.

Roberto suspira e faz um gesto indicando a porta.

— Vá. Vá catalogar a coleção Quigley. Isso deve te manter longe de encrenca por algum tempo. — (A coleção Quigley, recentemente doada, é composta por mais de duas mil peças vitorianas sobre assuntos banais, a maioria falando sobre sabão.) Balanço a cabeça expressando minha obediência e me levanto.

Quando abro a porta, Roberto diz:

— Henry. É tão ruim que não dá para me contar?

Hesito.

— É — digo. Roberto fica calado. Fecho a porta ao passar e vou para minha sala. Matt está sentado na minha mesa, transferindo coisas da agenda dele para a minha. Ergue os olhos quando entro.

— Ele pôs você na rua? — pergunta.

— Não — respondo.

— Por quê?

— Sei lá.

— Estranho. Por falar nisso, fiz sua palestra para os encadernadores de Chicago.

— Obrigado. Amanhã te pago o almoço.

— Claro. — Matt verifica a agenda à sua frente. — Temos uma aula para a turma de história da tipografia da Columbia daqui a 45 minutos. — Faço que sim com a cabeça e começo a catar na minha mesa a lista de itens que vamos mostrar. — Henry?

— Sim?

— Onde você estava?

— Em Muncie, Indiana. 1973.

— Tá bom... — Matt revira os olhos e sorri com sarcasmo. — Deixa pra lá.

Domingo, 17 de dezembro de 1995 (Clare tem 24 anos, Henry, 8)

CLARE: Estou visitando Kimy. É uma tarde de neve em dezembro. Andei fazendo compras de Natal e estou sentada na cozinha de Kimy tomando chocolate quente, esquentando os pés ao lado do radiador de rodapé e me divertindo com histórias de pechinchas e decorações. Kimy joga paciência enquanto conversamos; admiro a prática que ela tem de embaralhar, a eficiência com que bota as cartas vermelhas sobre as pretas. Há uma panela de ensopado cozinhando em fogo lento. Ouve-se um barulho na sala de jantar; uma cadeira cai. Kimy ergue os olhos e vira o rosto.

— Kimy — sussurro. — Tem um garotinho embaixo da mesa da sala de jantar.

Alguém dá um risinho.

— Henry? — grita Kimy. Nada de resposta. Ela se levanta e fica parada na porta. — Ei, amigo. Pare com isso. Bote uma roupa, mocinho.

Kimy desaparece na sala de jantar. Sussurros. Mais risadinhas. Silêncio. De repente, há um garotinho pelado me olhando da porta, e, tão depressa quanto surgiu, ele desaparece. Kimy volta para a mesa e continua jogando.

— Uau — digo.

Kimy sorri.

— Isso não acontece muito ultimamente. Agora quando vem é adulto. Mas não vem tanto quanto costumava vir.

— Eu nunca vi o Henry ir assim para frente, para o futuro.

— Bom, você ainda não tem tanto futuro com ele.

Custo um pouco a entender o que ela quer dizer. Quando entendo, me pergunto que tipo de futuro será, e aí penso no futuro se expandindo, gradualmente se abrindo o suficiente para Henry chegar do passado até mim. Tomo o meu chocolate e fico olhando para o jardim congelado de Kimy.

— Sente falta dele? — pergunto.

— Sinto, sim. Mas agora ele já é grande. Quando ele vem como criança, é como um fantasma, sabe? — Faço que sim com a cabeça. Kimy termina o jogo, junta as cartas, olha para mim e sorri. — Quando vocês vão ter filho, hein?

— Não sei, Kimy, não tenho certeza se podemos.

Ela se levanta, vai até o fogão e mexe o ensopado.

— Bom, nunca se sabe.

— Verdade. — Nunca se sabe.

Mais tarde, Henry e eu estamos deitados na cama. Continua nevando; os radiadores dão estalos fracos. Viro para ele e quando ele me olha, eu digo:

— Vamos fazer um filho.

