A mulher do viajante no tempo
Faça-Me Chegar à Igreja a Tempo
Sábado, 23 de outubro de 1993 (Henry tem 30 anos, Clare, 22)
(6h)
HENRY: Acordo às 6h e chove. Estou num agradável quartinho verde embaixo da calha de uma aconchegante pousada chamada Blake’s, que fica bem na praia sul de South Haven. Os pais de Clare escolheram este lugar; meu pai dorme num quarto cor-de-rosa igualmente confortável no andar de baixo, ao lado da sra. Kim, num lindo quarto amarelo; vovô e vovó estão no superaconchegante quarto principal azul. Estou deitado na cama extramacia debaixo de lençóis Laura Ashley e ouço o vento bater na casa. Chove a cântaros. Imagino se posso correr neste aguaceiro. Ouço a chuva escorrer pela calha e bater no telhado, que está a uns três palmos acima de meu rosto. Este quarto parece um sótão. Tem uma pequena escrivaninha, caso eu precise escrever um bilhete elegante no dia do meu casamento. Há um conjunto de jarro e bacia de porcelana na cômoda; se quisesse de fato usá-los, provavelmente teria que quebrar o gelo da água primeiro, porque está bem frio aqui. Me sinto como uma lagarta cor-de-rosa no meio deste quarto verde, como se tivesse entrado comendo tudo pelo caminho e fosse me transformar em borboleta, ou algo parecido. Não estou realmente desperto, aqui, neste momento. Ouço alguém tossindo. Ouço o bater do meu coração e o ruído agudo do meu sistema nervoso em ação. Ai, Deus, permita que hoje seja um dia normal. Que eu esteja normalmente tonto, normalmente nervoso; que eu chegue à igreja a tempo e no tempo. Que eu não assuste ninguém, sobretudo a mim mesmo. Que eu passe o dia do nosso casamento da melhor maneira possível, sem efeitos especiais. Livre Clare de cenas desagradáveis. Amém.
(7h)
CLARE: Acordo em minha cama, minha cama de menina. Enquanto flutuo entre o dormir e o despertar, fico desorientada no tempo; é Natal, Dia de Ação de Graças? É a terceira série de novo? Estou doente? Por que chove? Do lado de fora das cortinas amarelas, o céu está morto e o vento desfolha o grande olmo. Sonhei a noite inteira. Os sonhos se fundem agora. Numa parte deste sonho, eu nadava no oceano, era uma sereia. Eu era uma sereia meio principiante e uma das outras sereias tentava me ensinar; ela me dava aulas de sereia. Eu tinha medo de respirar embaixo d’água. A água entrava nos meus pulmões e eu não entendia como aquilo funcionava, a sensação era horrível e toda hora eu tinha de subir à tona e respirar enquanto a outra sereia ficava dizendo Não, Clare, assim..., até que acabei percebendo que eu tinha guelras no pescoço assim como ela, e aí ficou melhor. Nadar era igual a voar, todos os peixes eram pássaros... Havia um barco no oceano, e nadamos todas para ver o barco. Era só um veleiro pequeno, e minha mãe estava a bordo, sozinha. Nadei até ela, que ficou surpresa de me ver ali, e disse Ora, Clare, achei que você fosse se casar hoje. Aí percebi, como a gente faz nos sonhos, que eu não podia me casar com Henry porque eu era sereia, e comecei a chorar. Acordei no meio da noite. Fiquei ali deitada algum tempo no escuro e inventei que virava uma mulher normal, feito a Pequena Sereia, só que sem aquelas bobagens de sentir uma dor horrível nos pés ou ter a língua cortada. Hans Christian Andersen deve ter sido uma pessoa muito estranha e triste. Então, tornei a adormecer. Agora estou na cama, e Henry e eu vamos nos casar hoje.
