A mulher do viajante no tempo

Audrey Niffenegger · Capítulo 13 de 51

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A mulher do viajante no tempo

Aniversário

 

Domingo, 24 de maio de 1992 (Clare tem 21 anos, Henry, 28)

CLARE: Hoje faço 21 anos. Está uma noite de verão perfeita. Estou no apartamento de Henry, na cama de Henry, lendo A Pedra da Lua. Henry está na minúscula quitinete fazendo o jantar. Enquanto visto seu roupão e vou para o banheiro, ouço Henry xingar o liquidificador. Faço tudo com calma, lavo o cabelo, embaço os espelhos. Penso em cortar o cabelo. Como seria bom lavar o cabelo, passar um pente rápido, e zás!, tudo certo, pronta para agitar. Suspiro. Henry ama meu cabelo quase como se fosse uma criatura em si, como se o cabelo tivesse vida própria, como se pudesse retribuir seu amor. Sei que ele ama meu cabelo como parte de mim, mas também sei que ele ficaria profundamente contrariado se eu cortasse. E eu também sentiria falta dele... só que é tanto esforço, às vezes tenho vontade de tirar o cabelo como uma peruca e sair para me divertir. Penteio cuidadosamente, desembaraçando as pontas. Meu cabelo fica pesado quando molhado. Repuxa o meu couro cabeludo. Abro bem a porta do banheiro para dissipar o vapor. Henry está cantando alguma coisa de Carmina Burana; soa estranho e desafinado. Saio do banheiro, e ele está pondo a mesa.

— Bem na hora. O jantar está servido.

— Só um minuto, deixe eu me vestir.

— Você está bem assim. Sério.

Henry contorna a mesa, abre o roupão e passa as mãos de leve pelos meus seios.

— Mmm. O jantar vai esfriar.

— O jantar é frio. Quero dizer: é para ser frio.

— Ah... Bom, vamos comer.

De repente me sinto exausta e fico de mau humor.

— Tudo bem. — Henry me larga sem comentário. Volta a pôr os talheres na mesa. Observo Henry por um minuto, então cato minhas roupas pelo chão e me visto. Sento à mesa; Henry traz dois pratos de sopa, branca e grossa. — Vichyssoise. Esta é a receita da minha avó.

Provo. Está perfeita, suave e fria. O próximo prato é salmão, com aspargos compridos em azeite e marinada de alecrim. Abro a boca para falar algo simpático sobre a comida, mas, em vez disso, digo:

— Henry, as outras pessoas fazem tanto sexo quanto a gente?

Henry reflete.

— A maioria... não, imagino que não. Só gente que não se conhece há muito tempo e ainda assim não consegue acreditar na sorte que tem, acho eu. É demais?

— Não sei. Pode ser. — Falo isso olhando para o prato. É incrível eu falar isso; passei a adolescência inteira implorando para Henry me comer e agora estou dizendo para ele que é demais. Henry está imóvel.

— Clare, sinto muito. Eu não percebi; eu não pensei.

Levanto os olhos; Henry parece chocado. Caio na gargalhada. Henry sorri, meio culpado, mas seus olhos brilham.

— É só... sabe, tem dias em que não consigo sentar.

— Bom... você só tem que falar. Dizer “hoje não, querido, já fizemos 23 vezes e eu gostaria de ler A Casa Soturna”.

— E você mansamente tira o time de campo?

— Eu tirei, agorinha mesmo, não? Isso foi bastante manso.

— É. Mas aí me senti culpada.

Henry ri.

— Aí você não vai contar com a minha ajuda. Pode ser minha última esperança: dia após dia, semana após semana, eu vou definhando, sedento por um beijo, murchando com o desejo de um boquete. Depois de algum tempo, você vai erguer os olhos do livro e perceber que vou de fato morrer aos seus pés se você não trepar comigo imediatamente, mas não vou dizer uma palavra. Quem sabe, uns gemidozinhos.

— Mas... sei lá, sabe, estou exausta, e você parece... bem. Eu sou anormal, ou algo assim?

Henry inclina o corpo sobre a mesa e estende as mãos. Coloco a minha na dele.

— Clare.

— Sim?