Segunda-feira, 11 de março de 1996 (Henry tem 32 anos)

HENRY: Localizei o dr. Kendrick; ele é afiliado ao hospital da Universidade de Chicago. É um dia de março horrível, úmido e frio. Em Chicago, o tempo em março deveria ser melhor do que em fevereiro, mas nem sempre é assim. Entro no trem e me sento virado para trás. Chicago desfila atrás de mim e logo estou na rua 59. Salto e luto para atravessar a chuva gelada. São 9h de uma segunda-feira. Todo mundo está calado, resistindo a voltar para a semana de trabalho. Gosto do Hyde Park. A sensação que dá é que saí de Chicago e caí em outra cidade qualquer, talvez Cambridge. Os prédios de pedra cinza estão escuros com a chuva. Pingos grossos e gelados caem das árvores nos transeuntes. Sinto a serenidade absoluta do fato consumado; conseguirei convencer Kendrick, embora tenha fracassado em convencer tantos médicos, porque o convenço mesmo. Ele será meu médico porque no futuro ele é meu médico.

Entro num prédio cuja arquitetura imita o estilo de Mies ao lado do hospital. Pego o elevador para o terceiro andar, abro a porta de vidro com a inscrição em dourado Drs. C. P. Sloane e D. L. Kendrick, anuncio meu nome à recepcionista e me sento numa das cadeiras estofadas violeta-escuro. A sala de espera é rosa e violeta, suponho que para acalmar os pacientes. O dr. Kendrick é geneticista e, não por acaso, filósofo; seu lado filósofo, acho eu, deve servir para encarar a dura realidade do geneticista. Hoje, não há ninguém aqui a não ser eu. Cheguei dez minutos adiantado. O papel de parede tem listras largas exatamente da cor rosa de Pepto-Bismol. Não combina com a pintura de um moinho d’água à minha frente, com predomínio de marrons e verdes. A mobília é uma imitação de estilo colonial, mas há um tapete bem bonito, um tipo de tapete persa macio, e eu fico meio com pena dele, preso aqui nessa sala de espera horrenda. A recepcionista é uma mulher de meia-idade de aparência simpática com rugas profundas de anos de sol; está bronzeadíssima agora, em março em Chicago.

Às 9h35, escuto vozes no corredor e uma loura entra na sala de espera com um garotinho numa cadeira de rodas. O garoto parece ter paralisia cerebral ou algo assim. A mulher ri para mim; retribuo o sorriso. Quando ela vira, vejo que está grávida. A recepcionista diz:

— Pode entrar, sr. DeTamble — e sorrio para o garoto ao passar por ele. Seus olhos enormes me observam, mas ele não retribui o sorriso.

Quando entro na sala do dr. Kendrick, ele está fazendo anotações num arquivo. Me sento e ele continua escrevendo. Ele é mais moço do que pensei; trinta e muitos. Sempre tenho a expectativa de que os médicos sejam velhos. Não consigo evitar por conta da minha infância com um sem-fim de médicos. Kendrick é ruivo, tem uma cara fina, barba e usa óculos grossos de aro de metal. Parece um pouco com D. H. Lawrence. Está usando um belo terno cinza-escuro e uma gravata verde estreita com um prendedor em forma de truta. Há um cinzeiro transbordando junto a seu cotovelo; a sala está impregnada de fumaça de cigarro, embora, no momento, ele não esteja fumando. Tudo é muito moderno: aço tubular, sarja bege, madeira clara. Ele olha para mim e sorri.

— Bom dia, sr. DeTamble. O que posso fazer pelo senhor? — Ele olha para a agenda. — Parece que não tenho nenhuma informação a seu respeito, aqui. Qual é o problema?

— Dasein.

Kendrick é pego desprevenido.

— Dasein? Ser? Como assim?

— Tenho uma doença que ouvi dizer que será conhecida como distúrbio temporal. Tenho dificuldade de ficar no presente.

— Desculpe?

— Viajo no tempo. Sem querer.

Kendrick fica confuso, mas se controla. Gosto dele. Está tentando lidar comigo como uma pessoa sã faria, embora eu tenha certeza de que já considera para qual dos seus amigos psiquiatras vai me encaminhar.

— Mas por que precisa de um geneticista? Ou está me consultando como filósofo?

— É uma doença genética. Embora fosse muito agradável ter alguém com quem conversar sobre as hipóteses do problema.

