A mulher do viajante no tempo

Audrey Niffenegger · Capítulo 3 de 51

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A mulher do viajante no tempo

Primeiro Encontro, um

 

Sábado, 26 de outubro de 1991 (Henry tem 28 anos, Clare, 20)

CLARE: A biblioteca é arejada e cheira a xampu de tapete, embora eu só veja mármore. Assino o Livro de Visitantes: Clare Abshire, 11h15, 26-10-1991, Coleções Especiais. Nunca estive na Newberry e, agora que já passei a entrada escura e sinistra, estou empolgada. A biblioteca me passa a impressão de ser uma caixa grande cheia de livros bonitos em uma manhã de Natal. O elevador é mal-iluminado, quase silencioso. Paro no terceiro andar e preencho um formulário para obter um Cartão de Leitor, depois subo para as Coleções Especiais. Os saltos das minhas botas batem firme no chão de madeira. A sala está silenciosa e lotada de gente, cheia de mesas sólidas e pesadas com pilhas de livros em cima e rodeadas de leitores. A luz matinal do outono de Chicago entra pelas janelas altas. Vou até o balcão e pego um bolo de fichas de solicitação. Estou fazendo um trabalho para uma aula de história da arte. Meu tema de pesquisa é o Chaucer da Kelmscott

Press. 1 Procuro o livro e preencho uma ficha de solicitação para ele. Mas também quero ler sobre fabricação de papel na Kelmscott. O catálogo é confuso. Volto ao balcão e peço ajuda. Quando explico à mulher o que estou tentando encontrar, ela olha por cima do meu ombro para alguém que passa atrás de mim.

— Talvez o sr. DeTamble possa ajudá-la — diz.

Viro-me, preparada para começar a explicar de novo, e dou de cara com Henry.

Estou sem fala. Cá está Henry, calmo, vestido, mais jovem do que jamais o vi. Henry trabalha na Biblioteca Newberry, encontra-se na minha frente, no presente. Aqui e agora. Estou exultante. Henry me olha pacientemente, hesitante mas educado.

— Posso ajudá-la em alguma coisa? — pergunta.

— Henry!

Mal consigo me conter para não atirar os braços em volta dele. É óbvio que ele nunca me viu na vida.

— Já nos conhecemos? Sinto muito, eu não... — Henry olha em volta, preocupado que leitores e colegas estejam nos vendo. Puxando pela memória, percebe que uma futura versão de si mesmo conheceu essa garota feliz e radiante diante dele. A última vez em que o vi, ele chupava meus dedos do pé no Campo.

Tento explicar.

— Sou Clare Abshire. Conheci você quando eu era pequena... — Fico sem saber o que fazer porque estou apaixonada por um homem que se encontra na minha frente sem ter a menor lembrança de mim. Tudo está no futuro para ele. Quero rir de como a cena toda é estranha. Estou imersa em anos de conhecimento de Henry, enquanto ele me olha perplexo e temeroso. Henry vestido com as calças de pesca velhas de meu pai, pacientemente me tomando a tabuada de multiplicação, os verbos franceses, todas as capitais estaduais; Henry rindo de algum almoço esquisito que meu eu de 7 anos de idade trouxe para o Campo; Henry de smoking, desabotoando a camisa com mãos trêmulas no meu aniversário de 18 anos. Aqui! Agora!

— Venha tomar um café comigo, ou jantar...

Naturalmente, ele tem que dizer sim, esse Henry que me ama no passado e no futuro e deve me amar agora, ouvindo o eco de outro tempo. Para meu imenso alívio, ele diz mesmo sim. Combinamos de nos encontrar hoje à noite num restaurante tailandês da vizinhança, o tempo todo debaixo do olhar assombrado da mulher atrás do balcão. Saio, esquecendo a Kelmscott e Chaucer, desço flutuando a escadaria de mármore, atravesso o saguão e saio para o sol de outubro de Chicago. Atravesso correndo o parque, espantando cachorrinhos e esquilos, dando gritos de alegria.

