A mulher do viajante no tempo
Véspera de Natal, Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Terça, quarta e quinta-feira, 24, 25, 26 de dezembro de 1991
(Clare tem 20 anos, Henry, 28)
CLARE: São 8h32 do dia 24 de dezembro, e Henry e eu estamos a caminho da Medowlark House para o Natal. Está um dia lindo e claro, sem neve aqui em Chicago, mas com 15 centímetros em South Haven. Antes de sairmos, Henry passou um tempo rearrumando a bagagem no carro, verificando os pneus, olhando no capô. Acho que ele não tem a menor ideia daquilo que viu lá dentro. Eu adoro meu carro: é um Honda Civic modelo 90, muito bonitinho. Mas Henry de fato odeia andar de carro, ainda mais carro pequeno. Ele é um carona horrível, que se segura no banco e freia o tempo todo em que estamos em trânsito. Provavelmente teria menos medo se pudesse ser o motorista, mas, por razões óbvias, Henry não tem carteira. Então vamos indo pela estrada do pedágio neste belo dia de inverno; estou calma e ansiosa para ver minha família, enquanto Henry é uma pilha de nervos. Só piora o fato de ele não ter corrido hoje de manhã; notei que Henry precisa de uma quantidade incrível de atividade física o tempo todo para ser feliz. É como sair com um galgo. É diferente estar com Henry em tempo real. Quando eu crescia, Henry ia e vinha, e nossos encontros eram curtos, dramáticos e perturbadores. Henry tinha muita coisa que não ia me contar, e quase nunca me deixava chegar perto dele, então eu sempre tinha uma sensação intensa de insatisfação. Quando finalmente o encontrei no presente, achei que seria assim. Mas, na verdade, é muito melhor, em muitos aspectos. Em primeiro lugar, em vez de se negar a encostar em mim, Henry vive me tocando, me beijando, fazendo amor comigo. Tenho a sensação de ter virado uma pessoa diferente, imersa num poço quente de desejo. E ele me conta as coisas! Qualquer coisa que eu lhe pergunte sobre ele, sua vida, sua família — ele me conta, com nomes, lugares, datas. Coisas que me pareciam o maior mistério quando eu era criança são reveladas como perfeitamente lógicas. Mas o melhor de tudo é que eu o vejo por longos períodos — horas, dias. Sei onde encontrá-lo. Ele vai para o trabalho, volta para casa. Às vezes abro meu caderno de endereços só para ver o registro: Henry DeTamble, 714 Dearborn, 11e, Chicago, IL 60610, 312-431-8313. Um sobrenome, um endereço, um número de telefone. Posso ligar para ele. É um milagre. Me sinto como a Dorothy, quando sua casa aterrissou em Oz e o mundo passou de preto e branco a colorido. Não estamos mais em Kansas.
Na verdade, estamos quase entrando em Michigan, e há uma parada de estrada. Entro no estacionamento, saltamos e esticamos as pernas. Entramos na loja de conveniência, e lá estão os mapas e as brochuras para os turistas, e um monte de máquinas de venda automática.
— Uau — diz Henry. Ele se aproxima para inspecionar todas as porcarias comestíveis, e aí começa a ler as brochuras. — Ei, vamos para Frankenmuth! “Natal 365 dias por ano!” Caramba, eu faria haraquiri depois de uma hora disso. Tem moeda?
Encontro um punhado de moedas no fundo da bolsa e gastamos tudo alegremente em duas Cocas, uma caixa de Good & Plenty e uma barra Hershey. Voltamos ao ar frio e seco, de braços dados. No carro, abrimos as Cocas e consumimos açúcar. Henry consulta o meu relógio.
— Que baixaria. São só 9h15.
— É, mas daqui a alguns minutos já vão ser 10h15.
— Ah, certo, Michigan é uma hora a mais. Que surreal.
Olho para ele.
— Tudo é surreal. Não posso acreditar que você vá de fato conhecer minha família. Passei tanto tempo te escondendo dela.
— Só faço isso porque tenho uma adoração louca por você. Gastei muito tempo evitando viagens de carro, conhecer famílias de garotas e Natal. O fato de eu enfrentar as três coisas juntas prova que amo você.
— Henry... — Viro para ele e nos beijamos. O beijo começa a evoluir para algo mais quando, com o canto do olho, vejo três garotos pré-adolescentes e um cachorro grande parados a alguns passos de nós, olhando com interesse. Henry se vira para ver o que estou olhando e os meninos riem e fazem o gesto de positivo. Vão andando devagar para a van dos pais.
— Aliás... como é que vamos dormir na sua casa?
— Ai, meu Deus. A Etta me ligou ontem sobre isso. Estou no meu quarto mesmo e você está no quarto azul. Estamos cada um numa ponta do corredor, com meus pais e Alicia no meio.
— E vamos nos esforçar para manter isso?
Dou a partida no carro e voltamos para a estrada.
— Não sei, porque nunca fiz isso antes. O Mark apenas traz as namoradas para a sala de jogos lá embaixo e transa com elas no sofá de madrugada, e nós fingimos que não vemos. Se a situação estiver difícil, sempre podemos descer para a Sala de Leitura. Eu costumava esconder você ali.
— Hum. Ah, bem. — Henry fica olhando pela janela um instante. — Sabe, até que não é tão ruim.
— O quê?
— Viajar. De carro. Na estrada.
— Puxa. Da próxima vez você vai estar andando de avião.
— Nunca.
— Paris. Cairo. Londres. Kioto.
— De jeito nenhum. Estou convencido de que eu viajaria no tempo e Deus sabe se eu conseguiria voltar para algo voando a 560 quilômetros por hora. Acabaria caindo do céu à la Ícaro.
— Sério?
— Garanto que não estou planejando descobrir.
— Daria para você chegar lá viajando no tempo?
— Bom. Eis a minha teoria. Agora, esta é apenas uma Teoria Especial da Viagem no Tempo tal como Realizada por Henry DeTamble, e não uma Teoria Geral da Viagem no Tempo.
— Tudo bem.
— Em primeiro lugar, acho que tem a ver com o cérebro. Acho que é muito parecido com epilepsia, porque tende a acontecer quando estou estressado. Há circunstâncias externas, como o piscar de luzes, que podem desencadear o pulo no tempo. Atividades como corrida, sexo e meditação costumam me ajudar a permanecer no presente. Segundo, não tenho nenhum controle consciente sobre meu destino temporal ou físico, nem sobre quanto tempo fico ou quando volto. Portanto excursões no tempo pela Riviera são muito pouco prováveis. Dito isso, meu subconsciente parece exercer um controle tremendo, porque passo muito tempo no passado, visitando acontecimentos que são interessantes ou importantes, e evidentemente visitarei você muitas vezes, o que me deixa bem ansioso. Em geral vou a lugares em que já estive no tempo real, embora já tenha ido mesmo a outros tempos e lugares mais aleatórios. Costumo ir mais ao passado do que ao futuro.
