A mulher do viajante no tempo
Seis
Sábado, 3 de junho de 2000 (Clare tem 29 anos, Henry, 36)
CLARE: Estou sentada na mesa da cozinha folheando o Chicago Tribune e vendo Henry guardar as compras. As sacolas de papel pardo estão todas enfileiradas em cima da bancada e Henry saca de dentro delas ketchup, galinha e queijo gouda como um mágico. Fico esperando o coelho e os lenços de seda. Em vez disso, saem cogumelos, feijão-preto, fettucine, alface, um abacaxi, leite desnatado, café, rabanetes, nabos, uma rutabaga, aveia, manteiga, queijo cottage, pão de centeio, maionese, ovos, barbeadores, desodorante, maçãs Granny Smith, creme, pãezinhos, camarão, cream cheese, sucrilhos, molho marinara, suco de laranja congelado, cenouras, camisinhas, batata-doce... camisinhas? Fico de pé e vou até o balcão, pego a caixa azul e sacudo na cara de Henry.
— O quê, você está tendo um caso?
Ele me lança um olhar desafiador enquanto arruma as coisas no freezer.
— Não, na verdade, me deu uma luz quando estava no corredor de pasta de dente. Quer ouvir?
— Não.
Henry se vira para mim com uma expressão de cansaço.
— Olha, é o seguinte: a gente não pode continuar tentando ter filho.
Traidor.
— Nós tínhamos concordado...
— ... em continuar tentando. Acho que cinco abortos são suficientes. Acho que já tentamos.
— Não. Por que não tentar de novo?
Tento evitar o tom de súplica e conter a raiva que sobe na minha garganta.
Henry dá a volta na bancada e fica parado na minha frente, mas não me toca porque sabe que não pode me tocar.
— Clare, outro aborto vai matar você, e não vou continuar fazendo uma coisa que vai terminar com você morta. Cinco gestações... Sei que você quer tentar de novo, mas eu não posso. Não aguento mais, Clare. Sinto muito.
Saio pela porta dos fundos e fico parada ao sol, perto das moitas de framboesa. Nossos filhos, mortos e envoltos em delicadas folhas de papel japonês, dentro de caixõezinhos de madeira, agora estão à sombra no fim da tarde, ao pé das rosas. Sinto na pele o calor do sol e sinto um arrepio por eles, enterrados no jardim neste dia ameno de junho. Socorro, digo, em pensamento, para nosso futuro filho. Ele não sabe, então não posso contar. Venha logo.
Sexta-feira, 9 de junho de 2000/19 de novembro de 1986
(Henry tem 36 anos, Clare, 15)
HENRY: São 8h45 da manhã de uma sexta-feira, e estou sentado na sala de espera de um tal dr. Robert Gonsalez. Clare não sabe que estou aqui. Resolvi fazer uma vasectomia.
O consultório do dr. Gonsalez é na Sheridan Road, perto da Diversey, num centro médico elegante ao lado do jardim botânico do Lincoln Park. Esta sala de espera é decorada em tons de marrom e verde musgo, muito revestimento de madeira e gravuras de vencedores de corridas de cavalos dos anos 1880. Muito masculino. Tenho a sensação de que devia estar vestido com um robe e um baita charuto nos dentes. Preciso beber alguma coisa.
A simpática mulher do planejamento familiar me assegura com sua voz tranquilizadora e treinada que não vai doer nada. Há cinco outros caras esperando aqui comigo. Me pergunto se pegaram gonorreia ou se têm problema de próstata. Talvez alguns deles estejam aqui como eu, esperando para encerrar suas carreiras de pais em potencial. Sinto uma certa solidariedade para com esses desconhecidos, nós todos juntos aqui nesta sala marrom de madeira e couro nesta manhã cinzenta esperando para entrar na sala de exame e tirar as calças. Há um homem muito velho que se senta inclinado à frente com as mãos apertadas em volta da bengala, olhos fechados atrás de lentes grossas que deixam suas pálpebras ainda maiores. Ele não deve estar aqui para ser vasectomizado. O adolescente que folheia um número antigo da Esquire finge estar indiferente. Fecho os olhos e imagino que estou num bar onde a barwoman está de costas para mim preparando um bom uísque escocês de puro malte só com um pouquinho de água morna. Talvez seja um pub inglês. Sim, isso explicaria a decoração. O homem à minha esquerda tosse, uma tosse forte capaz de sacudir os pulmões, e, quando abro os olhos, continuo numa sala de espera de médico. Dou uma olhada furtiva para o relógio do cara à minha direita. Ele tem um daqueles relógios esportivos imensos que podem ser usados para cronometrar corridas ou chamar a nave mãe. São 9h58. Minha hora é daqui a dois minutos. Mas parece que o médico está atrasado. A recepcionista chama “sr. Liston”, e o adolescente se levanta bruscamente e entra na sala pela pesada porta almofadada. Nós que sobramos nos entreolhamos, furtivamente, como se estivéssemos no metrô e alguém tentasse nos vender
a 15 Streetwise.