— Pode ser indelicado mencionar isso, mas me desculpe pelo que vou dizer: seu tesão é de longe muito superior ao de quase todas as mulheres com quem saí. A maioria delas já teria pedido arrego e desligado suas secretárias eletrônicas há meses. Mas eu deveria ter imaginado... É que você sempre pareceu gostar da coisa. Mas se for demais, ou se você não estiver a fim, precisa dizer, porque do contrário vou ficar pisando em ovos, imaginando se sobrecarrego você com minhas vontades repugnantes.

— Mas quanto é sexo até dizer chega?

— Para mim? Ah, meu Deus. Meu ideal de vida seria a gente ficar o tempo inteiro na cama, só isso. A gente podia fazer amor mais ou menos sem parar, e só levantar para abastecer o quarto, sabe, comprar água fresca e frutas para prevenir o escorbuto, e uma vez ou outra ir ao banheiro para fazer a barba antes de pular na cama de novo. E de vez em quando a gente podia trocar a roupa de cama. E ir ao cinema para evitar ficar com a pele toda ferida. E correr. Mesmo assim, eu ainda teria que correr todos os dias de manhã.

Correr é uma religião para Henry.

— Por que correr? Já que, de qualquer forma, você vai fazer muito exercício?

De repente, ele fica sério.

— Porque frequentemente minha vida depende de correr mais do que o meu perseguidor, quem quer que seja ele.

— Ah. — Agora é minha vez de ficar sem jeito, porque eu já sabia disso. — Mas... como vou dizer?... parece que você nunca vai a lugar nenhum... isto é, desde que te conheci no presente, você quase não viajou no tempo. Viajou?

— Sim, no Natal, você viu. E por volta do Dia de Ação de Graças. Você estava em Michigan, e não te contei porque foi deprimente.

— Você estava vendo o acidente?

Henry olha para mim.

— Na verdade, estava. Como sabe?

— Uns anos atrás, você apareceu em Meadowlark na véspera de Natal e me contou a respeito. Estava muito perturbado.

— É. Eu me lembro de ter ficado triste só de ver aquela data na Lista, pensando, nossa, vou encarar um Natal extra. Além do mais, aquele foi um Natal ruim no tempo normal; acabei em coma alcoólico e tive que fazer uma lavagem estomacal. Espero não ter estragado o seu.

— Não... Eu estava feliz de ver você. E você me contou algo que era importante, pessoal, embora tivesse o cuidado de não dizer nenhum nome ou lugar. Ainda era sua vida real, e eu estava doida por algo que me ajudasse a acreditar que você existia mesmo e não era alguma psicose minha. Por isso também eu vivia tocando em você. — Rio. — Nunca me dei conta de como eu estava dificultando as coisas para você. Eu fiz tudo o que me dava na telha, e você era o mais controlado possível. Devia estar morrendo.

— Por exemplo?

— O que tem de sobremesa?

Obediente, Henry se levanta e traz a sobremesa. É sorvete de manga com framboesas. Tem uma velinha espetada num canto; Henry canta Parabéns e eu rio porque ele é muito desafinado; faço um pedido e sopro a vela. O sorvete é uma delícia; estou muito alegre e procuro na memória um episódio especialmente importante em que eu tenha provocado Henry.

— Tudo bem. Este foi o pior. Quando eu tinha 16 anos, estava esperando você tarde da noite. Eram umas 11 horas, e era lua nova, de modo que estava bem escuro na clareira. E eu estava meio irritada com você, porque você me tratava decididamente feito... criança ou um colega ou sei lá... e eu estava doida para perder a virgindade. De repente, tive a ideia de esconder suas roupas...

— Ah, não.

— Sim. Então, troquei as roupas de lugar...

Tenho um pouco de vergonha dessa história, mas agora é tarde demais.

— E?

— E você apareceu, e basicamente eu te provoquei até você não aguentar mais.

— E?

— E você pulou por cima de mim e me imobilizou no chão, e, durante uns trinta segundos, ambos pensamos: “É agora.” E nem teria sido estupro porque eu estava pedindo mesmo. Mas você ficou com uma cara, disse “Não”, levantou e foi embora. Atravessou o Campo para entrar na mata e passei três semanas sem ver você.

— Uau. Esse aí é um homem melhor que eu.

— Fiquei tão abatida com a coisa toda que, nos dois anos seguintes, fiz um esforço enorme para me comportar.

— Graças a Deus. Não posso imaginar ter que usar tanta força de vontade regularmente.

