A Neta do Arcediago
Capítulo XVI
TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS
SEM PÃO!
Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e fechava com apparente distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a fatigavam.
Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre o lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de lavores de madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que lê, e profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.
Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:
«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a sociedade. O bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E tanto mais angustiado se vê, mais dos outros se compadece. As compunções intimas, e a nutrição das dôres merecidas, são filhas dos nossos vicios e peccados; deslumbrado por elles, não temos vista para contemplar o ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa será a tua emenda. Se scismares nas penas do inferno e do purgatorio, e do coração as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e não tremerás de susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos lacrimosos, e murmurára:{157}
—E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa santa lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?
Parára uma carruagem.
—É minha mãe!—disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.
Rosa Guilhermina vinha triste.
—Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum desgosto com o padrasto?
—Não, filha... Como estás?
—Bem vê que estou boa.
—Com lagrimas nos olhos...
—Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.
—Que fizeste hontem, filha?
—O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a corôa de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha mãe, e o padre...
—Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções. Padre Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres comprehender o incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua saude.
—Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus Christo. Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio, nem o quero; rezo muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que Deus me faz, e peço á sua divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto não sou pesada a ninguem...
—Mas tudo que é de mais...
—Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.
—Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.
—Em mim?
—Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.
—E será isso fraqueza de razão?
—É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e dois annos.
—Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...{158}
—Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.
—Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.
—E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?
—Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.
—De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.
—Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a mãe de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me envergonhavam com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não importa nada o mundo?
—Nem queres que te fallem em cousas do mundo?
—Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste, e quer desabafar comigo... Diga o que tem...
—Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...
—Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu consolál-a...
—Se eu soubesse que te não affligias...
—Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.
—E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?
—Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver, paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde ser? Alguma calumnia?
—Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.
—A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me faz quando pronuncia essa palavra...
—Pois porque não hei de pronunciál-a?
—Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...
—Tens animo, filha?
—Jesus que me aterra!{159}
—Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?
—Se o sei?... quem m'o havia dizer!...
—Tu descóras, filha.
—Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...
—Muito infeliz... Vem pobre...
—Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?
—Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem. Casou muito rico...
—Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.
—Mas abandonou a mulher...
—Coitadinha!...
—E morreu atormentada.
—Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela alma, minha mãe.
Assucena ergueu as mãos, murmurando o padre-nosso. A viscondessa reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho intellectual.
Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas: abraçava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a com fanaticos receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.
Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.
Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:
—Já sei. Não fallemos em tal cousa.
—Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.
—Sei tudo. Vem desgraçado...
—E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.{160}
—A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...
—Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para experimentar uma nova estrada.
—Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdôo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos meus peccados.
—Luiz da Cunha—proseguiu o padre—depois de mil revezes, apparece em Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se v. exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vêl-a—exclama elle—quero pedir-lhe perdão!» É impossivel —disse-lhe eu.
—Sim, sim, é impossivel!...—atalhou Assucena sobresaltada.
—Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me uma esmola!»
—Oh meu Deus!—bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.
—Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!—continuou o padre.—Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi, deixando-o á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?—interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços—Minha filha...
Estava desmaiada.
Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar. Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito pouco.{161}
Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer em bem de Luiz da Cunha?
Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como beneficiado simples. Tambem não podia.
—Que faremos?—perguntou ella ao padre.
—Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.
—Qual? foi Deus que lh'o inspirou?
—Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o pagamento a prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro alcançarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.
—Sim, sim, longe de Lisboa.
—Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.
—Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...
—Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.
Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo ordinario do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.
João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos mil reis da neta do arcediago.
Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que era feito de Liberata.
Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de senhoras, e deduziu que Liberata já não morava alli.
Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por mera curiosidade perguntou quem morava defronte.
—É a familia d'um empregado.
—Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...
—Era boa rolha! chamava-se Liberata.
—Justamente... Que é feito d'essa mulher?
—Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha{162} porta deram umas facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe comia a ella a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher metteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas.
Chegou a ter duas seges a bebeda! [1] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que lh'os penhorei por cento e cincoenta mil reis que me devia do grão para os cavallos, azeite, arroz, &c. &c. &c.
[1] Respeitemos a fidelidade.
—E morreu?
—Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para o hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a viram no Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho de subir e descer as escadas. É no que veio parar a tal matrona das carruagens.
—Sabe em que sitio ella mora?
—Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a vira foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em sabêl-o, isso é facil,
—Faz-me muito favor.
O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.
Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas humanas.
Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de chale vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em grande laço para as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.
Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:
—Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!
Luiz da Cunha recuou.
—Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!— tornou o marujo, perfilando-se com o grupo.{163}
E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da Flôr.
Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.—Vieram depois outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando ás costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis pontapés.
O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da Rosa, até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se sósinha.
Luiz bateu á porta.
—Quem nos honra?—perguntou ella.
—Abre.
—Quem és?
—Abre sem receio.
—Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem, vai-te com o diabo.
—Abre, Liberata.
—Eu conheço esta voz...—murmurou ella.
Abrindo a porta, recuou, exclamando:
—És tu, Luiz?!
—Em que estado te encontro!
—Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me conhecestes, isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da mulher de ha tres annos?!
—Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara? parece que te queimaram com vitriolo?
—Estas nódoas vermelhas?
—Sim.
—Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão mêtto uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me vem fallar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem estás acabado! Disseram-me que estavas rico, é verdade?
—Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.
—Não te faças pobre que eu não te peço nada.
—Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim como a contrahi do muito que podias.{164} Depois d'amanhã vou empregado para a provincia, queres vir comigo?
—Pois tu querias-me lá assim?
—Quero... serei o teu enfermeiro.
—Olha lá o que dizes!
—Não me desdigo.
—Eu tenho este vestido que vês.
—Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.
—Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!
—Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é possivel para ambos nós.
—Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu. Eu não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava vêr-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha quatro horas que eu dizia:—«Que impressão faria eu n'este estado a Luiz da Cunha!» O que são as cousas d'esta vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não terá concerto?
—Veremos.
—Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...
—Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.
—Pois deixas-me?! Vou comtigo já.
—Não. Preciso illudir alguem.