A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 9 de 31

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A Neta do Arcediago

Capítulo VI

ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.

 

A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras explicaram-na com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no auge do seu pasmo, não atinava com a causa de semelhante resolução, nem podia comprehender por onde ella fugira! Ingenua creatura!

A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou sem lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe escrevêra. O visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta, e passados os segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida imbecillidade.

Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo de José Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:

—Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és esperta! Os espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga, Rosa! Ora beija as mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do olho! Isto havia de acontecer tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.{56}

—Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas. Tem piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de gargalhadas, chorarias...

—Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente ao diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse pae—accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo—não descançava em quanto os não arrebentasse a ambos. Como não sou, não tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. Lá se avenha.

—Lá se avenha!—exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços supplicantes—Lá se avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha, é filha de tua mulher... sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa desgraçada!... Por compaixão, meu amigo, por compaixão não a abandonemos!

—Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?

—Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...

—Pois que queres?

—Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case immediatamente com ella.

—E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com o prior.

—Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José... Finges que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois sim.... eu te farei a vontade.

—Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?

—Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...

—Fallarei. Não queres mais nada?

—E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...

—Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...

—Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim; mas são ambos pobres, bem sabes que{57} João da Cunha deve tudo que poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.

—Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a minha fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu recebêl-a em casa...

—Deshonrada, infamada, perdida...

—Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica senhora que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal... Sei, ha muito, o que é ter nobreza d'alma. Assucena não é minha filha; mas que me appareça esse vil seductor, e verá quantos dentes lhe ficam na bôca.

O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe, e um immutavel proposito da parte do padrasto.

João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do visconde.

Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que lhe subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa, que lhe viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras inarticuladas. O visconde, impassivel, encarava João da Cunha com sobrecenho.

—Tem um excellente filho, senhor Cunha!—disse José Bento, balançando a cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.

—Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!—murmurou João da Cunha, cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na mão ardente como ella.

—Eis-ahi continuou o inexoravel credor—o que é um fraco pae, que deixou crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!

—Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!— murmurou o atormentado pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua vergonha.{58}

—E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé de si?

—Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos chorando....

—Agora!... Remedeiam alguma cousa?

—Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.

—De que maneira?—exclamou a viscondessa.

—Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia, que eu não posso.

—Nem eu!—disse bruscamente o visconde—que me importa a mim a carta de seu filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.

—Eu leio...—disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.

Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:

—É impossivel.

—Impossivel!

—Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!

—Perdida? não!—atalhou João da Cunha—Em minha casa ha umas sôpas; e, em quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não morrer de fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola para o futuro de Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua honra. É preciso que me entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos Cunhas e Faros. Não mercadeja com a deshonra das suas amantes; não calculava com as suas migalhas quando arrancou a filha d'esta senhora aos braços da virtude...

João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que se lhe injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de suor. Nem o visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com consciencia o curso arrebatado dos pensamentos, quando de improviso levou as mãos á cabeça, exclamando:

—Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!

O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo{59} veio rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco sensiveis as melhoras. João da Cunha estava febril, e fallava em delirio. Sacudindo os braços vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o espectro de Ricarda.

Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o delirio. As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu marido curava serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado de uma operação arithmetica, em seu prejuizo.

A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da Cunha não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez por nunca mais. Era o decimo ataque que soffria.

Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local do palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da carruagem, nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se, para ser reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os lacaios afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.

Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.

N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae. Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu as seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:

—Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa menina. Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha. Que aproveite os poucos annos da minha vida para se formar em mathematica, e assentar praça depois, que foi essa a mais esplendida carreira de seus avós, valentes generaes, quasi todos mortos no campo da honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em quanto elle vai estudar, sua mulher poderá mover á piedade o padrasto, e levantar do chão alguma esmola que elle lhe atire como um osso a um cão importuno. Se lh'a não dér, nem por isso será menos filha de João da Cunha; porque mais vale ser filha de João da Cunha, que enteada do filho d'um retrozeiro do Porto. Que venham ambos vêr-me.