— Ah, mas você vai, isso é que é incrível. Passei muito tempo de fato achando que você não tinha atração por mim. Claro, se vamos passar a vida inteira na cama, imagino que você possa se controlar um pouco em seus passeios no meu passado.

— Sabe, eu não estou brincando sobre querer tanto sexo. Eu sei, não é uma coisa sensata. Mas ando querendo te contar: me sinto muito diferente. Eu só... me sinto muito ligado a você. E acho que isso me segura aqui, no presente. Ter uma ligação física como a nossa meio que refaz os circuitos do meu cérebro. — Henry afaga minha mão com as pontas dos dedos. Ergue os olhos. — Tenho uma coisa para você. Venha sentar aqui.

Levanto e vou atrás dele para a sala. Ele transformou a cama em sofá, e eu me sento. O sol está se pondo e uma luz rosa e alaranjada invade a sala. Henry abre a escrivaninha, enfia a mão num escaninho e tira um saquinho de cetim. Senta um pouquinho afastado de mim; nossos joelhos se tocam. Ele deve conseguir ouvir meu coração batendo, penso. Chegou a hora, penso. Henry pega minhas mãos e me olha com seriedade. Esperei tanto por isso e agora que aconteceu estou com medo.

— Clare?

— Sim?

Minha voz está baixa e assustada.

— Você sabe que eu te amo. Quer casar comigo?

— Sim... Henry. — Tenho uma sensação de déjà-vu avassaladora. — Mas você sabe, na verdade... eu já casei.

Domingo, 31 de maio de 1992 (Clare tem 21 anos, Henry, 28)

CLARE: Henry e eu estamos na entrada do prédio onde ele cresceu. Já estamos um pouco atrasados, mas ficamos simplesmente ali parados; Henry está encostado nas caixas de correio respirando devagar de olhos fechados.

— Não se preocupe — digo. — Não pode ser pior do que quando você conheceu mamãe.

— Seus pais foram muito simpáticos comigo.

— Mas mamãe é... imprevisível.

— Papai também.

Henry enfia a chave na fechadura da porta da frente e subimos a pé um lance de escadas. Henry bate à porta do apartamento, que é imediatamente aberta por uma velhinha coreana miúda: Kimy. Ela usa um vestido de seda azul e batom vermelho vivo, e suas sobrancelhas foram desenhadas meio tortas. Ela bate no meu ombro. Seu cabelo é grisalho; está trançado e enrolado em dois coques nas orelhas. Não sei por que, me lembra a Ruth Gordon. Ela inclina a cabeça para trás e diz:

— Ahhh, Henry, ela é liiinn-da! — Sinto que estou ficando vermelha. Henry diz:

— Kimy, cadê seus modos? — e Kimy ri e diz:

— Oi, srta. Clare Abshire! — e eu digo:

— Oi, sra. Kim. — Sorrimos uma para a outra e ela fala:

— Ah, você pode me chamar de Kimy, todo mundo me chama de Kimy. — Faço que sim com a cabeça e vou atrás dela para a sala, e lá está o pai de Henry, sentado numa poltrona.

Ele não dá uma palavra, só me olha. O pai de Henry é magro, alto, tem um rosto anguloso e cansado. Não se parece muito com Henry. Tem cabelo curto e grisalho, olhos escuros, um nariz comprido e uma boca fina com os cantos meio virados para baixo. Está sentado todo curvado, e reparo em suas mãos, mãos longas e elegantes apoiadas em seu colo como um gato cochilando.

Henry tosse e diz:

— Papai, esta é Clare Abshire. Clare, este é meu pai, Richard DeTamble.

O sr. DeTamble estende lentamente uma das mãos, e eu me adianto para dar a minha. É gelada.

— Oi, sr. DeTamble. Prazer em conhecê-lo — digo.

— É? Henry não deve ter te contado muita coisa a meu respeito, então. — Sua voz é rouca e bem-humorada. — Vou me aproveitar do seu otimismo. Venha sentar ao meu lado. Kimy, a gente pode ter alguma coisa para beber?

— Eu já ia perguntar a todo mundo... Clare, o que quer? Fiz uma sangria, você gosta? Henry, e você? Sangria? Tudo bem. Richard, quer uma cerveja?

Todo mundo parece parar um instante. Então o sr. DeTamble diz:

— Não, Kimy, acho que vou tomar chá, se você não se importar de fazer.

