A mulher do viajante no tempo

Audrey Niffenegger · Capítulo 18 de 51

Páginas do PDF

A mulher do viajante no tempo

Vida de Casado

 

Março de 1994 (Clare tem 22 anos, Henry, 30)

CLARE: E então estamos casados.

A princípio, moramos num apartamento de dois quartos num prédio de dois andares em Ravenswood. O apartamento é ensolarado, com um chão claro de madeira de lei e uma cozinha cheia de armários antigos e eletrodomésticos antiquados. Fazemos compras, passamos tardes de domingo na Crate & Barrel trocando presentes de casamento, encomendamos um sofá que não passa pelas portas do apartamento e tem que ser devolvido. O apartamento é um laboratório onde conduzimos experiências, pesquisamos um sobre o outro. Descobrimos que Henry odeia quando eu, distraída, bato com a colher no dente enquanto leio o jornal de manhã. Concordamos que não tem problema eu ouvir Joni Mitchell e não tem problema Henry ouvir The Shags desde que o outro não esteja por perto. Entendemos que Henry deve cozinhar e eu devo me encarregar da lavagem da roupa, e como nenhum de nós está disposto a passar aspirador, então contratamos alguém para fazer a faxina.

Entramos numa rotina. Henry trabalha de terça a sábado na Newberry. Ele se levanta às 7h30 e começa a fazer o café, depois enfia a roupa de correr e vai correr. Quando volta, toma um banho e se veste, e eu me levanto trôpega e converso com ele enquanto ele termina de preparar o café. Depois que comemos, ele escova os dentes e sai correndo para pegar o metrô, e eu volto para a cama e cochilo por uma hora mais ou menos.

Quando me levanto de novo, a casa está em silêncio. Tomo um banho, me penteio e visto minha roupa de trabalho. Tomo mais uma xícara de café, vou para o quarto dos fundos que é meu ateliê e fecho a porta.

Eu peno no meu ateliê, no minúsculo quartinho dos fundos, no início da minha vida de casada. O espaço que posso chamar de meu, que não é cheio de Henry, é tão pequeno que minhas ideias ficaram pequenas. Sou como uma lagarta num casulo de papel; estou cercada de esboços para esculturas, pequenos desenhos que parecem mariposas esvoaçando nas vidraças, batendo as asas para fugir desse espaço minúsculo. Faço maquetes, pequenas esculturas que são ensaios para grandes esculturas. A cada dia as ideias chegam com mais relutância, como se soubessem que vou matá-las de fome e tolher o seu crescimento. À noite, sonho com cor, com o ato de afundar os braços em tinas de fibra de papel. Sonho com jardins minúsculos onde não posso pisar, pois sou uma giganta.

O que há de irresistível na criação artística — ou na criação de qualquer coisa, suponho — é o momento em que a ideia vaga e insubstancial se concretiza, vira coisa, uma substância num mundo de substâncias. Circe, Nimue, Ártemis, Atena, todas as velhas feiticeiras: elas devem ter conhecido a sensação quando transformavam meros homens em criaturas fabulosas, roubavam os segredos dos mágicos, distribuíam exércitos: ah, olhe, lá está ele, o objeto novo. Chame de porco, guerra, loureiro. Chame de arte. A mágica que posso fazer é mágica pequena agora, mágica adiada. Todos os dias, eu trabalho, mas nada se materializa nunca. Me sinto como Penélope, tecendo e desmanchando.

E Henry, meu Ulisses? Henry é um artista de outra espécie, um artista do desaparecimento. Nossa vida conjugal neste apartamento pequeno demais é pontuada pelas pequenas ausências de Henry. Às vezes, ele desaparece discretamente; posso estar indo da cozinha para o corredor e encontrar uma pilha de roupas no chão. Posso levantar da cama de manhã e encontrar o chuveiro correndo e ninguém lá dentro. Às vezes assusta. Estou trabalhando em meu ateliê uma tarde, quando ouço alguém gemendo à minha porta; quando abro, encontro Henry de quatro, nu, no corredor, com a cabeça sangrando muito. Ele abre os olhos, me vê e some. Às vezes, acordo no meio da noite e Henry desapareceu. De manhã, ele me diz onde andou, assim como outros maridos podem contar às suas mulheres um sonho que tiveram: “Eu estava na biblioteca Selzer no escuro em 1989.” Ou: “Fui perseguido por um pastor-alemão no quintal de uma pessoa e tive que trepar numa árvore.” Ou: “Eu estava parado na chuva perto do apartamento dos meus pais, ouvindo minha mãe cantar.” Estou esperando Henry me contar que ele me viu quando eu era criança, mas até agora isso não aconteceu. Quando era criança, eu não via a hora de estar com Henry. Cada visita era um acontecimento. Agora, cada ausência é um não acontecimento, uma subtração, uma aventura sobre a qual vou ouvir quando meu aventureiro se materializar aos meus pés, sangrando ou assobiando, sorrindo ou tremendo. Agora tenho medo quando ele some.