HENRY: É um dia rotineiro de outubro, ensolarado e frio. Estou trabalhando numa salinha sem janela e com controle de umidade no quarto andar da Newberry, catalogando uma coleção de papéis marmorizados recém-doada. Os papéis são lindos, mas catalogar é chato, e estou entediado e com pena de mim. Na verdade, sinto-me velho, como só quem tem 28 anos pode se sentir depois de passar metade da noite acordado bebendo vodca muito cara e tentando, em vão, conquistar novamente as boas graças de Ingrid Carmichel. Passamos a noite inteira brigando, e agora nem me lembro do motivo da briga. Minha cabeça lateja. Preciso de café. Deixando os papéis marmorizados num estado de caos controlado, atravesso o escritório e passo pela seção de localização na Sala de Leitura. Sou detido pela voz de Isabelle dizendo: “Talvez o sr. DeTamble possa ajudá-la”, querendo dizer “Henry, seu malandro, aonde vai?”. E essa ruiva alta e deslumbrante vira-se e olha para mim como se eu fosse uma aparição divina. Meu estômago revira. Obviamente ela me conhece, e eu não a conheço. Só Deus sabe o que eu já disse, fiz ou prometi a essa criatura luminosa, então sou forçado a dizer em meu melhor biblioteconomês: “Posso ajudá-la em alguma coisa?”. A moça meio que suspira “Henry!” de um jeito que me convence de que em algum ponto no tempo tivemos uma coisa realmente sensacional juntos. Isso agrava o fato de eu não saber nada sobre ela, nem mesmo o nome. Digo “Já nos conhecemos?”, e Isabelle me lança um olhar que diz Seu babaca. Mas a garota diz “Sou Clare Abshire. Conheci você quando eu era pequena”, e me convida para jantar. Aceito, perplexo. Ela me olha radiante, embora eu esteja com a barba por fazer, de ressaca e simplesmente em péssimas condições. Vamos jantar juntos hoje mesmo, no Beau Thai. Clare, depois de me garantir para mais tarde, parece flutuar ao sair da Sala de Leitura. Quando estou no elevador, meio atordoado, me dou conta de que uma sorte grande do meu futuro de alguma forma me encontrou aqui no presente, e começo a rir. Atravesso o saguão e, quando estou descendo para a rua, vejo Clare atravessando a Washington Square correndo, saltitando e gritando. Estou quase chorando sem saber por quê.

Mais tarde naquela noite:

HENRY: Às 18h, corro do trabalho para casa e tento me tornar atraente. O que chamo de casa hoje é um apartamento minúsculo mas uma loucura de tão caro na North Dearborn; vivo esbarrando em paredes, bancadas e móveis inconvenientes. Primeiro Passo: destrancar 17 fechaduras na porta do apartamento, pular para a sala-que-é-também-meu-quarto e começar a tirar a roupa. Segundo Passo: tomar banho e fazer a barba. Terceiro Passo: olhar em vão para as profundezas do meu armário, aos poucos me conscientizando de que não há nada exatamente limpo. Descubro uma camisa branca ainda na embalagem da lavanderia. Decido usar o terno preto, sapatos de bico fino e gravata azul-clara. Quarto Passo: vestir isso tudo e me tocar que estou igual a um agente do FBI. Quinto Passo: olhar em volta e ver que a casa está uma bagunça. Tomo a decisão de evitar trazer Clare para cá hoje à noite, mesmo se achar que tal coisa seja possível. Sexto

Passo: olhar no espelho do banheiro e ver um sósia de Egon Schiele 2 de 10 anos de idade, olhos arregalados num rosto anguloso, com 1,82m de altura, vestindo camisa branca limpa e terno de agente funerário. Me pergunto com que tipos de roupa essa mulher já me viu, uma vez que obviamente não chego do meu futuro no passado dela vestido com as minhas roupas. Ela disse que era uma garotinha? Várias questões me passam pela cabeça. Paro e respiro um minuto. Tudo bem. Pego a carteira e as chaves, e lá vou eu: tranco as 37 fechaduras, desço no elevadorzinho irritante, compro rosas para Clare na loja do saguão. Mesmo tendo caminhado as duas quadras até o restaurante em tempo recorde, ainda chego cinco minutos atrasado. Clare já está sentada num reservado e parece aliviada ao me ver. Acena para mim como se estivesse numa parada.

— Oi — eu digo. Clare está com um vestido de veludo cor de vinho e usa pérolas. Parece uma figura de Botticelli pintada por John Graham: grandes olhos cinzentos, nariz comprido, boquinha delicada como uma gueixa. Ela tem um cabelo ruivo comprido que lhe cobre os ombros e chega até o meio das costas. Clare é tão branca que parece uma escultura de cera à luz de velas. Entrego as flores com gesto brusco. — Para você.

— Obrigada — diz Clare, absurdamente contente. Ela olha para mim e vê que estou confuso com sua reação. — Você nunca me deu flores antes.

Sento no reservado de frente para ela. Estou fascinado. Esta mulher me conhece; não é uma mera conhecida de minhas aventuras futuras. A garçonete aparece e nos entrega os cardápios.