— Já esteve no futuro? Eu não sabia que podia fazer isso.
Henry parece satisfeito consigo mesmo.
— Por enquanto, meu alcance é de cinquenta anos em cada direção. Mas é muito raro eu ir ao futuro, e acho que ali nunca vi nada que eu considerasse útil. É sempre bastante rápido. E talvez eu apenas não saiba o que estou vendo. É o passado que exerce muita atração. No passado, eu me sinto muito mais consistente. Quem sabe o futuro em si seja menos substancial? Sei lá. Sempre tenho a sensação de estar respirando ar rarefeito no futuro. Esta é uma das formas como eu sei que é o futuro; a sensação é diferente. É mais difícil correr lá.
Henry diz isso de maneira pensativa, e de repente vislumbro o terror de estar num tempo e lugar estranhos, sem roupas, sem amigos...
— Por isso seus pés...
— Parecem de couro. — As solas dos pés de Henry têm calos grossos, como se estivessem tentando virar sapatos. — Sou um animal de casco. Se acontecer alguma coisa com meus pés, é melhor você me sacrificar.
Vamos em silêncio por algum tempo. A estrada sobe e desce, milharais secos passam num piscar de olhos. Casas de fazenda surgem banhadas pelo sol de inverno, cada qual com suas vans, suas carroças e seus carros americanos enfileirados nas longas ruas de acesso. Ir para casa é uma experiência cheia de altos e baixos! Estou louca para ver Alicia e Etta, estou preocupada com minha mãe, e não estou especialmente a fim de lidar com meu pai e Mark. Mas estou curiosa para ver como eles vão encarar o Henry, e vice-versa. Sinto orgulho de ter guardado segredo sobre Henry por tanto tempo. Quando se é criança, 14 anos são uma eternidade.
Passamos um Wal-Mart, uma Dairy Queen, um McDonald’s. Mais milharais. Um pomar. Vários hotéis fazenda. No verão, essa estrada é um longo corredor de frutas, grãos e comércio. Mas agora os campos estão mortos e secos, e os carros passam correndo pela estrada ensolarada e fria, ignorando as chamativas placas dos estabelecimentos.
Nunca pensei muito sobre South Haven até ir morar em Chicago. Nossa casa sempre pareceu uma ilha, situada na área fora da cidade a sul, cercada pelo Campo, pomares, bosques, fazendas. South Haven era só “a cidade”, no sentido de “vamos até a cidade tomar um sorvete”. A cidade eram armazéns, lojas de ferragens, a padaria Mackenzie e a Music Emporium, a loja preferida de Alicia, onde comprava partituras e discos. A gente costumava ficar parada na frente do Estúdio Fotográfico Appleyard inventando histórias sobre as noivas, os bebês e as famílias com aqueles sorrisos medonhos na vitrine. A gente não debochava do visual grego falsificado da biblioteca, nem considerava a culinária limitada e sem graça, nem achava os filmes do Michigan Theater completamente idiotas e americanos. Cheguei a essas opiniões mais tarde, depois de virar habitante de uma metrópole, uma exilada ansiosa para se afastar dos hábitos caipiras de sua juventude. De repente, sinto uma nostalgia enorme da garotinha que eu era, que adorava os campos e acreditava em Deus, que passava os dias de inverno com saudades da escola lendo Nancy Drew e chupando pastilhas mentoladas para tosse, que sabia guardar segredo. Olho para Henry e vejo que ele adormeceu.
South Haven, oitenta quilômetros.
Quarenta, vinte, cinco, um.
Phoenix Road.
Blue Star Highway.
E então: Meagram Lane. Estico o braço para acordar Henry, mas ele já está acordado. Sorri nervosamente e olha pela janela para o desfile interminável de árvores nuas enquanto passamos a toda. Quando surge o portão, procuro o controle no porta-luvas, aciono o portão e entramos.
A casa aparece de repente feito figura de livro em relevo. Henry dá uma arfada e depois começa a rir.
— O quê? — pergunto na defensiva.
— Jamais me dei conta de que era tão imensa. Quantos cômodos tem esse monstro?
— Vinte e quatro — digo. Etta acena para nós da janela do hall quando contorno a entrada de veículos e estaciono perto da porta da frente. Seu cabelo está mais grisalho do que da última vez em que estive aqui, mas a cara está corada de alegria. Quando saltamos do carro, ela vem descendo com cuidado os degraus da frente, que estão escorregadios de gelo, equilibrando seu corpo robusto sobre sapatos adequados. Etta está sem casaco, mas usa seu velho vestido azul-marinho de gola de renda. Corro para oferecer meu braço, mas ela recusa até chegar embaixo, quando então me dá um abraço e um beijo (sinto com muita alegria o cheiro de creme e talco de Etta) enquanto Henry fica parado, esperando.
— E o que temos aqui? — pergunta ela como se Henry fosse uma criancinha que eu tivesse trazido sem avisar.
— Etta Milbauer, Henry DeTamble — apresento. Vejo um pequeno “Ah” na cara de Henry e me pergunto quem ele pensava que ela fosse. Etta sorri radiante para Henry enquanto subimos a escada. Ela abre a porta da frente. Henry baixa a voz e me pergunta:
— E as nossas coisas? — e eu digo a ele que Peter vai cuidar disso.
— Cadê todo mundo? — pergunto, e Etta diz que o almoço é dali a 15 minutos e podemos tirar nossos casacos, lavar as mãos e entrar logo. Ela nos deixa no corredor e volta para a cozinha. Viro, tiro o casaco e o penduro no armário do corredor. Quando torno a me virar, Henry está acenando para alguém. Olho por trás dele e vejo Nell espichando a cara larga e de nariz arrebitado pela porta da sala de jantar, rindo. Saio correndo e dou um beijo todo babado no rosto dela. Nell ri e diz:
— Bonito homem, macaquinha — e foge para a outra sala antes que Henry possa nos alcançar.
— Nell? — ele adivinha, e faço que sim com a cabeça.
— Ela não é tímida, só está ocupada — explico. Mostro o caminho do segundo andar pela escada dos fundos.