HENRY: Quando se vive com uma mulher, todo dia se aprende alguma coisa. Até agora, aprendi que cabelo comprido entope o ralo do chuveiro

antes de você conseguir dizer “Liquid-Plumr”;12 que não é recomendável recortar alguma coisa do jornal antes que sua mulher tenha lido, mesmo que o jornal em questão seja de uma semana atrás; que sou a única pessoa em nossa casa de duas pessoas que consegue comer o mesmo prato no jantar três noites seguidas sem fazer cara feia; e que os fones de ouvido foram inventados para preservar marido e mulher dos excessos musicais um do outro (Como Clare pode ouvir Cheap Trick? Por que ela gosta dos Eagles? Nunca saberei, porque ela fica toda na defensiva quando pergunto. Como pode ser que a mulher que amo não quer ouvir a Musique du Garrot et de la Farraille?) A lição mais difícil é a solidão de Clare. Às vezes, chego em casa e Clare parece meio irritada. Interrompi algum fluxo de ideias, invadi o silêncio sonhador de seu dia. Às vezes, vejo uma expressão no rosto de Clare que parece uma porta fechada. Ela entrou no quarto de sua mente e está sentada ali tricotando ou fazendo outra coisa qualquer. Descobri que Clare gosta de ficar sozinha. Mas quando volto de uma viagem no tempo ela sempre fica aliviada ao me ver.

Quando uma mulher com quem você vive é artista, cada dia é uma surpresa. Clare transformou o segundo quarto numa caixa de surpresas, cheio de pequenas esculturas e desenhos espetados em cada centímetro de parede. Há rolos de arame e de papel enfiados em prateleiras e gavetas. As esculturas me lembram pipas ou aeromodelos. Digo isso a Clare uma noite, na porta de seu ateliê, vestido de terno e gravata ao chegar em casa do trabalho, prestes a começar a fazer o jantar, e ela joga uma em cima de mim; a peça voa surpreendentemente bem, e logo estamos um em cada extremo do corredor, jogando pequenas esculturas um no outro, testando sua aerodinâmica. No dia seguinte, chego em casa e descubro que Clare criou um bando de pássaros de arame e papel, que está pendurado no teto da sala. Uma semana depois, as janelas do nosso quarto estão cheias de figuras azuis translúcidas e abstratas que o sol projeta nas paredes, formando um céu para as silhuetas de pássaro que Clare pintou ali. É lindo.

Na noite seguinte, estou parado na porta do ateliê, vendo Clare terminar de desenhar uma moita de linhas pretas em volta de um pássaro vermelho. De repente, vejo Clare, enclausurada em seu quartinho por todas as suas coisas, e percebo que ela está tentando dizer algo, e sei o que tenho que fazer.

Quarta-feira, 13 de abril de 1994 (Clare tem 22 anos, Henry, 30)

CLARE: Escuto a chave de Henry na porta da frente e saio do ateliê quando ele entra. Para minha surpresa, ele vem carregando um aparelho de televisão. Não temos tevê porque Henry não pode assistir, e eu tenho preguiça de assistir sozinha. A tevê é um aparelho em preto e branco velho, pequeno e empoeirado com uma antena quebrada.

— Oi, querida, cheguei — diz Henry, pousando a tevê na mesa da sala de jantar.

— Eca, está imunda — digo. — Achou no beco?

Henry faz uma cara ofendida.

— Comprei no Unique. Dez pratas.

— Por quê?

— Hoje vai passar um programa que acho que devemos ver.

— Mas... — Não consigo imaginar que programa faria Henry correr o risco de viajar no tempo.

— Tudo bem, não vou ficar assistindo. Quero que você veja.

— Ah. O quê? Estou tão por fora do que passa na televisão...

— É surpresa. É às oito.

A tevê fica no chão da sala de jantar enquanto jantamos. Henry se nega a responder a quaisquer perguntas sobre ela e faz questão de implicar comigo perguntando o que eu faria se tivesse um ateliê imenso.

— Isso importa? Eu tenho um closet. Talvez comece a fazer origami.

— Ah não, fala sério.