(7h16)
HENRY: A cerimônia é às 14h, e vou levar uma meia hora para me vestir e uns vinte minutos para ir de carro até a St. Basil. Agora são 7h16, portanto tenho cinco horas e 44 minutos para matar. Visto uma calça jeans, uma camisa velha e nojenta de flanela e um tênis de cano longo e desço o mais de mansinho possível à procura de café. Papai conseguiu chegar antes de mim; está sentado no salão de café com as mãos em volta de uma delicada xícara de café preto. Sirvo uma para mim e me sento em frente a ele. A luz fraca que passa pelas cortinas de renda das janelas deixa papai com cara de fantasma; ele é uma versão colorizada de um filme preto e branco dele mesmo. Tem o cabelo todo desgrenhado, e, sem perceber, ajeito o meu, como se ele fosse um espelho. Ele faz o mesmo, e sorrimos.
(8h17)
CLARE: Alicia está sentada em minha cama, me cutucando.
— Vamos, Clare — cutuca ela. — Bom dia, flor do dia! — Alicia me faz cócegas. Ela joga no chão as cobertas e nos engalfinhamos. Quando a imobilizo, Etta mete a cabeça pela porta e sussurra:
— Meninas! Que barulheira é essa? Seu pai está achando que caiu uma árvore na casa, mas não, são as duas bobocas tentando se matar. O café está quase pronto. — Com isso, Etta retira bruscamente a cabeça e ouvimos seus passos pesados descendo a escada enquanto morremos de rir.
(8h32)
HENRY: Continua a maior tempestade lá fora, mas vou correr assim mesmo. Estudo o mapa de South Haven (“Uma joia cintilante na Costa Oeste do lago Michigan!”) que Clare me forneceu. Ontem corri na praia, o que foi agradável, mas não dá para se fazer hoje de manhã. Vejo ondas de um metro e oitenta batendo na areia. Calculo um quilômetro e meio de ruas para correr dando voltas; se estiver muito ruim, eu paro. Faço alongamento. Todas as juntas estalam. Quase dá para sentir a tensão estalando em meus nervos feito estática numa linha telefônica. Coloco a roupa e lá vou eu para o mundo.
A chuva é um tapa na cara. Fico logo ensopado. Persisto lentamente pela Maple Street. Vai ser uma barra; luto contra o vento e não há jeito de ganhar velocidade alguma. Passo por uma mulher parada no meio-fio com seu buldogue e ela me olha espantada. Isso não é um mero exercício, digo a ela em silêncio. É desespero.
(8h54)
CLARE: A família está reunida em volta da mesa de café. O frio se infiltra por todas as janelas, e mal vejo lá fora porque chove torrencialmente. Como Henry vai correr com esse tempo?
— Tempo ideal para um casamento — brinca Mark.
Dou de ombros:
— Não fui eu que escolhi.
— Não foi você?
— Foi papai.
— Bom, eu estou pagando — diz papai com petulância.
— É verdade. — Mastigo minha torrada.
Minha mãe olha meu prato criticamente.
— Querida, por que não come um pouquinho de bacon? E uns desses ovos?
Fico com o estômago embrulhado só de pensar.
— Não consigo. Mesmo. Por favor.
— Então pelo menos passa um pouco de manteiga de amendoim nessa torrada. Você precisa de proteína.
Olho para Etta, que entra na cozinha e volta um minuto depois com um pratinho de cristal cheio de manteiga de amendoim. Agradeço e passo um pouco na torrada.
Pergunto a minha mãe:
— Eu tenho algum tempo antes de Janice chegar?
Janice vai fazer alguma coisa medonha com minha cara e meu cabelo.
— Ela vem às 11. Por quê?
— Preciso dar um pulo na cidade, para pegar uma coisa.
— Posso pegar para você, minha linda.
Ela parece aliviada com a ideia de sair de casa.
— Eu gostaria de ir eu mesma.
— Podemos ir as duas.
— Sozinha.
Faço uma súplica silenciosa para mamãe. Ela fica intrigada, mas cede.
— Bom, tudo bem. Puxa.
— Ótimo. Volto já. — Papai pigarreia quando me levanto para sair.
— Vocês me dão licença?
— Claro.
— Obrigada. — Fujo.