— Você fica aqui — digo, abrindo a porta do quarto azul. Ele dá uma olhada para dentro e me acompanha pelo corredor. — Este é o meu quarto — digo apreensiva. Henry passa por mim e fica parado no meio do tapete apenas olhando. Quando se vira para mim, vejo que não reconhece nada; nada no quarto significa coisa alguma para ele. A ficha cai de fato: todos os pequenos símbolos e lembranças neste museu do nosso passado são como cartas de amor para um analfabeto. Henry pega um ninho de cambaxirra (por acaso é o primeiro de muitos ninhos de passarinho que ele foi me dando ao longo dos anos) e diz:
— Bonito. — Faço que sim com a cabeça. Quando vou abrir a boca para contar, ele põe o ninho de volta na prateleira e diz: — Essa porta tranca? — eu aciono o trinco e nos atrasamos para o almoço.
HENRY: Estou quase calmo ao seguir Clare pelas escadas, passando pelo corredor frio e escuro até a sala de jantar. Todo mundo já está comendo. A sala tem um pé-direito baixo e é confortável ao estilo do arquiteto William Morrisy; o fogo na pequena lareira aquece o ambiente e há tanta neve nas janelas que não vejo lá fora. Clare vai até uma mulher de cabelo ruivo-claro que deve ser sua mãe. Ela inclina a cabeça para receber seu beijo e levanta um pouco para apertar minha mão. Clare apresenta a mulher para mim como “minha mãe” e eu a chamo de “Sra. Abshire”. Ela imediatamente diz “Ah, mas você tem que me chamar de Lucille, todo mundo chama”, e dá um sorriso exausto, mas caloroso, como se fosse o brilho do sol vindo de outra galáxia. A gente senta um em frente ao outro. Clare está entre Mark e uma mulher idosa que vem a ser sua tia-avó Dulcie; eu estou entre Alicia e uma garota loura, gorducha e bonitinha que é apresentada como Sharon e parece estar com Mark. O pai de Clare está sentado à cabeceira da mesa e minha primeira impressão é de que ele está profundamente perturbado comigo, assim como Mark, o irmão boa-pinta e truculento de Clare. Eles já me viram antes. Me pergunto o que eu fiz que deu motivo para repararem em mim, lembrarem de mim e recuarem com leve antipatia quando Clare me apresenta. Mas Philip Abshire é um advogado que domina suas reações, e num minuto está afável e sorrindo. Vira o anfitrião, o pai da minha namorada, um homem de meia-idade um pouco careca, óculos de aviador e um corpo atlético agora flácido e barrigudo, mas com mãos firmes de tenista, e olhos cinzentos que continuam a me olhar desconfiado apesar do sorriso forçado. Mark tem mais dificuldade para esconder a angústia e, toda vez que nossos olhares se cruzam, ele olha para o prato. Alicia não é o que eu esperava; é sem-graça e gentil, mas meio estranha, ausente. Tem o cabelo escuro de Philip, como Mark, e algo dos traços de Lucille. O rosto de Alicia dá a impressão de que tentaram combinar Clare e Mark mas desistiram e jogaram um pouco de Eleanor Roosevelt para preencher as lacunas. Philip diz alguma coisa e Alicia ri, e de repente ela fica linda. Viro para ela admirado quando Alicia se levanta da mesa.
— Preciso ir à St. Basil — ela me informa. — Tenho um ensaio. Você vai à igreja? — Lanço um olhar rápido para Clare, que balança a cabeça ligeiramente confirmando, e eu digo a Alicia:
— Claro — e todo mundo suspira... aliviado? Lembro que o Natal é, afinal de contas, um feriado cristão, além de ser o meu dia pessoal de penitência. Alicia sai. Imagino minha mãe rindo para mim, as sobrancelhas bem depiladas levantadas ao ver seu filho meio judeu perdido no Natal dos goys, e eu aponto um dedo reprovador para ela. Olha quem fala, digo para minha mãe. Você casou com um episcopal. Olho para o meu prato e há presunto com ervilha e uma saladinha murcha. Não como porco e odeio ervilha.
— Clare diz que você é bibliotecário — tenta Philip, e admito que sou. Temos uma pequena discussão animada sobre a Newberry e alguns de seus conselheiros de administração que também são clientes do escritório de Philip, que aparentemente fica em Chicago. Sendo assim, não está claro para mim por que a família de Clare mora aqui em Michigan.
— Casas de veraneio — ele me diz, e me lembro de Clare explicando que a especialidade de seu pai são testamentos e heranças. Visualizo idosos ricos deitados em suas praias particulares, melados de bloqueador solar, e ligando para Philip do celular para que ele tire o Junior do testamento. Me lembro que Avi, que é o primeiro violino da Sinfônica de Chicago (meu pai é o segundo), tem uma casa em algum lugar por aqui. Menciono isso e todo mundo fica de orelha em pé.
— Você o conhece? — pergunta Lucille.
— Claro. Ele e meu pai sentam juntos.
— Sentam juntos?
— Sim, sabe? Primeiro e segundo violinos.
— Seu pai é violinista?
— É. — Olho para Clare, que olha para a mãe com uma cara de não me deixe constrangida.
— E ele toca na Orquestra Sinfônica de Chicago?
— Toca.
O rosto de Lucille está todo rosado; agora sei a quem Clare puxou quando fica corada.
— Acha que ele ouviria Alicia tocar? Se a gente desse uma fita para ele?
Torço fervorosamente para que Alicia seja muito, muito boa. As pessoas vivem entregando fitas para o papai. Então tenho uma ideia melhor.
— Alicia é violoncelista, não?
— É.
— Ela está procurando professor?
Philip intervém:
— Ela estuda com Frank Wainwright em Kalamazoo.
— Porque eu podia dar a fita a Yoshi Akawa. Um dos alunos dele acabou de ir embora para trabalhar em Paris. — Yoshi é um grande sujeito e primeiro violoncelo. Sei que pelo menos ele vai escutar a fita; meu pai, que não leciona, simplesmente vai jogar fora. Lucille está efusiva; até Philip parece satisfeito. Clare está com uma cara aliviada. Mark come. Tia Dulcie, de cabelo rosa e miúda, está alheia a todo esse diálogo. Vai ver que é surda. Olho para Sharon, que está à minha esquerda e não disse uma palavra. Parece infeliz. Philip e Lucille questionam que fita devem me dar, ou se talvez Alicia deva gravar uma nova. Pergunto a Sharon se é a primeira vez que ela vem aqui e ela faz que sim com a cabeça. Quando estou quase fazendo outra pergunta para Sharon, Philip quer saber o que minha mãe faz e eu travo; lanço um olhar para Clare que diz Não contou nada para eles?
— Minha mãe era cantora. Ela já morreu.
Clare diz baixinho:
— A mãe de Henry era Annette Lyn Robinson.
Parecia que Clare tinha dito minha mãe era a Virgem Maria. A cara de Philip se ilumina e Lucille agita ligeiramente as mãos.