— Sr. DeTamble. O senhor obviamente é um homem inteligente... Nunca ouvi falar dessa doença. Não posso fazer nada pelo senhor.

— Não acredita em mim.

— Correto. Não acredito.

Agora dou um sorriso melancólico. Me sinto péssimo com isso, mas tem que ser feito.

— Pois bem. Já fui a um bom número de médicos na vida, mas esta é a primeira vez que tenho alguma coisa a oferecer como prova. Claro, ninguém jamais acredita em mim. Você e sua mulher estão esperando um filho para o mês que vem?

Ele fica desconfiado.

— Sim. Como sabe?

— Daqui a alguns anos procuro a certidão de nascimento do seu filho. Viajo ao passado da minha mulher, escrevo a informação neste envelope. Ela me dá o envelope quando nos encontramos no presente. Eu dou ao senhor, agora. Abra depois do nascimento do seu filho.

— Vamos ter uma menina.

— Não, não vão, na verdade — digo delicadamente. — Mas não vamos discutir por isso. Guarde o papel para abrir depois do nascimento da criança. Não jogue fora. Depois que tiver lido, me ligue, se quiser. — Fico de pé para sair. — Boa sorte — digo, embora eu não acredite em sorte, atualmente. Tenho muita pena dele, mas não há outra forma de fazer isso.

— Até logo, sr. DeTamble — diz o dr. Kendrick friamente. Saio. Quando entro no elevador, penso com meus botões que ele deve estar abrindo o envelope agora mesmo. Dentro há uma folha de papel que diz:

Colin Joseph Kendrick

6 de abril de 1996 1h18

Sexo masculino, branco, 3kg

Síndrome de Down

Sábado, 6 de abril de 1996, 5h32 (Henry tem 32 anos, Clare, 24)

HENRY: Estamos dormindo bem agarradinhos; passamos a noite toda acordando, virando na cama, levantando, tornando a deitar. O neném dos Kendricks nasceu hoje de madrugada. Logo o telefone vai tocar. E toca mesmo. Clare atende o aparelho, que fica do seu lado, e diz:

— Alô? — bem baixinho, e me passa o aparelho.

— Como sabia? Como sabia? — Kendrick quase sussurra.

— Sinto muito. Sinto muito mesmo. — Ficamos ambos um minuto calados. Acho que Kendrick está chorando.

— Venha ao meu consultório.

— Quando?

— Amanhã — diz e desliga o telefone.

Domingo, 7 de abril de 1996 (Henry tem 32 e 8 anos, Clare, 24)

HENRY: Clare e eu estamos indo de carro para o Hyde Park. Passamos a maior parte da viagem calados. Chove, e os limpadores de para-brisa são como o baixo e a bateria de uma banda, dando ritmo ao vento e à água que escorre pelo carro. Como se continuasse uma conversa inexistente, Clare diz:

— Não é justo.

— O quê? Kendrick?

— É.

— A natureza não é justa.

— Ah... não. Quer dizer, sim, é uma tristeza essa coisa do neném, mas na verdade eu me referia a nós. Não é justo a gente estar explorando isso.

— É golpe baixo, você quer dizer?

— A-hã.

Suspiro. Aparece a saída da rua 57, Clare muda de pista e sai da estrada.

— Concordo com você, mas é tarde demais. E tentei...

— Bom, é tarde demais, de qualquer forma.

— Certo.

Tornamos a ficar calados. Guio Clare através do labirinto de ruas de mão única, e logo estamos na frente do prédio do consultório de Kendrick.

— Boa sorte.

— Obrigado. Estou nervoso.

— Seja bonzinho.

Clare me beija. Olhamos um para o outro, todas as nossas esperanças afetadas pelo sentimento de culpa em relação a Kendrick. Clare sorri e olha para o outro lado. Salto do carro e fico vendo Clare seguir lentamente pela rua 59 e atravessar o Midway. Ela tem uma missão a cumprir na Galeria Smart.

A porta principal está destrancada e pego o elevador para o terceiro andar. Não há ninguém na sala de espera de Kendrick. Atravesso a sala e sigo pelo corredor. A porta de Kendrick está aberta, e a luz, apagada. Kendrick está de pé atrás de sua mesa, de costas para mim, olhando pela janela para a rua molhada lá embaixo. Fico calado, parado na porta um bom tempo. Afinal, entro na sala.