(9h35)
HENRY: Estou na imensa banheira vazia lutando para tirar minhas roupas frias e encharcadas. Meus tênis novinhos em folha adquiriram uma forma totalmente nova, que lembra a de um peixe. Espero que a sra. Blake não se importe muito com o rastro de água que deixei da porta da frente até a banheira.
— Um minutinho — grito.
Vou pingando até a porta e abro uma fresta. Para minha completa surpresa, é Clare.
— Qual é a senha? — digo baixinho.
— Me coma — responde Clare. Escancaro a porta.
Clare entra, senta na cama e começa a tirar os sapatos.
— Você não está brincando?
— Vamos, ó meu quase marido. Preciso estar de volta às 11. — Ela me olha de alto a baixo. — Você foi correr! Não achei que fosse correr com essa chuva.
— Na hora do desespero vale tudo. — Tiro a camiseta e jogo na banheira. Ela esparrama água ao cair. — Não dizem que dá azar o noivo ver a noiva antes do casamento?
— Então feche os olhos.
Clare corre no banheiro e pega uma toalha. Inclino a cabeça para ela secar meu cabelo. É uma sensação maravilhosa. Cairia bem uma vida inteira com essa mordomia. Cairia mesmo.
— Está um frio horrível aqui — diz Clare.
— Venha ser levada para a cama, quase mulher. É o único lugar quente da casa.
Entramos na cama.
— A gente faz tudo na ordem errada, não?
— Você tem algum problema com isso?
— Não, eu gosto.
— Ótimo. Você veio ao homem certo para todas as suas necessidades extracronológicas.
(11h15)
CLARE: Entro pelos fundos e deixo o guarda-chuva na área de serviço.
Quase esbarro em Alicia no corredor.
— Por onde andou? A Janice está aqui.
— Que horas são?
— Onze e 15. Ei, você está com a blusa de trás para a frente e pelo avesso.
— Acho que dá sorte, não dá?
— Talvez, mas é melhor se ajeitar antes de subir.
Volto depressa à área de serviço e desviro a blusa. Aí subo correndo. Mamãe e Janice estão no corredor em frente ao meu quarto. Janice carrega uma imensa sacola de cosméticos e outros instrumentos de tortura.
— Você chegou. Eu estava ficando preocupada. — Mamãe me guia para o meu quarto e Janice fecha a retaguarda. — Tenho que falar com o pessoal do bufê.
Ela está quase esfregando as mãos quando sai.
Viro para Janice, que me examina criticamente.
— Você está com o cabelo todo molhado e embaraçado. Por que não o penteia enquanto eu preparo tudo? — Ela começa a tirar um milhão de tubos e frascos da sacola e colocar todos na minha cômoda.
— Janice — mostro um postal da Uffizi. — Dá para você fazer isso? — Sempre adorei a princesinha Médici cujo cabelo não é diferente do meu, o dela tem muitas trancinhas enfeitadas com pérolas numa bela cascata de cabelo cor de âmbar. O artista anônimo devia amá-la, também. Como poderia não amá-la?
Janice reflete.
— Não é isso que sua mãe acha que vamos fazer.
— A-hã. Mas o casamento é meu. E o cabelo é meu. E te dou uma gorjeta bem grande se fizer do meu jeito.
— Não vou ter tempo de maquiar você se fizermos isso; vai demorar muito para fazer todas essas tranças.
Aleluia.
— Tudo bem. Eu me maquio com o que tenho.
— Bom, está certo. Então desembarace o cabelo para mim e a gente começa.
Começo a fazer isso. Já estou gostando. Enquanto me rendo às mãos escuras e finas de Janice, me pergunto o que Henry está tramando.