— Sei lá. — Enrolo o linguine no garfo. — Eu faria todas as maquetes cem vezes maiores. Desenharia em folhas de três metros por três de papel manilha. Usaria patins para ir de uma ponta à outra do ateliê. Instalaria tinas enormes, e um sistema de secagem japonês, e uma prensa Reina de quatro quilos e meio... — Estou cativada pela visualização desse ateliê imaginário, mas aí me lembro do meu ateliê de verdade e dou de ombros. — Ah, bem. Talvez um dia. — Vivemos bem com o salário de Henry e os juros do meu fundo de investimento, mas, para poder ter um ateliê de verdade, eu precisaria arranjar um emprego, e aí eu não teria tempo de ficar no ateliê. Não tem saída. Todos os meus amigos artistas estão atrás de dinheiro ou de tempo ou das duas coisas. Charisse cria programas de computador de dia e faz arte à noite. Ela e Gomez vão se casar mês que vem. — O que a gente devia dar de presente de casamento aos Gomez?

— Hein? Ah, sei lá. Não dá para a gente dar todas aquelas máquinas de expresso que ganhamos?

— Trocamos tudo pelo micro-ondas e pela máquina de fazer pão.

— Ah, é. Ei, são quase oito horas. Pegue o seu café, vamos sentar na sala. — Henry empurra a cadeira e levanta a televisão, e eu levo nossas duas xícaras para a sala. Ele pousa o aparelho na mesa em frente ao sofá e, depois de se enrolar com uma extensão e se atrapalhar com os controles, sentamos no sofá assistindo a um anúncio de uma cama d’água no Canal 9. Parece nevar dentro da loja da cama d’água. — Droga — diz Henry, espiando a tela. — Funcionou melhor no Unique. — O logo da Loteria de Illinois pisca na tela. Henry procura no bolso da calça e me entrega um papelzinho branco. — Segure isso. — É um bilhete de loteria.

— Meu Deus. Você não...

— Shh. Veja.

Com grande fanfarra, os funcionários da Loteria — homens compenetrados de terno — anunciam os números nas bolas de pingue-pongue escolhidas aleatoriamente que pulam uma por uma na tela. 43, 2, 26, 51, 10, 11. Claro que batem com o número do bilhete na minha mão. Os homens da Loteria nos dão os parabéns. Acabamos de ganhar oito milhões de dólares.

Henry desliga a tevê, sorrindo.

— Belo truque, hein?

— Não sei o que dizer. — Henry vê que não estou pulando de alegria.

— Diga: “Obrigada, querido, por fornecer a grana de que precisamos para comprar uma casa.” Por mim está bom.

— Mas... Henry... não é de verdade.

— Claro que é. Esse é um bilhete de loteria de verdade. Se levar à Katz’s Deli, vai ganhar um abração da Minnie e um cheque de verdade do estado de Illinois.

— Mas você sabia.

— Claro. Obviamente. Era só uma questão de procurar no Chicago Tribune de amanhã.

— Não podemos... é roubo.

Henry bate dramaticamente na testa.

— Como eu sou bobo. Esqueci completamente que devemos apostar sem ter a mínima ideia de quais serão os números. Bom, podemos dar um jeito nisso.

Ele some, indo do corredor para a cozinha, e volta com uma caixa de fósforos. Acende um fósforo e segura o bilhete acima da chama.

— Não!

Henry apaga o fósforo.

— Não importa, Clare. A gente podia ganhar na loteria toda semana durante o próximo ano todo se a gente estivesse a fim. Então, se tiver problema com isso, não tem nada de mais. — O bilhete está um pouco chamuscado num canto. Henry está sentado ao meu lado no sofá. — Olhe só. Por que não apenas guarda o bilhete, e se estiver a fim de receber o prêmio, a gente recebe, e, se decidir dar para o primeiro sem-teto que encontrar, pode fazer isso...

— Não é justo.

— O que não é justo?

— Você não pode simplesmente deixar essa responsabilidade enorme comigo.

— Para mim está ótimo de uma maneira ou de outra. Então, se achar que estamos roubando do estado de Illinois o dinheiro que eles tiraram dos otários dos trabalhadores, vamos esquecer isso e pronto. Tenho certeza de que podemos pensar em algum outro jeito de conseguir um ateliê maior para você.

Ah. Um ateliê maior. De repente, fica claro para mim, idiota que sou, que Henry poderia ganhar sempre na loteria; que nunca se deu ao trabalho de fazer isso porque não é normal. Que decidiu pôr de lado sua dedicação fanática a viver como uma pessoa normal para que eu possa ter um ateliê que dê para eu andar de patins de uma ponta à outra; que estou sendo ingrata.

— Clare? Terra para Clare...

— Obrigada — digo bruscamente.

Henry ergue as sobrancelhas.

— Quer dizer que vamos receber o prêmio?

— Não sei. Quero dizer “obrigada”.

— De nada. — Há um silêncio desconfortável. — Ei, o que será que tem na tevê?