Kimy sorri e vai para a cozinha, e o sr. DeTamble se vira para mim e diz:

— Estou meio resfriado. Já tomei aquele remédio para gripe, mas acho que ele só me deixa sonolento.

Henry está sentado no sofá, nos olhando. Toda a mobília é branca e tem cara de ter sido comprada na JCPenney por volta de 1945. O estofado está protegido com plástico transparente, e há passadeiras de vinil sobre o tapete branco. Há uma lareira que parece nunca ter sido usada; acima dela, há um belo nanquim de um bambu ao vento.

— É um quadro maravilhoso — digo, porque ninguém fala nada.

O sr. DeTamble parece satisfeito.

— Gosta? Annette e eu trouxemos do Japão em 1962. Compramos em Kyoto, mas o original é da China. Achamos que Kimy e Dong gostariam. É uma cópia do século XVII de uma pintura muito mais antiga.

— Conte para a Clare sobre o poema — diz Henry.

— Sim; o poema diz o seguinte: “Bambu sem espírito, mas eleva o pensamento até as nuvens. Fincado na montanha solitária, silencioso, digno, simboliza a vontade de um cavalheiro.... Pintado e escrito com um coração leve, Wu Chen.”

— É lindo — digo.

Kimy entra com bebidas numa bandeja, e Henry e eu pegamos um copo de sangria cada um, enquanto o sr. DeTamble cuidadosamente pega o seu chá com ambas as mãos; a xícara chacoalha no pires quando ele coloca na mesa ao seu lado. Kimy senta numa poltrona pequena ao lado da lareira, bebendo sua sangria em pequenos goles. Provo a minha e vejo que está muito forte. Henry me olha e ergue as sobrancelhas.

Kimy diz:

— Gosta de jardim, Clare?

— Ééé... gosto — digo. — Minha mãe é jardineira.

— Você tem que ir lá fora antes do jantar ver o jardim. Todas as minhas peônias estão em flor, e temos que te mostrar o rio.

— Deve ser lindo.

Vamos em grupo para o jardim. Admiro o rio Chicago, correndo placidamente no pé de uma escada precária; admiro as peônias. Kimy pergunta:

— Que tipo de jardim sua mãe tem? Ela planta rosas?

Kimy tem um roseiral mínimo mas bem ordenado, todas rosas-chá híbridas ao que parece.

— Ela tem um roseiral, sim. Na verdade, a verdadeira paixão de mamãe são as íris.

— Ah, eu tenho umas íris. Estão ali. — Kimy aponta para um arranjo de flores. — Quero repartir as íris, acha que sua mãe gostaria de algumas mudas?

— Não sei. Posso perguntar. — Mamãe tem mais de duzentas variedades de íris. Pego Henry sorrindo por trás de Kimy e faço cara feia para ele. — Eu podia perguntar se ela quer trocar por algumas íris dela. Mamãe tem umas que ela mesma cultivou, e gosta de oferecer aos amigos.

— Sua mãe cultiva íris? — pergunta o sr. DeTamble.

— A-hã. Também cultiva tulipas, mas as íris são as preferidas dela.

— Ela é jardineira profissional?

— Não — digo. — É só amadora. Tem um jardineiro que faz quase todo o trabalho e tem um monte de gente que vem cortar grama, tirar mato e isso tudo.

— Deve ser um jardim grande — diz Kimy. Ela segue à nossa frente de volta para o apartamento. Na cozinha, um contador de minutos dispara. — Tudo bem — diz Kimy. — Está na hora de comer. — Pergunto se posso ajudar, mas Kimy faz sinal para eu me sentar numa cadeira. Sento em frente a Henry. O pai dele está à minha direita e a cadeira vazia para Kimy está à minha esquerda. Reparo que o sr. DeTamble está de suéter, embora esteja bastante quente aqui. Kimy tem uma louça muito bonita, com beija-flores pintados em volta. Cada um de nós tem um copo suado de água gelada. Kimy serve vinho branco para a gente. Ela hesita diante do copo do pai de Henry, mas passa direto quando ele faz que não com a cabeça. O sr. DeTamble ergue seu copo d’água.

— Ao feliz casal — diz.

— Feliz casal — diz Kimy, e todos tocamos nossos copos e bebemos. Kimy fala: — Então, Clare, Henry diz que você é artista. Que tipo de artista?

— Faço papel. Esculturas de papel.

— Ahh. Você tem que me mostrar uma hora, porque não conheço esse ramo. Feito origami?