(11h36)
HENRY: O smoking e todos os suplícios que o acompanham estão em cima da cama. Minha bunda magra está congelando nesse quarto frio. Jogo todas as minhas roupas molhadas da banheira para a pia. Por incrível que pareça, o banheiro é do tamanho do quarto. É atapetado e pseudovitoriano até demais. A banheira é uma coisa imensa de pés de garra em meio a várias samambaias, pilhas de toalha, uma cômoda e uma grande reprodução emoldurada da Consciência Desperta de Hunt. O peitoril da janela fica a 15 centímetros do chão e as cortinas são de voile branco, de modo que vejo o desfile de folhas mortas pela Maple Street. Um Lincoln Continental bege vem subindo preguiçosamente a rua. Ponho a água quente para correr na banheira, que é tão grande que entro logo, cansado de esperar que encha. Fico brincando com o chuveiro móvel estilo europeu e destampando os mais ou menos dez xampus, frascos de gel de banho e condicionadores. Depois de cheirar uns cinco, fico com dor de cabeça. Canto Yellow Submarine. Tudo num raio de um metro e meio fica molhado.
(12h35)
CLARE: Janice me libera, e mamãe e Etta chegam juntas. Etta diz:
— Ah, Clare, você está linda!
Mamãe diz:
— Este não é o penteado que combinamos, Clare.
Mamãe dá uma bronca em Janice e depois lhe paga. Eu dou a gorjeta a Janice quando mamãe não está olhando. Devo me vestir na igreja, então elas me metem no carro e vamos para a St. Basil.
(12h55) (Henry tem 38 anos)
HENRY: Estou caminhando pela autoestrada 12, uns três quilômetros a sul de South Haven. Está um dia incrivelmente horroroso em matéria de tempo. É outono, cai uma chuva torrencial em rajadas, e está frio e ventoso. Estou só de calça jeans, descalço e todo molhado. Não tenho ideia de onde estou no tempo. Estou indo para a Meadowlark House, esperando secar na Sala de Leitura e quem sabe comer alguma coisa. Não tenho dinheiro, mas quando vejo o brilho rosa do anúncio luminoso Gasolina com Desconto, viro para lá. Entro no posto de gasolina e fico parado um instante, pingando no linóleo e recobrando o fôlego.
— Que dia para se estar fora de casa! — diz o velhinho magro atrás do balcão.
— É — respondo.
— O carro quebrou?
— Hein? Ah, não.
Ele está me olhando bem, reparando nos pés descalços, na roupa em desacordo com a estação. Faço uma pausa, fingindo embaraço.
— A namorada me botou para fora de casa.
Ele diz algo mas não escuto porque estou olhando para o South Haven Daily. Hoje é sábado, 23 de outubro de 1993. Dia do nosso casamento. O relógio em cima do mostruário de cigarros diz: 13h10.
— Tenho que correr — digo ao velho e corro.
(13h42)
CLARE: Estou na minha sala de aula da quarta série usando meu vestido de casamento. É de um moiré de seda marfim com montes de renda e contas de pérola. O vestido é justo no corpo e nas mangas, mas a saia é ampla, até o chão, com uma cauda de 18 metros de pano. Eu poderia esconder dez anões embaixo dela. Me sinto como um carro alegórico, mas mamãe está me dando muita importância; está me enchendo de atenções, tirando fotos e tentando me fazer botar mais maquiagem. Alicia, Charisse, Helen e Ruth rondam alvoroçadas em seus vestidos de dama de honra de veludo verde-sálvia todos iguais. Como Charisse e Ruth são baixas e Alicia e Helen são altas, elas parecem um grupo bizarro de bandeirantes, mas todas concordamos em não comentar a respeito quando mamãe estiver por perto. Elas estão comparando o tingimento dos sapatos e discutindo sobre quem deve pegar o buquê. Helen diz:
— Charisse, você já está noiva, nem devia tentar pegar — e Charisse dá de ombros e diz:
— Seguro morreu de velho. Com Gomez, nunca se sabe.
(13h48)
HENRY: Estou sentado em cima de um radiador num quarto cheirando a mofo e cheio de caixas de livros de oração. Gomez anda para cá e para lá, fumando. Está espetacular de smoking. Eu me sinto fantasiado de apresentador de programa de auditório. Gomez continua andando e bate a cinza dentro de uma xícara. Ele me deixa mais nervoso ainda do que já estou.