— Incrível... fantástico! Temos todos os discos dela... — und so wiete. Mas Lucille diz:
— Conheci sua mãe quando eu era jovem. Meu pai me levou para ver Madame Butterfly, e ele conhecia uma pessoa que levou a gente aos bastidores depois. Fomos ao camarim dela. Ela estava lá, com aquelas flores todas!, e tinha um filhinho... ora, era você!
Faço que sim com a cabeça, tentando encontrar a voz. Clare diz:
— Como ela era?
Mark diz:
— Você vai esquiar hoje à tarde? — Philip faz que sim com a cabeça. Lucille sorri, perdida em recordações.
— Ela era tão linda... ainda estava de peruca, aquela cabeleira preta comprida. Usava a peruca para brincar com o filhinho, fazendo cócegas, e ele dançava pela sala. Ela tinha umas mãos lindas, e era da minha altura, magrinha. Era judia, sabe, mas achei que tinha mais cara de italiana... — Lucille para e sua mão vai até a boca. Seus olhos partem como flechas para o meu prato, que está limpo, não fosse por algumas ervilhas.
— Você é judeu? — pergunta Mark, amavelmente.
— Suponho que poderia ser, se quisesse, mas nunca ninguém fez questão disso. Ela morreu quando eu tinha 6 anos, e meu pai é episcopal não praticante.
— Você é a cara dela — Lucille diz espontaneamente, e eu agradeço. Nossos pratos são retirados por Etta, que pergunta a Sharon e a mim se tomamos café. Ambos dizemos Sim em uníssono, com tanta ênfase que toda a família de Clare ri. Etta nos dá um sorriso maternal e minutos depois coloca xícaras de café fumegante à nossa frente. Eu penso Afinal não foi tão ruim. A conversa gira em torno de esqui e do tempo. Assim que todos se levantam, Philip e Mark entram juntos no corredor, e pergunto a Clare se ela vai esquiar. Ela dá de ombros e me pergunta se eu quero. Explico que não esquio nem tenho interesse em aprender. Ela decide ir assim mesmo depois que Lucille diz que precisa de alguém para ajudá-la com suas encadernações. Quando subimos as escadas, ouço Mark dizer: “Incrivelmente parecido...”, e sorrio internamente.
Mais tarde, depois que todo mundo foi embora e a casa está em silêncio, abandono meu quarto gelado à procura de calor e mais café lá embaixo. Passo pela sala de jantar e entro na cozinha, onde vejo uma gama incrível de cristais, prataria, bolos, vegetais descascados e assadeiras numa cozinha digna de um restaurante quatro estrelas. Em meio a tudo isso, está Nell de costas para mim, cantando Rudolfo a Rena do Nariz Vermelho e remexendo as cadeiras largas, acenando com uma colher para uma negrinha que aponta para mim em silêncio. Nell dá meia-volta, abre um largo sorriso desdentado e diz:
— O que está fazendo na minha cozinha, Seu Namorado?
— Eu queria saber se ainda tinha um pouco de café sobrando.
— Sobrando? Acha que eu deixo café parado o dia inteiro no bule se estragando? Xô, filho, saia daqui e vai sentar na sala. Toca a sineta que eu faço um café fresquinho para você. Sua mãe não te ensinou sobre café?
— Na verdade, minha mãe não sabia cozinhar muito bem — digo, avançando para o centro da confusão. Algo exala um cheiro maravilhoso. — O que está fazendo?
— O cheiro que você está sentindo é de um Peru Thompson — diz Nell. Ela abre o forno para me mostrar um peru colossal que parece ter sido vítima do Grande Incêndio de Chicago. Está completamente preto. — Não fique tão desconfiado, garoto. Por baixo dessa crosta está o melhor peru para se comer do Planeta Terra.
Estou disposto a acreditar nela; o cheiro é perfeito.
— O que é um Peru Thompson? — pergunto, e Nell discorre sobre as propriedades milagrosas do Peru Thompson, inventado por Morton Thompson, um jornalista dos anos 1930. Para produzir essa maravilha, ele tem que ser bem recheado e constantemente regado e virado. Nell permite que eu fique em sua cozinha enquanto faz café e luta para tirar o peru do forno, virar de costas e regar habilmente a ave com molho de cidra. Depois ele volta ao forno. Há 12 lagostas andando numa grande bacia de plástico cheia d’água ao lado da pia. — Bichos de estimação? — provoco, e Nell retruca:
— Isso é o seu almoço de Natal, filho. Quer escolher uma? Você não é vegetariano, é? — Garanto que não sou, e sim um menino bonzinho que come o que quer que lhe ponham na frente.
— Nunca se sabe, você é muito magro — diz Nell. — Vou engordar você.
— Foi por isso que Clare me trouxe.
— Hum — diz Nell. — Pois bem. Agora vaza para eu poder continuar, aqui. — Pego minha canecona de café cheiroso e vou para a biblioteca, onde há uma enorme árvore de Natal e uma lareira acesa. Parece um anúncio de loja de decoração. Sento numa poltrona cor de laranja ao lado do fogo e estou folheando uma pilha de jornais quando alguém diz:
— Onde arranjou o café? — olho e vejo Sharon sentada em frente a mim numa poltrona azul exatamente da cor do seu suéter.
— Oi — digo. — Desculpe.
— Tudo bem — diz Sharon.
— Fui à cozinha, mas acho que é para a gente usar a sineta, seja lá onde ela esteja. — Examinamos a sala e, naturalmente, há um puxador de sineta no canto.
— Isso é muito estranho — diz Sharon. — Estou aqui desde ontem e ando meio que pisando em ovos, sabe, com medo de usar o garfo errado ou sei lá...
— De onde você é?
— Flórida. — Ela ri. — Eu nunca tive um Natal com neve até ir para Harvard. Meu pai tem um posto de gasolina em Jacksonville. Imaginei que voltaria para lá depois que terminasse a faculdade, sabe, porque não gosto de frio, mas agora acho que estou presa aqui.
— Como assim?
Sharon faz uma cara surpresa.
— Não te contaram? Mark e eu vamos nos casar.
Me pergunto se Clare sabe disso; parece uma notícia que ela teria me falado. Aí reparo no brilhante no dedo de Sharon.
— Parabéns.
— Acho que sim. Quer dizer, obrigada.
— Você não tem certeza? Quanto a se casar? — Sharon na verdade tem os olhos inchados de quem andou chorando.
— Bom, estou grávida. Então...
— Tá, mas isso não implica necessariamente...
— Implica, sim. Se a pessoa é católica. — Sharon suspira e se afunda na cadeira. Na verdade, conheço várias garotas católicas que fizeram aborto e não foram fulminadas por um raio, mas, aparentemente, a fé de Sharon é menos tolerante.