—Eu estou aqui, meu pae.

—E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...— continuou{60} elle, surdo ás interrupções incessantes de Luiz—Foi lá que me atirei a este fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. Não se segue do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, não fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presença de Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse não...

Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta Assucena, que chorava e tremia.

—Porque choras?

—Estava sósinha, e muito triste, Luiz...

—A tua criada não te fez companhia?

—Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem tremo... Que resposta deu minha mãe?

—Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o visconde não lhe respondeu do modo que suppúnhamos.

—E então?

—E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.

—Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a minha...—disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.

—De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo. Rica ou pobre serás minha esposa.

O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha diz-nos que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se, manifestar um enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter experimentado, a subita mudança que transforma o homem, quando a posse absoluta da mulher, que se lhe dá, é logo misturada de desgostos imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote, é um pêso aborrecido quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços do raptor uma mulher{61} sem illusão, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor é debil, o coração extenuado não aceita os sacrificios grandes, que, raras vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.

Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?

Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem era um attributo bem facil n'uma mulher!

Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não podia esconder, traduziu-os ella como inquietação pela perigosa enfermidade de João da Cunha.

Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.

Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi ter ás mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:

«Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia que me não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os patifes. O que lhe vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha... De hoje em diante, os seus portadores a esta casa serão corridos a chicote.»

Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça era feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado no filho de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae. N'essa noite não veio á rua do Principe, e mandou um bilhete desculpando-se com a gravidade da doença de seu pae. Assucena viu a sua desgraça a um raio de razão n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua mãe uma longa carta, que rasgou.{62}

Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de Bacellar que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a praça commercial.

Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.

O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira eram os braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia sobre o vergão da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo, se não encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.

O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força. O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi ao Limoeiro, d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo isto foi ridiculo a não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que não passára d'uma roda muito restricta; e, portanto, era livre a invenção aos interpretes do pugilato.

Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que receios, que saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitára o alimento que a indifferente criada lhe offerecia. A sua dôr tinha frenesis, que a extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era baldado, quando a esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no primeiro ou no segundo andar.

Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.

Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em{63} rua o caminho do Campo Grande. Á porta de João da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que não estava lá, e que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.

—Prêso!—exclamou Assucena.

—Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas patacoadas. Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir brevemente.

—E porque o prenderam?—perguntou a criada.

—Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem não quer a cousa.

Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em calefrios á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe que não perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem um queixume, parando exhausta de forças a cada instante, a grande distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto, cahira de face sobre o leito, não para repousar, mas para reprimir os gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama, que lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras, porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de Bacellar tiritava de frio, de susto, e até de terror de si mesma. Sentava-se sobre a cama, lançando sobre os hombros o cobertor. Fitava o ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida até que a luz do dia lhe deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o quarto illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a fechar a janella, quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr immensa só tinha expansão nos gemidos. Lançou-se sobre o leito sem reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima,{64} pedindo compaixão a sua mãe, chamando Luiz com alarido de demente, e soluçando de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os braços que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de velas, e rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava ao pé do de seu irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto, cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou o ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos da mysteriosa menina que alli morava.

—Vamos nós lá, Bernabé?—disse ella quando seu irmão lhe pedia o capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a senhora D. Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo, foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz da Cunha. Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um pouco funebre de Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre a cabeça, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra, macillenta e cadaverica do velho, não era menos assustadora, vista ao clarão da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.

—Não se assuste, visinha—disse o conego, entrando—nós somos os moradores do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima, viemos em soccorro, se é que podemos servir de algum bem á pessoa que nos cortou o coração com os seus gemidos.

—Era talvez mêdo dos trovões...—accrescentou D. Perpetua, dando tambem um passo para dentro da porta.

—A menina estava ás escuras?—tornou o conego.

—Sim, senhor.{65}

—E não tem criada?—disse a irmã.

—A criada está a dormir.

—Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?— disse o conego.