— Está com a aliança? — pergunto pela zilhonésima vez.
— Sim. Estou com a aliança.
Ele para de andar um instante e olha para mim.
— Quer um trago?
— Quero.
Gomez saca um frasco e me entrega. Abro a tampa e dou um gole. É um uísque escocês muito suave. Dou outro trago e devolvo o frasco. Ouço risos e vozes no vestíbulo. Estou suando e com dor de cabeça. Faz muito calor na sala. Fico em pé e abro a janela, ponho a cabeça para fora, respiro. Ainda chove.
Há um barulho na moita. Abro mais a janela e olho para baixo. Lá estou eu sentado na terra, embaixo da janela, ensopado, arfando. Ele ri para mim e me faz o sinal de positivo.
(13h55)
CLARE: Estamos todos parados no vestíbulo da igreja. Papai diz:
— Vamos começar esse espetáculo — e bate na porta da sala onde Henry está se vestindo. Gomez mete a cabeça para fora e diz:
— Um minutinho. — Ele me lança um olhar que faz meu estômago se contrair, puxa a cabeça para dentro e fecha a porta. Estou indo para a porta quando ela é aberta de novo por Gomez, e Henry aparece, abotoando os punhos. Está molhado, sujo e com a barba por fazer. Aparenta uns quarenta anos. Mas está aqui e me dá um sorriso triunfante ao passar pelas portas da igreja e descer a nave.
Domingo, 13 de junho de 1976 (Henry tem 30 anos)
HENRY: Estou deitado no chão do meu antigo quarto. Estou sozinho e é uma noite de verão perfeita num ano desconhecido. Fico ali xingando e me sentindo um idiota. Aí me levanto, vou à cozinha e me sirvo de várias cervejas do papai.
Sábado, 23 de outubro de 1993 (Henry tem 38 e 30 anos, Clare, 22)
(14h37)
CLARE: Estamos em pé no altar. Henry vira para mim e diz:
— Eu, Henry, recebo você, Clare, como minha esposa. Prometo lhe ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-a e respeitando-a todos os dias da minha vida. — Penso: lembre-se disso. Repito a promessa para ele. O padre Compton sorri para nós e diz:
— O que Deus uniu o homem não pode separar. — Penso: O problema não é bem esse. Henry coloca a fina aliança de prata no meu dedo até o lugar dela acima do anel de noivado. Ponho a aliança lisa de ouro no dedo dele, a única vez que ele irá usá-la. A missa continua, e penso isso é tudo o que importa: ele está aqui, eu estou aqui, não importa como, desde que ele esteja comigo. O padre Compton nos abençoa e diz: — Vão em paz, a missa terminou.
Descemos a nave de braços dados, juntos.
(18h26)
HENRY: A recepção acaba de começar. O pessoal do bufê corre de um lado para o outro com carrinhos de aço e bandejas cobertas. As pessoas chegam e entregam os casacos. A chuva finalmente parou. O South Haven Yacht Club é em North Beach, um prédio de 1920 revestido de madeira e couro, carpete vermelho e quadros de navios. Está escuro lá fora agora, mas o farol pisca no píer. Estou parado numa janela, bebendo Glenlivet e esperando Clare, que foi abduzida pela mãe por alguma razão que desconheço. Vejo os reflexos de Gomez e Ben, vindo em minha direção, e me viro.
Ben parece preocupado.
— Como vai?
— Estou bem. Vocês podem me fazer um favor? — Eles fazem que sim com a cabeça. — Gomez, volte lá na igreja. Estou lá, esperando no vestíbulo. Me pegue e me traga aqui. Me leve escondido para o banheiro masculino do primeiro andar e me deixe ali. Ben, fique de olho em mim — (aponto para o meu peito) — e, quando eu te disser, pegue meu smoking e leve para mim no banheiro. Certo?
Gomez pergunta:
— Quanto tempo a gente tem?
— Não muito.