— Neve.

Henry ri, fica de pé e me puxa do sofá.

— Vem, vamos gastar nossos ganhos ilícitos.

— Aonde vamos?

— Sei lá. — Henry abre o armário do corredor e entrega meu casaco. — Ei, vamos comprar um carro de presente de casamento para Gomez e Charisse.

— Acho que eles deram copos de vinho para a gente.

Descemos a escada com passos pesados. Lá fora está uma noite perfeita de primavera. Ficamos na calçada em frente ao nosso prédio, e Henry me dá a mão. Olho para ele, levanto nossas mãos dadas, Henry me gira e logo estamos dançando pela Belle Plaine Avenue, sem música mas ao som dos carros que passam e das nossas risadas, e com o perfume das flores de cerejeira que caem como neve na calçada enquanto bailamos sob as árvores.

Quarta-feira, 18 de maio de 1994 (Clare tem 22, Henry, 30)

CLARE: Estamos tentando comprar uma casa. Procurar casa para comprar é incrível. Gente que jamais te convidaria para a casa delas em nenhuma outra circunstância abre as portas para você, deixa que fuce seus armários, dê palpite sobre o papel de parede e faça perguntas insistentes sobre a calha.

Henry e eu temos maneiras diferentes de ver uma casa. Eu percorro devagar, considero o trabalho de marcenaria, os eletrodomésticos, pergunto sobre a calefação, procuro por infiltração no porão. Henry simplesmente vai direto para os fundos da casa, olha pela janela e faz que não com a cabeça para mim. Nossa corretora, Carol, acha que ele não bate bem. Digo a ela que ele é fanático por jardinagem. Depois de um dia inteiro disso, estamos indo do escritório de Carol para casa, e decido indagar a respeito do método maluco de Henry.

— Que diabo você está fazendo? — pergunto educadamente.

Henry parece envergonhado.

— É que... eu não tinha certeza se você queria saber isso, mas já estive na nossa futura casa. Não sei quando, mas estive... estarei... lá um lindo dia de outono, à tardinha. Eu estava na janela dos fundos da casa, ao lado daquela mesinha de tampo de mármore que você ganhou da sua avó, e vi do outro lado do jardim a janela de uma construção de tijolos aparentes que parecia ser seu ateliê. Você puxava folhas de papel para lá. Elas eram azuis. Você usava uma bandana para prender o cabelo para trás, e um suéter verde e o avental de sempre e aquilo tudo. Então, só estou tentando reproduzir essa vista, e quando fizer isso, acho que é a nossa casa.

— Caramba. Por que você não mencionou isso? Agora me sinto boba.

— Ah, não. Não se sinta. Só achei que você gostaria de comprar como todo mundo compra. É que você parecia tão detalhista e lia todos aqueles livros de como fazer, e achei que quisesse, sabe, procurar para comprar, e não que a compra fosse inevitável.

— Alguém tem que perguntar sobre cupim, revestimento de amianto, madeira podre e bombas para água acumulada no porão...

— Exatamente. Então vamos continuar assim, e, com certeza, a gente vai chegar à mesma conclusão por caminhos diferentes.

Isso acaba acontecendo, embora, primeiro, haja dois momentos tensos. Estou fascinada com um elefante branco em East Roger Park, um bairro horrível ao norte da cidade. É uma mansão, um colosso vitoriano grande o bastante para uma família de 12 mais os empregados. Sei antes mesmo de perguntar que não é a nossa casa; Henry se apavora com aquilo antes mesmo de entrarmos pela porta da frente. O quintal é um estacionamento de uma enorme drogaria. O interior tem o esqueleto de uma bela casa; pé-direito alto, lareiras de mármore, marcenaria trabalhada...

— Por favor — peço com jeitinho. — É tão incrível.

— É, incrível é a palavra. A gente ia ser estuprado e roubado uma vez por semana nessa casa. Além disso, ela precisa de uma reforma total, fiação, encanamento, caldeira nova, provavelmente um teto novo... Simplesmente não é a casa. — A voz dele é decisiva, a voz de alguém que viu o futuro e não tem planos de se meter com isso. Fico uns dias de mau humor depois disso. Henry me leva para comer sushi.

— Tchotchka. Amorta.13 Coração do meu coração. Fale comigo.

— Eu não estou sem falar com você.

— Eu sei. Mas está de mau humor. E eu preferia não ser alvo de mau humor só por ter sido sensato.

A garçonete chega, e consultamos às pressas nossos cardápios. Não quero brigar no Katsu, meu restaurante de sushi preferido, um lugar onde comemos sempre. Acho que Henry está contando com isso, além da alegria que o sushi me dá, para me apaziguar. Pedimos goma-ae, hijiki, futomaki, kappamaki e uma quantidade impressionante de coisas cruas em retângulos de arroz. Kiki, a garçonete, desaparece com o nosso pedido.