Kendrick se vira. Seu rosto está tão diferente que fico chocado. Arrasado é pouco. Ele está vazio; sumiu algo que antes havia ali. Segurança; confiança; firmeza. Estou tão acostumado a me equilibrar num trapézio metafísico que esqueço que os outros em geral gostam de um terreno mais estável.

— Henry DeTamble — diz Kendrick.

— Olá.

— Por que me procurou?

— Porque eu tinha que procurar você. Não foi uma questão de escolha.

— Destino?

— Chame do que quiser. As coisas ficam meio circulares quando se vive a minha vida. Causa e efeito se embaralham.

Kendrick senta-se à sua mesa. A cadeira range. O único outro ruído é a chuva. Ele tateia o bolso à cata dos cigarros e olha para mim ao encontrar. Dou de ombros. Ele acende um e fuma um pouco. Fico olhando para ele.

— Como soube? — pergunta.

— Já te disse. Vi a certidão de nascimento.

— Quando?

— 1999.

— Impossível.

— Então explique como eu soube.

Kendrick balança a cabeça.

— Não consigo. Tentei entender e não consigo. Tudo... estava certo. A hora, o dia, o peso, a... anormalidade. — Ele me olha desesperado. — E se a gente tivesse decidido dar outro nome... Alex, ou Fred, ou Sam...?

Balanço a cabeça e paro quando vejo que estou imitando Kendrick.

— Mas não deram. Não me arrisco em dizer que não podiam, mas não deram. Eu só fiz relatar. Não sou médium.

— Você tem filhos?

— Não. — Não quero discutir isso, embora seja algo que vou ter que fazer no final das contas. — Sinto muito sobre o Colin. Mas, na verdade, ele é um menino maravilhoso, sabe.

Kendrick fica me olhando.

— Localizei o erro. Os resultados dos nossos exames foram trocados sem querer pelos de um casal chamado Kenwick.

— O que teria feito se soubesse?

Ele olha para o lado.

— Não sei. Minha mulher e eu somos católicos, então imagino que o resultado final seria o mesmo. É irônico...

— Sim.

Kendrick apaga o cigarro e acende outro. Aceito como inevitável a dor de cabeça causada pelo fumo.

— Como funciona isso?

— O quê?

— Essa suposta coisa de viajar no tempo que você supostamente faz. — A voz dele está irritada. — Você diz umas palavras mágicas? Entra numa máquina?

Tento explicar de forma plausível.

— Não. Não faço nada. Simplesmente acontece. Eu não controlo... uma hora está tudo bem, em seguida, estou em outro lugar, em outro tempo. Como mudar de canal. De repente me vejo em outro tempo e lugar.

— Bem, o que quer que eu faça em relação a isso?

Inclino o corpo à frente, para dar ênfase.

— Quero que descubra por que e impeça isso.

Kendrick sorri. Não é um sorriso simpático.

— Por que quer parar? Aparentemente, isso seria bem conveniente para você. Saber essas coisas todas que os outros não sabem.

— É perigoso. Cedo ou tarde esse problema vai me matar.

— Eu estaria mentindo se dissesse que me importo.

Não há por que continuar. Fico de pé e vou até a porta.

— Até logo, dr. Kendrick. — Caminho lentamente pelo corredor para que ele tenha chance de me chamar de volta, mas ele não chama. Quando estou no elevador, reflito com muita tristeza que o que quer que tenha dado errado simplesmente tinha que dar e, cedo ou tarde, vai se ajeitar. Ao abrir a porta, vejo Clare me esperando no carro do outro lado da rua. Ela vira o rosto com uma expressão de esperança e expectativa tão grande que me dá uma tristeza imensa e um medo de contar para ela. Quando atravesso a rua, ouço um zumbido, perco o equilíbrio e caio. Em vez de bater na rua, bato no tapete e fico deitado onde caí até ouvir uma voz conhecida de criança dizendo:

— Henry, você está bem? — Levanto os olhos e me vejo sentado na cama, com 8 anos, olhando para mim.

— Estou bem, Henry. — Ele fica desconfiado. — De verdade, estou bem.