Ele concorda com a cabeça e se afasta. Charisse se aproxima, e Gomez dá um beijo na testa dela e vai em frente. Viro para Ben, que parece cansado.
— Como vai você? — pergunto para ele.
Ben suspira.
— Meio cansado. Hmm, Henry?
— Oi.
— De quando você está vindo?
— 2002.
— Você pode... Olhe, eu sei que não gosta disso, mas...
— O quê? Tudo bem, Ben. O que você quiser. É uma ocasião especial.
— Me diga: eu ainda estou vivo?
Ben não olha para mim. Contempla a banda, que está afinando os instrumentos no salão de baile.
— Está. Você está bem, ainda te vi uns dias atrás; jogamos bilhar.
Ben solta todo o ar de uma vez.
— Obrigado.
— De nada.
Os olhos de Ben ficam cheios d’água. Ofereço meu lenço, que ele aceita, mas depois devolve sem usar e sai à procura do banheiro masculino.
(19h04)
CLARE: Todo mundo está se sentando para jantar e ninguém consegue achar Henry. Pergunto a Gomez se o viu, e Gomez apenas me lança um de seus olhares e diz que tem certeza de que Henry vai chegar a qualquer momento. Kimy vem a nós, com um ar muito frágil e preocupado naquele vestido de seda cor-de-rosa.
— Cadê o Henry? — ela me pergunta.
— Não sei, Kimy.
Ela me puxa para perto e sussurra no meu ouvido:
— Vi seu jovem amigo Ben saindo do salão levando um monte de roupas. — Ah, não. Se Henry tiver voltado de repente ao presente dele, será difícil explicar. Talvez eu possa dizer que houve uma emergência? Um tipo qualquer de emergência de biblioteca que exigiu a atenção imediata de Henry. Mas todos os seus colegas estão aqui. Talvez eu possa dizer que Henry teve amnésia e saiu andando por aí...
— Lá está ele — diz Kimy. Ela aperta minha mão. Henry está na porta examinando o povo e nos vê. Vem correndo até nós.
Dou um beijo nele.
— Como vai, estranho? — Ele voltou ao presente, meu jovem Henry, o que é daqui. Henry dá o braço a mim e a Kimy e nos conduz ao jantar. Kimy ri e diz algo a Henry que não capto. — O que ela disse? — pergunto quando nos sentamos.
— Ela perguntou se a gente estava planejando um ménage à trois para a noite de núpcias. — Fico vermelha feito um camarão. Kimy pisca para mim.
(19h16)
HENRY: Estou na biblioteca do clube, comendo canapés e lendo uma primeira edição suntuosamente encadernada e provavelmente nunca aberta de O Coração das Trevas. Com o canto do olho, vejo o gerente do clube vindo depressa em minha direção. Fecho o livro e reponho na prateleira.
— Sinto muito, senhor, vou ter que pedir que se retire.
Sem camisa, descalço, nada de serviço.
— Tudo bem.
Fico de pé e, quando o gerente vira as costas, o sangue me sobe à cabeça e eu desapareço. Volto a mim no chão de nossa cozinha no dia 2 de março de 2002, rindo. Sempre quis fazer isso.
(19h21)
CLARE: Gomez está fazendo um discurso.
— Caros Clare e Henry, familiares e amigos, membros do júri... esperem, risquem isso. Caríssimos. Estamos reunidos aqui esta noite na orla da Terra da Solteirice para acenar nossos lenços para Clare e Henry na hora em que eles embarcam em sua viagem no Navio do Matrimônio. E embora estejamos tristes de vê-los dar adeus às alegrias da vida de solteiro, confiamos em que o muito falado estado de Alegria Conjugal será um novo endereço mais que adequado. Pode ser até que alguns de nós nos unamos a eles em breve, se não pudermos pensar em alguma forma de evitar isso. Então, vamos fazer um brinde: a Clare Abshire DeTamble, uma linda artista que merece todas as felicidades que lhe possam chegar neste mundo. E a Henry DeTamble, um sujeito bacana demais e um filho da puta de sorte: que o Mar da Vida se estenda calmo diante de vocês e que tenham sempre o vento a favor. Ao feliz casal! — Gomez se inclina e me beija na boca. Capto seu olhar por um instante, e aí o momento passou.