— Me conta — exijo.

— O quê?

— Tudo. Quer dizer, você entende por que eu não te conheço? Eu sinto muito...

— Ah, não, não há motivo. Quer dizer, eu sei... por quê. — Clare abaixa a voz. — É porque para você nada disso aconteceu ainda, mas para mim... eu conheço você há muito tempo.

— Quanto?

— Uns 14 anos. Eu tinha 6 anos quando o vi pela primeira vez.

— Nossa. Você me viu muitas vezes? Ou só algumas?

— A última vez que te vi, você me disse para trazer isso para jantar quando tornássemos a nos encontrar. — Clare me mostra um diário infantil azul-claro. — Toma — ela me entrega o diário —, pode ficar com isso. — Abro no lugar marcado com um pedaço de jornal. A página, que tem dois cachorrinhos cocker spaniel no alto do canto direito, é uma lista de datas. Começa com 23 de setembro de 1977 e termina 16 páginas cheias de cachorrinhos mais tarde, em 24 de maio de 1989. Conto. Há 152 datas, escritas com grande cuidado na caligrafia cursiva de uma criança de 6 anos usando esferográfica azul.

— Você fez a lista? Estas datas são todas precisas?

— Na verdade, você me ditou isso. Você me disse há alguns anos que decorou as datas dessa lista. Então não sei dizer quão exata ela é. Quer

dizer, parece uma faixa de Möbius. 3 Mas são precisas. Usei as datas para saber quando ir ao Campo encontrar você.

A garçonete reaparece, e pedimos: Tom Kha Kai para mim e Gang Mussaman para Clare. Um garçom traz chá e sirvo uma xícara a cada um de nós.

— O que é o Campo? — Estou quase pulando de tão nervoso. Nunca conheci ninguém do meu futuro antes, muito menos uma figura de Botticelli que esteve comigo 152 vezes.

— O Campo faz parte da propriedade de meus pais em Michigan. Tem um bosque numa ponta e a casa do outro lado. Mais ou menos no meio, há uma clareira de uns 3 metros de diâmetro, com uma pedra grande. Se você estiver na clareira, ninguém na casa pode te ver porque o terreno sobe e depois desce na clareira. Eu brincava lá porque gostava de brincar sozinha e achava que ninguém sabia que eu estava lá. Um dia, quando eu estava na primeira série, fui da escola para a clareira e lá estava você.

— Pelado e provavelmente vomitando.

— Na verdade, você parecia bastante seguro. Lembro que sabia meu nome e que desapareceu de uma forma bem espetacular. Pensando bem, é óbvio que você já tinha estado lá antes. Acho que a primeira vez foi em 1981; eu tinha 10 anos. Você ficou repetindo “Ah, meu Deus”, e me encarou bastante transtornado por causa da nudez. Àquela altura, eu só dei como certo que aquele velho nu ia aparecer magicamente do futuro e pedir roupas. — Clare ri. — E comida.

— Qual é a graça?

— Eu preparei umas refeições bem esquisitas para você ao longo dos anos. Sanduíche de manteiga de amendoim e enchovas. Patê e beterraba em biscoitos Ritz. Acho que eu meio que queria ver se você comia de tudo, e também estava tentando te impressionar um pouco com minha sabedoria culinária.

— Que idade eu tinha?

— Acho que a idade máxima com que já vi você foi quarenta e alguma coisa. A mínima, não tenho certeza; talvez trinta? Quantos anos você tem?

— Vinte e oito.

— Você me parece bem jovem agora. Nos últimos anos, de modo geral, você tinha uns quarenta e poucos anos, e parecia ter uma vida meio dura... É difícil dizer. Quando a gente é pequeno, todos os adultos parecem grandes e velhos.

— Mas então, o que a gente fazia no Campo? É muito tempo para ficar ali.

Clare ri.

— A gente fazia um monte de coisas. Mudava dependendo da minha idade e do clima. Você passou muito tempo me ajudando com meus deveres de casa. A gente jogava e, na maioria das vezes, só conversava sobre um monte de coisas. Quando eu era muito pequena, achava que você fosse um anjo; te fiz um monte de perguntas sobre Deus. Quando eu era adolescente, tentei te convencer a fazer amor comigo. Como você nunca aceitava, me deixava ainda mais determinada a conseguir o que eu queria. Acho que você pensava que ia me perverter sexualmente, de alguma forma. Em alguns aspectos, você era muito paternal.

— Ah. Vai ver que isso é uma coisa boa, mas, no momento, não quero que pense em mim como paternal. — Nossos olhos se encontram. Trocamos um sorriso conspiratório. — E o inverno? Os invernos de Michigan são bem rigorosos.