— Quer um Ovomaltine?

— Quero. — Ele se levanta da cama, sai do quarto e segue pelo corredor. É tarde da noite. Ele zanza um pouco pela cozinha e acaba voltando com duas canecas de chocolate quente. Quando terminamos, Henry leva as canecas de volta para a cozinha para lavar. Não tem sentido deixar a prova à mostra. Quando ele volta, pergunto: — E aí, qual é?

— Nada de mais. Fomos a outro médico hoje.

— Ei, eu também. Qual?

— Esqueci o nome. Um velho com as orelhas cabeludas.

— Como foi?

Henry dá de ombros.

— Ele não acreditou em mim.

— Ééé.... Você devia desistir. Nenhum deles jamais vai acreditar em você. Bom, o médico que vi hoje acreditou em mim, acho eu, mas não quis me ajudar.

— Como não?

— Ele simplesmente não gostou de mim, acho eu.

— Ah. Ei, quer umas mantas?

— Hum, talvez umazinha. — Tiro a colcha da cama de Henry e me encolho no chão. — Boa noite. Durma bem. — Vejo o brilho dos dentes brancos do meu pequeno eu no azul do quarto, e aí ele vira para dormir todo encolhidinho, enquanto fico olhando para o meu antigo teto, forçando minha volta para Clare.

CLARE: Henry sai do prédio com uma cara infeliz, e de repente grita e desaparece. Pulo fora do carro e vou correndo para o lugar onde Henry estava um segundo atrás, mas claro que agora só há uma pilha de roupas ali. Recolho tudo e fico um instante parada no meio da rua. Enquanto estou ali, vejo uma cara de homem me olhando de uma janela do terceiro andar. Aí, ele desaparece. Volto para o carro, entro e fico sentada olhando para a camisa azul-clara e as calças pretas de Henry, me perguntando se adianta alguma coisa ficar ali. Estou com Brideshead Revisited na bolsa, então decido esperar por ali um pouco, caso Henry reapareça logo. Quando viro para procurar o livro, vejo um homem ruivo correndo para o carro. Ele para na porta do carona e olha para mim. Deve ser Kendrick. Levanto o trinco e ele entra no carro, sem nem saber o que dizer.

— Oi — digo. — Você deve ser David Kendrick. Sou Clare DeTamble.

— Sim... — ele está completamente confuso —, sim, sim. Seu marido...

— Acabou de sumir em plena luz do dia.

— Sim!

— Você parece surpreso.

— Bom...

— Ele não te disse? Ele faz isso. — Até agora, não estou muito impressionada com esse sujeito, mas insisto. — Sinto muito a respeito do seu neném. Mas o Henry diz que ele é um amor de criança, e que desenha muito bem e tem muita imaginação. E sua filha é muito talentosa, e vai dar tudo certo. Vai ver.

Ele me olha boquiaberto.

— Não temos nenhuma filha. Só... o Colin.

— Mas vai ter. O nome dela é Nadia.

— Foi um choque. Minha mulher está muito perturbada...

— Mas vai dar certo. De verdade.

Para minha surpresa, esse estranho começa a chorar, sacudindo os ombros, a cara enfiada nas mãos. Depois de alguns minutos, ele para e levanta a cabeça. Dou um Kleenex para ele, que assoa o nariz.

— Desculpe — começa.

— Não faz mal. O que aconteceu ali, com você e Henry? Acabou mal.

— Como sabe?

— Ele ficou todo estressado, então perdeu o controle sobre o presente.

— Cadê ele? — Kendrick olha em volta como se eu estivesse escondendo Henry no banco traseiro.

— Não sei. Aqui, não está. A gente esperava que você pudesse ajudar, mas acho que não.

— É, não vejo como... — Nesse instante, Henry aparece exatamente no mesmo lugar de onde desapareceu. Há um carro a uns seis metros dali, e o motorista pisa no freio quando Henry se joga em cima do capô do nosso carro. O homem abaixa o vidro enquanto Henry se senta e faz uma pequena saudação. O cara grita alguma coisa e vai embora. Meu sangue pulsa nos meus ouvidos. Olho para Kendrick, que está sem fala. Salto do carro e Henry sai de cima do capô.

