A mulher do viajante no tempo
Dedicatória
Para
ELIZABETH HILLMAN TAMANDL
20 de maio de 1915–18 de dezembro de 1986
e
NORBERT CHARLES TAMANDL
11 de fevereiro de 1915–23 de maio de 1957
OceanofPDF.com
PRÓLOGO
CLARE: é difícil ficar para trás. Espero Henry, sem saber dele, me perguntando se está bem. É difícil ser quem fica.
Mantenho-me ocupada. Assim, o tempo passa mais depressa.
Durmo sozinha e acordo sozinha. Dou umas voltas. Trabalho até cansar. Olho o vento brincar com o lixo que passou o inverno inteiro debaixo da neve. As coisas parecem simples até pensarmos nelas. Por que a ausência intensifica o amor?
Há muito tempo, os homens iam para o mar, enquanto as mulheres ficavam na praia, esperando e procurando o barquinho no horizonte. Agora espero Henry. Ele some sem querer, sem avisar. Espero. Tenho a sensação de que cada minuto de espera é um ano, uma eternidade. Cada minuto é lento e transparente como vidro. A cada minuto que passa, vejo uma fila de infinitos minutos, à espera. Por que ele foi aonde não posso ir atrás?
HENRY: Como é a sensação? Como é? Às vezes é como se sua atenção se desviasse um instantinho. Então, sobressaltado, você percebe que o livro que estava na sua mão, a camisa vermelha de algodão xadrez com botões brancos, o jeans preto preferido e as meias marrons quase furadas, a sala, a chaleira prestes a apitar na cozinha: tudo isso sumiu. Você está em pé, pelado, dentro de uma vala, com água gelada até os tornozelos, numa estrada de terra não identificada. Você espera um minuto para ver se talvez vai voltar direto para seu livro, seu apartamento et cetera. Você passa uns cinco minutos xingando, tremendo de frio e torcendo para desaparecer. Começa então a caminhar para um lado qualquer, que acabará dando numa casa de fazenda, onde você tem a opção de roubar ou se explicar. Roubar acaba dando em cadeia, mas como explicar é chato, toma tempo e envolve mentir, além de poder também dar em cadeia, então, que se dane.
Às vezes você tem a sensação de ter se levantado depressa demais, ainda que esteja deitado na cama meio dormindo. Você ouve o sangue correndo na cabeça, tem sensações de queda vertiginosas. Suas mãos e seus pés formigam e logo já não estão mais ali. Você se perdeu de novo. Basta um instante, você tem apenas o tempo de tentar se segurar, sacudindo os braços (possivelmente se machucando ou danificando valiosos pertences) e então está escorregando pelo carpete verde do corredor de um Motel 6 em Athens, Ohio, às 4h16 de segunda-feira, 6 de agosto de 1981. Termina por bater a cabeça na porta da casa de alguém, fazendo com que esse alguém, uma sra. Tina Schulman da Filadélfia, abra a porta e comece a gritar porque tem um homem nu, todo esfolado a seus pés. Você acorda no Hospital do Condado com uma concussão, um policial sentado em frente à porta do seu quarto ouvindo o jogo dos Phillies num rádio transistor que chia sem parar. Felizmente, você torna a perder a consciência e acorda horas depois em sua própria cama com sua mulher debruçada sobre você, olhando com uma cara muito preocupada.
Às vezes você se sente eufórico. Tudo é sublime e tem uma aura e, de repente, você fica muito enjoado e aí se foi. Está vomitando em cima de uns gerânios de subúrbio, ou nos tênis de seu pai, ou no chão de seu próprio banheiro três dias atrás, ou num calçadão de madeira em Oak Park, Illinois, por volta de 1903, ou numa quadra de tênis num belo dia de outono nos anos 1950, ou em seus próprios pés descalços numa grande variedade de tempos e lugares.
Como é essa sensação?
É exatamente como um daqueles sonhos em que de repente a pessoa se dá conta de que tem de fazer uma prova para a qual não estudou e está pelada. E deixou a carteira em casa.
Quando estou em outro tempo, me sinto pelo avesso, transformado numa versão desesperada de mim. Viro um ladrão, um andarilho, um bicho que corre e se esconde. Assusto velhas e assombro crianças. Sou um truque, uma ilusão da mais alta ordem. É incrível eu ser mesmo real.
Há uma lógica, uma regra para todo esse vaivém, todo esse deslocamento? Há alguma forma para ficar no presente, abraçá-lo com todas as células do seu corpo? Não sei. Há pistas; como em qualquer doença, há padrões, possibilidades. Cansaço, barulhos fortes, estresse, movimento brusco de ficar em pé, piscar de luzes — qualquer uma dessas coisas pode desencadear um episódio. Mas posso estar lendo o Times de domingo, com o café na mão e Clare cochilando ao meu lado em nossa cama e, de repente, estar em 1976 vendo meu eu de 13 anos cortar o gramado dos meus avós. Alguns desses episódios duram apenas momentos; é como tentar ouvir um rádio de carro que não consegue sintonizar as emissoras direito. Quando vejo, estou no meio de uma multidão, uma plateia, uma turba. Outras vezes, estou só, num campo, numa casa, num carro, numa praia, numa escola primária no meio da noite. Tenho medo de me descobrir numa cela de prisão, num elevador lotado, no meio de uma autoestrada. Surjo do nada, pelado. Como posso explicar? Nunca consegui levar nada comigo. Nem roupa, nem dinheiro, nem identidade. Passo boa parte da minha breve viagem adquirindo roupas e tentando me esconder. Felizmente não uso óculos.
É irônico. Todos os meus prazeres são caseiros: ficar relaxado na poltrona e curtir as emoções calmas da vida doméstica. As alegrias que peço são modestas. Um romance de mistério na cama, o cheiro dos longos cabelos ruivos de Clare molhados depois do banho, um cartão-postal de um amigo em férias, creme se diluindo no café, a maciez da pele embaixo dos seios de Clare, a simetria das sacolas de compras na bancada da cozinha esperando ser arrumadas. Gosto de passear pelas pilhas de livros deixadas na biblioteca depois que os clientes foram para casa, tocando de leve suas lombadas. São estas coisas que podem me deixar morto de saudade quando o capricho do Tempo me desloca delas.
E Clare, sempre Clare. Clare de manhã, sonolenta e de cara amassada. Clare com os braços mergulhados na tina de fazer papel, puxando o molde e sacudindo-o assim e assim, para misturar as fibras. Clare lendo, com o cabelo solto sobre o encosto da cadeira, passando hidratante nas mãos vermelhas e rachadas antes de dormir. A voz baixa de Clare está em meu ouvido com frequência.
Odeio estar onde ela não está, quando não está. No entanto, vivo partindo, e ela não pode vir atrás.
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