— Não estou danada com você. — Isso é só meia verdade.

Henry ergue uma sobrancelha.

— Tudo bem, ótimo. Qual o problema, então?

— Você tem certeza absoluta de que aquela casa em que você esteve era a nossa? E se você estiver errado e a gente recusar uma coisa maravilhosa só porque não tinha a vista certa do jardim?

— Tinha uma quantidade incrível das nossas tralhas para ser qualquer outra coisa a não ser a nossa casa. Garanto a você que talvez não seja a nossa primeira casa... eu não estava perto de você o suficiente para ver quantos anos você tinha. Te achei bem jovem, mas talvez só estivesse bem-conservada. Mas te juro que é muito simpática, e não vai ser ótimo ter um ateliê nos fundos assim?

Suspiro.

— É. Vai. Nossa. Seria bom se você pudesse filmar algumas das suas excursões. Eu adoraria ver essa casa. Não dava para você ter olhado o endereço, enquanto estava lá?

— Sinto muito. Foi jogo rápido.

Às vezes, eu daria tudo para abrir a cabeça de Henry e ver a memória dele como um filme. Lembro do dia em que aprendi a usar computador. Eu tinha 14 anos e Mark tentava me ensinar a desenhar no Macintosh dele. Depois de uns dez minutos, eu queria enfiar minhas mãos tela adentro e tocar na coisa de verdade ali, fosse o que fosse. Gosto de fazer tudo de forma direta, tocar as texturas, ver as cores. Procurar casa para comprar com Henry está me deixando doida. É como dirigir um daqueles terríveis carrinhos de controle remoto. Sempre bato com eles na parede. De propósito.

— Henry, você se importaria se, por uns dias, eu fosse sozinha procurar casa?

— Não, acho que não. — Ele parece meio magoado. — Se você quiser mesmo.

— Bom, vamos acabar naquela casa de qualquer jeito, certo? Ou seja, não vai mudar nada.

— É verdade. É, não ligue para mim. Mas tente não se apaixonar mais por nenhuma arapuca, está bem?

Afinal encontro a casa um mês e umas vinte visitas depois. Fica em Ainslie, na Lincoln Square, um bangalô de tijolinhos vermelhos construído em 1926. Carol abre a caixa de chaves e luta com a fechadura, e, quando a porta abre, tenho a sensação avassaladora de estar no lugar certo... Vou direto até a janela dos fundos, olho para o jardim, e lá estão meu futuro ateliê e a parreira. Quando me viro, Carol me olha curiosa e digo:

— Vamos comprar esta.

Ela está mais que um pouquinho surpresa.

— Não quer ver o resto da casa? E seu marido?

— Ah, ele já viu. Mas, sim, claro, vamos ver a casa.

Sábado, 9 de julho de 1994 (Henry tem 31 anos, Clare, 23)

HENRY: Hoje é o Dia da Mudança. Fez calor o dia inteiro; as camisas dos homens da mudança estavam grudadas em seus corpos quando eles subiam as escadas do nosso apartamento hoje de manhã, sorrindo porque imaginavam que um apartamento de dois quartos seria moleza e eles terminariam antes do almoço. O sorriso se desmanchou quando chegaram à sala e viram a pesada mobília vitoriana de Clare e minhas 78 caixas de livros. Agora está escuro e Clare e eu vagamos pela casa, tocando nas paredes, passando a mão nos parapeitos de cerejeira. Nossos pés descalços batem nos assoalhos de madeira. Botamos água para correr na banheira de pés de garra, acendemos e apagamos as bocas do pesado fogão Universal. As janelas estão nuas; deixamos a luz apagada e a claridade da rua bate na lareira vazia pelos vidros sujos. Clare vai de quarto em quarto, afagando sua casa, nossa casa. Vou atrás dela, vendo Clare abrir armários e janelas. Ela fica na ponta dos pés na sala de jantar para tocar o lustre de cristal com a ponta de um dedo. Aí, tira a blusa. Passo a língua em seus seios. Somos envolvidos, observados e admirados pela casa enquanto fazemos amor nela pela primeira vez, a primeira de muitas. Depois, quando ficamos exaustos no chão cercados de caixas, sinto que encontramos nossa casa.

Domingo, 28 de agosto de 1994 (Clare tem 23 anos, Henry, 31)

CLARE: É uma tarde úmida e abafada de domingo, e Henry, Gomez e eu de bobeira em Evanston. Passamos a manhã na Lighthouse Beach, brincando no lago Michigan e nos tostando. Gomez quis ser enterrado na areia, e Henry e eu fizemos sua vontade. Comemos o nosso piquenique e tiramos uma soneca. Agora vamos andando na Church Street pela sombra, chupando picolés de laranja, tontos do sol.