Estou todo tenso e me lembro de que o que estou prestes a fazer é uma coisa necessária e boa. Não sou um traidor. Não sou um traidor. Estou salvando Clare do horror e da dor. Ela nunca saberá. Não vai doer. Talvez doa um pouquinho. Um dia eu conto a ela e ela vai ver que eu tinha de fazer isso. A gente tentou. Eu não tenho escolha. Não sou um traidor. Mesmo se doer, terá valido a pena. Estou fazendo isso porque amo Clare. Penso nela sentada em nossa cama, coberta de sangue, chorando, e fico enjoado.
— Sr. DeTamble.
Fico de pé e agora me sinto enjoado mesmo. Minhas pernas ficam bambas. Minha cabeça roda, estou recurvado e vomitando. Estou de quatro no chão frio, coberto com raízes de grama morta. Estou vomitando bílis porque não tenho nada no estômago. Está frio. Levanto os olhos. Estou na clareira, no Campo. As árvores estão sem folhas, o céu está nublado com a chegada da noite. Estou só.
Fico de pé e encontro a caixa de roupa. Logo estou vestido com uma camiseta da Gang of Four, um suéter, um jeans, meias grossas e botas pretas do exército, um sobretudo de lã preta e luvas de inverno azul-bebê. Algo roeu a caixa e fez um ninho lá dentro. As roupas indicam meados dos anos 80. Clare tem uns 15 ou 16 anos. Não sei se fico por aqui esperando por ela ou vou embora. Não sei se consigo encarar o espírito jovem de Clare nesse momento. Caminho em direção ao pomar.
Parece fim de novembro. O vento agita o Campo seco. Há corvos disputando maçãs que o vento derrubou no limite do pomar. Justo quando chego perto deles, ouço alguém arfando, correndo atrás de mim. Me viro e vejo que é Clare.
— Henry... — ela está esbaforida, parece resfriada. Deixo que ela fique ali tentanto falar com a voz rouca por um minuto. Não consigo falar com ela. Ela espera, com a respiração se condensando à sua frente em nuvens brancas, o cabelo vermelho-vivo contrastando com o marrom e o cinza, sua pele rosada e clara.
Viro e entro no pomar.
— Henry... — Clare me segue e pega meu braço. — O quê? O que foi que eu fiz? Por que não quer falar comigo?
Ai meu Deus.
— Tentei fazer uma coisa para você, uma coisa importante, e não deu certo. Fiquei nervoso e vim parar aqui.
— O que foi?
— Não posso contar. Eu nem ia te contar no presente. Você não ia gostar.
— Então por que quis fazer?
Clare treme de frio com o vento.
— Era o único jeito. Você não me dava ouvidos. Pensei que a gente pudesse parar de brigar se eu fizesse isso.
Suspiro. Vou tentar de novo e, se for preciso, de novo.
— Por que estamos brigando?
Clare me olha, tensa e aflita. Seu nariz está escorrendo.
— Está resfriada?
— Estou. Por que estamos brigando?
— Tudo começou quando a mulher do seu embaixador esbofeteou a amante do meu primeiro-ministro numa soirée realizada na embaixada. Isso afetou o preço da aveia, o que fez aumentar o desemprego e gerou tumultos...
— Henry.
— Sim?
— Por uma vez, só uma, quer parar de me gozar e responder ao que estou perguntando?
— Não posso.
Sem parar para pensar, Clare me dá uma forte bofetada. Recuo, surpreso, feliz.
— Bate de novo.
Ela está confusa, faz que não com a cabeça.
— Por favor, Clare.
— Não. Por que quer que eu bata? Eu queria machucar você.
— Quero que me machuque. Por favor. — Abaixo a cabeça.
— O que há com você?
— Está tudo péssimo e eu não consigo sentir nada.
— O que está péssimo? O que está havendo?
— Não me pergunte.
Clare chega bem perto de mim e pega a minha mão. Puxa a ridícula luva azul. Põe a minha mão na boca e morde. A dor é terrível. Ela para, e eu olho a minha mão. O sangue aflora devagar em pequenas gotas ao redor da dentada. Provavelmente vai infeccionar, mas agora nem estou ligando.