— Eu levava você escondido para o porão; nossa casa tem um porão enorme com vários cômodos, e um deles é onde guardamos toda a tralha, com a caldeira do outro lado da parede. Chamamos esse cômodo de Quarto de Leitura, porque é onde ficam todos os livros e revistas velhos e inúteis. Uma vez você foi lá durante uma nevasca em que ninguém saiu para ir à escola, nem para trabalhar. Achei que eu ia endoidar tentando arranjar comida para você porque não tinha tanta comida assim em casa. Etta estava saindo para as compras quando a tempestade começou. Então você passou três dias preso lendo velhas Reader’s Digests, vivendo de sardinha e macarrão instantâneo.

— Parece gostoso. Mal posso esperar. — Nossa comida chega. — Você nunca aprendeu a cozinhar?

— Não, acho que não afirmaria que sei cozinhar. Nell e Etta sempre ficavam danadas quando eu fazia alguma coisa na cozinha além de pegar uma Coca, e, como não tenho ninguém para cozinhar desde que fui morar em Chicago, não tenho motivo para isso. Normalmente, estou muito ocupada com a faculdade, então acabo comendo por lá mesmo. — Clare dá uma garfada no seu filé mignon ao curry. — Está ótimo.

— Nell e Etta?

— Nell é nossa cozinheira. — Clare ri. — Nell é o encontro de cordon bleu com Detroit; ela é como Aretha Franklin seria se fosse Julia Child. Etta é nossa governanta e pau para toda obra. Ela é quase nossa mãe, para falar a verdade. Quer dizer, minha mãe é... bom, Etta está sempre ali, alemã e severa, mas dá muita força. Minha mãe meio que vive nas nuvens, sabe?

Faço que sim com a cabeça, a boca cheia de sopa.

— Ah, e tem o Peter — acrescenta Clare. — Peter é o jardineiro.

— Uau. Sua família tem empregados. Isso é muita areia para o meu caminhão. Eu já conheci, ahn, alguém da sua família?

— Conheceu minha avó Meagram justo antes de ela morrer. Ela foi a única pessoa a quem contei sobre você. Estava quase completamente cega nessa época. Sabia que a gente ia casar e queria te conhecer.

Paro de comer e olho para Clare. Ela me olha também, serena, angelical, totalmente à vontade.

— Vamos nos casar?

— Suponho que sim — responde ela. — Há anos você me diz que do futuro de onde vem você está casado comigo.

Demais. Isso é demais. Fecho os olhos e me forço a não pensar em nada; a última coisa que quero é largar o aqui e agora.

— Henry? Henry, você está bem? — Sinto Clare sentar-se ao meu lado. Abro os olhos e ela segura minhas mãos com força. Olho para as mãos dela e vejo que são mãos de trabalhador, ásperas e rachadas.

— Henry, sinto muito, não consigo me acostumar com isso. É tão louco. Quer dizer, a minha vida inteira, era você quem sabia tudo. Eu esqueci que hoje talvez eu devesse ir devagar. — Ela ri. — Na verdade, uma das últimas coisas que você me disse antes de ir embora foi: “Tenha piedade, Clare.” Você disse isso com a voz que usa para citar outras pessoas. Pensando bem, acho que você devia estar citando as minhas palavras. — Ela continua segurando minhas mãos. Olha para mim com vontade; com amor. Sinto-me profundamente humilde.

— Clare?

— Sim?

— A gente pode voltar para trás? Fingir que essa é uma primeira saída normal entre duas pessoas normais?

— Tudo bem. — Clare se levanta e volta para o seu lado da mesa. Senta-se ereta e tenta não rir.

— Hmm, certo. Nossa, ééé, Clare..., me fala de você. Hobbies? Bichos de estimação? Tendências sexuais diferentes?

— Descubra por você mesmo.

— Certo. Vamos ver... onde estuda? O que está estudando?

— Estou na escola do Instituto das Artes; faço escultura e estou começando o curso de fabricação de papel.

— Legal. Como é o seu trabalho?

Pela primeira vez, Clare parece desconfortável.

— É meio... grande, e é sobre... pássaros. — Ela olha para a mesa, depois toma um gole de chá.

— Pássaros?

— Bom, na verdade, é sobre... ééé... saudade. — Ela ainda não está olhando para mim, de modo que mudo de assunto.

— Me conta mais sobre a sua família.