(20h48)
HENRY: Cortamos e comemos o bolo de casamento. Clare jogou o buquê (Charisse o pegou) e joguei a liga de Clare (Ben, logo ele, foi quem pegou). A banda toca Take the A Train, e as pessoas dançam. Dancei com Clare, e Kimy, Alicia e Charisse; agora danço com Helen, que está muito gostosa, e Clare dança com Gomez. Enquanto giro descontraidamente Helen, vejo Celia Attley ir tirar Gomez, que, por sua vez, tira o meu par. Quando ele se afasta rodopiando com Helen, vou me juntar ao pessoal no bar e vejo Clare dançando com Celia. Ben se junta a mim. Ele bebe soda. Peço uma vodca com tônica. Ben usa a liga de Clare enrolada no braço como se estivesse de luto.
— Quem é essa? — ele me pergunta.
— Celia Attley. Aquela amiga da Ingrid.
— É estranho.
— É.
— Qual o lance desse tal de Gomez?
— Como assim?
Ben me encara, depois olha para o outro lado.
— Deixa pra lá.
(22h23)
CLARE: Acabou. Saímos do clube depois de beijar todo mundo que encontramos no caminho, partimos em nosso carro coberto de creme de barbear e latas. Paro em frente ao Dew Drop Inn, um motelzinho cafona em Silver Lake. Henry dorme. Salto, faço o check in, peço ao recepcionista para vir me ajudar a levar Henry para o nosso quarto e jogá-lo na cama. O cara traz as malas, arregala os olhos para o meu vestido de noiva e o estado inerte de Henry e me dá um sorriso zombeteiro. Dou a gorjeta e ele sai. Tiro os sapatos de Henry, afrouxo sua gravata. Tiro o vestido e estendo na poltrona.
Estou tremendo de frio no banheiro escovando os dentes de camisola. No espelho, vejo Henry deitado na cama. Ele ronca. Cuspo a pasta de dente e enxáguo a boca. De repente, ela me invade: a felicidade. E a descoberta: estamos casados. Bem, eu estou casada, pelo menos.
Quando apago a luz, dou um beijo de boa-noite em Henry. Ele cheira a álcool, suor e perfume de Helen. Durma bem. Cuidado com o bicho-papão. E adormeço, sem sonhos e feliz.
Segunda-feira, 25 de outubro de 1993 (Henry tem 30 anos, Clare, 22)
HENRY: Na segunda-feira depois do casamento, Clare e eu estamos na Prefeitura de Chicago, sendo casados por um juiz. Gomez e Charisse são as testemunhas. Depois, vamos todos jantar no Charlie Trotter’s, um restaurante tão caro que a decoração parece uma primeira classe de avião ou uma escultura minimalista. Felizmente, embora tenha cara de arte, a comida é uma delícia. Charisse fotografa os pratos todos, conforme vão surgindo na nossa frente.
— Qual é a sensação de estar casada? — pergunta Charisse.
— Eu me sinto muito casada — diz Clare.
— Vocês podiam continuar — diz Gomez. — Tentar todas as diferentes cerimônias, budista, nudista...
— Me pergunto se sou bígama.
Clare está comendo uma coisa cor de pistache que tem vários camarões grandes em cima como se fossem velhos míopes lendo um jornal.
— Acho que é permitido a gente se casar com a mesma pessoa quantas vezes quiser — diz Charisse.
— Você é a mesma pessoa? — me pergunta Gomez. A coisa que estou comendo é coberta de finas fatias de atum cru que derretem na minha língua. Demoro um instante para saborear antes de responder:
— Sou, só que mais ainda.
Gomez fica aborrecido e murmura algo sobre ditados budistas, mas Clare ri para mim e ergue o copo. Toco o dela com o meu: uma delicada nota de cristal ecoa e se dissolve no burburinho do restaurante.
E então estamos casados.
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