— Clare, seu cabelo está cheio de areia — diz Henry. Paro, inclino meu corpo para a frente e bato com a mão no cabelo como se ele fosse um tapete. Cai uma praia inteira dali.

— Minhas orelhas estão cheias de areia. E as minhas cuecas — diz Gomez.

— Eu ficaria feliz de sacudir sua cabeça, mas da outra cuida você — digo. Sopra um ventinho e paramos para curtir a brisa. Prendo o cabelo no alto da cabeça e na mesma hora me sinto melhor.

— O que vamos fazer agora? — pergunta Gomez. Henry e eu nos entreolhamos.

— Bookman’s Alley — falamos juntos.

Gomez resmunga.

— Ai, meu Deus. Livraria, não. Senhor, Nossa Senhora, tende piedade de vosso humilde servo...

— Então é a Bookman’s Alley mesmo — diz Henry alegremente.

— Só prometa que não vamos passar mais que, ah, digamos, três horas...

— Acho que fecham às cinco — digo —, e já são 14h30.

— Você podia ir tomar uma cerveja — diz Henry.

— Achei que não vendiam bebida alcoólica em Evanston.

— Não, acho que mudaram isso. Se conseguir provar que não é membro da Associação Cristã de Moços, você pode tomar uma cerveja.

— Vou com vocês. Um por todos e todos por um.

Entramos na Sherman, passamos por onde era uma Marshall Field’s e agora é uma ponta de estoque de tênis, por onde era o Varsity Theater e agora é uma Gap. Viramos no beco que há entre a floricultura e o sapateiro e, surpresa, lá está a Bookman’s Alley. Abro a porta e entramos em grupo na loja fresca e escura como se estivéssemos caindo no passado.

Roger está sentado atrás de sua pequena escrivaninha desarrumada conversando com um senhor rechonchudo e grisalho sobre algo ligado à música de câmara. Ele sorri quando nos vê.

— Clare, tenho uma coisa de que você vai gostar — diz.

Henry vai direto para os fundos da loja onde estão todas as publicações e artigos para colecionadores de livros. Gomez passeia, olhando para os pequenos objetos esquisitos metidos nas várias seções: uma sela na de Faroeste, um chapéu de Sherlock Holmes na de Mistério. Ele pega uma jujuba na imensa tigela na seção infantil, sem se tocar de que aquelas jujubas estão ali há anos e podem fazer mal. O livro que Roger tem para mim é um catálogo holandês de papéis decorativos com amostras de verdade afixadas. Vejo na mesma hora que é um achado, então ponho o livro na mesa ao lado da escrivaninha para começar a pilha de coisas que quero. Aí começo a examinar as prateleiras com ar sonhador, respirando o cheiro entranhado de pó, papel, cola, tapetes velhos e madeira. Vejo Henry sentado no chão da seção de Arte com algo aberto no colo. Ele está queimado de sol, com o cabelo todo desgrenhado. Ainda bem que o cortou. Parece mais o Henry que conheço agora, de cabelo curto. Enquanto olho para ele, Henry levanta a mão para enrolar uma mecha no dedo, percebe que o cabelo está muito curto para isso e coça a orelha. Quero tocá-lo, passar as mãos em seu cabelo espetado, mas, em vez disso, viro para a seção de Viagem e sumo lá dentro.

HENRY: Clare está na sala principal ao lado de uma pilha enorme de novidades. Roger não gosta muito que mexam no material sem preço, mas reparei que ele deixa Clare fazer mais ou menos o que ela quer na loja dele. Ela está vendo um livrinho vermelho. Seu cabelo está querendo fugir do coque em sua cabeça, e uma alça do vestido está caída no ombro, deixando à vista um pedaço do seu maiô. É uma cena tão comovente, tão forte, que sinto uma vontade urgente de ir até ela, tocar nela, e morder Clare se não houver ninguém olhando, mas, ao mesmo tempo, não quero que esse momento termine. De repente percebo Gomez, que está parado na seção de Mistério, olhando para Clare com uma expressão igual a minha, de forma que sou obrigado a ver...

Aí, Clare olha para mim e diz:

— Henry, olhe, é Pompeia. — Ela estende o livrinho de cartões-postais, e algo na voz dela diz: Veja, escolhi você. Vou até ela, passo o braço em volta de seus ombros, endireito a alça caída. Quando olho um segundo depois, Gomez virou as costas para nós e está pesquisando atentamente a Agatha Christie.