— Tudo bem. — Clare relaxa, sorri. — Bom... minha família mora em Michigan, perto de uma cidadezinha na beira do lago chamada South Haven. Nossa casa fica numa área que não pertence à cidade, na verdade. Originalmente, pertencia aos pais de minha mãe, vovô e vovó Meagram. Ele morreu antes de eu nascer, e ela morou conosco até morrer. Eu tinha 17 anos. Meu avô era advogado, e meu pai é advogado; meu pai conheceu minha mãe quando foi trabalhar com vovô.

— Então, casou com a filha do patrão.

— É. Na verdade, às vezes eu me pergunto se ele não casou com a casa do patrão. Minha mãe é filha única, e a casa é incrível; está num monte de livros sobre o movimento Arts and Crafts.

— Tem nome? Quem construiu?

— Chama-se Meadowlark House e foi construída em 1896 por Peter Wyns.

— Uau. Já vi fotos dela. Foi construída para uma pessoa da família Henderson, certo?

— Sim. Foi um presente de casamento para Mary Henderson e Dieter Bascombe. Eles se divorciaram dois anos depois que foram morar lá e venderam a casa.

— Casa de rico.

— Minha família é rica. Eles também acham isso esquisito.

— Irmãos?

— Mark tem 22 anos e está terminando o curso preparatório de direito em Harvard. Alicia tem 17 anos e está no último ano do ensino médio. É violoncelista. — Detecto afeição pela irmã e um certo desinteresse pelo irmão.

— Você não gosta muito do seu irmão?

— Mark é igualzinho ao papai. Os dois gostam de ganhar, impor a própria opinião falando grosso.

— Sabe, eu sempre invejo as pessoas que têm irmãos, mesmo que elas não gostem muito deles.

— Você é filho único?

— Sou. Pensei que soubesse tudo a meu respeito.

— Na verdade, sei tudo e não sei nada. Sei como você é pelado, mas até hoje à tarde, eu não sabia seu sobrenome. Sabia que morava em Chicago, mas não sei nada sobre sua família a não ser que sua mãe morreu num acidente de automóvel quando você tinha 6 anos. Sei que você entende muito de arte e fala fluentemente francês e alemão; não tinha a menor ideia de que você era bibliotecário. Você vetou que eu te encontrasse no presente; disse que aconteceria quando tivesse que acontecer, e cá estamos nós.

— Cá estamos nós — concordo. — Bom, minha família não é rica; eles são músicos. Meu pai é Richard DeTamble, e minha mãe era Annette Lyn Robinson.

— Ah, a cantora!

— Isso. E ele é violinista. Toca na Orquestra Sinfônica de Chicago. Mas nunca chegou lá como ela. É pena porque meu pai é um violinista maravilhoso. Depois que mamãe morreu, ele se limitou a não se deixar afundar. — Chega a conta. Nenhum de nós comeu muito, mas eu, pelo menos, não estou muito interessado em comida agora. Clare pega a bolsa e eu faço que não com a cabeça para ela. Pago; saímos do restaurante e ficamos na Clark Street na bela noite de outono. Clare está vestida com uma roupa azul de tricô, toda elaborada, e uma echarpe de pele; esqueci de trazer sobretudo e estou tremendo de frio.

— Onde você mora? — pergunta Clare.

Epa.

— Moro a umas duas quadras daqui, mas minha casa é minúscula e agora está na maior bagunça. Você?

— Roscoe Village, na Hoyne. Mas tenho uma companheira de quarto.

— Se você passar lá em casa, tem que fechar os olhos e contar até mil. Quem sabe sua companheira de quarto é surda e nada curiosa.

— Quem dera. Nunca levo ninguém lá; Charisse ia bater em você e enfiar lascas de bambu embaixo das suas unhas até você contar tudo.

— Quero muito ser torturado por uma pessoa chamada Charisse, mas vejo que você não tem o mesmo gosto que eu. Vamos lá pra casa.

Subimos a pé a Clark no sentido norte. Entro na Clark Street Liquors para comprar uma garrafa de vinho. Na rua, Clare está intrigada.

— Achei que você não devia beber.

— Não?

— O dr. Kendrick foi muito rigoroso sobre isso.

— Quem é ele?

Estamos caminhando devagar porque os sapatos de Clare são daqueles pouco práticos.

— É o seu médico; é um grande especialista em distúrbio temporal.

— Explique.

— Eu não sei muito bem. O dr. David Kendrick é um geneticista molecular que descobriu (vai descobrir) por que as pessoas sofrem de distúrbio temporal. É um problema genético; ele descobre isso em 2006. — Ela suspira. — Acho que ainda é cedo demais. Você me disse uma vez que há muito mais gente com distúrbio temporal daqui a dez anos.