— Ih, não.

Henry intervém.

— Parecem as obras daquele artista alemão que vimos no Art Institute, sabe, Anselm Kiefer. Esculturas de papel grandes, sombrias e assustadoras.

Kimy parece intrigada.

— Por que uma moça bonita como você faria coisas feias assim?

Henry ri.

— É arte, Kimy. Além do mais, as obras são lindas.

— Uso muitas flores — digo a Kimy. — Se me der suas rosas mortas, coloco na peça em que estou trabalhando agora.

— Tudo bem — diz ela. — O que é?

— Um corvo gigante feito de rosas, cabelo e fibra de hemerocale.

— Hum. Como assim um corvo? Corvo dá azar.

— É? Acho os corvos muito lindos.

O sr. DeTamble ergue uma sobrancelha e, justo por um segundo, fica parecido com Henry.

— Você tem um conceito de beleza esquisito — diz ele.

Kimy se levanta, troca os nossos pratos de salada por uma tigela de feijões verdes e um prato fumegante de pato assado com molho de pimenta rosa e framboesa. Está divino. Vejo onde Henry aprendeu a cozinhar.

— O que acham? — pergunta Kimy.

— Está delicioso — diz o sr. DeTamble, e repito seu elogio.

— Quem sabe reduzir o açúcar? — indaga Henry.

— É, também acho — diz Kimy.

— Mas está muito macio — diz Henry, e Kimy ri. Estico a mão para pegar meu copo de vinho. O sr. DeTamble balança a cabeça positivamente para mim e diz:

— O anel da Annette fica bem em você.

— É muito bonito. Obrigada por me deixar ficar com ele.

— Tem muita história nesse anel, e na aliança que vem com ele. Foi feito em Paris em 1823 para minha tataravó, que se chamava Jeanne. Veio para os Estados Unidos em 1920 com minha avó, Yvette, e está guardado na gaveta desde 1969, quando Annette morreu. É bom ver o anel de novo na luz do dia.

Olho para ele em meu dedo e penso: A mãe de Henry estava usando esse anel quando morreu. Olho para Henry, que parece estar pensando a mesma coisa, e para o sr. DeTamble, que está comendo o seu pato.

— Me conte de Annette — peço ao sr. DeTamble.

Ele pousa o garfo, apoia os cotovelos na mesa e põe as mãos na testa. Olha para mim de trás das mãos.

— Tenho certeza de que Henry deve ter te contado alguma coisa.

— É. Um pouco. Como meus pais são fãs dela, eu cresci ouvindo seus discos.

O sr. DeTamble sorri.

— Ah. Bom, você sabe que a Annette tinha a voz mais maravilhosa... rica, pura, uma voz e uma extensão... ela conseguia expressar a alma com aquela voz, sempre que ouvia a Annette, eu sentia que minha vida significava mais do que mera biologia... ela sabia realmente ouvir, entendia a estrutura e sabia analisar exatamente o que havia numa música e a forma de passar isso... a Annette era uma pessoa muito sensível. Ela despertava a sensibilidade nos outros. Depois que ela morreu, acho que nunca mais senti realmente nada.

Ele faz uma pausa. Não consigo olhar para o sr. DeTamble, então olho para Henry. Ele encara seu pai com uma expressão de tamanha tristeza que olho para o meu prato.

O sr. DeTamble diz:

— Mas você perguntou sobre a Annette, não sobre mim. Ela tinha bom coração e era uma grande artista; não é sempre que se encontram essas duas qualidades juntas. Annette fazia as pessoas felizes; ela mesma era feliz. Gozava a vida. Só a vi chorar duas vezes; uma, quando dei aquele anel para ela e outra quando teve o Henry.

Outra pausa. Finalmente, eu digo:

— Vocês tiveram muita sorte.

Ele sorri, ainda tapando o rosto com as mãos.

— É, tivemos e não tivemos. Uma hora, a gente tinha tudo o que podia sonhar e no minuto seguinte ela estava despedaçada na estrada. — Henry estremece.

— Mas o senhor não acha — insisto — que é melhor ser extremamente feliz por pouco tempo, mesmo que se perca essa felicidade, do que passar a vida inteira apenas bem?

O sr. DeTamble me olha. Ele tira as mãos do rosto e fica olhando. Então diz:

— Me perguntei muito sobre essa questão. Acredita nisso?