Domingo, 15 de janeiro de 1995 (Clare tem 23 anos, Henry, 31)

CLARE: Lavo a louça e Henry corta pimentão verde em cubinhos. A neve de janeiro em nosso quintal reflete um cor-de-rosa forte do pôr do sol deste entardecer de domingo. Estamos fazendo molho de pimenta e cantando Yellow Submarine:

In the town where I was born

Lived a man who sailed to sea…

Cebolas chiam na panela no fogão. Quando cantamos And our friends are all on board, de repente ouço minha voz ecoando sozinha. Me viro e vejo as roupas de Henry amontoadas e a faca no chão da cozinha. Metade de um pimentão balança ligeiramente na tábua de cortar.

Apago o fogo e cubro as cebolas. Sento ao lado da pilha de roupas e recolho as peças ainda quentes do corpo de Henry. Fico ali sentada, segurando as roupas, até todo o calor delas ser do meu corpo. Então me levanto e vou para o nosso quarto, dobro as peças com cuidado e coloco em cima da nossa cama. Depois continuo a fazer o jantar da melhor maneira possível e como sozinha, esperando e pensando.

Sexta-feira, 3 de fevereiro de 1995 (Clare tem 23 anos, Henry, 31 e 39)

CLARE: Gomez e Charisse, Henry e eu estamos sentados à mesa de nossa sala de jantar jogando Lavagem Cerebral Capitalista Moderna. É um jogo que Gomez e Charisse inventaram. Jogamos com um tabuleiro de Banco Imobiliário. O jogo envolve responder a perguntas, fazer pontos, acumular dinheiro e explorar nossos parceiros. É a vez de Gomez. Ele joga os dados, tira um seis e cai no Fundo Comunitário. Tira uma carta.

— Tudo bem, gente. Que invenção tecnológica moderna você jogaria fora pelo bem da sociedade?

— A televisão — digo.

— Os amaciante de tecidos — diz Charisse.

— Os detectores de movimento — diz Henry com veemência.

— E eu digo a pólvora.

— Isso não é moderno — protesto.

— Tudo bem. A linha de montagem.

— Você não tem direito a duas respostas — diz Henry.

— Claro que tenho. Que porcaria de resposta é “detectores de movimento”, afinal?

— Vivo sendo dedurado pelos detectores de movimento no depósito de livros na Newberry. Essa semana, fui parar duas vezes no depósito depois do expediente, e na hora em que apareço o guarda já está lá em cima verificando. Isso está me levando à loucura.

— Acho que o proletariado não seria muito afetado pela eliminação dos detectores de movimento. Clare e eu ganhamos dez pontos cada um pela resposta correta, Charisse ganha dez pontos pela criatividade e Henry recua três casas por privilegiar as necessidades do indivíduo em detrimento do bem comum.

— Isso me coloca de novo no ponto de partida. Me dê $200,00, banqueiro. — Charisse dá o dinheiro a Henry.

— Epa — diz Gomez. Sorrio para ele. É minha vez. Tiro um quatro.

— Estacionamento. Compro.

Para comprar qualquer coisa, preciso responder a uma pergunta corretamente. Henry tira do monte de Sorte ou Revés.

— Com quem você preferiria jantar: Adam Smith, Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Alan Greenspan?

— Rosa.

— Por quê?

— A morte mais interessante.

Henry, Charisse e Gomez conferenciam e concordam que posso comprar o estacionamento. Dou o meu dinheiro a Charisse e ela me entrega a escritura. Henry joga e cai no imposto de renda. O imposto de renda tem suas cartas especiais. Ficamos todos tensos, apreensivos. Ele lê a carta.

— Grande Salto Adiante.

— Droga.

Todos entregamos a Charisse nossos imóveis, e ela coloca tudo de volta na carteira do banco, juntamente com os dela.

— Bom, lá se vai meu estacionamento.

— Desculpe. — Henry anda meio tabuleiro, o que o coloca em St. James. — Eu compro.

— Meu pobre St. James — lamenta Charisse.

Tiro uma carta do monte estacionamento gratuito.

— Como está hoje a taxa de câmbio do iene japonês contra o dólar?

— Não tenho ideia. De onde veio essa pergunta?

— De mim — Charisse sorri.

— Qual é a resposta?

— É 99,8 ienes para um dólar.

— Tudo bem. Nada de St. James. Sua vez.

Henry entrega o dado a Charisse. Ela tira quatro e acaba indo para a cadeia. Tira uma carta que informa qual é seu crime: informação privilegiada. Todos rimos.

— Isso parece mais coisa de vocês — diz Gomez. Henry e eu sorrimos modestamente. Estamos arrasando no mercado de ações atualmente. Para sair da cadeia, Charisse tem que responder a três perguntas.