— Oi, Clare. Foi por um triz, hein? — Dou um abraço nele, que está tremendo. — Trouxe as minhas roupas?

— Trouxe, estão aqui... ei, Kendrick está aqui.

— O quê? Onde?

— No carro.

— Por quê?

— Ele viu você desaparecer e parece que isso mexeu com o cérebro dele.

Henry mete a cabeça pela porta do carona.

— Oi.— Ele pega as roupas e começa a se vestir. Kendrick salta do carro e vem depressa até onde estamos.

— Onde você estava?

— Em 1971. Eu estava tomando Ovomaltine comigo, com 8 anos de idade, no meu antigo quarto, à uma da manhã. Passei mais ou menos uma hora ali. Por que pergunta? — Henry olha para Kendrick friamente enquanto dá o nó na gravata.

— Incrível.

— Pode dizer isso quantas vezes quiser, mas, infelizmente, é verdade.

— Você quer dizer que ficou com 8 anos de idade?

— Não. Eu estava sentado no meu antigo quarto na casa do meu pai, em 1971, assim mesmo, com 32 anos, na companhia do meu eu de 8 anos. Tomando Ovomaltine. A gente ficou falando sobre a incredulidade dos médicos. — Henry dá a volta no carro e abre a porta. — Clare, vambora. Isso é inútil.

Vou até o lado do motorista.

— Adeus, dr. Kendrick. Boa sorte com o Colin.

— Esperem... — Kendrick faz uma pausa, recuperando o controle. — Isso é uma doença genética?

— É — diz Henry. — É uma doença genética, e estamos tentando ter um filho.

Kendrick sorri, com tristeza.

— Uma coisa arriscada de se fazer.

Devolvo o sorriso.

— Estamos acostumados a correr riscos. Adeus. — Henry e eu entramos no carro e vamos embora. Quando pego a Lake Shore Drive, olho para Henry, que, para minha surpresa, ri de orelha a orelha.

— Com o que está tão satisfeito?

— Kendrick. Ele está totalmente fisgado.

— Acha?

— Ah, sim.

— Bom, ótimo. Mas ele parecia meio obtuso.

— Não é não.

— Tudo bem.

Vamos para casa em silêncio, um silêncio totalmente diferente daquele de quando chegamos. Kendrick liga para Henry naquela noite, e eles marcam uma hora para começar o trabalho de descobrir como manter Henry no aqui e agora.

Sexta-feira, 12 de abril de 1996 (Henry tem 32 anos)

HENRY: Kendrick está sentado de cabeça baixa. Seus polegares contornam as palmas de suas mãos como se quisessem fugir. Conforme a tarde foi passando, uma luz dourada iluminou a sala. Kendrick não se mexeu, a não ser por aqueles polegares nervosos, enquanto falei. O sol brilha no tapete índio vermelho e nas pernas de aço das poltronas de sarja bege; os cigarros Camel de Kendrick não foram tocados enquanto ele me ouviu. O sol realçou os aros dourados de seus óculos redondos; a ponta de sua orelha direita ficou vermelha, seu cabelo ruivo e sua pele cor-de-rosa brilham tanto sob a luz quanto os crisântemos amarelos no pote de latão em cima da mesa entre nós. Kendrick passou a tarde inteira sentado em sua cadeira, ouvindo.

E contei tudo para ele. O início, o aprendizado, a adrenalina de ter que sobreviver e o prazer de saber de antemão, o terror de ter conhecimento de coisas que não podem ser evitadas, a angústia da perda. Agora estamos em silêncio, e ele finalmente levanta a cabeça e me olha. Nos olhos claros de Kendrick há uma tristeza que quero desfazer; depois de colocar os fatos diante dele, quero pegar tudo de volta e sair, tirar dele o fardo de ter de pensar sobre tudo isso. Ele procura os cigarros, escolhe um, acende, dá uma tragada e solta uma nuvem azul que fica branca ao atravessar o caminho da luz acompanhada por sua sombra.

— Você tem dificuldade para dormir? — pergunta ele, a voz rouca por falta de uso.

— Tenho.

— Tem tendência a... desaparecer em alguma hora específica do dia?