— Bom, parabéns. Ééé, quando...?
— Onze de janeiro. — Ela vê minha surpresa e diz: — Ah, o bebê? Abril. — Faz uma careta. — Espero que seja nas férias de primavera, porque, senão, não sei como vou conseguir... não que isso importe muito agora...
— O que você está fazendo?
— Preparação para medicina. Meus pais estão furiosos. Estão me pressionando para dar a criança para adoção.
— Eles não gostam do Mark?
— Eles nem conhecem o Mark, não é isso, só têm medo que eu não faça medicina e isso tudo não sirva para nada. — A porta da frente abre, e os esquiadores estão de volta. Uma lufada de ar frio corre a sala toda e passa por nós. É bom, e vejo que estou assando como o peru de Nell no fogo daqui. — A que horas é o jantar? — pergunto a Sharon.
— Às sete, mas ontem a gente tomou os aperitivos aqui antes. O Mark tinha acabado de contar aos pais, e eles não estavam exatamente me cobrindo de abraços. Eles até foram simpáticos, sabe, daquele jeito que as pessoas podem ser simpáticas e más ao mesmo tempo. Pô, só faltaram dizer que eu engravidei sozinha e o Mark não teve nada com isso...
Fico feliz quando Clare chega. Ela está com um boné verde engraçado, com uma borla grande pendurada e um feio suéter de esqui amarelo por cima da calça jeans clara. Está com o cabelo molhado, corada do frio e sorridente. Pela desenvoltura com que anda descalça no enorme tapete persa ao meu encontro, vejo que ela faz parte desse ambiente. Ela não é uma aberração, apenas escolheu outro tipo de vida, e isso me deixa feliz. Levanto para receber seu abraço e, quase na mesma hora, Clare vira para Sharon e diz:
— Acabei de saber! Parabéns! — e dá um abraço em Sharon, que me olha por cima do ombro de Clare, espantada, mas sorrindo. Mais tarde, Sharon me diz:
— Acho que você ficou com a única boa. — Faço que não com a cabeça, mas sei o que ela quer dizer.
CLARE: Falta uma hora para o jantar, e ninguém vai reparar se a gente sumir.
— Vamos — digo a Henry. — Vamos lá fora. — Ele resmunga.
— É preciso?
— Quero te mostrar uma coisa.
Vestimos nossos casacos, botas, chapéus e luvas, atravessamos a casa com o passo pesado e saímos pela porta dos fundos. O céu está um azul ultramarino límpido, que é refletido pela neve em um tom mais claro. Os azuis se encontram na linha escura das árvores que é o começo do bosque. É muito cedo para estrelas, mas há um avião que pisca seguindo seu rumo. Imagino nossa casa como um pontinho de luz visto do avião, como uma estrela.
— Por aqui. — O caminho para a clareira se encontra debaixo de 15 centímetros de neve. Penso em todas as vezes que apaguei as pegadas deixadas por Henry em direção à casa. Agora, há rastros de veado, e as pegadas de um cachorro grande.
Restos de plantas mortas embaixo da neve, vento, ruído de nossas botas. A clareira é uma bacia de neve lisa e azul; a pedra é uma ilha com uma cabeça de cogumelo.
— É isso.
Henry está parado com as mãos nos bolsos do casaco. Ele gira nos calcanhares, olhando.
— Então é isso — diz. Procuro um sinal de reconhecimento em seu semblante. Nada.
— Já teve alguma vez a sensação de déjà-vu? — pergunto a ele.
Henry suspira.
— Minha vida inteira é um longo déjà-vu.
Damos meia-volta e regressamos à casa pisando em nossas próprias pegadas.
Mais tarde:
Avisei a Henry que a gente se veste formalmente para jantar na véspera de Natal, então, quando o encontro no corredor, ele está deslumbrante de terno preto, camisa branca e gravata bordô com um prendedor de madrepérola.
— Nossa — digo. — Engraxou os sapatos!
— Engraxei — admite. — Patético, não?
— Você está um perfeito Bom Rapaz.
— Quando, na verdade, sou o Bibliotecário Punk De Luxo. Pais, cuidado.
— Eles vão adorar você.
— Eu adoro você. Venha cá. — Henry e eu ficamos nos admirando diante do espelho de corpo inteiro no alto da escada. Estou usando um vestido de seda verde-claro sem alça que foi da minha avó. Tenho uma fotografia dela vestida com ele no réveillon de 1941. Ela está rindo. Está de batom escuro e com um cigarro na mão. O homem na fotografia é seu irmão Teddy, que morreu na França seis meses depois. Ele também está rindo. Henry põe as mãos em minha cintura e manifesta surpresa diante de toda aquela armação de corpete embaixo da seda. Falo sobre a vovó. — Ela era mais baixa que eu. Só dói quando sento; as pontas dos ferrinhos espetam meus quadris. — Henry beija meu pescoço quando alguém tosse e nos separamos depressa. Mark e Sharon estão na porta do quarto de Mark, que eles dividem depois que mamãe e papai concordaram com relutância que não havia sentido em separar os dois.
— Nada disso, ora — diz Mark com aquela sua voz irritada de professor. — Não aprenderam nada com o exemplo dos mais velhos, crianças?
— Sim — responde Henry. — Seja prevenido. — Ele dá tapinhas no bolso das calças (que na verdade está vazio) com um sorriso e descemos a escada enquanto Sharon ri.
Todo mundo já bebeu algumas doses quando chegamos à sala. Alicia faz o nosso sinal particular. Cuidado com mamãe, ela está mal. Mamãe está sentada no sofá com uma cara inofensiva, o cabelo todo para cima preso num coque, usando pérolas e vestido de veludo cor de pêssego com mangas de renda. Fica contente quando Mark senta ao seu lado, ri quando ele faz alguma piadinha para ela, e eu me pergunto por um momento se Alicia está errada. Mas aí vejo como papai observa mamãe e percebo que ela deve ter dito alguma coisa horrível justo antes de termos chegado. Papai está parado ao lado do carrinho de bebidas. Aliviado, ele se vira e oferece uma Coca para mim e um copo e uma cerveja para Mark. Pergunta a Sharon e Henry o que eles vão tomar. Sharon pede uma água mineral. Henry, após refletir um instante, pede um uísque com água. Meu pai tem a mão pesada para preparar bebida e fica de olhos arregalados quando Henry bebe o uísque de um gole só.
— Mais um?