— Nunca ouvi falar em ninguém que tivesse esse... distúrbio.

— Acho que mesmo que você saísse agora e encontrasse o dr. Kendrick, ele não conseguiria te ajudar. E a gente nunca teria se conhecido, se ele conseguisse.

— Não vamos pensar nisso. — Estamos na minha portaria. Clare entra na minha frente no elevador minúsculo. Fecho a porta e aperto o 11. Ela cheira a pano velho, sabonete, suor e pelo. Respiro fundo. O elevador para, fazendo barulho no meu andar, saímos e caminhamos pelo corredor estreito. Uso minha penca de chaves em todas as 107 fechaduras e abro uma fresta da porta. — Piorou muito durante o jantar. Vou ter que vendar seus olhos. — Clare ri quando coloco a garrafa de vinho no chão e tiro a gravata. Passo em volta de seus olhos e amarro a gravata com firmeza atrás de sua cabeça. Abro a porta, guio Clare para dentro do apartamento até uma poltrona. — Tudo bem, comece a contar.

Clare conta. Corro pela casa catando cuecas e meias do chão, recolhendo colheres e xícaras de café e jogando tudo na pia da cozinha. Quando ela diz “967”, tiro a gravata de seus olhos. Transformei o sofá-cama no sofá puro e simples que é de dia, e me sento nele.

— Vinho? Música? Luz de vela?

— Sim, por favor.

Fico de pé e acendo as velas. Quando termino, apago a lâmpada do teto e a sala dança com pequenas luzes que deixam tudo com uma cara melhor. Ponho as rosas na água, localizo o meu saca-rolha, abro a garrafa e sirvo um copo de vinho a cada um de nós. Depois de pensar um instante, ponho o CD da EMI da minha mãe cantando lieder de Schubert e abaixo o volume.

Meu apartamento é basicamente um sofá, uma poltrona e uns quatro mil livros.

— Que lindo — diz Clare. Ela levanta e vai se sentar no sofá. Sento ao lado dela. Há um momento agradável quando ficamos ali, apenas sentados e nos olhando. A luz de vela reflete no cabelo de Clare. Ela toca em meu rosto. — É tão bom ver você. Eu já começava a me sentir sozinha.

Puxo Clare para mim e nos beijamos. É um beijo muito... compatível, um beijo nascido de uma antiga conexão. Imagino o que andamos fazendo naquele campo de Clare, mas afasto o pensamento. Nossos lábios se separam. Normalmente, a essa altura, eu estaria considerando como me desvencilhar de várias camadas de roupa, mas, em vez disso, me recosto e me estico no sofá, trazendo Clare comigo, pegando por baixo de seus braços. O vestido de veludo a deixa escorregadia. Ela desliza e se encaixa no espaço entre meu corpo e o encosto do sofá como uma cobra vestindo veludo. Clare está de frente para mim e eu me apoio no braço do sofá. Sinto a pressão de seu corpo inteiro contra o meu através do tecido fino. Uma parte de mim está louca para pular, lamber e cair dentro, mas estou exausto e impressionado.

— Pobre Henry.

— Por que “pobre Henry”? Estou na maior felicidade. — E é verdade.

— Ah, eu fico te bombardeando de surpresas.

Clare passa uma perna por cima de mim de modo que senta exatamente em cima do meu pau. Isso me deixa bem alerta.

— Não se mexa — digo.

— Tudo bem. Estou achando essa noite muito divertida. Quer dizer, Informação é Poder, e tudo isso. E sempre tive a maior curiosidade de descobrir onde você mora, o que veste e o que faz da vida.

— Voilà. — Deslizo as mãos por baixo de seu vestido e subo por suas coxas. Ela está usando meias e cinta-liga. É o meu tipo. — Clare?

— Oui.

— É uma pena engolir tudo de uma vez. Quer dizer, um pouco de expectativa não faz mal.

Clare fica envergonhada.

— Sinto muito! Mas, você sabe, no meu caso, ando na expectativa há anos. E não dá para ter tudo o que se quer...

— Querer é poder.

— Este é o meu lema. — Ela dá um sorrisinho maroto e mexe os quadris para a frente e para trás algumas vezes. Agora estou com uma ereção tão grande que passaria pelo limite de altura de um parque de diversões.

— Você sempre consegue o que quer, não?

— Sempre. Sou horrível. Só que, de modo geral, você tem sido imune ao meu charme. Sofri terrivelmente sob o seu regime de verbos franceses e jogo de damas.