Penso em minha infância, em toda a espera e dúvida, e na alegria de ver Henry atravessando o Campo depois de semanas, meses, sem contato com ele. Penso em como foi passar dois anos sem vê-lo e encontrá-lo parado na Sala de Leitura na Biblioteca Newberry: a alegria de conseguir tocar nele, o luxo de saber onde ele está, de saber que ele me ama.

— Sim — digo. — Acredito. — Encontro os olhos de Henry e sorrio.

O sr. DeTamble balança a cabeça positivamente.

— Henry escolheu bem. — Kimy se levanta para trazer o café e, enquanto ela está na cozinha, o sr. DeTamble prossegue. — Ele não está programado para trazer paz para a vida de ninguém. Na verdade, em muitos aspectos, ele é o oposto da mãe; não merece confiança, é inconstante e nem se importa muito com qualquer pessoa que não ele próprio. Me diga, Clare: por que cargas d’água uma moça encantadora como você vai querer casar com o Henry?

Tudo na sala parece prender o fôlego. Henry trava, mas não diz nada. Inclino meu corpo à frente e digo, sorrindo com entusiasmo para o sr. DeTamble, como se ele tivesse me perguntado que sabor de sorvete prefiro:

— Porque ele é muito, muito bom de cama. — Ouve-se uma gargalhada na cozinha. O sr. DeTamble olha para Henry, que ergue as sobrancelhas e dá um sorriso amarelo, e, finalmente, até o sr. DeTamble sorri, e diz:

— Touché, minha querida.

Mais tarde, tomamos nosso café e comemos a torta de amêndoas perfeita de Kimy. Ela me mostra as fotografias de Henry em bebê, quando já começava a andar e no último ano do segundo grau (para seu extremo embaraço). Kimy arranca mais informações sobre minha família (“Quantos quartos? Tantos assim! Ei, amigo, como não me contou que ela é bonita e rica?”). Depois disso tudo, ficamos parados diante da porta da frente quando agradeço a Kimy pelo jantar e dou boa-noite ao sr. DeTamble.

— Foi um prazer, Clare — diz ele. — Mas você pode me chamar de Richard.

— Obrigada... Richard.

Ele pega minha mão um instante e, apenas por esse instante, vejo o pai de Henry como Annette deve ter visto, anos atrás — e aí isso passa e ele balança a cabeça sem jeito para Henry, que dá um beijo em Kimy. Descemos a escada para a noite de verão. Parece que se passaram anos desde que entramos.

— Puxa — diz Henry. — Tudo isso foi de matar.

— Eu me saí bem?

— Bem? Você foi brilhante! Ele adorou você.

Estamos caminhando pela rua, de mãos dadas. Há uma pracinha no fim do quarteirão com balanços. Corro para eles e subo. Henry pega o que está ao meu lado, virado no outro sentido, e nos balançamos cada vez mais alto, passando um pelo outro, às vezes em sincronia e às vezes tão depressa que parece que vamos bater. Damos risadas e mais risadas. Nada jamais pode ser triste, não se pode perder ninguém, ninguém pode morrer nem estar longe: estamos aqui e agora, e nada pode estragar nossa perfeição nem roubar a alegria deste momento perfeito.

Quarta-feira, 10 de junho de 1992 (Clare tem 21 anos)

CLARE: Estou sentada sozinha numa mesinha na janela da frente do Café Peregolisi, uma respeitável espelunca com excelente café. Eu devia estar preparando um trabalho sobre Alice no País das Maravilhas para a matéria de História do Grotesco que estou fazendo este verão; em vez disso, estou sonhando acordada, contemplando o agito dos nativos e dos michês no início da noite da Halsted Street. Não vou muito ao bairro gay. Imagino que trabalharei mais se estiver em algum lugar onde ninguém que eu conheço pense em me procurar. Henry desapareceu. Não está em casa e não estava no trabalho hoje. Tento não me preocupar com isso. Tento manter uma atitude indiferente e descontraída. Henry pode tomar conta de si. O simples fato de eu não ter ideia de onde ele possa estar não significa que haja algo errado. Quem sabe? Talvez ele esteja comigo.

Alguém está parado do outro lado da rua, acenando. Aperto os olhos, focalizo e percebo que é a negra baixinha que estava com Ingrid naquela noite no Aragon. Celia. Aceno de volta, e ela atravessa a rua. De repente, já está na minha frente. É tão baixa que seu rosto fica no mesmo nível do meu, embora eu esteja sentada e ela em pé.