— Não, obrigado. — A essa altura eu sei que Henry gostaria de simplesmente pegar a garrafa e um copo e ficar encolhido na cama com um livro, e que está recusando a segunda dose porque depois aceitaria de bom grado uma terceira e uma quarta. Sharon fica rondando Henry, e eu deixo os dois ali, atravessando a sala para me sentar ao lado de tia Dulcie no banco da janela.
— Ah, menina, que linda... não vejo esse vestido desde que Elizabeth usou na festa dos Lichts no Planetarium... — Ganhamos a companhia de Alicia, que está usando um suéter azul-marinho de gola rulê com um furinho no ponto onde a manga sai do corpo e uma saia escocesa toda esfarrapada com meias de lã frouxas no tornozelo feito meia de velha. Sei que faz isso para implicar com papai, mas mesmo assim...
— O que há com a mamãe? — pergunto.
Alicia dá de ombros.
— Está danada por causa da Sharon.
— Qual é o problema da Sharon? — pergunta Dulcie, lendo nossos lábios. — Ela parece muito boazinha. Mais do que o Mark, se quer saber.
— Ela está grávida — digo a Dulcie. — Eles vão se casar. Mamãe acha que ela é gentinha porque é a primeira pessoa na família dela a ir para a universidade.
Dulcie me olha atentamente e vê que sei o que ela sabe.
— Lucille é a primeira que devia ser um pouco compreensiva com aquela menina. — Alicia está prestes a perguntar a Dulcie o que ela quer dizer quando toca a sineta do jantar. Levantamos e seguimos em fila para a sala de jantar, como animais condicionados. Sussurro para Alicia:
— Ela está bêbada? — e Alicia sussurra de volta:
— Acho que estava bebendo no quarto antes do jantar. — Aperto a mão de Alicia e Henry fica para trás. Entramos na sala de jantar e achamos nossos lugares: papai e mamãe nas cabeceiras; Dulcie, Sharon e Mark de um lado, com Mark perto da mamãe; e Alicia, Henry e eu, com Alicia perto do papai. A sala está cheia de velas e florezinhas boiando em vasos de cristal lapidado; Etta exibiu toda a prataria e a louça na toalha de vovó bordada pelas freiras da Provença. Em resumo, é véspera de Natal, exatamente como todas as vésperas de Natal de que consigo me lembrar, só que Henry está do meu lado baixando a cabeça timidamente enquanto meu pai faz a bênção.
— Pai do Céu, damos graças a esta santa noite por Sua misericórdia e Sua benevolência, por mais um ano de saúde e felicidade, pelo conforto da família e pelos novos amigos. Nós Lhe agradecemos por nos ter enviado Seu filho para nos guiar e nos redimir na forma de uma criança indefesa, e Lhe agradecemos pelo bebê que Mark e Sharon trarão para nossa família. Pedimos que sejamos mais perfeitos em nosso amor e nossa paciência para com o próximo. Amém.
Ihh, penso. Agora ele foi longe demais. Lanço um olhar rápido para mamãe e ela está espumando. Quem não conhecesse mamãe não diria nunca: ela está imóvel, encarando o prato. A porta da cozinha abre e Etta entra com a sopa e coloca uma pequena tigela na frente de cada um de nós. Meus olhos se encontram com os de Mark. Ele inclina ligeiramente a cabeça na direção de mamãe, levanta as sobrancelhas e eu apenas faço um movimento de cabeça minúsculo. Ele faz uma pergunta sobre a colheita de maçãs deste ano, e ela responde. Alicia e eu relaxamos um pouco. Sharon está me olhando e eu pisco para ela. A sopa é de castanha e nabo, o que parece uma ideia ruim até você provar a de Nell.
— Uau — diz Henry, e todos rimos, e tomamos nossa sopa. Etta retira os pratos de sopa, e Nell traz o imenso peru, que está dourado e fumegando. Todos aplaudimos com entusiasmo, como todos os anos. Nell ri radiante e diz, como todos os anos:
— Ora, ora.
— Ah, Nell, está perfeito — diz minha mãe com lágrimas nos olhos. Nell dá um olhar severo para ela e depois para papai, e diz:
— Obrigada, dona Lucille. — Etta serve o recheio, cenouras carameladas, purê de batata e coalhada de limão, e passamos nossos pratos ao papai, que enche cada um de peru. Observo Henry comer seu primeiro bocado do peru de Nell: surpresa, depois êxtase.
— Já vi meu futuro — anuncia, e eu gelo. — Vou desistir de ser bibliotecário e vir morar na sua cozinha, e rezar aos pés da Nell. Ou quem sabe simplesmente me casar com ela.
— Você está atrasado — diz Mark. — A Nell já é casada.
— Ah, bom. Então vai ter que ser a reza aos seus pés. Por que vocês todos não pesam 150 quilos?
— Estou trabalhando para isso — diz meu pai, batendo na pança.
— Vou pesar 150 quilos quando estiver velha e não precisar mais arrastar meu violoncelo por aí — diz Alicia a Henry. — Vou morar em Paris e só comer chocolate, fumar charuto, me picar com heroína e só ouvir Jimi Hendrix e the Doors. Certo, mamãe?
— Eu vou lá me juntar a você — diz mamãe solenemente. — Mas prefiro ouvir Johnny Mathis.
— Se usar heroína, você não vai querer comer quase nada — Henry informa Alicia, que olha para ele com interesse. — Experimente maconha em vez disso.
Papai franze a testa. Mark muda de assunto:
— Ouvi no rádio que hoje vai nevar 20 centímetros.
— Vinte! — dizemos em coro.
— 6 I’m dreaming of a white Christmas ... — cantarola Sharon sem convicção.
— Espero que essa neve toda não desabe em cima de nós quando estivermos na igreja — diz Alicia ranzinza. — Fico com muito sono depois da missa. — Continuamos falando de tempestades de neve que conhecemos. Dulcie conta que ficou presa na Grande Nevasca de 1967, em Chicago.
— Tive que deixar o carro na Lake Shore Drive e ir a pé da Adams até a Belmont.
— Fiquei preso nessa — diz Henry. — Quase congelei; acabei na paróquia da Quarta Igreja Presbiteriana na Michigan Avenue.
— Quantos anos você tinha? — pergunta papai e Henry hesita antes de responder:
— Três. — Ele olha para mim e percebo que está falando de uma experiência que teve numa viagem no tempo. Ele acrescenta: — Eu estava com meu pai. — Me parece óbvio ululante que ele está mentindo, mas aparentemente ninguém nota. Etta entra e troca os nossos pratos pelos de sobremesa. Após uma ligeira demora, Nell entra com o pudim flambado de ameixas. — Caramba! — diz Henry. Ela pousa o pudim na frente de mamãe. As chamas deixam o seu cabelo pálido cor de cobre, como o meu, antes de apagar. Papai abre o champanhe (com um pano de prato, para a rolha não acertar o olho de ninguém). Passamos os nossos copos para ele, que enche e devolve. Mamãe corta fatias finas de pudim de ameixa e Etta serve a todos. Há dois copos extras, um para Etta e outro para Nell, e todos nos levantamos para os brindes.