— É um alívio saber que meu futuro eu tem pelo menos alguma forma de te controlar. Você faz isso com todos os meninos?

Clare está ofendida; não sei quão sinceramente.

— Eu não sonharia fazer isso com meninos. Que mente suja você tem! — Ela está desabotoando minha camisa. — Meu deus, você é tão... jovem.

Ela aperta meus mamilos com força. Ao diabo com a virtude. Já saquei como tirar o vestido dela.

A manhã seguinte:

CLARE: Acordo e não sei onde estou. Um teto desconhecido. Ruídos distantes de tráfego. Estantes de livros. Uma poltrona azul com meu vestido de veludo jogado e uma gravata de homem caída por cima do vestido. Então, me lembro. Viro a cabeça e lá está Henry. Tão simples, como se eu andasse fazendo isso a vida inteira. Ele dorme relaxado, com o corpo em uma pose esquisita, um braço sobre os olhos para tapar a claridade, o cabelo preto comprido espalhado no travesseiro. Tão simples. Cá estamos nós. Aqui e agora, finalmente agora.

Saio da cama com cuidado. A cama de Henry é também o sofá dele. As molas rangem quando levanto. É meio apertado entre a cama e a estante, então vou de lado até o corredor. O banheiro é minúsculo. Sinto-me como Alice no País das Maravilhas, enorme e tendo que botar o braço para fora da janela para poder me virar. O pequeno radiador enfeitado range emitindo calor. Faço pipi e lavo as mãos e o rosto. E aí noto que há duas escovas de dente no porta-escovas de louça branca.

Abro o armário do banheiro. Barbeadores, creme de barbear, Listerine, Tylenol, loção após barba, uma bola de gude azul, um palito, desodorante na prateleira superior. Loção para as mãos, absorventes internos, um estojo de diafragma, desodorante, batom, um vidro de complexo vitamínico, um tubo de espermicida na prateleira inferior. O batom é vermelho muito escuro.

Fico ali parada, com o batom na mão. Não me sinto bem. Me pergunto como é a cara dela, o nome. Me pergunto há quanto tempo eles saem. Bastante, eu acho. Boto o batom no lugar, fecho o armário. Me vejo pálida e toda desgrenhada no espelho. Bom, seja lá quem você for, estou aqui agora. Você pode ser o passado de Henry, mas eu sou o futuro. Sorrio para mim. Meu reflexo me responde com uma careta. Pego emprestado o roupão de toalha atrás da porta do banheiro. Embaixo, pendurado no gancho, há um robe de seda azul-claro. A troco de nada, usar o roupão dele me deixa mais bem-disposta.

Na sala, Henry continua dormindo. Pego meu relógio no parapeito e vejo que são só 6h30. Estou muito agitada para voltar para a cama. Entro na quitinete à procura de café. Todas as bancadas e o fogão estão tomados por pilhas de pratos, revistas e outras coisas para ler. Tem até uma meia na pia. Vejo que Henry deve ter simplesmente jogado tudo para dentro da cozinha ontem à noite, sem se preocupar com o resto. Eu sempre tive a ideia de que Henry era muito arrumado. Agora fica claro que ele é uma dessas pessoas meticulosas com a aparência pessoal, mas, no íntimo, relaxadas com todo o resto. Começo a fazer café após encontrar pó de café na geladeira e a cafeteira. Enquanto espero que fique pronto, dou uma olhada na estante de Henry.

Aqui está o Henry que conheço. Canções e Sonetos, de Donne. Doutor Faustus, de Christopher Marlowe. Almoço Nu. Anne Bradstreet. Immanuel Kant. Barthes, Foucault, Derrida. Canções da Inocência e da Experiência, de Blake. Ursinho Pooh. Alice, Edição Comentada. Heidegger. Rilke. A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy. Viagem Mortal a Wisconsin. Aristóteles. Bispo Berkeley. Andrew Marvell. Hipotermia, Geladura e Outros Danos Causados pelo Frio.

A cama range e eu dou um pulo. Henry está sentado, olhando para mim com os olhos apertados por causa da luz da manhã. Ele está tão jovem, tão antes... Não me conhece, ainda. De repente fico com medo de que tenha esquecido quem eu sou.

— Parece que você está com frio — diz. — Volte para a cama, Clare.

— Fiz café — ofereço.

— Hum, estou sentindo o cheiro. Mas primeiro venha me dar bom-dia.

Entro na cama ainda vestida com o roupão dele. Quando enfia a mão embaixo, ele para um instante. Percebo que ele ligou uma coisa à outra, imaginado seu banheiro sendo visto pelos meus olhos.