Gomez tira do monte da Sorte ou Revés.

— Primeira pergunta: nome de dois artistas famosos que Trotsky conhecia no México.

— Diego Rivera e Frida Kahlo.

— Ótimo. Segunda pergunta: Quanto a Nike paga por dia a seus trabalhadores vietnamitas por aqueles tênis absurdamente caros?

— Ai, nossa. Sei lá... $3,00. Dez centavos?

— Qual é a sua resposta? — Há um grande estrondo na cozinha. Todos damos um pulo, e Henry diz “Fiquem sentados” com tanta ênfase que obedecemos. Ele corre para a cozinha. Charisse e Gomez me olham, perplexos. Balanço a cabeça.

— Não sei. — Mas eu sei. Ouve-se um burburinho de vozes e um gemido. Charisse e Gomez ficam gelados ao ouvir. Fico de pé e vou de mansinho atrás de Henry.

Ele está ajoelhado no chão, pressionando um pano de prato na cabeça de um homem nu deitado no chão, que obviamente é Henry. O armário de madeira onde ficam guardados nossos pratos está virado; o vidro quebrou e os pratos estão esparramados, todos espatifados. Henry está caído no meio da confusão, sangrando e coberto de vidro. Os dois Henrys me olham, um de uma forma que dá dó, o outro, ansioso. Fico de joelhos em frente a Henry, sobre Henry.

— De onde vem esse sangue todo? — sussurro.

— Acho que é do couro cabeludo — sussurra ele de volta.

— Vamos chamar uma ambulância — digo. Começo a tirar o vidro do peito de Henry. Ele fecha os olhos e diz:

— Não. — Eu paro.

— Caramba. — Gomez está parado na porta. Vejo Charisse na ponta do pé ao seu lado, tentando espiar por cima de seu ombro.

— Uau — diz ela, empurrando Gomez e passando. Henry joga um pano de prato em cima da genitália de seu duplo de bruços.

— Ah, Henry, não se preocupe com isso, já desenhei um zilhão de modelos...

— Tento manter um mínimo de privacidade — diz Henry com grosseria. Charisse recua como se tivesse recebido uma bofetada dele.

— Olhe, Henry — Gomez altera a voz.

Não consigo pensar com isso tudo acontecendo.

— Calem a boca, por favor — peço, exasperada. Para minha surpresa, eles obedecem. — O que está acontecendo? — pergunto a Henry, que está deitado no chão fazendo careta e tentando não se mexer. Ele abre os olhos e olha para mim um momento antes de responder.

— Vou desaparecer já, já — diz afinal, baixinho. Olha para Henry. — Quero beber alguma coisa.

Henry se levanta de um pulo e volta com um copo de suco cheio de Jack Daniels. Apoio a cabeça de Henry e ele consegue engolir um terço do copo.

— Isso é prudente? — pergunta Gomez.

— Não sei. Não me importo — Henry afirma do chão. — Está doendo pra diabo. — Ele dá uma arfada. — Para trás! Fechem os olhos...

— Por quê?... — Gomez começa.

Henry está tendo convulsões no chão como se tivesse sendo eletrocutado. Sua cabeça balança violentamente e ele grita “Clare!”. Fecho os olhos. Ouve-se um barulho seco como o de um lençol sendo batido, só que muito mais alto, e depois chove vidro e louça para todo lado; Henry sumiu.

— Ai, meu Deus — diz Charisse. Henry e eu ficamos nos olhando. Essa foi diferente, Henry. Essa foi violenta e feia. O que está acontecendo com você? Sua cara branca me diz que ele também não sabe. Ele examina o uísque para ver se há cacos de vidro e depois termina de beber.

— E esse vidro todo? — pergunta Gomez, tirando os cacos de cima de si com cuidado.

Henry se levanta e me dá a mão. Está coberto por sangue, cacos de louça e cristal. Fico em pé e olho para Charisse. Ela tem um grande corte na cara. O sangue desce por seu rosto como uma lágrima.

— Tudo o que não faz parte do meu corpo fica para trás — Henry explica. Ele mostra para Gomez e Charisse o buraco do dente que teve que arrancar porque vivia perdendo a obturação. — Então, seja lá para que data eu tenha ido, pelo menos o vidro todo sumiu, ninguém vai ter que ficar sentado extraindo os cacos com uma pinça.

— Não, mas nós vamos — diz Gomez, tirando delicadamente cacos de vidro do cabelo de Charisse. Ele tem razão.

12 Marca de desentupidor. (N. da T.)

13 Tchotchka: menina bonita em ídiche; Amorta: onda do mar, em queniano. (N. da T.)

OceanofPDF.com