Meu pai começa:
— À família.
— A Nell e Etta, que são como gente da família, que trabalham à beça, dão jeito no nosso lar e têm tantos talentos — diz minha mãe, ofegante e baixinho.
— À paz e à justiça — diz Dulcie.
— À família — diz Etta.
— Aos começos — diz Mark, brindando Sharon.
— Ao inesperado — responde ela.
É minha vez. Olho para Henry.
— À felicidade. Ao aqui e agora.
Henry responde em tom sério:
— A mundo e tempo suficientes7 — Meu coração dá um pulo. Imagino como ele sabe e aí me dou conta de que Andrew Marvell é um de seus poetas preferidos e de que Henry está se referindo ao futuro.
— À neve, Jesus, mamãe e papai, às cordas de tripa, ao açúcar e aos meus All Star de canos longos — diz Alicia, e todos rimos.
— Ao amor — diz Nell, olhando bem para mim, com aquele seu sorriso largo. — E a Morton Thompson, inventor do melhor peru de comer do Planeta Terra.
HENRY: Lucille passou todo o jantar oscilando loucamente entre tristeza, alegria e desespero. Sua família inteira esteve guiando seu estado de espírito com cuidado, levando Lucille a toda hora para território neutro, sob cuidado e proteção. Mas, quando começamos a comer a sobremesa, ela desmorona e soluça em silêncio, os ombros sacudindo, a cabeça virada como se fosse enfiar embaixo da asa como um pássaro que está dormindo. A princípio, sou a única pessoa a notar isso, e fico parado, horrorizado, sem saber o que fazer. Aí Philip a vê, e então a mesa inteira se cala. Ele está em pé, ao lado dela.
— Lucy? — sussurra. — Lucy, o que é? — Clare corre para ela, dizendo:
— Ora, mamãe, está tudo bem, mamãe... — Lucille está sacudindo a cabeça, não, não, não e torcendo as mãos. Philip recua. Clare diz: — Calma — e Lucille fala com ansiedade, mas sem muita clareza. Ouço palavras incompreensíveis, e aí “Tudo errado”, “Estragar as oportunidades dele”, e finalmente “Nessa família ninguém tem a menor consideração por mim...”, “Hipócrita”, e então os soluços. Para minha surpresa, é tia Dulcie quem quebra o silêncio e o espanto geral.
— Menina, se alguém é hipócrita aqui, é você. Você fez exatamente a mesma coisa e não vejo que isso tenha estragado nem um pouco as oportunidades de Philip. Até melhoraram, se quer saber. — Lucille para de chorar e olha para a tia, em estado de choque. Mark olha para o pai, que concorda com a cabeça, e depois para Sharon, que sorri como se tivesse ganhado no bingo. Olho para Clare, que não parece particularmente espantada, e me pergunto como ela sabia se Mark não sabia, e imagino o que mais ela sabe que não mencionou. Então me dou conta de que Clare sabe tudo, nosso futuro, nosso passado, tudo, e sinto um arrepio na sala quente. Etta traz o café, que ninguém demora a tomar.
CLARE: Etta e eu botamos mamãe na cama. Ela ficou se desculpando, como sempre fica, e tentando nos convencer de que estava suficientemente bem para ir à missa, mas por fim conseguimos com que deitasse. Ela adormeceu quase imediatamente. Etta diz que vai ficar em casa para a eventualidade de mamãe acordar. Eu digo a ela para deixar de ser boba, que eu fico, mas como Etta é teimosa, eu a deixo sentada ao lado da cama, lendo São Mateus. Vou até o fim do corredor dar uma espiada no quarto de Henry, mas está escuro. Quando abro minha porta, encontro Henry deitado na minha cama lendo Uma Dobra no Tempo. Tranco a porta e me junto a ele na cama.
— O que há com a sua mãe? — pergunta ele enquanto me arrumo cuidadosamente ao lado dele, tentando não me espetar no vestido.
— Ela é maníaco-depressiva.
— Sempre foi?
— Era melhor quando eu era pequena. Teve um filhinho que morreu, quando eu tinha 7 anos, e isso foi ruim. Ela tentou se matar. Eu a encontrei. — Eu me lembro do sangue por todo lado, da banheira cheia de água sangrenta, das toalhas ensopadas dessa água. De gritar socorro e não ter ninguém em casa. Henry não diz nada. Estico o pescoço e ele está olhando para o teto.
— Clare — diz ele afinal.
— O quê?
— Como foi que você não me contou? Quer dizer, tem muita coisa acontecendo com a sua família que teria sido bom saber de antemão.
— Mas você sabia... — Não termino a frase. Ele não sabia. Como podia saber? — Sinto muito. É que eu te contei na hora, e esqueço que agora é antes do seu futuro, por isso acho que você sabe tudo a respeito...
Henry faz uma pausa e diz:
— Bom, eu meio que esgotei o assunto sobre a minha família. Todos os armários e esqueletos foram expostos para sua inspeção, e eu só estava surpreso... sei lá.
— Mas não me apresentou a ele. — Estou louca para conhecer o pai de Henry, mas ando com medo de tocar no assunto.
— Não. Não apresentei.
— E vai?
— Mais tarde.
— Quando? — espero Henry me dizer que estou forçando a barra, como ele sempre dizia quando eu fazia muitas perguntas, mas em vez disso ele se senta passando as pernas para o lado de fora da cama. Sua camisa está toda amassada atrás.
— Não sei, Clare. Quando eu conseguir encarar essa barra, acho eu.
Ouço passos do outro lado da porta que param, e a maçaneta mexe para frente e para trás.
— Clare — diz meu pai. — Por que a porta está fechada? — Eu me levanto e abro a porta. Papai abre a boca e, ao ver Henry, faz sinal me chamando para o corredor.
— Clare, você sabe que sua mãe e eu não aprovamos que você convide seu amigo para ir ao seu quarto — diz ele calmamente. — Tem muita sala nessa casa...
— A gente só estava conversando.
— Você pode conversar na sala.
— Eu contava a ele a respeito da mamãe e não queria falar sobre isso na sala, tudo bem?
— Querida, eu realmente acho que não é necessário contar a ele a respeito da sua mãe...
— Depois do teatro que ela fez, o que devo fazer? Henry pode ver por si mesmo que ela é pirada, ele não é idiota... — estou levantando a voz e Alicia abre a porta dela com o dedo nos lábios.