— Oi, Clare — diz Celia.

Sua voz é meiga. Quero me envolver em sua voz e ir dormir.

— Oi, Celia. Sente aí. — Ela se senta em frente a mim, e vejo que o que a deixa baixa são as pernas; sentada, ela tem um aspecto muito mais normal.

— Ouvi dizer que você ficou noiva — diz.

Levanto a mão esquerda para mostrar o anel. O garçom vem se arrastando até nós e Celia pede café turco. Ela olha para mim e me dá um sorriso dissimulado. Seus dentes são brancos, compridos e tortos. Seus olhos são grandes e suas pálpebras ficam semicerradas como se ela estivesse adormecendo. Seus rastafáris estão amontoados no alto da cabeça e decorados com espetos cor-de-rosa que combinam com seu vestido rosa brilhante.

— Você ou é corajosa ou é maluca — diz.

— É o que me dizem.

— Bom, agora você já devia saber.

Sorrio, dou de ombros e bebo o meu café, que está morno e doce demais.

Celia diz:

— Sabe onde o Henry está agora?

— Não. Sabe onde a Ingrid está agora?

— A-hã — diz Celia. — Está sentada num banco de bar no Berlim, me esperando. — Ela consulta o relógio. — Estou atrasada. — A luz da rua deixa sua pele marrom-escura azul e depois púrpura. Ela parece uma marciana glamourosa. Sorri para mim. — Henry está correndo na Broadway com a roupa com que veio ao mundo e um bando de skinheads na cola.

Ah, não.

O garçom traz o café de Celia e eu aponto para minha xícara. Ele enche de novo e eu acrescento uma colher de açúcar medida com cuidado e mexo. Celia mergulha direto uma colherinha meio cheia de açúcar na pequena xícara de café turco. O café é preto e grosso como melado. Era uma vez três irmãzinhas... e elas moravam no fundo de um poço... Por que moravam no fundo de um poço?... Era um poço de melado.

Celia está esperando que eu diga alguma coisa. Faça um elogio enquanto pensa no que dizer. Poupa tempo.

— É mesmo? — digo. Ah, brilhante, Clare.

— Você não parece muito preocupada. Se meu homem estivesse correndo pelado assim, eu iria ficar meio desconfiada.

— É, Henry não é exatamente uma pessoa das mais comuns.

Celia ri.

— Falou e disse, irmã. — Quanto ela sabe? Ingrid sabe? Celia se inclina para mim, toma seu café, arregala os olhos, levanta as sobrancelhas e contrai os lábios. — Você vai mesmo se casar com ele?

Um impulso maluco me faz dizer:

— Se não acredita, pode me ver casando. Venha ao casamento.

Celia faz que não com a cabeça.

— Eu? Sabe, o Henry não gosta nada de mim. Nem um pouco.

— É, e parece que você também não é muito fã dele.

Clare dá um sorriso forçado.

— Agora eu sou. Ele largou feio a srta. Ingrid Carmichel, e estou juntando os pedaços. — Ela torna a consultar o relógio. — Por falar nela, estou atrasada para o meu encontro. — Celia se levanta e diz: — Por que não vem?

— Ah, não obrigada.

— Vamos nessa, garota. Você e a Ingrid precisam se conhecer. Têm tanta coisa em comum. Vamos ter uma festinha de solteira.

— Em Berlim?

Celia ri.

— Não a cidade. O bar.

A risada dela é doce; parece vir do corpo de uma pessoa muito maior. Não quero que ela vá embora, mas...

— Não, acho que essa não seria muito boa ideia. — Olho para Celia. — Parece sacanagem. — O olhar dela me abraça, e penso em cobras, gatos. Será que gatos peludos comem morcegos orelhudos?... Será que gatos peludos comem morcegos orelhudos? — Além do mais, tenho que terminar isso.

Celia dá uma espiada em meu caderno.

— O que, isso é dever de casa? Ahh, é noite de estudo! Agora escute só sua irmã mais velha Celia, que sabe o que é melhor para menininhas de colégio... ei, você tem idade para beber?

— Tenho — digo com orgulho. — Há três semanas.

Celia se inclina para mim. Ela cheira a canela.