— Não... bom, talvez mais de manhã.

— Tem dor de cabeça?

— Tenho.

— Enxaqueca?

— Não. Uma pressão que dói. Com visão distorcida, umas auras.

— Hum. — Kendrick se levanta. Seus joelhos estalam. Ele fica andando pela sala, fumando, acompanhando a beira do tapete. Isso já começa a me irritar até que ele para e torna a sentar. — Olhe — diz, franzindo a testa —, existem essas coisas chamadas genes Clock. Eles governam os ritmos circadianos, mantêm a pessoa em sincronia com o sol, esse tipo de coisa. Encontramos esses genes em muitas espécies diferentes de células no corpo todo, mas eles estão ligados principalmente à visão, e parece que muitos dos seus sintomas se manifestam visualmente. O núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que se localiza bem acima de seu quiasma óptico, serve de botão de ajuste, por assim dizer, da sua noção de tempo... então é com isso que quero começar.

— Hmm, claro. — Digo, já que ele me olha como se esperasse uma resposta. Kendrick se levanta de novo e dá passos largos até uma porta que eu ainda não tinha visto, e desaparece um minuto. Quando volta, vem trazendo luvas de borracha e uma seringa.

— Arregace a manga — pede Kendrick com autoridade.

— O que está fazendo? — pergunto, arregaçando a manga acima do cotovelo.

Ele não responde, apenas tira a seringa do envelope, passa algodão em meu braço, amarra um garrote e espeta a agulha com prática. Olho para o lado. O sol foi embora, deixando a sala escura.

— Você tem plano de saúde? — pergunta, tirando a agulha e desamarrando meu braço. Coloca um algodão e um band-aid na picada.

— Não. Vou pagar tudo.

Pressiono os dedos no lugar dolorido, dobro o braço.

Kendrick sorri.

— Não, não. Você pode ser minha pequena experiência científica e pegar carona na minha bolsa de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde.

— Para quê?

— Não vamos perder tempo aqui. — Kendrick faz uma pausa, fica olhando as luvas usadas e o tubinho com o meu sangue que ele acabou de colher. — Vamos fazer o sequenciamento do seu DNA.

— Pensei que isso levasse anos.

— Leva, se você fizer o genoma inteiro. Vamos começar examinando os locais mais prováveis; o cromossomo 17, por exemplo.

Kendrick joga as luvas de borracha e a agulha numa lata com o rótulo Biorrisco e escreve algo no tubinho vermelho de sangue. Senta de novo à minha frente e coloca o tubinho na mesa ao lado do maço de Camel.

— Mas o genoma humano não será sequenciado antes de 2000. Com o que você vai comparar isso?

— 2000? Tão cedo? Tem certeza? Acho que tem. Mas para responder à sua pergunta, uma doença que é tão... prejudicial... quanto a sua, muitas vezes aparece como uma espécie de gagueira, um trecho repetido de código que diz, essencialmente: Má Notícia. A doença de Huntington, por exemplo, é só uma alteração no cromossomo 4.

Ajeito minha postura na cadeira e me alongo. Um café seria bem-vindo.

— Então é só isso? Posso fugir e ir brincar agora?

— Eu quero que você faça uma tomografia da cabeça, mas não hoje. Vou marcar uma hora para você no hospital. Ressonância magnética, tomografia computadorizada e raios X. Também vou te mandar a um amigo meu, Alan Larson; ele tem um laboratório de sono aqui no campus.

— Divertido — digo, ficando em pé devagar para o sangue não subir todo para a cabeça.

Kendrick inclina o rosto para mim. Não vejo os seus olhos, seus óculos são discos brilhantes e opacos desse ângulo.

— É divertido — diz. — É um enigma tão grande, e finalmente temos os instrumentos para descobrir...

— Descobrir o quê?

— O que quer que seja. O que quer que você seja. — Kendrick sorri e vejo que os dentes dele são irregulares e amarelos. Ele fica em pé e estende a mão, que eu aperto. Há uma pausa constrangedora assim que digo obrigado: somos estranhos de novo depois das intimidades da tarde. Aí saio da sala dele, desço a escada e chego à rua, onde o sol me esperava. Seja lá o que eu for. O que sou? O que sou?

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