— Sua mãe não é “pirada” — diz meu pai com severidade.
— É, sim — afirma Alicia, entrando no bolo.
— Você fique fora disso...
— Fico, uma ova...
— Alicia! — A cara de papai está vermelha com os olhos esbugalhados. Seu tom de voz está bem alto. Etta abre a porta da mamãe e olha para nós três exasperada.
— Vão lá para baixo se quiserem berrar — sussurra e fecha a porta. Trocamos olhares envergonhados.
— Outra hora — digo a papai. — Pegue no meu pé outra hora. — Henry esteve o tempo todo sentado na minha cama, tentando fingir não estar ali. — Vamos, Henry. Vamos sentar em outra sala qualquer. — Henry, dócil como um menino que levou bronca, levanta e desce atrás de mim. Alicia corre atrás de nós dando passos pesados. No pé da escada, olho para cima e vejo papai olhando para nós sem ação. Ele se vira e vai bater à porta da mamãe.
— Ei, vamos ver A Felicidade não se Compra — diz Alicia, consultando o relógio. — É no Canal 60 daqui a cinco minutos.
— De novo? Você já não viu esse filme umas duzentas vezes? — Alicia tem uma queda por Jimmy Stewart.
— Eu nunca vi — diz Henry.
Alicia finge perplexidade.
— Nunca? Como assim?
— Eu não tenho televisão.
Agora Alicia está realmente perplexa.
— A sua quebrou?
Henry ri.
— Não. Simplesmente eu odeio televisão. Me dá dor de cabeça. — O tremor da imagem faz com que ele viaje no tempo.
Alicia está desapontada.
— Então não quer assistir?
Henry olha para mim; eu não me importo.
— Claro — digo. — Um pouco. Mas não vamos ver o fim; a gente tem que ficar pronto para a missa.
Entramos em bando na sala de televisão, que é ao lado da sala de estar. Alicia liga o aparelho. Há um coro cantando It Came Upon the Midnight Clear.
— Eca — desdenha. — Olhem esses mantos horríveis de plástico amarelo. Parecem capas de chuva. — Ela senta no chão, e Henry, no sofá. Eu sento ao lado dele. Desde que chegamos, vivo preocupada a respeito de como agir na frente dos vários membros da minha família em relação a Henry. A que distância devo me sentar? Se Alicia não estivesse aqui, eu me deitaria no sofá com a cabeça no colo de Henry. Henry resolve meu problema chegando mais perto e passando o braço em volta de mim. É um braço inibido: a gente nunca ficaria assim em qualquer outro contexto. Claro, nunca vemos tevê juntos. Talvez a gente ficasse assim se algum dia visse tevê. O coro desaparece, e passa um monte de anúncios. Do McDonald’s, de uma concessionária Buick local, Pillsbury, Red Lobster: todos nos desejam um Feliz Natal. Olho para Henry, que está com uma cara de espanto total.
— O que foi? — pergunto baixinho para ele.
— A velocidade. Os cortes duram uns poucos segundos. Vou passar mal. — Henry esfrega os olhos com os dedos. — Acho que vou ler um pouco. — Ele se levanta e sai da sala, e, um minuto depois, ouço seus passos na escada. Faço uma pequena oração. Por favor, meu Deus, faça com que Henry não viaje no tempo, especialmente quando estivermos quase indo para a igreja e não der para eu explicar. Alicia pula para o sofá quando aparecem os créditos de abertura na tela.
— Ele não demorou muito — observa.
— Ele tem umas dores de cabeça terríveis. Do tipo que a pessoa tem que deitar no escuro e ficar imóvel e, se alguém der um pio, seus miolos explodem.
— Ah. — James Stewart está mostrando um maço de folhetos de viagem, mas sua partida é cortada pela necessidade de ir a um baile. — Ele é mesmo uma gracinha.
— Jimmy Stewart?
— Ele também. Eu estava falando do seu namorado, Henry.
Sorrio. Estou tão orgulhosa como se eu mesma tivesse feito Henry.
— É.
Donna Reed sorri radiante para Jimmy Stewart do outro lado de uma sala repleta. Agora eles dançam, e o rival de Jimmy Stewart acionou o controle que faz a pista de dança abrir em cima de uma piscina.
— Mamãe gosta dele.
— Aleluia. — Donna e Jimmy dançam de costas e caem na piscina; logo pessoas em traje de noite estão mergulhando atrás deles enquanto a banda continua tocando.
— Nell e Etta também aprovam.
— Ótimo. Agora só temos que passar as próximas 36 horas sem estragar a boa primeira impressão.
— Não deve ser muito difícil, né? A menos... não, você não seria tão burra... — Alicia me olha em dúvida. — Seria?
— Claro que não.
— Claro que não — repete. — Meu Deus, não posso acreditar no Mark. Que idiota do cacete. — Jimmy e Donna cantam Buffalo Girls, Won’t You Come Out Tonight caminhando pelas ruas de Bedford Falls, deslumbrantes de uniforme de futebol americano e roupão de banho, respectivamente. — Você devia ter estado aqui ontem. Achei que papai fosse ter um infarto bem na frente da árvore de Natal. Imaginei papai batendo nela, a árvore caindo em cima dele, e os paramédicos tendo que retirar todos os enfeites e presentes de cima do papai para prestar os primeiros socorros... — Jimmy oferece a lua a Donna, e ela aceita.
— Pensei que você tivesse aprendido primeiros socorros na escola.
— Estava muito ocupada tendo que socorrer a mamãe. Foi ruim, Clare. Muita gritaria.
— A Sharon estava lá?
Alicia ri com tristeza.
— Está brincando? A gente estava aqui tentando conversar educadamente, sabe, e o Mark e nossos pais estavam na sala berrando uns com os outros. Depois de algum tempo, eu e a Sharon ficamos apenas aqui sentadas ouvindo.
Alicia e eu trocamos um olhar que significa apenas Para variar... Passamos a vida ouvindo nossos pais berrando, um com o outro ou com a gente. Às vezes, tenho a sensação de que, se tiver que ver mamãe chorar mais uma vez, vou sair de casa para sempre e nunca mais voltar. Neste exato momento, quero pegar Henry e voltar para Chicago, onde ninguém berra e finge que está tudo bem e nada aconteceu. Um homem irritado e barrigudo de camiseta grita para que James Stewart beije logo Donna Reed e pare de falar tanto com ela. Concordo em gênero, número e grau, mas ele não. Em vez disso, pisa no roupão de Donna, que dá um passo sem perceber e fica sem ele. Quando você vai ver, ela está se escondendo nua numa grande moita de hortênsias.