— Me conte.
O rosto dela está bem junto do meu. Dou um beijo de maneira bruta. Ela resiste. Solto Clare, que vira as costas para mim.
— Isso não foi muito delicado — diz baixinho.
O que há de errado comigo? Clare, aos 15 anos, não é a mesma pessoa que anda me torturando há meses, que se recusa a desistir de ter um filho, que se arrisca a morrer, que transforma o ato de fazer amor num campo de batalha coberto de cadáveres de crianças. Ponho as mãos nos ombros dela.
— Sinto muito. Sinto muito, Clare, não é você. Por favor.
Ela se vira. Está chorando, e num estado deplorável. Por milagre, há um Kleenex no bolso do meu casaco. Passo no rosto dela, ela pega o lenço de papel da minha mão e assoa o nariz.
— Você nunca me beijou antes.
Ah, não. Devo estar com uma cara engraçada, porque Clare ri. Não consigo acreditar. Que idiota eu sou!
— Ah, Clare. Esqueça isso, sim? Apague. Isso nunca aconteceu. Venha cá. Pegue dois, sim? Clare?
Ela se aproxima timidamente de mim. Dou um abraço e olho para ela. Clare está com os olhos vermelhos, o nariz inchado e definitivamente está muito resfriada. Seguro sua cabeça na altura das orelhas e inclino para trás. Beijo Clare e tento pôr meu coração no dela para preservá-lo, caso eu torne a perdê-lo.
Sexta-feira, 9 de junho de 2000 (Clare tem 29 anos, Henry, 36)
CLARE: Henry andou a noite toda muito calado, distraído e pensativo. Passou o jantar inteiro como se estivesse catando num depósito imaginário um livro que leu em 1942. Além do mais, tinha a mão toda enfaixada. Depois do jantar, foi para o quarto e ficou deitado de bruços com a cabeça pendurada no pé da cama e os pés no meu travesseiro. Fui para o ateliê, escovei moldes e molduras de ferro, e tomei o meu café, mas não estava curtindo porque não conseguia entender qual era o problema de Henry. Finalmente, voltei para dentro de casa. Ele continuava deitado na mesma posição. No escuro.
Deito no chão. Minhas costas estalam quando me alongo.
— Clare?
— Humm?
— Lembra a primeira vez que te beijei?
— Claramente.
— Sinto muito. — Henry se vira na cama.
Estou ardendo de curiosidade.
— O que perturbava tanto você? Estava tentando fazer uma coisa que não deu certo e você disse que eu não ia gostar. O que era?
— Como consegue lembrar tudo isso?
— Tenho memória de elefante. Vai me contar agora?
— Não.
— Se eu adivinhar, você me diz se acertei?
— Provavelmente não.
— Por quê?
— Porque estou exausto e não quero brigar hoje à noite.
Nem eu. Gosto de ficar deitada aqui no chão. É meio frio, mas muito firme.
— Você foi fazer uma vasectomia.
Henry está calado. Fica tanto tempo calado que me dá vontade de pôr um espelho na frente da sua boca para ver se ele respira. Afinal:
— Como soube?
— Eu não soube exatamente. Achava que pudesse ser isso. E vi o papel com a anotação que você fez para a consulta com o médico hoje de manhã.
— Eu queimei esse papel.
— Vi a impressão na folha embaixo daquela onde você escreveu.
Henry geme.
— Tudo bem, Sherlock. Você me pegou.
Continuamos deitados em paz no escuro.
— Vá em frente.
— O quê?
— Faça a vasectomia, se é o que quer fazer.
Henry torna a se virar na cama e olha para mim. Só vejo o vulto da cabeça dele contra o teto escuro.
— Você não está gritando comigo.
— Não. Não, eu também não consigo mais fazer isso. Desisto. Você venceu, vamos parar de tentar ter filho.
— Eu não chamaria isso exatamente de vitória. Apenas parece... necessário.
— Como quiser.
Henry desce da cama e senta no chão comigo.
— Obrigado.
— De nada.
Ele me beija. Imagino o dia triste de novembro de 1986 de onde Henry acaba de vir, o vento, o calor do corpo dele no pomar frio. Logo, pela primeira vez em muitos meses, estamos fazendo amor sem nos preocupar com as consequências. Henry pegou o meu resfriado de quando eu tinha 16 anos. Quatro semanas depois, Henry já tinha feito a vasectomia e eu descubro que estou grávida pela sexta vez.
15 Revista que almeja promover a autossuficiência dos sem-teto e capacitá-los para o mercado de trabalho. (N. da T.)
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