— Aquilo te incomoda? — pergunta.

Hesito.

— Incomoda, sim. Incomoda mesmo. Claro. — Henry senta na cama, e eu também. Ele vira a cabeça para mim, me olha. — Já tinha quase acabado, de qualquer forma.

— Quase?

— Eu já estava para terminar com ela. Você só apareceu na hora errada. Ou na hora certa, sei lá. — Ele tenta ler meu rosto, procurando o quê? Perdão? Não é culpa dele. Como ele podia saber? — A gente vem se torturando há muito tempo... — Ele fala cada vez mais depressa, e aí para. — Quer saber?

— Não.

— Obrigado. — Henry passa as mãos no rosto. — Sinto muito. Se eu soubesse que você vinha, eu tinha arrumado melhor as coisas. A minha vida, digo, não só o meu apartamento. — Eu limpo uma marca de batom embaixo da orelha de Henry. Ele pega e segura minha mão. — Sou muito diferente? Do que você esperava? — pergunta, apreensivo.

— Sim... é mais... — egoísta, penso, mas digo: — ...jovem.

Ele leva em consideração o que eu disse.

— Isso é bom ou mau?

— Diferente. — Passo as mãos pelos ombros e as costas de Henry, massageando músculos, explorando seus altos e baixos. — Você já se viu quarentão?

— Já. Parece que fui passado na máquina de moer carne.

— É. Mas você é menos... na verdade, é um pouco mais. Quer dizer, você me conhece, então...

— Então agora você está me dizendo que sou meio gauche.

Faço que não com a cabeça, embora seja exatamente o que quero dizer.

— É só que tive todas essas experiências, e você... Não estou acostumada a estar com você quando não se lembra de nada que aconteceu.

Henry fica triste.

— Sinto muito. Mas a pessoa que você conhece não existe ainda. Fique comigo, e cedo ou tarde, ele vai aparecer na certa. De qualquer maneira, isso é o melhor que posso oferecer.

— É justo — digo. — Mas enquanto isso...

Ele se vira para me olhar.

— Enquanto isso?

— Eu quero...

— Você quer?

Estou ficando vermelha. Henry ri, me empurrando com delicadeza para os travesseiros.

— Você sabe.

— Não sei muito, mas posso adivinhar uma ou duas coisas.

Mais tarde, estamos cochilando e sendo aquecidos pelo sol pálido de outubro do meio da manhã, pele com pele, e Henry diz alguma coisa na minha nuca que não entendo.

— O quê?

— Eu estava pensando: é muito tranquilo estar aqui com você. É bom ficar aqui deitado, sabendo que o futuro está meio que garantido.

— Henry?

— Oi.

— Como é que nunca você se contou sobre mim?

— Ah. Eu não faço isso.

— O quê?

— Normalmente, eu não me conto coisas que vão acontecer a menos que sejam importantes, ameacem a vida, sabe? Estou tentando viver como uma pessoa normal. Nem gosto de me ter por perto, então tento não me visitar a menos que não haja escolha.

Reflito sobre isso por algum tempo.

— Eu me contaria tudo.

— Não, não contaria. Causa muito problema.

— Eu estava sempre tentando fazer você me contar coisas. — Viro de costas, enquanto Henry apoia a cabeça na mão e olha para mim. Nossos rostos estão a uns 15 centímetros de distância. É muito estranho estar conversando, quase como sempre fizemos, mas a proximidade física dificulta a minha concentração.

— Eu te contava alguma coisa? — pergunta ele.

— Às vezes. Quando você estava a fim, ou tinha que contar.

— Tipo o quê?

— Viu só? Você quer mesmo saber. Mas não conto.

Henry ri.

— Bem feito para mim. Ei, estou com fome. Vamos tomar café.

Lá fora está frio. Carros e ciclistas circulam pela Dearborn enquanto casais passeiam nas calçadas. E lá estamos nós com eles, ao sol da manhã, de mãos dadas, finalmente juntos para qualquer um ver. Sinto uma pontinha de arrependimento, como se tivessem descoberto um segredo meu, e depois um surto de empolgação: agora tudo começa.

1 A edição ilustrada de The Works of Geoffrey Chaucer, da Kelmscott Press, é considerada um dos livros mais belos já publicados. (N. do E.)

2 Pintor austríaco ligado ao movimento expressionista. (N. do E.)

3 Faixa tridimensional com apenas uma face, descoberta em 1865 pelo matemático e astrônomo alemão August Ferdinand Möbius. (N. do E.)

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