— Vamos, vamos, vamos. Você tem que viver um pouco antes de se estabelecer com o Sr. Bibliotecário. Vaaaaaaaaaamos, Clare. Quando se der conta, você vai estar com bebês bibliotecários até o pescoço cagando regras de biblioteconomia nas fraldas.

— Eu não acho realmente...

— Então não diga nada, simplesmente venha.

Celia está guardando meus livros e consegue derrubar a leiteirinha. Começo a limpar o leite, mas Celia sai marchando do café levando os meus livros. Corro atrás dela.

— Celia, não, eu preciso desses...

Para uma pessoa de pernas curtas e salto 13, ela anda depressa.

— Ah-ah. Só devolvo se você prometer vir comigo.

— A Ingrid não vai gostar.

Estamos andando em compasso na Halstead em direção à Belmont. Não quero ver Ingrid. A primeira e última vez que a vi foi no concerto do Violent Femmes e para mim já está bom.

— Claro que vai. A Ingrid anda muito curiosa a seu respeito.

Entramos na Belmont, passamos por estúdios de tatuagem, restaurantes indianos, lojas de couro e igrejas em edifícios comerciais. Caminhamos embaixo da linha do metrô de superfície e lá está o Berlim. Não é muito atraente de fora; as janelas são pintadas de preto e ouço música de discoteca pulsando do escuro atrás do cara magro e sardento na porta. Ele pede minha identidade, mas não a da Celia, carimba nossas mãos e permite que a gente entre no abismo.

Quando meus olhos se ajustam, percebo que a casa está lotada de mulheres. Há mulheres aglomeradas em volta do minúsculo palco assistindo a uma stripper desfilar de fio dental de lantejoulas e tapa-mamilos. Há mulheres rindo e flertando no bar. É Noite das Damas. Celia me puxa para uma mesa. Ingrid está sentada ali sozinha com um copo alto de um líquido azul-celeste na frente. Ela levanta o olhar e posso dizer que não está muito satisfeita de me ver. Celia dá um beijo em Ingrid e faz um gesto me indicando uma cadeira. Continuo em pé.

— Ei, gata — diz Celia a Ingrid.

— Você só pode estar de brincadeira — diz Ingrid. — Para que ela veio aqui?

As duas não tomam conhecimento de mim. Celia ainda está abraçada com meus livros.

— Tudo bem, Ingrid, ela é legal. Achei que vocês deviam se conhecer melhor, só isso.

Celia parece quase se desculpar, mas até eu vejo que está gostando do desconforto de Ingrid.

Ingrid me olha furiosa.

— Por que veio? Para se vangloriar?

Ela se recosta na cadeira e empina o queixo. Ingrid parece uma vampira loura, blazer de veludo preto e lábios vermelho sangue. Ela é deslumbrante. Me sinto como uma colegial de cidade pequena. Estendo as mãos para Celia e ela me dá meus livros.

— Fui coagida. Estou indo embora agora.

Começo a me afastar, mas Ingrid agarra meu braço.

— Espere aí... — Ela puxa minha mão esquerda com força, eu tropeço e meus livros voam. Puxo a mão de volta e Ingrid diz: — ...você está noiva? — e vejo que ela está olhando para o anel de Henry.

Não digo nada. Ingrid se vira para Celia.

— Você sabia, não? — Celia olha para a mesa, não diz nada. — Você trouxe essa mulher aqui para esfregar na minha cara, sua piranha.

Ela fala baixo. Mal ouço com a música que pulsa.

— Não Ing, eu só...

— Vá à merda, Celia. — Ingrid se levanta. Por um momento, seu rosto está perto do meu e imagino Henry beijando aqueles lábios vermelhos. Ingrid fica me olhando. Ela fala: — Diga a Henry que ele pode ir para o inferno. E diga a ele que vou vê-lo lá.

Ela sai com um ar furioso. Celia está sentada tapando o rosto com as mãos.

Começo a recolher os meus livros. Quando me viro para ir, Celia diz:

— Espere.

Espero.

Celia diz:

— Sinto muito, Clare.

Dou de ombros. Saio pela porta e, quando me viro, vejo que Celia está sentada sozinha na mesa, tomando a bebida azul de Ingrid com o rosto apoiado na mão. Não está me olhando.

Na rua, caminho cada vez mais depressa até chegar ao carro e rumo para casa. Vou para o meu quarto e me deito na cama. Ligo para o Henry, mas ele não está em casa. Apago a luz, mas não durmo.

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